[Crítica] Renaissance: os hinos de positividade iniciam uma nova era

O tão aguardado comeback da Beyoncé finalmente chegou! Renaissance, o sétimo álbum de estúdio da artista, foi lançado na última sexta-feira (29). O projeto, que é o primeiro ato de uma trilogia, vem sendo muito aguardado pelos fãs após um hiatus de 6 anos da cantora desde seu último disco solo, Lemonade.

Renaissance conta com 16 faixas e participações especiais de Beam, Grace Jones e Tems. Nas redes sociais, Beyoncé compartilhou o significado do projeto feito durante três anos na pandemia, onde a artista declarou na dedicatória do disco que foi uma época em que mais se achou criativa.

Criar este álbum me permitiu um lugar para sonhar e encontrar fuga durante um momento assustador para o mundo. Isso me permitiu sentir-me livre e aventureiro em uma época em que pouco mais estava se movendo. Minha intenção era criar um lugar seguro, um lugar sem julgamento”, contou a cantora.

O projeto tem doze produtores principais, A. G. Cook, Boi-1da, Guilty Beatz, Jahaan Sweet, Labrinth, The Neptunes, S1, Skrillex, Tate Kobang, The-Dream, Tricky Stewart e a própria Beyoncé. A masterização é feita por Colin Leonard e a mixagem assinada por Stuart White.

A primeira faixa do Renaissance é I’m That Girl, que usa o sample da música Still Pimpin de Tommy Wright III, Mac T-Dog e Princess Loko, lançada em 1994. A canção dançante inicia o álbum com uma mensagem bem simples do poder feminino. 

Nos versos, “It’s not the diamonds, It’s not the pearls, I’m that girl, It’s just that I’m that girl” (Não é os diamantes, não é as pérolas, eu sou aquela garota, é que eu sou aquela garota; em português) a artista exemplifica que não é necessário coisas de valor para lhe agregar poder.

Cozy é a segunda música do álbum e ela fala sobre estar confortável, sendo em ser quem você é, com seu próprio corpo e com sua cor. Com uma batida mais relaxada, a artista entrega novamente uma mensagem positiva para seus fãs. A canção usa como samples as faixas Get With U de Liddell Townsell e M.T.F. e Unique de Danube Dance e Kim Cooper.

Além disso, Cozy usa trechos do vídeo Bitch I’m Black da TS Madison, personalidade americana muito conhecida por ser a primeira mulher trans negra a produzir e apresentar um reality show.

Seguimos com Alien Superstar, uma faixa com batida eletrônica sensual e que se inicia com um sample da canção Moonraker do Foremost Poets, lançada em 1998. A música explora toda a sensualidade da artista e comunica com o público o poder de ser única ao som da faixa perfeita para se ouvir na pista de dança.

O destaque de Alien Superstar vai para a interpolação de I’m Too Sexy do grupo Right Said Fred no refrão da música, que destaca a genialidade da artista em usar uma canção muito conhecida de maneira tão revigorante. O sample de Unique de Danube Dance e Kim Cooper se repete e ao final da faixa é possível ouvir parte do discurso Black Theater da escritora e atriz Barbara Ann Teer.

Ensaio de divulgação do álbum Renaissance. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Cuff It é a quarta faixa, com sonoridade disco e synth funk (a mistura do uso de sintetizadores com a batida rítmica do funk), a música se desenvolve de maneira divertida e romântica. Essa é uma Beyoncé que só quer se divertir e não tem nada que irá prendê-la. A canção tem interpolação de Ooo La La La da Teena Marie e sample de Square Biz da mesma cantora.

A quinta música do álbum é Energy com participação de BEAM, cantor jamaicano e americano. A faixa com sonoridade dancehall e eletrônica, mistura as partes melódicas cantadas por Beyoncé e os versos de BEAM com o afrobeat. Na letra pode ser encontrar um incentivo para dançar e se divertir, mantendo sempre a energia alta.

Energy tem sample de Milkshake e Get Along With You da cantora Kelis e Explode de Big Freedia, que faz a transição com a próxima canção do disco. Seguimos com Break My Soul, lead single do álbum, que conta com o samples do hit dance dos anos 90, Show Me Love, da cantora Robin S. e novamente a canção Explode de Big Freedia, lançada em 2014. 

A música alcançou o 7° lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 5 semanas no chart. Break My Soul que chegou para anunciar a volta da artista, agora na sonoridade dance-pop, se manteve na proposta de ser um hino de positividade em tempos confusos.

Capa alternativa do disco. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Church Girl é a sétima faixa do Renaissance, onde a artista explora nos versos da música sua religiosidade e suas raízes do sul dos Estados Unidos. Com batidas animadas do bounce é celebrado a liberdade em todos os seus sentidos. A canção usa os sample de Center of Thy Will das The Clark Sisters, Drag Rap dos The Showboys e interpolações de Where They At do DJ Jimi e Think (About It) da Lyn Collins.

Seguimos com Plastic Off The Sofa, a música mais lenta e R&B, mas sem abandonar o upbeat eletrônico. Nela, Beyoncé fala sobre amor e as qualidades de seu interesse romântico, podendo ser até uma faixa dedicada ao seu marido, Jay-Z. Pelo caráter mais intimista da música, os vocais da cantora se sobressaem e são o grande acerto de Plastic Off The Sofa.

A nona canção é Virgo’s Groove, um clássico disco com letra mais romântica  dedicada ao amor da vida da artista. Com vocais e melismas arrepiantes, por mais de seis minutos podemos ouvir Beyoncé brincar com sua técnica vocal em uma faixa mais tranquila e pop.

Move é a próxima canção com a participação de Grace Jones e Tems. A faixa tem influência do afrobeat e bounce e explora os dois significados do termo “move”, em inglês, que pode significar o ato de se mexer e dançar, ou de sair da frente e abrir espaço para alguém mais importante. 

Seguimos com Heated, uma música mais R&B que conta uma menção e homenagem a uma das pessoas que inspiraram o Renaissance, Uncle Johnny. Ele, que era sobrinho da mãe de Beyoncé, teve participação na criação da artista e no início da sua carreira ajudava a criar designs e vestidos para serem usados por ela.

Em 2019 no GLAAD Awards, a cantora também dedicou o prêmio ao tio que morreu por complicações do HIV nos anos 90. No encarte do disco, Beyoncé agradece e explica a importância de Johnny. “Ele foi minha ‘madrinha’ e a primeira pessoa a me expor a muita música e cultura que servem de inspiração para este álbum.”, declara a artista.

Foto que aparece no encarte do álbum com agradecimentos ao Uncle Johnny.  [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

A décima segunda canção é Thique, uma faixa mais pop e trap, mas sem perder a sonoridade eletrônica. Nos versos se encontram rimas sobre dinheiro e sensualidade, com a exaltação do corpo da artista.

O álbum segue com All Up In Your Mind, uma das músicas mais diferentes do projeto e que coloca a cantora no universo ainda não explorado por ela, o hyperpop. Com letra bem pop falando sobre amor, o destaque vai para os vocais e performance de Beyoncé que combinam muito com o gênero.

America Has a Problem mistura a sonoridade de sintetizadores com o rap e usa o sample de America Has a Problem (Cocaine) de Kilo Ali, lançada em 1990. A faixa, apesar do nome, não tem nenhuma crítica política e deixa espaço para a cantora rimar de maneira divertida e interessante.

A penúltima canção é Pure/Honey, a faixa que é dividida em duas fases e gêneros. Na primeira parte, Pure, a artista apresenta rimas rápidas acompanhadas de uma batida perfeita para as boates. Já na parte Honey, Beyoncé se envolve completamente no soul e funk seguidos de vocais de outro mundo. A música tem os samples de Cunty da Kevin Aviance, Miss Honey de Moi Renee e Feels Like de MikeQ e Kevin JZ Prodigy.

O álbum termina com Summer Renaissance, a faixa que tem no refrão uma interpolação de I Feel Love de Donna Summer, um clássico do disco dos anos 70. A música encerra o álbum mais experimental da carreira da artista como o fim de um sonho. Levando os ouvintes a outras camadas da voz de Beyoncé em um ritmo que ninguém esperava vê-la dominando.

[Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Horas após o lançamento, Renaissance alcançou o topo do Apple Music em mais de 100 países, se tornando o primeiro disco feminino a conseguir o feito em 2022. No Spotify, o projeto teve a maior estreia de um álbum de uma artista feminina na plataforma este ano, com mais de 43 milhões streams

De acordo com o Hits Daily Double, o álbum tem previsão de vender entre 275 e 315 mil unidades, colocando o Renaissance em primeiro lugar nas paradas musicais americanas. Se conseguir chegar ao topo, Beyoncé se tornará a primeira artista feminina a colocar um disco nessa posição em 2022.

No metacritic, o projeto está com nota 93, acumulando 15 avaliações positivas e superando a avaliação de seu álbum anterior, Lemonade, que tem a nota 92. Na review da revista Rolling Stones, a artista foi aclamada por sua habilidade de dar aos ouvintes novos hinos pop e as faixas lentas e sensuais que todos amam e esperam nos projetos da cantora. 

A faixa Virgo’s Groove ganhou o selo de ‘Melhor Nova Música’ do site Pitchfork, destacando a música disco-funk como uma das melhores na carreira da Beyoncé. Na crítica de Renaissance, o álbum conquistou a nota 9 e a atribuição de ‘Best New Music’, dando ênfase no disco como uma rica celebração da música das boates e seu espírito emancipatório.

Em geral, o novo álbum se reinventa do que esperávamos no futuro da discografia da cantora. Após Lemonade, um dos projetos mais pessoais da artista, Renaissance reúne diversão, leveza e sensualidade nas faixas. Beyoncé aposta em um novo gênero musical e o mistura com outros ritmos, tornando o disco uma extensão de sua personalidade.

O uso correto de samples também merece destaque, pois demonstra a habilidade da cantora em transformar as interpolações e trechos de outras músicas em algo tão original e criativo quando aparece em Renaissance. Quem imaginou que após a faixa Way 2 Sexy de Drake e Young Thug o refrão da música I’m Too Sexy poderia soar de fato sensual e não cafona com em Certified Lover Boy? Só com os vocais de Beyoncé mesmo.

E falando em voz, a produção vocal do álbum está entre um dos melhores da artista, levando o ritmo eletrônico do house e disco a outros níveis. As faixas são conectadas não só pela sonoridade coesa do projeto, mas também em belas transições que o colocam na estética de um DJ unindo músicas para uma pista de dança.

