Exposed da empresa do rato: a falsa representatividade LGBTQIA+

A The Walt Disney Company, mais conhecida apenas como Disney. Marcou gerações com seus desenhos do Mickey Mouse, a abertura do parque mais mágico do mundo, as séries nostálgicas como “Hannah Montana“ (2006), “Feiticeiros de Waverly Place” (2007) em seu canal televisivo, os filmes de animação como “101 Dálmatas” (1961), “O Rei Leão” (1994) e os clássicos das princesas “Branca de Neve e os 7 anões” (1937), “Cinderella” (1950),  “A Pequena Sereia” (1989) e outros. Esses são só alguns exemplos de produções icônicas que fazem parte do maior  conglomerado do cinema atual, fundado pelos irmãos Walt e Roy Disney na década de 20. 

Mas, apesar da clara importância no imaginário de crianças de todas as gerações, polêmicas e Disney na mesma frase tornou-se algo muito comum ultimamente, seja pelos os diretores, atores ou até a abordagem de seus longas. Recentemente, o Jornal Orlando Sentinel revelou que a WDC financiou políticos que apoiam o projeto de lei “Don’t Say Gay”, este que proíbe as discussões sobre a orientação de gênero nas escolas primárias da Flórida. O CEO, Bob Chapek, não declarou-se publicamente sobre o ocorrido, porém, segundo o The Hollywood Reporter, Chapek é contra colocar a Disney em temas que considera insignificantes, seja para a empresa ou para seus negócios.

Em nota a Disney apenas fez o seguinte pronunciamento: “Entendemos o quanto esses assuntos são importantes para nossos funcionários LGBTQ+ e muitas outras pessoas. Por quase um século, a Disney tem sido uma força que une as pessoas. Estamos determinados em fazer com que continue sendo um lugar onde todos são tratados com respeito”.

Protesto em frente ao parque da Disney // foto reprodução G7 News

Como Chapek não se pronunciou, os funcionários da Disney compartilharam suas indignações nas redes sociais, obrigando, dessa forma, o CEO a falar. Chapek pontuou que para não confundirem sua falta de declaração com a falta de apoio, “todos compartilhamos o mesmo objetivo de um mundo mais tolerante e respeitoso”, acrescentou.

Não é de hoje que os fãs das animações da empresa  pedem por personagens que os representem. Desde 2013, com o sucesso “Frozen”, muitos levantaram a tag “dê a Elsa uma namorada”. Outro filme que acabou sendo sabotado foi o live action da “Bela e a Fera” (2017), a estreia foi adiada na Malásia, devido ao personagem Lefou, que mesmo não envolvido em nenhuma cena explícita de afeto, foi considerado um “momento gay”.

Campanha ‘#GiveElsaAGirfriend’ (dê Elsa uma namorada) // foto reprodução Twitter

O famigerado pink money – termo usado para a comercialização de produtos para o público LGBTQIA+ – entra em ação nas produções, como forma de abaixar a poeira frente às polêmicas. A Disney tentou melhorar sua reputação com o beijo de duas mulheres em “Lightyear” (2022), o próximo filme da Pixar que contará a história do Buzz Lightyear de Toy Story (1995). Um detalhe, esse beijo teria sido vetado pela Disney, mas a Pixar manteve.

Em 2018, a GLAAD (Aliança de Gays e Lésbicas Contra Difamação), apontou os estúdios com a menor representatividade da comunidade naquele ano, dos 110 filmes produzidos em Hollywood apenas 18% dos personagens fazem parte da comunidade e nenhum dos longas pertencem ao conglomerado da Walt Disney. A 20th Century Fox, que posteriormente foi comprada pela WD, contribuiu com 10% nas representatividades.

A Pixar, que atualmente faz parte do conglomerado da Disney, possui animações mais adultas comparadas aos filmes produzidos propriamente pela empresa do rato. O estúdio possui uma maior liberdade, um tanto falsa, para ter personagens dentro da comunidade LGBTQIA+, como foi visto em “RED: Crescer é uma fera” (2022), em que em uma das cenas teve a presença de um casal homossexual de mãos dadas. Entretanto, são detalhes que precisam de atenção para não passar despercebidos, já que essas demonstrações de afeto são rápidas.

Trecho de cena do filme “Red: Crescer é uma fera” // foto reprodução Disney +
Cena de “The Owl House” à direita // foto reprodução Disney +

Muitos funcionários da Pixar denunciaram a censura por parte dos executivos da Disney em uma carta resposta divulgada pela Variety, alegando a exigência de cortes em todos os afetos que sejam explicitamente gay. “Mesmo que criar conteúdo LGBTQIA+ fosse a resposta para consertar a legislação discriminatória do mundo, estamos sendo impedidos de criá-lo. Além do ”conteúdo inspirador” que não temos permissão para criar, exigimos ação”, apontam.

Dana Terrace, criadora de “The Owl House” (2020), usou seu Twitter para desabafar, após a série ter sido cancelada por desavenças criativas. “Estou cansada de fazer a Disney parecer boa. Eu sei que tenho contas a pagar, mas trabalhar para essa empresa me deixou perturbada.” O casal protagonista da animação seria formado por um relacionamento homoafetivo.

Ao mesmo tempo que essas grandes empresas apoiam projetos homofóbicos e falsamente representam a comunidade nas suas produções, o merchandising em cima da causa, estampando produtos com o arco íris da bandeira, cresce cada vez mais, tanto nos bonecos como em materiais escolares, por exemplo. 

Que a empresa do rato só pensa em dinheiro isso não é mentira para ninguém, a linha entre produzir e apoiar as causas e lucrar em cima dela é extremamente tênue, muitos acionistas olham apenas para o merchandising se aproveitando do pink money, porém ter esses produtos não significa que de fato apoiam e acolhem a comunidade LGBTQIA+. 

A Disney alcança um público gigantesco, desde seu conteúdo infantil até o adulto-juvenil, os estúdios ajudam a formar opinião de seus telespectadores, por isso que a inclusão de pessoas LGBTQIA+, tanto na equipe como nos personagens, é necessária, além disso promove o sentimento de pertencimento e que é possível ter produções explicitamente homoafetivas na Walt Disney.

FRENEZI EXPLICA: Cinema Além de Hollywood

A explicação do sucesso de Hollywood e análise do cinema ao redor do mundo

Por: Vitória da Rosa Geremias

Quando se fala em cinema, é impossível deixar de mencionar Hollywood. O distrito de pouco mais de 200 mil habitantes faz parte da cidade de Los Angeles, Califórnia, e é o maior responsável pela indústria cinematográfica dos EUA, com grande influência sobre o mundo inteiro. Hollywood é muito popular por seus blockbusters, ou seja, filmes super populares com alto rendimento financeiro, e hoje é considerada o polo mundial do cinema. Mas qual a razão para haver essa concentração produtiva e financeira nos EUA? Por que são os filmes americanos os mais populares, lucrativos, premiados e reconhecidos? O que há em Hollywood que favoreceu suas produções diante das outras indústrias cinematográficas?

Ao analisar a história de como tudo começou, o primeiro personagem a ser discutido é Thomas Edison, o inventor da lâmpada. Acontece que, entre o final do século XIX e início do século XX, o empresário criou um monopólio, juntamente com outros empreendedores que detinham patentes no ramo tecnológico, chamado Motion Pictures Patents Company (MPPC), com a finalidade de controlar e lucrar em cima de todas as produções no setor cinematográfico, causando má remuneração e altas cobranças de produtores e artistas.

O poder que Thomas Edison e a MPPC detinham sobre a cidade de Nova York influenciou essa classe criativa a se mudar para outra cidade em busca de “liberdade”. E então, começou a concentração em Los Angeles, a quase 4500 km de distância da metrópole nova-iorquina, a cidade se mostrava favorável pelo clima californiano, além de estar longe do alcance da MPPC. 

Nesse momento, surge a “Era dos Estúdios”, quando se desenvolveram em Los Angeles os grandes oito estúdios responsáveis pela produção cinematográfica estadunidense: United Artists, Paramount, Metro-Goldwyn-Mayer, Warner Bros, Fox, Universal, Columbia e RKO. Agora com o poder em suas mãos, os estúdios que faziam parte do Big Eight controlavam a produção e distribuição de conteúdo. Datam desse período os clássicos Casablanca (1942) e Cantando na Chuva (1952) que marcaram o cinema da época.

Cena do filme Casablanca com os protagonistas Humphrey Bogart e Ingrid Berman [Imagem: Reprodução/Veja]

No entanto, foi durante a “Era de Ouro” que a potência de Hollywood foi demarcada. Entre as décadas de 20 e 60, os avanços tecnológicos e os sucessos de bilheteria alavancaram a influência hollywoodiana sobre o mundo. Atores como Charles Chaplin, Marilyn Monroe, Carmen Miranda e Audrey Hepburn, se destacaram no cenário mundial. Foi também nesse contexto que surgiu a Academy of Motion Picture Arts and Science e sua primeira premiação honorária, que mais tarde veio a se chamar Oscar e permanece até os dias de hoje. 

O cinema estadunidense tinha uma fórmula extremamente comercial, o que o tornou bem sucedido. Por volta dos anos 60, influenciados pela contracultura, diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas mudaram o rumo do cinema.  A “Nova Hollywood” dava mais destaque aos diretores do que aos atores, e havia uma liberdade criativa que não havia se visto antes. Sucessos como O Poderoso Chefão (1973), Taxi Driver (1976) e Star Wars (1977) marcaram o período que se estendeu até os anos 80.

A partir da década de 80, um último movimento surge no cenário hollywoodiano, permanecendo até os dias atuais. Com a popularização das câmeras VHS, o cinema independente ganha maior espaço no setor cinematográfico, são obras com baixo orçamento mas alto potencial de lucro, visto que são produzidas por cineastas já experientes.

Assim, o cinema estadunidense pode ser resumido em três camadas: os blockbusters, altamente comerciais, com grandes orçamentos que são superados pelos sucessos de bilheteria; as produções mais modestas, com mais lucro que investimento; e por fim, o cinema independente. 

O CINEMA ALÉM DE HOLLYWOOD

Índia: Bollywood, A Maior Indústria Cinematográfica do Mundo

Cartaz do primeiro filme produzido em Bollywood, Raja Harishchandra (1913) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Porém, a potência cinematográfica estadunidense tem um concorrente de mesmo nível em termos de produção. Na Índia, mais especificamente, na cidade de Mumbai (também conhecida por Bombaim) fica Bollywood, a Hollywood indiana, onde os filmes de maior orçamento do país são produzidos.

O precursor do cinema bollywoodiano é o cineasta Dadasaheb Phalke, que em 1913 produziu o primeiro filme do país, o curta-metragem silencioso Raja Harishchandra. Com a chegada do cinema sonoro na década de 30, a Índia chegou a produzir mais de 200 filmes por ano, obtendo cada vez mais popularidade e sucesso comercial.  Embora o país estivesse muito afetado nos anos de 1930 e 1940, devido a Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial, o cinema foi como um respiro e uma fuga da realidade, apesar de muitos cineastas da época também abordarem temas políticos e de cunho social.

A “Era de Ouro” de Bollywood foi durante as décadas de 50 e 60, com musicais e melodramas que enchiam as salas de cinema. Foi nesse período que a Índia recebeu a primeira indicação ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”, com Mother India (em português, Honrarás a tua Mãe) de 1957.

Cena do filme Honrarás a tua Mãe (1957) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Como forma de rejeição ao mainstream do cinema indiano, surge por volta da década de 60 o “Cinema Paralelo”, um movimento cujo foco eram temáticas políticas, sociais, naturalistas e realistas que conquistaram os críticos da época. Na década seguinte, a indústria bollywoodiana é dominada por produções cinematográficas que incorporavam uma figura de “herói romântico”. Surge então, a primeira super estrela indiana, o ator Rajesh Khanna, que protagonizou 15 filmes do gênero de grande sucesso entre os anos de 1969 a 1971.

É durante a década de 70 que acontece a “Era Clássica” de Bollywood, e também o momento em que o cinema indiano recebe o apelido a partir da junção das palavras Bombaim e Hollywood. Foi nesse período de auge das produções indianas que uma dupla de roteiristas, Salim Khan e Javed Akhtar, redirecionaram o cinema do país. Trazendo narrativas sobre o crime na cidade de Bombaim, com conflitos violentos e que refletiam a precariedade e descontentamento do povo. Surge uma nova figura no cinema, o de “jovem homem revoltado”, que foi frequentemente protagonizado pelo ator Amitabh Bachchan.

