[RESENHA] ‘Um lugar bem longe daqui’ é uma ode à solidão e à sobrevivência

Com mais de 15 milhões de cópias vendidas mundialmente, Um lugar bem longe daqui (2018) é o romance de estreia de Delia Owens. Recentemente adaptado para o cinema e protagonizado por Daisy Edgar-Jones, foi produzido por Reese Witherspoon — que o deu destaque em seu clube de leitura, Reese’s Book Club. Além disso, recebeu trilha sonora escrita e interpretada por ninguém menos que Taylor Swift, a canção original Carolina.

Capa brasileira [Imagem: Intrínseca]

Lançado originalmente em 2018, chegou ao Brasil pela editora Intrínseca logo em 2019. É uma coming-of-age — romance de formação que atravessa o processo de amadurecimento do personagem central da trama — que se mistura com um suspense. O real mistério se intensifica a partir de uma narração de capítulos intercalados entre passado e presente. No passado, acompanha a pequena Kya Clark que, com apenas seis anos, começa a ser abandonada aos poucos pela família. Inicialmente pela mãe, depois pelos dois irmãos e, por fim, pelo pai, que some quando a menina já tem sete anos. Alcoólatra e abusivo, ele foi o responsável pela fuga de todos, deixando Kya sozinha no mundo. É diante dessa solidão que precisa aprender a enfrentar a natureza e interagir com a sociedade enquanto sobrevive, a ficar pela própria sorte.

No presente, quando já na casa dos vinte anos, um crime acontece e desola a cidade: o corpo de Chase Andrews é encontrado sem vida nos arredores torre de incêndio, perto do pântano. Ele era aquele tipo de garoto que todos amavam; um astro popular e exaltado por onde passava desde criança. As investigações da polícia sempre levam até Kya, mas será que ela realmente matou Chase ou tudo o que aponta para ela foi formulado com base em preconceitos criados pelas pessoas da cidade conforme a garota crescia?

A alternância temporal é uma forma de se aprofundar nisso e criar expectativa pela incerteza quanto à verdade. Ao começar pela infância de Kya, por morar em um cabana no pântano, na parte mais remota e considerada inabitável da cidade, sofre um afastamento social intenso. O contexto é o início dos anos 1950, com um cenário limitado de pessoas com hábitos limitados. Por isso, chamavam Kya de “menina do brejo” e a renegavam. Ela foi apenas acolhida por Mabel e Pulinho, um casal que tinha uma loja no canal, e que comprava os peixes que a garotinha pescava para vender e conseguir dinheiro para alimentação e sobrevivência ao longo dos anos.

Em meio a isso, conhece Tate, antigo amigo de um de seus irmãos. Ambos experimentam o amor juntos, ainda enquanto Kya administra seu medo das pessoas pelos traumas passados. O que os une é a paixão que cultivaram pela natureza, que se amplia a um amor que têm um pelo outro. Em uma narrativa rica e detalhada, as descrições sobre o ambiente e os animais dão um toque único às paisagens, que se fixam na mente com clareza. Rios límpidos, céus coloridos, mares cristalinos, animais em sua mais pura diversidade e belas árvores locais… todas essas pequenas coisas se tornam a família da garota, acolhendo-a com o carinho que ela nunca havia recebido antes. De certa forma, Tate também se identifica com essa relação, o que fortalece a conexão entre eles.

Com o preconceito enraizado durante anos por grande parte dos moradores daquela pequena cidade localizada na Carolina do Norte, Kya ficou isolada em seu canto, escondida entre a coleção de penas e os desenhos deslumbrantes que faz da beleza ao redor. Anos mais tarde, já no fim dos anos 1960, ela ainda é algo espectral, como um fantasma que assombra as “pessoas boas” da cidade com a “selvageria” de quem não cresceu adequadamente em sociedade — apesar de ter tentado. Foi à escola algumas vezes, tentou fazer amigos, buscou um pouco de exílio do vazio que era viver escondida na natureza após ser abandonada pela família e rejeitada por todo o restante — com ilustre exceção de Mabel e Pulinho.

Conforme a investigação sobre a morte de Chase é intensificada no presente, o passado de Kya enquanto cresce é revelado gradativamente. O paralelo deixa a resolução do homicídio incerta e é aí que está a parte instigante da leitura: é curioso não ter certeza sobre nada e desfrutar do amadurecimento da garota Clark enquanto luta pela própria sobrevivência e contraria todas as fatalidades.

Com uma escrita minuciosa, paisagens vibrantes, uma construção narrativa de personagens muito bem criada e um suspense que se estende até os últimos segundos sem deixar de prender a atenção, Um lugar bem longe daqui é um abraço quente aos apartados. É um consolo àqueles que atravessaram a vida apesar dos pesares e um mergulho no transcorrer dos dias e no conhecimento das novas versões de Kya enquanto se desenvolve, amadurece, entende mais sobre si e sobre o mundo. Enfrenta tantas coisas e desafia tantas probabilidades que, ao mesmo tempo que é uma jornada triste e solitária, a possibilidade de um final agradável oferece uma gota de esperança indispensável depois de tantas batalhas.

Para aqueles que gostam de leituras melancólicas com um tom de mistério, mas sem um quê policial ou psicológico acentuado, e que também buscam por uma escrita detalhista e poética sem grandes enfeites, esse drama é uma boa escolha. Com uma protagonista solitária, Kya abraça o vazio ao qual se acostumou como sua principal forma de sobrevivência, ressaltando que, por grande parte da vida só tem a si, mesma e aos segredos perdidos na natureza da própria existência. A resolução do crime é apenas um gancho narrativo que impulsiona a curiosidade, mas é acompanhar como espectador a vida dessa jovem em sua jornada de formação que torna essa uma leitura tão singular.

Apesar de ser uma leitura impressionante que se mostrou capaz de atingir milhões de pessoas, é importante destacar que, com a popularização da obra através do filme, diversas denúncias foram direcionadas à autora, Delia Owens, que ressaltam seu envolvimento em uma acusação de homicídio durante a época na qual viveu na Zâmbia, em 1996. Veículos como o jornal The New York Times e The Atlantic, além da revista Time redigiram reportagens recentes sobre o assunto . Para a leitura em português, há um texto na íntegra anexado, pelo site Terra. O caso não foi muito noticiado pela mídia brasileira. Antes de ler o livro, é indispensável estar ciente das polêmicas nas quais a autora está envolvida para que, caso prossiga com a leitura, essa seja crítica e consciente.

Female rage: conheça a fúria feminina na literatura

Ao parar para pensar em todo o contexto de misoginia que atravessa a construção das sociedades desde muito tempo, não dá para negar: não estarmos tão longe assim desse passado desperta uma sensação de fúria bastante plausível. Mas esse ódio intrínseco foi renegado e banalizado sob adjetivos pejorativos. Histéricas, loucas, mentirosas, excessivas, desagradáveis, descontroladas. A lista não tem fim, afinal, todo o descontentamento que vai contrário à norma é desmotivado. Com mulheres, especialmente, ele é menosprezado.

