Conheça um pouco mais sobre Baz Luhrmann, o diretor por trás de ‘Elvis’

Baz Luhrmann é considerado um dos cineastas mais inovadores em Hollywood atualmente, tendo sua carreira resumida em um curto repertório de filmes sempre visualmente extravagantes e estilísticamente emblemáticos.

Filho de uma professora de dança de salão e um administrador de posto de gasolina, Luhrmann nasceu em uma pequena zona rural no norte de New South Wales, Austrália, em 17 de setembro de 1962. Nasceu com o nome de Mark Anthony, porém é mais conhecido pelo seu pseudônimo originado de um apelido de infância.

Diretor, produtor e escritor, sua carreira no Cinema teve início em 1992 com Vem Dançar Comigo, o primeiro filme da sua trilogia Red Curtain (Cortina Vermelha), adaptação de uma produção teatral autoral, baseada em suas experiências de infância no mundo da dança de salão. O filme foi feito em colaboração com outros alunos da National Institute of Dramatic Art e supostamente aplaudido de pé por 15 minutos na sua estreia em Cannes.

Fonte: blu-ray.com

Também inclusos nessa trilogia estão: Romeo + Julieta (1996) e Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001). Esses filmes não se completam na narrativa e nem coexistem em um mesmo universo cinematográfico, mas se assemelham na maneira como a sua narrativa é conduzida; enredos relativamente simples envolvidos de tragédia, comédia e alguma temática teatral: dança, poesia e música. Luhrmann em entrevista com Geoff Andrew para o The Guardian:

“a Cortina Vermelha requer algumas noções básicas. Uma é que o público saiba como terminará quando começar, é fundamental que a história seja extremamente rasa e extremamente simples – isso é muito trabalho. Então, é colocada num mundo criado e intensificado. Depois há um meio – o mundo elevado de ‘Strictly Ballroom’, a praia de Verona. Há ainda outro dispositivo – dança ou pentâmero iâmbico ou canto, e que está lá para manter a audiência acordada e empenhada”.

A Trilogia da Cortina Vermelha

Poster de divulgação. Fonte: Festival de Cannes / IMDb

Vem Dançar Comigo (1992)

Vem Dançar Comigo (1992). Fonte: National Film and Sound Archive

Um dançarino rebelde e uma jovem de pé esquerdo se unem no amor e na dança para quebrar padrões convencionais e lutar pela liberdade artística.

Romeo+Julieta (1996)

Fonte: Everett Collection para Vogue

A clássica tragédia de William Shakespeare sobre dois jovens que amam em meio a tanto ódio, mas não resistem às suas consequências. Primeiro trabalho de Leonardo DiCaprio com Luhrmann, esse é um filme que envolve a poesia shakespeariana em anacronismos incrivelmente bizarros.

Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001)

Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001). Fonte MUBI

Estrelando Nicole Kidman e Ewan McGregor como um casal de artistas lutando pela verdade, beleza, liberdade e amor em uma Paris boêmia do final do século 19. Moulin Rouge fecha a trilogia com oito indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Filme, além de garantir o Globo de Ouro de Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Trilha Sonora.

Trajetória da sua Carreira

Como é comum com grandes diretores, Baz tem o costume de trabalhar múltiplas vezes com os mesmos atores. Com Kidman, por exemplo, colaborou no Nº 5 “Le Film”, um curta publicitário para o emblemático perfume da Chanel, e mais uma vez em um filme de 2004 chamado Austrália.

Chanel N° 5 “Le Film”. Fonte: MUBI

Em 2013 o diretor adaptou o clássico de F. Scott Fitzgerald trazendo às telonas O Grande Gatsby, estrelando Leonardo DiCaprio como o famigerado bilionário Jay Gatsby em uma Nova York eletrizante no auge dos anos 1920; repleto de anacronismos incluindo uma trilha sonora que mescla elementos do jazz da época com um som moderno composto por Jay-Z, Beyoncé e Lana Del Rey. Este filme arrecadou mais de 353 milhões de dólares ao redor do mundo, dois Oscars e elogios da neta de Fitzgerald, “Scott teria ficado orgulhoso”.

O Grande Gatsby. Fonte: Entertainment Weekly

Em 2016, Luhrmann colaborou com Stephen Adly Guirgis na criação da série The Get Down para a Netflix. A série é dividida em duas partes e conta a história das origens do hip-hop na década de 1970, com a ajuda de alguns dos artistas mais conhecidos da época, Nas, Kurtis Blow, DJ Kool Herc, entre outros que atuaram como produtores.A mais recente das suas obras, que tem recebido muito destaque da mídia, é a biopic de Elvis (2022). Estrelando Austin Butler como o “Rei do Rock”, bem como o incrível Tom Hanks e o irmão mais velho que todos amam odiar em Stranger Things, Dacre Montgomery.

Elvis (2022). Fonte: Claudia

Durante os seus 40 anos de carreira Baz Luhrmann desenvolveu um repertório curto, mas repleto de sucessos. Além de ter uma habilidade admirável para a direção, o australiano também envolve seus filmes de uma identidade artística que os torna clássicos instantâneos e imediatamente reconhecíveis.

Baz traz à sua audiência uma visão tão inovadora e verdadeiramente artística que, apesar de suas obras serem poucas, cada uma se torna uma quase eterna fonte de entretenimento. A história em si tem seu devido valor, mas a frenesi, energia e teatralidade caótica e constante que fazem seus filmes tão prazerosos de ver e rever, havendo sempre algo de novo para chamar a sua atenção.

Confira Elvis (2022), já nos cinemas!

Frenezi Meets: Ana Paula do Narrativa Feminina

Por: Vitória Geremias

A Editoria de Cinema & TV da Frenezi entrevistou a Ana Paula do @narrativafeminina para conhecer um pouco mais sobre seu trabalho e sua jornada como criadora de conteúdo no Instagram. O projeto de Ana tem como objetivo destacar as mulheres e pessoas LGBTQIA+ que estão produzindo e atuando na indústria cinematográfica, de recomendar conteúdos com protagonismo feminino ou de temática LGBTQIA+, além de levantar várias pautas importantes para discussão. Confira abaixo a entrevista na íntegra feita pela repórter Vitória Geremias e conduzida pelas editoras Ana Luiza Neves e Ana Antenore. 

(Frenezi) Como surgiu a ideia de criar a @narrativafeminina?

(Ana Paula) Surgiu na faculdade, faço Jornalismo e no primeiro período, na disciplina de Inovação e Criatividade, havia um projeto cujo objetivo era criar algo pessoal e que fosse a “nossa cara”. Na época, em 2018, a Greta Gerwig havia sido indicada ao Oscar de Melhor Direção, e foi nesse momento que despertou em mim uma necessidade de repensar o consumo de filmes e valorizar mais as produções feitas por mulheres. Fui atrás de sites e pessoas que falavam sobre o assunto e levantavam essa discussão, mas percebi que não haviam muitos. A jornalista Luísa Pécora, do site “Mulheres no Cinema”, foi a minha primeira inspiração para o projeto. Para continuar com o trabalho, era preciso entrevistar alguém de nossa admiração e assim consegui contato com Luísa, que me incentivou ainda mais na criação do Narrativa (Feminina).  Em conjunto com a pauta feminista, também surgiu a necessidade de abordar narrativas LGBTQIA+, justamente por também fazer parte da comunidade e entender a urgência em trazer esses assuntos para discussão. Mas, por conta da faculdade, tive que deixar um pouco de lado por alguns anos, e em 2020, quando resolvi retomar, aproveitei para aprimorar o design dos posts, com cores e carrosséis, tentando trazer conteúdo de maneira divertida e descontraída para atingir um público maior.

(FZ) Quais eram as suas expectativas e objetivos iniciais? Eles mudaram ao longo do tempo? 

(AP) No começo, eu não acreditava que chegaria num nível onde poderia se tornar lucrativo e profissional. Não imaginava que meu hobbie, que era criar conteúdo, se tornaria meu trabalho e, possivelmente, fonte de renda. Hoje, além de trabalhar com o Narrativa, eu também trabalho para a Carol Moreira (@carolmoreira3), que além de chefe, também é uma grande parceira, fonte de inspiração e apoiadora do meu trabalho.

(FZ) O que você espera do futuro do @narrativafeminina? Quais as metas e objetivos que deseja alcançar?

(AP) Além de transformar em minha fonte de renda, quero criar um canal no YouTube, porque aqueles “textões” que não cabem nos carrosséis dariam ótimos vídeos na plataforma. Também gostaria muito de aumentar a equipe, que por enquanto é formada por mim e pelo meu namorado que é designer e responsável pelas artes do Narrativa… Assim que conseguir ganhar dinheiro com esse trabalho eu, com certeza, quero trazer mais pessoas!

(FZ) Para você, qual a importância de mulheres e pessoas LGBTQIA+ na liderança de projetos cinematográficos e televisivos?

(AP) Basicamente como essas pessoas são representadas. Sabemos que a indústria é dominada por homens cis brancos, que tomam as principais decisões e que comandam tudo, então se não pensarmos em quem consumimos, ou não demonstrarmos interesses em outras perspectivas e narrativas, teremos mais histórias de mulheres e LGBTQIA+ com uma representação ruim, mal feita e distante da realidade. Existe uma diferença clara na representação quando ela tem uma perspectiva feminina, e além de toda essa questão do male gaze, é importante também tirar o domínio cis heteronormativo, que resultou numa indústria cinematográfica misógina, racista… Uma maneira de mudar isso é mostrando para a indústria quais histórias queremos e estamos interessadas em ver, ou seja, apoiando outras narrativas e consumindo mais produções feitas por mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+. 

(FZ) Você citou em seus stories do Instagram durante a semana sobre a sua indignação com a Netflix e a falta de representatividade através do queercoding. Poderia nos contar um pouco mais sobre o assunto?

(AP) Essa nova temporada de “Stranger Things” é um exemplo: as suspeitas sobre a sexualidade do Will já existem há um tempo, mas nunca foram confirmadas. Essas insinuações são chamadas de queerbaiting, pois agradam os públicos LGBTQIA+ e o cis hétero e conservador sem comprometer a série. As pessoas acham que não é queerbaiting porque temos a Robin como personagem lésbica, mas ela não é a protagonista, não é uma das crianças… é aquele tabu de que não se pode falar de sexualidade com crianças, não se pode dizer que o Will é gay mas a Eleven e o Mike estão ali namorando, sabe? Fico tão agoniada com isso.

(FZ) Em “Heartstopper”, a escritora da graphic novel que inspirou a série, Alice Oseman, é também a roteirista da produção da Netflix. Você acha que esse cuidado com a fidelidade da adaptação influenciou no sucesso da série? 