Renaissance se estabelece como o início de uma trilogia animada e empolgante. É impossível ouvir o projeto e não se sentir contaminado ao dançar e melhorar o humor de quem está ouvindo. Assim, o álbum mais experimental de Beyoncé cumpre a promessa de nos levar a um lugar de exploração e liberdade.

[Crítica] Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter são emocionantes e imersivos

O quinto álbum de estúdio de Sabrina Carpenter, emails i can’t send, foi lançado na última sexta-feira, 15 de julho. Sob domínio da gravadora Island Records, produção de Leroy Clampitt, Jason Evigan, Jorgen Odegard, John Ryan, Ryan Marrone e Julian Bunetta. Já como compositores, participaram Julia Michaels, JP Saxe, Steph Jones, Amy Allen e a própria Sabrina descritos nas faixas. O álbum surpreende com composições honestas e pode ser representado por três pilares: storytelling, imersão e vulnerabilidade.

Com a imagem totalmente desvinculada da Disney, coloca um ponto final nas polêmicas em que foi envolvida no ano passado. Carpenter transita entre diversos gêneros musicais com o passar das músicas e se dá bem com todos. Arriscando com transições engraçadas e pessoais, consegue criar um enredo e conta o seu lado da história.

A primeira faixa, emails i can’t send, carrega o nome do álbum e é um verdadeiro soco no estômago. Com instrumental mínimo, poder vocal e rimas impecáveis, a apelidada pelos fãs de intro na época do pré-álbum, emociona e choca por revelar que a insegurança de Sabrina com relacionamentos é vinda da traição de seu pai. Cada palavra toca profundamente e a música prende a atenção por ser contada praticamente de maneira cronológica, como uma história.

Vicious foi lançada menos de um mês antes do álbum e foi responsável por aumentar as expectativas de todos. Vindo de uma sequência de singles não tão bem aceitos, essa canção é forte e debochada, tendo seu momento de explosão na ponte, onde é dito “Você não sente remorso, você não sente os efeitos, porque você não acha que me machucou se me deseja o melhor, eu deveria ter percebido antes que eu seria apenas a próxima a tomar suas músicas de amor como promessa”. Doeu por aí?

Tirando o ouvinte da transe causada pelas faixas anteriores, Read your Mind começa com vocais angelicais e tranquilos, mas essa calmaria passa poucos segundos depois, quando a melodia muda totalmente para algo mais agitado e dançante. A música retrata um amor confuso onde um dos lados quer continuar solteiro, mas não consegue resistir a paixão – embora não assuma, fazendo idas e vindas dolorosas e egoístas na vida da outra parte envolvida. Novamente é uma grande aposta no storytelling, contando a situação praticamente como uma fofoca para a melhor amiga.

Passando para Tornado Warnings, o quesito de conversação no início da música lembra muito o single skinny dipping, também presente no álbum. A faixa representa a fase de negação em um relacionamento mal sucedido, Sabrina contou em entrevista que possui as notificações do telefone ativadas para alertas de tornado, e que a composição se trata de uma história real envolta por uma metáfora, onde ela estava com alguém que não deveria estar em um parque e logo começou a chover, mas decidiu ignorar todos os alertas de perigo e mentiu para seu psicólogo sobre esse encontro, para não zangá-lo.

Se as outras faixas se tratavam de um desabafo, because i liked a boy é um grito alto e claro. Retornando às origens do ódio que recebeu no passado, a artista diz que não esperava que um amor tão inocente e intenso te traria tantas ameaças de morte e ofensas pesadas, como “destruidora de lares” e “vagabunda”. A grande revelação da música é a afirmação de que quando o caos começou, o casal já havia terminado o relacionamento. Com uma melodia voltada para o R&B e a estética circense presente no clipe, essa canção se torna facilmente uma das queridinhas do álbum.

Already Over, que já havia uma prévia postada nas redes sociais da cantora, é uma faixa leve e divertida, com uma pegada mais country. Ela volta para o assunto do caos mesmo sem estarem mais juntos, e com tudo vindo à tona, é ainda mais difícil colocar um ponto final em um assunto que está constantemente aparecendo em sua frente, causando algumas recaídas entre os dois.

Quebrando a agitação da faixa anterior, how many things possui mais de quatro minutos e retrata o fim do amor de uma das partes: “Eu imagino quantas coisas você pensa antes de pensar em mim, eu imagino quantas coisas você quer fazer e eu estou impedindo”. É a fase do fim do relacionamento onde tudo ainda é muito recente e tudo lembra a pessoa, mas não sente que o outro está na mesma situação. Com um instrumental mínimo servindo apenas de acompanhamento, a música é muito relacionável, servindo para relacionamentos amorosos, familiares ou em amizades que não correspondem mais ao mesmo carinho.

bet u wanna é a herdeira de Sue me e Looking at Me. Com um tom mais debochado, vingativo, sexy e coberto de autoestima, a música trata do momento de respeito a si própria e seu valor após o fim de um ciclo, descritos através de frases provocativas. Carpenter ironiza a situação e aposta que a pessoa a quer de volta, mas agora já é tarde demais. Simplesmente a faixa que os fãs esperam todo álbum, para recuperar sua força e autoestima, e também porque fica bem nos “stories de biscoito”.

Nonsense possui uma raiz semelhante a de algumas faixas do álbum positions de Ariana Grande. A canção mantém a energia provocativa e irônica, onde está vivendo novas experiências e volta para a fase leve, perdendo a noção quando está ao lado de outra pessoa. O verso “Eu acho que tenho um ex, mas esqueci dele”, junto ao significado de bet u wanna, confirmam que estamos na parte da história onde já deu o que tinha que dar e está superado.

Fast times e skinny dipping dão procedência ao álbum e são os dois singles anteriores da era. Bem diferentes entre si, ambas das músicas representam elementos presentes no restante das faixas, o tom de storytelling presente na composição e clipes, sempre instigando o ouvinte a escutar a música até o final para saber o desfecho da história.

Chegando a penúltima faixa, Bad for Business traz uma ambiguidade na interpretação: A insegurança de um novo relacionamento atrapalhar sua carreira e imagem como o anterior ou essa paixão literalmente atrapalha os negócios, pois não a deixa dormir de noite e é sua grande fonte de inspiração, fazendo com que ela não consiga pensar em mais nada. A música tem uma melodia leve e um pouco mais lenta, a composição é apaixonada e traz a calmaria de um amor – por enquanto – tranquilo.

Encerrando o álbum com chave de ouro, decode é vulnerável e honesta, uma das mais pedidas pelos fãs – por conta de uma prévia anteriormente postada por Sabrina – vai além do esperado. A letra assume cruamente que não aguenta mais pensar e repensar sobre o relacionamento, sobre o que pode ou não ter acontecido, por isso simplesmente desiste e afirma que não há mais o que falar sobre o assunto, não há mais nada para decodificar, todos as partes deram seu lado da história e o assunto está encerrado entre eles.

[Imagem: Reprodução/Sabrina Carpenter Brasil]

O poder narrativo de Sabrina Carpenter é surpreendente, a cada faixa é possível desvendar seus sentimentos e simpatizar com eles. Todos sabem a maldade presente na internet e como ela pode afetar a vida das pessoas, como todo esse ódio e repressão toma conta de alguém, a ponto que ela não tenha como falar por si mesma. Portanto, emails i can’t send é a resposta de uma sobrevivente deste ódio, que ficou calada por muito tempo e ainda continua guardando algumas informações, mas prefere que elas continuem em segredo.

Este disco simboliza a maneira como a artista materializa sua arte, tratando suas músicas como um desabafo vulnerável, o sentimento de ser chamada de “destruidora de lares” enquanto estava vivendo o inferno dentro de sua casa com seus pais.

É gratificante escutar uma sequência tão real e bem produzida, cada faixa se destaca singularmente e mantém a coesão dentro de um conjunto. Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter vieram à tona e merecem o reconhecimento máximo, não somente por sua coragem de falar, mas pela qualidade imposta no álbum, a história contada em etapas, arriscando diversos gêneros e abordagens. Mesmo em meio a uma realidade de uma gravadora negligente e descuidada, o álbum se mantém desde seu lançamento em primeiro lugar no Apple Music Brasil, e é de se esperar que esses números continuem crescendo.

O Auto-Tune como ferramenta criativa na música

Desde a estreia do programa TVZ com a apresentação de Pedro Sampaio, o artista começou a sofrer críticas por suas performances com o uso da ferramenta de Auto-Tune que deixam sua voz mais robotizada. Em entrevista para a revista Rolling Stones, Pedro se abriu sobre como enxerga o uso do efeito.

Muita gente ainda demoniza o auto-tune, mas são pessoas que não entendem do que estão falando, porque ele é usado mundialmente e eu uso de forma escancarada desde o início da minha carreira, faz parte da estética da minha voz“, afirma o DJ e produtor.

O Auto-Tune nada mais é do que um plug-in comumente usado por produtores dentro do estúdio, criado em 1997, a ferramenta inicialmente tinha o propósito de corrigir a afinação de cantores e instrumentos musicais. Mas não demorou muito para que outros propósitos para o recurso surgissem, quando a ferramenta é usada de forma exagerada ela gera um efeito robótico na voz parecido com o uso de sintetizadores.

Um ano após o lançamento do auto-tune, a cantora americana Cher lançou uma das primeiras músicas comerciais em que é possível identificar o efeito mais robotizado. A faixa Believe foi pioneira em usar a ferramenta de maneira criativa e a distorção de voz que foi imitada por outros artistas ficou conhecida como o “Efeito Cher”.

O single da cantora americana atingiu o topo das paradas americanas e se tornou uma das canções mais vendidas fisicamente de todos os tempos, com mais de 11 milhões de cópias. Além disso, a técnica usada na faixa mudou a história da música pop e os gêneros do rap e trap.

Nos anos 2000, diversos artistas da cena hip-hop aderiram ao uso do auto-tune, o destaque entre eles foi o rapper norte-americano T-Pain. Com o lançamento de seu álbum de estreia, Rappa Ternt Sanga, em 2005, o artista ficou conhecido pelo seu uso da ferramenta e criou sua própria estética vocal única no cenário do rap.