Hoje, Bollywood é considerada a maior indústria cinematográfica do mundo e, durante os anos, puderam ser percebidos alguns padrões estéticos do cinema indiano. Por ser um país com uma cultura musical muito forte, os filmes geralmente apresentam cenas de dança e música. A maioria das obras produzidas são melodramáticas e folclóricas, as atuações musicais exageradas criam um espetáculo ainda mais dramático e artístico, se tornando um elemento diferencial do cinema indiano.

Rituais de conquista amorosa são temas muito comuns no cinema indiano, e apesar de romance e sensualidade estarem presentes na narrativa, cenas de sexo são censuradas no país. Os filmes também são famosos por suas tramas clichês: triângulos amorosos, dramas familiares, heróis e vilões, comédia e suspense são enredos que, por vezes, estão todos em uma mesma obra. Características como essas são as que fazem o cinema de Bollywood ser tão lucrativo, pois é o tipo de entretenimento popular que garante sucesso de bilheteria.

Cena do filme Lagaan: A Coragem de um Povo (2001), longa indicado ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro” em 2002 [Imagem: Reprodução/MUBI]

Coreia do Sul: A Nova Potência do Entretenimento Mundial

Cena do filme Em Chamas (2018), filme sul-coreano que representou o país no
 Oscar de 2019 [Imagem: Reprodução/IMDb]

Hollywood é a principal indústria cinematográfica do mundo, e Bollywood a maior, no entanto, atualmente um novo país tem se destacado como uma nova potência do cinema mundial: a Coreia do Sul. Até o final da década de 1910, somente filmes estrangeiros, a maioria ocidentais, eram exibidos nos cinemas coreanos. Foi então que Park Seongpil, um produtor e empresário do ramo cinematográfico, comprou um cinema e patrocinou o lançamento do primeiro filme coreano, chamado A Vingança Honrada (의리적구투), de 1919.

Entretanto, devido a colonização japonesa da época, o início do cinema coreano foi um tanto pobre em lançamentos. Os filmes mais famosos da época foram Arirang (아리랑) de 1926 e Ao encontrar o amor (사랑을 찾아서) de 1928, porém, nenhum deles existe mais nos dias de hoje.

Com a libertação do domínio japonês na Coreia, em 1945, o cinema nacional passou a crescer. O primeiro filme que representa e marca essa independência é o romance Viva, Freedom (자유만세), onde o protagonista foge do exército japonês após se envolver com o Movimento  de Independência e se apaixona por uma enfermeira. Ainda na mesma década, outros dois filmes fizeram sucesso e alavancaram o cinema coreano, sendo eles A prosecutor and a teacher (검사와 여선생), de 1948, e Hometown in My Heart (마음의 고향) , de 1949.

Cena do filme Viva, Freedom (자유만세), de 1946 [Imagem: Reprodução/MUBI]

Após a Guerra das  Coreias, na década de 1950, a indústria cinematográfica sofreu para se recuperar. Na Coreia do Sul, filmes com temáticas anticomunistas, além de romances e comédias, eram o foco da produção. Foi nesse período que o sul da península teve sua “Era de Ouro”, com ajuda do governo além de outras contribuições estrangeiras. 

O fim da “Era de Ouro” se deu pelos regimes ditatoriais, com censuras que começaram em 1948 e se tornaram mais brandas somente na década de 80, prejudicando a indústria cinematográfica coreana. A industrialização acelerada que tomou conta da Coreia do Sul, nas décadas de 70 e 80, ajudou o cinema a se reerguer. Entretanto, mais obstáculos surgiram, a crise monetária do FMI em 1997 e os conflitos militares com a Coreia do Norte atrapalharam a produção cinematográfica, mas, apesar dos empecilhos, os cineastas insistiram e assim surgiu um novo movimento.

Cena do filme Oldboy (2003), um dos primeiros blockbusters sul-coreanos 
[Imagem: Reprodução/IMDb]

O Novo Cinema Coreano trouxe consigo a era dos blockbusters, representado pela estreia do filme Shiri em 1999. A partir desse momento, várias produções coreanas passaram a fazer sucesso fora do país, como Oldboy (2003), O Hospedeiro (2006) e Em Chamas (2018). O movimento se mostrou forte durante as décadas seguintes e, em 2020, a Coreia do Sul marcou a história do Oscar. O longa-metragem Parasita (2019) ganhou, não somente, o Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”, “Melhor Diretor” e “Melhor Roteiro Original”, como também o de “Melhor Filme”, sendo a primeira produção não falada em inglês a receber o maior prêmio da noite. 

Quando o cinema sul-coreano passou a ganhar reconhecimento nos anos 2000, o governo do país criou um sistema de cotas a fim de investir na produção nacional e incentivar filmes independentes. Nasce então o grande diferencial da cinematografia sul-coreana: o balanço entre o comercial e o artístico/original. O diretor Bong Joon-ho (Parasita, O Hospedeiro, Okja, etc), por exemplo, é um dos cineastas que consegue conciliar a produção de um filme blockbuster contentando não somente o público mas também a crítica.

Hoje o cinema da Coreia do Sul é uma das três maiores indústrias cinematográficas do mundo, juntamente com as potências Hollywood e Bollywood.

Momento histórico em que Parasita é premiado com o Oscar de Melhor Filme, 
no ano de 2020 [Imagem: Reprodução/Globo]

França: O Berço do Cinema

Cena do filme Viagem à Lua (1902) [Imagem: Reprodução/Superinteressante]

No ano de 1895, na França, os irmãos Auguste e Luis Lumière inventaram o cinematógrafo, uma máquina de filmar e projetar imagens. Os dois eram engenheiros e filhos de um fotógrafo, e foi na cidade de La Ciutat que a primeira exibição cinematográfica do mundo aconteceu. 

Os primeiros filmes não tinham roteiro, e na verdade, serviam mais como documentários, porque os próprios irmãos Lumière nunca pensaram que a sua invenção teria finalidade comercial no futuro. Somente com o cineasta revolucionário, Georges Méliès, que via a cinematografia como uma extensão dos palcos, é que surgem os primeiros filmes com roteiro. As principais produções de Méliès são Cleópatra (1899), Viagem à Lua (1902), As Viagens de Gulliver (1902) e Fausto (1904).

As duas primeiras décadas do século XX eram dominadas pelo cinema francês. Infelizmente, com a Primeira Guerra Mundial,  a indústria de entretenimento francesa sofreu com a depressão econômica e isso favoreceu as produções estadunidenses, que acabaram ganhando espaço e público na Europa na década de 20. O governo francês a fim de ajudar os cineastas de seu país, estabeleceu uma lei que tornava obrigatória a exibição de um filme nacional a cada sete filmes estrangeiros.

O cinema nacional ainda não tinha se recuperado totalmente até a chegada da Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, da invasão alemã ao território francês, o que tornou ainda mais difícil a produção cinematográfica da época. Entretanto, existe uma obra de caráter nacionalista feita no período, que só foi exibida após o fim da guerra, O Boulevard do Crime (1945), filme de Marcel Carné, considerado por muitos críticos como a melhor produção francesa de todos os tempos. 

Cena de O Boulevard do Crime (1945) [Imagem: Reprodução/MUBI]

Entre as décadas de 50 e 60, na recuperação do pós-guerra que reergueu o país , surge um movimento artístico chamado Nouvelle Vague, que via o cinema como uma ferramenta para mudar o mundo. Impulsionados pelo Neorrealismo, o movimento nasceu entre jornalistas e críticos e ia contra o método convencional de fazer filmes. Os cineastas desse movimento eram adeptos de novas técnicas de direção e não necessitavam de grandes orçamentos. 

As principais características estéticas podem ser resumidas a longos planos sequência, roteiros improvisados e falta de continuidade. As temáticas abordadas eram de cunho existencial, com sarcasmo e ironia, principalmente nos momentos em que faziam referência a outras obras cinematográficas. O baixo orçamento também levou a inovações estilísticas no que se refere a cenário e equipamentos, fazendo com que os cineastas buscassem maneiras de expressão artística dentro do que tinham disponível. Mas o maior aspecto da Nouvelle Vague era ir contra a maré do mainstream e desafiar o espectador, revolucionando o cinema e criando novos métodos de direção, como a “quebra da quarta parede”, por exemplo.

A revista Cahiers du Cinéma era o principal meio pelo qual as ideias do movimento se difundiram. Foi lá que os jornalistas, críticos e cineastas da revista começaram a questionar o cinema vigente na França e o padrão narrativo das obras de Hollywood. Os principais nomes do movimento eram François Truffaut, Jean-Luc Godard, Éric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette. O filme considerado como pontapé inicial da Nouvelle Vague é de Chabrol, chamado Le Beau Serge (1958), que foi seguido por outros grandes exemplos do movimento como Os Incompreendidos (1959), de Truffaut e Acossado (1960), de Godard.

Cena do filme Os Incompreendidos [Imagem: Reprodução/MUBI]

O cinema francês na década de 80 passou a competir com as produções americanas, com produções mais caras, e a partir dos anos 90, os franceses levaram o cinema nacional a outro patamar. Liderados pelo cineasta Jean Pierre Jeunet, grandes obras como Delicatessen (1991), Ladrão de Sonhos (1993) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) marcaram o cinema internacional com atores talentosos e diretores premiados.

Cena do filme Piaf – Um Hino ao Amor (2007), que garantiu BAFTA, Globo de Ouro e 
Oscar de Melhor Atriz para Marion Cotillard [Imagem: Reprodução/MUBI]

Brasil: Uma Potência Emergente

Cena do filme Alô Alô Carnaval (1936) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Em 19 de junho de 1898, data que hoje é dedicada ao Dia do Cinema Brasileiro, dois irmãos italianos, Paschoal e Affonso Segreto, fizeram gravações da Baía de Guanabara, se tornando então, os primeiros cineastas do Brasil. Entretanto, foi no ano de 1897, no Rio de Janeiro, que o cinema chegou ao país pela primeira vez através de Paschoal Segreto, que trouxe para exibição uma série de curtas-metragens sobre o cotidiano das cidades europeias. Desde então, o cinema brasileiro vem crescendo e conquistando reconhecimento mundial, apesar de momentos de desvalorização e baixo investimento na produção nacional. 

A primeira década da sétima arte no Brasil passou por algumas dificuldades logísticas, visto que, a falta de energia elétrica era uma questão que impedia a propagação de salas de cinema pelo país. Foi entre os anos de 1907 e 1910 que o cinema se estruturou no Brasil, primeiramente exibindo filmes estrangeiros e produzindo documentários. Com uma base fortalecida, atores e atrizes foram surgindo e mais de 30 filmes foram produzidos nessa época. A primeira obra de ficção é de 1908: Os Estranguladores, um curta-metragem de Francisco Marzullo e Antônio Leal e é em 1914 que, O Crime dos Banhados, de Francisco Santos, se torna o primeiro longa-metragem brasileiro.

Foi na década de 30, com a criação do primeiro grande estúdio do Brasil, Cinédia, que a produção brasileira alavancou. É dessa mesma época o primeiro filme sonoro do país, a comédia Acabaram-se os Otários (1929), de Luiz de Barros, que foi seguida por outros grandes títulos como Limite (1931), de Mario Peixoto, A Voz do Carnaval (1933), de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro, e Ganga Bruta (1933) de Humberto Mauro.

Cena do filme Ganga Bruta (1933) [Imagem: Reprodução/IMS]

A dominação de Hollywood já era um fator recorrente e o público gostava das narrativas estadunidenses, logo, as histórias românticas e musicais que (quase sempre) terminavam com um final feliz, foram vistas pela Cinédia como uma maneira de aproximar o cinema brasileiro do público novamente. É nesse momento que a estética dos cenários grandes e brilhantes surgem, juntamente com a estrela Carmem Miranda, em produções nacionais como Alô, Alô, Brasil (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936). Para entender melhor a história do cinema brasileiro, leia o texto escrito por Rhaísa Borges, “O cinema brasileiro: dos primórdios à atualidade”.