O crescimento do consumo de arte que retrata a fúria feminina tomou enormes proporções. Hoje mais do que nunca. No cinema, recentes lançamentos são Bela Vingança (2020) e Garota Exemplar (2014). Ainda assim, Kill Bill (2003), Carrie (1973) e Garota Infernal (2009) nunca foram tão aclamados, tornando-se potências ainda mais intensas. Carrie e Garota Exemplar são adaptações da literatura que fizeram enorme sucesso e colaboraram para uma maior abertura da pauta. No teatro, há Eurípedes com Medéia — além de Chico Buarque e Paulo Pontes com Gota D’água, adaptando a tragédia grega a um formato abrasileirado. Ambas narram peças que jogam enormes holofotes sobre o ódio de mulheres trocadas e abandonadas, ambas por sua versão de Jasão. O roteiro brasileiro contou, a exemplo, com a incomparável interpretação de Bibi Ferreira, que traduziu toda a urgência do furor de Joana especialmente por meio do famoso monólogo.

Para as novas gerações de mulheres raivosas que acreditam na importância de falar sobre aquilo que incomoda e gera ódio, separamos quatro livros de autoras contemporâneas que não poderiam representar melhor a essência do que é female rage. Narrativas que reiteram que o desgosto, a irritação, a decepção, a vingança, a brutalidade e a fúria podem muito bem resumir a sensação de uma vida inteira de violências suportadas em silêncio.

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Animal, de Lisa Taddeo (2021)

Lisa Taddeo ficou conhecida pela obra Três Mulheres, que a tornou best-seller do New York Times. Em Animal, narra a trajetória de Joan, mulher que enfrentou diversos tipos de abusos de homens durante a vida. As coisas se reviram quando vê um deles cometer um crime brutal bem à sua frente. Em busca de abrigo, encontra Alice, pessoa que melhor poderia ajudá-la a processar a torrente de traumas.

Mordaz, violento e agridoce, Taddeo convida o leitor a mergulhar nos traumas de Joan majoritariamente causados e potencializados por homens hostis e degenerados. Deixando de ser a vítima, imobilizada e desamparada, essa é a história de como se torna a aniquiladora, a permitir que o ódio seja sentido e manifestado.

Meu nome era Eileen, de Ottessa Moshfegh

Você provavelmente conhece Ottessa Moshfegh através de Meu ano de descanso e relaxamento, seu best-seller mais amado, mas ela se supera com Meu nome era Eileen. Começa, aqui, a partir dos anos 1960, em uma cidadezinha da Nova Inglaterra onde a protagonista nasceu e cresceu. Essa é uma imersão no passado, na qual as memórias da Eileen de cinquenta anos atravessam a juventude e a vida adulta em meio a uma narrativa incômoda, sufocante, perturbadora e… extraordinária.

Publicada pela editora Todavia, Moshfegh é uma das mais amadas autoras contemporâneas, cujas personagens femininas são tão grandiosas e cruas, que causam um efeito inevitável de identificação.

Dias de abandono, de Elena Ferrante

Elena Ferrante é uma das autoras que melhor traduz o ódio intrínseco de uma mulher. Em Dias de abandono desenrolou uma narrativa intensa, absurda e genial. Originalmente publicada em 2002, a narrativa segue a infelicidade de Olga ao se deparar com a realidade de um casamento desintegrado. Sem aviso prévio, é deixada pelo marido a quem dedicou mais de uma década da própria vida a cuidar dele e dos filhos que tiveram, sendo substituída por uma mulher mais jovem e bastante familiar.

Os conflitos internos que encara quando perde o rumo são incoerentes como a confusão dos próprios sentimentos. Ferrante dá voz à dor, à aflição e ao caos enfrentado por Olga, completamente perdida, sem nem mesmo a capacidade de cuidar de si, dos filhos ou do cão da família.

Minha irmã, a serial killer, de Oyinkan Braithwaite

A estreia de Oyinkan Braithwaite na literatura traz uma mistura de terror e humor em medidas que equilibram uma leitura irrefreável. Korede e Ayoola são o exemplo perfeito de irmãs completamente opostas quanto à personalidade. Enquanto Korede é amarga e cética, Ayoola é vivaz e bela. Mas o encanto de Ayoola esconde muitos segredos sombrios. Estranhamente, seus três últimos namorados foram assassinados.

Em Minha irmã, a serial killer, o trama psicológico introduz uma crítica à sociedade nigeriana enquanto tece uma narrativa de de humor ácido e complexo, inserindo o leitor na mente de um verdadeiro sociopata.

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Agora que está com a lista de leitura atualizada, que tal experimentar o female rage em outros tipos de arte? Preparamos uma playlist para ouvir enquanto lê essas obras de arte – ou então para gritar em seu quarto e ter seu próprio momento de fúria.

O Homem, o Bruxo, o Defunto

Texto por Felipe P. Marcondes

Por que ler Machado de Assis?

Inquieto leitor, pediram-me que tratasse contigo do porquê deverias ler a obra de Joaquim Maria Machado de Assis. Ao final dessas mal traçadas linhas, verás (ao menos é este o meu intento) que a pergunta é bem outra: Como não ler Machado de Assis!? Este espaço, apesar de muito estreito para tamanha matéria, e essas garatujas, embora fugazes demais para dar conta dela satisfatoriamente, podem proporcionar-te não menos que um vislumbre desse autor-abismo e da importância de seus escritos, pois, como diria um efêmero poeta nosso, uma folha bem escrita, ainda que pequena, tem muito valor [1].

I – O Homem

            A vinte um de junho de mil oitocentos e trinta e nove, nascia, no pobre morro do Livramento, em casa de agregados anexa à chácara do cônego Felipe, o franzino, doentio, tímido e gago Joaquim. Era filho de Francisco José de Assis, pintor e dourador, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, lavadeira na casa do senhorio. Aquele, na realidade, à inclinação literária do filho não via com bons olhos, supondo que o ofício de homem das letras conservá-lo-ia na miséria. Sua infância, parte mais nebulosa de sua recatada existência, transcorreu no arruar traquinas com os companheiros de mesma idade. Foi quando começou a ter os primeiros sinais do mal que acompanhá-lo-ia e atormentaria por toda a vida, a epilepsia.