Devido ao T-Pain, o auto-tune caiu nas graças de grandes artistas, como Snoop Dogg, Lil Wayne e Kanye West, que até dedicou o álbum 808s and Heartbreak para explorar o efeito. No pop, a cantora Britney Spears também usou a ferramenta para modular sua voz em seu álbum Blackout e a banda Black Eyed Peas investiu pesado no auto-tune na canção Boom Boom Pow para atingir uma sonoridade futurista.

Mas se engana quem pensa que o auto-tune foi bem recebido por todos os artistas e a maioria do público. Em 2009, o rapper Jay-Z lançou a faixa D.O.A (Death of Auto-Tune) criticando exatamente o uso exagerado da ferramenta e a popularização da técnica no hip-hop. No trecho “Get back to rap, you T-Pain’n too much” (Volte para o rap, vocês estão como o T-Pain demais; em português), o rapper chega a citar o artista que iniciou o movimento e critica quem usava o auto-tune de forma não criativa.

Além disso, muitas críticas se somam ao fato de que quem usa a ferramenta não sabe cantar. Por ser uma ferramenta de afinação, em teoria, qualquer pessoa poderia gravar uma canção e soar com vocais perfeitos. Nessa época, surge ainda mais uma valorização por cantores que não usavam a ferramenta e eram publicamente contra o auto-tune.

Christina Aguilera foi uma dessas pessoas e chegou a passear pelas ruas de Los Angeles com uma blusa escrito “Auto Tune is for pussies” (Auto Tune é para covardes, em português). Anos depois, em entrevista para a rádio SiriusXM, a cantora admitiu que a ferramenta poderia ser usada de forma criativa, tendo inclusive experimentado com o auto-tune em seu álbum futurista, Bionic.

Christina Aguilera usando blusa contra o uso de Auto-Tune. [Imagem: Reprodução/Reddit]

De maneira geral, o uso do auto-tune se consolidou uma prática geral na música quando se fala de afinação. A maioria das músicas mainstreams passam pelo plug-in, o que constrói na indústria da música pop a meta de vocais perfeitos e a minimização de qualquer erro natural.

Até porque é importante lembrar que em faixas gravadas, bem antes da criação do Auto-Tune, já existiam técnicas que mudavam e melhoravam sutilmente a voz dos artistas.The Beatles duplicavam seus vocais nas músicas para deixar a voz mais encorpada nas canções, John Lennon mudava seu timbre de voz natural ao diminuir a velocidade das gravações e reproduzi-las por um amplificador específico e  Elvis Presley usava o eco e delay ao seu favor nas músicas.

Os tais vocais “naturais” são dificilmente encontrados e não são sinônimo de sucesso. O uso do auto-tune não invalida talento de nenhum artista e há quem diga que com a menor preocupação de atingir notas extremamente perfeitas, sobra mais tempo para se dedicar a outros elementos da música ou na entrega de uma performance.

O que foi uma tentativa de T-Pain para soar diferente de outros rappers anos atrás, se tornou atualmente uma das técnicas mais usadas no trap, subgênero musical do hip-hop e rap. Os artistas que fazem parte do gênero,  usam o auto-tune para criar melodias e unir as rimas com partes mais cantadas.

Travis Scott em estúdio com o cantor James Blake. [Imagem: Reprodução]

Quavo, Future, Migos e Young Thug são alguns dos rappers que montaram suas estéticas vocais usando os efeitos da ferramenta. Os vocais do Travis Scott conhecidos por soarem bem robóticos ou como de algo de outro mundo unem o auto-tune com outras técnicas de delay, phasing e outros plug-ins que modulam a voz. Esses efeitos formam o estilo único do artista e caracterizam o gênero musical em que atuam.

É inegável afirmar que o Auto-Tune mudou o jeito de fazer música desde sua criação e popularização. Poucas invenções na indústria fonográfica foram tão icônicas e discutidas pelos artistas e público depois de tantos anos. Seja pelas críticas do caráter artificial trazidos pela afinação perfeita ou pelo seu uso exagerado na modulação vocal, a ferramenta encontrou novas maneiras de ser usada e ainda tem fãs no mundo dos cantores.

Se o auto-tune cair em desuso na próxima década, o que parece bem improvável, com toda certeza vai ter marcado uma geração de músicas nos anos 2000 e no hip-hop, assim como os teclados sintetizadores são lembrados nas canções dos anos 80 e até imitados atualmente.

Marginalização generalizada do funk prejudica cultura da juventude – Dia do Funk 07/07

Na última quinta-feira (07) foi comemorado o Dia Estadual do Funk. A data surgiu após a morte do funkeiro MC Daleste, assassinado durante um show com tiros na região abdominal em 07 de julho de 2013. O ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou a data comemorativa no dia 21 de setembro de 2016. A sanção foi realizada dois anos depois que a então deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) apresentou o projeto na Câmara Federal. O funk é um gênero musical majoritariamente periférico que sofre ataques desde sua origem no Brasil, nos anos 80, quando as músicas faziam a alegria de frequentadores de bailes do Rio de Janeiro.

Funk é crime? Não! (Mas não por falta de tentativa)

Em 1995, o município do Rio de Janeiro iniciou uma CPI para enquadrar a possível parceria entre cantores e organizadores de eventos de funk e o tráfico, mas a investigação não encontrou provas nem nenhum tipo de ligação.

Insatisfeitos com o resultado, em 1999 foi aberta uma CPI estadual, intitulada “CPI do Funk” (nome familiar? Recentemente tivemos a “CPI do Sertanejo”, explicada neste post. Spoiler: a única similaridade é o nome.), a investigação perseguiu mais uma vez a procedência dos bailes em relação a violência, circulação de drogas e possíveis crimes contendo menores de idade, mas novamente não houve provas suficientes. Mesmo com o resultado negativo das CPIs, foi criada a Lei Estadual nº 3.410/2000, que apresenta diversas regulamentações e regras para a organização de bailes.

Em 2013, os vereadores de paulistanos Coronel Camilo (PSD) e Conte Lopes (PTB) apresentaram um Projeto de Lei que proibiria a realização dos “fluxos” nas vias públicas da cidade. O então prefeito Fernando Haddad vetou o PL, mas assinou um decreto impondo multa para quem utilizasse som automotivo muito alto em determinados horários, atrapalhando a vizinhança.

Recentemente, em 2017, o Projeto de Lei nº 65.513/2017 foi posto para votação a fim de proibir o funk em território nacional. O projero, criado por um empresário paulista, dizia que os bailes são “um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos à prática de crime contra a criança e o menor adolescente ao uso, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia e exploração sexual, estupro e sexo grupal entre crianças e adolescentes, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo e etc”. Embora tenha recebido mais de 40 mil assinaturas em apoio, acabou sendo rejeitado pelo senado.

As tentativas de criminalizar o funk vêm de um histórico de outras ações contra gêneros periféricos e estigmatizados por muitos anos, como o hip-hop, jazz e blues, todas terminantemente sem sucesso. Silvio Essinger, escritor do livro “Batidão: uma história do funk“ resume a polêmica em seu livro com uma metáfora clara: “Não tem nenhum sentido criminalizar o funk para acabar com a criminalidade, é como uma pessoa flagrar uma traição e jogar a cama fora.”

[Foto: Freepik.]

Ascensão e mercado

Mesmo sendo mal aceito por pessoas mais velhas, o gênero conquistou os jovens e é o mais pedido nas festas, até mesmo nas da elite — todo mundo quer curtir e dançar ao som da batida. 

O DJ Rennan da Penha foi preso em 2019 após acusações de um suposto envolvimento com o tráfico de drogas, quando apareceu conversando com o ex-governador fluminense Sérgio Cabral — condenado 22 vezes pela justiça do Rio de Janeiro, pena que soma mais de 400 anos de prisão. Rennan ficou em cárcere durante sete meses em duas prisões cariocas e foi solto após um recurso favorável do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação à mudança de entendimento da prisão em segunda instância. Na época de sua soltura, a música ‘Hoje eu vou parar na Gaiola’, com participação de MC Livinho, foi hit em todo o país e logo o cantor assinou contrato com a gravadora Sony Music; foi indicado e premiado no Prêmio Multishow na categoria ‘Melhor Produtor’ com a música ‘Me Solta’; recebeu uma indicação ao Grammy Latino e gravou um DVD. Mesmo com as provas de inocência, o ‘Baile da Gaiola’ — evento idealizado pelo cantor — permanece proibido.

Em março de 2021, a Polícia Civil de São Paulo abriu uma investigação com direito a operação de busca e apreensão na casa de seis MCs, dentre eles grandes nomes do funk como MC Ryan SP, MC Brinquedo e MC Pedrinho. Mais uma vez, a polícia não obteve sucesso ao procurar ligações entre os artistas e o tráfico, não encontrando provas de financiamentos ou envolvimentos criminosos. 

A cantora Anitta, que recentemente desbancou diversos artistas internacionais e estacionou sua música ‘Envolver’ em primeiro lugar do Spotify Global, também tem sua origem no funk e mantém traços do gênero em seus shows e lançamentos. No seu show para o festival californiano Coachella, Anitta entrou na garupa de uma moto com um cenário simulando as favelas brasileiras e agradou o público internacional e a crítica especializada. Com o set em sucesso absoluto, repetiu a dose no Rock in Rio Lisboa, alegrando os fãs portugueses.

Anitta se apresentando no Rock in Rio Lisboa

O funk é inevitável e está em todos os lugares. A constante movimentação policial contra o gênero e seus artistas é a prova que mesmo chegando tão longe — e até ultrapassando as barreiras brasileiras e sendo reconhecido mundialmente —, o funk sempre será visto como criminoso e periférico. 

As letras são um reflexo da vida das pessoas […] para mudar as letras temos que mudar a realidade delas”, diz o senador e ex-jogador de futebol Romário em um de seus vídeos publicados no Twitter na época do PL 65.513/2017. Mesmo após cinco anos, essa declaração ainda possui peso sobre aqueles que sofrem preconceito judicial por frequentar bailes funk ou se envolver com o gênero na indústria musical.

Até onde a perseguição do funk é judicial ou se torna preconceituosa? A linha tênue se mostra cada dia menos sutil, tratando trabalhadores e admiradores da área como criminosos convictos e esbanjando a hostilidade da elite.

Para comemorar o Dia do funk e o poder que ele assegura, montamos uma playlist imperdível com grandes sucessos do gênero, confira aqui!