Nigéria:  Nollywood, A Maior Indústria Cinematográfica Africana

Cena do filme The Amazing Grace (2006) [Imagem: Reprodução/MUBI]

Apelidado de Nollywood, o cinema nigeriano é a maior indústria cinematográfica africana, e está entre as maiores do mundo. Suas narrativas têm propostas autênticas e procuram representar a identidade africana, portanto, não se encaixam no perfil comercial das produções estadunidenses. A língua oficial do país é o inglês, o que ajuda a dar mais visibilidade para a representatividade cultural que os  cineastas propõem.

A indústria cinematográfica é responsável por ser a segunda maior geradora de emprego no país, é autossuficiente, ou seja, não necessita de financiamentos governamentais, e leva ao mercado interno e externo mais de 200 filmes por mês. Apesar do país ser o país com maior população no continente africano, ele não possui muitas salas de cinema, portanto, os lucros comerciais dos filmes são, na sua grande maioria, gerados pela compra de DVDs e aluguel de streaming.

Os filmes nacionais são tão populares para a Nigéria como as novelas são para o Brasil. A produção nigeriana de maior bilheteria é de Jeta Amata, chamado The Amazing Grace (2006), que teve cerca de 25 mil espectadores. As produções de Nollywood são a maior representação da cultura africana na sétima arte, e demonstra a necessidade de restabelecer a identidade e buscar suas raízes após anos de colonização britânica no seu território.

Cena do filme Lionheart (2018) [Imagem: Reprodução/Netflix]

A história do Oscar

Neste domingo, 27 de março, a 94ª edição do Oscar, a premiação de cinema mais famosa que existe, aconteceu em Los Angeles, nos Estados Unidos, no tradicional Dolby Theatre. O evento anual é apresentado por uma organização profissional sem fins lucrativos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, onde os melhores filmes do ano são homenageados. A Academia, sediada em Beverly Hills, foi fundada em 11 de maio de 1927 e teve sua primeira cerimônia realizada em 1929. Hoje, o Oscar é um evento multimilionário transmitido ao vivo pela televisão para mais de 200 países, tornando-se assim um dos maiores eventos midiáticos do mundo.

Louis B. Mayer, um dos fundadores da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), criou a Academia, porém, um dos principais atores norte-americanos do começo do século XX, Douglas Fairbanks, foi eleito o primeiro presidente da associação. Assim, em 16 de maio de 1929, à noite, membros da Academia e 270 convidados, encheram o Blossom Room por somente 20 minutos, no Hotel Roosevelt, para honrar as realizações cinematográficas mais proeminentes de 1927 e 1928.

Apesar da extrema crise econômica causada pela queda da bolsa de valores de Nova York, que deu inicio à Grande Depressão, a indústria cinematográfica passava por uma mudança dramática na época ao introduzir som pela primeira vez em um filme, O Cantor de Jazz (1927). Nesse momento, a indústria gozava de várias produções que movimentaram o evento, porém filmes sonoros de muito sucesso – que lançaram antes do primeiro Oscar – não foram considerados, porque foi visto como injusto compará-los a filmes mudos.

O primeiro vencedor do Oscar foi o ator suíço Emil Jannings, que ganhou o prêmio de Melhor Ator por seus papéis em dois filmes mudos, O Último Comando (1928) e O Caminho de Toda a Carne (1927). O romance Asas (1927), dirigido por William A. Wellmen e ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, ganhou o primeiro Oscar de Melhor Filme.

Emil Jannings, nome artístico de Theodor Friedrich Emil Janenz [Imagem: Reprodução/Correio Braziliense]

Uma estatueta dourada do Oscar é uma conquista sublime na carreira de cada diretor, ator ou atriz, compositor ou qualquer outra pessoa envolvida no processo de criação de um filme. O cobiçado troféu tem 34 cm de altura e é revestido com uma fina camada de ouro de 24 quilates, enquanto seu peso de 3,8 kg vem de seu interior de bronze maciço.

Em 1927, Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM, projetou o gráfico que serviria de base para a estatueta: um cavaleiro em pé segurando uma espada de modo protetor na frente de um rolo de filme com cinco raios. O rolo simbolizava a indústria cinematográfica e os raios representavam os cinco ramos originais da Academia.

No ano seguinte, Gibbons designou o escultor George Stanley para realizar seu projeto e desde então o design não sofreu mudanças significativas até hoje, nos mais de 90 anos em que já foi entregue, apenas durante a escassez de metal na Segunda Guerra Mundial, quando as estatuetas foram feitas de gesso pintado com tinta dourada. Após o conflito, o gesso foi trocado por metal banhado a ouro, que é como conhecemos hoje a estatueta do Oscar.

As estatuetas do Oscar nos bastidores durante a entrega do troféu em 28 de fevereiro de 2016 [Imagem: Reprodução/The Hill]

Segundo o jornal NY Post, desde que a primeira premiação aconteceu, mais de 80 Oscars foram roubados ou perdidos. Apenas 11 deles nunca foram encontrados – a maior parte das estatuetas foi achada em lixeiras ou catálogos de leilões, retornando para seus vencedores. O maior roubo da história do Oscar ocorreu em 2000, quando uma encomenda com 55 pequenas estátuas ainda não preenchidas com o nome de seus vencedores foi roubada por funcionários da empresa que transportava os prêmios de Chicago à Califórnia.

As origens do nome da estatueta são incertas, mas uma história popular diz que a diretora executiva Margaret Herrick pensou que a estátua se parecia com seu tio Oscar e então a equipe começou a chamar a o prêmio assim. Outra versão diz que a atriz Bette Davis o teria apelidado assim, dado a semelhança da estatueta com seu primeiro marido, Harmon Oscar Nelson. De qualquer maneira, até hoje esse apelido é o nome pelo qual o Prêmio da Academia é conhecido mundialmente.

Em 1953, o Oscar passou a ser uma atração televisionado e, a partir disso, ganhou cada vez mais projeção e status. Atualmente, o evento é transmitido ao vivo para diversos países, mas a Academia sempre está se equilibrando na corda bamba que é manter bons números de audiência. Assim sendo, a Academia está constantemente em busca de entregar modificações que garantam o interesse na premiação, principalmente aos expectadores mais jovens, como por exemplo o acréscimo de categorias, como a de Melhor Filme Estrangeiro visando a internacionalização do prêmio, e as aguardadas apresentações musicais.

Lady Gaga e Bradley Cooper foram o assunto do Oscar de 2019 após fazerem apresentação emocionante no palco da premiação [Imagem: Reprodução/G1]

Em 2019, a audiência do Oscar, somente nos Estados Unidos, atingiu quase 30 milhões de espectadores. A cerimônia de 1998 ainda mantém o recorde da maior audiência da História dos Prêmios da Academia, na qual foi registrado que 57 milhões de pessoas assistiram ao evento.

Os filmes nomeados para concorrer, assim como a escolha dos vencedores do prêmio, são decididos pelos membros da Academia. Na primeira cerimônia do Oscar, apenas 26 membros compunham a Academia. Hoje, presume-se que o número de membros seja de cerca de 8500 pessoas, mas apenas duas categorias são abertas ao voto de todos: Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro. As demais categorias necessitam de exímio conhecimento para que haja uma avaliação mais crítica, como por exemplo na categoria Melhor Documentário.

Embora a primeira cerimônia do Oscar tenha acontecido no final da década de 1920, muitas mudanças só aconteceram recentemente, como a composição dos membros da Academia. A indignação generalizada do público para que a Academia diversificasse sua composição de homens brancos e velhos e incluísse mais jovens, mais mulheres e mais pessoas de cor repercutiu-se e, felizmente, mostrou resultado nos últimos anos. Até 2012, as estatísticas revelavam que 94% dos membros da Academia eram brancos, 77% eram homens e mais de 50% tinham idade superior a 60 anos.

O procedimento de premiação também mudou. No primeiro Oscar, os convidados já sabiam quem eram os vencedores e, além disso, desembolsaram cinco dólares para possuir o privilégio de participar da cerimônia. No entanto, no próximo ano, a Academia decidiu criar uma sensação de suspense e, em vez disso, enviou de antemão uma lista dos vencedores aos jornais, com publicação embargada até às 23h da noite da cerimônia.

Esse sistema permaneceu em vigor pelos por 10 anos, mas em 1940, o jornal Los Angeles Times, popularmente referido como Times ou LA Times, quebrou o embargo e anunciou os vencedores em sua edição noturna, o que significa que os indicados descobriram seu destino antes de comparecer ao evento. Por isso, em 1941, o sistema do famoso envelope lacrado foi finalmente introduzido e os resultados tornaram-se um segredo bem guardado.

O método do envelope funcionou muito bem até 2017, quando uma confusão nos bastidores causou um embaraçoso anúncio falso: o musical La La Land: Cantando Estações (2016) foi erroneamente declarado como Melhor Filme. Apenas após a intervenção dos organizadores, o prêmio foi entregue para o vencedor correto, a equipe criativa por trás do drama Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016).

Momento histórico da gafe do Oscar de 2017 em que os envelopes de Emma Stone e Moonlight foram trocados [Imagem: Reprodução/Observador]

No decurso dos 90 anos de história do Oscar, algumas produções e artistas do Brasil concorreram em várias categorias. A última vez aconteceu em 2020, quando Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, concorreu na categoria Melhor Documentário. Entretanto, antes disso, O Pagador de Promessas (1963), O Quatrilho (1996), O que é isso, Companheiro? (1998) e Central do Brasil (1998) já disputaram na categoria Melhor Filme Estrangeiro.

Cidade de Deus (2004) e O Beijo da Mulher-Aranha (1986) receberam quatro indicações cada um. Contudo, o momento mais memorável para o país provavelmente fora a indicação de Fernanda Montenegro, em 1999, como Melhor Atriz, por Central do Brasil (1998), mesmo que a vencedora tenha sido a atriz Gwyneth Paltrow, por sua atuação em Shakespeare Apaixonado (1998).

A cerimônia do Oscar de 2022 não fugiu das mudanças trazidas pela pandemia de coronavírus, do domínio das mídias sociais, do decréscimo de consumo da televisão (graças em parte às mídias sociais), do surgimento de plataformas de streaming de grande sucesso e da cultura do binge-watching. Entretanto, a Academia, assim como a indústria cinematográfica que o Oscar celebra anualmente, foi resiliente e primorosa em readaptar-se de acordo com a necessidade do momento.

O Prêmio da Academia retornou ao Dolby Theatre após uma cerimônia reduzida no ano passado com convidados que respeitavam o distanciamento social e medidas de proteção, sem a presença do público. Neste ano, o evento não teve mais uma vez a presença do público, mas teve a presença exclusiva dos indicados e de seus acompanhantes e, pela primeira vez na história, um trio feminino comandou a cerimônia: Regina Hall, Amy Schumer e Wanda Sykes. Ademais, o Oscar não tinha anfitriões desde 2018, quando Jimmy Kimmel exerceu a função – as atrizes de Descompensada, Família Upshaw e Todo Mundo em Pânico retomaram à tradição após quatro anos.

[Crítica] A série De Volta aos Quinze é uma viagem no tempo para os adolescentes dos anos 2000 

Se você tivesse a oportunidade de voltar aos seus 15 anos, voltaria? Reviver todas as experiências, o primeiro dia do ensino médio, reencontrar os crushes e até mesmo aquelas brigas infantis? Foi o que aconteceu com  Anita (Maisa Silva e Camila Queiroz) da série “De volta aos Quinze” (2022) que teve uma experiência maluca viajando no tempo.

A série foi inspirada no livro homônimo de 2013, da escritora e youtuber Bruna Vieira. A história se passa em duas fases: a Anita adolescente, que é interpretada por Maisa e a adulta, protagonizada por Camila Queiroz. O elenco também é composto por Mariana Rios que faz a versão adulta de Luiza, irmã de Anita, João Guilherme, como a versão adolescente de Fabrício, Klara Castanho como  a versão jovem de Carol, entre outros grandes nomes.

Maisa Silva // Foto divulgação Netflix

O sentimento de nostalgia se faz presente em todos os capítulos, tanto nos figurinos marcados pelas calças de cintura baixa, os acessórios coloridos e de miçangas, como nas músicas dos anos 2000, câmeras fotográficas e até mesmo nas comunidades do ORKUT, que automaticamente remetem a uma época de saudade que aperta o coração mostrando como realmente foi a vida dos adolescentes brasileiros nesta época.

