Artificialmente natural

Quando o assunto é maquiagem, é quase impossível evitar a viagem nostálgica que leva as pessoas de volta às tendências do passado. Seja o visual pin-up dos anos 1950, marcado pelo delineado “gatinho” e batom vermelho, ou talvez as sobrancelhas finas, sombras cintilantes e lábios glossy dos anos 2000 (que, inclusive, é a nova febre, que surge em uma estética denominada de Y2k); uma rápida olhada para trás nos permite ver o quanto as ideias de “belo” mudaram com o passar do tempo.

Imagem: Reprodução Pinterest

Nesse sentido, ao observar a transição de ideais da última década (2010 – 2020) encontra-se uma mudança curiosa e quase extrema. Durante o início da década de 2010, o côncavo marcado, o blush bem rosado e o famoso batom snob (aquele rosa quase branco), eram o verdadeiro sucesso; pouco depois, por volta de 2014, surgiu a técnica cut-crease, que por meio de uma mistura de cores, criava uma produção carregada e marcante. Já em 2016, uma nova estética se tornou o desejo da vez e se estendeu até o fim da década: o famoso visual “Kardashian”. Nele, a festa de cores foi substituída por tons neutros e a marcação que antes acontecia nos olhos, foi transferida para a pele (que passou a ser carregada por meio do uso de base, corretivo, pó, contorno, blush e iluminador) e para os lábios, que passaram a ser contornados para criar uma verdadeira ilusão de ótica e simular um aumento de volume.

Imagem: Reprodução Pinterest

No entanto, com a virada da década parece que também houve uma virada no padrão: surgiu a “make beauty” (maquiagem embelezadora, em tradução do inglês), que tem por base o contrário de tudo o que foi visto até então. Ela usa sim elementos artificiais, mas tudo com o intuito de criar imagens naturais. De acordo com Sabrina Ataide, maquiadora e especialista em maquiagem beauty, o conceito dessa nova “linha” é definido como sendo um conjunto de técnicas e estilo de maquiagem que evidenciam a beleza natural, respeitando os traços e a individualidade de cada um, “É embelezar sem transformar!”.

A expert ainda aponta que as demandas por esse tipo específico de produção mais leve e natural se deu de forma mais intensa nos últimos anos como reflexo dos tempos de pandemia “Acredito que a maquiagem é arte, e todo movimento artístico acompanha o comportamento social e de consumo. Nesses últimos anos, como reflexos de tempos de Covid-19, as pessoas têm se preocupado cada vez mais com sua saúde e bem-estar, o que as levou a se atentar mais às compras de beleza”. Dessa forma, em um cenário anteriormente dominado por grandes mudanças e um contexto em que quem conseguisse transformar mais era considerado o mais competente, Sabrina ressalta que essa mudança de preferências pode ter se dado pelos novos hábitos adquiridos. De acordo com ela, o uso de máscaras, por exemplo, contribuiu com o destaque dado aos olhos com o uso de técnicas como delineado “gatinho, holográfico e smokey eyes coloridos; além disso, a pele fresh se tornou preferência, justamente por ser mais leve e natural, o que vai totalmente “contra” o estilo Kardashian de maquiagem, que usava – e muito – de técnicas de contorno facial.

Se tratando dos motivos que podem ter levado o público à busca pela “leveza”, é inevitável pensar nisso como uma das repercussões das circunstâncias criadas pela pandemia. Os dias incertos serviram, para muitos, como um momento de reflexão e de (re)conexão consigo mesmos e com suas formas, belezas e traços naturais. As pessoas aprenderam a se enxergar novamente como são, sem o peso de se sentirem pressionadas a alterar quem são para se exporem ao mundo, e passaram a admirar isso também.

Assumir a desnecessidade de transformação funcionou como um escape, uma forma de liberdade em um período de restrições. Mesmo que a maquiagem embelezadora continue sendo um jeito de manipular a aparência, isso acontece de maneira mínima, justamente com a intenção que o próprio nome já carrega: apenas ressaltar o que já é belo. Para a maquiadora Sabrina, o porquê da afeição atual por esse tipo de visual se baseia no desejo de ter uma imagem saudável e que expresse a valorização do autocuidado: “O visual ‘limpo’ corresponde ao movimento de conscientização de autocuidado pós-pandemia, ou seja, as tendências de maquiagem se direcionaram a presentar um ‘ar saudável’ e bem cuidado. Então, hoje em dia, ter uma pele viçosa e com acabamentos mais naturais, que conferem um ar de saúde e elegância, transmite a mensagem de ‘estou em dia com meu autocuidado’”.

Imagem: Reprodução Pinterest

Entretanto, ainda nos encontramos em um mundo extremamente globalizado, que cria tendências que se espalham tão rapidamente quanto um piscar de olhos, por isso não se pode descartar a possibilidade de que a busca por transformação retorne. Basta uma ligeira olhada para o crescimento da estética Y2K para sentir que há novos desejos à vista. Nessa lógica, Sabrina destaca que acredita que tudo é possível: “Quando eu penso em comportamento social, moda e estilo, acho que tudo é possível. Os comportamentos sociais são sempre cíclicos, então acredito que possam voltar sim, porém, de uma forma repaginada, até porque o marco deixado pela pandemia é irreversível.

Para mais, ela afirma que a nova tendência à naturalidade levou as pessoas a se interessarem pela composição e nocividade de alguns ingredientes utilizados na indústria de beleza, no entanto, se as marcas se mantiverem transparentes em relação à produção, uma nova mudança não seria um grande problema e finaliza: “Confesso que até gosto da ideia de mudar e inovar, afinal de contas, maquiagem é arte e expressão do indivíduo; não dá pra colocar em uma caixinha”.

Por fim, até mesmo a beleza e as maneiras de implementá-la representam momentos e movimentos da história, sendo a crescente valorização da make beauty um deles, pois como já foi mencionado, esse novo conceito tem relação com a busca por uma aparência naturalmente saudável que surgiu como reflexo da pandemia enfrentada recentemente. Dessa forma, seja mais intensamente, com a intenção de criar uma máscara e transformar o exterior, seja para apenas ressaltar a beleza inata de cada um, o uso de elementos artificiais, como a maquiagem, não deixa de ser uma ferramenta útil para traduzir o espírito do tempo vivido, sendo o atual o da exaltação do – artificialmente – natural.

FRENEZI EXPLICA: Cinema Além de Hollywood

A explicação do sucesso de Hollywood e análise do cinema ao redor do mundo

Por: Vitória da Rosa Geremias

Quando se fala em cinema, é impossível deixar de mencionar Hollywood. O distrito de pouco mais de 200 mil habitantes faz parte da cidade de Los Angeles, Califórnia, e é o maior responsável pela indústria cinematográfica dos EUA, com grande influência sobre o mundo inteiro. Hollywood é muito popular por seus blockbusters, ou seja, filmes super populares com alto rendimento financeiro, e hoje é considerada o polo mundial do cinema. Mas qual a razão para haver essa concentração produtiva e financeira nos EUA? Por que são os filmes americanos os mais populares, lucrativos, premiados e reconhecidos? O que há em Hollywood que favoreceu suas produções diante das outras indústrias cinematográficas?

Ao analisar a história de como tudo começou, o primeiro personagem a ser discutido é Thomas Edison, o inventor da lâmpada. Acontece que, entre o final do século XIX e início do século XX, o empresário criou um monopólio, juntamente com outros empreendedores que detinham patentes no ramo tecnológico, chamado Motion Pictures Patents Company (MPPC), com a finalidade de controlar e lucrar em cima de todas as produções no setor cinematográfico, causando má remuneração e altas cobranças de produtores e artistas.

O poder que Thomas Edison e a MPPC detinham sobre a cidade de Nova York influenciou essa classe criativa a se mudar para outra cidade em busca de “liberdade”. E então, começou a concentração em Los Angeles, a quase 4500 km de distância da metrópole nova-iorquina, a cidade se mostrava favorável pelo clima californiano, além de estar longe do alcance da MPPC. 

Nesse momento, surge a “Era dos Estúdios”, quando se desenvolveram em Los Angeles os grandes oito estúdios responsáveis pela produção cinematográfica estadunidense: United Artists, Paramount, Metro-Goldwyn-Mayer, Warner Bros, Fox, Universal, Columbia e RKO. Agora com o poder em suas mãos, os estúdios que faziam parte do Big Eight controlavam a produção e distribuição de conteúdo. Datam desse período os clássicos Casablanca (1942) e Cantando na Chuva (1952) que marcaram o cinema da época.

Cena do filme Casablanca com os protagonistas Humphrey Bogart e Ingrid Berman [Imagem: Reprodução/Veja]

No entanto, foi durante a “Era de Ouro” que a potência de Hollywood foi demarcada. Entre as décadas de 20 e 60, os avanços tecnológicos e os sucessos de bilheteria alavancaram a influência hollywoodiana sobre o mundo. Atores como Charles Chaplin, Marilyn Monroe, Carmen Miranda e Audrey Hepburn, se destacaram no cenário mundial. Foi também nesse contexto que surgiu a Academy of Motion Picture Arts and Science e sua primeira premiação honorária, que mais tarde veio a se chamar Oscar e permanece até os dias de hoje. 

O cinema estadunidense tinha uma fórmula extremamente comercial, o que o tornou bem sucedido. Por volta dos anos 60, influenciados pela contracultura, diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas mudaram o rumo do cinema.  A “Nova Hollywood” dava mais destaque aos diretores do que aos atores, e havia uma liberdade criativa que não havia se visto antes. Sucessos como O Poderoso Chefão (1973), Taxi Driver (1976) e Star Wars (1977) marcaram o período que se estendeu até os anos 80.

A partir da década de 80, um último movimento surge no cenário hollywoodiano, permanecendo até os dias atuais. Com a popularização das câmeras VHS, o cinema independente ganha maior espaço no setor cinematográfico, são obras com baixo orçamento mas alto potencial de lucro, visto que são produzidas por cineastas já experientes.

Assim, o cinema estadunidense pode ser resumido em três camadas: os blockbusters, altamente comerciais, com grandes orçamentos que são superados pelos sucessos de bilheteria; as produções mais modestas, com mais lucro que investimento; e por fim, o cinema independente. 

