Gal Costa: a eterna musa da Tropicália e MPB

Nesta quarta-feira (9), o país acordou com a notícia da morte de uma das suas maiores cantoras, Gal Costa, aos 77 anos. Um dos ícones da música popular brasileira, Gal tinha 57 anos de carreira e mais de 40 álbuns lançados. Em outubro de 2021, a cantora iniciou uma grande turnê que revisitava grandes sucessos dos anos 80 na MPB que entrou na lista de festivais no Brasil e tinha planos para se expandir na Europa. Infelizmente, a agenda de shows foi interrompida há alguns meses para a artista realizar uma cirurgia.

Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em 26 de setembro de 1945 na cidade de Salvador. O apelido Gal foi criado pelo produtor Guilherme Araújo, que preferiu trocar o nome Maria da Graça que foi apresentado no início de sua carreira. A artista conheceu Caetano Veloso em 1963, aos 18 anos, apresentada por sua amiga e vizinha Dedé Gadelha, futura esposa de Caetano. Assim, se iniciou uma grande amizade e profunda admiração entre os cantores que colaboraram várias vezes em suas carreiras.

Gal estreou no espetáculo Nós, Por Exemplo em agosto de 1964, na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. Ao lado de grandes nomes como Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano, a artista também estrelou o show Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova. A primeira aparição em um álbum foi no disco de estreia de Maria Bethânia, irmã de Caetano, na faixa Sol Negro em 1965. Em seu primeiro compacto (disco de vinil que só tinha duas canções) regravou as faixas Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil, e Sim, foi você, de Caetano Veloso.

O primeiro LP oficial foi Domingo com seu bom amigo Caetano, lançado em 1967. A música de destaque do disco foi Coração Vagabundo, um dueto entre os cantores. Em 1968, Gal participou do álbum Tropicália ou Panis et Circencis com Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano Veloso, Os Mutantes e Tom Zé. Esse disco foi o manifesto musical do movimento do tropicalismo, que mesclava elementos tradicionais da cultura brasileira com as tendências estrangeiras da época.

Gal no IV Festival da Música Popular Brasileira, em 1968. [Imagem: Acervo Estadão]

A revista Rolling Stones Brasil, considera Tropicália como o segundo dos 100 maiores discos da música brasileira. O álbum que moldou o futuro da música popular brasileira que contrastava com a formalidade da bossa nova teve como maior hit a faixa Baby, escrita por Caetano e interpretada por Gal. Esse foi o primeiro grande sucesso solo da cantora, que se tornou um grande clássico da MPB.

Em 1969, ela lançou seu primeiro disco solo intitulado Gal Costa que contava com três novos grandes hits, Divino Maravilhoso, Que pena (Ele já não gosta mais de mim) e Não identificado. No mesmo ano gravou já o segundo disco solo, chamado Gal, que foi a obra mais conceitual e psicodélica de sua carreira. O destaque do álbum vai para as canções Meu nome é Gal e Cinema Olympia. Em 1981, protagonizou uma das cenas mais icônicas da TV brasileira com Meu nome é Gal, em especial inédito da série Grandes Nomes na TV Globo. Nela, a cantora duelava com um solo de guitarra, atingindo vocais cada vez mais agudos com sua conhecida afinação invejável.

Gal realizou em 12 de outubro de 1971 um dos show mais importantes de sua carreira e da música brasileira, no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana. A série de espetáculos Fa-tal foi dirigida por Waly Salomão e gerou o disco ao vivo Fa-Tal / Gal a Todo Vapor, com os sucessos inéditos Vapor barato, Como 2 e 2 e Pérola negra. A performance se tornou icônica exatamente pela época em que foi realizado, com Caetano e Gil exilados em Londres, Gal desafiava a ditadura militar e se tornava porta-voz da contracultura do tropicalismo.

Dessa irreverência, foi lançado o álbum Índia em 1973 como o sexto álbum de estúdio da artista. Produzido por Gilberto Gil, o disco era vendido coberto de plástico, depois das imagens da capa e contracapa serem alvo dos censuradores na época. A capa é estampada por um close em Gal com biquíni vermelho e a contracapa mostrava parte dos seios da cantora. Na ditadura, foi a primeira vez em que um disco saiu com a embalagem lacrada e acabou despertando a curiosidade de todos.

Gal Costa também fez muito sucesso ao gravar músicas para as aberturas de novelas da Rede Globo. Em 1975, lançou Modinha para Gabriela, escrita por Dorival Caymmi para o enredo de Gabriela. Na segunda versão da novela, em 2012, Gal interpretou a canção mais uma vez. Em 1988, gravou a canção Brasil, escrita por Cazuza, Nilo Romero e George Israel para a telenovela Vale Tudo. Para a produção Deus nos Acuda, lançou Canta Brasil em 1992, e para Torre de Babel, gravou Pra Você em 1998.

Ao lado de seus conterrâneos e grandes amigos Gilberto Gil, Caetano e Maria Bethânia, Gal reuniu o grupo chamado Doces Bárbaros para uma turnê pelo país em comemoração aos 10 anos de carreira deles. O conjunto de artistas rodou o Brasil em 1976 com o espetáculo, que resultou em um disco ao vivo de mesmo nome e um documentário dos bastidores. Doces Bárbaros foi um dos mais importantes grupos da contracultura dos anos 70 e até virou enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira em 1994.

O quarteto Doces Bárbaros. [Imagem: Reprodução]

Em 1978, Gal Costa apresentou seu álbum Água Viva, o primeiro disco de ouro de sua carreira (ultrapassando a venda de 40 mil cópias). Desse projeto foi criado o espetáculo Gal Tropical, a virada de chave para a cantora no mainstream. Já que amadurecia sua imagem de musa hippie do tropicalismo para uma cantora solo mais estabelecida. A apresentação foi sucesso de crítica e gerou outro disco de mesmo nome, em que cantava seus grandes hits e faixas inéditas, como Força estranha, escrita por Caetano Veloso, Balancê e Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono)

Em seguida vem o álbum Profana, lançado em 1984, e outro ponto alto da discografia da artista. As canções fenômeno do projeto foram Chuva de prata, com participação do grupo Roupa Nova, e Vaca profana. No ano seguinte, Gal seguiu desafiando os limites da liberdade feminina e posou nua para a revista Status, quando estava prestes a completar 40 anos. Outro momento marcante aconteceu em 1994 na apresentação da música Brasil no Rio de Janeiro, onde ela apareceu de camisa aberta e os seios à mostra para o choque do público.

A cantora foi homenageada pela Academia Latina das Artes e Ciências da Gravação em 2011, na cerimônia do Grammy Latino. Gal Costa recebeu o grande Prêmio à Excelência Musical, pelo conjunto de sua discografia. O último projeto com faixas inéditas foi A Pele do Futuro, em 2018. Esse que foi seu quadragésimo álbum de estúdio, contou com participações de Maria Bethânia e Marília Mendonça. Em 2021, foi lançado o último disco da cantora, Nenhuma Dor, com regravações de seus maiores clássicos. O elenco de participações contava com artistas masculinos da nova geração, como Zeca Veloso, Seu Jorge, Silva e Rubel.

Parte da capa do álbum comemorativo, Nenhuma Dor. [Imagem: Reprodução]

Em sua homenagem, o filme Meu Nome é Gal que conta a vida da cantora  já estava em produção e chega aos cinemas na primeira semana de março de 2023, no Dia Internacional da Mulher. Gal será interpretada no longa pela atriz Sophie Charlotte. A cantora sempre foi discreta quanto a sua vida pessoal, mantendo a vida da família e relacionamentos na esfera privada. 

Gal era assumidamente bissexual e manteve namoros com homens e mulheres anónimos e famosos. Em entrevistas revelou nunca ter conseguido engravidar por um problema físico e realizou o sonho da maternidade através da adoção. Em 2007, adotou um menino de dois anos de idade, após visitar um abrigo no Rio de Janeiro, e o batizou de Gabriel. 

A importância de Gal Costa para a música brasileira é inestimável, graças a seu timbre de voz, afinação e vocais impecáveis. A cantora se tornou a musa da tropicália e da MPB em um cenário em que o público precisava de música para sua luta. Gal trabalhou com os maiores artistas brasileiros, carregando composições de seu amigo Caetano Veloso, de Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento.

[Imagem: Reprodução]

Sua sensualidade profana durante a ditadura, lhe rendeu o título de ídola da contracultura nos anos 70 e seu trabalho nesse tempo foi inovador com ruídos e misturas não típicas da música brasileira. A cantora nunca se prendeu a um gênero musical específico, o que a permitia sempre estar atenta ao que havia de novo e incorporar essas novidades ao seu trabalho. 

