A realidade fora dos palcos: vícios, ansiedade e depressão

No início deste mês de setembro, o Rio de Janeiro recebeu mais uma edição de um dos festivais mais famosos no mundo da música: o Rock In Rio. Dentre os artistas cotados para as apresentações no palco mundo, Justin Bieber e Demi Lovato se destacaram. Não apenas pelo fato de suas performances terem sido impecáveis e cheias de talento, mas também por conta do que aconteceu depois destas.

Ambos os cantores se manifestaram em suas redes sociais falando sobre exaustão física e mental e como isso afetaria suas respectivas turnês. Bieber optou por cancelar os próximos shows e Demi afirmou que essa seria sua última. 

O tema saúde mental é algo que passou a ser muito debatido ao longo dos últimos anos, principalmente na indústria musical. Em 2019, uma distribuidora digital sueca chamada Record Union fez um estudo e concluiu que dentre os 1500 músicos analisados, 73% destes possuem algum tipo de doença mental, principalmente na faixa etária dos 18 aos 25 anos. 

As doenças mais comuns são: ansiedade e depressão. Transtornos que afetam tanto Bieber quanto Demi. Dentro da pesquisa, apenas 19% afirmou ter procurado um tratamento adequado, enquanto 50% admitiu se automedicar, abusando de remédios, álcool e de drogas, lícitas ou não.

 O astro canadense e a ex-estrela da Disney estão longe de serem os únicos afetados pelas pressões da carreira e os dramas que os cercam. Artistas como Sabrina Carpenter e Joshua Bassett são atacados em suas redes sociais constantemente desde o início de 2021, após polêmica envolvendo um triângulo amoroso; fator determinante para suas saúdes mentais. 

Justin Bieber: pausa em Justice Tour por questões de saúde

O astro canadense, em seu documentário Justin Bieber: Next Chapter falou abertamente sobre os problemas que ele enfrenta com sua saúde mental. Em 2020, o cantor revelou que ao longo de sua adolescência chegou a ter pensamentos suicidas por conta de toda pressão e do bullying que estava sofrendo.

Recentemente diagnosticado com a síndrome de Ramsay Hunt, doença responsável por causar paralisia facial e perda auditiva, Justin decidiu dar uma pausa em sua agenda lotada de shows, a fim de se concentrar nos tratamentos da síndrome para melhorar o mais rápido possível. Uma atitude que ao mesmo tempo foi muito compreendida pelo seu público, também foi altamente criticada. 

Após uma melhora significativa, Bieber retomou a Justice Tour e inclusive realizou o sonho de muitas beliebers – fãs do astro – vindo  ao Brasil, no início deste mês. O artista entregou um show espetacular na edição do Rock in Rio de 2022, performando por mais de 1h com uma setlist de 22 músicas. No entanto, os fãs perceberam o cansaço que o cantor apresentou ao longo de sua apresentação. Justin estava visivelmente abalado. 

Justin Bieber no Rock in Rio [Imagem: Reprodução/Instagram]

Após sua apresentação no Rio de Janeiro, o cantor confirmou o que a mídia já estava especulando. A Justice Tour estaria sendo suspensa mais uma vez. Os shows que aconteceriam na capital paulista nos dias 14 e 15 de setembro foram cancelados. Bieber, em seu Instagram, se desculpou e agradeceu o apoio de seus fãs.

Comunicado oficial da Time for Fun [Imagem: Reprodução/Twitter]

No entanto, nem todo mundo entendeu a decisão tomada pelo astro. Mais uma vez ele foi considerado como mimado e egoísta por, pasmem, priorizar sua saúde física e mental. Infelizmente, enquanto alguns torcem para que Justin Bieber fique bem, outros simplesmente não compreendem como ele pode agir dessa forma. Colocando o cantor em um patamar muito elevado, esquecendo-se de algo fundamental: Justin Bieber também é humano. 

Demi Lovato: uma jornada de vícios e depressão

Demi Lovato, após uma série de shows pelo mundo, anunciou em seu Instagram nesta última terça-feira (13) que está muito doente e que não consegue mais seguir com a carreira. “Essa próxima turnê será minha última, eu amo vocês e muito obrigada”, disse a cantora. A data prevista para o fim da Holy Fvck Tour é dia 6 de novembro deste ano.

A cantora americana Demi Lovato, em entrevista fornecida à Variety, contou sobre seu documentário Dancing with the Devil, que aborda a sua luta pela preservação de sua saúde mental e contra o vício. “Há dois anos enfrentei o momento mais difícil da minha vida e agora estou pronta para compartilhar minha história com o mundo inteiro. Pela primeira vez vocês poderão ver o meu ponto de vista sobre minha história de luta e cura. Sou grata por ter conseguido encarar meu passado e finalmente compartilhar minha jornada com o mundo”, declarou à revista.

A jornada de Lovato com transtornos em sua saúde mental começou quando a cantora trabalhava para o Disney Channel, em 2010. Além de lidar com a constante busca pela “perfeição”, lidava também com a bipolaridade. A artista foi afastada para um tratamento em Illinois para cuidar de sua bulimia, colapsos nervosos, automutilação e dependência de álcool e cocaína.
Demi contou, também, que quando mais nova chegou inclusive a performar embriagada e sob o efeito de drogas. Uma de suas apresentações mais elogiadas do single Give Your Heart A Break, no programa American Idol, a cantora estava totalmente fora de si. Ao longo desse período difícil, ela foi alvo de muitos ataques e críticas da mídia. Comentários de que a cantora “havia chegado no fundo do poço” foram recorrentes; fator que só contribui para a piora de seu estado.

Sabrina Carpenter e Joshua Basset após Drivers License

No ano passado, a cantora Sabrina Carpenter foi envolvida em escândalos amorosos juntamente com seu ex-namorado, Joshua Basset, e Olivia Rodrigo, que também namorou o cantor e ator em 2020. Os rumores de que Sabrina havia sido a responsável pelo rompimento do casal circularam por toda internet após o single drivers license, lançado por Rodrigo em janeiro de 2021.  

Na música, Olivia menciona que uma loira teria sido quem os afastou; os fãs logo concluíram que se tratava de Sabrina, uma vez que a cantora tinha sido vista com Basset várias vezes, inclusive em suas redes sociais. Com isso, Sabrina se tornou alvo de inúmeros ataques, além de ter sofrido ameaças de morte. A cantora, em entrevistas, falou que esses hates excessivos foram péssimos para sua saúde mental. Joshua, que também sofreu com muitos ataques, optou por não responder à cantora diretamente e pediu que seus fãs não jogassem hate em ninguém

Tanto Carpenter quanto Bassett compartilharam seus sentimentos por meio da música. Sabrina lançou o singleSkin”, que pode ser entendida como uma resposta direta à Olivia, levando em conta que a cantora menciona em sua canção: “Talvez loira tenha sido a única rima”. Fazendo alusão à drivers license

 ”Minhas músicas são um reflexo do que está acontecendo na minha vida. Gostaria que refletisse a força que pode ser encontrada em momentos difíceis”, disse Carpenter em entrevista à People Magazine 

Joshua lançou Lie, Lie, Lie e Crisis; ambas sobre todo o drama em que ele foi envolvido publicamente. ”Minha mãe me ligou, porque ouviu que estou recebendo ameaças de morte. Não sei que diabos devo fazer com isso. Gostaria de poder abrir meus olhos e esse pesadelo ter acabado. Mas você sensacionalizou e continua jogando lenha na fogueira”, escreveu Joshua Basset em Crisis.

Uma coisa é fato: pessoas públicas estão mais sujeitas a críticas e pressões externas do que qualquer um; e os cantores não são diferentes. Os cuidados com a saúde mental são essenciais para que os artistas consigam seguir na indústria musical. Felizmente, essa questão está cada vez mais sendo abordada pela mídia, e doenças como depressão estão parando de ser consideradas um tabu.

Quanto mais se fala sobre o assunto, mais informadas ficam as pessoas. Consequentemente, torna-se mais fácil procurar um tratamento. Esses são apenas  alguns, dos milhares de cantores, que convivem com transtornos em suas saúdes mentais. Cabe ao público compreender e respeitar que eles terem suas vidas publicizadas, não anula o fato que também passam por problemas como qualquer um.

Os virais do TikTok são o futuro da indústria musical?

Os novos hits do aplicativo são vazios e artificiais, será que ele vai mudar a maneira de fazer música?

Que o TikTok é um dos aplicativos mais usados hoje em dia não é novidade. A fama do aplicativo começou quando a empresa chinesa ByteDance comprou o Musical.ly, antiga plataforma com a mesma configuração do atual, em que os usuários faziam lipsync (como se fosse uma dublagem, sincronizando a música com os movimentos labiais) e transições com a câmera. Como o perfil desses usuários do app se manteve ativo, muita gente voltou a usar as mesmas contas no TikTok e a fama só foi crescendo.

Ele entrou em ascensão com a pandemia do COVID-19, que no isolamento fez os jovens buscarem outros meios de compartilhar suas vidas e fazer novas conexões. Alguns hits como Old Town Road e Say So começaram a viralizar no TikTok antes mesmo de qualquer outra plataforma, o que chamou mais a atenção do público e aumentou o número de streams nessas músicas. Esse artifício foi usado por muitos artistas, como Doja Cat, Pedro Sampaio e Megan Thee Stallion que aproveitaram a rapidez do aplicativo em levar conteúdo e começaram a usá-lo para alavancar suas canções.

Esses hits renderam muitas dancinhas e trends virais, que para quem usa o TikTok é impossível não saber a coreografia. Além disso, ele também abriu portas para muitos artistas desconhecidos ou até conhecidos com pouca influência na indústria musical, como Marina Sena, que ficou popular por Por Supuesto e Måneskin, banda italiana vencedora do The X-Factor Itália em 2016, que viralizou pelo cover de Beggin. No TikTok, os dois foram motivos de trends muito famosas que os levaram ao Rock in Rio 2022.

Mesmo com a procura do aplicativo por alguns cantores para aumentar o engajamento em suas músicas, outros se incomodaram com essa problemática de ter que criar músicas “para” o app. Muitos se pronunciaram sobre a cobrança das gravadoras por músicas que venham a viralizar no TikTok. Halsey foi uma das primeiras a falar sobre isso em um vídeo que postou no aplicativo. Nele, a cantora diz que mesmo estando há oito anos na indústria, sua gravadora só a deixaria lançar uma música a menos que conseguisse um vídeo viral usando-a.

Partes do vídeo publicado por Halsey no TikToK
Imagem: [Reprodução/TikTok Halsey]

Curiosamente esse vídeo viralizou e a música foi lançada nas plataformas. Muitos internautas comentaram que esse poderia ter sido um “viral do antiviral”. Essa expressão ficou famosa depois que um artigo publicado pelo site americano Jezebel, em que a autora do texto, Gabrielle Bruney crítica Halsey e outros artistas de denunciar seus empresários e gravadoras, mas conseguirem exatamente o que eles querem: “Esses astros deveriam ser premiados por atacarem os executivos enquanto aparentemente conseguem exatamente o que esses executivos queriam”.

No Brasil, a mesma coisa acontece. Os artistas começaram a lançar músicas propositalmente para o aplicativo, que acompanhadas de dancinhas viralizam muito rápido. O mais influente nessa “corrida” pelos hits foi Zé Felipe. Casado com a influencer Virginia Fonseca, ele lança a música com coreografia e ela posta todo dia um TikTok ou stories do Instagram dançando o novo hit. É um plano infalível.

O problema em torno disso é que muitos artistas começaram a entregar músicas sem conteúdo, com poucas palavras, refrões repetitivos e letras pobres, com muitos palavrões e obscenidades, o que foi muito criticado por uma parte dos usuários que pensaram no real objetivo da música na sociedade. A conexão que a canção deve proporcionar ao público foi se perdendo e elas estão se tornando cada vez mais superficiais.

Além da artificialidade das letras, as danças também surgiram com passos pouco criativos e normalmente com os mesmos movimentos em todas as coreografias, o que pode mostrar uma falta de repertório que a plataforma levou a essa arte. Há quem pense que o app pode ajudar a descobrir talentos, mas o que ele mostrou até agora foi a falta deles na vida real.

Muitos clipes como os de No Chão Novinha,  Build a B*tch e Chama Neném lançados recentemente para as músicas virais, tiveram a participação de tiktokers e poucos dançarinos, o que tira espaço daqueles que dedicam sua vida a isso. Mesmo que alguns deles tenham saído de academias renomadas de dança, eles já alcançaram o sucesso nessa área e poderiam ajudar quem também deseja crescer com a dança. 

Adele se pronunciou sobre isso à Apple Music, e se questionou: “Quem vai fazer música para a minha geração?”. Prestes a lançar o álbum 30, em 2021, a cantora comentou sobre os pedidos de sua gravadora para produzir músicas para o TikTok e respondeu considerando o público de outra geração e que não, necessariamente, está na plataforma: “Prefiro atingir pessoas que estão a meu nível em termos de tempo que passamos na Terra e outras coisas que passamos. Não quero adolescentes de 12 anos ouvindo este álbum. Ele é muito profundo”. 

O comentário de Adele mostra uma frustração diante a perda de identidade das músicas atualmente. Talvez essa questão dos virais do TikTok mostre que a indústria musical está a caminho de se desmanchar e perder seu conceito inicial de ser uma prática cultural que expressa os sentimentos através dos sons.