O CINEMA ALÉM DE HOLLYWOOD

Índia: Bollywood, A Maior Indústria Cinematográfica do Mundo

Cartaz do primeiro filme produzido em Bollywood, Raja Harishchandra (1913) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Porém, a potência cinematográfica estadunidense tem um concorrente de mesmo nível em termos de produção. Na Índia, mais especificamente, na cidade de Mumbai (também conhecida por Bombaim) fica Bollywood, a Hollywood indiana, onde os filmes de maior orçamento do país são produzidos.

O precursor do cinema bollywoodiano é o cineasta Dadasaheb Phalke, que em 1913 produziu o primeiro filme do país, o curta-metragem silencioso Raja Harishchandra. Com a chegada do cinema sonoro na década de 30, a Índia chegou a produzir mais de 200 filmes por ano, obtendo cada vez mais popularidade e sucesso comercial.  Embora o país estivesse muito afetado nos anos de 1930 e 1940, devido a Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial, o cinema foi como um respiro e uma fuga da realidade, apesar de muitos cineastas da época também abordarem temas políticos e de cunho social.

A “Era de Ouro” de Bollywood foi durante as décadas de 50 e 60, com musicais e melodramas que enchiam as salas de cinema. Foi nesse período que a Índia recebeu a primeira indicação ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”, com Mother India (em português, Honrarás a tua Mãe) de 1957.

Cena do filme Honrarás a tua Mãe (1957) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Como forma de rejeição ao mainstream do cinema indiano, surge por volta da década de 60 o “Cinema Paralelo”, um movimento cujo foco eram temáticas políticas, sociais, naturalistas e realistas que conquistaram os críticos da época. Na década seguinte, a indústria bollywoodiana é dominada por produções cinematográficas que incorporavam uma figura de “herói romântico”. Surge então, a primeira super estrela indiana, o ator Rajesh Khanna, que protagonizou 15 filmes do gênero de grande sucesso entre os anos de 1969 a 1971.

É durante a década de 70 que acontece a “Era Clássica” de Bollywood, e também o momento em que o cinema indiano recebe o apelido a partir da junção das palavras Bombaim e Hollywood. Foi nesse período de auge das produções indianas que uma dupla de roteiristas, Salim Khan e Javed Akhtar, redirecionaram o cinema do país. Trazendo narrativas sobre o crime na cidade de Bombaim, com conflitos violentos e que refletiam a precariedade e descontentamento do povo. Surge uma nova figura no cinema, o de “jovem homem revoltado”, que foi frequentemente protagonizado pelo ator Amitabh Bachchan.

Hoje, Bollywood é considerada a maior indústria cinematográfica do mundo e, durante os anos, puderam ser percebidos alguns padrões estéticos do cinema indiano. Por ser um país com uma cultura musical muito forte, os filmes geralmente apresentam cenas de dança e música. A maioria das obras produzidas são melodramáticas e folclóricas, as atuações musicais exageradas criam um espetáculo ainda mais dramático e artístico, se tornando um elemento diferencial do cinema indiano.

Rituais de conquista amorosa são temas muito comuns no cinema indiano, e apesar de romance e sensualidade estarem presentes na narrativa, cenas de sexo são censuradas no país. Os filmes também são famosos por suas tramas clichês: triângulos amorosos, dramas familiares, heróis e vilões, comédia e suspense são enredos que, por vezes, estão todos em uma mesma obra. Características como essas são as que fazem o cinema de Bollywood ser tão lucrativo, pois é o tipo de entretenimento popular que garante sucesso de bilheteria.

Cena do filme Lagaan: A Coragem de um Povo (2001), longa indicado ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro” em 2002 [Imagem: Reprodução/MUBI]

Coreia do Sul: A Nova Potência do Entretenimento Mundial

Cena do filme Em Chamas (2018), filme sul-coreano que representou o país no
 Oscar de 2019 [Imagem: Reprodução/IMDb]

Hollywood é a principal indústria cinematográfica do mundo, e Bollywood a maior, no entanto, atualmente um novo país tem se destacado como uma nova potência do cinema mundial: a Coreia do Sul. Até o final da década de 1910, somente filmes estrangeiros, a maioria ocidentais, eram exibidos nos cinemas coreanos. Foi então que Park Seongpil, um produtor e empresário do ramo cinematográfico, comprou um cinema e patrocinou o lançamento do primeiro filme coreano, chamado A Vingança Honrada (의리적구투), de 1919.

Entretanto, devido a colonização japonesa da época, o início do cinema coreano foi um tanto pobre em lançamentos. Os filmes mais famosos da época foram Arirang (아리랑) de 1926 e Ao encontrar o amor (사랑을 찾아서) de 1928, porém, nenhum deles existe mais nos dias de hoje.

Com a libertação do domínio japonês na Coreia, em 1945, o cinema nacional passou a crescer. O primeiro filme que representa e marca essa independência é o romance Viva, Freedom (자유만세), onde o protagonista foge do exército japonês após se envolver com o Movimento  de Independência e se apaixona por uma enfermeira. Ainda na mesma década, outros dois filmes fizeram sucesso e alavancaram o cinema coreano, sendo eles A prosecutor and a teacher (검사와 여선생), de 1948, e Hometown in My Heart (마음의 고향) , de 1949.

Cena do filme Viva, Freedom (자유만세), de 1946 [Imagem: Reprodução/MUBI]

Após a Guerra das  Coreias, na década de 1950, a indústria cinematográfica sofreu para se recuperar. Na Coreia do Sul, filmes com temáticas anticomunistas, além de romances e comédias, eram o foco da produção. Foi nesse período que o sul da península teve sua “Era de Ouro”, com ajuda do governo além de outras contribuições estrangeiras. 

O fim da “Era de Ouro” se deu pelos regimes ditatoriais, com censuras que começaram em 1948 e se tornaram mais brandas somente na década de 80, prejudicando a indústria cinematográfica coreana. A industrialização acelerada que tomou conta da Coreia do Sul, nas décadas de 70 e 80, ajudou o cinema a se reerguer. Entretanto, mais obstáculos surgiram, a crise monetária do FMI em 1997 e os conflitos militares com a Coreia do Norte atrapalharam a produção cinematográfica, mas, apesar dos empecilhos, os cineastas insistiram e assim surgiu um novo movimento.

Cena do filme Oldboy (2003), um dos primeiros blockbusters sul-coreanos 
[Imagem: Reprodução/IMDb]

O Novo Cinema Coreano trouxe consigo a era dos blockbusters, representado pela estreia do filme Shiri em 1999. A partir desse momento, várias produções coreanas passaram a fazer sucesso fora do país, como Oldboy (2003), O Hospedeiro (2006) e Em Chamas (2018). O movimento se mostrou forte durante as décadas seguintes e, em 2020, a Coreia do Sul marcou a história do Oscar. O longa-metragem Parasita (2019) ganhou, não somente, o Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”, “Melhor Diretor” e “Melhor Roteiro Original”, como também o de “Melhor Filme”, sendo a primeira produção não falada em inglês a receber o maior prêmio da noite. 

Quando o cinema sul-coreano passou a ganhar reconhecimento nos anos 2000, o governo do país criou um sistema de cotas a fim de investir na produção nacional e incentivar filmes independentes. Nasce então o grande diferencial da cinematografia sul-coreana: o balanço entre o comercial e o artístico/original. O diretor Bong Joon-ho (Parasita, O Hospedeiro, Okja, etc), por exemplo, é um dos cineastas que consegue conciliar a produção de um filme blockbuster contentando não somente o público mas também a crítica.

Hoje o cinema da Coreia do Sul é uma das três maiores indústrias cinematográficas do mundo, juntamente com as potências Hollywood e Bollywood.

Momento histórico em que Parasita é premiado com o Oscar de Melhor Filme, 
no ano de 2020 [Imagem: Reprodução/Globo]

França: O Berço do Cinema

Cena do filme Viagem à Lua (1902) [Imagem: Reprodução/Superinteressante]

No ano de 1895, na França, os irmãos Auguste e Luis Lumière inventaram o cinematógrafo, uma máquina de filmar e projetar imagens. Os dois eram engenheiros e filhos de um fotógrafo, e foi na cidade de La Ciutat que a primeira exibição cinematográfica do mundo aconteceu. 

Os primeiros filmes não tinham roteiro, e na verdade, serviam mais como documentários, porque os próprios irmãos Lumière nunca pensaram que a sua invenção teria finalidade comercial no futuro. Somente com o cineasta revolucionário, Georges Méliès, que via a cinematografia como uma extensão dos palcos, é que surgem os primeiros filmes com roteiro. As principais produções de Méliès são Cleópatra (1899), Viagem à Lua (1902), As Viagens de Gulliver (1902) e Fausto (1904).

As duas primeiras décadas do século XX eram dominadas pelo cinema francês. Infelizmente, com a Primeira Guerra Mundial,  a indústria de entretenimento francesa sofreu com a depressão econômica e isso favoreceu as produções estadunidenses, que acabaram ganhando espaço e público na Europa na década de 20. O governo francês a fim de ajudar os cineastas de seu país, estabeleceu uma lei que tornava obrigatória a exibição de um filme nacional a cada sete filmes estrangeiros.

O cinema nacional ainda não tinha se recuperado totalmente até a chegada da Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, da invasão alemã ao território francês, o que tornou ainda mais difícil a produção cinematográfica da época. Entretanto, existe uma obra de caráter nacionalista feita no período, que só foi exibida após o fim da guerra, O Boulevard do Crime (1945), filme de Marcel Carné, considerado por muitos críticos como a melhor produção francesa de todos os tempos. 

Cena de O Boulevard do Crime (1945) [Imagem: Reprodução/MUBI]

Entre as décadas de 50 e 60, na recuperação do pós-guerra que reergueu o país , surge um movimento artístico chamado Nouvelle Vague, que via o cinema como uma ferramenta para mudar o mundo. Impulsionados pelo Neorrealismo, o movimento nasceu entre jornalistas e críticos e ia contra o método convencional de fazer filmes. Os cineastas desse movimento eram adeptos de novas técnicas de direção e não necessitavam de grandes orçamentos. 