A série lembra as comédias românticas “De repente 30” (2004) e “Quero ser grande” (1988), porém neste caso, ao invés da protagonista ser adolescente, ela é  uma adulta insatisfeita com o rumo que sua vida levou. A trama também tem um dedo de “Efeito Borboleta” (2004), perceptível quando Anita, ao  voltar no tempo, não perde a oportunidade de mudar algumas situações e nisso perceber como cada ação refletirá no seu futuro e no das pessoas à sua volta.

O enredo não tem de muito inovador comparado a outros filmes e séries que tem como base a viagem no tempo, mas é uma história gostosa, leve e divertida de acompanhar num fim de noite, do jeito que uma comédia romântica clichê deve ser apreciada. 

De Volta aos 15 é uma ótima série para o público infanto-juvenil da Netflix, quem cresceu vendo a Maisa no SBT se diverte com a sua versão da Anita, brincalhona e impulsiva como toda adolescente deve ser. As atuações de maneira geral são medianas para boas, alguns personagens acabam sendo estereotipados, principalmente na fase adolescente, como é o caso de Fabrício sendo um badboy.

Pedro Vinícius e Alice Marcone / foto divulgação Netflix

Um ponto muito bacana foi na diversidade que a série abordou. César, um dos amigos de Anita, interpretado por Pedro Vinícius, acaba sofrendo muitos preconceitos durante a adolescência, pela forma de se vestir e sua sexualidade, porém sempre foi aceito pelo seu pai. Já na sua fase adulta, César passa a se chamar Camila, interpretada nessa etapa por Alice Marcone, uma atriz trans representando uma personagem trans, o que é uma representatividade muito boa para a comunidade LGBTQIA + no cinema, principalmente no cinema nacional.

Por ser dividido em dois elencos, é bem interessante ver ao longo da série a evolução e o amadurecimento de cada personagem, logo no primeiro episódio quando Anita volta para sua cidade natal e reencontra seus colegas da escola, ainda persiste a opinião de que são pessoas falsas, e os meninos continuam sendo os classificados como os típicos “boys lixo”. Conforme as  mudanças e desenvolvimento da trama ocorrem, as personalidades vão mudando e alguns coadjuvantes começam a ganhar mais destaque na tela perdendo certos rótulos que Anita dava a eles .

A consciência da protagonista permanece a mesma da Anita adulta, elemento  que torna a série curiosa, já que a personagem acaba sendo madura o suficiente em muitas situações e em outras age como se tivesse menos que seus 15 anos, tornando o enredo leve e engraçado, ao mesmo tempo que se deixa bater uma raiva pela  imaturidade da personagem ao não perceber as coisas óbvias.

A série possui  no total 6 episódios com uma média de 35/40 minutos de duração, ou seja, é perfeita para maratonar num dia de preguiça. A segunda temporada ainda não foi confirmada, porém tanto Maisa como Camila anseiam pela sequência, assim como os telespectadores, já que o final tem pontas soltas e que dão muita curiosidade sobre o que pode vir, sendo um possível gancho para uma continuação.

Assista ao trailer abaixo:https://www.youtube.com/watch?v=WLaFr5eem2o

[CRÍTICA] The Batman: o lado mais pessoal e sinistro do herói

Após diversos adiamentos nas gravações e na data de lançamento devido à pandemia do coronavírus, uma nova produção de um dos heróis mais queridos da DC, The Batman, estreou nos cinemas no início de março. O novo filme solo do Homem-Morcego é estrelado por Robert Pattinson (Crepúsculo), a direção foi comandada por Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra) e o roteiro foi escrito por Mattson Tomlin (Power) e Peter Craig (Jogos Vorazes: A Esperança).

Como começou nas HQs

Batman é um dos personagens mais queridos e populares da DC e de todo o mundo. Desde 1940, já foram vendidos 460 milhões de HQs do homem morcego, ficando apenas atrás de Superman que já vendeu aproximadamente 600 milhões de cópias. 

Em 1939, Batman foi criado por Bob Kane, que teve a ideia de desenvolver um herói sem poderes. Além de Kane,o escritor Billy Finger, que foi convidado pelo mesmo para ajudar a escrever o primeiro HQ, concedeu os elementos essenciais no universo do Homem-Morcego; colaborou fazendo o traje do personagem, criou o nome “Bruce Wayne” e originou os seus inimigos e aliados, como Coringa, Mulher-Gato, Robin, Alfred e entre outros. A primeira aparição do Cavaleiro das Trevas foi na revista Detective Comics #27, mas ficou popular apenas em 1940, após ganhar uma série de HQs próprias, Batman #1 foi a primeira revista publicada.

A revista Detetive Comics #27 apresenta o justiceiro pela primeira vez, mas a sua origem e introdução acontece em Detetive Comics #33, também lançado em 1939. Bruce Wayne é o filho do médico Dr. Thomas e Martha Wayne. Aos 8 anos, a vida do jovem Bruce muda  completamente ao presenciar seus pais serem baleados e assassinados pelo assaltante Joe Chill em um beco de Gotham, a cidade onde vive. Logo após esse homicídio, Bruce jurou que lutaria contra os crimes e começou a treinar intensamente para combater a criminalidade com suas próprias mãos como Batman. 

[Imagem: Reprodução/ DC Comics]

Com o sucesso das HQs, o homem morcego foi conquistando vários fãs, e várias adaptações cinematográficas e televisivas passaram a surgir, como Batman, dos anos 1960, interpretado por Adam West, a versão de Batman (1989) interpretado por Michael Keaton e dirigido por Tim Burton e sua sequência Batman Returns (1992), a aclamada trilogia de Cavaleiro das Trevas (2005–2012) estrelada por Christian Bale e dirigida por Christopher Nolan, que conta com a premiada atuação de Heath Ledger como Coringa. Por fim, antes de Pattinson assumir o papel do icônico personagem, o ator Ben Affleck deu vida ao milionário justiceiro atuando em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), Esquadrão Suicida (2016), Liga da Justiça (2017) e Liga da Justiça de Zack Snyder (2021), todos filmes do Universo DC.

[Imagem: Divulgação/ Warner Bros. Pictures/ HBO Max]

Em uma entrevista para Esquire, Matt Reeves, o diretor de The Batman (2022), afirmou que o longa não abordará a origem do Homem-Morcego, pois o público já a assistiu várias vezes: “Nós vimos isso tantas vezes. Foi feito à exaustão. Desde o começo, sabia que não deveríamos refazer isso”. Por tal razão, a nova produção será baseada nas HQs Batman: Ano Um, de Frank Miller, Batman: O Longo Dia das Bruxas, de Jeph Loeb e Tim Sale, e Batman: Ego, de Eisner Darwyn Cooke, que não abordam as origens do herói.

Confira a crítica sem spoilers

Em The Batman, em seus primeiros anos lutando com suas próprias mãos, Batman (Pattinson) enfrenta as injustiças e a bandidagem nas ruas sombrias de Gotham. Todavia, uma série de assassinatos surgem na cidade e o herói precisa, juntamente com Jim Gordon (Jeffrey Wright), desvendar os mistérios e enigmas feitos pelo vilão Charada (Paul Dano).

O trabalho de Matt Reeves de adaptar as três HQs em um filme é de forma certeira e bem encaixado no enredo. Apesar da produção ter quase 3 horas de duração, acompanhar os mistérios e desvendar os segredos ocultos durante as investigações do “maior detetive do mundo” não se torna muito cansativo, já que cada ação desenvolvida por Charada é bem trabalhada, assustadora e violenta. O telespectador fica cismado, impactado e grudado na telona pelo surgimento de cada enigma e código, que são montados como um quebra-cabeça até uma grande descoberta no final do longa.

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

Por ser bastante intenso, The Batman entrega um herói mais sombrio que as outras produções e mostra o lado mais pessoal, realista e profundo do personagem. O longa mostra que o herói tem suas cicatrizes externas e internas que o atormenta é visível, também, o trauma e a culpa que Bruce Wayne carrega pelo assassinato de seus pais. Embora ele guarde um rancor e tenha uma sede de vingança, a trama também desenvolve o amadurecimento de Bruce Wayne/ Homem-Morcego. Durante a exibição do longa, o  telespectador consegue sentir entusiasmo, tensão e nervosismo na poltrona, e também reconhecer a dor pelo olhar do protagonista.

Ademais, as cenas de ação são brutais, bem realistas e muito explícitas, esse combate corpo a corpo e os sons dos golpes são impactantes e estremecedores que faz o telespectador ficar inquieto na poltrona. O aparelhamento da trilha sonora dramática, assinada por Michael Giacchino, com as sequências de conflito e perseguição contribuem para a sensação de inquietação e aflição sempre presentes.

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

A fotografia, responsável por Greig Fraser, é um grande destaque do longa, os tons sombrios e acinzentados trazem esse lado mais aterrorizante na narrativa, principalmente nas sequências de luta e perseguição. Do mesmo modo que a cor vermelha representa a vingança que evidencia essa sede presente no Cavaleiro das Trevas. A mesclagem entre as cores, trilha sonora e cenas sinistras apresenta um longa amedrontador e impactante.

Após ser anunciado que Robert Pattinson receberia o manto do Homem-Morcego, a decisão foi bastante criticada devido ao seu trabalho na saga adolescente Crepúsculo. No entanto, o ator não se deixou abalar pelo julgamento e entregou uma atuação sinistra e arrepiante e conseguiu incorporar o lado intenso e sombrio da personagem. 

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

Outro destaque de atuação é de Zoë Kravitz interpretando Selina Kyle, a Mulher-Gato, assim como os vilões Charada e Pinguim, interpretados respectivamente por Paul Dano e Colin Farrell, que conquistam seus espaços na trama e entregam uma proposta impecável de seus personagens no enredo.

Por fim, The Batman é um dos melhores filmes do ano e pode receber indicações de algumas premiações, visto que promete entregar de maneira ousada uma proposta distinta das outras produções do herói ao desenvolver esse lado mais intimista da personagem, já que fica claro no longa que além da vingança, ele também luta por esperança. O final surpreende a todos fazendo com que o público vibre e espere ansiosamente pela possível sequência que pode ser ainda mais intrigante.

Confira o trailer abaixo:


[Crítica] Apesar dos esforços, a segunda temporada de Euphoria não atende as expectativas

No último domingo (27) foi ao ar o último episódio da segunda temporada de Euphoria, uma releitura da versão original israelense, que retrata jovens dos anos 1990. A série americana conta a história de um grupo de jovens que estudam no mesmo colégio, tendo como protagonista Rue, uma adolescente viciada em drogas desde a morte do pai.

A trama foca nos conflitos e traumas desse grupo de estudantes e mostra como cada um deles lida com seus problemas. Em sua jornada pela complicada fase da adolescência, os personagens cruzam com debates como identidade de gênero, sexo, consumo de drogas e autoaceitação. Desde 2019, a série faz sucesso e conta com 16 episódios ao todo e mais 2 especiais entre as duas seasons.

O destaque da obra é tanto que, se tornou a segunda série mais assistida da HBO, ficando atrás somente do clássico Game of Thrones. De acordo com a revista Variety, o episódio final dessa temporada nova resultou em 6,6 milhões de espectadores na HBO e HBO Max na estreia. Até o momento, a média de audiência é de 16,3 milhões espectadores só nos Estados Unidos. Já na América Latina, se tornou a série mais assistida no HBO, o que provocou mais de 34 milhões de tweets em todo o mundo, de acordo com o Twitter.

Mas o que culminou para tanto sucesso?

ALERTA DE SPOILER

[GIF: Reprodução/Giphy]

Na primeira temporada, a série introduziu seu elenco principal e os desafios que cada um teria que enfrentar, sempre focando nos eventos em torno de Rue. Ainda assim, houve espaço para o desenvolvimento individual de personagens, como Kat Hernandez e Maddy Perez. O segundo ano da série dá mais atenção para a nova relação entre Cassie e Nate, a história de Fezco e Ash, e a recaída de Rue, que enfrenta ainda mais tumultos na vida e na relação com Jules.