(AP) Acho que sim, com certeza… é muito parecido! Já li os quadrinhos duas vezes antes de ver a série. Não acho que o roteirista da série precise necessariamente ser o autor do livro, até porque nem todo escritor é um bom roteirista e vice-versa, mas a Alice Oseman se mostrou muito boa no que faz. Reforça a necessidade desse cuidado, e se não fosse ela a roteirista, deveria ser algum LGBTQIA+ jovem e que entende dessa vivência. Podemos notar que foi uma pessoa desse mundo que criou, pois há uma fidelidade e respeito na representação, e faz muita diferença quando a pessoa entende sobre o que está falando, e o sucesso da série se deu justamente devido a isso.

(FZ) Quem é sua maior inspiração feminina no ramo do cinema?

(AP) A Greta Gerwig foi a minha primeira inspiração. Hoje em dia eu tenho uma grande admiração pela Céline Sciamma, que é a diretora de “Retrato de uma Jovem em Chamas”, amo tudo que ela faz, já vi todos os filmes. Hoje em dia é minha diretora favorita, e por ser uma mulher lésbica todos os filmes dela tem essa narrativa feminina e queer… acho que hoje ela é uma das minhas principais influências no cinema. Em relação à criação de conteúdo, além da Luísa Pécora de “Mulher no Cinema”, tem também a Carissa Vieira que é uma das poucas que fala sobre esse assunto no YouTube, acho que no Brasil, uma das únicas… 

(FZ) Quais suas expectativas para o futuro do cinema? Você percebe o surgimento de alguma tendência? 

(AP) Esse ano, especificamente, estou vendo uma grande mudança na representação LGBTQIA+. Acredito que está sendo o ano com as melhores narrativas da comunidade, como por exemplo: “Owl House”, “Doctor Who”, “Minha Bandeira é a Morte”, “Heartstopper”, “First Kill”, “Crush”… então estou percebendo que isso está se tornando mais frequente, como é difícil ter uma história com um arco LGBTQIA+ que não fosse dramático, trágico, triste… E hoje em dia é maravilhoso que isso está se tornando algo mais comum, os streamings estão arrasando nesse quesito. 

(FZ) O que você espera da adaptação de Barbie por Greta Gerwig? 

(AP) Olha, eu acreditava que seria uma comédia romântica clichê dos anos 90, 2000, afinal. Mas acharam o Letterboxd da Margot Robbie com os filmes que ela teve que assistir pro papel, sendo um deles “O Show de Truman”, e foi aí que começaram a teorizar de que seria uma distopia… quem sabe vai ser uma mistura dos dois? Só sei que vai ser surpreendente, talvez seja o clichê com mais ficção… Esse filme se tornou o maior mistério de Hollywood, mas é a Greta e o Noah Baumbach, não tem como ser ruim!

(FZ) Entre os lançamentos de filmes e séries que já tivemos esse ano, qual o seu favorito? 

(AP) Com certeza “Heartstopper” e “Minha Bandeira é a Morte” são minhas séries favoritas. E de filme acho que meu preferido é “Fresh”, fiquei muito surpresa… parece muito “Corra”. Foi escrito e dirigido por mulheres, o que faz muito sentido porque é um medo que muitas têm de conhecer um cara perfeito e no fim ele se mostra um psicopata… Nos primeiros 30 minutos do filme parece ser uma comédia romântica e depois vira um terror bizarro.

(FZ) Qual filme você está mais ansiosa para ver nos cinemas ainda esse ano?

(AP) Tem vários, mas o que estou mais ansiosa é “Don’t Worry Darling”, da Olivia Wilde, que também parece ter uma pegada distópica… Uma mistura de “Mulheres Perfeitas” com “O Show de Truman”. Depois de “Booksmart” eu sinto a necessidade de mais filmes feitos pela Olivia. Outro que também estou ansiosa para assistir é “The Woman King”, com a Viola Davis como protagonista, baseado numa história real de uma guerreira africana e um exército feminino do séc XVIII… e a diretora também é ótima, Gina Prince-Bythewood, ela dirigiu “The Old Guard” da Netflix. Acho que são esses dois filmes que estou mais ansiosa para ver.
Você pode conferir mais sobre o trabalho da Ana Paula pelo Instagram @narrativafeminina.

A cultura patriarcal por trás da violência doméstica contra a mulher 

por Livia Mota e Sofia Marchetti

O isolamento social e confinamento aos quais a população brasileira foi submetida nos últimos dois anos por conta da pandemia de Covid-19, promoveu um aumento significativo nos casos de violência doméstica contra a mulher e, consequentemente, nos casos de feminicídio, que é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência do fato de ela ser mulher (misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatores que também podem envolver violência sexual) ou em decorrência de violência doméstica.

A violência doméstica é um fenômeno que não distingue raça, classe social, religião, etnia, gênero, orientação sexual, idade ou grau de escolaridade. Qualquer um pode passar por essa situação. Até mesmo Johnny Depp, ator consagrado e indicado ao Oscar três vezes, denunciou sua ex-namorada de agredi-lo verbalmente e fisicamente na antiga relação. No entanto, na maioria dos casos, as vítimas são mulheres – e essas ocorrências estão diretamente e, na maioria das vezes, ligadas ao feminicídio.

Uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo em agosto de 2021, menos de um ano atrás, mostrou que 85% da população paulistana acredita que tenha aumentado a violência doméstica e familiar contra as mulheres na cidade. Mais de um terço alegou, também, ter presenciado ou ouvido falar de agressões contra mulheres próximo do local onde moram. 

Em contraponto a este fato, segundo um levantamento do G1, as denúncias de casos de feminicídio recebidas pelo Disque Denúncia cresceram 35% em São Paulo durante o mês de março de 2022. Em 2022, foram registradas o total de 57 denúncias contra 42 em março de 2021.

Porém, embora todas as mulheres possam ser alvo e sejam vítimas mais frequentes de casos de violência doméstica, há aquelas que se destacam; e números alarmantes são registrados.

A violência contra a mulher negra

Dentre os círculos mais vulneráveis, estão as mulheres pretas e pardas que se destacam com o maior número de casos. 

Elas representam 55% da população feminina da cidade. Na pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo, é maior a quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas e que afirmam ter presenciado ou ouvido falar de casos de violência contra conhecidas.

Segundo informações do Mapa da Violência 2015, no período entre 2003 e 2013, o número de homicídios de mulheres negras saltou de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos. A maioria das vítimas de crimes violentos são mulheres jovens, pobres e negras. Embora esses dados sejam antigos, ainda se refletem nos dias atuais: segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, 17 milhões de mulheres foram vítimas de alguma forma de violência no Brasil – ao menos é o que afirma a Agência Câmara de Notícias.

Os gráficos a seguir mostram a porcentagem por segmento de sexo, idade e raça, de paulistanos que presenciaram ou souberam de casos de violência doméstica contra mulheres:

Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo
Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo

A deputada Tereza Nelma (PSDB-AL) lembrou, como parte dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que esse tipo de agressão atinge 52% das mulheres pretas, 40% das mulheres pardas e 30% das mulheres brancas. A pandemia, ainda, afetou mais as mulheres negras, que são responsáveis por 61% dos 11 milhões de lares, regidos apenas por um dos pais. “Para além dos índices de violência, as mulheres negras também foram as mais afetadas pelos impactos socioeconômicos da pandemia, com a perda de emprego e renda e a impossibilidade de trabalhar fora de casa.”

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, Dra. Jamila Ferrari, também reforçou a informação. Segundo ela, as denúncias de violência doméstica são maiores entre vítimas negras ou pardas: 

Em uma análise superficial, considerando o público que nós atendemos, acredito que os motivos sejam históricos e sociais. Nós sabemos que a maioria das mulheres negras e pardas ainda vivem em comunidades, favelas e são de uma classe social mais baixa. Não significa que na classe mais alta não haja violência contra a mulher, existe, mas são formas diferentes de pedir ajuda. As mulheres socialmente mais pobres ou com baixa escolaridade só têm a polícia a recorrer. As mulheres de nível social mais alto, muitas vezes procuram outras formas de denúncia”.

A causa cultural

A violência contra a mulher não é um problema exclusivo do Brasil. Ela acontece ao redor do mundo todo e é resultado de uma cultura patriarcal que está intrinsecamente vinculada aos fundamentos da nossa sociedade. Essa cultura existe desde o início da humanidade e é responsável por privilegiar o homem em todos os sentidos e tratar com desigualdade as mulheres, considerando-as de gênero inferior. 

Por isso, durante muito tempo, o ser feminino foi tratado como um objeto, que servia apenas em benefício ao marido e aos filhos. Foi somente em 1970 que se começou a falar de feminismo em termos mundiais. Desde então, existe uma luta pela qual praticamente todas as mulheres participam pela igualdade de direitos. Mas, infelizmente, ainda existem inúmeros comportamentos e ideologias machistas que estão presentes no cotidiano e que são refletidos nos altos números de violência contra a mulher descritos acima. 

O problema é tão profundo, que se inicia na criação das mulheres: ensina que elas são dependentes de um homem, precisam ser ‘’salvas” por ele e construir uma família juntos. Por conta disso, a maioria dos relacionamentos entre homens e mulheres se constroem na ideologia de que o homem precisa “mandar” e a mulher “obedecer”. Não à toa são repletos de discussões e brigas causadas por comportamentos machistas que são praticados inconscientemente pelo homem e, por reflexos de uma criação patriarcal, absorvidos pela mulher como algo comum. 

Não é no início de um relacionamento que se inicia a agressão física. O abuso, muitas vezes, começa a partir de uma agressão verbal e psicológica. A psicóloga clínica, Joceline Conrado, explica que o relacionamento abusivo começa quando o outro começa a ter exigências demais com seu parceiro, ao ponto de praticar uma violência de gênero:

“Excesso de amor, excesso de cuidado, as limitações, comentários como ‘troca essa roupa’, ‘não vai nesse encontro’, são essas imposições que vão demarcando um processo em que o outro quer se apropriar das escolhas do seu parceiro, anulando totalmente a sua subjetividade.”

Crises de ciúmes, camufladas por “eu te amo muito, te quero só para mim” ou tentativas de anular a mulher como “eu te amo tanto, não quero que você trabalhe, vou te dar tudo o que quiser”. Assim, aos poucos, a mulher deixa de ter independência e não consegue ter o direito de ir e vir porque tudo vira briga.  E, em nome do amor, como a ensinaram, ela abre mão das mínimas coisas. 

É nessa hora que o abusador, ao perceber suas demandas aceitas, cria mais liberdade na relação e começa a se expressar de maneira mais autoritária, falando mal da família e amigos da mulher, tirando toda a sua rede de apoio. Junto disso, vem o gashlighting, que significa fazer a mulher acreditar que perdeu o senso crítico. Um claro exemplo é a famosa frase “eu te chamei de gorda, mas estava brincando, você parece uma louca”. Assim, ela vai desacreditando da própria percepção e ficando cada vez mais fragilizada dentro da relação.  