Hiatus do BTS: Relembre a carreira do grupo e entenda o que está acontecendo agora

Após o lançamento de seu álbum antológico Proof em comemoração aos nove anos do grupo no dia 10 de junho, o grupo BTS anunciou na última terça-feira (14) seu hiato durante a live de comemoração ao aniversário do grupo, chocando fãs e admiradores. Entre as diversas teorias, incluindo possível serviço militar obrigatório da Coreia do Sul e brigas com a gravadora, os integrantes reiteraram que a pausa é temporária para que cada um possa investir em sua carreira solo, sendo o álbum solo de J-Hope o primeiro na linha de lançamentos.

O BTS é um fenômeno global absoluto, quebrando barreiras antes só atravessadas por artistas norte americanos e europeus, o grupo surpreende com qualidade em seus trabalhos e números, colocando o pop coreano em patamares jamais alcançados, abrindo as portas do Ocidente para diversos outros grupos femininos e masculinos. 

A história do grupo começa em 2013, quando os também chamados de Bangtan Boys, ou Bangtan Sonyeondan em coreano, formado por sete rapazes: RM (김남준), Jin (김석진), SUGA (민윤기), J-Hope (정호석), Jimin (박지민), V (김태형) e Jungkook (전정국) lançou a música No More Dream, lead single do álbum 2 Cool 4 Skool. A música debutou em número #84 no Gaon Download Chart e fez sua primeira entrada no Billboard World Digital Songs, atingindo a posição #14 e charteando por três semanas consecutivas. O álbum de estreia 2 Cool 4 Skool atingiu a posição #5 no Gaon Weekly Album Chart e, mesmo um mês após o lançamento, se manteve na posição #10.

Clipe “No More Dream”

O sucesso carregado por quatro álbuns de estúdio, três de compilação, mais de 20 videoclipes e milhões de fãs fez com que o grupo agenciado pela Big Hit Music, uma subsidiária da HYBE Corporation conquistasse o primeiro lugar na lista Forbes Korea Power Celebrity em 2018, que classifica as celebridades mais poderosas e influentes da Coreia do Sul.

Segundo a revista Rolling Stones, é admirável o trabalho ativista dos meninos. Considerando a realidade sul coreana, a maioria dos artistas mantém suas opiniões políticas e sociais desvinculadas de sua imagem, por conta da fiscalização pesada de órgãos governamentais em relação a oposição de qualquer forma. Essa coragem ao desafiar convenções sociais fez com que o grupo decolasse ainda mais e se destacasse dos demais, os levando a carreira internacional.


[Foto:
Reprodução/ Big Hit Music]

Como dito anteriormente, o grupo BTS se destacou dentro do cenário coreano por sua coragem de posicionamentos contrários ao governo, talento e expertise em qualquer tarefa que lhes fosse dada. Todo esse destaque respingou no Ocidente, por volta de 2015, o single I Need U, do EP The Most Beautiful Moment in Life Pt. 1 alavancou a carreira do grupo pela América e Europa. A partir disso, tudo que os meninos lançaram foi de grande sucesso mundialmente, shows lotados, redes sociais bombando e fãs alucinados.

Seu primeiro #1 na Billboard 200 foi conquistado em 2016 com a canção Wings, o sucesso lhes rendeu um prêmio na categoria Prêmio Social de Artista Superior, do Billboard Music Awards, se tornando o primeiro artista coreano a ganhar uma estatueta do BBMAs.

E quem disse que BTS é apenas música? Em 2018, o grupo emplacou seu documentário Burn the Stage: The Movie nos cinemas de 79 países, mostrando os bastidores da turnê e alguns perfis com os integrantes. O longa arrecadou 14 milhões de dólares somente na primeira semana.

Em seu novo álbum antológico Proof, o grupo traz 48 canções, com 13 ainda a serem disponibilizadas pela gravadora em breve, divididas em três CDs com seus maiores sucessos. Há três músicas inéditas: Run BTS, Yet To Come e For Youth.

Apenas a prévia da faixa single Yet To Come quebrou recordes mundiais por ser o teaser de música mais rápido da história a chegar em um milhão de visualizações, em sete minutos. O clipe do single já acumula 90 milhões de visualizações no Youtube com menos de uma semana de seu lançamento, a própria definição de poder.

[Foto: Reprodução/ Big Hit Music]

Sob mudanças constantes mercadológicas, um dia após o anúncio de hiatus, nesta quarta-feira (15) as ações caíram 28%, atingindo menor patamar desde outubro de 2020, quando a HYBE abriu o capital da gravadora para investimentos na Bolsa de Valores de Seul.“O grupo permanecerá ativo como uma equipe enquanto faz uma jornada individual para alcançar ainda mais o crescimento pessoal” afirmou representante da HYBE em nota enviada ao jornal O Globo.

A abertura de capital do grupo na Bolsa de Valores de Seul aumentou exponencialmente os lucros da companhia HYBE durante a pandemia, sendo o BTS responsável por cerca de 47% da receita anual da corporação, mesmo com número reduzido – quase nulo – de shows e lançamentos. A bola de neve vem se formando conforme novas informações surgem, no início do ano perdeu 60% do valor conquistado em 2021 e, com o anúncio da pausa, as ações despencaram.

Desde sua estreia, o grupo revoluciona e muda a percepção mundial sobre o pop coreano, correndo e quebrando recordes a todo momento. A sigla BTS é um acrônimo para Beyond The Scene (Além da cena, em português), o que resta aos fãs é ter esperança sobre o que aconteceu por trás dos bastidores, e confiar que um dia o grupo retornará tão forte quanto é atualmente!

Da tatuagem de Anitta a dinheiro desviado: Entenda a ‘CPI do Sertanejo’

Nas últimas semanas a chamada ‘CPI do Sertanejo’ virou alvo do ministério público ao investigar o superfaturamento dos shows de sertanejos, como Gusttavo Lima. 

Em resumo, esta investigação se baseia em apurar um suposto envolvimento de cantores do gênero no desvio de verbas públicas para pagar cachês milionários. Porém, a forma pela qual tudo isso começou é um tanto curiosa.

O pontapé inicial foi quando Zé Neto, da dupla Zé Neto e Cristiano, criticou a Lei Rouanet – uma lei de incentivo fiscal à cultura – utilizando a Anitta e sua tatuagem íntima como exemplo. 

“Nós somos artistas que não dependemos da Lei Rouanet, nosso cachê quem paga é o povo”, disse o cantor. “A gente não precisa fazer tatuagem no ‘toba’ para mostrar se a gente tá bem ou não”, disse o cantor durante um show em Mato Grosso do Sul.

Este evento, que no caso, foi realizado com uma verba de R$400 mil, advinda dos cofres públicos. O comentário do cantor fez com que a imprensa local começasse a apurar o cachê dos sertanejos universitários e a partir deste ponto que muitas acusações passaram a vir à tona.

[Imagem: Reprodução/EM OFF]

A investigação saiu do estado de Mato Grosso do Sul e se tornou um mote maior quando envolveu o nome de Gusttavo Lima – um dos nomes mais influentes do sertanejo universitário. 

O cantor teria recebido da prefeitura de Teolândia, interior da Bahia, um valor correspondente a R$704 mil. A polêmica surgiu quando foi descoberto que a cidade negou auxílio para socorrer afetados por uma forte enchente que assolou a cidade e deixou milhares de desabrigados, e foi investida no show do artista, com a justificativa de que era o sonho da prefeita da cidade conhecê-lo.

Esse escândalo abriu margem para novas descobertas. Após a crítica à Lei Rouanet, foi descoberto que existem sertanejos que recebem quase quatro vezes mais do que é estabelecido – como o caso de Gusttavo Lima.

Além do ‘Embaixador’, Figueirópolis D’Oeste, distante 319 quilômetros de Cuiabá, também se tornou um dos alvos. Os shows das duplas Thaeme & Thiago e Jads & Jadson foram cancelados após descobrir que eles receberam um desvio de verba pública estimado em cerca de  R$182 mil e R$193 mil para pagar seus cachês.

Além dos estados citados, outros entraram na lista de investigações, sendo eles:  Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Bahia, Roraima e Rio Grande do Norte. As somas dos cachês totais beira – em média, os R$6 milhões.

Recentemente, um outro escândalo envolvendo Gusttavo Lima surgiu – desta vez no Rio de Janeiro. O artista se apresentaria em Magé e receberia cerca de R$1 milhão – quase 450% do que  valor recebido por Belo e Falcão, que também estavam na line-up no evento.

Na última segunda-feira de maio, no dia 30, o artista realizou uma live em seu Instagram para rebater estas acusações polêmicas.

Na ocasião, falou sobre polêmicas envolvendo os shows citados, e outros casos em cidades de estados como Minas Gerais, todos eles que estariam supostamente sendo financiados por dinheiro público, que na realidade, deveria ser direcionado para população.

Gusttavo destacou que “não é porque são apresentações feitas pela prefeitura que ele deixará de cobrar seu valor típico”, alegando ainda que “esta seria sua forma de sustento”.

“Eu vivo disso, eu me alimento através disso, eu coloco comida na mesa dos meus colaboradores, da minha família através do meu trabalho – independente se seja show público ou show privado. O meu valor é um e ele não vai mudar, entende?”, questionou durante a live.

Ainda destacou que não considera que tenha se beneficiado de dinheiro público e que se dispõe a prestar eventuais pendências à justiça caso seja necessário.

“Eu nunca me beneficiei de dinheiro público ou empréstimo de tal coisa ou algo do tipo. A minha vida foi sempre trabalhar. […] Então assim, eu não compactuo com dinheiro público. Tudo que eu tenho foi ralado com muito suor, foi trabalho pra caramba, sabe? A minha vida é cantar. Se eu tenho uma casa boa pra morar, vocês podem ter certeza que saiu da minha garganta”, ressaltou.

Em meio a lágrimas, o cantor disse que considerou desistir de toda sua carreira após as acusações.

Porém, um fato curioso chamou atenção. O estopim deste problema toda, Zé Neto, apareceu durante a transmissão e realizou certos comentários que chamaram atenção.

[Imagem: Reprodução/Instagram]

O sertanejo invadiu os comentários da live e afirmou que Gusttavo Lima deveria ficar tranquilo e “jogar a responsabilidade para ele” – uma vez que ele foi um dos grandes causadores deste problema. 

“Cara, quem tem que dar satisfação sou eu. Irmão, estou atravessando uma fase ruim, sou seu irmão. Não precisa se explicar de nada. Joga para mim, irmão. Não tem nada a ver com você“, disse.