Assim como a nova temporada aproveita para destacar outros personagens, ela também acrescenta novos rostos à trama, como o de Elliot. Apresentado como um companheiro para as horas de usar drogas, ele logo se torna um grande amigo de Rue. Como uma faca de dois gumes, ele colabora para que a personagem de Zendaya permaneça nas drogas nos primeiros episódios, e também é uma peça-chave para ela ficar limpa.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Além de Elliot, a temporada também apresenta Laurie, a grande fornecedora de drogas da cidade. Com um temperamento diferente do esperado para uma traficante, ela mostra que é capaz de qualquer coisa para não ser passada para trás. Apesar de não ter protagonizado nenhum grande momento no segundo ano, talvez deva bagunçar a vida de Rue no futuro. Do contrário, a personagem terá sido desperdiçada como uma falsa promessa de potencial vilã.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

A grande produção conta com atuações impecáveis de Zendaya e Sydney Sweeney, que ao interpretarem personagens complexas, conseguem entregar uma grande variedade de emoções que convencem o espectador. O trabalho delas ganha mais destaque nas cenas em que ambas as personagens se encontram no fundo do poço, como quando Rue derruba uma porta aos chutes ou quando Cassie cria um ritual de beleza insano para chamar a atenção de Nate no colégio.

Outros grandes destaques dessa temporada nova foram os personagens Fezco e Cal Jacobs. A história de Fez foi muito bem explorada, mostrando até mesmo a infância do rapaz, e principalmente a trama de sua avó, que sempre apareceu em uma maca, mas que antigamente era uma excelente traficante, e foi com ela que aprendeu tudo o que sabe. Já o pai de Nate Jacobs, é mais desenvolvido a partir do momento em que a série volta no passado e mostra sua sexualidade, ou seja, tudo o que aconteceu até chegar no contexto atual de um adulto problemático.

E provavelmente, um dos maiores feitos dessa temporada foi protagonizado por Fezco, que briga com Nate Jacobs. A cena ocorre logo no início da trama, na festa de ano novo, onde Nate é espancado até ficar inconsciente por Fez, como vingança por ter a polícia invadindo sua casa e forçá-lo a jogar todas as suas drogas no vaso sanitário.

Em entrevista ao The Tonight Show com Jimmy Fallon, Jacob Elordi declara que “Eu acho que eu como Jacob, eu adoraria bater nele. Eu adoraria dar a ele um grampo nas orelhas. Mas como Nate, eu me sinto muito mal por ele. Eu tive que levar uma surra. Foi uma droga”.

Já Angus Cloud, em entrevista ao NME, deixou claro como se impressionou com como a cena era extensa, pois Fez passou cerca de 30 segundos agredindo o personagem de Elordi após acertá-lo na cabeça com uma garrafa de vidro. Depois, o ator afirmou: “Acho que Nate ganhou o que merecia, era o que precisava acontecer”.

Sobre o dia de filmagens da cena especificamente, Cloud relembrou como tomou boa parte do dia e foi muito exaustivo. “Foi bem intenso, mas um bom dia. É difícil, definitivamente, mas a energia está presente na sala, então você se aproveita disso, sabe?”, declara o ator.

Uma personagem que merece menção é Lexi, devido a peça Our Life, que antes foi nomeada Oklahoma. O espetáculo é totalmente inspirado na vida dos personagens, é a visão de Lexi Howard retratada totalmente sem filtro.

Desde a primeira temporada, ela era uma das personagens mais subestimadas, beirando a irrelevância para alguns espectadores. Contudo, o segundo ano do show mostrou que Lexi tem muito potencial, e ficou claro como ela é uma pessoa que sempre esteve a margem dos outros, como Cassie. Mas agora, se mostrou no centro do placo, e a peça era a única coisa que sentia estar em seu controle e que dava propósito para sua vida.

Apesar de icônica, o show é irreal para os parâmetros de uma escola de Ensino Médio, que nunca teria condições financeiras de arcar com uma produção daquele tipo. Eram vários detalhes e partes móveis que faziam parte de um cenário rotativo que agiam como uma extensão do corredor da escola, digna de um espetáculo da Broadway.

Mas apesar disso, conseguiu proporcionar muitos momentos incríveis, como a comparação de Lexi com a puberdade de Cassie, já que o monólogo revelou muito sobre a relação que ela tem com a irmã. Mesmo que com idades muito próximas, Cassie cresceu muito mais rápido do que Lexi, e ela acabou tendo um senso de autoconfiança distorcido por causa disso.

O ponto alto, sem dúvidas, foi a performance de Ethan como Nate ao som de Holding Out for a Hero. Lexi simplesmente mostrou para toda a escola a visão que ela possuía de Nate. Na plateia, é possível ver ele angustiado e cerrando os punhos, travando internamente uma batalha contra sua frustração sexual e sua masculinidade tóxica, ao ponto de quando Cassie tenta acalmá-lo, ele explode saindo do teatro dizendo que o relacionamento deles acabou.

Em entrevista ao Entertainment Weekly, Maude Apatow revelou que a inspiração para a peça está nos anos de ensino médio da própria atriz, quando viveu uma situação similar. “Faria sentido para Lexi ser uma criança do teatro. Eu era na vida real, e a peça é levemente baseada no meu último ano do ensino médio. Tivemos uma apresentação dirigida e produzida por alunos. Eu era a produtora e era como um tirano. Então, sim, é baseado em evento real”.

Além disso, o nome do penúltimo episódio da segunda temporada, The Theatre and It’s Double, é o nome original do livro O Teatro e seu Duplo do dramaturgo Antonin Artaud, então essa referência acaba fazendo sentido sabendo do que se trata a peça.

Por fim, Rue finalmente consegue passar um tempo longe das drogas após se aproximar do limite sob os efeitos delas e da abstinência. Nesse momento, Zendaya mostra mais uma vez o poder de sua atuação ao revelar a gritante diferença entre os estados da personagem. Para muitos fãs, ver a redenção de Rue após acompanhar sua dor por duas temporadas é um dos principais marcos do season finale, enquanto para a história, pode significar novas possibilidades no futuro.

Ainda que o segundo ano da série tenha uma grande lista de acertos e episódios individualmente incríveis, há um certo desnível no roteiro em comparação com a primeira temporada. Ao focar em novas histórias, Euphoria deixou importantes fatos de lado, como o aborto feito por Cassie e a tortura que a personagem de Alexa Demie, Maddy Perez, sofreu no segundo ano, o que foi completamente ignorada nos episódios seguintes. E algumas outras pontas soltas que ficam são:

Ashtray morreu mesmo?

Todo mundo sabe que, nas telas, uma morte só é definitiva quando o corpo é mostrado. Isso não aconteceu com Ash após ser supostamente baleado por um oficiail da S.W.A.T, então talvez ainda exista uma chance do personagem estar vivo.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

#Fexi vai acontecer?

A segunda temporada entregou um casal que nenhum fã da série sabia que precisava: Lexi e Fezco. Apesar de nem terem engatado em um romance, já foi suficiente para todo mundo torcer pelo casal. Contudo, o episódio chegou ao fim antes mesmo de Lexi saber porque o traficante não compareceu a peça.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Rue e a traficante Laurie

Uma trama que ficou muito mal resolvida foi o envolvimento de Rue com a traficante Laurie. A protagonista nunca vendeu as drogas que pegou, pois consumiu parte delas e o restante sua mãe jogou fora. Ela até levou alguns itens roubados para pagar a dívida, mas sabemos que não está quitada.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

O sumiço de McKay, figuração de Kat e polêmicas no set de Euphoria

Algumas histórias se perderam no desenrolar dessa temporada, como McKay, que construiu um relacionamento com Cassie durante a primeira season. O sexto episódio mostra uma cena no dormitório da faculdade, em que o casal transa mas um grupo de rapazes mascarados e seminus invade o quarto.

Aos gritos de McKay, os colegas arrancam o atleta da cama e o jogam no chão, se atirando sobre ele. A cena não mostra muito além e é muito rápida. Cassie, que troca mensagens com a irmã após a agressão, dá algumas pistas sobre o que pode ter acontecido de verdade, mas nem ela sabe ao certo. No banheiro, McKay parece muito abalado, mas faz questão de continuar a transa, transferindo para Cassie a agressividade que sofreu momentos antes.

A dúvida que fica é se ele realmente sofreu abuso sexual, mas conforme a história segue, isso não é respondido e na segunda temporada, o personagem só aparece no primeiro episódio, depois é cortado do enredo. Em entrevista ao The Daily Beast, o ator Algee Smith declarou “Eu realmente não tenho certeza, para ser honesto. Acho que esta é uma pergunta que deve ser feita ao nosso criador sobre como ele enxerga o rumo da história”.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Além disso, Kat foi outra personagem que foi apagada nessa segunda temporada, que embora seja coadjuvante na história de Rue, tinha bastante destaque e um arco de autodescobrimento bem construído. No último episódio, por exemplo, alguns fãs compararam a duração da música de Elliot com toda a participação da personagem na temporada.

Este não parecia ser o destino da personagem quando a temporada começou. Era muito claro que o relacionamento com Ethan, apesar de doce e confortável, deixava a desejar quando o assunto era sexo. Mesmo ela tentando não pensar a respeito, seu inconsciente o manifestava.

A jovem teve pelo menos um sonho intenso, no qual transava com um Dothraki, uma figura que não poderia ser mais oposta ao seu namorado. Ela aos poucos se dava conta, como Maddy mesmo disse que “existe uma diferença entre o que você acha que deveria querer e o que você realmente quer” e essa realização ameaçava a estabilidade que queria atingir.

Simultaneamente, ela vivia debates internos turbulentos sobre seu corpo e a pressão das redes sociais de ter que se achar bonita o tempo todo. Porque ainda que Kat tenha se tornado um símbolo de autoaceitação e body positivity, como toda mulher ela tem inseguranças, ainda mais considerando o excesso de posts de modelos, atrizes e influencers, todas magras e dentro do padrão, que ela consumia.

Por mais interessantes e relacionáveis que essas discussões pudessem ser, elas começaram a se desenrolar fora da vista do público, transbordando, no máximo, em diálogos pontuais, aqui e ali. Quer dizer, o dilema sobre sua autoimagem ficou pelo caminho, mas ela terminou com Ethan, ainda que de um modo desastrado e pouco característico. Eventualmente, a maior função da Kat passou a ser como um ombro amigo para Maddy quando o triângulo amoroso com Nate e Cassie se revelou.

Em entrevista ao The CutBarbie Ferreira afirmou que “a jornada de Kat nessa temporada é mais interna e um pouco misteriosa para o público. Ela está secretamente passando por crises existenciais. Ela perde um pouco o controle, como todo mundo nesta temporada“, como se dissesse que essa saída da personagem dos holofotes foi algo intencional. Contudo, não é essa a sensação que ficou ao assistir à segunda temporada. Parece que houve uma mudança inesperada no meio do caminho, praticamente um improviso que resultou no abandono do seu arco.

Rumores do The Daily Beast dizem que Ferreira se desentendeu com o criador, roteirista e diretor da série, Sam Levinson, sobre os rumos da sua personagem, o que teria culminado em duas ocasiões que a atriz abandonou o set e no corte de uma cena de sexo. Embora essas alegações possam fazer sentido diante da mudança abrupta na jornada da personagem e encaixem com a ausência de Ferreira na première de lançamento, elas estão longe de serem confirmadas.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Principalmente devido aos relatos divulgados pelo The Daily Beast, em que vários membros da equipe e figurantes afirmaram terem vivido rotinas de trabalho extremamente intensas, sem conseguirem se alimentar direito e ir ao banheiro quando precisavam. “Parecia tóxico para mim porque acho que ninguém estava realmente feliz por estar lá”, declarou um figurante que não teve a identidade revelada.

Outros profissionais declararam que a diária da filmagem poderia durar até 18 horas, às vezes começando no pôr do sol e terminando no amanhecer do dia. Embora o SAG-AFTRA – sindicato de atores de Hollywood – exija que o elenco nas produções seja alimentado a cada seis horas, alguns integrantes afirmaram que ficaram com fome enquanto esperavam no set. Um figurante alegou que ele e seus colegas de trabalho não eram tratados como pessoas.

“Eu entendo que estou fazendo um trabalho de figuração, não sou a pessoa mais importante lá, sei onde estou no totem. Mas chegou a um ponto em que eu estava tipo, ainda sou uma pessoa, ainda sou humana. Por favor, deixe-me ir ao banheiro, não me diga que não posso ir por 30 minutos ou me diga que não posso comer um lanche quando você não vai me alimentar e são 4 da manhã. Nós não existíamos como pessoas.”, detalhou acrescentando que vários figurantes teriam passado mal ao mesmo tempo devido aos problemas de produção da série.