Antes tratada apenas como uma experiência, a música hoje é usada para várias outras atividades, o que foi majoritariamente influenciado pelo TikTok. Agora, só o tempo pode dizer se os virais do TikTok vão se tornar propulsores da indústria musical, já que a música é a essência do aplicativo, ou se ele vai mudar a maneira de fazer música.

Fanatismo: quando o amor de fã sai do controle

Ser fã é dedicar o seu tempo para admirar uma pessoa, grupo, ideia ou até mesmo um objeto. O sentimento que move as pessoas é muito difícil de decifrar e colocar em palavras. Muitas delas concentram suas vidas em torno de seus ídolos, seja criando fãs-clubes, fazendo mutirão de votação nas redes sociais ou acampando por meses nas filas dos shows e nas portas dos hotéis.

Os fãs amam o artista de forma intensa e o consideram uma pessoa próxima, assim os transformando em sinônimo de refúgio ou recompensa. Mas é preciso ter cuidado, há uma linha tênue entre amor e obsessão que pode ser cruzada com muita facilidade. Quando há o abandono da sua individualidade em prol de um artista, essa relação não se torna mais saudável. 

O fanatismo vem desse conceito, quando um limite é cruzado se desperta um estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer pessoa ou tema. Esse estado é perigoso e pode levar simples fãs a pessoas doentes e perigosas.

Outro ponto importante é que as celebridades e artistas, apesar de serem pessoas públicas, não estão a disposição a todo tempo de seus admiradores. Quando há a invasão desse espaço de privacidade, casos de assédio podem surgir. Ninguém pode tentar encostar e agarrar seu ídolo, só porque ele é seu ídolo. Esse é um dos limites frágeis que tornam o simples amor de fã em obsessão.

Desde os anos 60, quando se fala em fanatismo por estrelas da música, uma personalidade logo vem à cabeça: Elvis Presley. O artista sempre carregava hordas de fãs ao seu redor e sua casa, batizada de Graceland, atraia milhares de adoradores de seu trabalho. 

O filme Elvis (2022) de Baz Luhrmann representou em diversas cenas como era o caos provocado pelos fãs, seja em sua primeira apresentação até uma das últimas, dezenas de mulheres gritavam e enlouqueciam pela maneira que Presley dançava e cantava.

Trecho do filme Elvis (2022). [Imagem: Reprodução]

Outro fenômeno da música que provocou o frenesi entre os fãs foi a banda Beatles. Durante suas turnês mundiais que contaram com 18 países, 116 cidades e 250 shows, havia milhares de garotas gritando por eles. Em muitos momentos, os gritos delas chegaram a se sobrepor ao as vozes do quarteto, que na época não contava com equipamentos que amplificam suas vozes tão bem quanto acontece com as bandas atuais. 

A loucura foi tão grande que foi apelidada pela imprensa de Beatlemania, definida com a histeria e gritos agudos dos fãs, tanto em shows quanto durante as viagens do grupo. Há rumores, que os Beatles tipicamente viajavam para esses shows de carro blindado e a banda chegou a adotar clipes promocionais para seus singles para evitar as dificuldades de fazer aparições pessoais em programas de televisão na época.

Fenômeno conhecido como Beatlemania. [Imagem: Reprodução]

John Lennon, um dos integrantes da banda, chegou a se envolver em uma das maiores polêmicas de sua carreira na época. Quando durante uma entrevista ao jornal britânico Evening Standard, o músico disse: “Nós somos mais populares do que Jesus neste momento”. A afirmação, apesar de fazer sentido pela Beatlemania, provocou a ira das comunidades cristãs e até algumas estações de rádio mais tradicionais dos Estados Unidos pararam de tocar músicas dos Beatles.

Infelizmente, Lennon acabou sendo assassinado em 8 de dezembro de 1980 por um fã obcecado. O homem identificado como Mark Chapman, apesar de gostar dos Beatles, teria ficado indignado com as letras de canções como God e Imagine, principalmente por conta das relações feitas com a religião, onde o artista afirmava não crer em Jesus e na Bíblia.

No dia do atentado, o fã chegou a pedir um autógrafo para John Lennon antes de cometer o assassinato. O criminoso foi condenado a uma sentença de pelo menos 20 anos até prisão perpétua e teve todas as oportunidades para pedir sua liberdade negadas.

Memorial em homenagem a John Lennon em Nova York. [Imagem: Reprodução/Globo]

Nas décadas seguintes, muitas agitações de fãs foram comparadas com a Beatlemania, especialmente de boy bands como o One Direction, banda formada no reality show musical The X Factor, em 2010. O grupo que surgiu na época das redes sociais, foi um instante sucesso e quebrou vários recordes, colocando os singles nas paradas de sucesso.

O quinteto original era seguido por admiradores onde quer que fossem, fazendo com que alguns integrantes da banda tivessem dificuldade em lidar com a fama. Na maioria das vezes, tinham que evitar sair dos hotéis em turnês e ficavam trancados a maior parte em suas suítes privadas.

Em 2015, um dos integrantes do One Direction, Zayn Malik, anunciou sua saída da banda e acendeu um importante alerta para os limites da dependência emocional dos fãs. As directioners, como são chamadas as amantes da boy band, colocaram no Trending Topics mundial do Twitter a hashtagcut4zayn”

Os admiradores mais fanáticos se mutilaram e postaram fotos nas redes sociais para chamar a atenção do artista, pedindo desesperadamente o retorno de Zayn ao grupo. A reação extrema desses fãs foi motivo de preocupação de familiares e especialistas, que colocam os adolescentes como um público muito vulnerável quando são obcecados por alguma celebridade.

Directioners é o nome do fandom da boy band, One Direction. [Imagem: Reprodução/Vox]

Na mesma época em que One Direction foi um fenômeno, o cantor canadense, Justin Bieber, também chamava atenção por suas inseparáveis fangirls. A histeria ganhou até o nome de Bieber Fever, caracterizado por ser o estado em que os fãs ficavam obcecados pelo jovem artista.

Atualmente, os conhecidos por seus fãs enlouquecidos são os grupos de K-Pop. Graças a internet e às redes sociais, o ritmo coreano começou a fazer sucesso em todo o mundo e conquistou um verdadeiro exército de fãs para suas turnês. Em premiações, shows lotados e em fancams nas redes sociais, você pode encontrar algum apaixonado pelos grupos BTS, BLACKPINK, EXO, Twice e NCT.

ARMY é o nome do fandom do grupo BTS. [Imagem: Reprodução]

É cada vez mais comum ver essa cultura de fanatismo crescer entre os fandoms, mas é preciso ter cuidado pois esse comportamento pode ter “tendências viciantes” e “ações de perseguição”. A todo tempo os fanáticos por um artista tentam provar sua devoção às celebridades sem se lembrar que os famosos podem errar, como qualquer um, e isso causa um desequilíbrio nos fãs por isso.

Antigamente, era mais difícil para o fã acessar o artista, mas isso mudou com as mídias sociais. Essas plataformas podem se tornar barris de pólvora para a radicalização e fazer com que admiradores ultrapassem os limites. É saudável ser fã, desde que o carinho e admiração pelo artista e seu trabalho não prejudiquem a sua individualidade e rotina para tornarem-se uma dependência.

[Crítica] Holy Fvck: A reação musical da liberdade e sobriedade de Demi Lovato

Um ano após o lançamento do renegado e brilhante Dancing with the Devil… The Art of Starting Over, Demi Lovato retorna ao palanque e suas raízes do rock com seu oitavo álbum de estúdio Holy Fvck. O disco lançado pela gravadora Island Records realmente não atingiu as expectativas da gravadora e fãs numericamente, mas mostra seu valor indo muito além, se tornando uma experiência sobre explosão de energia, é possível entender o sentimento de Demi com o passar das faixas, saindo da raiva e explorando outras sensações, como desejo e amor.

A primeira música é FREAK. A colaboração com YUNGBLUD já abre alas para o que se espera do restante, explora diversos ritmos e deixa expostas as emoções de ter seus traumas tirados como piada pela indústria e ser diminuída a “freak” (esquisita, em português). Após essa faixa, toda uma expectativa e energia já é estipulada, chegando para mostrar que o pop de Demi Lovato está realmente morto.

Dando sequência vem os dois singles lançados antes do álbum SKIN OF MY TEETH e SUBSTANCE, duas músicas muito fortes que abordam a superação do vício, se descobrir e entender o mundo socialmente sem o uso de substâncias, como as pessoas tratam umas às outras e o quanto é comum a indiferença. O rock rápido e melódico encaixa bem com a intenção de Lovato de deixar uma mensagem, não importa o quão rápido as coisas aconteçam, ter cuidado com o próximo exige tempo e empatia.

A quarta faixa EAT ME, com participação de Royal & the Serpent, é um verdadeiro tapa. Com o queixo caído desde o início, a letra é agressiva e impositiva, se tornando um hino de aceitação e denúncia sobre a maneira como a indústria molda seus artistas da maneira como acham que vende mais, ignorando a essência e vontades desse artista. Unanimemente a melhor faixa do álbum, que vem depois de tantas críticas voltadas à Demi em relação ao seu corte de cabelo e mudança de ritmo, não gostou? Engasgue com isso!

A música que dá nome ao álbum HOLY FVCK é empoderada e repleta de referências bíblicas explícitas, já saindo da parte raivosa do álbum e entrando na sexual. Até o final da música, qualquer um é capaz de comprar a mensagem e se sentir o próprio holy fuck, e acreditar que Demi Lovato também é.

29 é a faixa mais polêmica do álbum. Demi conta em entrevista ao podcast Call Her Daddy que a motivação para escrever a música passado tantos anos do término é a reflexão sobre a situação de maneira mais madura, o como mulheres jovens caem no canto de homens muito mais velhos de que elas são diferentes, mas na realidade são apenas mais maleáveis e manipuláveis. A música trata do relacionamento de seis anos de Demi com Wilmer Valderrama, que se iniciou quando ela tinha 17 anos e ele 29.

Wilmer tem um histórico de relações com mulheres de idade inferior, quando namorou Lindsay Lohan, ela tinha 18 anos e ele 24, com Mandy Moore, ela tinha 15 anos e ele 20. Essa percepção sobre o que aconteceu na própria vida por anos é sentida em ‘29’, a voz confiante carregada por emoções e o ritmo dramático transcreve seus sentimentos e emociona quem escuta.

Continuando na linha de baques emocionais, temos HAPPY ENDING. Uma música lenta que transcreve a desesperança com a vida, como ser a inspiração de tantas pessoas e tentar se manter perfeita para os holofotes a cansou, entre tantas tentativas mal sucedidas de felicidade genuína com relacionamentos, Demi expõe sua solidão, mesmo cercada de pessoas, como sua equipe, família e fãs, ainda se sente sozinha e desolada por não ter um final feliz.

HEAVEN, CITY OF ANGELS e BONES abordam abertamente o lado sexual. Com letras eletrizantes e ritmos dançantes, Demi não tem vergonha de mostrar seu desejo e se divertir com este lado utilizando diversos trocadilhos e, novamente, referências religiosas. A mais interessante e que é quase um easter egg se encontra em HEAVEN, a música trata sobre masturbação e possui versos que dizem “cut it off” (corte fora, em português), o motivo para esta linha existir é o versículo Mateus 5:30, onde é dito “E, se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno.”

A música WASTED é romântica e platônica, com um refrão um pouco repetitivo e chato, a música surpreende no restante por sua letra inesperadamente apaixonada e ritmo mais lento, deixando se tomar pela paixão, mesmo com medo de se magoar, vive este amor sem restrições.

[Imagem: Lovato Gallery]

COME TOGETHER une as duas vertentes anteriores: o amor e o desejo. Sendo uma das favoritas do álbum e a que tem mais influência pop/R&B, também é uma música mais lenta, mas mantendo o tom eletrizante e comovente, daquelas que é perfeita para cantar no carro ou no banho a plenos pulmões de um coração apaixonado.

Passando para a faixa 13, DEAD FRIENDS mostra a essência do álbum. A letra é dedicada aos amigos que Demi perdeu no passado por conta de vícios, e se sente em dúvida do porquê ela continua viva, e eles não. Mesmo com uma letra extremamente triste, a melodia é rápida e animada, fazendo você querer dançar – com a mão na consciência em respeito aos mortos, claro -. O que poderia ser um tiro no pé e uma música dramática demais é totalmente o contrário, sendo um desabafo real e emocionante, mas mantendo uma batida animada.

HELP ME segue a mesma linha de EAT ME. Com um tom de deboche escrachado, a parceria com Dead Sara é irônica e empoderada. Tratando sobre pessoas que querem “ajudar” mas no final só estão dando sua opinião que não foi pedida e acabam atrapalhando, a música é cativante e caminha para o final do álbum de maneira positiva, mantendo a atenção do ouvinte.

A penúltima música é FEED. Uma faixa honesta sobre a luta com os vícios e seus antigos hábitos que eram confortáveis, mas muito perigosos, a percepção de possuir um lado bom dentro de si e alimentá-lo para que ele se sobressaia e a vida fique mais leve, mas não retirando o outro lado, apenas aprendendo a lidar com ele e controlá-lo. É uma música muito emocionante e corajosa, considerando todo o seu contexto.