Portanto, são nessas atitudes que surgem os sinais de um relacionamento abusivo e, possivelmente, surge também o início de um ciclo de violência doméstica, descrita pela Jamila Ribeiro como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause à mulher morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico e dano moral ou patrimonial.”. 

Mas, para a mulher perceber que está dentro de um relacionamento, ela tem que passar por um processo difícil, pois existe a dependência financeira, a emocional, a psicológica, algumas vezes existem filhos e outras variáveis que tornam o término mais complicado. 

Joceline ainda explica que existem questões étnico raciais, de classe e de gênero, que dificultam a saída de um relacionamento abusivo e, também, implicam nos traumas que dele virão. 

“Se a gente pegar por exemplo uma perspectiva étnico racial: como é que mulheres pretas vivenciam o afeto? E, dentro de uma relação abusiva, como isso pode traumatizá-las ainda mais a se permitir e se perceber enquanto sujeito digno de ser amado? Existem diferentes traumas que podem implicar na mesma pessoa, inclusive traumas físicos como não conseguir ter outras relações, ter medo de se relacionar, de não confiar, de ter uma fragilidade do laço social com o outro. Essas questões ficam bem demarcadas.”

As consequências da violência contra a mulher são inúmeras. Mas, em geral, a maioria das vítimas são acometidas por quadros de depressão, ansiedade, síndrome do pânico, podendo chegar até ao suicidio. Por isso, é muito importante que elas percebam os sinais de um relacionamento abusivo no início e busquem ajuda, antes dele progredir para a agressão física.

O combate

Precisamos, juntas, diminuir a porcentagem de casos de violência doméstica. Por questões sociais, políticas, educativas, culturais e de proteção social. 

As Delegacias de Defesa da Mulher passaram a existir em 1985 e São Paulo foi o primeiro Estado no Brasil a contar com uma delegacia especializada no atendimento de mulheres vítimas de violência física, moral e sexual. Embora em 1996 as delegacias tenham aberto, também, para casos de violência contra crianças e adolescentes, o cerne é o mesmo: apoiar aqueles em situação de vulnerabilidade e promover a segurança a quem precisa. “Não tenham medo de denunciar. Quando você denuncia, você permite que o Estado esteja de olho nesse agressor, através das medidas protetivas de urgência. Assim, o Estado irá conseguir te proteger efetivamente.”, defende Jamila.

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ainda ressalta que a culpa nunca é da vítima. Caso ela não queira se dirigir diretamente a delegacia, que ela ao menos procure um familiar, uma amiga ou uma assistente social que possa oferecer amparo, “para se sentir forte o suficiente para conseguir registrar esse boletim de ocorrência, pedir medida protetiva e ser, a partir de então, protegida pelo governo.”

Existem leis e programas que, assim como as DDMs, buscam fornecer apoio às mulheres em situação de risco. Jamila afirma que “no Estado de SP, pelo menos, nós temos diversas políticas públicas, tanto voltadas para a assistência social, quanto para saúde, quanto na segurança, que, de alguma forma, surtem efeito.”

A famosa Lei Maria da Penha, por exemplo, instituiu novas formas de reduzir esses tipos de violência de gênero e ainda criou providências que tendem a um atendimento mais rápido. As antigas medidas emergenciais de proteção, como o afastamento do agressor, não eram tão rápidas, porque as mulheres precisavam de um advogado para fazer qualquer pedido ao juiz; mas agora, o próprio delegado manda a solicitação e faz com que todos os trâmites do processo sejam mais rápidos e diretos.

Outro exemplo é o Programa Bem-Me-Quer, desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública em conjunto com a Secretaria da Saúde. O principal objetivo do projeto é dar atendimento a vítimas de estupro, atentado violento ao pudor, sedução ou outros crimes relacionados. São usadas integrações entre polícia, serviço médico, psicológico e jurídico, além de sempre levar a mulher ao Hospital Pérola Byington, o Centro de Referência da Saúde da Mulher.

Dados: Pesquisa “Mulheres” da Rede Nossa São Paulo

Segundo a pesquisa da Rede Nossa São Paulo, as mulheres defendem que a melhor maneira de combater a violência doméstica é o aumento das penas ao criminoso, seguido de uma maior aumento na proporção de mulheres que pedem por um treinamento mais adequado de funcionários, para que possam melhor acolher aquelas que procuram os canais de denúncia.

No entanto, o ideal seria que esses crimes não existissem. Queremos que os números e porcentagens cheguem a zero e, para isso, é necessário voltar a bater em uma tecla que sempre é levantada: a educação.

“A melhor maneira, na minha opinião, para se enfrentar a violência doméstica é a educação. Nós sabemos que políticas públicas salvam vidas, mas quando a política pública existe, normalmente o crime já aconteceu. Então nós precisamos impedir que o crime aconteça e, para impedir que o crime aconteça, nós precisamos modificar paradigmas principalmente com relação ao machismo, ao patriarcado e à ideia de que mulher é um ser inferior ao homem.”, defende Jamila.

Porque O Diabo Veste Prada é um dos melhores filmes do século XXI 

Uma análise intimista sobre o impacto de O Diabo Veste Prada no imaginário cultural e o que faz desse filme uma obra-prima cinematográfica

Baseado no livro de mesmo nome da autora Lauren Weisberger lançado em 2003, O Diabo Veste Prada inova quando ao se tornar uma das poucas exceções da máxima “o livro sempre é melhor que o filme”. Um marco da cultura pop do século XXI, o longa se consagra como um dos melhores filmes já feitos desde, bom… sempre (de acordo com esta que escreve, pelo menos). Constantemente citado nas redes sociais, referência para outros filmes e uma eterna fonte de inspiração, O Diabo Veste Prada foi, e ainda é, a porta de entrada para vários amantes de moda e cinema.

O livro

O ano é 2003. A efervescência da virada do século se reflete na moda, que, cada vez mais rápido, muda com a evolução da tecnologia, o começo das redes sociais e o boom da cultura de celebridades e paparazzi. 

Desde os anos 80 e 90, as personalidades do mundo da moda deixaram de ficar apenas no backstage e começaram a virar celebridades por si só. Designers são cada vez mais reconhecidos e modelos viram quase semideusas, criando uma certa mística sobre suas personalidades: quem são; de onde vieram; o que fazem; com quem fazem e onde fazem? Esse ambiente foi muito propício para a virada cultural do século XXI, onde celebridades não precisavam mais ser dotadas de beleza e/ou talento.

Com a glorificação e o mistério de conhecer quem são as pessoas mais poderosas da moda, aliado ao sempre crescente império da Vogue Americana, outra celebridade havia nascido, quisesse ela ou não Anna Wintour, editora-chefe da revista norte-americana desde 1988 até os dias atuais, ascendeu à posição de Mulher Mais Poderosa na Moda e todos os holofotes se voltaram para ela.

Com sua aparência intrigante (o bob que nunca muda, os óculos escuros) e sua personalidade reservada, Wintour facilmente tornou-se alvo de fofocas e capas de revista. Quem é essa mulher que mexe todos os pauzinhos na revista mais influente do mundo? É fácil imaginar e tentar se colocar nos pés de alguém tão poderoso e aparentemente inalcançável.

É nesse cenário que O Diabo Veste Prada, o livro, nasce. Lauren Weisberger, recém-formada em jornalismo pela Cornell (também Ivy League, como a Brown, universidade que Andy estudou no livro), trabalha como assistente da editora-chefe mais amedrontadora de todas: Anna Wintour. Meio ficção, meio crítica, O Diabo Veste Prada é uma espiada nos bastidores da revista mais badalada do mundo e uma crítica venenosa sobre os membros dessa elite nova-iorquina. 

Weisberger é perspicaz ao perceber que suas experiências poderiam se tornar um best-seller e transforma tudo isso em nada mais, nada menos, do que um dos livros mais icônicos dos anos 2000. É impossível não ter curiosidade sobre o backstage de uma das indústrias mais lucrativas do mundo, que, decorada com modelos lindas, roupas fabulosas e os eventos mais comentados do ano, mascara péssimas condições trabalhistas, chefes abusivos e jogos de poder.

Dotado de uma ótima escrita e de um humor afiado, O Diabo Veste Prada é um must-read para apaixonados por uma boa fofoca, moda e cultura pop.

Tudo isso, pretensiosamente ou não, torna-se praticamente irresistível à uma adaptação nos cinemas. Três anos depois, o filme baseado no livro estreou. 

O que faz um filme brilhante

Na Frenezi, sempre batemos na tecla da importância de uma boa equipe para que o filme seja bem sucedido. Em O Diabo Veste Prada, isso é feito com a maior das maestrias. Do diretor à figurinista, do elenco ao editor: o longa é um exemplo de todas as partes trabalhando em sintonia a fim de criar não só um ótimo filme, mas se arriscar a ser um filme perfeito. Deve-se levar em consideração a opinião parcial da autora desse texto -amante do cinema e estudante de moda-, mas não é grande esforço meu te convencer que, apesar de ser grandemente subestimado como apenas mais um chick flick, O Diabo Veste Prada é, sim, um filme excepcional e que alcança sucesso em todas as categorias importantes para se destacar na minha lista de melhores filmes da história.

O roteiro

Dez páginas. Se em dez páginas você entendeu sobre o que é o filme, então é um bom roteiro. É exatamente isso que O Diabo Veste Prada faz. 

Em dez minutos você sabe quem é Andrea Sachs (Anne Hathaway), entende que ela não liga para moda e que é recém-formada em jornalismo. Conhecemos Emily Carlton (Emily Blunt), a coadjuvante, que é o total oposto de Andy. Nessa hora também somos apresentados à revista Runway, casa de metade do filme, e a Nigel (Stanley Tucci), a força contrária de Miranda, um personagem levemente baseado no eterno André Leon Talley. A vilã é Miranda Priestly (Meryl Streep): fria, rude e impossível de agradar. Essa é a grande narrativa do filme todo: Andy conseguiria ser aceita e respeitada por Miranda?

Uma falha em muitos filmes da época que O Diabo Veste Prada não comete é a falta de aprofundamento de personagens femininas.

Todas, até Emily, são facilmente assimiladas pelo público e suas motivações são sempre claras e justificadas. Um ótimo exemplo disso é a cena em que Andy encontra Miranda em seu quarto de hotel, em Paris. A Miranda do filme é muito mais humana, e é aqui onde percebemos isso. Com um toque da própria Meryl Streep, vemos a tão temida megera finalmente vulnerável, sem maquiagem, se abrindo com Andy. Não temos outra chance senão de nos compadecer com Miranda, pois, como audiência feminina ( na grande maioria), entendemos as dificuldades de obter sucesso em um mundo onde mulheres podem ter ambição, mas nunca mais que os homens. Mulheres poderosas são vistas como monstros quando homens são parabenizados pelas mesmas atitudes.