            Ainda bem pequeno, morreu-lhe a mãe. Viúvo, Francisco de Assis casou-se com uma mulata, Maria Inês. Esta, com as poucas letras que possuía, assistia aos estudos do enteado, ensinando-lhe todas as noites, às escondidas de Francisco, aquilo que sabia. Parece ter sido ela quem arranjou que o forneiro imigrante da Madame Gallot (dona de padaria na rua S. Luiz Gonzaga) ensinasse o francês a Joaquim – posteriormente, aprenderia ainda o inglês e o alemão. Frequentou a escola primária, mas após esses parcos primeiros estudos, será autodidata, recorrendo a centros literários e relações ilustradas para lograr conhecimento e livros – tome-se, como exemplo, o Gabinete Português de Leitura e a loja de livros do mulato Francisco de Paula Brito que frequentava assiduamente. Sem empregos fixos, e necessitando conquistar o pão diário após a morte do pai, foi vendedor de balas e sacristão na igreja da Lampadosa (o que é convenção, pois não encontrou-se seu nome nos registros da igreja) até que, aos dezessete anos, tornou-se aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá permaneceu dois anos (1856-1858), sempre lendo pelos cantos, com os bolsos recheados de livros – conduta que, aliás, garantiu-lhe a simpatia e proteção do então diretor da Imprensa, Manoel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias.

            Trabalhador dedicado, foi também caixeiro e revisor de provas da Livraria de Paula Brito (responsável pela publicação de alguns dos primeiros versos de Machado, lançados em sua revista bimensal, a Marmota Fluminense); colaborador e revisor no Correio Mercantil; redator, aos 21 anos (1860), do jornal de seu amigo, Quintino Bocaiúva, Diário do Rio de Janeiro. Neste, passou a produzir crônicas semanais e crítica literária (valendo-se sempre de pseudônimos como Manassés, Eleazar, Dr. Semana, Jó, Gil, etc.) , antes de ser destacado da redação para atuar como representante da folha junto ao Senado – talvez sua produção mais larga seja essa, a das colaborações em jornais e revistas,  e um dos principais motivos da vulgarização de sua obra, haja visto que, levando em conta só o período de sua mocidade, escreveu para quase todos os veículos impressos de então: O Futuro, A Marmota, Diário do Rio, Correio Mercantil, Jornal das Famílias, Semana Ilustrada, Cruzeiro, O Globo, Almanaque Garnier e paro por aqui, pois a lista é extensa. Foi ainda diretor de publicação no Diário Oficial (a partir de abril de 1867), primeiro oficial nomeado para a reformada Secretaria de Agricultura(dezembro de 1873), tornando-se, nesta, Chefe de Seção, por decreto da Princesa Isabel, em dezembro de 1876; oficial de gabinete do Ministro da Agricultura, Buarque de Macedo, em 1880; diretor da Diretoria de Comércio em 1889 (seria dispensado desta em fins de 1897); presidente da Academia Brasileira de Letras em 1896; secretário do Ministro da Viação, S. Vieira, em 1898 e Diretor Geral da Contabilidade do Ministério da Viação em 1902.

            Como se vê, labutou, sem nunca descuidar de sua vocação literária, galgando a melhora de suas condições materiais e os degraus socioeconômicos da sociedade brasileira oitocentista – auxiliado, sem dúvidas, pelo círculo de relações e amizades que cultivou ao longo de toda a vida: dentre vários, citemos Francisco Otaviano, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Joaquim Nabuco e Graça Aranha. Apesar disso, foi modesta sua existência, como modesto era seu temperamento. Repudiando toda publicidade que não dissesse respeito aos seus textos, era avesso à confidências (tomemos sua correspondência como prova: sucinta e objetiva, atenuado um pouco esse modo de escrita ao fim da vida, quando inicia alguma revelação, interrompe-a, ora justificando que não deseja enfadar seu interlocutor, ora suspendendo-a simplesmente) e jamais almejou, quem o diz é o amigo José Veríssimo, que suas humildes condições de origem servissem para realçar-lhe a estima com o público. Exteriormente, como acertadamente pondera Antonio Candido, sua vida não excedeu em sofrimentos aos de toda gente (aos 29 anos já tinha feito um nome como jornalista e havia recebido o Título de cavaleiro da Ordem Rosa), nem aos de seus semelhantes mestiços (que, levadas em consideração as condições dessa realidade histórica, no Império Liberal alcançaram postos representativos). Sua verdadeira luta não era exterior ou estrepitosa, como as polêmicas que lidava com altivez: ela era silenciosa, invisível, interior. Era metido consigo mesmo, com seus livros, refletindo e esculpindo sua arte, com vagarosa paciência, mas continuadamente – Um sonho… As vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século… Sonhos… Sonhos [2].  

II – Bruxo ou Defunto?

            É verdade, sua biografia eram os seus livros, a sua arte era a sua prosápia [3].   A primeira publicação de Machado de que temos notícia, foi o soneto à Dona Petronilha, lançado em 1854 no Periódico dos Pobres, interrompendo-se sua atividade intelectual apenas com a eventualidade de sua morte, em 29 de setembro de 1908. Cinquenta e quatro anos de uma carreira multifacetada que trabalhou a poesia (Crisálidas, 1864; Falenas, 1864; Americanas, 1875; Ocidentais, 1901; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932), a crônica, a crítica literária, a dramaturgia (Hoje Avental, Amanhã Luva, 1860; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; As Forcas Caudinas, 1865/1956; Os Deuses de Casaca, 1866; O bote de rapé, 1878; Tu, só Tu, Puro Amor, 1880; Não Consultes Médico, 1896; Lição de Botânica, 1906), a tradução, a arte do conto (Contos Fluminenses, 1870; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis Avulsos, 1882; Histórias sem data, 1884; Várias histórias, 1896; Páginas Recolhidas, 1899; Relíquias da Casa Velha, 1906; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932) e o romance (Ressurreição, 1872; A mão e a Luva, 1874; Helena, 1876; Iaiá Garcia, 1878; Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881; Casa Velha, 1885; Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esaú e Jacó, 1904; Memorial de Aires, 1908).  

            Não é só multifacetada sua produção, é polissêmica também. Ler Machado de Assis é como jogar uma partida de xadrez (no que, diga-se de passagem, ele era exímio: além de ser o primeiro brasileiro a publicar um problema de xadrez, no primeiro torneio de xadrez disputado em nossa terra, 1880, obteve ele o terceiro lugar): quando parece que essa seguirá um curso natural e esperado, um movimento muda todo o cenário, tornando-se imprevisível. Mestre do humor, narrador que conversa com o leitor, colocando-se entre este e a narrativa, tratou de uma miríade de temas: da graciosidade romântica à vaidade; da traição, da crueldade, da tolice, do cinismo, da insânia, do pessimismo benevolente, do ceticismo e da irônica falta de sentido de nossa existência, da doença que corrói o corpo e subjuga o espírito, dos tipos, costumes e idiossincrasias brasileiras do oitocentos, porém, e sobretudo, tratou da alma humana. Trata a dor e a ilusão com gracejos, ensinando-nos a não levar a vida muito a sério. Nele, a fantasia torna-se verossímil e a realidade é retratada com a acuidade e penetração de observador atento, meticuloso. Tudo isso com uma linguagem prosaica, insinuativa e desabusada; é vernácula e artificiosa sem ser pedante, como que falando ao pé do ouvido do leitor, provocando-o, zombando-o, dissecando-o.