Acontece que o motivo da crítica de Zé Neto a Lei Rounaet e tudo isso foi ocasionado pelo fato do cantor ser assumidamente de direita – falando em posição política. Sua questão, desde o princípio, era “dar a entender” que seus colegas de profissão, assim como ele, não precisavam de nenhuma ajuda do governo para manter seus shows e fazer sucesso. Porém, o que realmente se mostrou foi o oposto. A ajuda do governo sempre existiu, porém neste escândalo, de forma ilegal e corrupta.

Um show de Gusttavo Lima em dezembro, que aconteceria na cidade de São Luiz, em Roraima, também foi cancelado. De acordo com a Billboard, o contrato de Lima beirava 77% do orçamento anual da cidade que era destinado à compra de merendas escolares. 

Porém, um dos nomes causadores disso tudo até a última semana ainda não havia se manifestado: Anitta.

Uma simples tatuagem escancarou todo um esquema de corrupção no meio do sertanejo universitário.

Em entrevista ao Fantástico, jornal que é transmitido aos domingos na TV Globo, a cantora se manifestou em entrevista sobre tudo o que estava acontecendo. A cantora justificou que não entendeu porque sua tatuagem gerou tanta polêmica. Para ela, era somente um momento em que estava se divertindo com seus amigos e não imaginava toda esta repercussão.

Para a surpresa de Zé Neto, Anitta afirmou que nunca fez uso da Lei Rouanet.

“Meu irmão é que cuida para mim das coisas. Eu liguei para o meu irmão e para o meu outro sócio Daniel e falei: ‘Gente, eu já usei essa lei, porque eu nem lembro’. Ele falou: ‘Não'”, conta Anitta.

A artista ainda revelou que já havia recebido propostas parecidas, mas que nunca aceitou e nem queria se envolver com esquemas assim. 

“A gente que é da música sempre soube que isso existia. Já recebi propostas, eu e o meu irmão. ‘Você cobra tanto, aí eu vou pega um pedaço’. Eu sempre falei, não, Renan, o meu cachê é meu cachê. Na época era 100 e poucos, mas aí ele vai dar mais um pouco, se você declarar que recebeu não sei quanto. E eu: querido, meu cachê é esse. Quer assim? Não quer assim? Como a gente começou a nossa empresa do nada a gente está sempre contratando auditoria, porque a gente está sempre com medo de fazer algo por falta de conhecimento”, contou Anitta em entrevista.

Com tudo isso, em alguns estados do país, a justiça já determinou um cachê fixo que pode ser pago com verba pública para shows e eventos. A Câmara dos Deputados, por sua vez, aprovou que fará uma audiência pública para a investigação do caso.

O comunicado foi divulgado na última quarta-feira (8) por um requerimento do deputado Alexandre Padilha (PT-SP). A ideia principal do parlamentar é dar atenção a casos que envolvem contratações de sertanejos por prefeituras. 

[Crítica] ‘Twelve Carat Toothache’ mostra os altos e baixos de Post Malone

Na última sexta-feira (03), foi lançado o quarto álbum de estúdio do rapper Post Malone, intitulado Twelve Carat Toothache. O projeto conta com 14 faixas e participações especiais de Roddy Ricch, Doja Cat, Gunna, Fleet Foxes, The Kid LAROI e The Weeknd

Após três anos do seu último disco, Hollywood’s Bleeding, Malone volta com o álbum mais curto de sua carreira, mas nas palavras do mesmo, com menos faixas fillers que podem ser encontradas em seus projetos anteriores. Em entrevista à revista Billboard, o rapper afirma que as novas músicas falam mais sobre como ele está se sentindo no momento. “É sobre os altos e baixos, a desordem e essa bipolaridade de ser um artista hoje no mainstream”, conta Malone.

O disco conta com 8 produtores principais, Andrew Bolooki, Brian Lee, Charlie Handsome, Jasper Harris, Louis Bell, Omer Fedi, Watt e o próprio Post Malone. A masterização é feita por Mike Bozzi e a mixagem é assinada por Louis Bell e Manny Marroquin.

Capa e tracklist do álbum Twelve Carat Toothache. [Imagens: Reprodução/Genius]

A primeira faixa do disco é Reputation, sendo a música mais melancólica e que tem como elementos principais o piano acompanhado dos vocais de Malone. A canção que introduz o projeto discute sobre a reputação do rapper e, principalmente, sua relação com a fama. 

Em versos como “You’re the superstar, entertain us” (Você é o superstar, nós entretenha; em português), não fica claro se ao longo da música o desabafo é para os seus fãs ou um antigo amor. Mas mesmo assim, é possível ver que ele coloca toda a sua vulnerabilidade na música e acerta o tom para o resto do disco. 

Seguimos com Cooped Up com participação de Roddy Ricch, lançado como segundo single do álbum. A faixa mais hip-hop com refrão viciante segue o tema da fama e como o rapper se sente engaiolado nessa situação. Post Malone e Roddy Ricch já trabalharam anteriormente no remix da música Wow. Em Cooped Up, o verso de Roddy não impressiona, deixando o destaque para o refrão e ponte cantados por Post. 

A música atingiu a posição 29 em sua estréia na parada musical Billboard Hot 100 e permaneceu somente duas semanas no chart. O videoclipe de Cooped Up foi lançado em maio desse ano e tem como espaço principal apenas um cômodo em que Post Malone canta seus versos, evidenciando a ideia de se sentir enclausurado em sua vida de superstar.

A terceira música do disco é Lemon Tree, outra faixa mais vulnerável do artista. Acompanhada de violão, o rapper discute com a vida a falta de sorte que parece estar enfrentando. Nos trechos “Life is pretty sweet, I’m told; I guess I’m shit outta luck, growin’ a lemon tree” (A vida é bem doce, me disseram; Acho que estou sem sorte, cultivando um limoeiro, em português), Malone brinca com a ideia de como a vida deveria ser doce para ele, mas ultimamente ele se sente com a vida bem azeda.

Wrapped Around Your Finger é a quarta faixa com elementos mais pop e animados do disco. Nela o artista admite como estava completamente envolvido em um relacionamento do passado e expõe toda sua personalidade de apaixonado. Seguindo o álbum, passamos para I Like You (A Happier Song) com participação de Doja Cat

A música como diz o título é bem animada e com uma batida contagiante, e a repetição do refrão “I like You, I do” é daqueles de ficar grudado na cabeça por dias. A dinâmica dos dois artistas na música é bem legal, com cada um cantando de sua perspectiva nesse possível relacionamento apaixonado. I Like You (A Happier Song) começou a ser promovida nas rádios, seguido do lançamento do disco, e se caracteriza como o terceiro single da era.

A sexta faixa de Twelve Carat Toothache é I Cannot Be (A Sadder Song) com participação do rapper Gunna. A música que representa o oposto da anterior, fala sobre um relacionamento que a outra pessoa está atrasando e segurando o artista de maneira negativa. Apesar da letra mais triste, a faixa é um hip-hop animado com a cara do Post Malone.

Seguimos com Insane, a canção com orientações mais trap do projeto e que tem grandes chances de virar o próximo single. Nela o rapper rima sobre dinheiro e mulheres sem maiores preocupações em cima de uma batida rápida e viciante.

Love/Hate Letter To Alcohol é a oitava faixa do álbum e conta com a participação da banda Fleet Foxes. A música se inicia com um coro de vozes e como diz o título se desenrola em um desabafo da relação de amor e ódio com o álcool. Nela fica explícito os problemas que o artista tem com a bebida, mas essa ainda é a sua forma de encarar a tristeza. Em sua participação no Saturday Night Live em maio deste ano, a faixa ganhou sua primeira apresentação ao vivo.

Já a nona música do projeto é Wasting Angels com The Kid LAROI, a faixa mais lenta e com orientações pop, coloca os dois artistas para discutir a relação com a fama e reputação. Vale destacar como Malone e LAROI possuem similaridades vocais, fazendo até ouvintes atentos se questionarem quais são de fato os versos de cada um.

O álbum continua então com Euthanasia, que conta com o sample da música de 2003, Pink & Blue do OutKast. A faixa que faz uma referência clara a eutanásia, prática médica que consiste em abreviar a vida de um paciente em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos. Em uma das músicas mais sombrias do projeto, Malone então fala sobre a ideia de sua própria morte e fantasia sobre uma morte indolor em que possa encontrar um coro de anjos.

When I’m Alone é a décima faixa do Twelve Carat Toothache, com a batida rápida da bateria acompanhada de guitarra e voz, essa música mistura pop e rock ao mesmo tempo. When I’m Alone então abre espaço para o rapper falar sobre sua infidelidade em um relacionamento anterior.

[Imagem: Reprodução/Billboard]

Depois de uma faixa mais animada, Post volta a uma música mais lenta e introspectiva. Waiting For A Miracle é novamente uma das canções que discute a morte de alguma maneira, seja no verso “And everything done for the dead after they’re dead, is for the living” (E tudo que é feito para os mortos após eles estarem mortos, é para os vivos; em português) ou quando fala sobre suicídio.

Mudando totalmente de estilo, a penúltima música do álbum, One Right Now, conta com a participação de The Weeknd. Lançada como primeiro single do projeto ainda em 2021, a canção tem clara influência do pop dos anos 80 com uso de sintetizadores. A faixa tem relação com os trabalhos mais recentes de The Weeknd, mas não necessariamente se encaixa no disco de Malone. One Right Now estreou na sexta posição na Billboard Hot 100 e ganhou um videoclipe no mesmo mês de lançamento.

O álbum encerra com New Recording 12, Jan 3 2020, uma gravação caseira e demo de parte da letra de Euthanasia. No áudio de 1 minuto e meio, é possível ouvir Malone cantando somente acompanhado de seu violão. Essa maneira de terminar o projeto com uma demo, evidencia que essas músicas mais sombrias e reflexivas do artista, foram de pensamentos recorrentes de Post Malone nos últimos anos.

Em relação a crítica especializada, o site metacritic atribuiu nota 66 ao álbum baseado em apenas seis reviews. Com maioria de resenhas positivas, as revistas Rolling Stone e NME destacam o sucesso do artista em compartilhar sua verdade, em um disco mais reflexivo que segue com a cara do artista.