Gal sempre soube se atualizar para as próximas gerações, suas performances eram atemporais e sempre arrancava alguma reação do público, seja positiva ou negativa. Ela sempre será lembrada como uma das maiores cantoras brasileiras e seu impacto é percebido até hoje na música nacional e internacional. Gal Costa é e sempre será a maior musa da indústria fonográfica do Brasil.

É ético separar arte do artista?

Música é algo intrínseco no dia a dia do brasileiro, dados da Associação Brasileira de Música e Artes (ABRAMUS) indicam que quase 80% das pessoas escuta música todos os dias, sendo os estilos musicais preferidos: o Pop, Sertanejo e MPB, todos com quase 50% de aprovação entre os consumidores nacionais. O Funk tem seus fãs, mas não é todo mundo que escuta no fone, apenas em situações sociais.

Com tanta música rodando, será que conhecemos todos os músicos que ouvimos diariamente? Por trás de toda obra existe um indivíduo que a carrega, e mesmo que o consumo de cantores que não tenham a “ficha limpa” seja inocente, a receita deste consumo segue indo para suas mãos. Mas quais as consequências deste consumo? Ou nem existem consequências?

Assim como tudo, existem os dois lados desta moeda. O autor Roland Barthes, que escreveu o livro “A Morte do Autor”, defende a ideia de que os elementos utilizados pelo artista para criar sua arte são anteriores a ele, quem insere significado à obra é o público que a consome, a partir de suas próprias vivências. A obra, assim que inserida no mundo, deixa de ter um dono – essa “morte” do autor possibilita que este conteúdo não fique limitado a apenas um ponto de vista, entregar toda a significação da obra para o autor é, de certa forma, impor um limite e uma finalização a ela. Barthes ainda diz que artistas são seres humanos propensos a erros, mas que podem evoluir, logo, restringir todo o trabalho de alguém por seus erros não seria correto.

Pensando de outra forma, existem infinitos músicos talentosos espalhados pelo globo, dar dinheiro, reconhecimento e fama para alguém que tenha qualquer desvio de caráter é realmente necessário, considerando o mar de opções? É inegável que os artistas colocam seus sentimentos, experiências, referências e considerações sobre contextos atuais em suas obras, logo, é ambíguo dizer que o autor entrega sua obra para que o público a signifique, sendo que possui um significado para si próprio.

Eles dependem de seus números para sobreviverem na profissão, é a audiência que escolhe quem prospera, se este público deixa representações preconceituosas ou criminosas no topo, a visão da impunidade será cada vez mais clara: Não importa o que este artista faça, ele continuará vendendo e se sustentando de sua arte.

Trazendo para a realidade

Para exemplificar o problema utilizando a indústria musical, é possível citar o caso de Chris Brown. O rapper teve um relacionamento de dois anos com a cantora Rihanna, na noite anterior à cerimônia do Grammys de 2008, eles tiveram uma briga séria e Rihanna foi agredida pelo namorado, saindo muito machucada e traumatizada do episódio. Mesmo com a repercussão e comoção pelo caso, Chris seguiu sua carreira musical e é sustentado por ela até hoje, tendo até a história contada a partir de seu ponto de vista no documentário ‘Chris Brown: Welcome To My Life’, em que constrói um arco de redenção e arrependimento sobre o ocorrido.

[Imagem: Getty Images]

Um exemplo mais recente são as problemáticas ao redor da figura mais caótica do momento: Kanye West. Entre falas antissemitistas, fotos com uma camiseta escrito “White Lives Matter” (vidas brancas importam), ironizando o movimento ativista “Black Lives Matter” e questionamentos sobre o caso de George Floyd, o cantor teve contratos suspensos com diversas marcas, incluindo a Adidas, Gap e Balenciaga. Essas suspensões resultaram em uma perda de 250 milhões de euros, aproximadamente 1,3 bilhão de reais, fazendo com que Ye saísse da lista de bilionários.

Trazendo para o cenário nacional, durante uma viagem para o arquipélago de Fernando de Noronha em setembro de 2018, a cantora Luísa Sonza pediu um copo d’água para uma hóspede negra que estava passando pelo banheiro, aparentemente a confundindo com uma funcionária da pousada onde realizaria um show. O caso foi categorizado como racismo estrutural, onde Luísa assumiu que a advogada Isabel Macedo de Jesus seria uma funcionária do local por ser negra, desconsiderando a alternativa que seria uma hóspede, dado seu tom de pele.

Na ocasião, Luísa não assumiu seu erro e manteve o caso em sigilo até 2020, quando veio à tona nas redes sociais e a mesma desmentiu as acusações. Foi apenas em 2022 que se retratou postando um vídeo se desculpando à vítima. Isabel processou Luísa e a pousada por danos morais e o caso se encerrou apenas em setembro deste ano.

[Tradução: “Você já ouviu falar sobre a ‘A Morte do Autor’?” “UAU” “Eu sinto muito” | Imagem: Mimi and Eunice]

E aí, dá para separar a arte do artista? Independente do lado que escolher, o importante é manter o olhar crítico sobre as obras e seus autores, essa atenção faz com que eles fiquem atentos a o que estão fazendo e disseminando para o mundo. O movimento contra a intolerância e preconceito não pode parar nunca, principalmente no meio artístico.

[Crítica] ‘Midnights’: os sonhos e pesadelos de noites em claro

Para a felicidade dos fãs da loirinha, Taylor Swift lançou seu décimo álbum de estúdio, Midnights, na última sexta-feira (21). O disco conceitual passa por histórias de 13 noites sem dormir ao longo da vida da artista e transita pelas madrugadas, tendo a meia noite como o maior símbolo do projeto.

No anúncio do álbum, Taylor o descreveu como “uma coleção de música escrita no meio da noite, uma jornada através de terrores e sonhos doces. Para todos nós que lançamos e viramos e decidimos manter as lanternas acesas e ir em busca – esperando que apenas talvez, quando o relógio bater às doze… nós nos encontraremos.”

O disco conta com 13 faixas (e 7 faixas bônus), divididas em lado A e B, e com uma única colaboração especial de Lana Del Rey. O projeto tem 6 produtores principais, Jack Antonoff, Jahaan Sweet, Keanu Beats, Sounwave e Taylor Swift. A masterização é feita por Randy Merrill e a mixagem assinada por Șerban Ghenea.

Além de Taylor como escritora creditada, o álbum tem como participações nas letras Jack Antonoff, Jahaan Sweet, William Bowery (pseudônimo do namorado da artista, Joe Alwyn), Keanu Beats, Lana Del Rey, Sam Dew, Sounwave e a atriz Zoë Kravitz.

A primeira faixa de Midnights é Lavender Haze, marcando a entrada do disco como um álbum pop. A música é inspirada na expressão “lavender haze”, que nos anos 50 era associada ao sentimento de estar apaixonada. A artista declarou que viu a frase em um episódio da série Mad Men e achou uma definição muito bonita do amor. A canção fala sobre não abandonar esse sentimento e o proteger a todo custo, ignorando os aspectos negativos que vem com ele. Taylor também cita seu relacionamento de 6 anos com o ator Joe Alwyn e todos os esteriótipos e rumores que teve que ignorar.

A segunda música é Maroon, uma faixa pop que estabelece conexão com a metáfora de cores usada na canção Red, do seu quarto álbum de estúdio. Em Red, a cor vermelha intensa é usada para descrever o fervor do amor, já em Maroon, o tom de vermelho ganha mais complexidades e descreve um relacionamento mais maduro e que de alguma forma foi perdido. 

Anti-Hero é a terceira faixa e lead single do projeto, a canção que aborda as inseguranças da artista tem uma abordagem bem honesta e quase satírica sobre o que ela mais odeia em sua vida. A música ganhou um clipe no mesmo dia do lançamento do álbum que foi escrito e dirigido pela artista. 

Na produção, a persona popstar de Taylor a assombra de várias maneiras e o vídeo contém inúmeras ironias sobre a carreira e vida da cantora. Além disso, Anti-Hero fez mais de 17 milhões de streams no Spotify, debutando no topo do chart global da plataforma e quebrando o recorde maior estreia de um single na história da plataforma.

Seguimos com Snow on The Beach, a canção com a participação de Lana Del Rey. A faixa fala sobre duas pessoas se apaixonando ao mesmo tempo, sentimento que parece tão surreal e mágico que se assemelha com a sensação de ver neve caindo na praia. Snow on The Beach é uma música pop moderna mais calma que mostra os vocais das duas artistas, mesmo com a colaboração de Lana sendo mais discreta do que o esperado. 

You’re on Your Own, Kid é a quinta música do projeto, que acompanha uma pessoa mais jovem em busca do amor. A faixa que vai crescendo sonoramente, debate a solidão da juventude e o destaque vai para a letra na ponte da canção. Nos versos, “You’re on your own, kid; You always have been.” (Você está por conta própria, garoto. Você sempre foi; em português) é possível resumir a intenção da canção.