            Quando sua esposa, a portuguesa Carolina, morreu em outubro de 1904, sentia, atesta-o o Soneto à Carolina (1906), que a melhor parte de sua vida acabara, que já era meio defunto – era irmã do editor da revista O Futuro, Xavier de Novaes, que se opôs ao relacionamento dos dois por ser Machado mulato. Companheira fiel, lia para ele jornais e livros quando este teve uma enfermidade nos olhos e passou-lhe para o papel uma narrativa que este ditou à ela durante sua convalescença, eram as Memórias Póstumas. A frágil saúde de Machado foi debilitando-se cada vez mais, ainda assim escreveu e viu seu último livro sair a prelo, o comovente Memorial de Aires – sabia e dizia que seria o derradeiro, estava cansado. Foi, além da epilepsia e da doença dos olhos, acometido por um câncer na língua que atacava também a garganta; sentia dores reumáticas – contudo, não gemia de dor, pois não queria incomodar quem o cercava. Era cuidado com muito zelo pelas amigas da esposa e pelos companheiros que assistiram-no até o leito de morte. Na noite em que expirou, conta Euclides da Cunha em artigo lançado no Jornal do Comércio logo no dia seguinte, que estando reunidos ele e outros amigos do autor na sua casa em Laranjeiras, um garoto desconhecido de cerca de 18 anos bateu, cauteloso, à porta. Não conhecia o mestre, mas havia lido-o, queria vê-lo, pois sabia pelos jornais que seu estado era grave. Foi conduzido ao quarto do doente, e, sem dizer uma palavra sequer, ajoelhou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a e aconchegou-o brevemente ao peito. Saiu sem dizer palavra. Veríssimo perguntou-lhe o nome, era Astrojildo Pereira. No entanto, tem uma segunda e representativa identidade esse garoto, soube-a entrever o próprio Euclides: somos nós, a posteridade.  Machado morreu às 3:45 a.m. do dia 29 de setembro de 1908. Tornara-se autor-defunto. Morreu o homem, vive a obra. Oh, aflito leitor, uma vida e obra inteiras resumidas à essas poucas e pobres palavras… Sinto que cometi um crime! Faça-me um favor, sim? Apanhe essa folha e queime-a.  


[1] Carta de Álvares de Azevedo a Domingos Jacy Monteiro, Rio, 09 de setembro de 1850. In: Álvares de Azevedo – Obra Completa. Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro, 2000.

[2] Tu, só Tu, Puro Amor, 1880, Machado de Assis.

[3] J. Veríssimio, História da Literatura Brasileira, p. 182 (1915).

Destaque

Conheça o artista: Thamires Ribeiro

Texto por: Alexandre Araujo.

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ chega ao fim e apresenta a última artista do projeto universitário carioca em parceria com a revista: Thamires Ribeiro, de 21 anos. 

Nascida em Minas Gerais e atual moradora de São Paulo, a artista é formada em maquiagem profissional. Contudo, as práticas e habilidades não se resumem apenas nisso. Conheça mais sobre a mineira. 

O interesse e admiração por maquiagem vem desde muito cedo, quando ainda era apenas uma criança. Thamires conta que sempre foi fã da cantora Lady Gaga e admirava a forma em que a artista se expressava de forma autêntica e segura de si mesma. “Eu amava todas as suas maquiagens excêntricas e chamativas”. Já atualmente, a inspiração vem de mulheres empoderadas, além de Tom Savini, um famoso maquiador, técnico em efeitos especiais de cinema, ator e cineasta norte-americano.

Como nem tudo são flores, a maquiadora enfrentou diversos desafios ao longo desses anos como profissional. Ela conta que o maior desafio foi no começo da pandemia, em 2020. “Foi um momento muito complexo onde eu enfrentei a síndrome do pânico e recebi meu diagnóstico de transtorno bipolar. Eu não conseguia clientes por não ter condições de trabalhar e, além disso, as clientes não tinham razões para me contratar, já que não tinham eventos durante a pandemia”, contou. 

Em contrapartida a isso, a jovem relatou que mesmo diante às barreiras e dificuldades, percebeu que é capaz de ser uma grande maquiadora. “A maquiagem, pra mim, é a minha forma de me expressar”, completou.

Confira a entrevista com Thamires Ribeiro:

  1. Quem é Thamires Ribeiro?

Sou formada em maquiagem profissional, mas também faço maquiagens artísticas, como a criação de personagens, Drag Queens, maquiagem de terror e sfx (próteses cênicas e efeitos especiais).

  1. Acha que a sua sexualidade interfere ou pode interferir futuramente nos seus planos/carreira? 

Acredito que minha sexualidade interfira em algumas questões. Por ser bissexual, a sociedade leva em conta de que sou apenas uma pessoa “confusa”. Alguns clientes já cancelaram comigo assim que souberam da minha sexualidade. Segundo eles, eu iria dar em cima.

  1. A indústria brasileira da sua área, na sua concepção, vem acolhendo a diversidade?

Acredito que, por ser um trabalho na área da beleza, o acolhimento da diversidade seja um pouco “aceito”, já que existem muitas pessoas LGBTQIAP+ trabalhando na área.

  1. Apesar de todas as circunstâncias, você pretende seguir com a carreira de maquiadora ou existe um plano B profissional?

Eu pretendo continuar com a carreira e tenho objetivos de trabalhar fora do país.

  1. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Não tenha receio de continuar a fazer algo que gosta por medo de não ser aceito. Lembre-se, você se aceitar é um ótimo começo.

  1. Onde podemos conhecer mais sobre o seu trabalho?

No meu instagram, @succubgirl.

Virada Cultural: a importância de ocupar espaços públicos

Nesta última sexta- feira (20), a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo divulgou a programação oficial da Virada Cultural que ocorre neste final de semana, nos dias 28 e 29 de maio. O evento anual é oferecido pela prefeitura do município de São Paulo desde 2005, sendo inspirado no festival parisiense Nuit blanche que ocorre também anualmente desde 2002. A Virada Cultural tem o propósito de promover diversas áreas da arte 24h pela cidade: música, dança, peças teatrais, manifestações populares, exposições de arte e história.

Este ano, o objetivo também é descentralizar o evento, levando-o para outras regiões espalhadas pela cidade que não apenas o Centro Histórico e Centro Novo. Com isso, discute-se a importância da acessibilidade cultural para além da gratuidade do evento, a proximidade com o público se dá, sobretudo, com a ocupação de espaços próximos a ele. A descentralização do evento vem sendo recente, considerando também a realização de forma online nos últimos dois anos devido à pandemia da COVID-19. 