Essa genialidade é toda da roteirista Aline Brosch McKenna (e claro, também de Weisberger), rainha dos comfort movies como Vestida Para Casar, Compramos um Zoológico e Crazy Ex-Girlfriend. Eu friso aqui a importância de McKenna porque, apesar de ser um ótimo livro, de alguma forma o filme consegue ser melhor. Talvez seja a indulgência visual que o longa oferece, mas o roteiro é, de verdade, excepcional. Apesar de conter vários momentos de improvisação, grande parte do roteiro foi seguido e mesmo assim permaneceu natural, esperto e engraçado. Frases como Flowers? For spring? Groundbreaking; You eat carbs for chrissake!; Can you please spell Gabbana?, e obviamente o monólogo do suéter cerúleo são icônicos e citados até os dias de hoje.

Não é cansativo, te mantém engajado e respeita o tom da autora original. Essa seção é uma salva de palmas para Aline Brosch McKenna!

O figurino

O Oscar de Melhor Figurino de 2007 foi uma das disputas mais acirradas. Maria Antonieta (2006) é um filme incrível e um dos favoritos da Editoria de Cinema & Tv da Frenezi. A modernização do figurino de época foi extremamente bem feita por Milena Canonero, que nos poupou da previsibilidade de mais um filme histórico que não oferece nada visualmente. Dreamgirls (2006), estrelado por Beyoncé e Jennifer Hudson, também foi um ótimo filme, mas, de novo: mais um figurino histórico.

O que talvez muitas pessoas da Academia não entendem é que, apesar de grandes vestidos bufantes e perucas super trabalhadas serem, sim, incríveis, a dificuldade de construir um figurino contemporâneo que consiga representar a história, ao mesmo passo que sobreviver ao teste do tempo, é muito maior.

É nesse aspecto que Patricia Field deveria ter mais reconhecimento. Sim, Sex And The City – um outro brilhante trabalho da figurinista – foi um marco geracional, mas O Diabo Veste Prada alcança algo que SATC não consegue: o bom envelhecimento da moda da época. Em entrevista para a Harpers Bazaar em 2016, Patricia disse: “Eu acho que atemporalidade é um fator muito importante em tudo o que eu faço. É isso que faz um clássico. É óbvio o que é atemporal e o que não é, mas você precisa de tempo para achar essa resposta.” 

Field dá a impressão de, muitas vezes, tentar demais ser vanguarda e fora do normal nos figurinos da famosa série da HBO. Muitos looks de Carrie são completamente sem sentido, tanto para a narrativa quanto para a personagem. Mas, no longa de 2006, ela abaixa o tom, traz um toque de realidade e demonstra o crescimento das personagens de forma mais limpa, clara e primorosa. “Eu amo fazer moda. Eu sempre coloco a moda em todo o meu storytelling porque é quem eu sou, mas eu não estou vendendo roupas, estou contando uma história”, disse Field.

Eu poderia ficar horas e horas apontando o porquê de o figurino desse filme ser  genial, e com certeza, se você já conversou cinco minutos comigo, sabe minha fixação com absolutamente todos os looks. Vamos analisar o figurino de cada personagem e o que faz de Patricia Field uma das melhores figurinistas da geração dela (vamos deixar de lado Emily em Paris, em respeito aos olhos da audiência).

Andrea Sachs

Ah Andy, o patinho feio. Podem tentar discutir, mas ela é a pick-me girl original. Nos primeiros minutos do filme já vimos como ela é diferente das outras, como ela não liga para todas-as-coisas-femininas. Brilhantismo da roteirista? Sim. Ali já entendemos quem é Andy por completo.

Desde o começo ela demonstra desdém pelo mundo da moda, pois acha que é tudo muito superficial (alô, monólogo do suéter cerúleo, vamos chegar lá!). Os mocassins horrorosos, que ironicamente estão muito em alta, e as roupas que não fazem absolutamente nada para valorizar o corpo de Anne Hathaway, representam quem ela é naquele momento: crua e ignorante.

O momento do suéter cerúleo é, na minha opinião, a parte mais brilhante do filme todo. Aqui é o turning point da transformação de Andy, aqui ela entende a importância da indústria da moda.

“[…] esse azul representa milhões de dólares de incontáveis empregos e é quase cômico como você acha que fez uma escolha que te isenta da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi escolhido para você pelas pessoas nessa sala… de uma pilha de ‘coisas’.’’

Depois de vários outros suéteres feios, Andy falha em uma tarefa de Miranda. Procurando consolo em Nigel, que, educadamente, lhe põe no devido lugar quando fala que ela não está levando a sério o trabalho que milhões de garotas matariam para ter, ela percebe que deve mudar. Então chega a parte mais divertida do filme: a transformação. 

Andy abandona as saias medonhas, joga fora o mocassim e aposenta os suéteres desleixados. Com um bom banho de Chanel, agora a silhueta muda para algo mais liso e reto, linhas verticais e um entendimento do corpo de Hathaway. É possível perceber uma mistura do estilo das outras personagens, as cores escuras, texturas de Emily e as golas e vibe preppy de Miranda. Vemos ela experimentar com texturas e acessórios, até chegar a escolher suas próprias roupas em Paris. Quando ela se gaba para Nigel de ter ido do tamanho 40 para o 38: esse é o fim da transformação de Andy em uma das clackers que ela tanto criticava no começo do filme. Um mix de elegância e peças refinadas, a nova Andy é muito chique e totalmente diferente de quem costumava ser. Em Paris, seu estilo chega muito perto do de Miranda, com como por exemplo, o decote dos vestidos que elas usam antes de Andy se demitir (parte que, no livro, é muito mais divertida).

O que mais me aquece o coração é o último look do filme, que representa quem ela é de verdade. Mostra como ela aprendeu com Nigel, Miranda e Emily mas continuou fiel à sua essência. É uma Andy casual, prática e ainda bem arrumada. Não sente mais a necessidade de saltos de dez, mas mantém o bom corte de cabelo e as roupas que lhe servem. A transformação está completa.

Emily Charlton

A melhor personagem do filme inteirinho é Emily. Trabalhadora, determinada, irônica, a fashionista que amamos odiar. Ela leva seu trabalho muito a sério e não deixa ninguém interferir nos seus planos. Emily e Nigel são os mais engraçados do filme todo, pois mesmo com os estereótipos, são uma representação fiel das pessoas de moda. 

Sua personalidade fria e distante é demonstrada em sua paleta de cores: pretos, cinzas e tons escuros. Emily não é só mais uma clacker, ela é mais avant-garde. As escolhas de peças não são óbvias e mostram seu lado mais arrojado, com silhuetas interessantes e linhas afiadas. Vivienne Westwood e Rick Owens estão presentes no seu guarda-roupa, marcas que, na época, eram mais desconhecidas. Os toques de cor vem nas suas maquiagens (sou obcecada pelas sombras que ela usa) e, obviamente, seu cabelo vermelho brilhante, demonstrando sua personalidade forte. 

Ao contrário de Andy, ela não passa por uma transição de estilos pois ela sabe quem é e onde quer chegar. Patricia Field contou para a Bazaar: “[Emily Blunt] foi a atriz com quem eu pude ser um pouco mais expressiva. Eu podia arriscar, ter liberdades, porque ela conseguiria segurar isso dentro do jeito que ela interpretou a personagem. Ela interpretou com ousadia e expressão, então eu juntei isso com o figurino.”.

Miranda Priestly

Miranda é o suprassumo da classe e elegância. Ao conhecer Meryl Streep pessoalmente, Patricia pensou imediatamente em Donna Karan. “Eu fui para os arquivos de Donna Karan, porque quando ela começou nos anos 1980 e 90, suas silhuetas eram clássicas, atemporais, vestiam bem as mulheres e não eram complicadas.”.

A ideia era criar um guarda-roupa para Miranda que não refletisse as tendências da época e, dessa forma, parecesse já ser seu estilo próprio. Para criar a aparência de uma editora-chefe poderosa, Patricia evitou propositalmente fazer a conexão com Anna Wintour. Ela queria criar algo novo, que não tivesse sido feito antes. Junto de Meryl e seu hair stylist, o penteado totalmente branco de Miranda nasceu, parcialmente inspirado pela ex-editora da Harper ‘s Bazaar, Liz Tilberis.

Miranda é clássica, mas também um pouco sexy. Era importante para Streep e Field mostrar esse lado poderoso em mulheres mais velhas. A única vez que vemos Miranda com um look simples é em Paris, quando seu marido pede o divórcio e ela se abre com Andy, mostrando vulnerabilidade.

Os fabulosos casacos de pele, os terninhos, bolsas, óculos escuros e cintos foram todos um mix de Donna Karan, com toques de Valentino e, claro, Prada. 

Field conseguiu dar personalidade a uma das personagens mais memoráveis da cultura pop, fazendo você não só temê-la, mas também desejar ser ela.

O elenco

Boa parte do sucesso de O Diabo Veste Prada veio pelo alto calibre do elenco. Obviamente, quando se tem Meryl Streep a bordo, as coisas vêm muito mais facilmente. 

Anne Hathaway ainda estava no começo da carreira, tendo deixado a Disney depois de O Diário da Princesa, e obteve elogios em seu papel coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain. Era o seu primeiro filme “sério” como protagonista. Emily Blunt também teve sua estreia em um filme mais reconhecido internacionalmente, impressionando a todos.

Stanley Tucci não precisava de introduções… ator versátil, engraçado e perfeitamente perfeito. Todo filme é um bom filme se tem Stanley Tucci no elenco (amo ele em A Mentira).

Meryl Streep conquistou mais uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, e todo o resto do elenco continuou a ter uma carreira longa e bem sucedida. Apesar de amar todas as atuações, nenhuma delas acima citada é a minha parte preferida do filme. Como falar da genialidade de trazer Gisele Bündchen para fazer uma pontinha?

Faz todo o sentido trazer a melhor e mais famosa modelo do mundo, no melhor e maior filme de moda da história. É engraçado porque Gisele é citada no livro, na parte em que Andy vai para o Met Gala. Ela diz que a Gisele não é tão bonita assim pessoalmente, e adoro a ironia do diretor David Frankel em trazer ela como um membro da Runway. Na verdade, a ideia veio da roteirista Aline, que encontrou Gisele em um voo. A über disse que só participaria se ela não interpretasse uma modelo.