Para fechar com chave de ouro temos 4 EVER 4 ME, uma suma de tudo que foi abordado no restante do álbum, dando um fechamento esperançoso e contente. A letra fala sobre a mudança de vida, onde talvez ela tenha encontrado seu happy ending e, principalmente, seu grande amor. A música encaixa todas as pontas soltas deixadas pelas outras, dando um belo desfecho para suas questões e alimentando sua felicidade.

[Imagem: Lovato Gallery]

Álbuns rock tendem a ser repetitivos e com músicas muito similares, Demi quebra essa barreira e explora todas as vertentes do gênero, transformando seu álbum em uma verdadeira aula para os que estão acostumados com a bolha do pop.

Mesmo se tratando de um álbum extenso, com 16 faixas, HOLY FVCK prende a atenção do ouvinte em todas as músicas e conta uma história a partir de um ponto de vista honesto e mais maduro. Uma frase antiga de Demi que foi lema de muito lovatics facebookers por anos é “I’m maturing, not changing, I promise” (Eu estou amadurecendo, não mudando, eu prometo, em português) e é exatamente do que se trata o álbum, a recuperação de Demi e o retorno de suas raízes, que podem ser exemplificadas por seus dois primeiros álbuns Don’t Forget e Here we go again.

A relação conturbada entre alguns cantores e seus empresários fora dos palcos: um universo de abusos e traições 

Por trás de grandes estrelas musicais, existem bons empresários, ou pelo menos é isso que se imagina. No entanto, nem sempre a premissa é verdadeira. Ícones musicais, como Elvis Presley e Britney Spears, não possuem em comum somente um talento inquestionável, ambos são apenas alguns exemplos de artistas que foram enganados por aqueles que, em tese, deveriam facilitar suas vidas e ajudar a lidar, da melhor forma possível, com suas carreiras.  

Os crimes cometidos por esses empresários vão desde abusos psicológicos, até roubo de uma parte significativa da fortuna de seus clientes. Talvez seja a ganância que os motive a agir de forma antiética e trair a confiança de seus artistas, mas às vezes, é apenas uma falta de caráter enraizada nesses indivíduos. 

Claro que não se pode atribuir, exclusivamente, os transtornos mentais de inúmeros famosos à indústria musical. Contudo, a garantia do bem-estar e a saúde deles, que deveriam ser o foco principal de seus empresários e gravadoras, são substituídos pela busca incessante do lucro e a produção massiva de obra-prima.  

Elvis Presley: a estrela que foi enganada desde o início  

A estreia do filme Elvis, protagonizado por Austin Butler, contou sobre a trajetória musical de Elvis Presley durante sua vida. A obra cinematográfica abordou, também, a relação dele com Tom Parker, interpretado por Tom Hanks, e como esse tirou proveito do artista ao longo dos anos

1955: Elvis Presley is taken over by manager Col.... | Sutori

                 Elvis Presley e seu empresário Tom Parker [Imagem: Reprodução/Sutori]

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O Rei do Rock é mais uma das inúmeras vítimas que tiveram suas carreiras sabotadas por conta do mau caráter de seu empresário. Em 1955, quando Elvis tinha apenas 20 anos e estava no início de sua carreira, seu caminho se cruzou com o de Tom, que viu no talento do cantor uma possibilidade de lucrar. Afinal, a voz de Presley era algo que não se via na indústria musical da época. 

No mesmo ano, Coronel Parker foi o responsável por conseguir fechar um contrato com a gravadora RCA Victor para Elvis, o que garantiu seu primeiro grande cachê após lançar o single Heartbreak Hotel, faturando cerca de 40 mil dólares.  Contudo, o rei não desfrutou plenamente de todo dinheiro que ele conquistou, afinal Tom achou conveniente abocanhar uma quantidade significativa do pagamento de seu cliente, sem avisá-lo, obviamente. 

                      Capa do single Heartbreak Hotel [Imagem: Reprodução/ ElvisRecords]

Ao longo dos anos, a fama de Elvis foi apenas crescendo. Em 1956, decidiu expandir sua carreira para a indústria cinematográfica e fez sua estreia brilhante no filme hollywoodiano Love Me Tender, uma obra que misturava o faroeste com um romance musical. Seu carisma aliado ao seu talento e sua beleza inigualável, foram a receita para que a fama de Presley rompesse fronteiras e se espalhasse mundialmente. 

               Poster do filme estrelado por Presley [Imagem: Reprodução/ Blog Dudu Hamilton]

Ao mesmo tempo que ele se tornava cada vez mais famoso, seu empresário o roubava cada vez mais. O cantor, aclamado internacionalmente, se apresentou fora dos Estados Unidos apenas três vezes. Isso era uma constante fonte de atrito entre ele e o Coronel, visto que turnês internacionais com a possibilidade de lucro de milhões de dólares eram frequentemente vetadas por Tom. 

Apenas anos depois, descobriram que Tom Parker não passava de uma identidade falsa criada pelo empresário, que imigrou ilegalmente da Holanda para os Estados Unidos. Andreas Cornelis – seu verdadeiro nome – não podia mais sair do país sem o risco de ser deportado, o que o impedia de ir em turnês internacionais de seu cliente.  

Parker foi o empresário de Elvis até a morte do artista em 1977. Alguns anos depois, ele foi alvo de processos e investigações que alegavam que havia se aproveitado financeiramente do artista. No final das contas, a justiça americana determinou que ele não teria os direitos legais sobre as obras do cantor. Em 1997, o ex-empresário foi vítima de um derrame cerebral onde ele não resistiu. 

A PRISÃO DE BRITNEY: VÍTIMA DO PRÓPRIO PAI 

A diva pop norte-americana Britney Spears, após um período turbulento durante sua carreira, teve por uma decisão judicial, desde suas finanças, avaliadas em 60 milhões de dólares na época, até as decisões dos mínimos detalhes de sua vida, entregues ao seu pai Jamie Spears, em 2008. A justificativa concedida pelas autoridades, foi que a artista estava passando por sérios transtornos mentais e era incapaz de agir de maneira segura consigo mesma e com aqueles que a rodeavam. 

                                   Britney Spears [Imagem: Reprodução/Slant Magazine]

Nos últimos anos, a cantora decidiu expor ao mundo os abusos com que conviveu por 13 anos. Os depoimentos são ainda mais fortes quando o fato de que seu próprio pai e o empresário Larry Rudolph, foram os responsáveis por cometê-los. As imposições feitas por Jamie e Rudolph, eram absurdas e iam de encontro com seus direitos básicos. Britney, ao longo de entrevistas, contou que foi forçada a tomar remédios psiquiátricos lítios contra sua vontade, além de ter tido seu corpo controlado por uma figura masculina inúmeras vezes. “Meu pai me proibiu de casar com meu namorado Sam e quando eu disse que queria remover o meu DIU para tentar ter outro filho isso também foi vetado”, disse.  

                      Britney Spears e Jamie Spears [Imagem: Reprodução/BBC News]

Por muito tempo, Britney Spears foi considerada uma mulher louca e incapaz de tomar suas próprias decisões. Claro que, em uma sociedade patriarcal e enraizada com estereótipos machistas, esse tipo de discurso é aceito facilmente por muitos. Afinal, é muito menos trabalhoso apenas colocá-la no quadro da loucura, do que buscar entender o que a levou a agir daquela maneira e tentar ajudá-la da forma correta, algo que seu pai foi incapaz de fazer.  

“Eles viam eu me trocar todos os dias, de manhã, à tarde e à noite. Eu não tinha uma porta que me desse privacidade no meu quarto… Eu não estou mentindo. Eu só quero a minha vida de volta. Já se passaram 13 anos, então chega. Já faz muito tempo desde que eu ganho meu próprio dinheiro. É meu desejo e meu sonho que isso tudo acabe sem que tenha que passar por testes. Estou com tanta raiva que é loucura. Eu mereço ter uma vida. Eu me sinto presa, me sinto intimidada e eu sinto que me deixaram de fora de tudo”, declarou Britney em entrevista à Verity

O documentário Framing Britney, produzido pelo The New York Times, trouxe à tona um pouco mais sobre a vida da cantora durante todos os anos de tutela indesejada e a misoginia instaurada no cerne da mídia mundial. Após sua estreia, o movimento #FreeBritney ganhou ainda mais força. A obra audiovisual expõe um lado da artista que os veículos de informação, convenientemente, optaram por não mostrar. O lado da mulher forte e independente, que se recusa a abaixar a cabeça para qualquer um, mesmo que essa pessoa seja seu pai. No final das contas, após muitos julgamentos, Britney conseguiu sua liberdade. A diva pop agora possui controle sobre suas finanças, e o mais importante, sobre si mesma. 

         Protestos pedindo pela liberdade da cantora [Imagem: Reprodução/Persona]

Não é apenas o luxo e o glamour que cercam as estrelas musicais. O estresse também é fator constante em suas vidas, o que piora quando ele é causado por empresários. Em 2019, Taylor Swift também foi vítima de um. Nesse caso, não o seu empresário, mas Scooter Braun, empresário de famosos como Justin Bieber e Ariana Grande, que comprou a gravadora Big Machine Label Group por cerca de 300 milhões de dólares, e como consequência dessa compra, adquiriu os diretos sobre todas as músicas da cantora pop até o álbum Reputation. 

Ariana Grande e Scooter Braun, o empresário que adquiriu os direitos das masters de Taylor Swift [Imagem: Reprodução/Instagram]

 Taylor ficou irritada, e com razão, com o fato de que ela não foi comunicada sobre a venda da primeira gravadora com que assinou contrato e com isso, não teve a oportunidade de comprar os direitos das masters de suas músicas de volta. “Ele sabia o que estava fazendo, os dois sabiam. Controlando uma mulher que não queria ser associada com eles. De modo perpétuo. Isso quer dizer para sempre”, afirma Taylor em depoimento publicado em suas redes sociais.

Além disso, a cantora ainda declarou que A mensagem que estão enviando a mim é bem clara. Basicamente, seja uma boa menina e cale a boca. Ou você será punida. Isso é ERRADO. Nenhum desses homens sequer se envolveu na composição dessas músicas”, acrescentou a cantora. 

Ela optou por não se incomodar com o papel de descontrolada que lhe foi imposto em meio a todas essas polêmicas. Taylor Swift, em uma jogada de mestre, decidiu que gravaria todos seus álbuns novamente e os lançaria com a gravadora Republic Records. A diferença é que dessa vez, os nomes das músicas são acompanhados por (Taylor´s Version), uma simples marca, mas que indica que a cantora possui todos os direitos sobre aquela canção. Fearless e Red são exemplos de discos que já foram regravados por ela.  

                  

            Segundo álbum regravado por Taylor [Imagem: Reprodução/Pinterest] 

Uma coisa é fato: existem muitos empresários dispostos a prejudicarem as carreiras de artistas musicais. Sejam eles seus próprios clientes ou não. O Rei do Rock, Britney Spears e Taylor Swift não foram os primeiros a serem enganados e, infelizmente, não serão os últimos. A realidade fora dos palcos diverge bastante do imaginário glamuroso que muitos têm em relação à vida desses artistas. O luxo e o dinheiro, em alguns casos, vem acompanhados de uma série de abusos e traições.

Gaga em Joker 2: Um olhar a outros artistas que se aventuraram no cinema

Para além dos boatos, Joker 2 com Lady Gaga no elenco já é realidade. Na última quinta-feira, 4 de agosto, a cantora confirmou sua participação na sequência do longa através de um teaser publicado em seu perfil no Instagram. Desde junho, Gaga esteve em negociação para participar do filme, o que gerou diversas especulações sobre a artista assumir o papel de Arlequina, interpretada por Margot Robbie em Esquadrão Suicida (2016) e Aves de Rapina (2020), ambos da DC Comics

O teaser não revela qual personagem Gaga interpreta, mas sabe-se que vai contracenar com Joaquin Phoenix, ganhador do Oscar de Melhor Ator por seu papel no primeiro filme do grande vilão da DC. Intitulado Joker: Folie a Deux (Coringa: Loucura a Dois, em tradução livre), a sequência pode ser um musical e deve estrear nos cinemas americanos no dia 4 de outubro de 2024. 

Em um artigo recente, a Variety diz acreditar que Joker 2 pode ser mais como Nasce uma Estrela do que com Em Um Bairro em Nova York, musical da Warner que estreou em 2021. Isso porque o orçamento da sequência está em 150 milhões de dólares, uma soma entre a produção de um possível musical e os salários dos envolvidos: 20 milhões de dólares para Joaquin Phoenix e Todd Phillips, diretor do longa, e 10 milhões para Lady Gaga

Lady Gaga estava afastada dos palcos após ter descoberto problemas de saúde, dentre eles depressão e fibromialgia – síndrome que se manifesta por dores do corpo. A doença foi a grande responsável pelo cancelamento do show da cantora no Rock In Rio de 2017. Gaga retornou oficialmente às performances na metade de junho deste ano, quando estreou a turnê The Chromatica Ball na Merkur Spiel-Arena em Düsseldorf, Alemanha.

Lady Gaga na The Chromatica Ball Tour [Imagem: Reprodução/Getty Images]

Nesse meio tempo, a dona dos hits Bad Romance e Just Dance se dedicou ao cinema e fez sua primeira aparição de sucesso em American Horror Story. Antes da série, Gaga fez algumas participações em Glee, Machete Mata  e Sin City: A Dama Fatal. Nasce uma Estrela, que protagonizou ao lado de Bradley Cooper em 2018, a tornou uma das artistas mais premiadas da história, segundo a Billboarde a primeira a sair vitoriosa do Grammy, Bafta, Globo de Ouro e Oscar em um mesmo ano. 