As principais características estéticas podem ser resumidas a longos planos sequência, roteiros improvisados e falta de continuidade. As temáticas abordadas eram de cunho existencial, com sarcasmo e ironia, principalmente nos momentos em que faziam referência a outras obras cinematográficas. O baixo orçamento também levou a inovações estilísticas no que se refere a cenário e equipamentos, fazendo com que os cineastas buscassem maneiras de expressão artística dentro do que tinham disponível. Mas o maior aspecto da Nouvelle Vague era ir contra a maré do mainstream e desafiar o espectador, revolucionando o cinema e criando novos métodos de direção, como a “quebra da quarta parede”, por exemplo.

A revista Cahiers du Cinéma era o principal meio pelo qual as ideias do movimento se difundiram. Foi lá que os jornalistas, críticos e cineastas da revista começaram a questionar o cinema vigente na França e o padrão narrativo das obras de Hollywood. Os principais nomes do movimento eram François Truffaut, Jean-Luc Godard, Éric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette. O filme considerado como pontapé inicial da Nouvelle Vague é de Chabrol, chamado Le Beau Serge (1958), que foi seguido por outros grandes exemplos do movimento como Os Incompreendidos (1959), de Truffaut e Acossado (1960), de Godard.

Cena do filme Os Incompreendidos [Imagem: Reprodução/MUBI]

O cinema francês na década de 80 passou a competir com as produções americanas, com produções mais caras, e a partir dos anos 90, os franceses levaram o cinema nacional a outro patamar. Liderados pelo cineasta Jean Pierre Jeunet, grandes obras como Delicatessen (1991), Ladrão de Sonhos (1993) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) marcaram o cinema internacional com atores talentosos e diretores premiados.

Cena do filme Piaf – Um Hino ao Amor (2007), que garantiu BAFTA, Globo de Ouro e 
Oscar de Melhor Atriz para Marion Cotillard [Imagem: Reprodução/MUBI]

Brasil: Uma Potência Emergente

Cena do filme Alô Alô Carnaval (1936) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Em 19 de junho de 1898, data que hoje é dedicada ao Dia do Cinema Brasileiro, dois irmãos italianos, Paschoal e Affonso Segreto, fizeram gravações da Baía de Guanabara, se tornando então, os primeiros cineastas do Brasil. Entretanto, foi no ano de 1897, no Rio de Janeiro, que o cinema chegou ao país pela primeira vez através de Paschoal Segreto, que trouxe para exibição uma série de curtas-metragens sobre o cotidiano das cidades europeias. Desde então, o cinema brasileiro vem crescendo e conquistando reconhecimento mundial, apesar de momentos de desvalorização e baixo investimento na produção nacional. 

A primeira década da sétima arte no Brasil passou por algumas dificuldades logísticas, visto que, a falta de energia elétrica era uma questão que impedia a propagação de salas de cinema pelo país. Foi entre os anos de 1907 e 1910 que o cinema se estruturou no Brasil, primeiramente exibindo filmes estrangeiros e produzindo documentários. Com uma base fortalecida, atores e atrizes foram surgindo e mais de 30 filmes foram produzidos nessa época. A primeira obra de ficção é de 1908: Os Estranguladores, um curta-metragem de Francisco Marzullo e Antônio Leal e é em 1914 que, O Crime dos Banhados, de Francisco Santos, se torna o primeiro longa-metragem brasileiro.

Foi na década de 30, com a criação do primeiro grande estúdio do Brasil, Cinédia, que a produção brasileira alavancou. É dessa mesma época o primeiro filme sonoro do país, a comédia Acabaram-se os Otários (1929), de Luiz de Barros, que foi seguida por outros grandes títulos como Limite (1931), de Mario Peixoto, A Voz do Carnaval (1933), de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro, e Ganga Bruta (1933) de Humberto Mauro.

Cena do filme Ganga Bruta (1933) [Imagem: Reprodução/IMS]

A dominação de Hollywood já era um fator recorrente e o público gostava das narrativas estadunidenses, logo, as histórias românticas e musicais que (quase sempre) terminavam com um final feliz, foram vistas pela Cinédia como uma maneira de aproximar o cinema brasileiro do público novamente. É nesse momento que a estética dos cenários grandes e brilhantes surgem, juntamente com a estrela Carmem Miranda, em produções nacionais como Alô, Alô, Brasil (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936). Para entender melhor a história do cinema brasileiro, leia o texto escrito por Rhaísa Borges, “O cinema brasileiro: dos primórdios à atualidade”.

Nigéria:  Nollywood, A Maior Indústria Cinematográfica Africana

Cena do filme The Amazing Grace (2006) [Imagem: Reprodução/MUBI]

Apelidado de Nollywood, o cinema nigeriano é a maior indústria cinematográfica africana, e está entre as maiores do mundo. Suas narrativas têm propostas autênticas e procuram representar a identidade africana, portanto, não se encaixam no perfil comercial das produções estadunidenses. A língua oficial do país é o inglês, o que ajuda a dar mais visibilidade para a representatividade cultural que os  cineastas propõem.

A indústria cinematográfica é responsável por ser a segunda maior geradora de emprego no país, é autossuficiente, ou seja, não necessita de financiamentos governamentais, e leva ao mercado interno e externo mais de 200 filmes por mês. Apesar do país ser o país com maior população no continente africano, ele não possui muitas salas de cinema, portanto, os lucros comerciais dos filmes são, na sua grande maioria, gerados pela compra de DVDs e aluguel de streaming.

Os filmes nacionais são tão populares para a Nigéria como as novelas são para o Brasil. A produção nigeriana de maior bilheteria é de Jeta Amata, chamado The Amazing Grace (2006), que teve cerca de 25 mil espectadores. As produções de Nollywood são a maior representação da cultura africana na sétima arte, e demonstra a necessidade de restabelecer a identidade e buscar suas raízes após anos de colonização britânica no seu território.

Cena do filme Lionheart (2018) [Imagem: Reprodução/Netflix]

Frenezi no tapete vermelho do Oscar 2022

A temporada de premiações é sempre muito esperada em diferentes ramos da arte, de música à cinema, mas principalmente os tapetes vermelhos que roubam a cena — são muitos os rostos aproveitando o momento para colocarem seus melhores e mais opulentes vestidos para as cerimônias.

De Gwyneth Paltrow no vestido rosa pálido com uma grande saia de tafetá na cerimônia de 1999, Cher usando Bob Mackie com uma coroa de penas e saia brilhante em 1986 e Gillian Anderson com calcinha a mostra em 2001, o evento rendeu alguns momentos memoráveis para a moda.

Na edição de 2022, alguns deixaram a desejar com a escolhas de figurinos — uma onda um pouco mais básica inundou a cerimônia — enquanto são esperados grandes momentos na premiação ano, mas outros…

Confira as escolhas da editoria de moda da Frenezi para os melhores looks da noite:

Izabella Ricciardi – Editora de moda 

Deixando claro como o dia que o meu favorito de toda a noite foi, sem dúvida alguma, Jada Pinkett Smith de Jean Paul Gaultier Couture Spring Summer 2022 por Glenn Martens. Apesar disso, é perceptível no tapete vermelho como um todo uma mudança interessante no vestuário das premiações. Entre os últimos anos, se gostariam de ter um grande impacto na cerimônia, a presença era marcada com uma saia bufante e enorme de tulle assinada pela Giambattista Valli, ou um Valentino assinado por Pierpaolo Piccioli.

Contudo, as silhuetas na Alta-Costura ficaram mais limpas e retas na Valentino, o tule da Giambattista nunca se renovou: talvez a estética tenha oficialmente morrido por ter sido feita diversas vezes — ou talvez porquê o vestido de Ariana Grande no Grammy de 2020 ficou tão conhecido (e era por sua vez tão grande e volumoso) que seja quase impossível fazer algo maior.

Com a estreia de Demna Gvasalia na Alta-Costura da Balenciaga no ano passado — que teve uma boa influência nos vestidos de baile — ao que parece os tapetes vermelhos deram uma virada gótica. Com os momentos de grandes e volumosos vestidos sendo agora de tafetá — amassado ou em babados — o importante é ser grande, assim como o vestido de Kendall Jenner assinado pelo próprio Demna Gvasalia, Billie Eilish de babados Gucci por Alessandro Michele e finalizando com a versão mais comercial da nova estética que conserva o formato do corpo dentro do vestido, Laverne Cox de August Getty.

Luiz Fernando Neves – Repórter de Moda

Certamente o look mais polêmico da noite, Kristen Stewart cruzou o tapete vermelho do Oscar vestindo um conjuntinho de terno e shorts da Chanel, marca que a atriz mantém uma parceria há anos. O look pode até incomodar a primeira vista, mas o fato é que ninguém além de Kristen conseguiria segurar esse visual. A atriz, que declarou recentemente que “não liga a mínima” para a premiação, soube traduzir perfeitamente sua alma e estilo através da composição, sendo coerente com quem ela é — e, de quebra, ainda fez história: foi a primeira pessoa a vestir shorts na história do prêmio.

Kristen Stewart de Chanel (Foto: Reprodução / Vogue)

Julia Ferreira – Repórter de Moda

Dessa vez Hunter Schafer se afastou do seu guarda roupa à la Prada e apostou no universo gótico e pós apocalíptico de Rick Owens da coleção de Outono/Inverno 2022. A modelo/atriz se aventura em um vestido de gala de jeans manchado com costas à mostra e o cabelo molhado repartido ao meio, roubando assim os holofotes do tapete vermelho da after party da Vanity Fair.

Maria Fernanda Rocino – Repórter de Moda

Dakota Johnson de Gucci por Alessandro Michele foi um dos grandes momentos. Não só pelo look exuberante, mas pela escolha de usar no Oscar um look de uma coleção inteira dedicada à Hollywood.

Liz Bichara – Repórter de Moda

Timothée Chalamet surpreendeu, mais uma vez, ao usar Louis Vuitton para a premiação do Oscar. O astro de Duna — filme mais premiado da noite — apostou em um blazer cropped de renda, sem camisa, desfilado na coleção Primavera/Verão 2022 de womenswear.

Mirelle Carvalho – Repórter de Moda

Enquanto diversos artistas buscaram continuar em sua zona de conforto apostando em vestidos básicos convencionais e talvez nada dignos de um tapete vermelho do Oscar, Jada Pinkett Smith escolheu nada mais nada menos que um dos vestidos mais comentados da última coleção de Primavera/Verão Alta-Costura 22 da Jean Paul Gaultier, assinada por Glenn Martens. Acontece que, apesar de o vestido não ser sustentável para todos que possivelmente possam escolhê-lo, parece ter sido desenhado para Jada, que consequentemente sustentou lindamente o look escolhido e arrancou suspiros por onde passou, se consagrando como uma das possíveis personalidades mais bem vestidas da noite.