Twelve Carat Toothache estreou no Spotify com mais de 30 milhões de streams e em comparação com seu antecessor Hollywood’s Bleeding, que fez 74 milhões em seu primeiro dia, o número parece desapontar. Já em relação às projeções de venda, a Hits Daily Double previu cerca de 115,000 a 130,000 mil unidades vendidas, quantidade também inferior ao disco anterior, mas que pode dar a possibilidade do terceiro número 1 de Post Malone na Billboard 200.

De fato, o lançamento de Twelve Carat Toothache não foi cercado de muita promoção e singles que fizessem muito barulho como os trabalhos anteriores de Malone. O projeto também sofreu alguns adiamentos, Post anunciou que estava trabalhando em um álbum novo durante live tributo a banda Nirvana ainda em 2020 e em 2021 seu empresário chegou a postar no Instagram que talvez teria dois discos do rapper naquele ano. Infelizmente, nenhum novo projeto ganhou um anúncio e em julho de 2021, o single Motley Crew foi lançado, mas a música não faz parte de Twelve Carat Toothache.

A menor quantidade de faixas é um fator que pode prejudicar o número de streams do disco, mas como citado anteriormente, a escolha do rapper foi selecionar o que considerava as melhores músicas para a edição final. O álbum foi claramente pensado como um todo, desde as temáticas das músicas que se cruzam a todo momento até as transições entre as faixas.

Twelve Carat Toothache talvez seja um dos discos mais tristes da carreira de Post Malone, nele é possível ver que mesmo após o sucesso do artista, ele prefere evidenciar seu sofrimento, vícios, problemas com drogas e álcool, e a relação ambígua com a fama. Para os fãs do rapper, o álbum provavelmente não decepcione, pois apesar dos assuntos mais sombrios, não se afasta da essência musical de Malone.

Cópia física do álbum novo de Post Malone. [Imagem: Reprodução/UMusic]

O destaque de Twelve Carat Toothache ainda vai para as faixas mais energéticas como Love/Hate Letter To Alcohol, Insane, Cooped Up e I Like You (A Happier Song), deixando algumas outras participações e músicas solos mais esquecidas. Pelas especulações e críticas, talvez o projeto não seja um grande sucesso nas paradas musicais e número de streams, mas essa não parece ter sido a intenção do artista.

Depois de algumas eras anteriores bem sucedidas e várias aparições no topo das paradas, Post Malone fez seu comeback inspirado em um relato super honesto sobre seus sentimentos e impressões sobre sua vida atual. Para isso, Twelve Carat Toothache cumpre seu papel e vale a pena pelo seu poder de reflexão. E o trabalho mais curto talvez indique que essa seja apenas uma das partes iniciais de seus lançamentos futuros.

[CRÍTICA] Harry Styles mostra estabilidade ao acertar mais uma vez com Harry’s House

De uma coisa, todos que estão por dentro do mundo fervoroso das celebridades sabem: Harry Styles esbanja carisma. Como se tivesse nascido para estar nos maiores palcos do mundo com suas roupas brilhantes e nenhuma preocupação além de falar o que sente e pensa através das músicas, ele se tornou um dos membros de maior sucesso desde o fim da boy band One Direction, da qual fez parte entre 2010 e 2015.

Na terceira semana de maio (20), Styles lançou Harry’s House, seu terceiro álbum de estúdio, com a proposta de convidar à sua casa quem quiser conhecê-lo.

Desde o hiato do grupo, ele se consolidou na indústria pop, começando por seu álbum de estreia self-titled carregado de pop rock, Harry Styles (2017), responsável pelo single de sucesso Signal Of The Times. Como uma prova de sua consistência e ousadia, lançou-se à criatividade e à experimentação com Fine Line (2019), um estouro pop por todo o globo com singles como Watermelon Sugar, Adore You e Golden.

Apesar da última era de Harry ter sido marcante, a mais nova trazida pelo artista promete muito, mas será que cumpre? Produzido por Kid Harpoon, Tyler Johnson e Samuel Witte, o álbum apresenta uma gama de canções acústicas interessantes, mas é dominado por um pop oitentista que, ainda que não tenha sido feito de maneira original, tem uma sonoridade interessante juntamente às composições do cantor.

Ao fugir, em grande parte, do escopo do que trouxe anteriormente, o artista inovou dentro de sua discografia e ganhou aclamação da crítica, com nota 84 pela média de 25 críticas no Metacritic. A relevante New Music Express (NME), ainda, destaca esse como o melhor álbum de Styles. Dentre as críticas positivas, estão comentários de Rolling Stones, The Guardian e Los Angeles Times, apesar da avaliação mediana do New York Times.

Como uma espécie de convite, o lead single escolhido foi As It Was, faixa quatro do disco. Ela exprime alguma angústia em relação ao passado e traz aquela coisa íntima de cuidado com os detalhes. De todas as canções, essa é a que melhor introduz o propósito de Harry’s House como um álbum intimista — uma possibilidade de conhecer o mundo do astro. Um artifício que pontua com ainda mais ênfase a pessoalidade da composição é a introdução marcada pela voz de Ruby Winston, filha de cinco anos do produtor Ben Winston e afilhada de Harry, com quem confessou falar todas as noites.

A faixa de abertura é um eletropop cheio de energia: Music For a Sushi Restaurant. Utilizando até mesmo o recurso auditivo da estereofonia  — uma produção sonora que possibilita, por exemplo, ouvir um instrumento em apenas um lado do fone — para criar a imersão do ouvinte na atmosfera envolvente do álbum. É dançante e divertida, exatamente como a música seguinte, Late Night Talking — já performada no Coachella 2022. Ambas não têm uma riqueza lírica na composição e, por serem até um pouco superficiais nesse sentido, podem frustrar a princípio ao considerar que o single de promoção do álbum é contrário nesse ponto, pois revela uma face real de Harry. De qualquer forma, elas não deixam de fortalecer um clima aconchegante que remete a estar numa festa em casa, dançando com os amigos.

Grapejuice, por outro lado, é receptiva. É envolvente, instigante e soa como uma ponte, em relação à sonoridade, entre seu disco de estreia e Harry’s House com a combinação de sua fase new wave e o pop rock de músicas como Two Ghosts (2019). O uso das banalidades — de momentos pequenos e rotineiros — demarcam a inserção nesse ambiente hospitaleiro de amor e recordação a partir de um narrador e seus devaneios ao longo da letra.

Como as duas primeiras canções, Daylight tem uma batida envolvente e que facilmente fixa na cabeça. A seguir, o ritmo começa a desacelerar e se tornar consideravelmente menos dançante com a presença dupla mais melancólica do álbum: Little Freak e Matilda. Na primeira, o artista utiliza um artifício de enriquecimento à música a partir da adição de camadas com instrumentos a mais a cada vez que o refrão se repete. Assim, esse crescimento eleva a sensação do público quando vai evoluindo juntamente à construção desse cenário de conforto.

Matilda segue a mesma linha de sua antecessora e tem como inspiração o livro infantil homônimo de Roald Dahl, como comentou Harry em entrevista à Apple Music. A história da obra ganhou maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de 1997, também homônima, responsável por marcar gerações como as que mais ouvem o cantor britânico. Ainda, comentou sobre como seu objetivo era se mostrar como alguém disposto a ouvir, o que parece ter sido muito bem realizado ao considerar a comoção gerada pela música nas redes.

Sem tempo para respirar após o baque, Cinema chega com mais eletropop dançante para levantar a poeira. A faixa, apesar de trazer versos mais repetitivos, tem um enorme potencial para single pela simplicidade de sua composição e a energia de um sucesso digno de Harry Styles, assim como Daydreaming, faixa nove. Divertida e romântica, essa se mostra a com o maior potencial comercial pelas batidas marcadas, os versos também simplórios e suas confissões amorosas. Ela segue a mesma linha de alguns dos principais singles da carreira — Adore You, Lights Up

Keep Driving com sua ponte alucinante que certamente conta uma intensa história antecede uma nova descida que já encaminha para as faixas finais. Satellite começa com aquela mesma sonoridade apresentada pelo disco, mas no minuto final toma um formato robusto mais aprofundado que a torna ainda mais interessante, dinâmica e cheia de personalidade.

Boyfriends, também já performada no Coachella 2022 juntamente a Late Night Talking na apresentação de Styles como headliner, é um acústico sereno. Uma espécie de carta aberta sobre relacionamentos disfuncionais cujas tensões são ocasionadas pela parte masculina, é como se sentar diante de Harry na sala de sua casa e ouvi-lo, apenas voz e violão, dar conselhos indispensáveis.

[Imagem: Divulgação]

Para encerrar, a atmosfera é serena e doce com Love Of My Life, uma genuína declaração amorosa carregada de angústia e recordações dolorosas. No verso “eu me me lembro lá na casa do Jonny, nada mais é como era”, encerra-se o ciclo aberto pelo lançamento de As It Was como o lead single que serviu como o convite à sua casa. A faixa finaliza fazendo jus à aventura proposta pelo álbum e ameniza esse labirinto de emoções.

Harry Styles se mostrou mais experimental e ousado em Fine Line, quando saiu consideravelmente da zona de conforto que criou com seu álbum de estreia – que, apesar de bom, é tímido quando se compreende a potência da voz artística do cantor. Com muita personalidade e audácia, usou o segundo para explorar sua mais recente liberdade criativa. Com Harry’s House, para a indústria, não há nenhuma revolução significativa e a gama de canções com composições previsíveis pode até mesmo soar menos original que o que já foi produzido por ele em tempos remotos, quando pareceu se mostrar mais como artista e indivíduo que agora, quando formalizou tal convite.

Apesar de todas as oposições, Harry’s House pode ser melhor definido como o álbum mais divertido e dançante de Harry, ao mesmo que traz canções desoladoras e inesquecíveis. A experiência geral baseada na premissa também pode variar conforme o grau de proximidade com a arte do cantor, mas o que não pode deixar de ser dito é: esse é um ótimo disco que mantém o lugar do britânico no pódio da música mundial e demarca como seu talento e criatividade são grandes ganhos para as novas gerações.

[Crítica] Dance Fever, de Florence + The Machine é um grito segurado há muito tempo

O quinto álbum da união entre Florence Welch e a banda The Machine está entre nós. O álbum foi muito esperado após o hiatus de 4 anos da banda inglesa indie rock desde o álbum High As Hope, de 2018. Lançado no dia 13 de maio, pela gravadora Polydor Records, as 14 faixas foram produzidas por Jack Antonoff, que fez parte de trabalhos recentes de Lana del Rey e Taylor Swift, e Dave Bayley, vocalista do grupo Glass Animals. Dance Fever é ensurdecedor, é notável o desespero e a vontade de se livrar dessas palavras e sentimentos, colocando para fora todas as emoções comprimidas em uma explosão de experiências instrumentais.