Lady Gaga e Bradley Cooper em cena de Nasce uma Estrela [Imagem: Reprodução/Instagram]

O mais recente filme da atriz foi Casa Gucci, produção que conta a conturbada história da família italiana Gucci, fundadores da grife. Gaga protagonizou o longa ao lado de grandes nomes do cinema, como Adam Driver, Al Pacino, Salma Hayek e Jared Leto.

Assim como Lady Gaga, muitos outros artistas conciliaram suas carreiras nas telas e nos palcos, mesmo que muitos deles tenham desistido da atuação ou da música no meio tempo. Confira outros artistas que transitaram entre seus talentos.

Harry Styles

Harry Styles iniciou sua carreira em 2010 quando participou do reality show musical The X-Factor. Durante as apresentações se juntou a mais quatro participantes e juntos formaram o One Direction, boyband que entrou para o Guinness Book com seis recordes mundiais, jamais alcançados por qualquer outra. No total, foram mais de 70 milhões de discos e singles vendidos em todo o mundo.  

Após a separação do grupo em 2016, Harry apostou na carreira solo e no cinema. Fez sua primeira aparição nas telas no filme de Christopher Nolan, Dunkirk (2017), em que interpretou um soldado britânico na Segunda Guerra Mundial. Ao lado de grandes nomes, como Tom Hardy, Cillian Murphy e Mark Rylance, sua estreia foi “brilhante, condenada e inesperadamente nada chocante” , como afirma Robbie Collin ao The Telegraph.

Harry Styles em cena de “Dunkirk”. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Além da sua participação mais recente no filme da Marvel, Eternos (2021), Harry já está com data marcada para estrelar mais dois longas este ano. Não Se Preocupe Querida é um suspense psicológico com estreia marcada para setembro e conta com Florence Pugh e Olivia Wilde no elenco.

My Policeman, produção da Amazon Studios, estreia em outubro nos cinemas e além de Harry, tem a presença de Emma Corrin no elenco. O ator protagonizará um policial gay na década de 90, que esconde uma paixão por outro homem.

Justin Timberlake

Outro cantor que se aventurou no mundo do cinema foi Justin Timberlake. Justin começou sua carreira já na televisão quando participou do programa da Disney, Clube do Mickey em 1989. No set de filmagens, conheceu JC Chasez e os dois se tornaram líderes da boyband N’Sync, grupo formado em 1995 por Timberlake, JC, Lance Bass, Joey Fatone e Chris Kirkpatrick. Em 2002, o grupo decidiu entrar em hiato e neste mesmo ano Justin começou sua carreira solo quando lançou seu primeiro álbum Justified, que incluiu os sucessos Cry me a river e Rock your body.

Boyband N’Sync [Imagem: Reprodução/GettyImages]

Mesmo já tendo feito diversas pontas em alguns filmes durante sua carreira como músico, o cantor fez sua primeira estreia como ator em Edison Force (2004) e depois atuou em filmes como Black Snake Moan (2006), Southland Tales (2006), Alpha Dog (2007) e deu voz ao Rei Arthur em Shrek Terceiro (2007).

Em 2011, o ator participou de três dos filmes mais importantes da sua carreira. Amizade Colorida, que protagonizou ao lado de Mila Kunis e passou a faturar mais de 149.5 milhões de dólares em todo o mundo, com arrecadações internacionais que estão em 93.7 milhões de dólares. Participou ainda de Professora Sem Classe com Cameron Diaz e O Preço do Amanhã com Amanda Seyfried.

Em 2016 deu voz a Branch em Trolls e foi responsável pela trilha sonora do filme. O hit Can’t Stop The Feeling lhe rendeu indicações como Melhor Canção Original no Globo de Ouro e de Melhor Canção à Mídia Visual no Grammy

Suas últimas aparições no cinema foram em Roda Gigante (2017), dirigido por Woody Allen e em Trolls 2 (2020). Mesmo após um tempo longe das telas, Justin voltou para protagonizar Palmer (2021), drama da Apple TV que conta sobre um garoto que sofre discriminação na escola.

Will Smith

Will Smith construiu uma carreira grandiosa no cinema, com mais de 30 filmes em seu currículo, é um dos maiores atores da atualidade. O que muita gente não sabe, é que Will Smith começou sua vida de artista no ramo da música, quando se lançou como rapper com a alcunha Fresh Prince. 

Com apenas cinco álbuns, sua fama aumentou drasticamente quando protagonizou a sitcom americana The Fresh Prince of Bel-Air(em tradução livre, O Príncipe de Bel-Air, e no Brasil, Um Maluco no Pedaço).A série tem 148 episódios e foi exibida de 1990 a 1996, contando sua vida quando se mudou para a casa de seus tios em Bel-Air.  

Will Smith e elenco de Um Maluco no Pedaço (1990). [Imagem: Divulgação]

A partir da sua participação na série, sua carreira disparou. Na mesma época do seriado, o ator se aventurou em filmes como Six Degrees of Separation (1992), que chamou atenção da crítica da época pela ótima atuação. Logo depois,  protagonizou Bad Boys (1995) e Independence Day (1996). 

O artista tem uma longa lista de indicações a prêmios pelos seus filmes. O principal deles é A Procura da Felicidade (2006), drama biográfico que conta a história de um pai que mora na rua com seu filho após serem despejados. O longa lhe rendeu indicações de Melhor Ator ao Oscar e ao Globo de Ouro e teve participação de seu filho Jaden Smith.

Will Smith e Jaden Smith em cena de A Procura da Felicidade (2006) [Imagem: Reprodução/Columbia Pictures]

O último filme de Will foi King Richard: Criando Campeãs (2021), filme biográfico sobre Richard Williams, pai de Venus e Serena Williams, campeãs de tênis feminino. O filme foi o responsável pelo primeiro Oscar de Melhor Ator da sua carreira e o tornou o quinto negro da história a receber o prêmio. 

Will Smith e a estatueta de Melhor Ator no Oscar de 2022 [Imagem: Reprodução/Getty Images]

Diferente dos outros artistas citados, Will deixou de lado sua carreira musical e se dedicou a maior parte do tempo ao cinema. Mesmo assim, o ator ainda é cotado para fazer papéis em que tem que usar sua voz, como em Alladin (2019), em que Smith é o gênio da lâmpada e canta em muitas passagens do filme, levando uma vibe mais moderna à história.

Jennifer Lopez

Jenny from the Block, começou sua carreira artística em 1991, participando de um programa de tv da FOX chamado In Living Color como uma dançarina. Nesse meio tempo, fez aparições em programas como South Central, Second Chances, e Hotel Malibu, quando finalmente protagonizou seu primeiro filme em 1997, Selena, em que interpretou a cantora latina que foi assassinada pela presidente de seu fã clube. 

Jennifer Lopez como Selena no filme biográfico da cantora [Imagem: Reprodução/Warner]

A partir disso, sua carreira como atriz disparou. Ela participou de filmes como Anaconda (1997), Reviravolta (1997) e Irresistível Paixão (1998) com George Clooney, até lançar seu primeiro álbum em 1999, On The 6. O single principal do álbum foi If You Had My Love, que emplacou como número um naBillboard Hot 100 de 1999. Let’s Get Loud levou JLo ao Grammy em 2001 com uma indicação de Melhor Gravação Dance.

Sua discografia é formada por 8 álbuns de estúdio e ela coleciona 9 programas de televisão e 34 filmes em seu currículo. Em 2007, sua riqueza foi estimada em 110 milhões de dólares segundo a Forbes, fazendo com que fosse listada com a nona dentre as 20 mulheres mais ricas do entretenimento. Em 2012, foi tida como a celebridade mais poderosa do mundo também pela Forbes

Seus últimos filmes foram As Golpistas (2019) e Case Comigo (2022). JLo quebrou muitos preconceitos raciais na indústria do entretenimento e foi muito influente tanto na música quanto no cinema, e mesmo que tenha se dividido nos dois ramos, alcançou um sucesso extraordinário em ambos. 

Alguns de seus feitos não foram alcançados por nenhuma outra pessoa até hoje. Em 2001, ela entrou para  a história ao se tornar a primeira e única artista a ter um filme e um álbum em primeiro lugar na mesma semana, com o filme O Casamento dos Meus Sonhos e o álbum J.Lo, respectivamente.

Jennifer Lopez e Matthew McConaughey no filme O Casamento dos Meus Sonhos [Imagem: Divulgação]

Cantora, dançarina e atriz, Jennifer Lopez não para. Recentemente ela ganhou um documentário na Netflix, Halftime, o qual mostra a multifacetada vida de Lopez e como ela se tornou essa artista tão influente e culturalmente importante para os dias de hoje. 

Jennifer Lopez [Imagem: Reprodução/Getty Images] 

Há muitos outros artistas que conseguiram conciliar perfeitamente a música com o cinema, como Barbra Streisand, Jared Leto e Selena Gomez e voltando no tempo, Elvis Presley e Frank Sinatra. Mas a maioria deles escolhe um ramo para seguir, como Mark Wahlberg, Will Smith e Madonna. Resta saber se Lady Gaga vai decepcionar seus Little Monsters e optar em seguir apenas com sua carreira meteórica no cinema. 

[Crítica] Elvis: a Ilusão de Ser uma Estrela do Rock

Elvis foi lançado nos cinemas brasileiros há praticamente um mês prometendo contar a história de vida e carreira de um dos maiores ícones do rock. Abusando do exagero nas roupas, cenas e fotografia, a obra mostrou potencial para conquistar a audiência, não é atoa que estreou com 86% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Até agora, os comentaristas fizeram diversos elogios para a atuação do elenco, principalmente para a performance de Austin Butler como o protagonista titular, um exemplo disso é a crítica feita pelo The Wrap, ‘há energia e substância o suficiente […] e Butler se joga em uma performance selvagemente física, mas nunca cartunesca ou desrespeitosa’. Mas também não deixaram de comentar sobre a desequilibrada condução de direção e roteiro.

Apesar disso, quando se fala que o longa de Elvis Presley é um grande exagero, não necessariamente é um ponto negativo, já que tudo que se refere a ele sempre foi exagerado. Então, a produção de duas horas e quarenta minutos não poderia assumir um tom blaseé – um termo francês que classifica a atitude de uma pessoa cética ou indiferente – e isso inclusive, acaba sendo um dos maiores acertos do diretor Baz Luhrmann.

Elvis conta a história do astro desde a infância até a queda, passando é claro, pela ascensão, quando ele se torna um dos cantores mais famosos e bem pagos dos Estados Unidos. Nascido em Tupelo, Mississippi, em 1953, o menino tinha um irmão gêmeo, chamado Jesse, que morreu após o parto.

Mas as tragédias da família Presley não cessaram por aí: seu pai foi preso por estelionato, e por conta disso, Elvis e sua mãe foram despejadados de onde viviam, indo morar em um bairro de pessoas negras – vale lembrar que durante essa época, o racismo e a segregação racial eram muito fortes.

Após esses episódios, a vida do garoto segue, na maioria das vezes, rodeado por influências negras. Então, Elvis começa a cantar em uma banda e sua voz é reconhecida pelo Coronel Tom Parker – interpretado por Tom Hanks – um homem ganancioso que vivia de dar golpes nas pessoas. É inclusive sob o ponto de vista de Parker que a história é contada, com a primeira meia hora de tela focada totalmente no empresário, onde ele mesmo diz “sem mim, não haveria Elvis Presley”.

[Imagem: Reprodução/Warner Bros]

Querendo ou não, o Coronel é importante na trama, porque há quem associe a degradação do astro à tirania com que o então empresário comandava a carreira de Presley. Tom Parker era um produtor de parques de diversão e circos que passou a empresariar o astro logo no início de sua caminhada. Entretanto, o título não expressa sua verdadeira origem, já que ele não era coronel, nem se chamava assim e tinha um passado misterioso na Holanda.

Seu nome verdadeiro é Andreas Cornelis van Kuijk. Nascido na Holanda em 1909, e que aos 20 anos, imigrou ilegalmente para os Estados Unidos. A sua partida ocorreu no mesmo dia em que a sua suposta amante, Anna, foi espancada e morreu em decorrência dos ferimentos. Quando chegou ao país, assumiu a identidade Tom Parker e se alistou ao exército, onde serviu por dois anos, até 1933. Na época, ele foi afastado por indisciplina e teve uma crise nervosa, diagnosticado com depressão aguda psicogênica, estado de psicopatia constitucional e psicose. Tom também foi descrito pelos especialista como um homicida em potencial.

Essa descrição é vista em certo momento da cinebiografia de Luhrmann. O diretor cita em entrevista durante o Festival de Cannes, a parte do filme em que o homem, vivido por Tom Hanks, está deitado em uma cama de hospital sob efeito de morfina se defendendo das acusações de ser uma má pessoa, que explorou Elvis Presley, impediu sua carreira internacional e acabou pressionando tanto o cantor, que ele se viciou em remédios e acabou morrendo prematuramente, aos 42 anos de idade. “Ele está dizendo que não é o vilão. Que só fez seu trabalho, que era fazer com que a carreira de Elvis fosse a mais lucrativa possível”, declarou.