Personalidade intrínseca à moda dos anos 2000, Gisele como Serena não só traz aquele momento de ‘ei! eu conheço ela!’, mas também mostra como em sintonia estavam as pessoas que fizeram o filme com o who is who do mundo da moda.

Outras menções honrosas são Heidi Klum e, claro: Valentino Garavani. Wendy Finerman, a produtora do longa, foi quem conseguiu a aparição do designer. Acerca do medo de muitas pessoas de participar do filme e irritar Anna Wintour, Wendy disse: “Ele tomou uma posição, alguém ia se manifestar e nos apoiar, e isso foi ótimo porque ter Valentino nos deu credibilidade. Ele é um ícone.”. 

A música

Sim, chegou a hora de falarmos da cena de abertura.

O poder que essa sequência tem sobre mim não é normal. Toda vez que eu me arrumo para sair, Suddenly I See da KT Tunstall toca automaticamente na minha cabeça. Julia Michels é a responsável pela supervisão de música de O Diabo Veste Prada e muitos outros filmes como Pitch Perfect (2012) e Nasce Uma Estrela (2018).

Músicas de Madonna, U2, Alanis Morissette e outros artistas incríveis, trazem um toque especial ao filme. Um destaque também para Theodore Shapiro, que compôs a música original do filme, tão icônica quanto às acima citadas.

O legado e o futuro

Dezesseis anos depois, O Diabo Veste Prada se mantém relevante e permanece no topo dos filmes mais amados do século. Um perfeito exemplo de excelência, o longa conquistou um público que excede as barreiras de idade e gênero, sendo apreciado por todos os tipos de telespectadores. 

Após se tornar um ícone da cultura pop, ele ascendeu ao status de obra-prima. É possível para cada pessoa se identificar com alguma parte do filme. Em entrevista à Teen Vogue, Lauren Weisberger disse: “Na final das contas, é sobre uma garota recém-formada da universidade que não só tem o seu primeiro emprego depois da faculdade, mas também uma chefe terrível. É algo que eu ouvi várias e várias vezes de jovens mulheres pelo país todo. Nem sempre se parecia com Miranda Priestly, e nem sempre era na indústria da moda, mas todo mundo teve essa experiência. Pareceu universal.”

O filme não mudou só as nossas vidas, como também o mundo da moda afora. Abriu espaço para mais pessoas desabafarem sobre as péssimas condições de trabalho, abusos e bullying. Anna Wintour até citou o filme no documentário da Vogue The September Issue

Anna também foi em grande parte impactada pelo filme, sempre usando isso a seu favor. Na reunião do elenco em 2021, a roteirista Aline contou para a Entertainment Weekly que Wintour estava presente nas primeiras screenings de O Diabo Veste Prada. “Ela sentou bem na minha frente e do David Frankel com a filha dela e vestiu Prada, o que mostra que ela tem um grande senso de humor!”.

E o legado de Lauren Weisberger não para por aí. Esse ano mesmo, o musical baseado no livro e filme estreia na Broadway, com músicas compostas por ninguém mais, ninguém menos, que Sir Elton John. “É tão legal que ainda seja relevante, que ainda se mantenha”, disse Lauren para o Independent.

A previsão é de que esse legado continue a se expandir, pois, assim como o figurino, o filme é eterno e continuará sendo citado pelos anos seguintes. Sei que ainda vou recorrer a ele em dias que preciso de um comfort movie ou de apenas uma inspiração. O Diabo Veste Prada é um exemplo do poder dos filmes em nos acompanhar pela vida, e ser parte intrínseca dela.

Você pode rever O Diabo Veste Prada no Star+

Rússia invade a Ucrânia nesta madrugada: entenda o que esta acontecendo no país e no mundo

Na madrugada desta quinta-feira (24), Putin (presidente da Rússia) ordenou o  ataque aéreo, terrestre e marítimo ao leste da Ucrânia. Os russos invadiram diversas regiões, incluindo a capital Kiev e Kharkov – maior cidade do país depois da capital – com mísseis e bombas.

Após a Ucrânia decretar que a invasão é ‘total’, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, informou que pelo menos 800 soldados russos foram mortos em combate. Outrora foi divulgado que cerca de 137 ucranianos também foram mortos e 169 pessoas foram feridas — incluindo feridos de combate e não-combatentes.

Visando a segurança dos civis, Volodymyr autorizou a distribuição de armas aos cidadãos, adotou a lei marcial (quando leis militares substituem as leis civis comuns) e o toque de recolher na capital ucraniana. Além disso, o presidente ainda pediu doações de sangue.

Nesta manhã, foi registrada a corrida dos ucranianos para armazenar mantimentos e até mesmo para sair do país. Em Kiev, as principais rodovias, estações de ônibus, trens e metrô encontram-se totalmente congestionadas.

Foto: Emílio Morenatti / AP Photo

Pelo menos duas explosões foram ouvidas no centro da capital antes das sirenes de alerta a bombardeios ressoarem. Os moradores correram para as estações subterrâneas de trem mais próximas em busca de abrigo.

Foto: Emilio Morenatti / AP Photo

Outras explosões também foram ouvidas na cidade portuária de Mariupol, assim como em Odessa, no Mar Negro, e em Kharkov – perto da fronteira com a Rússia.

Fugindo da invasão russa, muitos ucranianos seguem em direção a Polônia e outros países da Europa Central já iniciaram os preparativos para receber os refugiados. Em contrapartida, a Bélgica pediu à União Europeia o veto na emissão de vistos para os russos. 

A Eslováquia vai enviar 1,5 mil militares para a fronteira com a Ucrânia para ajudar os refugiados. O país também vai aumentar o volume de passagens pela fronteira, segundo veículos da imprensa local. 

A OCUPAÇÃO DE CHERNOBYL:

A usina nuclear de Chernobyl — local do acidente nuclear acontecido em 1986 — foi tomada pelos militares russos, de acordo com o conselheiro do gabinete presidencial da Ucrânia, Mykhailo Podolyak.

As autoridades ucranianas ainda relatam combates perto do depósito de resíduos nucleares da central de Chernobyl.

“As forças de ocupação russas estão tentando capturar Chernobyl. Nossos defensores estão dando suas vidas para que a tragédia de 1986 não se repita”, twittou Zelensky. “Esta é uma declaração de guerra contra toda a Europa”

OTAN:

A OTAN — Organização do Tratado do Atlântico Norte — afirmou em comunicado que está com o povo da Ucrânia e está tomando todas medidas necessárias para garantir a segurança e defesa de todos os aliados.

Apesar da Ucrânia não ser membro da organização, ela é considerada um país parceiro que poderia vir, em algum momento, a fazer parte. Entretanto, a Rússia se opõe a essa entrada.

“Pedimos que a Rússia cesse imediatamente sua ação militar e retire todas as suas forças da Ucrânia e arredores, respeitando plenamente o direito internacional humanitário e permitindo o acesso humanitário seguro e assistência a todas as pessoas necessitadas”, diz o comunicado lido pelo presidente da aliança, Jens Stoltenberg.

Apesar desse discurso, Jen Stoltenberg explicou que os 100 aviões de guerra que foram colocados em alerta não devem entrar no território ucraniano já que o país  não é um membro da organização. Entretanto, contou que as tropas da OTAN serão reforçadas em países do leste que fazem parte da organização, como Albânia, Bulgária, Croácia, República Tcheca, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Montenegro, Macedônia do Norte, Polônia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia.

PUTIN CONTRA A EXPANSÃO:

Putin considera inaceitável a filiação da Ucrânia à aliança militar comandada pelos Estados Unidos e exigiu que a OTAN interrompa sua expansão em direção ao leste.

De acordo com o presidente, a Rússia se viu em um momento sem escolhas a não ser se defender contra o que ele classificou como ameaça da Ucrânia.

“Quem tentar interferir, ou ainda mais, criar ameaças para o nosso país e nosso povo, deve saber que a resposta da Rússia será imediata e levará as consequências como nunca antes experimentado na história”, ameaçou Putin.

Ainda, Putin afirmou que a responsabilidade pela guerra e suas consequências são da Ucrânia.

O DISCURSO EMOTIVO DE VOLODYMYR ZELENSKY:

Em um discurso divulgado em vídeo e dirigido aos cidadãos russos, o presidente da Ucrânia confirmou o ataque da Rússia ao seu país e fez um apelo a todos.

“Quero me dirigir a todos os cidadãos russos. Não como presidente. Dirijo-me aos cidadãos russos como cidadão da Ucrânia”, disse Zelensky, falando em russo. “Existem mais de 2000 km de fronteira comum entre nós. Seu exército está ao longo dessa fronteira agora. Quase 200 soldados. Milhares de veículos militares. Sua liderança aprovou que eles dessem um passo adiante, para o território de outro país”, afirma.

“Estão dizendo a vocês que somos nazistas. Como pode uma nação que deu 8 milhões de vidas para combater o nazismo apoiá-lo? Como posso ser nazista? Conte ao meu avô sobre isso”, disse Zelensky. “Ele esteve, durante toda a guerra, na infantaria do exército soviético e morreu como coronel na Ucrânia independente.”

“Estão dizendo a vocês que odiamos a cultura russa? Como alguém pode odiar a cultura? Alguma cultura? Os vizinhos sempre se enriquecem culturalmente, mas isso não os torna um, não nos dissolve em vocês”, disse o presidente ucraniano. “Nós somos diferentes. Mas não é motivo para sermos inimigos.”

A REAÇÃO INTERNACIONAL:

Segundo Josep Borrell, o mais alto diplomata da União Europeia, “a Europa vive o momento mais sombrio desde o fim da segunda guerra mundial” e chamou a atitude russa de inaceitável e intolerável.

Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, também mostrou sua insatisfação com a invasão da Rússia.

“O presidente Putin escolheu uma guerra premeditada que trará uma perda catastrófica de vidas e sofrimento humano. A Rússia sozinha é responsável pela morte e destruição que este ataque trará, e os Estados Unidos e seus aliados e parceiros responderão de forma unida e decisiva. O mundo responsabilizará a Rússia”, disse Biden.

Outros líderes mundiais, como Boris Johnson (Reino Unido), Emmanuel Macron (França) e Olaf Scholz (Alemanha), também condenaram os ataques.

BRASILEIROS NA UCRÂNIA E A NEUTRALIDADE EM RELAÇÃO A CONDENAÇÃO DA RÚSSIA:

A Embaixada em Kiev recomenda que os brasileiros saiam da Ucrânia. Ainda, pedem para àqueles que puderem se desloquem por meios próprios para outros países.

Para os que vivem ao leste do país e que não conseguem viajar por meios próprios a orientação é se deslocar para Kiev e contatar a embaixada pelo plantão consular +380 50 384 5484. Já aos que residem em Kiev, a orientação é não sair, por conta dos grandes engarrafamentos, e aguardar novas orientações.