Jada Pinkett Smith de Jean Paul Gaultier (Foto: Reprodução/ Celeb Mafia)

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A história do Oscar

Neste domingo, 27 de março, a 94ª edição do Oscar, a premiação de cinema mais famosa que existe, aconteceu em Los Angeles, nos Estados Unidos, no tradicional Dolby Theatre. O evento anual é apresentado por uma organização profissional sem fins lucrativos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, onde os melhores filmes do ano são homenageados. A Academia, sediada em Beverly Hills, foi fundada em 11 de maio de 1927 e teve sua primeira cerimônia realizada em 1929. Hoje, o Oscar é um evento multimilionário transmitido ao vivo pela televisão para mais de 200 países, tornando-se assim um dos maiores eventos midiáticos do mundo.

Louis B. Mayer, um dos fundadores da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), criou a Academia, porém, um dos principais atores norte-americanos do começo do século XX, Douglas Fairbanks, foi eleito o primeiro presidente da associação. Assim, em 16 de maio de 1929, à noite, membros da Academia e 270 convidados, encheram o Blossom Room por somente 20 minutos, no Hotel Roosevelt, para honrar as realizações cinematográficas mais proeminentes de 1927 e 1928.

Apesar da extrema crise econômica causada pela queda da bolsa de valores de Nova York, que deu inicio à Grande Depressão, a indústria cinematográfica passava por uma mudança dramática na época ao introduzir som pela primeira vez em um filme, O Cantor de Jazz (1927). Nesse momento, a indústria gozava de várias produções que movimentaram o evento, porém filmes sonoros de muito sucesso – que lançaram antes do primeiro Oscar – não foram considerados, porque foi visto como injusto compará-los a filmes mudos.

O primeiro vencedor do Oscar foi o ator suíço Emil Jannings, que ganhou o prêmio de Melhor Ator por seus papéis em dois filmes mudos, O Último Comando (1928) e O Caminho de Toda a Carne (1927). O romance Asas (1927), dirigido por William A. Wellmen e ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, ganhou o primeiro Oscar de Melhor Filme.

Emil Jannings, nome artístico de Theodor Friedrich Emil Janenz [Imagem: Reprodução/Correio Braziliense]

Uma estatueta dourada do Oscar é uma conquista sublime na carreira de cada diretor, ator ou atriz, compositor ou qualquer outra pessoa envolvida no processo de criação de um filme. O cobiçado troféu tem 34 cm de altura e é revestido com uma fina camada de ouro de 24 quilates, enquanto seu peso de 3,8 kg vem de seu interior de bronze maciço.

Em 1927, Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM, projetou o gráfico que serviria de base para a estatueta: um cavaleiro em pé segurando uma espada de modo protetor na frente de um rolo de filme com cinco raios. O rolo simbolizava a indústria cinematográfica e os raios representavam os cinco ramos originais da Academia.

No ano seguinte, Gibbons designou o escultor George Stanley para realizar seu projeto e desde então o design não sofreu mudanças significativas até hoje, nos mais de 90 anos em que já foi entregue, apenas durante a escassez de metal na Segunda Guerra Mundial, quando as estatuetas foram feitas de gesso pintado com tinta dourada. Após o conflito, o gesso foi trocado por metal banhado a ouro, que é como conhecemos hoje a estatueta do Oscar.

As estatuetas do Oscar nos bastidores durante a entrega do troféu em 28 de fevereiro de 2016 [Imagem: Reprodução/The Hill]

Segundo o jornal NY Post, desde que a primeira premiação aconteceu, mais de 80 Oscars foram roubados ou perdidos. Apenas 11 deles nunca foram encontrados – a maior parte das estatuetas foi achada em lixeiras ou catálogos de leilões, retornando para seus vencedores. O maior roubo da história do Oscar ocorreu em 2000, quando uma encomenda com 55 pequenas estátuas ainda não preenchidas com o nome de seus vencedores foi roubada por funcionários da empresa que transportava os prêmios de Chicago à Califórnia.

As origens do nome da estatueta são incertas, mas uma história popular diz que a diretora executiva Margaret Herrick pensou que a estátua se parecia com seu tio Oscar e então a equipe começou a chamar a o prêmio assim. Outra versão diz que a atriz Bette Davis o teria apelidado assim, dado a semelhança da estatueta com seu primeiro marido, Harmon Oscar Nelson. De qualquer maneira, até hoje esse apelido é o nome pelo qual o Prêmio da Academia é conhecido mundialmente.

Em 1953, o Oscar passou a ser uma atração televisionado e, a partir disso, ganhou cada vez mais projeção e status. Atualmente, o evento é transmitido ao vivo para diversos países, mas a Academia sempre está se equilibrando na corda bamba que é manter bons números de audiência. Assim sendo, a Academia está constantemente em busca de entregar modificações que garantam o interesse na premiação, principalmente aos expectadores mais jovens, como por exemplo o acréscimo de categorias, como a de Melhor Filme Estrangeiro visando a internacionalização do prêmio, e as aguardadas apresentações musicais.

Lady Gaga e Bradley Cooper foram o assunto do Oscar de 2019 após fazerem apresentação emocionante no palco da premiação [Imagem: Reprodução/G1]

Em 2019, a audiência do Oscar, somente nos Estados Unidos, atingiu quase 30 milhões de espectadores. A cerimônia de 1998 ainda mantém o recorde da maior audiência da História dos Prêmios da Academia, na qual foi registrado que 57 milhões de pessoas assistiram ao evento.

Os filmes nomeados para concorrer, assim como a escolha dos vencedores do prêmio, são decididos pelos membros da Academia. Na primeira cerimônia do Oscar, apenas 26 membros compunham a Academia. Hoje, presume-se que o número de membros seja de cerca de 8500 pessoas, mas apenas duas categorias são abertas ao voto de todos: Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro. As demais categorias necessitam de exímio conhecimento para que haja uma avaliação mais crítica, como por exemplo na categoria Melhor Documentário.

Embora a primeira cerimônia do Oscar tenha acontecido no final da década de 1920, muitas mudanças só aconteceram recentemente, como a composição dos membros da Academia. A indignação generalizada do público para que a Academia diversificasse sua composição de homens brancos e velhos e incluísse mais jovens, mais mulheres e mais pessoas de cor repercutiu-se e, felizmente, mostrou resultado nos últimos anos. Até 2012, as estatísticas revelavam que 94% dos membros da Academia eram brancos, 77% eram homens e mais de 50% tinham idade superior a 60 anos.

O procedimento de premiação também mudou. No primeiro Oscar, os convidados já sabiam quem eram os vencedores e, além disso, desembolsaram cinco dólares para possuir o privilégio de participar da cerimônia. No entanto, no próximo ano, a Academia decidiu criar uma sensação de suspense e, em vez disso, enviou de antemão uma lista dos vencedores aos jornais, com publicação embargada até às 23h da noite da cerimônia.

Esse sistema permaneceu em vigor pelos por 10 anos, mas em 1940, o jornal Los Angeles Times, popularmente referido como Times ou LA Times, quebrou o embargo e anunciou os vencedores em sua edição noturna, o que significa que os indicados descobriram seu destino antes de comparecer ao evento. Por isso, em 1941, o sistema do famoso envelope lacrado foi finalmente introduzido e os resultados tornaram-se um segredo bem guardado.

O método do envelope funcionou muito bem até 2017, quando uma confusão nos bastidores causou um embaraçoso anúncio falso: o musical La La Land: Cantando Estações (2016) foi erroneamente declarado como Melhor Filme. Apenas após a intervenção dos organizadores, o prêmio foi entregue para o vencedor correto, a equipe criativa por trás do drama Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016).

Momento histórico da gafe do Oscar de 2017 em que os envelopes de Emma Stone e Moonlight foram trocados [Imagem: Reprodução/Observador]

No decurso dos 90 anos de história do Oscar, algumas produções e artistas do Brasil concorreram em várias categorias. A última vez aconteceu em 2020, quando Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, concorreu na categoria Melhor Documentário. Entretanto, antes disso, O Pagador de Promessas (1963), O Quatrilho (1996), O que é isso, Companheiro? (1998) e Central do Brasil (1998) já disputaram na categoria Melhor Filme Estrangeiro.

Cidade de Deus (2004) e O Beijo da Mulher-Aranha (1986) receberam quatro indicações cada um. Contudo, o momento mais memorável para o país provavelmente fora a indicação de Fernanda Montenegro, em 1999, como Melhor Atriz, por Central do Brasil (1998), mesmo que a vencedora tenha sido a atriz Gwyneth Paltrow, por sua atuação em Shakespeare Apaixonado (1998).

A cerimônia do Oscar de 2022 não fugiu das mudanças trazidas pela pandemia de coronavírus, do domínio das mídias sociais, do decréscimo de consumo da televisão (graças em parte às mídias sociais), do surgimento de plataformas de streaming de grande sucesso e da cultura do binge-watching. Entretanto, a Academia, assim como a indústria cinematográfica que o Oscar celebra anualmente, foi resiliente e primorosa em readaptar-se de acordo com a necessidade do momento.

O Prêmio da Academia retornou ao Dolby Theatre após uma cerimônia reduzida no ano passado com convidados que respeitavam o distanciamento social e medidas de proteção, sem a presença do público. Neste ano, o evento não teve mais uma vez a presença do público, mas teve a presença exclusiva dos indicados e de seus acompanhantes e, pela primeira vez na história, um trio feminino comandou a cerimônia: Regina Hall, Amy Schumer e Wanda Sykes. Ademais, o Oscar não tinha anfitriões desde 2018, quando Jimmy Kimmel exerceu a função – as atrizes de Descompensada, Família Upshaw e Todo Mundo em Pânico retomaram à tradição após quatro anos.

The Tumblr girl is coming back

Os dias se passavam ao som do álbum Ultraviolence da Lana Del Rey, que está na playlist junto com The Neighborhood, Arctic Monkeys, The 1975, Lorde, The xx, entre outras bandas alternativas que se juntam ao indie pop. As fotos eram guiadas de acordo com a roupa. Normalmente jeans skinny, ou meia arrastão – elas sempre rasgavam e isso que era deixado em evidência – com jaqueta de couro, cores escuras, silhuetas simples, gargantilhas no pescoço, às vezes camisa quadriculada e nos pés All Star ou coturno.