E quando é bom, é impossível não ser notado. A rainha das bruxas emplacou notas altíssimas e elogios da crítica, com nota 7.1 na Pitchfork, 9,4 dos usuários e 85 no Metacritic, o álbum vem para mostrar outros segmentos musicais da banda. Por mais que seja similar ao que foi entregue anteriormente, o novo trabalho revitaliza e traz novos elementos que tiram qualquer um – inclusive o grupo – de sua zona de conforto. Guitarras fortes substituem o tradicional piano e o uso de diferentes tons da voz de Florence são muito bem explorados.

O álbum – que foi escrito durante a pandemia – traz conflitos sobre imagem pública, a necessidade de estar em alta, o papel da mulher na sociedade (principalmente a obrigação patriarcal de se tornar mãe, esposa e dona de casa) e sentimentos sombrios e individuais. A narrativa de repressão divina sobre injustiça sobre os humanos e poder te deixa em dúvida sobre os reais sentimentos da artista, mas esta indecisão é uma forma honesta de mostrar ao seu público como funciona a mente humana, todos temos conflitos, isso não nos torna confusos, nos torna sujeitos, pessoas reais.

Artistas costumam ser desumanizados e até objetificados pela fama, mas continuam motivados pelo gosto pela profissão e pela música, sua arte. Dance Fever mostra a febre de dançar conforme seus sentimentos, mesmo não os entendendo, representado por uma linguagem poética, que aborda a luxúria, solidão, tristeza e medo em meio a acontecimentos que não somos capazes de controlar, como a pandemia e as ações divinas.

Essa febre de dançar vem do conceito de coreomania. Também chamado de dançonomia, foi um fenômeno social que ocorreu na Europa da Idade Média, tendo seu primeiro acontecimento em grande escala em Aquisgrano, na Alemanha, em 24 de junho de 1374. Rapidamente se alastrou pela Europa, contatando outros ataques nos Países Baixos, colônias, Metz e mais tarde em Estrasburgo, aparentemente na trilha de rotas de peregrinação entre os séculos XIV e XVIII.

Esse fenômeno consistia em grupos de pessoas, chegando até a centenas de uma só vez, que dançavam de forma ininterrupta e incontrolável publicamente até o cansaço extremo. Eles continuavam se movendo, mesmo exaustos e alucinando até espumar pela boca e desmaiar de cansaço. Por mais sombrio e bizarro que seja, é essa a sensação trazida pelo álbum, sentimento de urgência, sofrimento e descontentamento.

[Imagem: Divulgação]

Passando para as músicas, “King” abre o álbum exalando poder. Com instrumentais marcantes e estridentes, a faixa descreve um relacionamento em que o cônjuge quer ser superior à mulher, engrandecendo seus feitos e sempre agindo com seu “coração apodrecido”, acredita que a mulher deve ter filhos, se demonstrar sempre feliz e esconder sua ambição, a manipulando até que ela achasse que deveria acreditar nessa construção patriarcal.

A mulher, em contrapartida, rebate esse pensamento com afirmações de individualidade, descrevendo que sua personalidade é sombria, que o drama, mitologia e grandiosidade fazem parte dela. O refrão diz o que muitas mulheres gostariam de gritar, ela não é mãe, nem esposa, ela reina sobre si mesma e sua vida. É possível sentir a voz se tornando mais fraca e inquieta com o decorrer da música, demonstrando a dor real da composição.

Em ritmo mais acelerado e eclético, a segunda faixa “Free” traz a luta com doenças psicológicas, como essa condição toma poder sobre a pessoa todos os dias e o tempo todo, derrubando qualquer outro sentimento senão o de angústia, que talvez seria melhor estar sedada o tempo todo para não sentir essa avalanche constante. Também traz o drama de possuir essa condição e não ser respeitada por outros que estão ao redor, “’You’re too sensitive’, they said” (Eles dizem: “Você é muito sensível”, em português) é um trecho que ilustra perfeitamente a afirmação anterior. 

A música é quem libera a pessoa dessa angústia, pois quando sente o ritmo e dança conforme a música se sente livre, mas demonstra a indignação dessa ser a realidade, de não haver cura para sua doença “It is what it is” (é o que é, em português) e não tem como resolver.

Choreomania”, faixa intitulada a partir do fenômeno explicado anteriormente, traz um ritmo mais leve e jovial. Com um batuque constante e rápido, que lembra o tic toc de um relógio, começa como um desabafo sobre autoconhecimento. É possível interpretar que a batida no fundo se relaciona ao tempo passando e a jornada de busca a si mesmo traz indignação e pressa para conquistas que ainda não aconteceram e histórias que deveriam ser contadas, mas não foram vividas, com vozes que a pressionam a fazer escolhas e viver de maneira diferente. Como tudo é temporário, os padrões se tornam inúteis, pois podem mudar a partir da percepção de cada um dependendo do tempo em que estão vivendo e sua realidade.

A quarta faixa “Back in Town” é nostálgica, demonstra a intensidade das emoções ao retornar a sua cidade natal, viver no próprio mundo sem metas definidas, vivendo todos os dias sem perspectivas, a vida muda, mas o passado continua igual. Retornando a momentos de sua infância para reviver aquela felicidade, acabou ficando pela tristeza da nostalgia do passado. Relembrar momentos mais fáceis que não voltam mais e lidar com a mudança de sentimento e perspectiva sobre os acontecimentos, acreditou em algo por anos, mas, ao se lembrar, percebeu mais madura que não foi bem assim.

Em “Girls Against God” é retratada a insatisfação do tratamento divino com mulheres, o medo, as emoções à flor da pele, a passividade imposta desde a infância, ser tratada como pequenos animais de estimação e nunca como figuras de poder. Essa injustiça leva mulheres a se colocarem no lugar que o divino não as colocou e lutar por sua posição e reconhecimento.

Há uma reviravolta no último trecho da música, quando acontece uma troca de melodia para uma mais maléfica, com gargalhadas e som de passos, trazendo uma estética de terror, e afirma que como Deus não quis um acordo, ela conheceu o diabo e ele a prometeu um coração de ouro ou uma voz de ouro, deixando aberto para interpretações de que ela escolheu a voz, uma vez que suas músicas trazem melancolia e tristeza. Reforçou o canto da bruxa depois dessa!

Dream Girl Evil” fecha a primeira parte do álbum com um amor platônico, há alguém apaixonado pela versão dela que criou em sua cabeça e não quem ela realmente é. Ele a imagina como uma menina angelical e tradicional, embora ela seja assumidamente “evil” (má, em português), o que desapontou suas expectativas, mas ela não liga, até gosta da admiração, ela não é mãe de ninguém e não deve nada a esse homem, mesmo que ele queira que ela seja, ela não se desfaz da própria personalidade má por ninguém. Deu um fecho no macho que doeu daqui!

A intro “Prayer Factory” traz a resolução de abraçar seus medos e lutos, mas não aguenta mais a pressão de viver angustiada, precisa que alguém lhe dê uma chance, e talvez isso a tire dessa solidão e tristeza.

[Imagem: Twitter]

A faixa “Cassandra” fala sobre sonhos interrompidos, o futuro que foi lapidado desrespeitando suas próprias vontades, viver a vida que ela não quer, todas as pessoas criativas e artistas (representadas na música como “all the gods”, ou todos os deuses em português) foram domesticados e sua liberdade de escolha e expressão foi tirada. Tudo está sendo manipulado cegamente e o que ela conhecia não é mais o mesmo ou autorizado, censurando a liberdade de pessoas artísticas diminuídas a meras tarefas comuns.

Heaven is Here” é outra música de menos de 2 minutos que se difere das demais em questões rítmicas. Começando com um grito que lembra uma marcha, uma possível interpretação é que o céu está aqui pois ela é uma santidade e deixou o mundo desse jeito, por conta de sua melancolia.

Chegando a décima faixa intitulada “Daffodil”, a banda traz algo ainda mais diferente da sequência anterior. Ela é a escolhida divina, mesmo não sendo totalmente boa, ela possui poderes míticos e absorve a dor para tentar deixar o mundo melhor, mesmo sabendo que o futuro não é brilhante nem contente.

My Love” é o single absoluto do álbum. Com ritmo mais animado e leve, após tanta melancolia e solidão ela busca a salvação e felicidade, amor. O problema que encontra é não ter onde disseminar esse amor, não ter com quem compartilhar sua vida e sua felicidade.

Clipe “My Love” de Florence + The Machine

Em outra intro, a faixa “Restraint” possui apenas dois versos cantados em um tom de voz que divide opiniões, mais parecendo um arroto, sinceramente. Os versos abrem a interpretação que talvez as músicas esperançosas anteriores eram mentira, e ela estava perguntando se aprendeu a se limitar, se passou credibilidade posando de boazinha, não demonstrar suas emoções reais era o que tinha que ser feito. Confira os versos abaixo:

 “And have I learned restraint? Am I quiet enough for you yet?” 

(Eu já aprendi a contenção? Já estou quieta o suficiente para você?)

Depois do baque emocional da música anterior, quem procede é “The Bomb”, trazendo a temática de um amor que não aconteceu por briga de ego. Ambos gostam do que é difícil, pois se fosse fácil não seria tão interessante, ela sabe que não o ama, apenas gosta da bomba de sentimentos que a causa. O fato de não ter dado certo foi por conta da demonstração mínima de vulnerabilidade por parte dela, que o afastou. 

A música termina com um dos versos mais marcantes do álbum, “Sometimes you get the good, sometimes you get a song”, às vezes você tem um relacionamento bem sucedido, e às vezes você consegue mais uma música, no sentido triste e melancólico. É para pegar em qualquer recém solteiro.

Fechando a narrativa e a obra de arte, o álbum termina com “Morning Elvis”. O peso do mundo e a reação dela sobre os acontecimentos, pressão psicológica, pensamentos suicidas, fama desenfreada, depressão e tristeza que a trazem dores físicas. Ela pensa em desistir da música, mas a vontade de cantar é mais forte que ela, se poupa da dor da morte em troca de continuar cantando.