HBO afirmou que a produção de Euphoria seguiu todas as diretrizes de trabalho estabelecidas pelo SAG-AFTRA. Em resposta reproduzida na Variety, a emissora afirmou: “O bem-estar de nosso elenco e equipe são sempre as prioridades de nossas produções. Euphoria seguiu todas as diretrizes de segurança dos sindicatos. Não é incomum que séries dramáticas tenham filmagens complexas, e os protocolos de prevenção da covid-19 adicionaram uma camada a mais nisso. Sempre mantemos uma linha de comunicação aberta com os sindicatos, incluindo o SAG-AFTRA. Não houve nenhuma reclamação formal realizada contra esta produção em específico”.

Além disso, a atriz Minka Kelly, que interpreta a Samantha na segunda temporada, afirmou a Vanity Fair que o diretor Levinson escreveu uma cena de nudez logo no primeiro dia de gravação. No entanto, Sam aceitou bem sua negativa ao pedido: “Ele achou que seria mais interessante se o meu vestido caísse no chão, era meu primeiro dia na série e eu simplesmente não me senti confortável em ficar nua ali. Eu disse que adoraria gravar, mas que poderia ficar com o meu vestido. Ele concordou e nem hesitou”.

[GIF: Reprodução/Tumblr]

Ao The Cut, Sydney Sweeney também revelou uma situação semelhante quando pediu ao showrunner para cortar sequências em que aparecia com os seios à mostra. “Há momentos em que Cassie deveria estar sem camisa mas eu dizia a Sam que não era necessário naquele momento, e ele concordava. Nunca senti que ele me forçou ou estava apenas tentando colocar uma cena de nudez em uma série da HBO. Quando eu não queria fazer isso, ele não me obrigou”.

[GIF: Reprodução/Giphy]

A produção artística por trás da história

Apesar de todas as polêmicas, é inegável que a produção da obra entrega um excelente resultado da história com toda uma construção através da imagem, figurino e trilha sonora. Por exemplo, a fotografia trouxe contrastes e referências que somaram muito ao contexto, não somente esteticamente, mas também na narrativa.

Se na primeira temporada trouxe tons escuros de azul e roxo, agora a tela ganha tons de amarelo e laranja. O primeiro ano da série foi gravado no digital, já a segunda foi concebida em filme Kodak Ektachrome. A ideia é causar uma sensação de que os espectadores estavam às cinco horas da manhã, já que logo no primeiro episódio teve uma festa que pareceu ser às duas da madrugada. 

E isso traz a reflexão de como uma tecnologia teoricamente em desuso, como esse tipo de filme, pode ter uma qualidade superior ao que é apresentado pelo digital.

Já um figurino é capaz de contar a história de um personagem ou de toda a série, transmitindo traços de personalidade, o período da história em que se passa, região, status, e muitas outras variáveis que podem ser comunicadas através da moda.

Um belo exemplo de storytelling em Euphoria, ocorre com as personagens Cassie e Lexi Howard. A figurinista responsável, Heidi Bivens, escolheu as marcas Prada e Miu Miu para contar a história das duas irmãs. No primeiro episódio, Cassie aparece usando uma sandália de couro branca da Prada. Já Lexi, ao decorrer dos episódios, usa diversas peças da Miu Miu.

Para muitos, Miu Miu é considerada a “irmã mais nova da Prada“, que mesmo sendo do mesmo grupo de donos, ambas possuem uma narrativa diferente. Prada foi criada em 1913 e suas peças representam o glamour e luxo. Já a Miu Miu, fundada em 1993, conversa com mulheres mais jovens, de modo que seja mais casual e divertido. E no contexto das duas irmãs na série, isso fica bem representado.

E seguindo uma tradição já imposta por Euphoria, em que a maquiagem e o arranjo de figurino são fundamentais, a continuidade das histórias das personagens foi ampliada na maneira em que se vestiam. Por exemplo, Jules permitindo-se construir sua própria identidade com as roupas que lhe agradassem os olhos e não que lhe atraíssem olhares ou até mesmo a Cassie, explorando roupas que agradece aos olhares do Nate.

Além disso, é possível ver diversas outras tendências de moda e beleza ao longo da obra, como as luvas usadas por Maddy, Jules e Kat; as diferentes golas exibidas por Lexi; todo o elenco fazendo uso de cores mais claras; o vestido de tule da Kat; o famoso conjuntinho da Cassie e da Maddy; o vestido preto icônico do designer mexicano Aidan Euan usado por Maddy; as famosas unhas de gel também utilizadas por Maddy; e os coques no cabelo por Jules;

E por fim, a trilha sonora, novamente sob responsabilidade de Labrinth, contou com as participações de Tove Lo, Noah Cyrus e Lana Del Rey. Também têm Zendaya cantando, compondo e produzindo junto de Labrinth, I’m Tired, que encerra a 2ª temporada. A colaboração dos artistas também foi em Elliot’s Song, música performada por Dominic Fike, durante uma conversa de Ellitot com Rue – a apresentação não agradou muito a audiência, visto que a música foi apresentada integralmente no episódio, ocupando mais de três minutos de cena.

Portanto, o diretor sabe filmar e faz um uso de uma câmera que a todo momento se movimenta, colocando o espectador como participante de diversos momentos da história. Os planos sequência usados, como o da cena de abertura, são primorosos e muito bem gravados e inseridos. Levinson faz uso dessas habilidades por saber fazer e saber inserir elas no contexto que deseja apresentar. Nada é colocado na produção de modo gratuito, tudo possui um propósito.

E mesmo abordando temas mais pesados, a primeira temporada tinha seus momentos de ternura. Já nesse segundo ano, eles são quase que inexistentes por apresentar uma narrativa sobre amadurecimento através da dor. É algo sombrio, cruel e bastante real.

Sam Levinson foi capaz de reafirmar o poder da série diante de seu público e mostra que a trama ainda tem muito a explorar. Atraído por atuações espetaculares, o espectador fica mais uma vez preso à tela esperando o próximo passo de seus personagens e desenrolar da história. Com novas possibilidades para os próximos anos, Euphoria encerra a segunda temporada reiniciando sua trama e prometendo um futuro esperançoso para seus velhos e novos personagens.

Quem foi Edith Head?

Edith Head, nascida em 28 de outubro de 1897, foi uma das mais ilustres e influentes estilistas na história do cinema , ajudando a definir o estilo de uma Hollywood na sua Era de Ouro. Em  seu repertório, que se estende por cinco décadas e mais de 1000 filmes, dentre diversas conquistas, reúne o recorde de oito estatuetas no Oscar por Melhor Figurino.

Pré-Hollywood

Edith nasceu em São Bernardino, Califórnia, filha de pais judeus Max Posener e Anna E. Levy. O casamento de seus pais não sobreviveu e quando Anna voltou a se casar, dessa vez com o católico engenheiro de minas Frank Spare, Edith tornou-se adepta do catolicismo. Durante a infância, sua a família mudava-se frequentemente, à medida que os trabalhos de seu padrasto mudavam e por conta disso, mais tarde, Head só conseguia se recordar de um dos lugares onde viveu quando jovem, Searchlight, Nevada.

Apesar de ter se formado com honras em Letras na Universidade da Califórnia em 1919 e no ano seguinte conquistado um mestrado em Línguas Românticas da Universidade de Stanford, Edith sempre foi muito interessada em design.

Procurando aumentar o seu salário como professora na Bishop’s School, ela se ofereceu como professora de artes, mesmo sem ter domínio completo de suas capacidades artísticas. Para compensar por essa falta, Head frequentou a Otis Art Institute e a Chouinard Art College no período noturno.

[Imagem: Getty Images]

“You can have anything in life if you dress for it”

Incrivelmente, pouco tempo depois Edith Head foi contratada como sketch artist, a trabalhar sob Howard Greer, figurinista principal na Paramount Pictures, lá ela permaneceu durante 43 anos. Mais tarde ela admitiu ter pegado “emprestado” alguns dos desenhos dos seus colegas para sua entrevista de emprego.

No início ela produziu trajes para filmes mudos, mas já na década de 1930 ela era considerada uma das mais importantes figurinistas em Hollywood. A princípio Head foi ofuscada pelos estilistas principais do estúdio, Howard Greer e depois Travis Banton, entretanto Edith foi instrumental na conspiração contra Banton que por conta do seu alcoolismo foi demitido, assim ela foi de assistente para Designer Principal.

Durante o tempo em que trabalhou para a Paramount Studios, Edith Head chamou a atenção do público com um vestido de pele de visom para a Ginger Rogers em A Mulher Que Não Sabia Amar (1944), estimado em 35 milhões de dólares, que é considerado um dos figurinos mais caros já feitos.

[Imagem: Shutterstock]

Já em 1949, com a criação da categoria de Melhor Figurino no Oscar seu nome ficou ainda mais conhecido, a estilista alcançou mais de 30 indicações e ganhou oito delas, a começar por A Valsa do Imperador (1948).

Head era a favorita de muitas estrelas femininas da época como Tippie Hedren, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, entre outros. Ela se destacava por manter ótimas relações com os atores que vestia, além de consultá-los extensivamente. Grace Kelly foi uma de suas parcerias favoritas, vestindo-a em quatro filmes diferentes, um dos seus looks icônicos é, por exemplo, o vestido azul em Ladrão de Casaca (1955) de Alfred Hitchcock.

[Imagem: Academy Film Archive]

Tornou-se uma personalidade reconhecível, por conta d seu estilo pessoal diferenciado e por sua personalidade sincera que inspirou a personagem Edna Moda de Os Incríveis (2004) e Os Incríveis 2 (2018). O visual de Edith era sempre simples e icônico. A estilista tinha uma preferência por óculos de armação grossa, tons neutros e peças conservadoras não apenas por se sentir bem, mas também para não tirar o foco de suas estrelas durante as provas de roupa.

[Gif: Tenor/Pixar]

Além de seus trabalhos principais, Edith ainda encontrou tempo em 1959 e 1967 para reaplicar o seu conhecimento em letras escrevendo os livros The Dress Doctor e How to Dress for Success, respectivamente.

Da Paramount para a Universal

Em 1967, possivelmente por influência de Alfred Hitchcock com já havia assinado as peças de 11 filmes, Edith Head iniciou um novo contrato com a Universal Studios trabalhou até seus últimos dias em 1981. 

Apesar de ainda ser muito admirada, a Hollywood dos anos 1940-50 já não era a mesma na década de 1970, Edith então passou a dar mais atenção a TV onde fez, por exemplo, o guarda roupa de Endora da série A Feiticeira.

Em 1974 a figurinista foi reconhecida por Hollywood e ganhou a sua estrela na calçada da fama. No mesmo ano ela recebeu seu último Oscar por seu trabalho em Golpe de Mestre (1973).

[Imagem: Everett]

Edith Head, não teve filhos e foi casada primeiramente com Charles Head, de 1925 até 1936, depois de se divorciar manteve o nome pelo qual ficou conhecida e só casou-se novamente em 1940 com Wiard Ihnen. Seu segundo casamento duraria até a morte dele em 1979. Até que quatro dias antes de seu aniversário e 24 de outubro de 1981 ela faleceu, vítima de uma doença na medula óssea.

[Imagem: Academy Film Archive]

Ainda que muito associada hoje em dia à personagem Edna Moda, Edith Head foi conhecida pela versatilidade de seus designs, entregando desde simplicidade e elegância até trajes excêntricos e chamativos, todos memoráveis na sua própria maneira. 

A queridinha das queridinhas de Hollywood é capaz de trabalhar até com os atores mais temperamentais. A “rainha dos figurinos” segue sendo um exemplo até os dias de hoje, não apenas por sua visão artística, mas por sua total determinação pelo sucesso e uma capacidade empática que permitia simultaneamente a expressividade nos seus designs, segurança aos seus atores e confiança dos seus diretores.

Os maiores compositores do mundo cinematográfico

A música no cinema, ou a presença do som, faz parte desde os primeiros filmes mudos oriundos da difusão do cinematógrafo pelos irmãos Lumiére em 1895. Nesse período do cinema mudo, de 1895 a 1929, a ausência das vozes dos atores fez com que a música fosse primordial para acompanhar as histórias, ambientar a intensidade das cenas, mas principalmente prender a atenção dos espectadores. Durante muito tempo, as canções eram tocadas fora da tela, com um pianista ou algum tipo de orquestração.