“Parker diz que fez seu trabalho tão bem que nós amamos Elvis, e ele nos ama. Que o cantor só se sentia bem quando estava sendo amado pelos seus fãs e amando-os de volta”, incita Baz sugerindo que a culpa é voltada para os fãs do cantor. E que ‘graças’ a sua morte, seus discos bateram recordes de vendas, tornando-o memorável até os dias atuais.

O cineasta ainda comenta sobre trazer algo mais autoral em um momento onde os super-heróis dominam as salas de cinema, uma colocação não só muito inteligente do ponto de vista mercadológico, como também fiel ao tom mítico do longa. “Elvis é o super-herói original. Ele vem da sujeira e em alguns momentos ofuscantes, sobe tão alto, encontra sua kryptonita e cai”.

Fora a decisão de escolher o empresário para narrar a história, Elvis quase foi intitulado de O Rei e O Coronel, mas com o desgosto declarado de Presley desde sempre pelo apelido, a ideia não vingou. “Você tem algum amigo que conta histórias de maneira confiável?”, provocou Luhrmann. “Documentários são aparentemente a verdade e em geral trazem aquela narração típica. Mas daí a gente vê na internet como é fácil manipular as pessoas a acreditarem que algo é a verdade, quando não é. Eu acho que os dramas são mentiras contadas por alguém para chegar a uma verdade maior”, explicou.

Baz encerra a entrevista comparando a narrativa de Elvis com a de Amadeus, filme de Milos Forman de 1984 que ganhou oito Oscars, por também ser uma cinebiografia, mas sobre o compositor e músico Wolfgang Amadeus Mozart. “O filme é sobre inveja”, pontuou ele. Ele tem suas suspeitas de que Parker sentia-se de forma parecida. “Os dois tiveram infâncias muito complicadas, ambos tinham um buraco no peito e eram sonhadores. Parker queria ser grande. E Elvis, também”, finalizou.

Agora falando do próprio Elvis, o ator Austin Butler merece todo o reconhecimento ao estrelar o papel do cantor, o mais engraçado é que no inicío do longa, há um grande mistério em revelar o rosto dele, que a princípio só aparece de costas ou de lado, porque por mais que todo mundo soubesse que era Butler em cena, ninguém havia visto nada além dos trailers.

Ele encarnou brilhantemente a personalidade do astro, obviamente abusando do exagero. Desde o jeito de dançar rebolando os quadris até o tom de voz, passando pela maneira de falar com a boca semi aberta olhando para baixo, tudo parece milimetricamente bem encaixado. “Ele era punk antes do punk existir. Ele estava rolando no palco, cuspindo. Temos que mostrar o que você não consegue ver nas filmagens de arquivo”, declara o ator em entrevista a revista Elle.

Além disso, muitos artistas talentosos foram cogitados para o papel titular, incluindo supostamente, Harry Styles e Miles Teller, mas quando Luhrmann se deparou com um vídeo de Butler “em uma bola de emoção, tocando e cantando ‘Unchained Melody’ em um roupão de banho em um piano”, ele sabia que tinha encontrado seu Elvis. “Daquele momento em diante, e a cada momento que o conheci durante o processo de audição, ele literalmente viveu a vida de Elvis”, afirmou o diretor na mesma conversa.

A caracterização é tão bem feita que, somado ao fato do efeito granulado de alguns trechos do filme para parecer uma filmagem antiga, pode fazer com que o espectador se confunda e não tenha certeza se está vendo Austin ou o verdadeiro Elvis. Isso fica mais evidente em uma cena quase no final do longa, quando mostra o cantor já deprimido, doente e com sobrepeso, sentado em frente ao piano em seu último show antes de morrer.

Conhecido pelo seu rebolado único, Elvis foi perseguido pelos grupos conservadores da época que viam nesse estilo de dança luxúria e pecado. Nos jornais tradicionalistas, recebeu o apelido de ‘Elvis The Pelvis’ pelo modo de se apresentar nos palcos. Dito isso, Tom Parker tenta mudar a fim de não desagradar essa elite e continuar ganhando dinheiro. Mas, o que incomodava não era apenas o rebolado, o cabelo ‘de menina’ e a maquiagem nos olhos, e sim o fato dele cantar e dançar igual um homem negro.

O cantor viveu boa parte de sua vida rodeado de pessoas negras – chamadas na época de pessoas de cor – e isso é bem retratado no filme que mostra, inclusive, a relação de Elvis e B.B King – interpretado por Kelvin Harrison. Foi na igreja de negros que ele aprendeu a dançar e rebolar, o que mais tarde viria a se tornar sua marca registrada.

Ao misturar soul, gospel e folk, ele conquistou os Estados Unidos. Mas, em uma época em que o segregacionismo estava tão presente, onde haviam barreiras físicas separando negros e brancos, cantar como um negro era uma grande ofensa para a sociedade.

Portanto, pode-se dizer que Elvis tinha o talento de um negro com a passabilidade de um branco, e isso lhe permitiu emergir e se tornar um astro, ainda que tivesse que ir contra a corrente. Ele também abusava dos movimentos de dança para chocar as garotas brancas que não tinham visto giros como aqueles porque elas não saíam para os juke joint – pequeno estabelecimento informal de música, dança, jogos e bebidas, operados sobretudo por afro-americanos – ou até mesmo as tendas gospel. “Ele era um gosto de fruta proibida”, diz Parker em uma das cenas enquanto observa uma garota desmoronar em gritos. “Ela poderia ter comido ele inteiro […] Foi a maior atração de carnaval que eu já vi”.

Um outro momento que reforça essa situação, ocorre quando Elvis comenta com B.B King que estão querendo lhe prender devido ao seu jeito de dançar. O amigo retruca dizendo que Elvis é branco e pode fazer o que quiser, enquanto ele, sendo negro, pode ser preso apenas por atravessar a rua. Em seguida, uma das melhores e mais inesquecíveis cenas musicais do filme acontece na música Trouble

Registrado em gloriosa câmera lenta por Luhrmann e pela diretora de fotografia Mandy Walker, ele se atira na direção do público, o rosto a centímetros da plateia enquanto declama que “não aceita ordens de nenhum tipo de homem”. Desse modo, Elvis quer, acima de qualquer coisa, fazer com que os espectadores entendam a euforia que Elvis Presley provocava ao vivo, o coquetel irresistível de rebeldia, ritmo e carisma que mexia com uma parte visceral do público.

A obra desenvolve uma trama em torno de uma magia particular do seu biografado, ao ponto de ser uma parte mística inexplicável, que contém um apelo atemporal, mas que de certo modo também usufrui da apropriação cultural. Afinal, pode-se dizer que Presley era o artista certo, na hora certa e no lugar certo.

Há algo quase cômico na forma como Baz Luhrmann mostra a reação do público em algumas das primeiras apresentações de Elvis, mas o filme também reconhece os fatores históricos e artísticos dessa ascensão. De um jeito um pouco caótico, o script assinado pelo diretor ao lado de dois colaboradores de longa data, Craig Pearce e Sam Bromell, se desdobra relativamente bem para retratar as facetas mais complexas do artista durante as quatro décadas em que ele esteve presente.

A relação do astro com a música de sua época e a relativa injustiça de sua imortalização no panteão do rock n’ roll acima dos originadores das técnicas que ele usava, são parte tão integral da história da produção quanto a dimensão política e moral de sua subida à fama. Então, é possível ver Elvis como um ‘branqueamento’ do rock e Elvis como símbolo de transformação moral em momentos de virada importantes do século XX nos EUA.

Elvis não está realmente interessado em Elvis Presley, o homem, embora dê a ele a prerrogativa de qualidades tremendamente humanas dentro do contexto melodramático do filme. Seu luto pela mãe, a generosidade que pautava suas relações pessoais, a admiração genuína que ele sentia por artistas com a coragem de se expressar, a relação visceral com a música, datada de seus primeiros contatos com ela na infância. Tudo está aqui, reconhecido e estilizado no ritmo inconfundível de Luhrmann, mas essa fundação humana serve apenas para apoiar uma exploração que é muito mais sobre Elvis Presley, o mito, o ícone, o símbolo – e ainda bem que é.

É verdade, é claro, que Elvis foi um homem. Tantas biografias, no entanto, se perdem no caminho de tentar decifrar algo intrinsecamente indecifrável: as idas e vindas, os cantos mais escuros e complicados, as partes mais íntimas e privadas da vida de uma pessoa de verdade. O diretor, até por sua natureza como artista, foge dessa armadilha quando cria, ao invés disso, uma ode – poema lírico – audiovisual a Elvis, uma jornada biográfica contada em linguagem pop, e que fala sobre cultura pop, cuja relação com a realidade é meramente incidental, quando ela existe.

Tudo isso é embrulhado em um pacote cintilante de espetáculo teatral, modelado tanto na decadência opulenta dos shows de magia e música de Las Vegas quanto na tragédia. O ponto é que Elvis, como de costume para as obras de Luhrmann, só funciona realmente se aceito dentro de sua própria lógica. O melhor jeito de aproveitá-lo é imaculado por preocupações morais sobre a integridade de cinebiografias, por regras arbitrárias de bom gosto estético e, principalmente, pelo apego insistente a uma ideia rígida de cinema e narrativa ‘de qualidade’. Sob os parâmetros de quem não se desprende de nada disso, alguns momentos do filme mal poderão ser considerados cinema, em sua abordagem distorcida e caótica da linguagem dessa mídia.

Acontece que, sob o olhar de quem reconhece entretenimento e arte pop como propósitos por si mesmos, ele é certamente um belo espetáculo. Talvez, o maior ponto que o filme tem em comum com o verdadeiro Elvis Presley é esse: no fim das contas, render-se aos prazeres que ele oferece é muito melhor do que tentar entendê-lo a partir de um molde no qual ele nunca teve vontade nenhuma de caber.

Algumas situações no filme que não acontecem na realidade

Assim como ocorreu com outras cinebiografias, especialmente de música, Elvis não é 100% preciso em seus relatos, e isso não é um problema, visto que algumas adaptações são necessárias para dar ritmo à trama. A equipe capitaneada pelo diretor Baz, retratou alguns fatos com certa fidelidade enquanto outras situações não aconteceram na vida real.

O próprio Elvis Presley interpretado por Austin Butler está um pouco diferente, como era de se esperar. O filme mostra que quase todas as influências musicais de Presley vieram da música negra. Alanna Nash, escritora de diversos livros sobre a vida e carreira do Rei do Rock, garante que não foi bem assim. Em entrevista à Variety, ela declara que: “Elvis também teve muitas influências brancas e disse, quando ainda estava na sétima série, que se apresentaria na Grand Ole Opry – famoso local de apresentações de country na cidade de Nashville. Lembre-se, ele entrou em um concurso na infância cantando ‘Old Shep’ – um clássico da música country”.

O filme também ignorou por completo as parceiras que Elvis teve no final de sua vida após terminar seu casamento com Priscilla Presley, além de ter mudado algumas coisas na sua relação com o coronel Tom Parker. E por falar no empresário de Elvis, ele também não passou ileso de situações que foram criadas para a obra.

O personagem de Tom Hanks tem um jeito mais exagerado e meloso, além de ser uma pessoa cheia de ideias que poderiam ter consequências desastrosas. Em uma cena da cinebiografia, Parker sugere a Presley dar uma maneirada no seu estilo para evitar críticas dos conservadores. Alanna revelou que o empresário, na realidade, pensava o contrário. “(Parker) gostava do fato que Elvis atraía muita gente para seus shows. Parker amava o fato de Elvis ser visto como um stripper masculino. Aquilo vendia muitos ingressos”. Ela também garantiu que o Coronel nunca chegou a ser ameaçado pelo governo por conta das apresentações de Elvis, algo que ocorre no longa.

[Imagem: Reprodução/Warner]

Além disso, Tom Hanks optou por dar um sotaque considerado ‘europeu’ – afinal, ele nasceu nos Países Baixos – ao seu personagem. Coisa que pouco lembrava o do Tom Parker de verdade, como é possível perceber em uma gravação de entrevista realizada na década de 80.

A obra também retrata que, após ouvir bons comentários sobre Elvis Presley, Tom foi até o programa de TV Hayride para conhecer o cantor, que começou a ganhar fama. Então, essa seria a primeira apresentação do Rei do Rock no lugar – e no mesmo dia, os dois se conheceram.

Na realidade, as coisas se desenrolaram de outro modo. O coronel não estava presente nesse evento. O astro de fato estava nervoso ao se apresentar, mas após uma pausa, se acalmou e conquistou o público. Apenas meses mais tarde que o empresário foi até o local para assistir a um show de Elvis, e eles se conheceram semanas depois, em um espetáculo do cantor na cidade de Memphis.

Em Elvis, é possível ver que Presley era próximo do lendário bluesman B.B. King. Uma das cenas do longa mostra o cantor após um ataque de fúria, ‘fugindo’ para uma casa de shows frequentada por King e outros artistas negros, como Sister Rosetta Tharpe e Little Richard. No entanto, na vida real, as coisas eram bem diferentes. Nash, agora para o jornal USA Today, afirmou: “Elvis e B.B. se conheciam, mas não eram amigos próximos. Eles provavelmente cruzaram caminhos pela primeira vez no estúdio Sun, mas foi algo breve”.