A sexta música é Midnight Rain, uma faixa pop que apresenta o uso de sintetizadores em seu início e refrão, uma produção bem diferente na carreira da artista. A letra da canção fala sobre se lembrar de um amor passado, em que algumas noites Taylor contempla essa relação que já acabou por suas incompatibilidades.

A sétima faixa é Question…? , que inicia com uma interpolação de Out Of The Woods, do álbum 1989. A canção pop com melodia bem definida, traz na produção elementos diferentes como sintetizadores e palmas. Os versos são a incansável busca de respostas para algumas questões de um relacionamento passado que parecem assombrar a artista.

Vigilante Shit é a oitava música, com a sonoridade mais obscura do projeto, ela aborda o lado da vingança, que lembra muito seu disco Reputation. Na letra escrita unicamente por Taylor Swift, o eu-lírico se vinga de um amor passado e ajuda outras mulheres a fazer o mesmo. A faixa tem tudo para se tornar queridinha pelos fãs, já que vários versos tem potencial para viralizar nas redes sociais. 

Continuamos com Bejeweled, a canção mais animada e com uma óbvia mensagem positiva de Midnights. Nela, a artista sabe muito bem o seu valor e após situações frustradas em seu relacionamento, vai atrás do que realmente merece. O recado é claro, Taylor sabe que pode brilhar em qualquer espaço e qualquer interesse romântico deve entrar na fila pela sua atenção. A produção acompanha a ideia da letra, transportando o ouvinte para um mundo que parece estar cheio de brilho e glitter.

A décima canção é Labyrinth, uma faixa sobre o medo de se apaixonar. Seja por não ter superado um amor antigo ou pela velocidade em que se inicia um novo relacionamento, Taylor exibe seus medos e inseguranças em ter uma nova paixão pelo medo do fim. A produção da música brinca com os vocais da cantora, o que traz elementos interessantes à canção.

O disco segue com Karma, conceito conhecido pelos fãs da artista. A expressão indiana que simboliza que toda ação tem uma consequência, pode ser associada a uma vingança feita pelo universo. Taylor mostra sua versão de karma, que para ela é um sentimento divertido e tranquilizante, mas pode ser para os desafetos de sua carreira um grande problema.

Sweet Nothing é a décima segunda faixa, que mostra um pouco da dinâmica do relacionamento entre Swift e Joe Alwyn, além de ser escrita pelos dois. O namoro deles é mantido em torno de muita privacidade, exatamente pelo caos e curiosidade acerca da vida amorosa da cantora. A canção aborda a tranquilidade e facilidade da relação, além de enfatizar que Joe nunca teve alta cobranças em relação à artista.

A última faixa é Mastermind, que traz o encerramento do projeto com uma canção definidora da personalidade da artista. Na letra, as habilidades de Taylor em controlar e planejar o futuro são usadas para encantar uma nova paixão, mas os fãs sabem que a cantora é conhecida por ser uma verdadeira gênia em planejar sua carreira. Os easter eggs ou pequenas referências em seus clipes e músicas são essenciais e os fãs adoram decifrar todos os enigmas.

Para o lançamento do álbum, Taylor Swift lançou várias versões do disco com capas alternativas e faixas bônus. Midnights (3am Edition) foi a edição para as plataformas de streaming e download digital, que adicionou mais 7 músicas à versão standard. The Great War apresenta teclados sintetizadores bem característicos enquanto descreve um casal enfrentando a “guerra” e dificuldades no relacionamento, Bigger Than  The Whole Sky é uma balada pop que discute a perda de alguém importante e Paris é um pop raiz que fala sobre amor e a cidade do romance.

High Infidelity descreve um relacionamento instável e cercado de infidelidades dos dois lados, Glitch é uma das faixas mais sensuais do projeto e aborda uma amizade que evolui para o amor, assim como o relacionamento da cantora com Joe Alwyn, e Would’ve, Could’ve, Should’ve expressa o arrependimento de um relacionamento passado, tendo muitas referências com a faixa Dear John, escrita para o cantor John Mayer em seu álbum Speak Now. A última faixa bônus é Dear Reader, que como encerramento do disco deluxe tenta dar ao ouvinte alguns conselhos e lições de vida.

Todos os lançamentos de Taylor Swift estão acompanhados de muito sucesso e quebra de recordes, com Midnights não foi diferente. O álbum fez 185 milhões de streams no Spotify em seu primeiro dia, se tornando a maior estreia de um álbum na plataforma. Todas as 13 faixas da edição standard registraram 161 milhões de streams no Spotify, alcançaram o top 13 do chart global do streaming e se tornaram as 13 maiores estreias femininas na história do Spotify.

Midnights também se tornou o primeiro álbum de Taylor a alcançar o topo da Apple Music em mais de 100 países e quebrou o recorde de disco com maior streaming no primeiro dia de lançamento na plataforma. De acordo com Hits Daily Double, o projeto tem a previsão ser o disco mais vendido em uma semana nos Estados Unidos, depois da era dos bundles.

No Metacritic, o disco alcançou a nota 85 com 23 críticas, sendo só duas delas medianas em relação ao álbum. A revista Rolling Stones atribui ao Midnights nota máxima e o descreveu como um “deslumbrante synth-pop”, com letras sobre uma história de amor e um enredo de vingança. Já o New York Times, com a resenha de nota mais baixa para o álbum, apontou a familiaridade da sonoridade com outros projetos da carreira de Taylor e que Midnights seria uma aposta segura na discografia da artista.

[Imagem: Reprodução]

Depois de uma temporada experimentando em outros estilos musicais com Folklore e Evermore, Taylor Swift finalmente abandona o folk alternativo e volta para uma aguardada era pop. Midnights não era um lançamento esperado para tão cedo, já que a cantora vem regravando seus discos nos últimos anos. Mas traz uma boa surpresa para os fãs e movimentação na indústria musical.

Em geral, o destaque do disco vai para o liricismo, habilidade reconhecida no catálogo de Taylor. As letras são o ponto alto da maioria das canções, seja pela ironia ou genialidade nas rimas. Como tema central, a cantora explora a autocrítica, suas inseguranças e sua imagem pública. Mas deixa espaço também para vingança, autoconfiança, paixão e o fim dos relacionamentos. 

Midnights pode ser considerado um álbum de confissões pop, abordando as histórias das melhores e piores noites de Taylor. Na produção, os elementos são sutis, mas suficientes para deixar os ouvintes intrigados. O disco é uma boa adição a sua discografia e age como um check-in de onde a artista se encontra atualmente. O resultado é um projeto pop maduro e honesto, cheio de bons momentos.

A volta da era Sad Girl na indústria musical

Quem nunca, em algum momento de sua vida, foi atrás de uma música triste para escutar enquanto passa por uma situação triste e complicada? O estilo musical Sad Girl tem como público alvo esses tipos de pessoas; aquelas que recorrem às letras melódicas como uma forma de lidar com o sofrimento ou, em alguns casos, até chorar ainda mais durante os três ou quatro minutos daquela canção.  

Seja qual for o intuito da pessoa ao ouvir esse gênero musical, a indústria que promove esse tipo de música vem crescendo com uma força absurda, trazendo consigo alguns nomes populares como Billie Eilish, Lana Del Rey e Olívia Rodrigo. O que as três têm em comum? Todas fazem músicas cativantes com que muitos conseguem se identificar. 

Existe um certo prazer, mesmo em tempos de sofrimento, em encontrar aquela música que se encaixa com tudo aquilo que está sendo sentido. 

 [Imagem: Reprodução/Jillions]

No entanto, esse estilo Sad Girl não é exatamente algo novo. Os anos 90 foram importantes para que muitas mulheres, muitas vezes excluídas, emergissem na indústria musical. Fiona Apple com seu álbum Tidal foi um grande sucesso pelo mundo. A jornalista Rebecca Haithcoat afirmou em matéria escrita para a Spin que se sentia melhor quando via que: ” não era apenas eu que se apaixonava por caras idiotas, se sentia triste, não gostava do seu corpo, e não era perfeita” . 

Fiona tinha apenas 18 anos quando suas músicas estouraram. Ou seja, a cantora estava naquela fase em que decepções amorosas da adolescência são constantes. Esses acontecimentos misturados à uma capacidade magnífica de escrever e cantar foram a receita perfeita para o seu sucesso. Muitas garotas com os corações partidos conseguiam sentir tudo aquilo que a Apple cantava. 

Fiona Apple [Imagem: Reprodução/ Célula Pop]

Atualmente, quando se fala desse estilo musical, é impossível não lembrar de Lana Del Rey. A cantora e compositora americana está há mais de 10 anos produzindo músicas melancólicas de sucesso. Suas canções trazem aspectos da década de 1940 de Hollywood, além de se inspirar  em grandes artistas como Elvis Presley, Janis Joplin e Amy Winehouse. E como consequência de sua genialidade, Del Rey carrega consigo quatro Grammys

Video Games e Blue Jeans foram as duas responsáveis por realmente lançar Lana na indústria musical, iniciando uma nova fase do pop americano. A cantora conseguiu, de forma inigualável, mesclar decepções amorosas com outros assuntos mundanos, como inseguranças pessoais.  