Foto reprodução: Pinterest 

Essa estética, marcada pelo ano de 2012 a 2014, é caracterizada à época do Tumblr, uma plataforma na qual era formado por comunidades que tinham pessoas de todos os lugares do mundo, com as mesmas estéticas e pensamentos, com um estilo acessível e não elitizado como o Old Money. 

O rock foi o fundador dos estilos. Seguido pelo grunge com o Nirvana de Kurt Cobain juntamente com as meninas do Bikini Kill. Ele não se importava em comprar roupas, e nem se elas rasgavam. Vivia sua melancolia e as levava em suas músicas. A partir deste estilo, nasce o indie, com The Neighbourhood e Arctic Monkeys. 

Foto reprodução: Pinterest 

Nas telas, a atriz Lucy Hale, que interpreta a Aria Montgomery na série “Pretty Little Liars”, e a personagem Effy Stonem de “Skins”, interpretada por Kaya Scodelario, se enquadra ao estilo desenvolvido da época, já que era o período em que a série estava sendo gravada. Muito se materializa através de séries e da música. Atualmente, vemos a cantora Olivia Rodrigo e a personagem Maeve Wiley de “Sex Education”, explorando todo o esteriótipo, mas com o toque do novo, sem se prender ou resgatar por completo algo que pode se reinventar com novas presenças que são disponibilizadas em todas as áreas de criação.

Os adolescentes de antes cresceram, hoje são os adultos e jovens que, com a memória afetiva da época, resgatam, exploram e, literalmente, compram essas tendências. O que antes era trazido de 30 em 30 anos, com a pandemia, isso tem se acelerado e diminuído para 10 anos. 

Essa estética tem voltado, mas o que antes era baseado nos anos 2000 e toda a característica trazida à tona, hoje ela retorna se embasando nos anos de glória – entre 2012 e 2016 – e tem se reinventado, se reintegrando às novas manifestações artísticas. Contudo, essa estética não vem apenas de uma estética visual, mas também de uma subcultura que trouxe à tona os problemas mentais, pessoas que se identificam com outras e viam que vivem a mesma situação. Isso então incluía falar abertamente sobre depressão, ansiedade e pensamentos suicidas.

As músicas alternativas da época retratavam sobre os problemas, como Lana Del Rey que transformava sua solidão e melancolia em música, e dizia o quanto gostava e aceitava aquilo. Isso fazia com que as meninas da época fizessem o mesmo. Até aquelas que não tinham depressão, induzia este tipo de melancolia para soarem interessantes e fazerem jus às outras pessoas. 

As comunidades, em sua maioria composta por meninas, se identificavam gerando valor e dependência naquilo. Compartilhavam seu diagnóstico, conversas com profissionais sobre o quadro, fotos com frases como “100% triste” escrito em rosa com brilhos, pílulas de remédio em cima da mesa, maquiagens escuras em forma de luto. Mesmo não tendo sido criado pelo Tumblr, a obsessão pelo trágico fez parte da cultura, exacerbaram esse fetiche. Notoriamente, o reconhecimento e a discussão desses assuntos facilitou o tratamento e reconhecimento dos sentimentos e das doenças até hoje, contudo, trouxe à tona a romantização de problemas mentais, de ter um coração partido, solidão, magreza extrema e da rebeldia. 

Com o lançamento de “13 Reasons Why”, reboot de “Gossip Girl” e “Euphoria”, é notável a presença de uma trama que abraça uma cultura de drogas e sexo, apresentando atores glamorizados e vidas mais sofisticadas e fáceis. Um pouco de toda a época do Tumblr está presente, mas com mudanças, gerando algum tipo de demérito e mais conscientização principalmente de quem esteve presente em todo aquele período.

Foto reprodução: Pinterest 

Hoje, o que volta, parte é substituído. Calças skinny que saíram de destaque são alteradas por mom jeans ou calças jeans de perna reta. O batom escuro chega em forma de gloss, maquiagens que antes eram escuras são influenciadas por séries trazendo brilho e com looks mais extravagantes em decotes e transparências. A época Tumblr marcou uma geração de pré-adolescentes e adolescentes ao redor do mundo.

Hoje, eles cresceram e se tornaram adultos com sentimento de pertencimento a esse período e uma memória de descobertas e reencontros que fazem parte de quem são hoje. São os que possuem o poder de compra e também de lançar e repercutir as tendências. Com o TikTok, novos grupos identitários e novos costumes e tendências têm surgido. 

Pode-se dizer que a era Tumblr foi um momento em que os jovens entraram no mundo da internet, esbarram e permaneceram com seu primeiro contato a um grupo digital de acolhimento sem barreiras – o que antes era vivido com barreiras físicas e sólidas, foram se integrando num novo mundo. Hoje, as barreiras se quebraram e todos têm acesso às outras culturas e pessoas, facilitando o encontro de sua identidade.

A grande comunidade do Tumblr retorna citando as consciências de uma identidade coletiva, mostrando às novas gerações – além das características físicas – o poder de um grupo semelhante frente ao auxílio da internet e da união de características iguais. É algo mais significativo que os momentos que estão sendo vividos nesses últimos anos. Foi uma época duradoura e que foi morada e conforto para muitos adolescentes.

Foto reprodução: Pinterest 

O começo da internet como rede de apoio e sem barreiras. Um lugar onde as pessoas encontravam grupos com os mesmos sentimentos e desejos. Eles não estavam sozinhos, nunca estiveram. Estavam apenas perdidos de seus grupos que iriam entender e acolher suas particularidades. 

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O Comeback da Diesel

O estopim oficial do mais novo ’comeback’ da marca italiana Diesel foi, sem dúvidas a coleção apresentada durante a semana de moda de Milão referente a temporada de Outono Inverno 2022. A primeira coleção assinada pelo novo diretor criativo Glenn Martens fez com que todos os críticos e amantes de moda dessem uma nova chance para a marca. Uma coleção skin-baring, sexy, sublime, inovativa, cheia de jeans e couro. Desde o Y2K clubwear até o uniforme de motociclista, com códigos joviais, rebeldes, que conversam genuinamente com a nova geração de consumidores.

Entretanto, seu grande plano de reestruturação já vem acontecendo desde 2020. Mesmo em meio ao período caótico da pandemia, a Diesel já trilhava um futuro no qual voltaria a conversar com gerações mais novas, adaptando novas tendências e voltando ao fashion radar. Esse futuro é agora! Muito antes da Diesel ser “deixada de lado”, ela construiu um legado para si mesma, marcada pela estética dos anos 2000, provocativa e rebelde. Nos anos 90, ela era a marca mais ‘cool’ da cena da moda. 

Muito antes dos algoritmos tomarem nossas vidas e nos disserem o que gostamos ou não, a Diesel jeans já se estabelecia como marca do momento e queridinha das celebridades – Paris Hilton, Lindsay Lohan e Mariah Carey usavam Diesel dos pés à cabeça – Também instituída como marca ‘go-to’ dos clubbers da época que iam à loucura com os ‘distressed-jeans’ que viam numa infinidade de modelos. 

Campanha de publicidade da década de 90 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

Fundada em 1978 por Renzo Rosso, a Diesel já sustentava seu hype de melhor e mais ultrajante marca de jeans desde sua criação. Com suas lojas físicas de ponta e publicidade criativa e provocativa, a marca facilmente virou uniforme das ‘cool kids’ e em 1998 ganhou o título de ‘marca do momento – imprevisível, irreverente e rebelde’ pelo The Wall Street Journal. De Nova York a Berlim, a Diesel misturava o estilo ‘europeu chique’ com o jovem e cool americano, sendo high fashion e high street. Afinal, todos queriam poder usar a emblemática e ardente marca do momento. 

Campanha de publicidade da década de 2000 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

No entanto, apesar de toda sua fama, a Diesel perdeu sua relevância cultural e seu espírito revolucionário. Apesar de ter-se mantido consistente e ainda um negócio de sucesso, a marca viu-se perdendo para a rigorosa competição que agora tomavam os postos de queridinhas da juventude – a ascensão da londrina TopShop, o apelo de massificação da Abercrombie & Fitch e contemporâneas marcas de streetwear como Supreme e Palace. O apelo, o desejo e o símbolo de status que a marca proporciona era cada vez menor. 

As fashions trends e estratégias de marketing se desenvolveram e mudaram ao passar das décadas, era cada vez mais difícil para Diesel estabelecer uma comunicação com seu consumidor, sua missão (ou mensagem) se tornou pouco clara – até mesmo internamente. A marca perdeu sua oportunidade de participar do movimento de streetwear no seu ápice em meados de 2010, ou mesmo da volta da logomania na moda. 

Em 2020, contudo, com um novo duo de diretores executivo e criativo, a marca já almejava sua volta. O novo CEO da Diesel, Massimo Piombini – ex-CEO da Balmain, que passou também por grifes como: Valentino, Bulgari e Gucci – decidiu juntar-se a marca, que diferente de seus trabalhos prévios não se trata de uma marca high couture, pois a mesma foi uma das primeiras marcas globais a terem um grande impacto nele quando mais jovem, Piombini sentia que a história e narrativa da marca precisava ser restabelecida para os consumidores de hoje. 

Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Marca)

Para ele, o problema não estava no produto ou na comunicação, mas na cultura da marca. Piombini, agora quer focar em modelos de jeans mais impactantes, enquanto investe rigorosamente em sustentabilidade. 

Rosso, criador da marca, reafirma sua missão de recriar o antigo espírito da marca que a estabeleceu nos anos 80’ e 90’ ao contratar Massimo Piombini e Glenn Martens. “Essa é uma revolução cultural para a marca”, diz Massimo. Não só externamente como vimos em suas recentes coleções, desfiles e publicidade, mas também internamente, reestruturando os valores de base da marca entre seus funcionários e colaboradores. 