Além disso, uma das críticas mais fortes e repetidas em relação ao Elvis era como ele teria se apropriado de características da música negra em um ainda altamente segregado Estados Unidos. E com isso, o empresário junto a gravadora, venderam uma imagem pioneira do artista mesmo sabendo de todas as barreiras raciais, e só ofereceram uma versão mais ‘diluída’ do que muitos já conheciam através de nomes como Chuck Berry.

Em contrapartida, o próprio B.B King refutou qualquer percepção de Presley ao se tratar de uma pessoa preconceituosa. O fã-clube australiano de Elvis resgatou um artigo do San Antonio Examiner, onde contém uma entrevista do bluesman realizada em 2010 – 5 anos antes de sua morte. Nela, ele declara: “Nascemos pobres no Mississippi, passamos por infâncias desprivilegiadas. Aprendemos e conquistamos nosso caminho através da música. Veja bem, eu conversei com Elvis sobre música desde o início, e eu sei que uma das grandes coisas no seu coração era esta: a música é propriedade de todo o universo. Não é exclusividade do negro ou do branco ou de qualquer outra cor. É compartilhado em e por nossas almas”.

Em dezembro de 1968, o canal americano NBC exibiu um especial que marcou a primeira apresentação de Elvis Presley em sete anos. O material foi gravado, mas representou a volta do cantor aos palcos diante de um pequeno público. A atração ganhou o nome de ’68 Comeback Special’ – em tradução ‘O Especial de Retorno de 68’.

No filme, enquanto Presley gravava a apresentação, o senador Robert Kennedy foi assassinado, mas de acordo com Alanna, a gravação do especial e o assassinato do senador não aconteceram ao mesmo tempo. A escritora revelou que na realidade, apenas um dos ensaios ocorreu no dia em que Kennedy foi atingido pelos tiros que tiraram sua vida – 5 de junho de 1968. “Elvis chegou para iniciar as semanas de gravações em 3 de junho de 1968, e Kennedy levou os tiros em 5 de junho, morrendo no dia seguinte, 6 de junho”.

Além disso, o longa chega a retratar a gravação sendo interrompida pelo barulho dos tiros que mataram Kennedy. Na vida real, o hotel em que o assassinato ocorreu era distante do estúdio em que o especial era produzido. Mas, a produção ao menos acertou em retratar que Elvis ficou abalado pelas mortes de Kennedy e do ativista Martin Luther King, assassinado dois meses antes do político. A música If I Can Dream, composta por Walter Earl Brown especialmente para o programa de TV, foi inspirada por trechos do famoso discurso I Have a Dream, de King.

Em Elvis, há um momento em que ele se alista ao exército para evitar uma possível prisão devido a sua péssima influência para os conservadores e um incidente violento em um show.

Elvis, de fato, se alistou no exército americano e cumpriu serviço militar entre 1958 e 1960, mas não teve relação alguma com uma possível prisão. Nash lembrou que a presença do astro entre os militares teve outro intuito e foi arranjada pelo Coronel Parker. “(Parker) negociou com o intuito de ser uma jogada de relações públicas, para fazer dele (Elvis) um garoto americano”.

O artista também se aventurou no mundo dos cinemas e participou de vários filmes, apesar de nunca terem sido grandes sucessos nas telonas. Há uma cena do longa em que Tom garante que Elvis se tornou o ator mais bem pago de Hollywood, mas não foi bem assim. Ele recebia salários de respeito para gravar algumas produções, justamente por conta de sua fama. Em 1965, por exemplo, ganhou US$1 milhão para gravar Feriado no Harém.

No entanto, três anos antes, Marlon Brando recebeu US$250 mil a mais para gravar O Grande Motim, e em 1963, Elizabeth Taylor ganhou a mesma quantia de Elvis para estrelar o clássico Cleopatra.

Ao decorrer do filme, Elvis Presley demite o Coronel em meio a um show em Las Vegas. Esse episódio até aconteceu na vida real, mas de uma maneira diferente. No espetáculo, ocorrido em setembro de 1973, Elvis destilou sua fúria contra Barron Hilton – dono da rede de hotéis homônima e que também era o proprietário do local em que ele teve que se apresentar por muito tempo.

O astro ficou insatisfeito ao saber que Hilton havia demitido um empregado do hotel com o qual simpatizava. Por conta do incidente, Parker teve uma discussão acalorada com Presley. Foi neste momento que o cantor, de fato, demitiu seu empresário – que foi recontratado após mostrar uma conta do que o cantor estaria devendo a ele.

Além disso, na produção, é revelado que Tom combinou esta série de apresentações no hotel como forma de bancar suas dívidas – afinal, ele perdeu muito dinheiro com jogos de azar. Na vida real, ele realmente se endividou desta forma ao longo de sua vida, mas Alanna Nash garante que os shows que Elvis fazia no hotel não tinham ligação com os problemas financeiros do empresário.

Como a caracterização em Elvis foi essencial

Para o desenrolar de toda a história, é necessário que os personagens tenham uma boa construção de imagem através de figurinos que complementem o roteiro. Com Elvis não seria diferente, principalmente por conta da responsabilidade em dar vida a uma persona lembrada não apenas pelas roupas e maquiagem, mas por uma história complexa, que passa por uma relação polêmica, por vezes violenta, e assistida pelo mundo em uma época com outro olhar em relação às estruturas do patriarcado.

Atender às expectativas do público era um dos maiores desafios que Shane Thomas, chefe de cabelo e maquiagem do filme, enfrentaria. Não só ele, mas também a equipe de figurino, com Catherine Martin e a participação de ninguém mais, ninguém menos que, Miuccia Prada. A designer italiana foi responsável por boa parte dos looks dos protagonistas através de suas duas empresas de roupas, Prada e Miu Miu, onde pode fezer esboços e desenhos para Austin Butler, que interpreta Elvis e para Olivia DeJonge, que interpreta Priscilla Presley.

[Imagem: Reprodução/Prada]

Além disso, a colaboração entre Miuccia Prada, Baz Luhrmann Catherine Martin é renovada depois que os três já deram vida às roupas para dois outros filmes do diretor: os de O Grande Gatsby, em 2013 , e o que Leonardo DiCaprio usou em Romeu+Julieta, em 1996.

Martin, figurinista quatro vezes vencedora do Oscar e criadora de roupas para a maioria dos filmes de Luhrmann -ambos são casados ​​desde 1997 e têm dois filhos – explicou que o centro da narrativa em Elvis é o amor lendário entre Elvis e Priscilla, destacando a beleza e o estilo icônico, justamente por ser um marco a cultura contemporânea. “Por isso, era importante para Baz e eu permanecermos fiéis ao seu verdadeiro legado, não simplesmente imitando as roupas da Sra. Presley, mas encontrando uma maneira moderna de conectar o público com seu estilo distinto e histórico”, afirma Catherine.

Priscilla é um dos pontos-chave da trama de Baz, afinal ela é um exemplo do que era a representação da estética e dos padrões de beleza norte-americanos em meados dos anos 60 e 70, abusando de cabelos volumosos, olhos bem marcados em delineados impecáveis, e até mesmo o formato das unhas. AFinal, nada é banal ou fútil quando se fala em narrativas cinematográficas.

Além disso, ela remonta a trajetória e as fontes de cultura negra das quais bebeu Elvis Presley. É por meio dela e do figurino que se marcam as passagens de tempo no longa. E, para o diretor, o visual dos personagens era tão importante quanto a história. “Baz tem muita certeza de como quer ver os personagens retratados. O meu trabalho era reproduzir sua visão junto de Catherine”, comenta Shane.

“Evitei replicar o visual dela. Priscilla é um pilar da cultura americana, então era muito mais sobre representá-la na frente das câmeras de forma respeitosa e homenagear seu status de ícone de beleza”, conta o beauty artist à Vogue Austrália. “Também precisei entender como trazer a beleza de Priscilla no rosto de outra pessoa; era sobre respeitá-la, mas também traduzi-la no rosto de Olivia DeJonge”.

[Imagem: Divulgação/Warner Pictures]

O início da história de Priscilla e Elvis é problemático, já que ela tinha apenas 14 anos quando eles se conheceram, e ele era 10 anos mais velho. A produção não retrata essa informação, mas, na ocasião, ela é representada como uma jovem esperta, porém sem grandes destaques em termos de elementos estéticos, sendo apenas uma garota comum.

Quando ela se casa com Elvis, em 1967, há um certo amadurecimento no estilo e o ícone começa a se consolidar. É como se ela tivesse, de fato, mergulhado na atmosfera que envolve uma estrela do rock. “Cilla usava uma maquiagem pesada. Eram três pares de cílios postiços em cima, além de cílios nas pálpebras inferiores e um super delineado”, comenta o expert, em entrevista ao POPSUGAR.

De acordo com o profissional, Olivia passava quase duas horas na cadeira de maquiagem todos os dias para chegar ao resultado visto nas telonas. E a parte mais complicada era acertar as sobrancelhas, já que, na vida real, Priscilla adorava mudá-las.

Além do olhar, não dá para falar da Presley sem lembrar do topete enorme, como aquele usado no casamento com o cantor. “Eu olhava para fotos e achava que aquilo era mentira”, entrega Shane. Para recriá-lo, ele lançou mão de duas até bater a altura. Em um segundo momento do filme, após a crise no casamento com Elvis seguida do divórcio, Olivia assume fios loiros, representados por quatro laces diferentes.

[Imagem: Divulgação/Warner Pictures]

Agora partindo para a estrela do rock and roll, além de bonito e talentoso, Elvis usava a estética de uma forma inteligente e consciente para se sobressair e construir uma imagem. A roupa passou a ser sua melhor aliada, compondo perfeitamente com seu cabelo e com os movimentos de seu corpo.

Para a obra, Austin Butler reviveu o cantor por meio do topete e da alfaiataria larga, que por muitas vezes não possui um gênero específico. O ‘estilo Presley’ inspirou muitos astros, como Bruno Mars, e grifes, como Versace e Cavalli.

A colaboração da Prada foi muito importante, principalmente nos ternos sob medida, em cores como marrom ou bordô, com lapelas largas e detalhes, como óculos escuros ou cintos coloridos. Já no caso da esposa, vestiu Miu Miu, com vestidos de chiffon, saias curtinhas, calças de campanha e paetês. Absolutamente tudo para ajudar a caracterizar os personagens sem cair no grotesco ou no disfarce.

Para as peças, os criadores se inspiraram em momentos específicos vividos por Elvis e Priscilla, como um macacão de paetês que ela usou em um show em Las Vegas, ou um vestido de lã que ela usou com uma jaqueta em um especial da NBC dedicado a Elvis, uma peça que, por exemplo, foi literalmente recriada.

A caracterização de Butler acontece até mesmo nos mínimos detalhes. O ator, que é loiro, tingiu o cabelo para a produção, mas também abusou de próteses e perucas. Ou até mesmo na maquiagem com os olhos esfumados – usados pelo cantor na vida real – tudo para contar sua jornada, da ascensão à decadência.

A música como ferramenta principal da obra

Elvis Presley é um nome imediatamente associado ao rock and roll. Não é atoa que ele é conhecido como Rei do Rock, sendo um dos maiores pioneiros do gênero, um verdadeiro símbolo da cultura dos Estados Unidos e de tudo que a engloba.

Hoje em dia, quando se fala do rock, o termo soa quase que obsoleto em seu significado mais literal. Existem pessoas gente vão dizer que, atualmente, o rap é o rock. Para outros, o rock realmente só cabe quando há uma banda, com guitarra, baixo e bateria. Mas também, há quem diga que o gênero não está ligado à música e sim à atitude.

Entender isso é, sem dúvidas, um dos grandes méritos do filme Elvis e de sua excelente trilha sonora, que não foi feita apenas para respeitar o legado de Presley, mas entender que é preciso se conectar com passado, presente e futuro, para conversar com todos os públicos que irão assistir a obra. Essa compreensão permite não apenas que a trilha seja uma das mais interessantes do ano, como também faz com que ela cumpra um papel fundamental em ressignificar a carreira do Rei do Rock, mostrando como a sua influência foi muito além do formato tradicional.

Um dos maiores exemplos disso isso é Vegas, faixa assinada por Doja Cat que usa um sample de Hound Dog. Famosa na voz de Elvis, a canção aparece em sua versão cantada por Shonka Dukureh e mostra como é possível construir algo totalmente diferente a partir de um grande clássico do ritmo.

Mais do que isso, a presença desse sample é uma homenagem as verdadeiras origens do rock – algo que, em vida, Presley sempre pareceu entender e respeitar, como foi retratado no longa de Luhrmann. O mesmo é válido para outras canções que trazem trechos de clássicos, como a ótima The King and I, de Eminem e CeeLo Green, que utiliza de Jailhouse Rock.

Da mesma forma, a presença de uma versão espetacular de Stevie Nicks e Chris Isaak para Cotton Candy Land é o pedido certo para quem esperava versões mais próximas das originais, sem contar as próprias mixagens especiais feitas para o filme de clássicos como I’m Coming Home, Suspicious Minds, Polk Salad Annie e muitas outras.

Também existe a versão de Can’t Help Falling in Love, assinada por Kacey Musgraves, sendo um ótimo exemplo de como essa trilha foi capaz de ‘traduzir’ as canções tão antigas para um contexto atual. E o mesmo vale para If I Can Dream, regravada pela banda italiana Måneskin.

Até agora, é possível entender o passado e o presente, mas e o futuro? Quando se trata de Elvis Presley, o futuro está sempre no presente – afinal de contas, o pioneirismo e a quebra de barreiras são marcas registradas do Rei do Rock, como ficou claro para qualquer um que tenha assistido ao filme.