”Você ainda me amará mesmo quando eu não for mais jovem e bela? Você ainda me amará mesmo quando tudo o que eu tiver for uma alma envelhecida?”, escreveu a cantora em Young and Beautiful.  

Outro feito de destaque de Del Rey é conseguir misturar, de forma harmônica, gêneros como o melancólico com o hip hop. Em entrevista cedida à Pitchfork, Lana contou que no início de sua carreira, suas músicas foram muito rejeitadas por gravadoras, pelo fato de não se encaixarem no padrão massificado do pop. Contudo, atualmente, é considerada por seus fãs uma das maiores artistas americanas, com mais de 110 canções lançadas.  

Lana Del Rey [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

No final de 2021, falou-se ainda mais desse estilo após o lançamento do álbum de Adele e Taylor Swift, 30 e Red (Taylor’s Version) respectivamente. Ambos trazem músicas que expressam decepções amorosas de forma singular. Taylor traz a visão de uma jovem de 21 anos (idade que a cantora tinha quando gravou o álbum pela primeira vez) com coração partido e Adele, uma visão mais amadurecida do tema.  

Mesmo que o Sad Girl Pop não seja algo novo, a forma como milhares de pessoas estão se apegando a esse tipo de música é. A indústria cresceu de forma significativa após a chegada de Billie Eilish no mercado. Billie, assim como Fiona Apple, era apenas uma adolescente quando estourou mundialmente. Mas Billie tinha algo que a Apple ainda não tinha: milhares de plataformas de streaming que possibilitam que suas músicas sejam ouvidas em, praticamente, qualquer lugar do mundo.

É quase impossível atribuir quem foi a criadora do estilo Sad Girl, mas uma coisa é fato: Billie Eilish é uma das maiores propagadoras desse tipo de música nessa geração. Em seu primeiro Grammy, a cantora fez história. Conquistou cinco troféus, se tornando uma das artistas mais jovens, e a primeira mulher a conseguir tal feito.

  Billie Eilish no Grammy Awards [Imagem: Reprodução/Vogue Magazine]

Uma parte do grande sucesso das músicas Sad Girl se deve ao fato de que há forte identificação por parte do público com as letras tristes, que trazem a verdade nua e de forma direta; sem floreios, sem eufemismos. A música, arte criada há milhares de anos atrás, foi feita com o propósito de trazer alegria e diversão. Talvez essa ruptura com o intuito original da musicalidade seja outro grande atrativo para os ouvintes. Ou talvez cantar esse tipo de música seja apenas uma forma de catarse.

Com origem grega – kátharsis – o termo significa purificação do espírito humano; é um método de expulsão. Nesse caso, às vezes os ouvintes só estão buscando expulsar todo o sentimento que estão sentindo para fora de si mesmos.

No entanto, não é necessário que a pessoa esteja sofrendo para gostar e ouvir esse tipo de música. Afinal, se elas são tão boas assim, a tendência é que muitos passem a conhecê-las gostem cada vez mais. Por isso, a Frenezi preparou uma playlist incrível, Sad Girl – Frenezi Style, para os amantes da melancolia que trazem as músicas nessa vibe Sad Girl, para que ela possa ser escutada no carro, no banho, na cama… onde a vontade de ouvir e cantar surgir. 

Do Gramofone ao Digital: Reproduzindo Inovação

Com todas as inovações na tecnologia e na internet, seria muito difícil imaginar um mundo sem que a música acompanhasse essas mudanças em tempo real. A maneira de gravar e escutar música tiveram um grande progresso e pode-se dizer que ficou bem mais fácil, até porque os discos de vinil eram caríssimos e nem todo mundo conseguiu comprar um Ipod na época do seu lançamento. Além disso, imagina quantas fitas eram necessárias para gravar todos os programas de sexta-feira da MTV no lançamento de um esperado clipe só pra assistí-lo mais tarde novamente?!

As mudanças foram muitas, mas através de uma pequena linha do tempo é possível resumir como a música foi se transformando e inovando seu jeito de chegar no ouvido das pessoas. 

O gramofone foi uma das maiores inovações na indústria musical do século XIX. Ele permitiu que muitas pessoas ouvissem música em casa, sem precisar ir a um concerto ou show. O som não era dos melhores e nem era ao vivo, não era capaz de marcar temporalidade, mas a ideia de ouvir uma música pré-selecionada no conforto da sua casa era bem legal para a época. Foi um dos primeiros equipamentos que permitiu que a música fosse escolhida pelo ouvinte, sem que seguisse necessariamente a sequência que uma rádio tocava, por exemplo. 

Gramofone do século XIX.
[Imagem: Reprodução/Pinterest]

Depois dele surgiram os LPs de vinil, aproximadamente na década de 1940 e também foram uma super inovação tanto em qualidade de som quanto na facilidade de ouvir as músicas através dele. Os vinis foram a principal maneira de escutar música durante muito tempo, principalmente pelo intervalo que um disco poderia ficar rodando e a grande quantidade de canção que poderia ser gravado nele, além de poder comprar quantos quisesse e quando um artista favorito lançava um álbum novo. 

O aparelho que permitiu que o disco de vinil fosse reproduzido foi a Vitrola, um instrumento bem parecido com o gramofone, mas muito mais moderno. O gramofone funcionava a base de uma manivela, que esticava as cordas metálicas e fazia o som sair pelo alto falante. Já a vitrola, tinha a caixa de som, alto falantes e controles acoplados e não precisava de uma manivela, visto que a reprodução das músicas era feita de forma automática, por motores a base de eletricidade. 

Disco de vinil tocando em vitrola
[Imagem: Divulgação/Matthias Groeneveld/Pexels]

Com os vinis foi criada a estereofonia, ou mais conhecido como stereo, um sistema de reprodução de áudio que deixou uma sensação mais real e melhorou o som gravado, criando um envolvimento espacial entre o ouvinte e a música. Apesar de ter sido substituído mais pra frente, os vinis voltaram à moda recentemente com uma proposta mais vintage e bem aesthetic e muitas lojas e brechós ainda vendem esse tipo de disco. 

As fitas cassetes ou K7 foram uma revolução lançada pela Philips em 1960, pois com uma fita virgem era possível gravar ou criar sua própria música, sem precisar de uma mídia anteriormente disponível. Muita gente começou a fazer mixtapes ou até seleções usando os gravadores portáteis como o Walkman, criado pela Sony, que além de facilitar na gravação foi uma febre para quem curtia ouvir uma música nos fones de ouvido.

Fitas cassete
[Imagem: Reprodução]

Com os Compact Discs, ou mais conhecido como CDs, as outras mídias foram substituídas pelos aparelhos que reproduziam esse tipo de disco em casa ou na rua, como o Discman. Esses tipos de disco ficaram muito tempo em alta e foram a melhor opção para ouvir música durante muito tempo. Muito da sua fama se deu quando os aparelhos de rádio dos carros adotaram a entrada de CD

[Imagem: Reprodução/Douglas Heriot] 

Com a modernidade surgiram os MP3 Player, sendo o primeiro, o MPMan lançado pela empresa sul coreana SaeHan Information Systems em 1997. Logo depois, o iTunes foi criado para baixar e comprar músicas em computadores e 8 meses depois o iPod finalmente foi lançado trazendo uma super inovação: enorme armazenamento de músicas em formato digital. 

Poucos anos depois, a sensação de “comprar música” como uma coisa física foi desaparecendo lentamente e hoje quase ninguém usa mais CDs ou iPod, mas aplicativos de música pagos ou gratuitos que dão acesso a todo tipo de música, das mais antigas às mais atuais. O estilo de reprodução e de gravação das canções mudou drasticamente, e hoje, como a maioria das coisas na internet, se tornaram de fácil acesso para o público em geral. 

A criação e a notoriedade do YouTube pode ser considerada a maior virada na maneira de produzir e consumir conteúdo musical. Com uma indústria fonográfica cada vez mais evoluída, o surgimento do YouTube em 2005 e o encerramento das transmissões na tv aberta pela MTV brasileira em 2013, marcaram o fim de uma era e o início de uma nova, trazendo muitos benefícios para os amantes da música, mas também para todos aqueles que queriam produzir ou descobrir novas tendências. 

Página inicial do YouTube no ano de seu lançamento, 2005
[Imagem: Reprodução]

Considerado a Billboard da nova geração, o YouTube deu início a grande acessibilidade que se tem hoje nas redes sociais e nos aplicativos de música. A grande questão do site é a sua facilidade em viralizar muito conteúdo em um curto período de tempo, o que já fez muitas pessoas terem seus quinze minutos de fama. 