Em novembro de 2021, a contratação do autêntico, inovador e promissor designer belga, Glenn Martens, seria a chave de ouro para a estratégica revolução da Diesel. Dono de sua própria marca, Y/Project, e sua impressionante colaboração com Jean Paul Gaultier. Martens atingiu o ápice dos holofotes e da criatividade este ano e foi nomeado como “most intriguing designer,” pela revista i-D. Sua contratação no ano passado foi um dos mais excitantes da moda e em resposta ao porque aceitaria a proposta na marca, Martens revelou ter um apego emocional pela Diesel, já que a mesma foi a primeira marca para qual juntava dinheiro para poder comprar’. Não é à toa que Martens consegue capturar a essência da marca, ao mesmo tempo que a faz novamente queridinha das celebridades e do público. 

Vinte anos depois a gigante Diesel está de volta – e de forma literal, já que vimos sua grandiosidade representada por enormes bonecos infláveis, que por sinal vestiam Diesel, no seu mais recente desfile. A marca volta trazendo e protegendo seu DNA ao mesmo tempo em que o tenta melhorar ainda mais. O jeans volta a ser o centro das atenções e é apresentado das mais diversas formas – escultural, revelador e apertado à pele e largo, distressed, cintura alta e boyfriend. Além dos designs, a marca volta a entender que atualmente a relevância das marcas se baseia muito mais na ética do que na estética, mais do que somente os jeans, a marca era antigamente adorada pelas suas campanhas provocativas que abordavam política, sexualidade, raça e religião – a marca foi uma das primeiras a falar sobre minorias com suas campanhas que muitas vezes contavam com beijos gays, pessoas negras e a liberdade sexual da mulher. 

Martens também tem como seu objetivo se engajar com a sustentabilidade, tornando o jeans menos poluente e levando essa sustentabilidade e circularidade ao consumidor. O desejo é levar a Diesel além do que ela já é, a tornando uma marca ainda mais divertida, sexy, experimental, atraente, prazerosa e provocante.

Glenn Martens no final do desfile da Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Vogue Runway)

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[CRÍTICA] Rebelde Netflix acerta na nostalgia mas comete deslizes

Desde que o trailer oficial de Rebelde Netflix (2022) lançou, comentários relacionando a nova geração da novela mexicana com o seriado Elite (2018 – atualmente)  foram muito presentes. Isso se deve, principalmente, pela mesmice da Netflix em seus roteiros que dificilmente inova em suas produções adolescentes. A nova série é uma continuação da telenovela mexicana de 2004, dirigida por Santiago Limón, que também é o diretor do filme No, porque me enamoro (2020).

A atriz e produtora Cris Morena criou a novela argentina Rebelde Way (2002), estrelada por Luisana Lopilato, Camila Bordonaba, Benjamin Rojas e Felipe Colombo, juntamente à produção  também foi formada a banda ErreWay. Por conta do grande sucesso foram desenvolvidos remakes da obra em outros países, como, por exemplo: México, Portugal, Índia e Brasil. 

Rebelde (2004), foi a versão mexicana produzida por Pedro Damián, também diretor de Clase 406 (2002), e estrelada por Anahí (Mia), Alfonso Herrera (Miguel), Maite Perroni (Lupita), Christian Chávez (Giovanni), Dulce María  (Roberta) e Christopher Uckermann (Diego), além da novela o elenco principal formou o grupo musical RBD, que se tornou a banda mais premiada do mundo.

Foto reprodução/ montagem: RBD (esquerda) e ErreWay (direita)

A Netflix produziu a sequência que se passa no mesmo universo de Rebelde México, que conta com a presença de personagens da 1ª geração como Celina Ferrer (Estefania Villarreal), que é a nova diretora do Elite Way School, e Pilar Gandía (Karla Cossío),  a mãe da protagonista Jana Cohen (Azul Guaita). A ex chiquitita Giovanna Grigio interpreta Emília e o elenco principal também é formado pelo primo da Mia, Luka Colucci (Franco Masini), M.J. (Andrea Chaparro), Dixon (Jerónimo Cantillo), Sebas (Alejandro Puente), Andi (Lizeth Selene) e Esteban (Sérgio Mayer).

Após o gigantesco legado deixado pela banda, o EWS que, até então, era um colégio bem tradicional, aderiu o programa de música a sua grade escolar, e passou a realizar  anualmente uma batalha de bandas em que o vencedor poderá ter um contrato com uma gravadora renomada.

Logo no começo do primeiro episódio, é possível notar o apelo a nostalgia  ao iniciar a trama com uma conversa entre  Jana e Pilar. A introdução de Dixon  também trouxe lembranças de quando Giovanni ingressou no colégio, ambos pedindo para a mãe não chamar muita atenção e escondendo a verdadeira identidade, mudando de nome. A elite, assim como na telenovela de 2004, está sempre presente, desta vez através  de Sebastian Langarica, o filho da próxima chefe de governo. Será que sua mãe será tão bruta como era León Bustamante com o Dieguinho?

Foto reprodução Netflix/ Emília (Giovanna Grigio) e Andi (Lizeth Selene) em cena

Os 8 episódios, que duram em torno de 40 minutos, garantiram um enredo leve sobre adolescentes com problemas de adolescentes. O desenvolvimento de cada personagem foi um tanto raso, assim como dos casais e das amizades. Os plots twists foram previsíveis e a história foi muito rápida separando-se entre a  audição, a formação da banda e o final, talvez, por isso, não foi possível passar a audiência um vínculo de amizade entre os personagens. Assim que chegaram ao colégio os protagonistas já tiveram que se preparar para a batalha das bandas, com isso a relação entre eles gira em torno de desmascarar a seita e vencer a competição sem todo o envolvimento esperado entre as personagens.

O maior deslize da série foi a forma que a seita La Logia foi trabalhada. Tanto na versão original como na primeira geração mexicana, o foco da associação secreta era criar o terror com os bolsistas, uma guerra de classes entre os alunos de elite com os mais pobres, além das “pegadinhas” que eram agressões pesadas a ponto de quase matar. Em RBN a seita foi totalmente ridicularizada, ao invés dos bolsistas o novo alvo foram os novatos e o trote foi (alerta de spoiler) vestir-se com o uniforme dos RBD e fazer eles cantarem a música Rebelde. Esse foi, com certeza, um grande erro para para os fãs e para o que representava a La Logia e a problemática envolvendo o preconceito dos alunos de elite com os bolsistas que era retratada na novela.

Montagem/Reprodução

Mia Colucci foi o centro das referências. Entre algumas delas, por exemplo, M.J usa a estrela vermelha na testa e Jana  o celular flip na bota. Por ser típico dos  Colucci não apoiarem seus filhos no mundo musical, a história de seu primo, Luka, também se assemelha com a de Mia. Assim como Franco, Marcelo prefere que seu filho entre para os negócios da família ao invés de fazer música.

Mas e Roberta, Lupita, Diego, Miguel e Giovanni? Os outros RBD ‘s foram esquecidos pela Netflix? As referências foram poucas e até mesmo inexistentes,  uma falta de consideração com os outros personagens e que causou grande descontentamento a muitos RBDManiacos. 

Porém, o legado da banda foi muito bem retratado com a exposição na parede do corredor, os uniformes, prêmios, o chapéu de Salvame, fotos e alguns instrumentos. O mural, além de ser um bom incentivo para os alunos e validar o prestígio da banda para o Elite Way, é de longe o momento mais nostálgico e sentimental para todos os fãs.

Reprodução Twitter @rebelde_netflix

Pensando no público alvo, a atuação de maneira geral é mediana e nada surpreendente ou inovadora. Até mesmo Esteban (Sérgio Mayer) que possui  um plot importante,  tornou-se o menos interessante, devido a falta de expressão em quase todas as cenas. Mayer acabou se envolvendo em polêmicas dizendo que não gostava de RBD, o que causou certo aborrecimento com os fãs.

A Netflix também pecou ao não colocar uma interação entre Pilar e Celina. É  de conhecimento dos fãs  o trauma que Gandía tem em relação ao EWS, mas uma conversa de velhas amigas ou até mesmo um telefonema sobre Jana, que compareceu diversas vezes na diretoria, seria ainda mais nostálgico, mas quem sabe fique para a próxima temporada?


Ainda sem data de estreia, a segunda temporada foi gravada simultaneamente e com novos covers, como Besame Sin Miedo, novos personagens e a confirmação de todos os principais. Por mais que não tenha tido um gancho no último episódio, ainda é esperado que a história se aprofunde assim como o desenvolvimento de cada um, dos casais e também das amizades. A Netflix precisa sair da mesmice do roteiro de séries adolescentes e procurar inovar sem medo, RBN já conquistou o seu espaço e não é preciso forçar Rebelde México em seu enredo.

A transição da estética Tom Ford da moda para o cinema

Tom Ford começou a construir sua estética nos anos de 1970. Nascido em 1961, no Texas (EUA), o estilista e diretor se mudou para Nova Iorque em 1979 para estudar história da arte na NYU. Durante essa época, Ford participava ativamente do cenário social nova-iorquino — basicamente estava na localidade certa e no momento certo para conhecer a vida noturna que se tornou histórica quando se trata de festas.

Mais precisamente, o artista frequentava o icônico Studio 54; clube que ficou conhecido por seus convidados extremamente famosos. Todo mundo que era alguém nos anos de 1970 e 1980 frequentou a boate. Tom se encontrava com os mais conhecidos nomes do momento: Andy Warhol, Bianca Jagger, Halston e Jerry Hall. Foi ali, sob as luzes pulsantes, o chão suado, a multidão da pista de dança e a névoa de fumaça dos cigarros dos convidados que surgiu a base da estética Tom Ford: algo sexy, ousado, com silhuetas dos anos de 1960, 1970 e até mesmo 1980 (vide sua coleção mais recente de Primavera/Verão 2022).

Mas ele nunca foi apenas um designer. Em 1980 Ford largou a faculdade em Nova Iorque para focar na sua carreira como ator em Los Angeles. Seus anos atuando em comerciais fizeram com que sua paixão por cinematografia se desenvolvesse.

GUCCI DE TOM FORD

Campanha publicitária da coleção Primavera/Verão 2003 da Gucci. [Imagem: Mario Testino/ Reprodução]

Os aficionados por moda sabem que foi Tom Ford que reviveu a grande casa Gucci. Nos anos de 1990 a marca passava por crises: o nome estava manchado pelos dramas familiares, o assassinato de Maurizio Gucci, e o desmantelamento da dinastia ao passo que os integrantes da família vendiam suas partes da empresa.