Ocupar esses espaços públicos é essencial para a manutenção da democracia, uma vez que, atinge uma maior diversidade de audiência quando é facilitado o acesso aos palcos que estão em todas as regiões da cidade e também com o consequente aumento da variedade de gêneros musicais e atividades para todos os gostos.

Além disso, há como questão econômica uma grande movimentação para pequenos empreendedores que se locomovem para atender ao público, assim como o comércio em volta dos espetáculos. A democratização da arte e a utilização desses espaços públicos como meio de promoção cultural são de extrema importância para que a cidade se mantenha viva e com propósito. Apesar da crescente violência metropolitana, a manifestação artística não deixa de ser um ato de resistência popular que deve ser mantido, possibilitando a esperança de transformação social.

 Serão sediadas mais de 300 apresentações com grandes nomes, como Ludmilla, Luiza Sonza, Criolo e Glória Groove. Oficinas literárias e saraus serão também grandes atrativos pelas bibliotecas da cidade. Os palcos estarão espalhados por todas as Zonas da cidade e receberam nome indicativo da região:

Zona Sul: 

  • Palco Campo Limpo | LIBRAS
  • Palco Rio Diniz
  • Palco M’Boi Mirim LIBRAS
  • Palco Piraporinha
  • CC Grajaú. Rua Prof. Oscar Barreto Filho, 252.

 Zona Leste:

  • Palco Itaquera | LIBRAS
  • Palco Ribeirão. Av. Nagib Farah Maluf, s/n (Conjunto Habitacional José Bonifácio)
  • Palco São Miguel Paulista | LIBRAS
  • Palco Itaqueruna
  • CC Cidade Tiradentes | LIBRAS
  • Palco Penha

Zona Norte:

  • Palco Parada Inglesa | LIBRAS
  • Palco  Luiz Dumont Villares
  • Palco Freguesia do Ó | LIBRAS
  • Palco Rio das Pedras

Zona Oeste:

  • Palco Butantã | LIBRAS
  • Palco Pirajussara
  • CC Butantã

Centro:

  • Palco Viaduto do Chá | LIBRAS
  • Palco Praça das Artes
  • Festa Praça das Artes. Boulevard São João, 281
  • Palco Praça Ramos
  • Arena Vale, em frente ao Prédio dos Correios

A programação completa com todos os endereços e horários pode ser encontrada no site oficial da Virada Cultural (link). Para mais informações em tempo real acesse o Instagram da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (link).

Conheça o Artista: Kaio Michel

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ apresenta o penúltimo artista do projeto universitário carioca em parceria com a revista. 

Kaio Michel, de 24 anos, nascido no estado do Ceará e carioca de coração, é ator de teatro e foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante, além de já ter conquistado um prêmio de melhor ator.

A admiração e aspiração à carreira de artista começou quando ainda era criança. Kaio conta que era apaixonado por novelas e se imaginava atuando como os personagens que assistia. No entanto, o contato com o mundo da encenação só aconteceu em 2014, quando foi fazer uma aula experimentou e realmente viu que queria aquilo para a vida. ‘’A partir desse dia, nunca mais larguei! Um ano depois desse curso, eu já comecei a estudar o teatro profissional’’, concluiu. 

O ator se inspira nos grandes nomes das telas de cinema, TV e dos palcos de teatro, como a atriz e escritora Fernanda Montenegro. No Festival Monovídeo, em 2018, foi premiado na categoria de melhor ator. Já na peça ‘Nós, Idiotas’, no Teatro Grande Atores, em 2019, recebeu indicação para o prêmio de melhor ator coadjuvante. 
O intérprete que atualmente também trabalha como vendedor, pretende seguir com a carreira de ator e aprimorar ainda as técnicas de dramatização, focando também nos estudos de TV e cinema. Para ele, tudo isso apesar de desafiador, é acima de tudo, transformador. ‘’O teatro me transformou em um ser humano melhor, me mostrou que todo mundo pode ser quem quiser.  Ele me deu uma expectativa de vida e me transformou em uma pessoa mais determinada e segura’’, ressaltou.

Confira a entrevista com Kaio Michel: 

  1. Pode nos contar mais um pouco quem é o Kaio?

O Kaio é uma pessoa extremamente louca por viver a vida da maneira mais leve. Ama estar em contato com a natureza, com as pessoas que ama e conquistar os seus objetivos.

  1. Acha que sua sexualidade interfere na carreira?

Acredito que a minha sexualidade não interfere na minha carreira, mas é muito particular. Algumas pessoas já sofrem muito com essa questão, por existir ainda um preconceito em alguns trabalhos específicos.

  1. A indústria brasileira de filmes/telenovelas vem acolhendo a diversidade?

Atualmente eu acredito sim. Cada vez mais pessoas LGBTQIAP+ vem ganhando espaços, mas ainda uma grande parte sofre com a falta de oportunidade.

  1. Quais foram os maiores desafios enfrentados nesses anos como um artista de teatro?

Meu maior desafio foi me manter financeiramente. É um espaço pouco valorizado e as oportunidades, infelizmente, são poucas. Então eu nunca podia ficar dependendo só dele, tinha que ter uma outra opção com renda. Ficar longe do teatro é muito doloroso pra mim!

  1. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Façam aquilo que ame, independente do retorno financeiro. Não tem nada mais prazeroso do que fazer o que realmente ama! 

  1. Onde podemos te encontrar?

No meu Instagram, @omichel__

Conheça o Artista: Marina Ramos

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ apresenta a cantora e luthier, Marina Ramos, de 29 anos. Nascida em São Paulo e moradora do Grande ABC Paulista, na cidade de Santo André, a musicista toca e interpreta as canções de seus artistas favoritos em bares e casas noturnas.

Marina teve a influência da música desde muito jovem por conta da irmã mais velha, que ouvia muito a dupla Sandy e Júnior. Ela conta que também chegou a pedir um violão igual ao dos sertanejos Chitãozinho e Xororó para a mãe:

‘’Minha irmã mais velha vivia escutando Sandy e Junior. Consequentemente, acompanhava todos os lançamentos e programas de TV. Fui tentando imitar a voz da Sandy e um tempo depois pedi para minha mãe um violão igual ao do Xororó. No entanto, por não ter condições de bancar um violão tão bom quanto o dele, arrumamos um bem antigo, mas que foi suficiente’’, contou. 

Além das eventuais apresentações em casas de show aos finais de semana, a cantora também mescla o talento da voz com a habilidade das mãos, trabalhando como luthier em uma loja de instrumentos em São Paulo. Para ela, essas características juntas ao termo “resiliência’’, a descrevem. Ela diz que atuar nessas áreas nas quais a figura masculina e heteronormativo é predominante, requer o dobro de esforço, seja técnico ou artístico, e faz parte de sua rotina de trabalho. “Por se tratar de uma ‘mina’ atendendo, fazendo um som ou apenas dominando determinado assunto, mexe com o ego alheio. E isso te faz escutar coisas, ainda que mínimas, mas que machucam’’, relatou.