Em 2011, por exemplo, a californiana Rebecca Black lançou o hit mundial Friday, que viralizou de maneira grandiosa. Tempos depois o clipe no YouTube foi o vídeo com mais dislikes da história, mas não foi o suficiente para abalar a cantora que ainda faz parte do mundo da música. Seu último single Read My Mind foi lançado no final de 2021. 

Outra música muito viral mas por pouco tempo, foi Gangnam Style do coreano PSY. Com dancinha e tudo, o hit chegou ao Guinness World Records por ter sido o vídeo mais curtido no YouTube em 2012, o primeiro a alcançar a marca de um bilhão de curtidas.

Com essa grande fama, a plataforma também abriu espaço para outros grandes aplicativos de reprodução. Um pouco diferente da proposta do precursor, Spotify, Deezer, SoundCloud e outros apps de streaming tem como principal objetivo a reprodução de músicas e mais recentemente, podcasts. 

A internet fez isso, redescobriu novas maneiras de escutar música, mas também de se relacionar com ela em todos os sentidos. Nesse assunto, é impossível não mencionar a grande estrela dessa geração: o TikTok. O aplicativo surgiu exatamente para conectar os usuários com a música. Com vídeos curtos, ele proporciona novas interações entre pessoas e sons, que além de conteúdo criativo também tem um papel na revelação de novos artistas. 

Acessível: a palavra perfeita para descrever a música na era da internet e da tecnologia. Nessa geração, as canções se desprenderam de um conceito físico, não é mais comum ir a uma loja comprar um disco e por mais que a compra ainda ocorra de forma online, é muito menos impactante. Além disso, a universalidade que a reprodução musical alcançou nos últimos tempos também revela um caráter onipresente. 

No carro, em casa, na caixa de som ou no fone de ouvido, a música sempre está presente, e se fez mais ainda com essa acessibilidade que a internet e as inovações tecnológicas proporcionaram. Ela ajuda a expressar e a trabalhar com sentimentos e por isso todos veem uma grande necessidade de estar conectado com essa arte. E é por essa necessidade que a evolução da indústria acompanhou a humana e provavelmente continuará seguindo as grandes inovações da humanidade. Será interessante observar quais serão os próximos passos na evolução dessa arte e na maneira como todos se relacionam com ela. 

Revolução do rádio na indústria musical

A história do rádio começa em 1860, quando as ondas de rádio foram descobertas pelo físico escocês James Maxwell, passando por sua real difusão durante a Primeira Guerra Mundial, até a chegada das transmissões no Brasil, em 1923. De lá para cá, a abordagem e influência desse meio de comunicação mudou bastante, a rádio ergueu carreiras e criou grandes sucessos com sua disseminação em massa. Mesmo que possa parecer uma indústria morta, ela apenas está se adequando, mas mantém sua hegemonia quando o assunto é difusão de hits.

A Era de Ouro do rádio aconteceu mundialmente a partir de 1927, quando passou por um processo de massificação por conta da possibilidade de transmissões sonoras de aparelhos que tocavam os discos direto no microfone, profissionalizando o meio com contratação de artistas, criação de grades com novelas, programas humorísticos e de auditório.

Com a chegada de outros artifícios midiáticos, como a TV e a internet, a rádio foi ameaçada de extinção diversas vezes, mas conseguiu e ainda consegue se adequar às novas realidades. A mais nova atualização é a transição de formatos, vindo do analógico ao digital. As emissoras possuem sites que transmitem ao vivo sua programação, seja ela recheada de músicas, entrevistas, notícias ou debates, podendo até mesmo conter imagens. Essa modalidade trouxe grande benefício, uma vez que rádios locais puderam se alastrar por toda internet, não apenas a pequena porção que antes cobria, expandindo suas barreiras geográficas e levando seu conteúdo a outros públicos, sem fronteiras.

A onda de podcasts também beneficiou o formato, fazendo com que o público voltasse a ser ouvinte. Seja escutando nas plataformas de áudio ou acompanhando o áudio do Youtube sem, necessariamente, estar vendo a imagem, os podcasts trazem de volta o storytelling ao rádio, despertando o interesse do ouvinte para ouvir a história completa, saber mais sobre o assunto, conhecer a pessoa entrevistada, todos esses estímulos atiçam a curiosidade, tornando mais pessoas fiéis ao formato – em sua versão atualizada.

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Na indústria musical, a rádio continua sendo carro forte na disseminação de músicas – com certeza não em seu formato analógico, mas em suas segmentações. Com a facilitação do processo de abrir sua própria empresa, foram criadas diversas rádios digitais que cobrem cada um dos gêneros musicais, dando oportunidades a novos artistas independentes, que conquistam o público nichado da estação sem precisar de grandes gravadoras fazendo o marketing por trás, evitando a polarização de gostos.

Polarização? Sim, em tempos remotos, quando o modelo analógico era forte, apenas músicas e gêneros rentáveis com grandes gravadoras por trás, como a Warner, Sony, Som Livre e Universal entravam na programação, para atingir superficialmente o público, fazendo-o focar apenas no que eles gostariam que fosse escutado, repetindo diversas vezes a mesma música e artista até que se tornasse um sucesso.

A polarização entra no quesito de que cada rádio fazia isso com um gênero ou artista específico, criando sucessos de extremos diferentes, enquanto músicas que seguiam a mesma linha, mas sem nenhum patrocínio, eram ignoradas. E se até os que seguiam a linha eram ignorados, os criativos que faziam obras fora da caixa simplesmente não existiam.

O formato criava personalidades endeusadas e muita rivalidade, uma vez que o espaço dentro da mídia era extremamente disputado e caro. Nesta nova fase, quem se arrisca e tem as ideias marketeiras mais criativas é que ganha destaque, indo parar nas rádios e grandes playlists organicamente, fruto da massificação do trabalho na internet.

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Isso certamente dificulta o trabalho das rádios, que antes criavam as tendências e agora tem que acompanhá-las para não ficar para trás, enquanto ainda luta com a pirataria e as novas leis de autorização do uso dessas músicas.

O que antes estava na rotina do indivíduo agora tem que disputar com diversas distrações para arranjar uma migalha de atenção, e nada cria mais relevância do que se sentir visto. A estratégia das emissoras para manter a audiência é um sistema de participação do ouvinte, quando este se sente parte da programação e tem seus pedidos atendidos, instintivamente cria um laço emocional com o programa e seus apresentadores, resultando na fidelidade deste indivíduo, que irá inserir o rádio em sua rotina meticulosamente – a atenção está nos detalhes, e o reconhecimento é uma grande porção desta migalha.

Entre trancos e barrancos, o rádio ainda vive! Assim como todos os antigos meios de comunicação, o rádio precisou se atualizar para continuar em vigor, abandonando antigos costumes e abraçando a globalização, tudo isso precisando manter a essência do emissor e sua ligação com o receptor. Essas mudanças foram drásticas e tem seus pontos positivos e negativos, mas não anulam o esforço de emissoras e aspirantes a manter o sistema ativo, mesmo que com diferentes dinâmicas.

A realidade fora dos palcos: vícios, ansiedade e depressão

No início deste mês de setembro, o Rio de Janeiro recebeu mais uma edição de um dos festivais mais famosos no mundo da música: o Rock In Rio. Dentre os artistas cotados para as apresentações no palco mundo, Justin Bieber e Demi Lovato se destacaram. Não apenas pelo fato de suas performances terem sido impecáveis e cheias de talento, mas também por conta do que aconteceu depois destas.

Ambos os cantores se manifestaram em suas redes sociais falando sobre exaustão física e mental e como isso afetaria suas respectivas turnês. Bieber optou por cancelar os próximos shows e Demi afirmou que essa seria sua última. 

O tema saúde mental é algo que passou a ser muito debatido ao longo dos últimos anos, principalmente na indústria musical. Em 2019, uma distribuidora digital sueca chamada Record Union fez um estudo e concluiu que dentre os 1500 músicos analisados, 73% destes possuem algum tipo de doença mental, principalmente na faixa etária dos 18 aos 25 anos. 

As doenças mais comuns são: ansiedade e depressão. Transtornos que afetam tanto Bieber quanto Demi. Dentro da pesquisa, apenas 19% afirmou ter procurado um tratamento adequado, enquanto 50% admitiu se automedicar, abusando de remédios, álcool e de drogas, lícitas ou não.

 O astro canadense e a ex-estrela da Disney estão longe de serem os únicos afetados pelas pressões da carreira e os dramas que os cercam. Artistas como Sabrina Carpenter e Joshua Bassett são atacados em suas redes sociais constantemente desde o início de 2021, após polêmica envolvendo um triângulo amoroso; fator determinante para suas saúdes mentais. 