Foto – Reprodução

Até o momento, o Brasil vem optando por não condenar explicitamente as ameaças de invasão russa na Ucrânia. Entretanto, com o estopim do ataque, o governo brasileiro discute internamente abandonar a posição de neutralidade e passar a condenar as ações da Rússia na Ucrânia.

Como será o final do ano para os brasileiros que perderam entes queridos para a Covid-19?

Ninguém sabe a resposta. Aliás, parte da “naturalização” dos mais de 600.000 mortos pela doença, são mais que um gatilho para a população, ainda mais para aqueles que perderam amigos e família.

O caloroso retorno das atividades presenciais — o famoso “novo normal”, não aquece o suficiente os corações dos familiares das vítimas. A estudante de psicologia, Julia Bonomo, destrincha este processo e diz que, primeiramente, é preciso que o luto seja vivido e não reprimido.

“Não é saudável esconder certos tipos de sentimentos, eles precisam ser externados, além disso, o luto é um processo necessário que aflora o amadurecimento e autoconhecimento. A psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer” de 1969, descreve cinco estágios do luto, são eles:

1o – negação
2o – raiva.
3o – barganha
4o – depressão
5o – aceitação”

Julia ainda ressalta: “Apesar de cada indivíduo ter seu tempo de viver o luto, ele tem inicio meio e fim, se o processo da depressão se prolongar e não chegar o estágio da aceitação ou houver muita dificuldade de se adaptar a nova realidade é importante buscar ajuda psicológica. Esse estado é chamado luto patológico, ele ignora todas as etapas que necessitam ser vividas, nele o processo de luto não termina e isso acaba interferindo negativamente na vida e nas atividades diárias da pessoa.”

Para Butler, as diferentes formas de viver o luto também demonstram as desigualdades sociais — enquanto algumas pessoas têm amplo direito de serem enlutadas, outras não o têm e, por isso, as suas mortes seriam mais naturalizadas.

É possível pensar que a morte de uma pessoa não é somente um acontecimento clínico, mas também algo que diz respeito à política e à ética, já que o modo de tratar essas perdas varia a depender de quem morreu, diz Carla Rodrigues, professora de Filosofia na UFRJ ao Estadão.

O luto no contexto da Covid ainda traz uma peculiaridade que, para a mesma, se assemelha à de uma situação de guerra. A experiência de perder sucessivamente um ou diversos entes queridos, como aconteceu com algumas famílias, gera situações muito específicas e diferentes do normal.

Luiz Carlos Azedo, jornalista do Correio Braziliense, em sua coluna relata que, o luto ocorre porque a perda física do ente querido não elimina o afeto. É uma ausência de difícil aceitação no tempo em que ocorre, porque o amor sobrevive. Isso gera uma negação, que se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes, como fuga da realidade; num segundo momento, vem a revolta, muitas vezes inconsciente e inexplicável. Leva tempo para que as pessoas superem a depressão subsequentemente e aceitem a perda, para que a vida plena se restabeleça. Mas não existe esquecimento. Aceitar não é deixar de sentir. O luto se torna um marco na vida pessoal. A resiliência diante da morte também gera simpatia ou engajamento em movimentos que sejam antítese da sua causa. Na pandemia, a naturalização das mortes pode ser também uma fase de um luto coletivo. Muito mais amplo e profundo.

A entrevistada, Julia Bonomo, sugere algumas maneiras saudáveis de lidar com o luto.
• Não se cobre pelo tempo tirado para viver o luto, dê tempo a si mesmo
• Ignorar a dor pode trazer consequências piores no futuro, portanto não menospreze
seus sentimentos
• Se ocasionalmente você se sentir confortável, passe seu tempo com amigos e familiares, caso contrário, não há problema em se distanciar um pouco e garantir sua privacidade. Mas nunca deixe, mesmo que aos poucos, de tentar voltar a rotina, procure hobbies novos, se exercite e ocupe sua mente com coisas que goste.

Na pandemia, a AVICO Brasil foi criada, para dar apoio emocional às pessoas que ainda
não conseguem sair do luto.

“Alguns desejam apenas compartilhar a dor enquanto outros pedem apoio para lutar judicialmente por direitos — seja porque perderam seus empregos após curar-se da doença, por não conseguirem provar suas sequelas para alcançar uma licença pelo INSS ou porque perderam parentes que eram as principais fontes de renda e que agora correm até risco de despejo por não conseguirem pagar o financiamento de casa”, diz Paola, assistente social em entrevista ao El País.

“A associação foi fundada em 08 de abril de 2021, na cidade de Porto Alegre/RS, a partir da indignação de dois defensores dos Direitos Humanos, Gustavo Bernardes e Paola Falceta, com a ineficiência e negligência do Estado diante das múltiplas consequências da pandemia de covid-19 na vida dos brasileiros.

Promover debates e discussões sobre o enfrentamento à pandemia da Covid-19 e suas consequências físicas e emocionais; Promover e defender a saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS); Promover e defender a Política Nacional de Imunização (PNI); Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de ações de enfrentamento a Covid-19; Promover o apoio jurídico e psicossocial para as vítimas (sobreviventes) e familiares de vítimas da Covid-19, através dos grupos de apoio”, segundo a história da empresa, disponível no site.

Por fim, para Mariel Corrêa de Oliveira, os atravessamentos causados pela pandemia podem implicar diretamente nos mediadores do luto podendo interferir de forma negativa nas tarefas do mesmo, trazendo assim implicações para a saúde mental dos indivíduos enlutados e a atenção primária à saúde, por sua atuação territorial, bem como por suas características essenciais de acesso aberto e cuidado longitudinal. Considerando que nesse
contexto aumentam suas possibilidades, entendendo esse luto como um processo mais intenso e duradouro, pois “em pandemia temos o processo de luto sofrendo atravessamentos, com desdobramentos que potencializam o risco de agravar os sofrimentos psíquicos individuais e coletivos” (Fiocruz, 2020, p.2).

[…] Entender que todos estamos vivenciando um luto coletivo e como podemos agir com respeito aos nossos próprios sentimentos e com a dor do outro é de extrema importância para que possamos enfrentar melhor o sofrimento que a pandemia vem produzindo, como o luto abordado neste ensaio.

O Perigo do cigarro eletrônico e sua popularização entre os jovens

A origem do ato de fumar sempre foi controversa. Alguns dos registros mais antigos são durante a colonização europeia do continente americano, quando as pessoas nativas utilizavam o tabaco em alguns rituais religiosos e fumavam em tubos de cana ou cascas de milho. Não é uma prática recente, mas foi muito popularizada a partir do século XX.

O clássico cigarro com filtro de papel surgiu na década de 50, e teve uma segunda onda nos anos 70. A indústria tabagista sempre soube dos malefícios desse hábito, de acordo com Garattoni. Já o cigarro eletrônico foi inventado por Hon Lik em 2003 , que presenciou a morte do pai por câncer de pulmão – após fumar por anos. Lik quis propor uma opção menos perigosa para a nicotina. O boom dos cigarros eletrônicos tomou conta dos últimos sete anos e está começando a preocupar as agências de saúde públicas. 

A Propaganda diz: “Mais Doutores fumam Camels do que qualquer outro cigarro” (Imagem: Reprodução).

Por que é uma preocupação? Simples. No começo da explosão do uso dos cigarros com filtro, as indústrias vendiam a ideia de fumar e do cigarro como algo positivo, para desse modo combater alguns “rumores” de que poderiam, sim, ser prejudiciais. As embalagens eram bonitas, as propagandas eram bem pensadas e, como o uso por tantas pessoas era algo novo, era bem fácil enganar a grande massa ao dizer que não havia malefícios e que era até recomendado por médicos.

Hoje em dia, as pessoas sabem que fumar faz mal para a saúde e pode trazer inúmeras doenças. Após muitos casos problemáticos e mortes, as advertências começaram a fazer parte dos maços, e com mensagens bem chocantes e graves.

Mas e o cigarro eletrônico? Ele faz mal para saúde? 

Juul, um dos primeiros cigarros eletrônicos a ser popularizado entre os jovens. (Imagem: Reprodução)

Muitas pessoas “transacionaram” para o famoso vape com a intenção de minimizar os danos e diminuir o vício no tabaco já que possuem menos substâncias tóxicas que o cigarro comum, o que causou o aumento extremo do uso deles. Os estudos recentes que demonstram o fato dos cigarros eletrônicos não serem tão perigosos para a saúde foram financiados pela própria indústria tabagista, de acordo com a matéria da revista Galileu. Isso é o primeiro alerta. Em segundo, o uso entre jovens e adolescentes está tão grande que os primeiros casos de saúde já foram registrados –  vestígios de acetato de vitamina E foram encontrados no pulmão de alguns pacientes (óleo utilizado no e-cigarette). 
A propaganda sobre os vapes são positivas, e há grande crença popular de que não são nocivos. Isso é perigoso, como já visto na própria história dos cigarros com filtro de papel. Afinal, a embalagem é bonita e muito chamativa e não há tantas contra indicações. A quantidade de jovens e adolescentes que estão aderindo à nicotina disfarçada em diferentes cheiros e sabores (menta, chocolate, baunilha, melancia, entre outros) por acreditar que não seja tão prejudicial é problemática. É importante lembrar que a nicotina sempre será viciante, já que libera neurotransmissores de hormônios “felizes”.

Propaganda da marca de cigarros eletrônicos ‘Juul’, focada no público jovem. (Imagem: Reprodução).

A revista Galileu enfatiza: “E não pense que o maior risco é apenas o vício. A nicotina também reduz o calibre dos vasos (dificultando a passagem do sangue), facilita a formação de trombos, altera o metabolismo do colesterol, aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial. Mais: apesar de não ser uma substância cancerígena por si só, ela pode contribuir com a evolução de tumores já em formação.” Daqui uns anos, muitos desses efeitos provavelmente farão parte da saúde de muitas pessoas dessa geração, o que é preocupante.

Por fim, apesar de ser impossível impedir alguém de fumar (seja cigarro de papel ou o eletrônico) é fundamental que todas as cartas estejam na mesa, para que a pessoa já tenha completa consciência do que está realmente fazendo. Fumar faz mal, sempre fez mal e sempre fará mal.

Métodos contraceptivos: Entenda o que são e como escolher o seu!

Métodos contraceptivos e anticoncepcionais são conceitos simples e comuns atualmente. Não é muito difícil encontrar e utilizar, já que a sociedade atual compreende (parcialmente) a sua necessidade e importância. De qualquer maneira, ainda há muita mistificação e desinformação sobre eles, e é fundamental ter conhecimento sobre algo que afeta a saúde e a vida de inúmeras pessoas. A Dra. Karenina Duarte foi entrevistada pela Frenezi e respondeu algumas perguntas comuns, mas que nem sempre são acessíveis para todos. 