Mas falar de futuro nesse ponto, é se permitir ir um pouco além nas hipóteses. É acreditar que, graças a uma trilha sonora como essa, algum fã de Doja Cat, de Eminem ou de Diplo, possa mergulhar de cabeça na história do rock.

Ao fim do filme, duas coisas permaneceram na memória. A primeira é como a decadência de um astro é aplaudida de forma cruel pelos próprios fãs, desde que o show business tomou conta da maneira como o ser humano consome a arte. De Kurt Cobain e Amy Winehouse, chama a atenção como essa sanha por testemunhar o fracasso, de vangloriar-se por estar diante da fragilidade de uma pessoa que não aguenta mais o peso do próprio talento. Por isso, ao longo de anos, milhares de pessoas compareciam semanalmente a Las Vegas para assistir à mais uma apresentação do Rei do Rock, por mais que seu corpo e sua voz pedissem socorro.

A segunda, é a frustração do cantor pelas inúmeras maneiras como seu empresário freou o processo de internacionalização de sua turnê, que acabou virando uma residência. Algo que a produção dá conta de esmiuçar e esclarecer as motivações pelo lado de Parker. Um apátrida viciado em jogo que fez de Vegas a prisão do homem mais famoso do mundo. Um desgaste que fez com que, em uma das cenas finais, o rosto e a voz de Austin Butler, tão bem no papel de Elvis Presley, revelasse um milionário de quarenta anos que se sente incapaz de sonhar, podendo ser uma tragédia aos olhos de qualquer um, ou um espetáculo pelo olhar de Baz Luhrmann.

E apesar de tudo isso, Elvis Presley não morreu e nem nunca morrerá, uma vez que ele vive através de suas obras que marcaram o mundo, e principalmente a indústria musical.

[Crítica] Renaissance: os hinos de positividade iniciam uma nova era

O tão aguardado comeback da Beyoncé finalmente chegou! Renaissance, o sétimo álbum de estúdio da artista, foi lançado na última sexta-feira (29). O projeto, que é o primeiro ato de uma trilogia, vem sendo muito aguardado pelos fãs após um hiatus de 6 anos da cantora desde seu último disco solo, Lemonade.

Renaissance conta com 16 faixas e participações especiais de Beam, Grace Jones e Tems. Nas redes sociais, Beyoncé compartilhou o significado do projeto feito durante três anos na pandemia, onde a artista declarou na dedicatória do disco que foi uma época em que mais se achou criativa.

Criar este álbum me permitiu um lugar para sonhar e encontrar fuga durante um momento assustador para o mundo. Isso me permitiu sentir-me livre e aventureiro em uma época em que pouco mais estava se movendo. Minha intenção era criar um lugar seguro, um lugar sem julgamento”, contou a cantora.

O projeto tem doze produtores principais, A. G. Cook, Boi-1da, Guilty Beatz, Jahaan Sweet, Labrinth, The Neptunes, S1, Skrillex, Tate Kobang, The-Dream, Tricky Stewart e a própria Beyoncé. A masterização é feita por Colin Leonard e a mixagem assinada por Stuart White.

A primeira faixa do Renaissance é I’m That Girl, que usa o sample da música Still Pimpin de Tommy Wright III, Mac T-Dog e Princess Loko, lançada em 1994. A canção dançante inicia o álbum com uma mensagem bem simples do poder feminino. 

Nos versos, “It’s not the diamonds, It’s not the pearls, I’m that girl, It’s just that I’m that girl” (Não é os diamantes, não é as pérolas, eu sou aquela garota, é que eu sou aquela garota; em português) a artista exemplifica que não é necessário coisas de valor para lhe agregar poder.

Cozy é a segunda música do álbum e ela fala sobre estar confortável, sendo em ser quem você é, com seu próprio corpo e com sua cor. Com uma batida mais relaxada, a artista entrega novamente uma mensagem positiva para seus fãs. A canção usa como samples as faixas Get With U de Liddell Townsell e M.T.F. e Unique de Danube Dance e Kim Cooper.

Além disso, Cozy usa trechos do vídeo Bitch I’m Black da TS Madison, personalidade americana muito conhecida por ser a primeira mulher trans negra a produzir e apresentar um reality show.

Seguimos com Alien Superstar, uma faixa com batida eletrônica sensual e que se inicia com um sample da canção Moonraker do Foremost Poets, lançada em 1998. A música explora toda a sensualidade da artista e comunica com o público o poder de ser única ao som da faixa perfeita para se ouvir na pista de dança.

O destaque de Alien Superstar vai para a interpolação de I’m Too Sexy do grupo Right Said Fred no refrão da música, que destaca a genialidade da artista em usar uma canção muito conhecida de maneira tão revigorante. O sample de Unique de Danube Dance e Kim Cooper se repete e ao final da faixa é possível ouvir parte do discurso Black Theater da escritora e atriz Barbara Ann Teer.

Ensaio de divulgação do álbum Renaissance. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Cuff It é a quarta faixa, com sonoridade disco e synth funk (a mistura do uso de sintetizadores com a batida rítmica do funk), a música se desenvolve de maneira divertida e romântica. Essa é uma Beyoncé que só quer se divertir e não tem nada que irá prendê-la. A canção tem interpolação de Ooo La La La da Teena Marie e sample de Square Biz da mesma cantora.

A quinta música do álbum é Energy com participação de BEAM, cantor jamaicano e americano. A faixa com sonoridade dancehall e eletrônica, mistura as partes melódicas cantadas por Beyoncé e os versos de BEAM com o afrobeat. Na letra pode ser encontrar um incentivo para dançar e se divertir, mantendo sempre a energia alta.

Energy tem sample de Milkshake e Get Along With You da cantora Kelis e Explode de Big Freedia, que faz a transição com a próxima canção do disco. Seguimos com Break My Soul, lead single do álbum, que conta com o samples do hit dance dos anos 90, Show Me Love, da cantora Robin S. e novamente a canção Explode de Big Freedia, lançada em 2014. 

A música alcançou o 7° lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 5 semanas no chart. Break My Soul que chegou para anunciar a volta da artista, agora na sonoridade dance-pop, se manteve na proposta de ser um hino de positividade em tempos confusos.

Capa alternativa do disco. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Church Girl é a sétima faixa do Renaissance, onde a artista explora nos versos da música sua religiosidade e suas raízes do sul dos Estados Unidos. Com batidas animadas do bounce é celebrado a liberdade em todos os seus sentidos. A canção usa os sample de Center of Thy Will das The Clark Sisters, Drag Rap dos The Showboys e interpolações de Where They At do DJ Jimi e Think (About It) da Lyn Collins.

Seguimos com Plastic Off The Sofa, a música mais lenta e R&B, mas sem abandonar o upbeat eletrônico. Nela, Beyoncé fala sobre amor e as qualidades de seu interesse romântico, podendo ser até uma faixa dedicada ao seu marido, Jay-Z. Pelo caráter mais intimista da música, os vocais da cantora se sobressaem e são o grande acerto de Plastic Off The Sofa.

A nona canção é Virgo’s Groove, um clássico disco com letra mais romântica  dedicada ao amor da vida da artista. Com vocais e melismas arrepiantes, por mais de seis minutos podemos ouvir Beyoncé brincar com sua técnica vocal em uma faixa mais tranquila e pop.

Move é a próxima canção com a participação de Grace Jones e Tems. A faixa tem influência do afrobeat e bounce e explora os dois significados do termo “move”, em inglês, que pode significar o ato de se mexer e dançar, ou de sair da frente e abrir espaço para alguém mais importante. 

Seguimos com Heated, uma música mais R&B que conta uma menção e homenagem a uma das pessoas que inspiraram o Renaissance, Uncle Johnny. Ele, que era sobrinho da mãe de Beyoncé, teve participação na criação da artista e no início da sua carreira ajudava a criar designs e vestidos para serem usados por ela.

Em 2019 no GLAAD Awards, a cantora também dedicou o prêmio ao tio que morreu por complicações do HIV nos anos 90. No encarte do disco, Beyoncé agradece e explica a importância de Johnny. “Ele foi minha ‘madrinha’ e a primeira pessoa a me expor a muita música e cultura que servem de inspiração para este álbum.”, declara a artista.

Foto que aparece no encarte do álbum com agradecimentos ao Uncle Johnny.  [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

A décima segunda canção é Thique, uma faixa mais pop e trap, mas sem perder a sonoridade eletrônica. Nos versos se encontram rimas sobre dinheiro e sensualidade, com a exaltação do corpo da artista.

O álbum segue com All Up In Your Mind, uma das músicas mais diferentes do projeto e que coloca a cantora no universo ainda não explorado por ela, o hyperpop. Com letra bem pop falando sobre amor, o destaque vai para os vocais e performance de Beyoncé que combinam muito com o gênero.

America Has a Problem mistura a sonoridade de sintetizadores com o rap e usa o sample de America Has a Problem (Cocaine) de Kilo Ali, lançada em 1990. A faixa, apesar do nome, não tem nenhuma crítica política e deixa espaço para a cantora rimar de maneira divertida e interessante.

A penúltima canção é Pure/Honey, a faixa que é dividida em duas fases e gêneros. Na primeira parte, Pure, a artista apresenta rimas rápidas acompanhadas de uma batida perfeita para as boates. Já na parte Honey, Beyoncé se envolve completamente no soul e funk seguidos de vocais de outro mundo. A música tem os samples de Cunty da Kevin Aviance, Miss Honey de Moi Renee e Feels Like de MikeQ e Kevin JZ Prodigy.

O álbum termina com Summer Renaissance, a faixa que tem no refrão uma interpolação de I Feel Love de Donna Summer, um clássico do disco dos anos 70. A música encerra o álbum mais experimental da carreira da artista como o fim de um sonho. Levando os ouvintes a outras camadas da voz de Beyoncé em um ritmo que ninguém esperava vê-la dominando.

[Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Horas após o lançamento, Renaissance alcançou o topo do Apple Music em mais de 100 países, se tornando o primeiro disco feminino a conseguir o feito em 2022. No Spotify, o projeto teve a maior estreia de um álbum de uma artista feminina na plataforma este ano, com mais de 43 milhões streams

De acordo com o Hits Daily Double, o álbum tem previsão de vender entre 275 e 315 mil unidades, colocando o Renaissance em primeiro lugar nas paradas musicais americanas. Se conseguir chegar ao topo, Beyoncé se tornará a primeira artista feminina a colocar um disco nessa posição em 2022.

No metacritic, o projeto está com nota 93, acumulando 15 avaliações positivas e superando a avaliação de seu álbum anterior, Lemonade, que tem a nota 92. Na review da revista Rolling Stones, a artista foi aclamada por sua habilidade de dar aos ouvintes novos hinos pop e as faixas lentas e sensuais que todos amam e esperam nos projetos da cantora. 

A faixa Virgo’s Groove ganhou o selo de ‘Melhor Nova Música’ do site Pitchfork, destacando a música disco-funk como uma das melhores na carreira da Beyoncé. Na crítica de Renaissance, o álbum conquistou a nota 9 e a atribuição de ‘Best New Music’, dando ênfase no disco como uma rica celebração da música das boates e seu espírito emancipatório.

Em geral, o novo álbum se reinventa do que esperávamos no futuro da discografia da cantora. Após Lemonade, um dos projetos mais pessoais da artista, Renaissance reúne diversão, leveza e sensualidade nas faixas. Beyoncé aposta em um novo gênero musical e o mistura com outros ritmos, tornando o disco uma extensão de sua personalidade.

O uso correto de samples também merece destaque, pois demonstra a habilidade da cantora em transformar as interpolações e trechos de outras músicas em algo tão original e criativo quando aparece em Renaissance. Quem imaginou que após a faixa Way 2 Sexy de Drake e Young Thug o refrão da música I’m Too Sexy poderia soar de fato sensual e não cafona com em Certified Lover Boy? Só com os vocais de Beyoncé mesmo.

E falando em voz, a produção vocal do álbum está entre um dos melhores da artista, levando o ritmo eletrônico do house e disco a outros níveis. As faixas são conectadas não só pela sonoridade coesa do projeto, mas também em belas transições que o colocam na estética de um DJ unindo músicas para uma pista de dança.

Renaissance se estabelece como o início de uma trilogia animada e empolgante. É impossível ouvir o projeto e não se sentir contaminado ao dançar e melhorar o humor de quem está ouvindo. Assim, o álbum mais experimental de Beyoncé cumpre a promessa de nos levar a um lugar de exploração e liberdade.

[Crítica] Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter são emocionantes e imersivos

O quinto álbum de estúdio de Sabrina Carpenter, emails i can’t send, foi lançado na última sexta-feira, 15 de julho. Sob domínio da gravadora Island Records, produção de Leroy Clampitt, Jason Evigan, Jorgen Odegard, John Ryan, Ryan Marrone e Julian Bunetta. Já como compositores, participaram Julia Michaels, JP Saxe, Steph Jones, Amy Allen e a própria Sabrina descritos nas faixas. O álbum surpreende com composições honestas e pode ser representado por três pilares: storytelling, imersão e vulnerabilidade.