Marina também comentou sobre a vivência enquanto mulher e lésbica no cenário musical. A musicista já perdeu as contas de quantas vezes teve que lidar com o assédio do público masculino. “Não quero ser apenas o estereótipo da lésbica que canta e toca violão, mas não consigo contar nos dedos a quantidade de homens que se aproximam de mim com intuitos sexuais, quase que como uma tentativa de ‘me converter a heterossexualidade’, esclareceu. 

Apesar das dificuldades, a jovem se considera uma pessoa resiliente e capaz de ‘dar a volta por cima’ das situações nem tão boas. Ela reforça que a música tem a capacidade de transformar vidas e que não pretende desistir dos sonhos. “Seguir seus sonhos nunca será uma escolha errada, ninguém tira isso de você!”, salientou. 

A artista pode ser encontrada através do Instagram @marinarmusic. 

[RESENHA] “Conversa Entre Amigos” e os romances modernos

Apesar de Sally Rooney ter ganhado maior notoriedade com Pessoas Normais (2018), especialmente diante da premiada minissérie homônima de 2020, seu primeiro romance foi, na verdade, Conversa Entre Amigos (2017). Com ele, a autora irlandesa iniciou seu processo para o firmamento na literatura jovem moderna ao discutir vínculos interpessoais atravessados por interferências, como as relações de poder e falhas na comunicação. Chegou a ser considerada o fenômeno literário da (última) década pelo jornal britânico The Guardian e se tornou um sucesso editorial por todo o mundo.

Pôster da adaptação de Conversa Entre Amigos para uma minissérie pela Hulu.

O romance de lançamento na ficção de Rooney seleciona um fragmento da vida da jovem Frances, universitária da Trinity College, e recém introduzida na casa dos vinte anos. A obra é narrada em primeira pessoa, o que já mostra sua divergência em relação a Pessoas Normais e a mais recente obra, Belo Mundo, Onde Você Está (2021). A escolha dos narradores, fundamentalmente, influencia na imagem que o leitor constrói dos personagens dos três livros, que nos dois últimos de Rooney podem ser semelhantes, mas que com Conversa Entre Amigos, não.

Publicada no Brasil pela editora Alfaguara e traduzida por Débora Landsberg, a obra recebeu adaptação pela Hulu como uma minissérie de doze episódios — mesmo formato de Normal People. Com direção de Lenny Abrahamson, será protagonizada por Alison Oliver como Frances, Joe Alwyn como Nicki, Sasha Lane como Bobbi, e Jemima Kirke como Melissa. 

Sob os céus de Dublin, a jovem Frances vive sua vida consideravelmente tediosa. Não possui nada que a faça ser extraordinária, muito menos aspirações que a destaquem em relação às outras pessoas. Quando ao lado de Bobbi, sua melhor amiga e ex-namorada, sente-se apagada por sua personalidade subversiva, enérgica e vigorosa em manifestação. São uma espécie não tão característica de opostos, mais ligado à forma como se relacionam consigo mesmas, como indivíduos, e com o restante do mundo.

Após um namoro que não muito se desenvolveu com o fim do ensino médio, as duas terminam, mas continuam amigas. Passam a frequentar a mesma faculdade e dividir o mesmo ofício com apresentações de declamações poéticas juntas em eventos pela cidade. Enquanto Frances se dedica à escrita, Bobbi traz sua presença dramática para as elevar o tom das performances.

É dessa forma que a dupla conhece a fotógrafa e jornalista de 37 anos, Melissa. Uma daquelas mulheres que se evidencia com espontaneidade, sem muito esforço. Tem como aliados apenas seu carisma, talento, elegância e, é claro, um marido troféu, que, nesse caso, é o ator de média fama, Nick Conway, com 32. 

Melissa tem interesse em escrever uma matéria sobre as jovens poetas, então as leva a jantares e comparece às suas apresentações para que possam se conhecer melhor. Frances não gosta tanto de Melissa e sente que é imune aos encantos de seu perfil imponente, apesar de ser o contrário com Bobbi, que é encantada pela mulher. Enquanto isso, por detrás do emparelhamento decorrente dos traços comuns entre as duas e seus flertes, a protagonista se encontra no caráter tímido, com uma nuance de covardia, do marido da jornalista.

Ante um casamento em ruínas, Frances surge quase como o ser celestial pronto para resgatar Nick de si mesmo, de seu passado e da vida infeliz que tem vivido, através da relação extraconjugal construída às escondidas. De certa forma, é uma via de mão dupla, pois a universitária carrega tantos traumas e devaneios melancólicos quanto o ator.

O quarteto protagoniza uma narrativa que isola esse pedaço de suas vidas, ou seja, não se enquadra tão bem no modelo de início-meio-fim clássico. Esse é um padrão de Rooney e não agrada a todos os leitores pela constância em finais considerados “em aberto”. O objetivo não é dar finais amarrados e sim deixar clara a existência de uma vida acontecendo depois da última página. 

Uma coisa sobre a estreia da autora é que ela traz os personagens mais amargos, irritantes, irreverentes e contraditórios, mas que isso ainda não significa que sejam pessoas ruins — apesar do adultério, das mentiras e todo o restante. 

Também é preciso considerar que todos são vistos sob a perspectiva de Frances — que é denunciada como alguém que enxerga aqueles que ama como especiais —, logo, existe uma tendência a se apegar mais aos personagens com os quais ela tem um envolvimento mais harmônico, como Nick e Bobbi. E, por outro lado, desenvolver alguma aspereza ligada à Melissa. Porém, outras coisas colaboram com a ideia de que talvez o perspectivismo de Frances não seja de grande relevância à narrativa, como o fato de ela fantasiar Bobbi com alguma devoção, já que implora para ser desejada e amada por ela, mas a parceira ainda ser uma personagem egocentrada e não tão engajada como imagina.

Ou seja, mesmo que a percepção de Frances sobre Bobbi seja preenchida por idealizações românticas de quem gostaria que ela fosse — e de quem Frances gostaria de ser —, nem por isso ela se torna tragável. Ainda, a carência de simpatia com Melissa, que possui uma personalidade intensamente semelhante a da dupla da protagonista, não é bem recebida pela narradora. Há o envolvimento de diversos fatores, mas além de ser casada com o homem por quem Frances está apaixonada, há, igualmente, o desejo de ter sua estabilidade econômica.