A falta de conhecimento sobre anticoncepcionais é derivada do tabu que envolve o sexo e toda a saúde do corpo feminino. Nem os efeitos colaterais, que com certeza poderiam ser diminuídos com o tremendo avanço da tecnologia, são prioridade na discussão de contraceptivos – e a Dra. Duarte dá um adendo sobre alguns deles possíveis. “Os métodos contraceptivos hormonais têm alguns efeitos colaterais que as pacientes podem apresentar, como: a cefaleia, a mastalgia. Se for um método contraceptivo hormonal oral, algumas podem apresentar náuseas, inclusive vômitos. Tromboembolismo também é um efeito colateral importante que devemos levar em conta. Por isso que eu falo que devemos saber os critérios de elegibilidade antes de fazer a prescrição do contraceptivo.” 

Sobre a gravidade desses efeitos e recomendações, a Dra. acrescenta: “Tenho que conversar com a minha paciente, ver se é uma paciente que tem enxaqueca com aura, que aí também estariam contraindicados os contraceptivos hormonais orais. Na verdade,  não existe nenhum que tenha um efeito pior,  muitas vezes a paciente usa um determinado tipo de contraceptivo e se dá super bem, enquanto a outra não se adapta. Então é tudo questão de adaptação, nós temos que ver o perfil dela.”

Felizmente, a internet proporciona um alcance muito maior para pessoas de todos os lugares que procuram usar e saber sobre os anticoncepcionais, e a visita anual ao ginecologista é cada vez mais comum. Ainda há um longo caminho a percorrer para que essas informações sejam compartilhadas com todos, porém há, definitivamente, um avanço.

O processo de decidir qual é o melhor método contraceptivo para cada pessoa depende da preferência pessoal com a orientação do ginecologista, de acordo com a Dra. Duarte. “Na verdade, o método contraceptivo, quem escolhe é o casal. O dever do ginecologista é orientar sobre todos os métodos contraceptivos existentes, a paciente escolhe aquele que ela achar que vai se adaptar melhor. Claro que na hora da prescrição, o ginecologista,  o médico assistente daquela paciente que procurou o planejamento familiar, vai levar em conta os critérios de elegibilidade daquele método.” 

Não são todas as pessoas que podem e devem fazer o uso desses medicamentos, existem contra indicações, por isso é importante consultar com um médico especializado antes de medicar-se. “Às pacientes que têm epilepsia, os contraceptivos hormonais orais são contra indicados, porque eles podem diminuir o efeito do anticonvulsivante e piorar as crises epilépticas da paciente, como também o anticonvulsivante (um deles é a lamotrigina)  ele diminui o efeito do contraceptivo hormonal. Além das pacientes com epilepsia, pacientes acima de 35 anos, obesas e tabagistas, têm um risco maior de desenvolver o tromboembolismo.” 

Pessoas acreditam que o uso prolongado de métodos que envolvem hormônios podem afetar a fertilidade. A Dra. Duarte explica como uma pessoa que deseja engravidar após esse longo uso deve prosseguir. O uso prolongado de métodos contraceptivos não afetam a fertilidade. Segundo a literatura, após 3 meses da parada do método hormonal, seja ele oral ou não,  a fertilidade volta ao normal. Não há nenhuma relação da fertilidade com o tempo de uso do contraceptivo.

Ao considerar todas as informações, a Dra. dá sua perspectiva sobre qual seria o melhor conselho para uma pessoa que gostaria de usar algum método contraceptivo mas tem receio/vergonha de pesquisar e tentar encontrar o anticoncepcional mais confortável. Meu conselho é sempre conversar com um ginecologista antes do uso de qualquer método contraceptivo, não só para esclarecer dúvidas, mas também a maneira de utilização.”

Nepotismo no Cinema

A sétima arte, como qualquer outra área do conhecimento, possui seus profissionais que compartilham dessa mesma paixão não somente com amigos de profissão, mas também com seus familiares. Não é difícil encontrar celebridades com algum grau de parentesco na indústria do audiovisual, desde pai e filho, até irmãos e primos —a “veia artística” é um fenômeno muito comum nessa indústria.

Contudo, será que cada um desses “descendentes” de cineastas e atores possui o gene de artista ou são meramente produtos do famoso “nepotismo”? Segundo o dicionário Aurélio, o termo “nepotismo” nasceu do latim nepote, “sobrinhos”, que com o sufixo  -ismo tem-se “governo dos sobrinhos”; que refere-se à proteção escandalosa, favoritismo de parentes em detrimento de pessoas mais aptas à tarefa.

Examinar a trajetória da pessoa em questão é o primeiro passo antes de se pular para conclusões precipitadas, ao considerar que todo indivíduo que possui parentes que também trabalham no seu mesmo ofício não possui talento e tem toda sua carreira “posta em xeque” é sim uma forma de generalização.

O universo do cinema e da televisão já se mostrou ser um fértil ambiente para desabrochar o talento de várias pessoas que já possuem um familiar na frente ou atrás das câmeras. A possibilidade de ter suas habilidades exploradas em um ambiente criativo como nas artes não podia deixar de criar talentos em famílias desse campo, ou até melhor: dinastias do cinema.

Núcleos familiares como o dos Coppola, por exemplo, não só viram seu patriarca, Francis Ford Coppola, tornar-se uma das maiores lendas do audiovisual; Como também presenciaram o talento de sua esposa, Eleanor Coppola e de sua filha Sofia Coppola. Vale lembrar que Sofia viveu toda sua infância em sets de gravação e assim desde pequena foi incentivada a criar seu afeto pelas câmeras.

Cineasta nova-ioquina, Sofia Carmina Coppola. [FOTO: Reprodução/ La Stampa]

Em O Poderoso Chefão III, dir. Francis F. Coppola (1990), o cineasta foi acusado duramente de nepotismo pelos críticos de cinema durante a escolha do elenco: Sofia, com apenas 19 anos de idade, entregou uma performance extremamente fraca durante o longa-metragem, trazendo à tona tal questionamento. Por outro lado,  seus projetos como diretora, mais especificamente em Maria Antonieta’, (2006); e Virgens Suicidas’ (1999), tiveram ótimas repercussões e todas as experiências em estúdios de gravação mostraram-se valiosas para a carreira da então emergente cineasta.

Outro diretor que parece ter sido de grande referência na escolha profissional de seus filhos foi Martin Scorsese. Sua filha, Domenica Scorsese, atuou em alguns filmes de seu pai, como: O Cabo do Medo’ (1991) e A Época da Inocência(1993). Em 2016, Domenica fez sua estreia como cineasta em seu primeiro longa-metragem Almost Paris, e apesar de não ter sofrido duras críticas, o filme também não obteve o sucesso esperado de um herdeiro de Scorsese.

Diretor Martin Scorsese acompanhado de suas duas filhas, Domenica (à direita) 
e Cathy Scorsese (à esquerda). [FOTO: Reprodução/ Getty Images]

Um famoso e intrigante caso envolvendo “familiares” no audiovisual, é o de Steven Spielberg e sua afilhada Drew Barrymore. A primeira aparição de sucesso da atriz nas telonas foi no clássico ‘E.T. o Extraterrestre‘, dir. Steven Spielberg (1982); aos 7 anos, Barrymore conquistou a atenção dos holofotes graças ao padrinho, que a escalou para fazer parte do elenco.

Após seu estouro, a atriz se tornou uma das queridinhas de Hollywood. Durante os anos de 1990 e início dos anos 2000, seu nome era sempre listado em algum novo projeto cinematográfico. Sucessos como: Pânico, dir. Wes Craven (1996); Nunca fui beijada, dir. Raja Gosnell (1999); As Panteras, dir. McG (2003; Como se fosse a primeira vez, dir. Peter Segall (2004) e entre muitos outros, compõem o rico portfólio da artista, e de certa forma tudo graças à Spielberg.

Barrymore, desde muito nova, foi assunto dos grandes tabloides, fosse pelas suas performances ou pelo seu comportamento rebelde na sua vida pessoal. A fama da artista não gira somente em torno de seu currículo, Barrymore além de ser afilhada de um dos maiores cineastas do cinema mundial, durante sua juventude era sempre capa das revistas de fofoca e é claro que esses eventos respingaram na opinião pública sobre a relação de Spielberg e Barrymore. 

No caso da atriz, mesmo com a ajudinha de seu padrasto no início de carreira e com os vários escândalos que surgiram acerca de sua vida, nos anos subsequentes, suas performances poucas vezes deixou a desejar e ela soube usar muito bem a oportunidade que lhe foi dada de graça.

Aparentemente, Spielberg gosta de coletar afilhadas no alto escalão hollywoodiano. Os pais da  intérprete californiana, Gwyneth Paltrow, que não são ninguém mais e ninguém menos que os atores Blythe Danner e Bruce Paltrow, também o escolheram como padrinho de Gwyneth. Assim como teve uma boa intuição sobre Barrymore, Steven Spielberg parece ter tido o mesmo pressentimento em relação à Paltrow.

Gwyneth já teve a chance de trabalhar com a mãe, Blythe Danner, no sucesso de bilheteria Sylvia, dir. Christine Jeffs (2003), longa biográfico que retrata a vida da famosa poeta estadunidense Sylvia Plath. No filme, Paltrow e Danner têm a sorte de interpretar mãe e filha.

 Além disso, Paltrow teve uma pequena participação ao lado de seu padrinho, Steven Spielberg, no clássico de 2002 Austin Powers em O Homem do Membro de Ouro, dir. Jay Roach. Porém, até o momento, a atriz não teve a mesma sorte de trabalhar em mais projetos com Spielberg, como Drew Barrymore. 

Drew Barrymore (à esquerda), Steven Spielberg e Gwyneth Paltrow (à direita). 
[FOTO: Reprodução/ Getty Images]

Todos se surpreenderam quando o nome de Billie Lourd saiu como parte do elenco de Star Wars: O Despertar da Força‘, dir.  J.J. Abrams (2015), levando em conta que a atriz é filha de Carrie Fisher, atriz conhecida pelo seu lendário papel na franquia de Star Wars como princesa Leia. 

Lourd, mesmo seguindo os passos da mãe, tem conseguido trilhar sua própria jornada. A atriz teve seu primeiro pico de ascensão nas séries de terror ‘American Horror Story’, (2011 – …)  e ‘Screams Queens’, (2015 – 2016).

Ao sair um pouco do cinema estadunidense, é possível enxergar esse mesmo padrão também no cinema internacional, como é o caso do diretor de cinema francês Philippe Garrel e seu filho Louis Garrel.