Com a imagem totalmente desvinculada da Disney, coloca um ponto final nas polêmicas em que foi envolvida no ano passado. Carpenter transita entre diversos gêneros musicais com o passar das músicas e se dá bem com todos. Arriscando com transições engraçadas e pessoais, consegue criar um enredo e conta o seu lado da história.

A primeira faixa, emails i can’t send, carrega o nome do álbum e é um verdadeiro soco no estômago. Com instrumental mínimo, poder vocal e rimas impecáveis, a apelidada pelos fãs de intro na época do pré-álbum, emociona e choca por revelar que a insegurança de Sabrina com relacionamentos é vinda da traição de seu pai. Cada palavra toca profundamente e a música prende a atenção por ser contada praticamente de maneira cronológica, como uma história.

Vicious foi lançada menos de um mês antes do álbum e foi responsável por aumentar as expectativas de todos. Vindo de uma sequência de singles não tão bem aceitos, essa canção é forte e debochada, tendo seu momento de explosão na ponte, onde é dito “Você não sente remorso, você não sente os efeitos, porque você não acha que me machucou se me deseja o melhor, eu deveria ter percebido antes que eu seria apenas a próxima a tomar suas músicas de amor como promessa”. Doeu por aí?

Tirando o ouvinte da transe causada pelas faixas anteriores, Read your Mind começa com vocais angelicais e tranquilos, mas essa calmaria passa poucos segundos depois, quando a melodia muda totalmente para algo mais agitado e dançante. A música retrata um amor confuso onde um dos lados quer continuar solteiro, mas não consegue resistir a paixão – embora não assuma, fazendo idas e vindas dolorosas e egoístas na vida da outra parte envolvida. Novamente é uma grande aposta no storytelling, contando a situação praticamente como uma fofoca para a melhor amiga.

Passando para Tornado Warnings, o quesito de conversação no início da música lembra muito o single skinny dipping, também presente no álbum. A faixa representa a fase de negação em um relacionamento mal sucedido, Sabrina contou em entrevista que possui as notificações do telefone ativadas para alertas de tornado, e que a composição se trata de uma história real envolta por uma metáfora, onde ela estava com alguém que não deveria estar em um parque e logo começou a chover, mas decidiu ignorar todos os alertas de perigo e mentiu para seu psicólogo sobre esse encontro, para não zangá-lo.

Se as outras faixas se tratavam de um desabafo, because i liked a boy é um grito alto e claro. Retornando às origens do ódio que recebeu no passado, a artista diz que não esperava que um amor tão inocente e intenso te traria tantas ameaças de morte e ofensas pesadas, como “destruidora de lares” e “vagabunda”. A grande revelação da música é a afirmação de que quando o caos começou, o casal já havia terminado o relacionamento. Com uma melodia voltada para o R&B e a estética circense presente no clipe, essa canção se torna facilmente uma das queridinhas do álbum.

Already Over, que já havia uma prévia postada nas redes sociais da cantora, é uma faixa leve e divertida, com uma pegada mais country. Ela volta para o assunto do caos mesmo sem estarem mais juntos, e com tudo vindo à tona, é ainda mais difícil colocar um ponto final em um assunto que está constantemente aparecendo em sua frente, causando algumas recaídas entre os dois.

Quebrando a agitação da faixa anterior, how many things possui mais de quatro minutos e retrata o fim do amor de uma das partes: “Eu imagino quantas coisas você pensa antes de pensar em mim, eu imagino quantas coisas você quer fazer e eu estou impedindo”. É a fase do fim do relacionamento onde tudo ainda é muito recente e tudo lembra a pessoa, mas não sente que o outro está na mesma situação. Com um instrumental mínimo servindo apenas de acompanhamento, a música é muito relacionável, servindo para relacionamentos amorosos, familiares ou em amizades que não correspondem mais ao mesmo carinho.

bet u wanna é a herdeira de Sue me e Looking at Me. Com um tom mais debochado, vingativo, sexy e coberto de autoestima, a música trata do momento de respeito a si própria e seu valor após o fim de um ciclo, descritos através de frases provocativas. Carpenter ironiza a situação e aposta que a pessoa a quer de volta, mas agora já é tarde demais. Simplesmente a faixa que os fãs esperam todo álbum, para recuperar sua força e autoestima, e também porque fica bem nos “stories de biscoito”.

Nonsense possui uma raiz semelhante a de algumas faixas do álbum positions de Ariana Grande. A canção mantém a energia provocativa e irônica, onde está vivendo novas experiências e volta para a fase leve, perdendo a noção quando está ao lado de outra pessoa. O verso “Eu acho que tenho um ex, mas esqueci dele”, junto ao significado de bet u wanna, confirmam que estamos na parte da história onde já deu o que tinha que dar e está superado.

Fast times e skinny dipping dão procedência ao álbum e são os dois singles anteriores da era. Bem diferentes entre si, ambas das músicas representam elementos presentes no restante das faixas, o tom de storytelling presente na composição e clipes, sempre instigando o ouvinte a escutar a música até o final para saber o desfecho da história.

Chegando a penúltima faixa, Bad for Business traz uma ambiguidade na interpretação: A insegurança de um novo relacionamento atrapalhar sua carreira e imagem como o anterior ou essa paixão literalmente atrapalha os negócios, pois não a deixa dormir de noite e é sua grande fonte de inspiração, fazendo com que ela não consiga pensar em mais nada. A música tem uma melodia leve e um pouco mais lenta, a composição é apaixonada e traz a calmaria de um amor – por enquanto – tranquilo.

Encerrando o álbum com chave de ouro, decode é vulnerável e honesta, uma das mais pedidas pelos fãs – por conta de uma prévia anteriormente postada por Sabrina – vai além do esperado. A letra assume cruamente que não aguenta mais pensar e repensar sobre o relacionamento, sobre o que pode ou não ter acontecido, por isso simplesmente desiste e afirma que não há mais o que falar sobre o assunto, não há mais nada para decodificar, todos as partes deram seu lado da história e o assunto está encerrado entre eles.

[Imagem: Reprodução/Sabrina Carpenter Brasil]

O poder narrativo de Sabrina Carpenter é surpreendente, a cada faixa é possível desvendar seus sentimentos e simpatizar com eles. Todos sabem a maldade presente na internet e como ela pode afetar a vida das pessoas, como todo esse ódio e repressão toma conta de alguém, a ponto que ela não tenha como falar por si mesma. Portanto, emails i can’t send é a resposta de uma sobrevivente deste ódio, que ficou calada por muito tempo e ainda continua guardando algumas informações, mas prefere que elas continuem em segredo.

Este disco simboliza a maneira como a artista materializa sua arte, tratando suas músicas como um desabafo vulnerável, o sentimento de ser chamada de “destruidora de lares” enquanto estava vivendo o inferno dentro de sua casa com seus pais.

É gratificante escutar uma sequência tão real e bem produzida, cada faixa se destaca singularmente e mantém a coesão dentro de um conjunto. Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter vieram à tona e merecem o reconhecimento máximo, não somente por sua coragem de falar, mas pela qualidade imposta no álbum, a história contada em etapas, arriscando diversos gêneros e abordagens. Mesmo em meio a uma realidade de uma gravadora negligente e descuidada, o álbum se mantém desde seu lançamento em primeiro lugar no Apple Music Brasil, e é de se esperar que esses números continuem crescendo.

O Auto-Tune como ferramenta criativa na música

Desde a estreia do programa TVZ com a apresentação de Pedro Sampaio, o artista começou a sofrer críticas por suas performances com o uso da ferramenta de Auto-Tune que deixam sua voz mais robotizada. Em entrevista para a revista Rolling Stones, Pedro se abriu sobre como enxerga o uso do efeito.

Muita gente ainda demoniza o auto-tune, mas são pessoas que não entendem do que estão falando, porque ele é usado mundialmente e eu uso de forma escancarada desde o início da minha carreira, faz parte da estética da minha voz“, afirma o DJ e produtor.

O Auto-Tune nada mais é do que um plug-in comumente usado por produtores dentro do estúdio, criado em 1997, a ferramenta inicialmente tinha o propósito de corrigir a afinação de cantores e instrumentos musicais. Mas não demorou muito para que outros propósitos para o recurso surgissem, quando a ferramenta é usada de forma exagerada ela gera um efeito robótico na voz parecido com o uso de sintetizadores.

Um ano após o lançamento do auto-tune, a cantora americana Cher lançou uma das primeiras músicas comerciais em que é possível identificar o efeito mais robotizado. A faixa Believe foi pioneira em usar a ferramenta de maneira criativa e a distorção de voz que foi imitada por outros artistas ficou conhecida como o “Efeito Cher”.

O single da cantora americana atingiu o topo das paradas americanas e se tornou uma das canções mais vendidas fisicamente de todos os tempos, com mais de 11 milhões de cópias. Além disso, a técnica usada na faixa mudou a história da música pop e os gêneros do rap e trap.

Nos anos 2000, diversos artistas da cena hip-hop aderiram ao uso do auto-tune, o destaque entre eles foi o rapper norte-americano T-Pain. Com o lançamento de seu álbum de estreia, Rappa Ternt Sanga, em 2005, o artista ficou conhecido pelo seu uso da ferramenta e criou sua própria estética vocal única no cenário do rap.

Devido ao T-Pain, o auto-tune caiu nas graças de grandes artistas, como Snoop Dogg, Lil Wayne e Kanye West, que até dedicou o álbum 808s and Heartbreak para explorar o efeito. No pop, a cantora Britney Spears também usou a ferramenta para modular sua voz em seu álbum Blackout e a banda Black Eyed Peas investiu pesado no auto-tune na canção Boom Boom Pow para atingir uma sonoridade futurista.

Mas se engana quem pensa que o auto-tune foi bem recebido por todos os artistas e a maioria do público. Em 2009, o rapper Jay-Z lançou a faixa D.O.A (Death of Auto-Tune) criticando exatamente o uso exagerado da ferramenta e a popularização da técnica no hip-hop. No trecho “Get back to rap, you T-Pain’n too much” (Volte para o rap, vocês estão como o T-Pain demais; em português), o rapper chega a citar o artista que iniciou o movimento e critica quem usava o auto-tune de forma não criativa.

Além disso, muitas críticas se somam ao fato de que quem usa a ferramenta não sabe cantar. Por ser uma ferramenta de afinação, em teoria, qualquer pessoa poderia gravar uma canção e soar com vocais perfeitos. Nessa época, surge ainda mais uma valorização por cantores que não usavam a ferramenta e eram publicamente contra o auto-tune.

Christina Aguilera foi uma dessas pessoas e chegou a passear pelas ruas de Los Angeles com uma blusa escrito “Auto Tune is for pussies” (Auto Tune é para covardes, em português). Anos depois, em entrevista para a rádio SiriusXM, a cantora admitiu que a ferramenta poderia ser usada de forma criativa, tendo inclusive experimentado com o auto-tune em seu álbum futurista, Bionic.

Christina Aguilera usando blusa contra o uso de Auto-Tune. [Imagem: Reprodução/Reddit]

De maneira geral, o uso do auto-tune se consolidou uma prática geral na música quando se fala de afinação. A maioria das músicas mainstreams passam pelo plug-in, o que constrói na indústria da música pop a meta de vocais perfeitos e a minimização de qualquer erro natural.

Até porque é importante lembrar que em faixas gravadas, bem antes da criação do Auto-Tune, já existiam técnicas que mudavam e melhoravam sutilmente a voz dos artistas.The Beatles duplicavam seus vocais nas músicas para deixar a voz mais encorpada nas canções, John Lennon mudava seu timbre de voz natural ao diminuir a velocidade das gravações e reproduzi-las por um amplificador específico e  Elvis Presley usava o eco e delay ao seu favor nas músicas.

Os tais vocais “naturais” são dificilmente encontrados e não são sinônimo de sucesso. O uso do auto-tune não invalida talento de nenhum artista e há quem diga que com a menor preocupação de atingir notas extremamente perfeitas, sobra mais tempo para se dedicar a outros elementos da música ou na entrega de uma performance.

O que foi uma tentativa de T-Pain para soar diferente de outros rappers anos atrás, se tornou atualmente uma das técnicas mais usadas no trap, subgênero musical do hip-hop e rap. Os artistas que fazem parte do gênero,  usam o auto-tune para criar melodias e unir as rimas com partes mais cantadas.

Travis Scott em estúdio com o cantor James Blake. [Imagem: Reprodução]

Quavo, Future, Migos e Young Thug são alguns dos rappers que montaram suas estéticas vocais usando os efeitos da ferramenta. Os vocais do Travis Scott conhecidos por soarem bem robóticos ou como de algo de outro mundo unem o auto-tune com outras técnicas de delay, phasing e outros plug-ins que modulam a voz. Esses efeitos formam o estilo único do artista e caracterizam o gênero musical em que atuam.

É inegável afirmar que o Auto-Tune mudou o jeito de fazer música desde sua criação e popularização. Poucas invenções na indústria fonográfica foram tão icônicas e discutidas pelos artistas e público depois de tantos anos. Seja pelas críticas do caráter artificial trazidos pela afinação perfeita ou pelo seu uso exagerado na modulação vocal, a ferramenta encontrou novas maneiras de ser usada e ainda tem fãs no mundo dos cantores.

Se o auto-tune cair em desuso na próxima década, o que parece bem improvável, com toda certeza vai ter marcado uma geração de músicas nos anos 2000 e no hip-hop, assim como os teclados sintetizadores são lembrados nas canções dos anos 80 e até imitados atualmente.