Alison Oliver como Frances em Conversa Entre Amigos (2022) [Imagem: Divulgação]

Os pais de Frances são separados e vivem numa área remota da cidade. O pai a marcou eternamente com o alcoolismo invasivo à sua infância, enquanto a mãe se torna colaboradora até os dias atuais com os pedidos incisivos de que a jovem perdoe o pai. Para a filha, até o uso dessa palavra que remete a algum tipo de afeição exprime um valor que não pode ser atribuído nesse caso. E, não obstante, essa atribulação familiar é fortalecida pela situação financeira delicada, cujo entendimento não alcança nenhuma figura do trio central da obra. A condição de assimilação sobre a classe socioeconômica deixa Frances sempre à margem dos outros, independentemente de qual seja o grau de intimidade pairando entre eles no momento.

Os personagens da autora, adicionando os protagonistas de seus dois outros romances, trazem debates semelhantes sobre o capitalismo e como ele é corrosivo, mas que soam consideravelmente superficiais ao serem usualmente pautadas pelos personagens ricos que são diretamente beneficiados pelo sistema e não buscam mover as engrenagens noutra direção, a não ser deixar que as palavras críticas morram nas conversas de bar. Bobbi é uma delas, mas ainda que Melissa não seja tão sugestiva quando os tópicos surgem, Frances permanece cultivando um ressentimento acumulado à porção de questões externas interferentes nesse todo — pois ela ainda faz parte disso, mesmo que não tome partido. A própria manifesta sua alegação de que talvez o que faça com que Frances realmente não goste dela seja, na verdade, a identificação por serem mulheres que buscam algum poder para suprir a imponência a qual foram infringidas durante a fase de amadurecimento, mas que tal busca por isso em Nick, como um homem que se mostra omisso, vulnerável e conformado, era infundada.

A relação tempestuosa de Nick e Frances é repleta de oscilações. Todo o contexto no qual estão inseridos e a maneira como iniciaram sua história já, objetivamente, mostrava que ela jamais poderia ser linear. A verdade é que, nesse caso, parece que Nick encontra em Frances muito do que passou a sentir falta em Melissa e que Frances encontra em Nick muito do que passou a sentir falta em Bobbi, porém essa falta é reflexo de suas perspectivas pessoais sobre o que querem de alguém, e não necessariamente o que realmente “faltava” em suas parceiras. Mas, por mais que eles deem vida a um amor nascido daquela paixão, prosseguem preservando o mesmo sentimento pelas pessoas com quem estiveram antes. Dessa forma, acabam num impasse que não deveria ser um, pois a narrativa faz o que promete e os guia à pergunta principal: é preciso amar só uma pessoa e se dedicar isoladamente a ela?

Ao todo, Rooney busca abordar os relacionamentos modernos que não se encaixam no modelo tradicional de que o amor deve funcionar de modo restritivo, de caráter possessivo e limitante; no qual esse amor só pode ser depositado numa só pessoa, o que não é o caso, porque Frances ama Nick, mas também ama Bobbi. E, na mesma linha, Nick ama Frances, mas ele também ama Melissa. Os sentimentos existentes entre eles não são enfraquecidos por terem mais de um direcionamento, mas são reanimados e reforçados. Porém, há um caminho para que Nick e Frances compreendam isso; que possam ter alguma percepção ampliada de quem eles podem ser um para o outro e quem podem ser para aqueles que já estavam em suas vidas antes de se conhecerem.

Conversa Entre Amigos, no panorama geral de um romance de estreia, tem a potência necessária para apresentar a voz de Sally Rooney na literatura atual, como foi feito. Embora não supere o ilustre Pessoas Normais — e nem mesmo Belo Mundo, Onde Você Está consegue esse feito —, deixa clara a habilidade da autora em escrever jovens mulheres modernas passíveis de identificação: elas têm tendências autodestrutivas, desvios de caráter e estão completamente perdidas em si mesmas e no mundo, especialmente porque que não sabem como comunicar seus sentimentos — já que raramente conseguem reconhecê-los ou dar nome a eles.

Beleza cultural: a influência das características culturais nos ideais de beleza pelo mundo

Quando pensamos em cultura, as primeiras características que vêm à mente são idiomas falados, costumes de etiqueta, crenças, sistema educacional e marcos históricos. Porém, outro importante ponto que também se destaca na diferenciação entre culturas é a beleza, ou melhor, o que esse termo representa. Formatos de corpo, comprimento dos cabelos, estilo de maquiagem e até mesmo o sorriso, podem ser considerados características culturais de um grupo social e exercem influência direta nos ideais que definem o que é belo nas distintas culturas ao redor do globo. 

O gestor educacional Júlio César de Lima, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo responsável pela página Sociologia Cotidiana, pontua que cada sociedade possui sua cultura que vai se modificando ao longo do tempo a partir de contato com outras, em um processo ininterrupto. “No passado, o contato entre diferentes culturas era físico, através de imigrações, invasões, por exemplo. […] Atualmente, as chamadas mídias sociais vem acelerando ainda mais a difusão cultural.” Com base nesse raciocínio, ele dispõe que cada grupo cultural, cada povo e sociedade possui seu ideal de beleza, moda e costumes, no entanto, eles são fluidos e modificam-se muito rapidamente “Se o ideal de beleza é o estilo, padrão ou modelo socialmente definido como belo, ele existe em toda e qualquer sociedade, mas a questão é que ele é marcado pela fluidez.”.

Ademais, a busca pelo encaixe perfeito nos padrões de uma sociedade também podem ser resultantes da vontade de gerar um sentimento de pertencimento a um grupo específico, funcionando como uma forma de validação de valor social. Nesse sentido, Júlio César menciona: “O homem é um animal gregário, só existe porque vive em grupo. Com a chamada sociedade de consumo, a necessidade de se viver em grupo divide espaço com a necessidade de se sentir parte desse grupo. […] Fazer parte dele requer sim ser validado em alguns quesitos estabelecidos.”

Mesmo em países multiculturais, como o Brasil, sabemos que existem algumas características que são intrínsecas à construção social do que é belo. Porém, de um ponto de vista mais “macro”, podemos notar que determinados padrões são vistos de forma mais ampla nos diferentes continentes. 

Em se tratando das Américas, no Norte, como nos Estados Unidos, observamos que bustos volumosos, pele, cabelos e olhos claros são as características mais apreciadas nas mulheres, enquanto dos homens é esperado um físico atlético e uma barba bem cuidada, em um visual conhecido como “lumbersexual”. Já na região Central e Sul, peles bronzeadas, cabelos longos e corpo curvilíneo, o famoso “corpo violão”, formam o ideal estético feminino, ao passo que o masculino é composto pela pele também “beijada pelo sol”, cabelos escuros e um porte malhado, em uma mistura de casualidade elegante com um toque sensual. 