Com a evolução dos equipamentos de captura e edição de som, a junção de cada expressão visual – imagens – com os ruídos – som e/ou música – se apresentou desde sempre como vital para o cinema. Cada vez mais, ao longo da história do cinema, a música ou a trilha sonora criou uma simbiose com os filmes que os tornaram muito mais palatáveis e atraentes, o que tornou o ato de ir ao cinema uma ocasião de grande entretenimento. A música e a história de um filme são inseparáveis.

Além de moldar a narrativa de um filme e despertar a atenção do espectador, a música ou a trilha sonora, é uma poderosa ferramenta sensitiva e tem o papel de gerar ambientes emocionantes em diversos níveis, que podem ser confortáveis ou desconfortáveis, alegres ou tristes. Quando uma trilha sonora consegue fazer um espectador lembrar de qual filme pertence, ela alcançou a sua plenitude.

Um exemplo disso é uma simples cena de diálogo em um carro, que pode causar as mais variadas emoções em quem assiste. Quando uma música de tensão é colocada, uma sensação de que algo está prestes a acontecer vem à tona. Se é tocada uma música mais suave e delicada, sugere um envolvimento romântico entre os personagens. Já um instrumental épico, pode remeter a uma grande aventura. Um ruído perturbador promete um perigo eminente ou uma música melancólica insiste em encher os olhos de lágrimas.

As trilhas sonoras abrangem uma enorme variedade de estilos musicais, dependendo da natureza e gênero dos filmes que acompanham. A maioria das partituras são obras orquestrais, geralmente no estilo clássico, mas muitas também são influenciadas pelo jazz, rock, pop, blues, new age e música ambiente. Com o aparecimento da tecnologia digital, as partituras também incluíram elementos eletrônicos e software de composição musical.

Um compositor responsável pela trilha sonora de um filme, geralmente entra no processo criativo no final das filmagens, ou seja, mais ou menos na mesma época em que o filme está sendo editado, embora em algumas ocasiões ele esteja disponível durante toda a filmagem, especialmente quando os diretores gostam de iniciar suas produções com base no fundo musical e atores que precisam desenvolver suas atuações já cientes do impacto dramático ou emocional da música original. Em decorrência disso, abaixo estão alguns dos maiores compositores do cinema:

Hans Zimmer

Hans Florian Zimmer é um compositor e produtor musical alemão. Todas as suas obras se destacam por integrar sons de música eletrônica com arranjos orquestrais tradicionais. Desde a década de 1980, Zimmer compôs músicas para filmes famosos que incluem O Rei Leão – inclusive ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1995 -, GladiadorSherlock Holmes, a franquia Piratas do CaribeDunkirkBlade Runner 2049 e o filme mais recente Duna. Além disso, ele é o chefe da divisão de música para filmes nos estúdios DreamWorks.

[Imagem: Reprodução/Google]

John Williams

John Towner Williams é um compositor, maestro e pianista americano. Em uma carreira que já dura sete décadas, ele compôs algumas das trilhas sonoras de filmes mais populares, reconhecidos e aclamados pelo público da história do cinema como a saga Star Wars, eternizando a marcha imperial, também participou dos filmes do Indiana Jones, Superman e ET-O Extra Terrestre. Suas composições são consideradas o ápice da música cinematográfica e recebeu diversos prêmios.

[Imagem: Divulgação/LucasFilm]

Bernard Herrmann

Bernard Herrmann foi um compositor e maestro americano. Ele é amplamente considerado como um dos maiores compositores de filmes. Vencedor do Oscar, Herrmann é conhecido principalmente por suas colaborações com o diretor Alfred Hitchcock em filmes como Psicose, Intriga Internacional, O Homem Que Sabia Demais e Um Corpo que Cai. Colaborou também com o diretor Orson Welles no clássico Cidadão Kane.

[Imagem: Reprodução/Pinterest]

Alfred Newman

Alfred E. Newman foi um compositor, arranjador e maestro americano de música para o cinema. Ele também conduziu muitas adaptações cinematográficas de musicais da Broadway, o que o fez trabalhar com grandes nomes como Al Johnson, Gershwin e Chaplin. Além disso, foi um dos primeiros músicos a compor e conduzir canções originais durante a Era de Ouro dos filmes de Hollywood

Newman e dois de seus colegas compositores, Max Steiner e Dimitri Tiomkin, foram considerados os “três padrinhos da música cinematográfica”. Ele musicou Aeroporto, Morro dos Ventos Uivantes, Como Era Verde o Meu Vale, A Canção de Bernadette e O Diário de Anne Frank.

[Imagem: Reprodução/Vanity Fair]

A clássica abertura Twentieth Century-Fox Fanfare também foi uma composição de Alfred, que por muito tempo foi o chefe do departamento de música da Fox.

Nino Rota

Giovanni Rota Rinaldi, mais conhecido como Nino Rota, foi um compositor e maestro italiano que ficou muito conhecido por suas trilhas sonoras para filmes de Federico Fellini e Luchino Visconti. Ele também compôs a música para os dois primeiros filmes da trilogia de O Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola, ganhando o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original por O Poderoso Chefão II (1974), também faz parte da trilha sonora em Romeu e Julieta e A Doce Vida. Além de partituras, ele compôs dez óperas, cinco balés e dezenas de outras obras orquestrais, corais e músicas de câmara.

[Imagem: Reprodução/Google]

Danny Elfman

Daniel Robert Elfman é um cantor e compositor estadunidense de origem alemã, um dos maiores músicos da história dos Estados Unidos. Ele foi vocalista e líder do grupo pop new wave Oingo Boingo que vendeu milhões no mundo inteiro nos anos 80 e 90, e além disso, foi responsável por diversas trilhas musicais do cinema em Hollywood, como Vingadores: A Era de Ultron, abertura de Os Simpsons, A Noiva Cadáver e O Grinch do Jim Carrey.

[Imagem: Reprodução/Pinterest]

Howard Shore

Howard Leslie Shore é um compositor canadense. Ele já compôs trilhas para mais de 40 filmes, com seu trabalho mais notável sendo a trilogia O Senhor dos Anéis, que deram a ele três Oscars. Além disso, fez parte de Spotlight, a saga Crepúsculo e Gangues de Nova York.

[Imagem: Reprodução/Variety]

Phil Collins

Philip David Charles Collins é um baterista, cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical e ator britânico. Foi baterista e vocalista da banda Genesis, mas também atingiu grande êxito em carreira solo. Também atuou em alguns filmes e programas de televisão. Collins é responsável pelas trilhas sonoras de filmes como os clássicos da Disney, Tarzan e Irmão Urso, mas também em Vidas em Jogo, Paixões Violentas e O Sol da Meia-Noite.

[Imagem: Reprodução/GHZ]

Labrinth

É de se esperar que com o passar dos anos surjam novos grandes compositores e Timothy Lee McKenzie, mais conhecido pelo seu nome artístico Labrinth, faz parte dessa fase. Ele é um cantor-compositor e produtor musical inglês que inicialmente foi cotado para trabalhar como produtor, mas Simon Cowell – produtor das bandas One Direction e Fifth Harmony – o contratou para gravar suas próprias músicas como artista solo, e foram lançadas pelo selo Syco Music.

Os seus trabalhos mais recentes estão na atual série Euphoria, que se tornou um sucesso mundial, não só pela história desenvolvida por Sam Levinson, mas pelas canções desenvolvidas pelo artista.

No final da primeira temporada, Zendaya encena um verdadeiro espetáculo ao som de All For Us, quando Rue possui uma recaída. Essa grande representação musical do vício rendeu a Labrinth um Emmy de Melhor Música Original e Letra e já acumula mais de 25 milhões de visualizações no YouTube desde a estreia em agosto de 2019 – mas não é a única faixa do programa que explodiu nas mídias sociais.

Quando a primeira season da série estreou na HBO, era apenas uma questão de tempo até que inspirasse várias tendências nas redes sociais, com a estética brilhante do programa, temas adolescentes e roupas glamourosas arrancadas das prateleiras da Urban Outfitters marcando cada caixa na lista de verificação da Geração Z. 

Still Don’t Know My Name tornou-se a primeira grande tendência do TikTok do drama, com adolescentes vestindo looks e maquiagens no estilo Euphoria enquanto luzes multicoloridas piscavam atrás deles. Na segunda temporada não seria diferente, o hino da festa When I RIP e a faixa Nate Growing Up, que enfatiza temas de masculinidade tóxica em torno do personagem Nate Jacobs, foram alguns dos grandes sucesso.

O artista inclusive fez uma participação especial no quarto episódio da segunda temporada, onde ele aparece em uma cena de alucinação da Rue e performou as canções I’m Tired e Believe Me.

[CRÍTICA] ‘O Beco do Pesadelo’: A Reflexão de Del Toro Sobre os Limites da Ganância Humana

Após quatro anos do sucesso de seu último filme A Forma da Água (2018) o diretor mexicano Guillermo Del Toro volta à Holywood com um remake do filme de 1947 Nightmare Alley (aqui no Brasil com o nome O Beco das Almas Perdidas), e os fãs do diretor puderam checar em primeira mão a interpretação do mexicano sobre o clássico. 

Filme De Guillermo Del Toro Sobre O Beco Do Pesadelo Ganha Nova Data De  Lançamento - DESIGNE
Poster do filme de 1947 que no Brasil chegou com o título Beco das Almas Perdidas

A história, que trata-se de uma adaptação do livro homônimo de William Lindsay Gresham, segue Stanton Carlisle (Bradley Cooper) um jovem atormentado por um passado obscuro que se junta a um circo para trabalhar como ajudante. Sempre observador, prestativo e com certa pose de bom moço, Stan conquista seus colegas de circo, principalmente o casal de mentalistas Zeena (Toni Collette) e Pete (David Strathairn), que logo lhe passam todos os conhecimentos que utilizam em seu show de adivinhação baseado no charlatanismo. 

Apaixonado pela colega de circo, Molly (Rooney Mara), e almejando crescer na vida e proporcionar uma melhor condição à ele e sua amada, o ambicioso Stan logo percebe que os truques de Zeena e Pete podem ser utilizados a seu favor e convence Molly a sair do circo rumo a Nova York, onde passa a aplicar golpes como falso clarividente para a elite local. Sua cobiça aumenta quando conhece a psicanalista Lilith Ritter (Cate Blanchett), uma mulher tão ambiciosa quanto Stanton. Ambos começam a trabalhar juntos para aplicar um golpe em um magnata da cidade, até que as coisas começam a dar errado para o anti herói.  

O Beco do Pesadelo" assume clima de terror em novos trailers
Staton em um de seus shows de falsa clarividência / Imagem Divulgação

Um clássico conto de Ícaro, que narra a ascensão e queda de um personagem, O Beco do Pesadelo pode surpreender o espectador que chega aos cinemas esperando um terror fantasioso (devido ao nome do título), ao melhor estilo do diretor mexicano, mas se depara com um suspense noir dramático e reflexivo, que tem em seu cerne uma fábula sobre os limites da ganância humana ao trazer a história de um jovem atormentado, mas ganancioso e cego que toma escolhas duvidosas em busca da grandeza e de distanciar-se de um passado traumático. Del Toro (que co-escreveu o roteiro em parceria com Kim Morgan) traz em seu filme um verdadeiro conto moral sobre a personalidade humana de forma subjetiva, diferentemente do literalismo de suas outras obras, onde a monstruosidade humana era sempre mostrada na forma de criaturas e universos fantásticos. 

Apesar da surpresa pelo nome do título, o roteiro é um pouco previsível, sendo possível entender nos primeiros segundos que muitas das ações do protagonista se pautam em seu passado misterioso e profundo. E logo quando os primeiros passos do plano de Stan e os traços de sua personalidade passam a aparecer na tela torna-se previsível qual será o final de sua jornada. Fato que não é de todo ruim, já que é o caminho para sua ruína que prende o espectador e o atrai pelo absurdo da história.

Seu desenvolvimento é lento e gradual, repleto de contextualizações e ambientações, o que faz com que suas duas horas e meia de duração, divididas em três atos claros,  pareçam longuíssimas. Apesar da lentidão da trama e da extensa duração – desnecessariamente longo vale pontuar – O Beco do Pesadelo é um bom filme, mas que exige certa dose de paciência que talvez não seja do agrado de muitos espectadores acostumados aos filmes frenéticos e cheios de viradas rápidas de mesa dos heróis da Marvel. Uma jogada audaciosa do diretor mexicano e de sua equipe de produção, que optaram por trazer uma narrativa gradual em tempos de cinema frenético.