Justin Bieber: pausa em Justice Tour por questões de saúde

O astro canadense, em seu documentário Justin Bieber: Next Chapter falou abertamente sobre os problemas que ele enfrenta com sua saúde mental. Em 2020, o cantor revelou que ao longo de sua adolescência chegou a ter pensamentos suicidas por conta de toda pressão e do bullying que estava sofrendo.

Recentemente diagnosticado com a síndrome de Ramsay Hunt, doença responsável por causar paralisia facial e perda auditiva, Justin decidiu dar uma pausa em sua agenda lotada de shows, a fim de se concentrar nos tratamentos da síndrome para melhorar o mais rápido possível. Uma atitude que ao mesmo tempo foi muito compreendida pelo seu público, também foi altamente criticada. 

Após uma melhora significativa, Bieber retomou a Justice Tour e inclusive realizou o sonho de muitas beliebers – fãs do astro – vindo  ao Brasil, no início deste mês. O artista entregou um show espetacular na edição do Rock in Rio de 2022, performando por mais de 1h com uma setlist de 22 músicas. No entanto, os fãs perceberam o cansaço que o cantor apresentou ao longo de sua apresentação. Justin estava visivelmente abalado. 

Justin Bieber no Rock in Rio [Imagem: Reprodução/Instagram]

Após sua apresentação no Rio de Janeiro, o cantor confirmou o que a mídia já estava especulando. A Justice Tour estaria sendo suspensa mais uma vez. Os shows que aconteceriam na capital paulista nos dias 14 e 15 de setembro foram cancelados. Bieber, em seu Instagram, se desculpou e agradeceu o apoio de seus fãs.

Comunicado oficial da Time for Fun [Imagem: Reprodução/Twitter]

No entanto, nem todo mundo entendeu a decisão tomada pelo astro. Mais uma vez ele foi considerado como mimado e egoísta por, pasmem, priorizar sua saúde física e mental. Infelizmente, enquanto alguns torcem para que Justin Bieber fique bem, outros simplesmente não compreendem como ele pode agir dessa forma. Colocando o cantor em um patamar muito elevado, esquecendo-se de algo fundamental: Justin Bieber também é humano. 

Demi Lovato: uma jornada de vícios e depressão

Demi Lovato, após uma série de shows pelo mundo, anunciou em seu Instagram nesta última terça-feira (13) que está muito doente e que não consegue mais seguir com a carreira. “Essa próxima turnê será minha última, eu amo vocês e muito obrigada”, disse a cantora. A data prevista para o fim da Holy Fvck Tour é dia 6 de novembro deste ano.

A cantora americana Demi Lovato, em entrevista fornecida à Variety, contou sobre seu documentário Dancing with the Devil, que aborda a sua luta pela preservação de sua saúde mental e contra o vício. “Há dois anos enfrentei o momento mais difícil da minha vida e agora estou pronta para compartilhar minha história com o mundo inteiro. Pela primeira vez vocês poderão ver o meu ponto de vista sobre minha história de luta e cura. Sou grata por ter conseguido encarar meu passado e finalmente compartilhar minha jornada com o mundo”, declarou à revista.

A jornada de Lovato com transtornos em sua saúde mental começou quando a cantora trabalhava para o Disney Channel, em 2010. Além de lidar com a constante busca pela “perfeição”, lidava também com a bipolaridade. A artista foi afastada para um tratamento em Illinois para cuidar de sua bulimia, colapsos nervosos, automutilação e dependência de álcool e cocaína.
Demi contou, também, que quando mais nova chegou inclusive a performar embriagada e sob o efeito de drogas. Uma de suas apresentações mais elogiadas do single Give Your Heart A Break, no programa American Idol, a cantora estava totalmente fora de si. Ao longo desse período difícil, ela foi alvo de muitos ataques e críticas da mídia. Comentários de que a cantora “havia chegado no fundo do poço” foram recorrentes; fator que só contribui para a piora de seu estado.

Sabrina Carpenter e Joshua Basset após Drivers License

No ano passado, a cantora Sabrina Carpenter foi envolvida em escândalos amorosos juntamente com seu ex-namorado, Joshua Basset, e Olivia Rodrigo, que também namorou o cantor e ator em 2020. Os rumores de que Sabrina havia sido a responsável pelo rompimento do casal circularam por toda internet após o single drivers license, lançado por Rodrigo em janeiro de 2021.  

Na música, Olivia menciona que uma loira teria sido quem os afastou; os fãs logo concluíram que se tratava de Sabrina, uma vez que a cantora tinha sido vista com Basset várias vezes, inclusive em suas redes sociais. Com isso, Sabrina se tornou alvo de inúmeros ataques, além de ter sofrido ameaças de morte. A cantora, em entrevistas, falou que esses hates excessivos foram péssimos para sua saúde mental. Joshua, que também sofreu com muitos ataques, optou por não responder à cantora diretamente e pediu que seus fãs não jogassem hate em ninguém

Tanto Carpenter quanto Bassett compartilharam seus sentimentos por meio da música. Sabrina lançou o singleSkin”, que pode ser entendida como uma resposta direta à Olivia, levando em conta que a cantora menciona em sua canção: “Talvez loira tenha sido a única rima”. Fazendo alusão à drivers license

 ”Minhas músicas são um reflexo do que está acontecendo na minha vida. Gostaria que refletisse a força que pode ser encontrada em momentos difíceis”, disse Carpenter em entrevista à People Magazine 

Joshua lançou Lie, Lie, Lie e Crisis; ambas sobre todo o drama em que ele foi envolvido publicamente. ”Minha mãe me ligou, porque ouviu que estou recebendo ameaças de morte. Não sei que diabos devo fazer com isso. Gostaria de poder abrir meus olhos e esse pesadelo ter acabado. Mas você sensacionalizou e continua jogando lenha na fogueira”, escreveu Joshua Basset em Crisis.

Uma coisa é fato: pessoas públicas estão mais sujeitas a críticas e pressões externas do que qualquer um; e os cantores não são diferentes. Os cuidados com a saúde mental são essenciais para que os artistas consigam seguir na indústria musical. Felizmente, essa questão está cada vez mais sendo abordada pela mídia, e doenças como depressão estão parando de ser consideradas um tabu.

Quanto mais se fala sobre o assunto, mais informadas ficam as pessoas. Consequentemente, torna-se mais fácil procurar um tratamento. Esses são apenas  alguns, dos milhares de cantores, que convivem com transtornos em suas saúdes mentais. Cabe ao público compreender e respeitar que eles terem suas vidas publicizadas, não anula o fato que também passam por problemas como qualquer um.

Os virais do TikTok são o futuro da indústria musical?

Os novos hits do aplicativo são vazios e artificiais, será que ele vai mudar a maneira de fazer música?

Que o TikTok é um dos aplicativos mais usados hoje em dia não é novidade. A fama do aplicativo começou quando a empresa chinesa ByteDance comprou o Musical.ly, antiga plataforma com a mesma configuração do atual, em que os usuários faziam lipsync (como se fosse uma dublagem, sincronizando a música com os movimentos labiais) e transições com a câmera. Como o perfil desses usuários do app se manteve ativo, muita gente voltou a usar as mesmas contas no TikTok e a fama só foi crescendo.

Ele entrou em ascensão com a pandemia do COVID-19, que no isolamento fez os jovens buscarem outros meios de compartilhar suas vidas e fazer novas conexões. Alguns hits como Old Town Road e Say So começaram a viralizar no TikTok antes mesmo de qualquer outra plataforma, o que chamou mais a atenção do público e aumentou o número de streams nessas músicas. Esse artifício foi usado por muitos artistas, como Doja Cat, Pedro Sampaio e Megan Thee Stallion que aproveitaram a rapidez do aplicativo em levar conteúdo e começaram a usá-lo para alavancar suas canções.

Esses hits renderam muitas dancinhas e trends virais, que para quem usa o TikTok é impossível não saber a coreografia. Além disso, ele também abriu portas para muitos artistas desconhecidos ou até conhecidos com pouca influência na indústria musical, como Marina Sena, que ficou popular por Por Supuesto e Måneskin, banda italiana vencedora do The X-Factor Itália em 2016, que viralizou pelo cover de Beggin. No TikTok, os dois foram motivos de trends muito famosas que os levaram ao Rock in Rio 2022.

Mesmo com a procura do aplicativo por alguns cantores para aumentar o engajamento em suas músicas, outros se incomodaram com essa problemática de ter que criar músicas “para” o app. Muitos se pronunciaram sobre a cobrança das gravadoras por músicas que venham a viralizar no TikTok. Halsey foi uma das primeiras a falar sobre isso em um vídeo que postou no aplicativo. Nele, a cantora diz que mesmo estando há oito anos na indústria, sua gravadora só a deixaria lançar uma música a menos que conseguisse um vídeo viral usando-a.