Ford assumiu o volante com pouquíssima experiência. Foi chamado para sua primeira coleção de moda feminina na maison em 1990, e antes disso havia atuado apenas como assistente de design para a estilista norte-americana Cathy Hardwick. Parte do motivo por trás de sua contratação foi, sem dúvidas, que ninguém queria trabalhar na marca. Até 1994 já tinha quase todo o controle criativo em mãos — desde a criação das roupas até o marketing e o design de lojas (ele cursou arquitetura por alguns anos na Parsons School of Design em Nova Iorque).

Tom Ford revolucionou não só a grife como também a moda da década. Deixa clara a sua visão criativa na coleção de Outono/Inverno 1995 com silhuetas acentuadas, diferentes das sem forma comuns na época; decotes fundos; cortes que remetem aos anos de 1970; cores ousadas e ricas; texturas e veludo — isso sem esquecer a identidade da marca. Basicamente: a sensualidade dominava a passarela. As modelos usavam olhos esfumados, cabelos selvagens à la pós sexo e até o caminhar era sexy e provocativo.

Sem surpresa alguma, a coleção levou ao apoio de um dos maiores sex symbols da década (e talvez da história): Madonna. A cantora usou a camisa de seda azul, peça icônica trajada por Kate Moss no desfile, para o VMAs daquele ano.

Esquerda: Madonna usando Gucci no VMAs, 1995. Direita: Kate Moss desfilando para a Gucci FW95. [Imagens: Reprodução/ Pinterest]

O sucesso da Gucci de Tom Ford se deu justamente no apelo sexual, algo extremamente ousado e pouco visto no cenário da moda até então. Tudo em sua era gritava “sexo”, desde as roupas até a trilha sonora dos desfiles e as campanhas publicitárias — afinal, foi ele quem colocou modelos na passarela com calcinhas e cuecas fio dentais na coleção de Primavera/Verão 1997.

As campanhas de marketing carregam tanto peso quanto suas coleções e são até hoje lembradas por profissionais e amantes da moda como uma das melhores da história da casa. Em sua maioria carregam, novamente, o teor sexual pesado e marcante da época. Mas além disso, carregam um fator que se repete também em inúmeras coleções do designer: uma coloração azulada, saturada e escura. Uma paleta que remete o consumidor instantaneamente a algo selvagem.

Campanhas publicitárias da Gucci na era Tom Ford. [Imagens: Reprodução/ Pinterest]

Seu estilo ficou marcado pelo seu tempo de festa no Studio 54 e todas as coisas que vieram com ele. A estética hipersexualizada, no entanto, é hoje questionada por profissionais e amantes de moda ao mesmo tempo que sua importância é reconhecida para o crescimento e estabelecimento da marca e do designer no mercado. Os questionamentos vêm em uma perspectiva da mensagem passada pelas roupas e campanhas: a hiperssexualização sem fundamento e sem mensagem é o jeito mais prudente de vender roupas, principalmente quando o objeto de desejo em tais campanhas são, em sua maioria, mulheres?

O assunto de hiperssexualidade vem crescendo com a pandemia: depois de anos trancados em casa, o retorno das estética ligadas à exposição e glorificação do corpo se mostrou forte na temporada de Primavera/Verão 2022 no hemisfério norte. A conversa levanta também o ponto de inclusão de diferentes tipos de corpos na criação da fantasia, coisa que jamais seria pensada nos anos de 1990 quando Tom Ford estava na Gucci.

TOM FORD NA YSL

Looks de desfiles da Saint Laurent assinados por Tom Ford. [Imagem: Arquivos Vogue]

Durante seu tempo na gigante italiana, o Gucci Group adquiriu a maison francesa Yves Saint Laurent (atualmente apenas Saint Laurent). Em 1999, nomeou Tom Ford como diretor criativo da casa. A posição se deu, em grande parte, por motivos financeiros já que entre 1995 e 1996 Gucci, sob a direção criativa do designer, aumentou suas vendas em 90%. A esperança para YSL era a mesma.

No entanto, com seu fundador ainda vivo e parte da empresa, a meta se tornou um pouco mais complicada. Ford levou a sensualidade para a maison francesa, um toque risqué tendo em vista o estilo parisiense e o antigo trabalho de Saint Laurent para a marca.

Seu legado, porém, prevaleceu e mudou o rumo da estética YSL para sempre. As peças com transparência, decotes profundos e campanhas provocadoras não foram esquecidas ou ignoradas por seus sucessores Hedi Slimane ou Anthony Vaccarello que hoje a interpretam (junto ao próprio DNA estabelecido pelo fundador) a partir de suas próprias perspectivas.

O romantismo da casa nunca foi esquecido pelo estilista. Ford tinha a capacidade incontestável de mesclar a sua própria visão com elementos típicos da marca, e apesar do seu tempo (ele atuou como diretor criativo até 2004) na maison ser por vezes esquecido, também colaborou na formação e estabelecimento da sua forte estética.

TOM FORD, A MARCA AUTORAL

Campanha publicitária para Tom Ford. [Imagem: Reprodução/ Pinterest]

De toda forma, essa estética sexual e ousada foi levada para sua marca homônima, fundada em 2005. O designer deixou a gigante italiana em 2004 por conta de supostas desavenças como conglomerado Kering (antiga PPR) que possuía uma quantidade de ações significativa do Gucci Group.

Sua primeira coleção, Primavera/Verão 2011, carregou muitos dos elementos já vistos na Gucci, mas desta vez ainda mais fortes: as silhuetas, o glamour e estilo dos anos de 1970, as cores ricas, as estampas sensuais — tudo que faz parte do esperado DNA Tom Ford.

Nos 16 anos de marca, o sex appeal se manteve presente em cada corte, textura, cor, decote, tecido, acessório, maquiagem e até fragrância. O designer fez com que ao ser ouvido o nome “Tom Ford”, “sensualidade” seja a primeira coisa que vem à mente. Construiu uma identidade forte que liga suas criações com essa estética particular que o define.

Desfiles da marca Tom Ford. [Imagens: Vogue Runway]

Seu tempo em festas no Studio 54 junto à todas as suas outras paixões inevitavelmente resultaram em algo brilhante, particular e identificável. Não são apenas as roupas sensuais com traços dos anos de 1970 que remetem à festa. É Tom Ford.

Mais uma vez leva essa característica marcante para o lado publicitário da marca, ainda flertando com o estilo de paleta apresentado em seu tempo na Gucci: o azul, o saturado, o escuro. Por conta da década, as insinuações sexuais não tão explícitas ou pesadas, mas continuam presente. 

Campanhas publicitárias para Tom Ford. [Imagens: Reprodução/ Pinterest]

TOM FORD NO CINEMA: DIREITO DE AMAR

Sua saída da marca italiana significou o começo de grandes coisas, inclusive a sua concretização da sua paixão pelo audiovisual. Em 2005 anunciou o lançamento da sua produtora, a ‘Fade to Black’.

Não levou muito tempo até a estreia de seu primeiro filme Direito de Amar (2009) que conta com os nomes de Colin Firth, Julianne Moore e Nicholas Hoult. O primeiro longa de Ford obteve certo sucesso entre críticos e o público em geral. No Rotten Tomatoes — site de avaliação de cinema —, a produção recebe 86% dos críticos e 81% da audiência.

Não surpreendentemente, muitas das críticas (boas ou ruins) giram em torno do visual do filme. Seja a avaliação de Matthew Lucas do site The Dispatch, que diz “Pode muito bem marcar o debut de um ótimo stylist visual, mesmo que o filme, no final das contas, não alcance as expectativas” até a crítica de Simon Miraudo, que afirma que “O filme debut de Tom Ford como diretor, Direito de Amar, é simplesmente deslumbrante. Desde a gloriosa cinematografia até os atores e atrizes incrivelmente belos; nenhuma cena é gasta em nada remotamente feio”.

A cinematografia encantadora logo evidencia o talento do diretor para as artes visuais, no entanto sua estética típica não é tão marcante. Ford apresenta um filme com uma coloração apaixonante e romântica, cores quentes, suaves e delicadas que refletem a melancolia marcada pelo roteiro. Não há nada menos do que o belo na tela de Tom Ford.

Direito de Amar carrega uma fotografia digna de pastas no Pinterest e publicações virais em redes sociais — coisa que de fato ocorre com certa frequência. O fato é que a beleza no cinema Tom Ford não é vazia: tudo em tela (ângulos, colorações, luzes, ambientes, roupas, atores) reforça a história passada. A melancolia é transmitida não só por palavras e expressões como também por enquadramentos e cores.

Cenas de Direito de Amar. [Imagens: Reprodução]

O SUCESSO DE ANIMAIS NOTURNOS

Depois de quase uma década, Tom Ford retorna às telonas com um filme de também grande sucesso: Animais Noturnos (2016). A trama segue o mesmo ar de melancolia e drama do primeiro, com visuais que complementam a narrativa estabelecida pelo roteiro de forma envolvente.

Um dos elementos chaves do filme que marcou a estética Tom Ford no cinema foram as cores, tons que marcaram seu tempo na Gucci e marcam até hoje sua marca autoral: tons ricos e profundos de verde, azul, vermelho e branco. 

A intimidade em Animais Noturnos, no entanto, não vem por meio da sexualidade presente tão constantemente nas campanhas publicitárias do diretor, mas por um jogo de coloração e iluminação capaz de transparecer os sentimentos dos personagens. O filme é, sem dúvidas, belo — desde os atores até os figurinos e a cinematografia.

Mais uma vez, ao observar as críticas do longa no Rotten Tomatoes, o visual é unanimemente elogiado, seja a avaliação boa ou ruim. O que certifica, mais uma vez, Ford como um diretor fundamentalmente visual, acompanhado de ótimas performances e roteiro igualmente envolvente, mas marcado pelas cores e luzes.

Cenas de Animais Noturnos. [Imagens: Reprodução]

Diferente de seus contemporâneos como Wes Anderson, que tem seu estilo marcado por cores alegres e vibrantes, Ford é lembrado pelos tons fechados, íntimos, ainda vibrantes mas de forma mais profunda, cores capazes de contar toda a narrativa sem nenhuma outra palavra.

A capacidade de narrar a história pelo visual marca Tom Ford como um verdadeiro artista. Seu trabalho na moda, sua paixão pelo cinema e seu passado em publicidade se combinam em uma receita formidável que resulta nos fins comerciais e artísticos de tudo criado por Ford.