Nas terras europeias, continente em que a população tende a ser mais reservada e discreta no que tange ao comportamento, observamos que corpos esguios e um visual casual são as características gerais dos padrões de beleza que, todavia, podem sofrer pequenas alterações de país para país. Se estivermos falando sobre a França, pele bem cuidada, físico magro, cabelo levemente bagunçado e maquiagem leve são o combo apreciado – também compartilhado pela Inglaterra, com a diferença de que esta opta por um visual mais aristocrático e sério, menos despretensioso que o francês. Em se tratando da Itália, os padrões ficam levemente mais extravagantes, o corpo segue magro, mas o busto aumenta de tamanho, as pernas ficam mais torneadas, os cabelos ganham mechas e um comprimento maior; enquanto a Espanha preza por ares mais sexy, de pele morena, olhos e cabelos castanhos, corpos curvilíneos e bem torneados, enquanto, em contraponto, a beleza nórdica preza por peles alvas, cabelos bem claros e uma imagem quase etérea.   

O continente africano também conta com variações no ideal que o compõem, se observadas suas diferentes partes. Em se tratando da região sul, que sofreu grande influência da cultura europeia por conta da colonização, observamos um apreço por traços delicados, poucas curvas e um físico esguio, levemente malhado. O que vai de encontro ao observado em partes da África Ocidental, em localidades como a Mauritânia, em que os corpos volumosos são almejados por serem a representação de prosperidade financeira e disponibilidade de recursos. 

No continente asiático, onde a praticidade, discrição e agilidade são pontos fortes de sua cultura, o que é visto como belo possui traços finos, uma pele bem cuidada e clara, a união de características que, juntas, consigam formar uma imagem de inocência e leveza que são associadas à elegância. 

Porém, mesmo sendo tão discutidos e abordados com mais intensidade nos tempos atuais, o estabelecimento de ideais de beleza têm um histórico longo e notável. Os primeiros registros de uma espécie de padrão no tocante ao belo foram observados na Pré-História, quando o uso de garras e dentes de animais como adornos representava o poder masculino e a obesidade feminina era vista como sinônimo de prosperidade em recursos e símbolo de fertilidade. Posteriormente, na Grécia Antiga, onde muito se valorizava a questão da harmonia e equilíbrio, os corpos compostos por quadris largos e seios volumosos – que eram associados à fertilidade – além de um pele clara, uma aparência etérea e que transmitisse a ideia de saúde acabaram por ser interpretados como o ideal; enquanto no Egito Antigo (em que a aparência física era de grande importância), corpos esguios, pele bronzeada e ausência de pelos representavam a imagem almejada. Sob esse panorama, observa-se que mesmo com a passagem do tempo e a alteração de muitos pontos tidos como representantes do bela por motivos diversos, como os de cunho religioso e cultural, o que perdura até os dias de hoje é a constante mutação do que é compreendido como parâmetro. Dessa forma, com o entendimento de que as raízes dos padrões de beleza são profundas, ainda que disformes, o questionamento é: será possível vislumbrar uma sociedade livre desses ideais? Júlio César de Lima pontua que acredita ser improvável que isso aconteça. “Acredito ser improvável a existência de uma sociedade livre das amarras dos padrões de beleza e então, a discussão que cabe pode tomar outro rumo, como por exemplo, no campo da ética, que pode lançar reflexões sobre consequências para a saúde física, mental e até social dos excessos causados pela busca irrefletida por estar bonito, com o corpo ideal, com o cabelo da mocinha da novela […] Em resumo, continuaremos tentando estar belos, mas provados por questões sobre como estar belo de maneira mais racional.”

Por fim, em uma comparação meramente singela, podemos analisá-los como uma faca de dois gumes que corta um mesmo entendimento em duas questões, pois, o questionamento de um padrão pode representar o entendimento de que há outro “melhor” para ser colocado em seu lugar. Mesmo sendo rechaçados por muitas pessoas e transformados em pauta de discussões acaloradas ou, em outros casos, tendo sua existência negada dada a diversidade de ideais presentes nos diferentes continentes, os padrões de beleza reverberam para além do campo da estética, porque, como foi exposto, por meio deles conseguimos diferenciar momentos históricos, grupos sociais e até mesmo entendimentos culturais. Conseguimos, então, observar que a pluralidade da cultura faz com que o belo não seja uma afirmação, mas, sim, um eterno questionamento. 

Conheça o Artista: Jessy Barroso

Conheça nesta quarta-feira (04), no quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ a ilustradora e pintora Jessy Barroso, de 24 anos. Natural de Brasília e moradora do Rio de Janeiro desde os 8 anos, a vendedora e artista se dedica à pintura há muito tempo. Além de trabalhar em uma loja de shopping, a ex-estudante de moda estampa roupas para vender e já conquistou algumas pessoas.

Apesar da experiência, Jessy diz que opta por fazer trabalhos para pessoas próximas e conhecidas para evitar qualquer tipo de discriminação e preconceito que pode vir a sofrer por conta de sua sexualidade. ‘’A principal dificuldade que eu vejo agora é o receio de ampliar meus horizontes e vender para pessoas que são só do meu círculo de convívio’’, esclarece. 

A artista possui uma pintura específica, marcante e com bastante significado. Para ela, os desenhos representam a forma como se sente e a pintura se resume à “cor” que chegou à vida para tirar a “sensação cinza” em que vivia. ‘’Minhas pinturas sempre expressam sentimentos, sejam eles muito bons ou ruins. Eu sempre tento transmitir alguma mensagem através deles’’.

Em entrevista, ela contou sobre os direcionamentos que vem tomando na vida. Para a jovem, as incertezas ainda são muitas. “Sou uma pessoa que ainda está em uma jornada de descobrimento, tanto profissional como pessoal. A única certeza que eu sempre tive, é de ser lésbica”, disse Jessy.

Leia a entrevista com Jessy Barroso: 

  1. Quem é a Jessy?

Essa é uma pergunta difícil. Eu acho que estamos sempre em constante evolução e que somos altamente mutáveis, então o que posso afirmar é apenas que a Jessy de ontem não será a mesma de amanhã.

  1. Quando e de que forma a pintura começou a fazer parte da sua vida?

A pintura começou como uma fuga pra mim. Através dos meus desenhos sempre tive mais autonomia para expressar meus sentimentos e esse processo sempre foi muito natural. 

  1. Como uma pessoa que faz parte da comunidade LGBTQIA+, quais são os principais problemas enfrentados na vida artística? 

Acho que a maior parte dos meus sentimentos ruins motivaram a criação de alguns desenhos. Sempre foram as consequências de algum constrangimento, sofrimento e dificuldade de aceitação, até mesmo pela família, por ser LGBTQIA+. 

  1. Quais serão seus próximos passos como artista e profissional?

Pretendo comprar uma máquina para começar a transferir meus desenhos para a pele, mas não pretendo parar a confecção das roupas. Quer coisa melhor que ver alguém carregar a minha arte para sempre? Isso é maneiro demais!

Mais informações e contato pode ser feito através do Instagram da artista: @artwesty_