Partes do vídeo publicado por Halsey no TikToK
Imagem: [Reprodução/TikTok Halsey]

Curiosamente esse vídeo viralizou e a música foi lançada nas plataformas. Muitos internautas comentaram que esse poderia ter sido um “viral do antiviral”. Essa expressão ficou famosa depois que um artigo publicado pelo site americano Jezebel, em que a autora do texto, Gabrielle Bruney crítica Halsey e outros artistas de denunciar seus empresários e gravadoras, mas conseguirem exatamente o que eles querem: “Esses astros deveriam ser premiados por atacarem os executivos enquanto aparentemente conseguem exatamente o que esses executivos queriam”.

No Brasil, a mesma coisa acontece. Os artistas começaram a lançar músicas propositalmente para o aplicativo, que acompanhadas de dancinhas viralizam muito rápido. O mais influente nessa “corrida” pelos hits foi Zé Felipe. Casado com a influencer Virginia Fonseca, ele lança a música com coreografia e ela posta todo dia um TikTok ou stories do Instagram dançando o novo hit. É um plano infalível.

O problema em torno disso é que muitos artistas começaram a entregar músicas sem conteúdo, com poucas palavras, refrões repetitivos e letras pobres, com muitos palavrões e obscenidades, o que foi muito criticado por uma parte dos usuários que pensaram no real objetivo da música na sociedade. A conexão que a canção deve proporcionar ao público foi se perdendo e elas estão se tornando cada vez mais superficiais.

Além da artificialidade das letras, as danças também surgiram com passos pouco criativos e normalmente com os mesmos movimentos em todas as coreografias, o que pode mostrar uma falta de repertório que a plataforma levou a essa arte. Há quem pense que o app pode ajudar a descobrir talentos, mas o que ele mostrou até agora foi a falta deles na vida real.

Muitos clipes como os de No Chão Novinha,  Build a B*tch e Chama Neném lançados recentemente para as músicas virais, tiveram a participação de tiktokers e poucos dançarinos, o que tira espaço daqueles que dedicam sua vida a isso. Mesmo que alguns deles tenham saído de academias renomadas de dança, eles já alcançaram o sucesso nessa área e poderiam ajudar quem também deseja crescer com a dança. 

Adele se pronunciou sobre isso à Apple Music, e se questionou: “Quem vai fazer música para a minha geração?”. Prestes a lançar o álbum 30, em 2021, a cantora comentou sobre os pedidos de sua gravadora para produzir músicas para o TikTok e respondeu considerando o público de outra geração e que não, necessariamente, está na plataforma: “Prefiro atingir pessoas que estão a meu nível em termos de tempo que passamos na Terra e outras coisas que passamos. Não quero adolescentes de 12 anos ouvindo este álbum. Ele é muito profundo”. 

O comentário de Adele mostra uma frustração diante a perda de identidade das músicas atualmente. Talvez essa questão dos virais do TikTok mostre que a indústria musical está a caminho de se desmanchar e perder seu conceito inicial de ser uma prática cultural que expressa os sentimentos através dos sons.

Antes tratada apenas como uma experiência, a música hoje é usada para várias outras atividades, o que foi majoritariamente influenciado pelo TikTok. Agora, só o tempo pode dizer se os virais do TikTok vão se tornar propulsores da indústria musical, já que a música é a essência do aplicativo, ou se ele vai mudar a maneira de fazer música.

Fanatismo: quando o amor de fã sai do controle

Ser fã é dedicar o seu tempo para admirar uma pessoa, grupo, ideia ou até mesmo um objeto. O sentimento que move as pessoas é muito difícil de decifrar e colocar em palavras. Muitas delas concentram suas vidas em torno de seus ídolos, seja criando fãs-clubes, fazendo mutirão de votação nas redes sociais ou acampando por meses nas filas dos shows e nas portas dos hotéis.

Os fãs amam o artista de forma intensa e o consideram uma pessoa próxima, assim os transformando em sinônimo de refúgio ou recompensa. Mas é preciso ter cuidado, há uma linha tênue entre amor e obsessão que pode ser cruzada com muita facilidade. Quando há o abandono da sua individualidade em prol de um artista, essa relação não se torna mais saudável. 

O fanatismo vem desse conceito, quando um limite é cruzado se desperta um estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer pessoa ou tema. Esse estado é perigoso e pode levar simples fãs a pessoas doentes e perigosas.

Outro ponto importante é que as celebridades e artistas, apesar de serem pessoas públicas, não estão a disposição a todo tempo de seus admiradores. Quando há a invasão desse espaço de privacidade, casos de assédio podem surgir. Ninguém pode tentar encostar e agarrar seu ídolo, só porque ele é seu ídolo. Esse é um dos limites frágeis que tornam o simples amor de fã em obsessão.

Desde os anos 60, quando se fala em fanatismo por estrelas da música, uma personalidade logo vem à cabeça: Elvis Presley. O artista sempre carregava hordas de fãs ao seu redor e sua casa, batizada de Graceland, atraia milhares de adoradores de seu trabalho. 

O filme Elvis (2022) de Baz Luhrmann representou em diversas cenas como era o caos provocado pelos fãs, seja em sua primeira apresentação até uma das últimas, dezenas de mulheres gritavam e enlouqueciam pela maneira que Presley dançava e cantava.

Trecho do filme Elvis (2022). [Imagem: Reprodução]

Outro fenômeno da música que provocou o frenesi entre os fãs foi a banda Beatles. Durante suas turnês mundiais que contaram com 18 países, 116 cidades e 250 shows, havia milhares de garotas gritando por eles. Em muitos momentos, os gritos delas chegaram a se sobrepor ao as vozes do quarteto, que na época não contava com equipamentos que amplificam suas vozes tão bem quanto acontece com as bandas atuais. 

A loucura foi tão grande que foi apelidada pela imprensa de Beatlemania, definida com a histeria e gritos agudos dos fãs, tanto em shows quanto durante as viagens do grupo. Há rumores, que os Beatles tipicamente viajavam para esses shows de carro blindado e a banda chegou a adotar clipes promocionais para seus singles para evitar as dificuldades de fazer aparições pessoais em programas de televisão na época.

Fenômeno conhecido como Beatlemania. [Imagem: Reprodução]

John Lennon, um dos integrantes da banda, chegou a se envolver em uma das maiores polêmicas de sua carreira na época. Quando durante uma entrevista ao jornal britânico Evening Standard, o músico disse: “Nós somos mais populares do que Jesus neste momento”. A afirmação, apesar de fazer sentido pela Beatlemania, provocou a ira das comunidades cristãs e até algumas estações de rádio mais tradicionais dos Estados Unidos pararam de tocar músicas dos Beatles.

Infelizmente, Lennon acabou sendo assassinado em 8 de dezembro de 1980 por um fã obcecado. O homem identificado como Mark Chapman, apesar de gostar dos Beatles, teria ficado indignado com as letras de canções como God e Imagine, principalmente por conta das relações feitas com a religião, onde o artista afirmava não crer em Jesus e na Bíblia.

No dia do atentado, o fã chegou a pedir um autógrafo para John Lennon antes de cometer o assassinato. O criminoso foi condenado a uma sentença de pelo menos 20 anos até prisão perpétua e teve todas as oportunidades para pedir sua liberdade negadas.

Memorial em homenagem a John Lennon em Nova York. [Imagem: Reprodução/Globo]

Nas décadas seguintes, muitas agitações de fãs foram comparadas com a Beatlemania, especialmente de boy bands como o One Direction, banda formada no reality show musical The X Factor, em 2010. O grupo que surgiu na época das redes sociais, foi um instante sucesso e quebrou vários recordes, colocando os singles nas paradas de sucesso.

O quinteto original era seguido por admiradores onde quer que fossem, fazendo com que alguns integrantes da banda tivessem dificuldade em lidar com a fama. Na maioria das vezes, tinham que evitar sair dos hotéis em turnês e ficavam trancados a maior parte em suas suítes privadas.

Em 2015, um dos integrantes do One Direction, Zayn Malik, anunciou sua saída da banda e acendeu um importante alerta para os limites da dependência emocional dos fãs. As directioners, como são chamadas as amantes da boy band, colocaram no Trending Topics mundial do Twitter a hashtagcut4zayn”

Os admiradores mais fanáticos se mutilaram e postaram fotos nas redes sociais para chamar a atenção do artista, pedindo desesperadamente o retorno de Zayn ao grupo. A reação extrema desses fãs foi motivo de preocupação de familiares e especialistas, que colocam os adolescentes como um público muito vulnerável quando são obcecados por alguma celebridade.

Directioners é o nome do fandom da boy band, One Direction. [Imagem: Reprodução/Vox]

Na mesma época em que One Direction foi um fenômeno, o cantor canadense, Justin Bieber, também chamava atenção por suas inseparáveis fangirls. A histeria ganhou até o nome de Bieber Fever, caracterizado por ser o estado em que os fãs ficavam obcecados pelo jovem artista.