O complexo do “branco salvador” nos filmes

Após o assassinato de George Floyd e protestos subsequentes, Histórias Cruzadas, o filme de 2011 sobre empregadas domésticas negras, começou a fazer sucesso na Netflix. Em Histórias Cruzadas, Skeeter (Emma Stone) é uma jovem branca da alta sociedade sulista que vive nos conturbados anos 60, no Mississippi, no decorrer do movimento dos direitos civis. Skeeter, recém-formada na universidade, está determinada a ser uma escritora. Para isso, decide entrevistar mulheres negras que passaram a vida como empregadas de famílias brancas e surpreende sua cidade.

Octavia Spencer, Viola Davis e Emma Stone em Histórias Cruzadas (2011) [Imagem: Reprodução/The Sun]

O aumento na popularidade de Histórias Cruzadas motivou muitos usuários do Twitter a discutirem sobre o chamado “complexo do branco salvador” do filme, sugerindo que o longa-metragem não é apropriado para quem busca se educar sobre o racismo.

Viola Davis, ativista do movimento antirracista e intérprete de Aibileen Clark em Histórias Cruzadas, disse em uma entrevista para a revista The New York Times em 2018 que se arrepende de ter participado da produção. “Eu só senti que, no fim do dia, as vozes das empregadas não foram ouvidas. Eu conheço Aibileen [sua personagem no filme]. Conheço Minny [personagem de Octavia Spencer]. Elas são minha mãe, elas são minha avó. E eu sei que se você quer fazer um filme cuja premissa é entender como é trabalhar para pessoas brancas e criar seus filhos em 1963, eu quero ouvir como você realmente se sente. E eu nunca ouvi isso no filme”, confessou Davis.

Em 2020, Viola relembrou o assunto em uma entrevista para a revista Vanity Fair. “Não há ninguém que não fique entretido com Histórias Cruzadas“, afirmou a atriz. “Mas há uma parte de mim que parece ter me traído e traído meu povo, porque eu estava em um filme que não estava pronto para contar toda a verdade”. Em seu desabafo, Davis disse que o público branco pode, no máximo, sentar e receber uma lição acadêmica sobre quem é o público negro, mas não são movidos por isso.

Octavia Spencer e Viola Davis em Histórias Cruzadas (2011) [Imagem: Reprodução/The Sun]

Histórias Cruzadas é um filme sobre racismo a partir de uma perspectiva de personagens brancas, dirigido por um homem branco, Tate Taylor, a partir de um livro de uma autora branca, Kathryn Stockett. Desse modo, deduzimos que investiram na ideia do que significa ser negro, porém servindo ao público branco.

No cinema, o conceito de branco salvador é uma narrativa na qual um personagem branco resolve os problemas de um personagem não-branco. O personagem branco tem a intenção de “resgatar” o personagem não-branco de um cenário de vulnerabilidade e, assim, o branco é visto como um herói porque conseguiu salvar o não-branco de um destino tido como impossível de ser resolvido.

Esse conceito é extremamente perigoso, mas usado em muitos filmes populares que são conhecidos como exemplo para se educar sobre o racismo quando, na verdade, só enfatizam a questão do branco desfrutar do destaque em uma luta que não é dele.

Em Estrelas Além do Tempo, uma equipe de cientistas formada por mulheres negras mostrou ser o elemento que faltava para que o Estados Unidos ganhasse a corrida espacial em combate com a Rússia durante a Guerra Fria. O filme de 2016, dirigido por Theodore Melfi, é baseado na história real de Katherine Johnson (Taraji Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe).

Contudo, mesmo que a produção tenha tido boas intenções, a narrativa também traz consigo o infame complexo do branco salvador. Por exemplo, quando Al Harrison (Kevin Costner) derruba a placa que indica a divisão de mulheres brancas e negras nos banheiros da NASA. Na história real, Katherine Johnson se recusou a usar o banheiro “colorido”, desafiadoramente usando o banheiro “apenas para brancos”. A conquista foi somente de Johnson, mas Theodore Melfi defendeu a reescrita histórica para a revista Vice. “É preciso haver brancos que façam a coisa certa, é preciso haver negros que façam a coisa certa. E alguém faz a coisa certa. E então quem se importa com quem faz a coisa certa, desde que a coisa certa seja alcançada?”, manifestou Melfi.

[Imagem: Reprodução/Pinterest]

No Oscar de 2019, Green Book: O Guia foi o grande vencedor, consagrado como o melhor filme da temporada. O filme ganhou três estatuetas, incluindo a de melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali e o prêmio mais importante da premiação. Green Book: O Guia acompanha a amizade real entre o talentoso pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) e seu motorista branco Frank Vallelonga (Viggo Mortensen).

A escolha do longa-metragem de 2018 dirigido por Peter Farrelly como melhor filme pela Academia, no entanto, causou incômodo. A revista The Root, que fornece conteúdos instigantes de uma variedade de perspectivas negras, disse que o filme ignora a maior parte do perigo e o racismo agressivo que um homem negro viajando pelo Sul dos Estados Unidos teria mesmo sofrido. A família de Shirley, em uma entrevista para revista Time, afirmou que isso manchou seu legado, e também os criadores da produção, no tempo em que promoveram o filme, foram acusados de racismo.

Mahershala Ali e Viggo Mortensen em Green Book: O Guia (2018) [Imagem: Reprodução/Vogue]

Hoje, nós vivemos em uma realidade onde os criadores negros são desprezados, onde os atores negros raramente são indicados em premiações e a maioria das pessoas não consegue nem mesmo citar um roteirista negro. Filmes com o complexo de salvador branco produzidos por homens brancos são insustentáveis.

Desde 2015, quando a hashtag #OscarsSoWhite (#OscarMuitoBranco, em inglês) surgiu nas redes sociais exigindo mais diversidade na premiação de Hollywood, a Academia prometeu mudanças para melhorar a representatividade de seus membros. No Oscar de 2017, pela primeira vez na história, ao todo, negros receberam 20 indicações e todas as seis principais categorias possuíram um negro na disputa. Em 2015 e 2016, entre os 20 indicados nas quatro categorias de atuação, todos eram brancos.

Segundo o estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), somente 27,6% dos protagonistas dos filmes que estrearam em 2019 nos Estados Unidos foram negros. A discrepância foi ainda maior ao analisar a participação de diretores negros nas 146 produções de maior bilheteria do país, somente 5,5%.

Em 2020, atores não-brancos interpretaram 40% dos papéis principais. Em 2019 e 2018, a média foi de 27% e a participação feminina nesses papéis chegou perto de 50%. Desde 2011, a porcentagem de negros como personagens principais passou de 10,5% para 27,6%. Entretanto, para especialistas, essas mudanças apenas ganharão peso quando cargos de prestígio na indústria também forem preenchidos por mais negros, como os de diretores, roteiristas e executivos, considerando que 93% são brancos.

É mais que necessário analisar a natureza problemática desse complexo. Filmes que reproduzem narrativas a partir disso deslegitimam a luta da comunidade negra e só fazem pessoas brancas se sentirem bem por contribuir com o mínimo. O que precisamos disseminar como público e realizadores são histórias em que um personagem negro não precise intrinsecamente do auxílio de um personagem branco. Da mesma forma que é na luta antirracista, o branco é capaz de ser simpatizante, de apoiar as vozes da minoria, mas não ser o protagonista.

Trilhas sonoras em filmes de terror

Todos sabemos que uma ótima trilha sonora pode mexer com o público e fazer toda a diferença. E em filmes de suspense e terror, música é o que não pode faltar.

Quando bem feita, ela pode se tornar tão marcante que mesmo após décadas, ainda a associamos automaticamente a situações de perigo e medo. Um exemplo disso é a do filme Tubarão (1975), composta por John Williams. Sua icônica trilha é referência até hoje, instantaneamente reconhecível e sem ela, a cena perderia todo seu impacto. Confira a diferença:

O que torna uma trilha sonora assustadora?

Vários elementos contribuem para causar o sentimento de medo, desde os instrumentos utilizados até o timing do filme. Entretanto, existem certas músicas, acordes e técnicas que são comumente usadas e adaptadas em filmes de terror.

Alguns dos casos mais comuns são sons não lineares, que desencadeiam o medo de ser perseguido por predadores; o trítono, também conhecido como “Som do Diabo”, é o intervalo de três tons inteiros entre duas notas, que gera um som dissonante e resulta na sensação de tensão; instrumentos intensos como violinos, pianos e waterphones; vozes e gritos. Um dos casos mais memoráveis é o da música Dies Irae.

A música é um hino em latim do século XIII sobre o Juízo Final, tocada em Missas Réquiem, homenagem aos mortos. Com uma variedade de versões, que incluem até Mozart e Giuseppi Verdi, esteve sempre relacionada à morte. Assim, muitos compositores a utilizam com essa função.

Ela pode ser encontrada em centenas de filmes de todos os tipos e épocas, porém nos filmes de terror o impacto é totalmente diferente. Laranja Mecânica (1971), Alien (1979), O Iluminado (1980), Sexta-Feira 13 (1985, 1986 e 1988) e Rua do Medo: 1994 e 1666 (2021) são apenas alguns exemplos famosos do uso nesse gênero de filme. Uma vez que você identifica a música, é possível reconhecê-la em todo lugar.

Além disso, como visto anteriormente, a música de um filme é o que move o público e intensifica e aprimora a experiência do espectador. O terror é sobre emoção crua e visceral, tem como foco os medos humanos primordiais ou atuais.

Muitos outros filmes de terror têm trilhas marcantes, sejam eles Halloween (1978), filme de sustos, com uma música agitada, que lembra batimentos cardíacos e te faz ficar cada vez mais nervoso; o terror psicológico Corra (2017) com um coral em suaíli, onde você não consegue entender o que é dito, o que deixa espaço para imaginação; ou o alto som dos violinos estridentes de Psicose (1960) incomodam e deixam o telespectador tenso com o que está por vir.

A música se sincroniza com as facadas da cena e o que a faz ficar ainda mais envolvente e assustadora. O compositor Bernard Herrmann fez uma trilha sonora única – só de escutá-la é possível reviver a cena e trazer todos esses sentimentos à tona. Logo, todos realizam a sua proposta: o medo.

Trilha Sonora de Psicose (1960)