O elenco conta com, além de Bradley Cooper interpretando o protagonista, Cate Blanchett, Rooney Mara, Toni Collette, David Strathairn, Willem Dafoe, Richard Jenkins e outros nomes de peso. Bradley Cooper conquista entregando uma boa (apesar de não ser sua melhor) atuação para o vigarista sem escrúpulos, porém profundo, Stanton Carlisle e Cate Blanchett encarna de forma brilhante a personalização da figura de femme fatale – elemento importado das produções noir dos anos 40 – em sua doutora Lilith. A atriz domina as cenas e atrai os olhares na tela, apesar do protagonismo ultra centrado em Bradley Cooper, que atrapalha, de certa forma, o desenvolvimento de sua personagem e dos demais. A química entre ambos funciona e dá corpo à narrativa do segundo e terceiro atos. Willem Dafoe, ainda que apareça em pequenas participações, trás um excelente Cleim, já Rooney Mara e sua ingênua Molly não impressionam, talvez pelo fraco desenvolvimento da personagem.  

O Beco do Pesadelo' tem elenco rico e Del Toro de volta à sua boa forma -  26/01/2022 - Ilustrada - Folha
Rooney Mara e Bradley Cooper contracenando em O Beco do Pesadelo (2022) / Imagem Divulgação

Assim como seus demais longas, o filme segue a primazia pela direção de arte e fotografia, parte da assinatura do diretor e elemento que cria grandes expectativas em torno de suas obras. Guillermo Del Toro sempre foi conhecido por seus filmes esteticamente belos que flertam com o fantástico e preenchem o imaginário da audiência. O mexicano sempre foi excelente em contar histórias através de elementos imagéticos (como a cenografia, o figurino e a direção de arte como um todo) abusando dos recursos cinematográficos, e apesar de diferente, sem todo o exagero fantasioso clássico dos filmes do diretor, O Beco do Pesadelo não perde seu charme e o apelo estético característico de seus trabalhos. 

Del Toro é preciso, trazendo ao filme a atmosfera noir que pede a história através de jogos de câmeras, luz e sombra e ambiguidades que fazem alusão ao gênero, pincelando as cores da história com tons mais escuros de azul, dourado e leves acinzentados à medida que a trajetória de Stan muda de ambiente. 

As cenas iniciais do longa já trazem toda a atmosfera noir que perdura durante todo o filme, resultando em uma primeira impressão chocante à audiência que já está acostumada com a estética do diretor. Logo nos primeiros momentos o personagem de Bradley Cooper é rodeado por um cenário repleto de sombras e escuridão, de seu rosto pouco se vê, e Stan passa os primeiros minutos do longa sem dizer nenhuma palavra. É clara, a partir daí, a homenagem do diretor aos personagens masculinos clássicos de filmes do gênero: misteriosos e sombrios.

O figurino do filme, seguindo a premissa, entrega uma verdadeira ode aos clássicos noir dos anos 1940, sem perder a assinatura e identidade visual características de seus antigos trabalhos, principalmente nos figurinos de circo.

Staton Carlisle se veste como o clássico vigarista da década de 40, utilizando até mesmo o indispensável chapéu cobrindo parte de seu rosto. Já Cate Blanchett foi vestida como a própria femme fatale, com direito a vestidos pretos sensuais e batom vermelho.   

O Beco do Pesadelo” é uma produção sofisticada, mas com desenvolvimento  raso | Crítica
Bradley Cooper e Cate Blanchett como Stanton Carlisle e Lilith Ritter: homenagem ao cinema noir é vista também no figurino /Imagem Divulgação

Mesmo com tal mudança estética palpável, continua sendo um belíssimo filme aos olhos, ainda que o caráter fantástico do diretor esteja menos acentuado e mais diluído, aparecendo em poucos momentos da trama. É justamente nos primeiros momentos do longa, quando Carlisle ainda é um ajudante de circo, onde a assinatura visual do diretor mais aparece. As atrações apresentadas, os figurinos dos colegas de circo e toda a ambientação cenográfica se aproximam muito daquilo que vemos em seus antigos trabalhos.

Em um de seus primeiros momentos no circo, quando o “geek” (pessoa, geralmente usuária de drogas, que é capturada pelo circense para ser utilizada como atração) de Cleim (Willem Dafoe) foge de sua jaula e Stan, ajudando a caçá-lo, acaba por entrar em uma das atrações do circo é onde é possível enxergar aquilo que estamos acostumados a ver de Del Toro, ainda que permeado por uma atmosfera noir muito mais sombria.   

Bradley Cooper em cena da caçada ao “geek” em O Beco do Pesadelo (2022) /Imagem Divulgação

Em suma, O Beco do Pesadelo trata-se de um suspense e drama soturno ao melhor estilo noir e foge em partes das características que deram fama à Del Toro. Desta vez, o fantástico que ele sempre busca retratar não é tão presente – como se pode ver em suas criaturas em O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água – mas sim trata-se de uma abordagem mais realista e sutil do seu universo fantasioso. O diretor, no entanto, não perde o lado moral de contar as suas histórias, sempre trazendo à tela uma fábula que gera reflexão ao seu final, porém, desta vez, o filme possui um viés mais pessimista – seguindo a característica noir da trama – e um pouco mais escancarado e obscuro do que suas antigas histórias. 

O longa talvez não seja o melhor trabalho do diretor mexicano, mas é um de seus mais ambiciosos. Del Toro tentou sair de sua zona de conforto, e apesar de não ser brilhante, sua mais nova empreitada tem, no geral, um saldo positivo. 

Mesmo que cansativo e um pouco previsível O Beco do Pesadelo é um filme que vale a pena ser assistido. Até porque, fábulas morais que refletem sobre as facetas da personalidade humana são sempre bem vindas no cinema, e o longa de Del Toro endossa a importância de se utilizar de contos morais para propor a reflexão de até onde o mal caratismo humano pode chegar. E porque não fazer essa reflexão em um filme belo e primoroso que flerta com o fantasioso e o obscuro e que está nas mãos de um dos melhores diretores em atividade na atualidade? Só por esta razão, não há motivos para não vê-lo. 

Confira o trailer:

[Crítica] Spencer: “Uma fábula sobre uma verdadeira tragédia”

A aclamada produção, Spencer, estreou recentemente nos cinemas brasileiros depois de constantes adiamentos. Em 2021, o filme já tinha sido lançado no Festival de Veneza e foi bastante elogiado pelo público presente no evento. O roteiro do longa é assinado por Stephen Knight (Peaky Blinders), Pablo Larraín (Jackie) ficou responsável pela direção, Kristen Stewart (Crespúsculo) é a protagonista e interpreta a princesa Diana e, além da artista, o elenco é composto por Jack Farthing (The Lost Daughter), Sally Hawkins (Godzilla 2: O Rei dos Monstros), Timothy Spall (Encantada) e Amy Manson (Once Upon a Time).

Diana Francis Spencer era uma mulher humilde, simpática, espontânea e querida pela nação. Conhecida por ser defensora de causas comunitárias, e desmentir os mitos que existiam sobre as pessoas com AIDS e com hanseníase. A princesa visitava os pacientes e doava fundos para ajudar os hospitais. Por conseguinte, Lady Di acabou se tornando uma das figuras mais icônicas no século XX, tanto que ela foi intitulada, pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, de a “princesa do povo”.

[Imagem: Reprodução/ Getty Images]

No dia 31 de agosto de 1997, o mundo parou e se comoveu com a trágica morte de Diana que aconteceu no túnel Pont de L’Alma, em Paris, milhares de pessoas saíram pelas ruas para fazer homenagem à “princesa do povo” e o seu funeral foi assistido por aproximadamente dois bilhões de espectadores. No funeral, Conde Spencer, o irmão de Diana, disse: “Acima de tudo, nós agradecemos pela vida de uma mulher que tenho muito orgulho em poder chamar de minha irmã – a única, a complexa, a extraordinária e a insubstituível Diana, cuja beleza, interna e externa, jamais se extinguirá de nossas mentes”. Lady Di deixou um grande legado e continua sendo um dos membros mais populares da família real britânica.

A memorável trajetória da sua vida é, atualmente, lembrada pelo mundo, e também fez desenvolver diversas produções sobre sua história. No entanto, de todos os projetos feitos sobre a vida de Lady Di, Spencer consegue, por trás dos holofotes, mostrar um lado mais caótico, sobre a pressão de ser uma mulher perfeita e controlada pelas tradições da monarquia.

Ambientada em 1991, a obra dramática é focada na jornada interna da personagem. O telespectador se torna íntimo acompanhando o estado emocional da princesa Diana durante a vivência na realeza. Após rumores de traição, Diana percebe que seu casamento com príncipe Charles está chegando ao fim e, além disso, ela apresenta uma grande exaustão com as normas impostas pela Família Real. Portanto, Lady Di mostra-se sobrecarregada por tudo que está acontecendo ao seu redor e passa dias e noites bastantes turbulentos.

Por ser uma produção muito intimista, o telespectador acompanha cada passo da princesa e também percebe seu estado emocional abalado no decorrer do filme, conseguindo assistir detalhadamente a angústia e o aprisionamento que ela passa por conta do divórcio e das tradições da monarquia. Nota-se que Diana sempre tentava buscar apoio e procurava formas para tentar fugir daquelas situações e conseguir sua liberdade. Inclusive, a ansiedade e a inquietação podem ser apresentados pelo público que está consumindo a obra, é inegável a torcida para a monarca escapar daquele pesadelo.

[Imagem: Reprodução/ Diamond Films]

Vale pontuar que a saudade pela juventude antes de integrar a Família Real é um ponto importante na produção, Diana se sente perdida e não consegue se encontrar vivendo na monarquia. Ela tenta o possível reviver seu passado e faz de tudo para visitar sua casa. O local onde Diana morou na época da infância era um elemento significativo para a princesa, com objetivo de se livrar do sofrimento e alcançar a tranquilidade e a liberdade que tanto deseja.

Sobre a estética na produção, a brilhante fotografia e a trilha sonora são pontos muito fortes para comunicar-se com o telespectador e remetem a melancolia e a dor que a personagem de Kristen Stewart está sentindo.

Dirigida por Claire Mathon, a fotografia demonstra a proporção dramática de forma digna, a câmera consegue enquadrar o rosto da princesa e seu sentimento sobrecarregado, mostrando de perto a respiração ofegante, a sensação de tremor e os olhos lacrimejados. 

Aliás, é notável que as cores pastéis evidenciam um ambiente elegante e um cenário da realeza. No entanto, a intercalagem entre tons frios e quentes representam determinadas emoções da personagem. Os tons frios correspondem momentos em que Diana se sente desesperada com as situações que estava enfrentando e os tons quentes representam a alegria, conforto e paz, como nas cenas em que a princesa está com seus filhos, William e Harry.

[Imagem: Reprodução/ Diamond Films]

Além disso, a trilha sonora, assinada por Jonny Greenwood, parece ter sido usada para intensificar o estado emocional da personagem, o som dramático e instrumental se estende gradativamente nos momentos em que ela estava com um estado turbulento e tentava o possível para encontrar sua própria identidade. 

A sincronia entre a fotografia, a trilha sonora e as cores frias em momentos de tensão foi bem trabalhada, visto que o telespectador consegue sentir também aquele sufoco e nervosismo que a princesa Diana estava sentindo.

A atuação impressionante de Kristen Stewart é um grande destaque, Kristen evidenciou seu enorme talento como atriz no filme dirigido por Pablo Larraín. A artista consegue alcançar o ápice de sua atuação. Sua performance bem desenvolvida pode levá-la à uma indicação ao Oscar. Inclusive, segundo os críticos, Stewart pode ser a favorita ao prêmio da categoria de Melhor Atriz.

[Imagens: Getty Images/ Diamond Films]

Spencer é um filme bastante distinto de outras obras que foram adaptadas para contar sobre a vida da princesa de Diana. A nova produção consegue mostrar um lado mais sombrio de sua vida, e, de forma profunda, o que ela passou em seu casamento e a convivência com as regras rígidas da realeza. Além dos momentos despertadores que a personagem enfrenta, a produção traz assuntos muito delicados que podem ativar gatilhos para o telespectador. Por fim, a obra soube trazer a oportunidade aos telespectadores de assistir um trágico conto de fadas da personagem e se conectar profundamente com a história.

Confira o trailer abaixo.