Atualmente, os conhecidos por seus fãs enlouquecidos são os grupos de K-Pop. Graças a internet e às redes sociais, o ritmo coreano começou a fazer sucesso em todo o mundo e conquistou um verdadeiro exército de fãs para suas turnês. Em premiações, shows lotados e em fancams nas redes sociais, você pode encontrar algum apaixonado pelos grupos BTS, BLACKPINK, EXO, Twice e NCT.

ARMY é o nome do fandom do grupo BTS. [Imagem: Reprodução]

É cada vez mais comum ver essa cultura de fanatismo crescer entre os fandoms, mas é preciso ter cuidado pois esse comportamento pode ter “tendências viciantes” e “ações de perseguição”. A todo tempo os fanáticos por um artista tentam provar sua devoção às celebridades sem se lembrar que os famosos podem errar, como qualquer um, e isso causa um desequilíbrio nos fãs por isso.

Antigamente, era mais difícil para o fã acessar o artista, mas isso mudou com as mídias sociais. Essas plataformas podem se tornar barris de pólvora para a radicalização e fazer com que admiradores ultrapassem os limites. É saudável ser fã, desde que o carinho e admiração pelo artista e seu trabalho não prejudiquem a sua individualidade e rotina para tornarem-se uma dependência.

[Crítica] Holy Fvck: A reação musical da liberdade e sobriedade de Demi Lovato

Um ano após o lançamento do renegado e brilhante Dancing with the Devil… The Art of Starting Over, Demi Lovato retorna ao palanque e suas raízes do rock com seu oitavo álbum de estúdio Holy Fvck. O disco lançado pela gravadora Island Records realmente não atingiu as expectativas da gravadora e fãs numericamente, mas mostra seu valor indo muito além, se tornando uma experiência sobre explosão de energia, é possível entender o sentimento de Demi com o passar das faixas, saindo da raiva e explorando outras sensações, como desejo e amor.

A primeira música é FREAK. A colaboração com YUNGBLUD já abre alas para o que se espera do restante, explora diversos ritmos e deixa expostas as emoções de ter seus traumas tirados como piada pela indústria e ser diminuída a “freak” (esquisita, em português). Após essa faixa, toda uma expectativa e energia já é estipulada, chegando para mostrar que o pop de Demi Lovato está realmente morto.

Dando sequência vem os dois singles lançados antes do álbum SKIN OF MY TEETH e SUBSTANCE, duas músicas muito fortes que abordam a superação do vício, se descobrir e entender o mundo socialmente sem o uso de substâncias, como as pessoas tratam umas às outras e o quanto é comum a indiferença. O rock rápido e melódico encaixa bem com a intenção de Lovato de deixar uma mensagem, não importa o quão rápido as coisas aconteçam, ter cuidado com o próximo exige tempo e empatia.

A quarta faixa EAT ME, com participação de Royal & the Serpent, é um verdadeiro tapa. Com o queixo caído desde o início, a letra é agressiva e impositiva, se tornando um hino de aceitação e denúncia sobre a maneira como a indústria molda seus artistas da maneira como acham que vende mais, ignorando a essência e vontades desse artista. Unanimemente a melhor faixa do álbum, que vem depois de tantas críticas voltadas à Demi em relação ao seu corte de cabelo e mudança de ritmo, não gostou? Engasgue com isso!

A música que dá nome ao álbum HOLY FVCK é empoderada e repleta de referências bíblicas explícitas, já saindo da parte raivosa do álbum e entrando na sexual. Até o final da música, qualquer um é capaz de comprar a mensagem e se sentir o próprio holy fuck, e acreditar que Demi Lovato também é.

29 é a faixa mais polêmica do álbum. Demi conta em entrevista ao podcast Call Her Daddy que a motivação para escrever a música passado tantos anos do término é a reflexão sobre a situação de maneira mais madura, o como mulheres jovens caem no canto de homens muito mais velhos de que elas são diferentes, mas na realidade são apenas mais maleáveis e manipuláveis. A música trata do relacionamento de seis anos de Demi com Wilmer Valderrama, que se iniciou quando ela tinha 17 anos e ele 29.

Wilmer tem um histórico de relações com mulheres de idade inferior, quando namorou Lindsay Lohan, ela tinha 18 anos e ele 24, com Mandy Moore, ela tinha 15 anos e ele 20. Essa percepção sobre o que aconteceu na própria vida por anos é sentida em ‘29’, a voz confiante carregada por emoções e o ritmo dramático transcreve seus sentimentos e emociona quem escuta.

Continuando na linha de baques emocionais, temos HAPPY ENDING. Uma música lenta que transcreve a desesperança com a vida, como ser a inspiração de tantas pessoas e tentar se manter perfeita para os holofotes a cansou, entre tantas tentativas mal sucedidas de felicidade genuína com relacionamentos, Demi expõe sua solidão, mesmo cercada de pessoas, como sua equipe, família e fãs, ainda se sente sozinha e desolada por não ter um final feliz.

HEAVEN, CITY OF ANGELS e BONES abordam abertamente o lado sexual. Com letras eletrizantes e ritmos dançantes, Demi não tem vergonha de mostrar seu desejo e se divertir com este lado utilizando diversos trocadilhos e, novamente, referências religiosas. A mais interessante e que é quase um easter egg se encontra em HEAVEN, a música trata sobre masturbação e possui versos que dizem “cut it off” (corte fora, em português), o motivo para esta linha existir é o versículo Mateus 5:30, onde é dito “E, se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno.”

A música WASTED é romântica e platônica, com um refrão um pouco repetitivo e chato, a música surpreende no restante por sua letra inesperadamente apaixonada e ritmo mais lento, deixando se tomar pela paixão, mesmo com medo de se magoar, vive este amor sem restrições.

[Imagem: Lovato Gallery]

COME TOGETHER une as duas vertentes anteriores: o amor e o desejo. Sendo uma das favoritas do álbum e a que tem mais influência pop/R&B, também é uma música mais lenta, mas mantendo o tom eletrizante e comovente, daquelas que é perfeita para cantar no carro ou no banho a plenos pulmões de um coração apaixonado.

Passando para a faixa 13, DEAD FRIENDS mostra a essência do álbum. A letra é dedicada aos amigos que Demi perdeu no passado por conta de vícios, e se sente em dúvida do porquê ela continua viva, e eles não. Mesmo com uma letra extremamente triste, a melodia é rápida e animada, fazendo você querer dançar – com a mão na consciência em respeito aos mortos, claro -. O que poderia ser um tiro no pé e uma música dramática demais é totalmente o contrário, sendo um desabafo real e emocionante, mas mantendo uma batida animada.

HELP ME segue a mesma linha de EAT ME. Com um tom de deboche escrachado, a parceria com Dead Sara é irônica e empoderada. Tratando sobre pessoas que querem “ajudar” mas no final só estão dando sua opinião que não foi pedida e acabam atrapalhando, a música é cativante e caminha para o final do álbum de maneira positiva, mantendo a atenção do ouvinte.

A penúltima música é FEED. Uma faixa honesta sobre a luta com os vícios e seus antigos hábitos que eram confortáveis, mas muito perigosos, a percepção de possuir um lado bom dentro de si e alimentá-lo para que ele se sobressaia e a vida fique mais leve, mas não retirando o outro lado, apenas aprendendo a lidar com ele e controlá-lo. É uma música muito emocionante e corajosa, considerando todo o seu contexto.

Para fechar com chave de ouro temos 4 EVER 4 ME, uma suma de tudo que foi abordado no restante do álbum, dando um fechamento esperançoso e contente. A letra fala sobre a mudança de vida, onde talvez ela tenha encontrado seu happy ending e, principalmente, seu grande amor. A música encaixa todas as pontas soltas deixadas pelas outras, dando um belo desfecho para suas questões e alimentando sua felicidade.

[Imagem: Lovato Gallery]

Álbuns rock tendem a ser repetitivos e com músicas muito similares, Demi quebra essa barreira e explora todas as vertentes do gênero, transformando seu álbum em uma verdadeira aula para os que estão acostumados com a bolha do pop.

Mesmo se tratando de um álbum extenso, com 16 faixas, HOLY FVCK prende a atenção do ouvinte em todas as músicas e conta uma história a partir de um ponto de vista honesto e mais maduro. Uma frase antiga de Demi que foi lema de muito lovatics facebookers por anos é “I’m maturing, not changing, I promise” (Eu estou amadurecendo, não mudando, eu prometo, em português) e é exatamente do que se trata o álbum, a recuperação de Demi e o retorno de suas raízes, que podem ser exemplificadas por seus dois primeiros álbuns Don’t Forget e Here we go again.