[Imagem: Pinterest]

O álbum como um todo traz muita reflexão, são emoções que muitos guardam dentro de si e Florence Welch gritou para quem quiser ouvir. A descoberta de sentimentos e o poder de colocá-los para fora torna a obra gigantesca, a novidade não somente na honestidade, mas melodicamente, a volta das guitarras fortes e diferentes tons de voz utilizados justamente para gerar incômodo, pois todo o sentimento trazido na letra é desconfortável.

Florence + The Machine é inigualável, não são músicas para escutar no caminho do trabalho ou no carro (a não ser em um dia de frio e melancólico, assim talvez encaixe com a vibe do momento), são para sentir e gritar sozinho em casa. Dance Fever é um monumento, que vem para reconstruir o cenário indie rock, que vive no mesmo tom há muito tempo.

[Crítica] ‘Mr. Morale & the Big Steppers’ é um patrimônio histórico feito por Kendrick Lamar

Mais do que um álbum, Mr. Morale & the Big Steppers é um conceito. Além das faixas, a mais nova composição de Kendrick Lamar, em hiato desde 2017, traz uma viagem ao seu lírico interno. Com 18 faixas, o disco se torna uma espécie de diálogo com o ouvinte, que por cerca de uma hora se vê nos pensamentos do artista.

Algo que chama atenção é que, diferente de nomes consagrados do rap internacional (como Kanye West), Kendrick não fez nenhuma parceria com algum outro grande artista para impulsionar as canções, mas adotou feats com pessoas próximas a ele — incluindo seu primo Baby Keem.

A unicidade que cerca todo o álbum já se apresenta na imagem de capa, divulgada dias antes do lançamento (que aconteceu no último dia 13 de maio): Lamar aparece junto a sua filha de dois anos e sua esposa, Whitney Alford, que está com um recém-nascido no colo — o que levanta a hipótese de que a família cresceu. Além disso, o cantor está com uma coroa que supostamente simula a coroa de Jesus Cristo. Outro símbolo que ganha notoriedade é uma pistola, escondida na parte de trás de sua cintura.

Grande parte dos elementos da capa são desvendados conforme as faixas avançam. Kendrick traduz com uma singularidade de flows em cada música abordagens como saúde mental, paternidade, críticas a negacionistas e anti-vacinas, solidão do homem preto, hipocrisia dos falsos cristãos — o que é observado na coroa de jesus como referência — e por fim, homofobia.

Lamar é o único artista de hip–hop a ganhar um Prêmio Pulitzer, conquistado pela letra de DAMN. O disco é um sucesso até os dias atuais, mesmo após cinco anos de seu lançamento. Mr. Morale & the Big Steppers traz uma receita parecida, mas com ingredientes muito mais avançados.

Sobre as faixas:

O primeiro título, United in Grief, abre com um verso que diz “espero que você encontre alguma paz de espírito nesta vida”. É como uma metáfora sobre a imersão psicológica trazida por todo o álbum. Pode se traduzir como uma forma onde o artista fala sobre “lutar com seus demônios internos”, em uma busca pelo seu bem-estar pessoal. Muito se diz sobre emoções sufocadas —  talvez pela fama e a difícil trilha —, além de conflitos familiares. Kendrick abre o coração e fala sobre como  o dinheiro é algo supérfluo quando você não encontra paz interior, visto muito no verso “o que é um rapper com jóias”, enquanto lista diversos conflitos que a fama e o luxo não curaram. Portanto, é um  jeito de abrir o álbum e já prender a atenção do ouvinte.

N95 faz uma referência direta à questão da pandemia e uma crítica aos negacionistas. Assuntos  sobre o pânico causado pelas mortes — que por diversas vezes eram anuladas e vistas como exagero por aqueles que não eram atingidos ou não acreditavam — foram discutidos. Uma análise dura e atual, muito bem traduzida pelo rapper.

Wordwide Stepper é, sem dúvidas, uma das faixas com os versos mais impactantes. Um grito de revolta ao racismo. A parte mais dura e mais sincera é quando ele faz uma alusão à sua filha e ao fato de estar preocupado com os perigos do lado de fora de sua casa, devido ao que ele chama de “genética”. Outro assunto pautado é a violência racial, visto no verso “nos consideram assassinos“. Além dessa pauta, também traz uma crítica à questão da religião e da hipocrisia das classes mais altas e de tradicionais instituições mundiais, como a igreja. 

 8 bilhões de pessoas na terra, assassinos silenciosos

Organizações sem fins lucrativos, pastores e a igreja, os bandidos e assaltante

A corporação Hollywood na escola, ensinando filosofias

Ou você morre, ou vai pra prisão, psicologia assassina

Essa sinceridade trouxe em palavras um grito de revolta que muitos não têm coragem de falar, o que faz a composição incrível e arriscada; e que  também alude às referências vistas na capa do disco. 

Die Hard fala novamente sobre o eu lírico do artista. Kendrick conta que precisou desenvolver toda sua força durante a trajetória, que não pode sucumbir a fraqueza e sempre buscou driblar as dificuldades impostas por toda a sua vida. Ele relembra seu passado, em uma viagem na qual o ouvinte embarca junto e entra na mente do artista — além de falar sobre arrependimentos, família e lutas internas.

[Imagem: Reprodução/Complex]

Father Time, como o nome já diz, fala sobre paternidade e os famosos daddy issues, que podem ser simplificados como “problemas paternos” — relacionados a alienação, solidão e tudo que vem junto com a ausência de um pai ou figura que o represente. Lamar viaja para suas memórias de infância e distância do pai, mostrando como isso o afetou. Junto a isso, traz a discussão referente à solidão do homem negro, onde narra que por toda a vida teve que esconder como isso o afetava e sempre se mostrar como forte. 

A visão da sua imagem como um pai, citado tanto em algumas músicas quanto na capa do álbum, como uma forma de fugir de algo que sentiu falta durante toda a sua vida. Um tema atual e muito debatido, ele expõe uma fragilidade pessoal que contorna a imagem que, quem vê de fora desconhece. Outro destaque nessa música foi a citação à Drake e Kanye West, passando pela briga entre os dois e a forma como se resolveram.

Rich e Rich Spirit conversam bem entre si. Foi de extrema inteligência que, quando na composição do disco, foram colocadas em sequência. Na primeira, descreve seu passado e as dificuldades enfrentadas, traz os “veteranos”, aqueles que já possuem dinheiro e ostentam na soberba, expondo como pessoas assim se comportam, sempre com uma visão pejorativa. Já a segunda, cita uma versão mais atual: novamente fala sobre sua filha, mas além da questão relacionada ao dinheiro e ao que a fama lhe trouxe, traz a questão de “espírito” e do sentimento de liberdade. 

We cry together é uma das letras mais fracas — quando comparada às outras. Não que seja ruim, a sonoridade é de fato boa, mas não é tão profunda como as outras músicas. O que talvez chame mais atenção é a exposição das pessoas que aderem pautas sociais, mas não cumprem, o que ele descreve como “falsas feministas”. Se assemelha à uma discussão de casal, o que a torna interessante. Os ataques pessoais se transformam em uma crítica total ao sistema.

[Imagem: Reprodução/Youtube]

Purple Hearts traz, mais uma vez, referências bíblicas: cita o fruto proibido numa metáfora, como se várias de suas dificuldades surgissem em torno de um objeto em específico. Não tão forte comparada às outras, mas com um flow intenso que atrai.

Crown fala da sua relação com a fama e sobre ser idolatrado. O próprio título se refere a isso, a tradução “coroa” alude a questão de ser um “rei” — alguém que ocupa um alto patamar na hierarquia musical e do Rap. Mas, diferentemente de muitos nomes do gênero, Kendrick não preza pela ostentação e sim por expor o lado negativo da fama e da idolatria. 

Eles te idolatram e louvam seu nome no país todo. Batem os pés e balançam a cabeça confirmando. Prometam que vão deixar a música tocando. É isso que eu chamo de amor. Mas chegará a hora de não estar lá quando alguém precisar de você.

Silent Hill faz referência ao jogo de terror que leva o mesmo nome, uma tirada bem pensada. Novamente com um conflito interno sendo discutido, o interessante na faixa é que, mesmo que o tema seja algo comum em diversas composições do álbum, sempre é abordado com novos pontos de vista. 

Savior fala sobre “salvar” ou “ser salvador”. Uma das músicas mais explosivas, responde a uma questão levantada em N95: “O que diabos é cultura de cancelamento?”. Uma canção se conecta a outra, e assim, é criada uma narrativa que se completa e torna tudo mais subjetivo.

Auntie Diaries retrata questões relacionadas a LGBTfobia, ao citar a narrativa de uma tia transgênero e a forma pela qual tal conceito foi compreendido e desmistificado pelo cantor quando passou a entender melhor e rompeu certos tabus que carregou por toda a vida.

Mr. Morale leva o nome do álbum. Fala de Lil Uzi, Oprah e muitas outras personalidades. Em um mix de suas próprias histórias e narrativas alheias — ao citar, por exemplo, o pai de Uzi —, Kendrick retrata a vida de pessoas de seu círculo pessoal.

E por fim, Mirror fecha o disco. A música faz uma analogia à Lamar olhando para si mesmo, com todas as suas forças e fraquezas. Sobre autoestima e a questão de se priorizar também, mas junto a isso, traz uma certa auto-piedade ao se sentir culpado por pensar em se pôr em primeiro lugar.

Kendrick Lamar falou sobre família, relações tóxicas e propôs muitas viagens introspectivas, em um disco quase todo baseado em si e em suas vivências, mas que conversa com certeza com temas comuns à várias pessoas. Sem medo de expor duras críticas, revela diversos aspectos sociais aos quais muitos artistas se limitam, o que torna o álbum uma verdadeira obra de arte, sem defeitos e sem papas na língua. 

Talvez o que o torna mais interessante seja a capacidade de conversar debates importantes, e também relacionar com pontos pessoais — principalmente colocando em um dos  grandes focos a paternidade, onde cita sua história com seu pai, mas seu ponto de vista como progenitor também.

Em menos de uma semana de lançamento, Kendrick mostrou como o impacto foi grande e que, mesmo com o hiato, evoluiu em sua criatividade e em suas composições. Em diversos países, está em primeiro lugar na Apple. Já no Spotify, está no Top 18 Global. Aclamado, o rapper recebeu grandes elogios da crítica especializada e o álbum Mr. Morale & The Big Steppers estreou no Metacritic com uma média de 100.

Com toda certeza, é um trabalho digno de Grammy.