O jovem Garrel, conseguiu um sucesso estrondoso dentro e fora do cinema francês, com o seu filme de maior sucesso Os Sonhadores, dir. Bernardo Bertolucci (2003); Minha Mãe, dir. Christophe Honoré (2004) e mais recentemente o sucesso de bilheteria Mulherzinhas’, dir. Greta Gerwig (2020).

Essa dupla de pai e filho, também já tiveram a chance de trabalharem juntos nas telonas em filmes, como: ‘Amantes Constantes’ (2005); A Fronteira da Alvorada (2008) e O Ciúme(2013), todos dirigidos por Philippe e protagonizado por Louis. 

Talvez cada sucesso do primogênito de Philippe tenha sido sim por conta das influências de um pai que acreditava no talento do filho, mas no fim das contas Philippe Garrel fez bem em apostar no potencial do filho nas frentes das câmeras.

hilippe Garrel e Louis Garrel. [FOTO: Reprodução/ Adorocinema] 

Uma atriz que tem tido uma grande atenção da mídia nos últimos anos é Lily-Rose Depp, filha do grande astro de cinema, Johnny Depp. Com apenas 22 anos, a artista já possui um vasto currículo ao lado de grandes nomes da indústria, mas a pergunta que não quer calar: “Ela tem o que é necessário para estar à altura de trabalhar nesse mercado de trabalho?”

A resposta é um tanto complicada, pois ao mesmo tempo que seu nome indiscutivelmente possui sim um peso de “respeito”nesse meio cinematográfico, é impossível esquecer que quem construiu-o foi seu pai, Johnny. Até o presente momento, a intérprete não abismou verdadeiramente os amantes de cinema ou seus críticos. 

No entanto, não pode-se negar  que o mundo dos artistas já mostrou incontáveis vezes que o talento para as artes pode ser “herdado” pelo DNA. Talvez eventualmente, Lily possa ter a oportunidade de explorar mais o seu talento na arte da performance e honrar o legado de seu pai, ainda assim a atriz e modelo ainda tem um grande caminho para percorrer.

Atriz Lily-Rose Depp. [FOTO: Reprodução/ Evening Standard UK]

E esses artistas citados são alguns da gigantesca legião de profissionais da área que nasceram com a arte já inserida na família. A lista é realmente interminável desde o clã da família Smith, que também atua no universo musical; passando por Angelina Jolie, filha do ator Jon Voight; Zoe Kravitz e seu pai Lenny Kravitz; Emma Roberts, ao lado de sua tia, Julia Roberts; Blake Lively e Ernie Lively; Kate Hudson e sua mãe Goldie Hawn; Jake Gyllenhaal e sua irmã Maggie; até Dakota Johnson e Don Johnson. 

O mundo das artes, como qualquer outra área do conhecimento, possui suas dificuldades para se atingir o sucesso, mas com um bom network, tudo fica mais fácil, não é mesmo? É claro que um incentivo dos pais, tios ou padrinhos sempre ajuda, porém quando se trata de convencer os críticos de cinema sobre seu talento, e fazer valer a oportunidade que lhe foi dada, não é tão fácil assim.

Muitos desses artistas que receberam esse incentivo, souberam usar com sabedoria a chance de mostrarem que eram dignos do reconhecimento que ganharam. Exemplos de intérpretes que souberam provar que mereciam a admiração que receberam foram Angelina Jolie, Dakota Johnson, Jake Gyllenhaal, Kate Hudson e Zoe Kravitz. Por outro lado, ainda existem muitos que necessitam provar serem dignos do espaço que conquistaram nesta indústria, como Emma Roberts, que ainda vive um pouco na sombra de sua tia; Willow e Jaden Smith ; e Lily-Rose Depp.

Ser um filho do “nepotismo” vem com muito mais dúvidas e reservas acerca do seu potencial, e justamente por terem tido esse caminho concedido, é de responsabilidade desses profissionais honrar essa oportunidade, que muitos matariam para conquistar. 

A indústria do cinema, apesar de ser uma terra fértil para a produção de obras de arte incríveis, também possui seu lado sombrio, e como em qualquer outro ofício é preciso “matar um leão por dia” para garantir o seu espaço na frente ou atrás das câmeras.

[Crítica] Noite Passada em Soho: a grande ambição de Edgar Wright

ALERTA DE SPOILER

O novo terror psicológico de Edgar Wright estreou em outubro nos Estados Unidos, e desde então colecionou críticas mistas. Na última quinta-feira (18), o filme chegou aos cinemas brasileiros e marcou sua estreia como um dos mais antecipados do ano entre os amantes do gênero. Com um elenco estrelado pela favorita do ano Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha), Thomasin McKenzie (Jojo Rabbit) e Matt Smith (The Crown), Noite Passada em Soho apresenta um show de cores e psicodelia para quem assiste.

Ambientado entre duas épocas, o longa segue Eloise Turner (Thomasin McKenzie), uma jovem tímida do interior da Inglaterra que se muda para Londres a fim de estudar moda na London College of Arts. Lá, ela encontra dificuldades em se encaixar e logo adentra um mundo de alucinações quando se muda para um quitinete alugado pela Sra. Collins (Diana Rigg). Em seus sonhos, Eloise conhece Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora nos anos 1960, que procura Jack (Matt Smith) para ser seu agente, até que as coisas vão para um mau caminho.

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

O filme tem um roteiro que procura alcançar várias tonalidades, e temas como saúde mental, traumas e assédio sexual são abordados em meio a um cenário colorido e ilustrado pelas ruas de Londres. Desde o começo conhecemos Eloise como uma garota sonhadora e inocente, que mora com a avó e lida com o falecimento de sua mãe. É comentado já no início que Eloise é sensitiva e capaz de ver imagens de sua mãe, a qual também tinha problemas mentais que levaram à sua morte, e é essa habilidade que carrega o filme todo.

Após sentir-se hostilizada na república de estudantes, Eloise procura um quarto para alugar na rua Goodge 8, onde é apresentada Sandie, personagem que Eloise acompanha nas ruas londrinas dos anos 1960. Toda vez que Eloise dorme, ela viaja ao passado e se encanta pela cantora, que costumava dormir no mesmo quarto na casa da Sra. Collins. A personagem de Anya Taylor-Joy é, assim como a atriz, cativante e impossível de tirar os olhos. 

Com um figurino impecável e fiel à época, não há como não se deixar levar pela visão romantizada de um cenário tão vivo no imaginário atual. A efervescência cultural de Londres, o Swinging Sixties e a promessa de sucesso de uma nova era é o mood ditado por Wright nas sequências do passado. É irônico como é essa mesma romantização da época, sob a perspectiva da protagonista Eloise, é aos poucos quebrada à medida que ela conhece mais Sandie e Jack. 

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

A cada vez que Eloise dorme, a vontade de passar mais tempo no passado aumenta. Porém, logo ela descobre as dificuldades que Sandie enfrenta no show business londrino, regado à prostituição e homens predadores. Jack torna-se, então, o vilão da história. Aqui, Edgar Wright mostra uma das suas maiores intenções: o verdadeiro perigo são os homens da vida de Sandie. Quão longe ela iria para conquistar seus sonhos? Quanto ela sacrificaria? O antagonista Jack – brilhantemente atuado por Matt Smith que, sem dificuldade, passa o ar assustador necessário – pressiona Sandie a prostituir-se, até ela perder sua essência. 

Enquanto isso, Eloise começa a ficar cada vez mais instável e tenta salvar Sandie a todo custo. Essa talvez seja a parte mais emocionante do filme, quando a realidade se mistura com alucinações da vida passada. A expectativa de saber o que aconteceu com Sandie cresce a cada minuto e é ilustrada pelos incríveis efeitos especiais do filme. 

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

Os vilões, homens que abusaram sexualmente de Sandie, vão aterrorizando diariamente Eloise, que começa uma investigação para encontrar Jack na vida real. E é aqui que o filme decai em qualidade de roteiro. O que antes era uma busca psicológica e instigante, vira uma confusão mal trabalhada. As visões dos abusadores são impactantes no começo, mas depois viram apenas um jumpscare. Além disso, à medida que Eloise perde sua sanidade mental, o ritmo acelera e atropela a história. 

Apesar de um crescimento fantástico, o roteiro peca na busca de Eloise por Jack, que poderia ter sido trabalhada de uma forma melhor. Ela confunde Jack por Lindsay, um personagem que foi brevemente introduzido no passado e precisava de mais tempo de tela para criar um impacto maior no espectador quando a confusão é explicada. Assim como Lindsay, John (amigo de Eloise), cativa e promete ser um dos melhores personagens do longa, mas não é aprofundado e seu relacionamento com a protagonista acaba sendo raso.

Wright, entretanto, consegue camuflar essas pequenas falhas com um show de efeitos especiais e cores incríveis, fazendo com que mal se preste atenção nisso.  A fotografia é, com certeza, o quesito mais digno de premiação em Noite Passada em Soho, junto das atuações (em especial da novata Thomasin McKenzie).

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

O maior erro do filme, algo que nem a estética salvou, foi o final. O foco de repente vira a Sra. Collins, que revela ser Sandie, ou seu nome real: Alexandra Collins. O roteiro tenta convencer que Sandie é a verdadeira vilã, que assassinou os homens que tentaram estuprá-la e os escondeu debaixo do piso da casa. Apesar de uma sequência visual interessante, é mais do que decepcionante o jeito com que Eloise descobre a verdade sobre a Sra. Collins e entende o que realmente aconteceu.

Collins simplesmente entrega em uma conversa a resolução do filme todo e muda a narrativa inicial, aliada a uma cena desconcertante onde os homens mortos pedem ajuda à Eloise, como se indicassem ser as reais vítimas do filme. É estranha a forma que Wright termina o longa, pois passou mais da metade do filme mostrando a misoginia e a realidade das mulheres no show business, só para colocar uma das protagonistas como uma assassina fria. 

Não existe a sensação de descobrir aos poucos o que realmente aconteceu, porque isso foi explicado palavra por palavra. Sandie, que recebeu tanta profundidade, agora é Alexandra Collins, uma mulher traumatizada em sua juventude que não recebe a mesma profundidade na velhice. 

O que era um filme sobre um medo extremamente real de mulheres do mundo todo, termina de forma agridoce. Edgar Wright, mais uma vez, conquista uma narrativa estética brilhante, como é visto em Baby Driver (2017) e Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010). É admirável a ambição de Noite Passada em Soho, que apesar dos pesares, consegue lidar com saúde mental e traumas ligados à abuso sexual de forma interessante e – até certo ponto – respeitosa às suas importâncias. 

É definitivamente um filme para a lista de filmes que é necessário assistir para criar a própria opinião, mas ainda é uma experiência divertida e de agarrar o assento. Noite Passada em Soho é um dos melhores filmes do ano até agora e, com certeza, uma razão para ir aos cinemas.

Veja o trailer abaixo: