Nicole Kidman e Ewan McGregor em Moulin Rouge (20010 [Imagem: Divulgação/Prime Video]

Trilha Sonora: A narrativa da música no cinema

Lá está você, na sala escura do cinema, rodeado por burburinhos de pessoas se acomodando para a exibição. A primeira coisa que provoca o silêncio dos murmúrios é o som de abertura do filme, que capta a atenção de todos em um aviso de que já vai começar. É naquele instante que se percebe que o clima de início é uma total atribuição da musicalidade.

Se você assistia animações musicais da Disney como O Rei Leão (1994) ou Toy Story (1994) na infância, sabe como suas canções fizeram esses filmes se tornarem atemporais. Até hoje, You’ve Got a Friend In Me e Hakuna Matata ecoam nas memórias e vivem em todos que assistiram os filmes enquanto crianças.

Eles são exemplos do poder que as trilhas sonoras têm de transformar totalmente as relações com o universo cinematográfico. Possuem responsabilidade por grande parte daquela sensação de proximidade que o espectador tem em relação ao filme e aos seus personagens. Assim, as soundtracks são selecionados ou até mesmo compostos para que sua experiência seja completa e, independentemente de em qual espaço você esteja assistindo, nada interfira no momento único que está presenciando.

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Uma breve história da música no cinema

Filmes são produções audiovisuais, o que significa que surgem da combinação entre áudio. Há mais de um século, quando o cinema ainda não era tão grande quanto hoje, não existia vínculo entre esses dois pontos.

Apresentado inicialmente em feiras abertas, as reproduções estavam expostas em meio a festivais multiculturais, ou seja, ninguém realmente estava absorto na narrativa como hoje, cuja realidade é de estarmos habituados a adentrar em salas totalmente preparadas, com o objetivo de assistir ao filme com atenção. Inclusive, as reproduções nem mesmo chegavam a possuir uma narrativa propriamente dita, o que, de fato, não exigia certo nível de concentração. Além disso, as obras eram completamente mudas.

Assim, com o desenvolvimento e crescimento da indústria cinematográfica, houve a necessidade de tornar o espectador imerso em um conceito narrativo posteriormente inserido no contexto da história do cinema. Como uma das táticas utilizadas para dar sentido àquela novidade, nasceu a ideia de fazer isso com o apoio da música.

Antes mesmo de sua exibição em salas de cinema, pianistas tocavam durante o desenrolar dos filmes, sendo eles os responsáveis por guiar a narrativa juntamente às imagens. Com os espaços específicos, a presença dos pianista se intensificou e desempenhou um papel essencial. Contudo, com o fim do cinema mudo no fim dos anos de 1920, diante de revoluções tecnológicas permitindo a sincronização de som e imagem, consequentemente a participação dos músicos deixou de ser requerida.

Mais a frente, com tal inovação na indústria, os cinemas gradativamente encontraram seus meios de transformar as narrativas no desejado. Dentro dessa ideia, não só diálogos audíveis foram inseridos, mas a música se consolidou como parte integral e indispensável.

O que há hoje em dia vem de um progresso significativo e da necessidade irremediável de se utilizar da banda musical como uma colaboradora que direciona o espectador ao objetivo daquela narrativa de distintas maneiras: acentua emoções, promove intensidade e age na submersão das pessoas dentro daquele contexto.

Uma melodia com tom misterioso oferece à cena a sensação de suspeita, bem como uma sonoridade que se apresenta com o intuito de causar medo e termina por provocar arrepios nervosos.

Para buscar exemplificar a marcação do tom inferido servindo para trazer enquadramento e pertinência, é cabível apresentar o longa Três Homens em Conflito (1966). A trilha composta por Ennio Morricone, consagrado compositor de Hollywood, é precisa ao delinear a entonação dos famosos filmes de “velho oeste”.

O impacto deixado por Morricone foi tão significativo, que até mesmo quem nunca chegou a assistir uma obra carregando a assinatura do compositor em sua trilha tem conhecimento de seu trabalho como um exemplo de canção memorável por conta, em principal, da canção The Good, The Bad and The Ugly.

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E se as trilhas sonoras não existissem?

Não está convencido de que a trilha sonora é um dos pontos mais importantes da construção de um filme? Então acredito que nunca tenha parado para pensar em como seria assistir uma produção cinematográfica sem música alguma.

A seguir, é possível compreender de que maneira uma das cenas mais célebres do cinema mundial, que fez e faz parte da infância de muitos ao redor do mundo, seria sem a canção tema. Assista a cena de The Circle Of Life sem a canção:

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Indo por uma outra vertente, também há a comparação de um filme que não é uma animação musical. Confira como certas cenas de Homem-Aranha (2002) seriam em a ausência de sua trilha:

Diferente, não? É inegável que, sem música, as cenas perdem a aderência do espectador. Além de, é claro, uma das coisas mais importantes: a magia. Há um sentido único em se sentar para assistir um filme, e a magia transmitida por eles faz parte do porquê de existir imensa paixão por esse universo.

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Nos bastidores das trilhas sonoras

Christine Baranski, Meryl Streep e Julie Walters, respectivamente, em Mamma Mia! (2008) [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

O filme como arte audiovisual é consideravelmente comum no dia a dia de muitos. Por isso, talvez alguns nunca tenham parado para pensar em quem seriam os responsáveis por selecionar cada música para cada momento. Essa responsabilidade usualmente é do chamado Supervisor Musical (também conhecido como Music Supervisor), cujo objetivo é unificar o contexto do filme ao objetivo da comunicação. Nas palavras do The Guild of Music Supervisors, o supervisor musical é “um profissional qualificado que analisa todos os aspectos musicais relacionados a filmes, televisão, publicidade, vídeo games e outras plataformas de mídias visuais emergentes, conforme necessário”.

O processo de seleção pode variar de diversas maneiras: No caso de musicais, as músicas podem ser originais, com todas ou a maioria das canções sendo compostas diretamente para o filme, como em La La Land (2017), o que viria a incluir outros profissionais como os compositores e produtores musicais, que exercem grandes papéis.

Quando no caso de musicais com canções não originais da obra, mas já existentes na indústria, como Mamma Mia (2008) da qual as faixas são sucessos da banda Abba, ou até mesmo Moulin Rouge (2001), de diversos artistas — apesar do longa apresentar, igualmente, uma canção original —, a seleção seria fruto da atuação quase que completa do supervisor musical, considerando intervenções do diretor da produção.

Leonardo DiCaprio em O Grande Gatsby (2013) [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Para trilhas sonoras de filmes que não do gênero musical, o mesmo esquema pode ocorrer. É mais comum que uma obra contenha canções já existentes e sejam selecionadas dependendo da ambientação das cenas, como em As Vantagens de Ser Invisível (2012) com Heroes, do David Bowie.

Por outro lado, múltiplas produções possuem uma música tema composta especialmente para ela. A popular trilha de Crepúsculo (2008) tem Decode, da banda Paramore, como canção tema da abertura da franquia, que chegou a ser indicada ao Grammy de Melhor Canção Escrita Para Filme em 2010. Enquanto isso, O Grande Gatsby (2013) conta com Young and Beautiful, da cantora Lana Del Rey, igualmente indicada ao prêmio supracitado, já no Grammy de 2014.

Se você tem interesse em saber um pouco mais sobre o que ocorre por detrás dos bastidores da escolha de trilhas sonoras, o documentário Into the Unknown: Making Frozen II, da Disney+, apresenta, em alguns de seus episódios, a demonstração do passo a passo do processo criativo e técnico da construção de uma trilha sonora.

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Trilhas sonoras marcantes do cinema

É claro que nós não poderíamos deixar de te levar a um passeio por algumas das trilhas mais marcantes da história do cinema. Pronto para uma dose de nostalgia?

Psicose (1960)

Assim que se ouve menção à produção, não há escapatória, senão seguir um caminho direto à cena do chuveiro em Psicose. As ricas composições de Bernard Herrmann não só marcaram a história do horror eternamente, mas colocaram sua criação entre as mais icônicas da trajetória do cinema mundial.

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O Poderoso Chefão (1972)

O Poderoso Chefão é uma obra aclamada pela crítica e sua trilha sonora não podia ser diferente. Constituída por doze faixas, as composições foram de atribuição do italiano Nino Rota, o responsável por transportar qualquer espectador de volta às cenas poderosas desse clássico.

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Star Wars (1977)

É inegável que a trilha sonora da franquia Star Wars ultrapassa a existência do filme para a qual foi criada, estando viva na memória até mesmo daqueles que nunca assistiram a nenhum dos filmes. Composta pelo ilustre John Williams — o mesmo que trouxe os soundtracks de Indiana Jones (1981), A Lista de Schindler (1993) e Harry Potter (2001) ao mundo —, ela foi vencedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1978 e esteve na décima posição da Hot 100 da Billboard dos Estados Unidos.

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O Guarda-Costas (1992)

Originalmente escrita por Dolly Parton, mas interpretada por Whitney Houston para o o longa O Guarda-Costas, I Will Always Love You faz igualmente parte do grupo de canções emocionantes e inesquecíveis.

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Titanic (1997)

Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original em 1998, Titanic apresentou uma das trilhas sonoras mais memoráveis da trajetória cinematográfica mundial. Só de pensar na cena de Jack e Rose na proa do navio ao som de Celine Dion cantando My Heart Will Go On, somos levados a lugares profundos de nossa própria história com o cinema.

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Lisbela e o Prisioneiro (2003)

Se você achou que deixaríamos o cinema nacional de fora, aqui está uma das maiores produções do audiovisual brasileiro: Lisbela e o Prisioneiro. Essa trilha conta com canções ilustres como Espumas ao Vento, de Elza Soares, e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, de Caetano Veloso.

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Afinal, qual o objetivo de tudo isso?

A arte em si tem como objetivo tornar a vida menos densa e mais suportável. Assim, a ideia do cinema, como uma arte que une a escrita, a fotografia, a música e muitas outras esferas, é de te fazer mergulhar em novas perspectivas. Para isso, se utiliza de todos os sentidos que podem despertar o espectador. Essa união oferece um refúgio que, para garantir efetivação, precisa do mínimo de interferência possível. O recanto, quando concede a sensação de conforto e até mesmo um espaço lúdico, se utiliza da musicalidade para trazer algumas dessas características, que garantem a imersão.

O objetivo da música no cinema é não só promover seu mergulho intenso, mas também guiar seus sentidos e sentimentos ao objetivo principal. É nortear sua emoção a vacilar quando, por exemplo, ouvir Anne Hathaway cantando I Dreamed a Dream em Os Miseráveis (2012), ou entregar felicidade com as canções animadas de momentos célebres de comédias românticas populares. O ponto principal é te levar em uma viagem, geralmente inesperada, ao desconhecido; que você encare a face do velho e do novo de diversas formas.

Agora que você já sabe tanto sobre música nos filmes, não deixe de conferir a nossa playlist repleta de soundtracks incríveis! E se essa leitura te deixou curioso sobre o universo cinematográfico, tenho certeza de que vale a pena dar uma olhada no Manual do Cinéfilo.

A Era da Nostalgia: O “Boom” Dos Remakes, Revivals e Reboots Em Hollywood

Reboot, remake, revival. Palavras cada vez mais comuns no universo cinematográfico, e que apesar das definições distintas, têm o mesmo propósito: nomear séries, filmes ou novelas que recriam e derivam de alguma outra já existente. 

Mesmo que tais produções sempre tenham existido na trajetória do cinema – os incríveis quatro remakes de Nasce Uma Estrela são a prova –  é inegável que, atualmente, há um grande número de conteúdos desse tipo sendo lançados. Hollywood está vivendo a era da nostalgia, mas qual seria a razão por trás disso? Por que mesmo com histórias já conhecidas pelo público esses lançamentos tornam-se sucesso de audiência? Essas talvez sejam aqueles tipos de perguntas que não tem uma única resposta,

Seguro e Lucrativo

Quando se trata do ponto de vista de Hollywood, a razão por trás dos investimentos em reboots, revivals ou remakes pode ser simples: é um investimento certeiro e seguro, que demanda pouco esforço de marketing por ter um público já formado e personagens já conhecidos, e que gera retorno financeiro significativo. Apesar do audiovisual ser uma forma de arte e proporcionar grandes momentos de genialidade (tanto de atores como daqueles que estão no backstage) há algo sobre a indústria do cinema que não pode ser deixado de lado: o dinheiro.

Mesmo que seja bom, um roteiro precisa se mostrar vendável – ou será engavetado. E, certamente, produções que relembram ou abordam outras de sucesso são vendáveis. Enquanto continuarem assim, serão repetidas diversas vezes pelos estúdios que visam o lucro por trás delas. Em Hollywood, fazer investimentos seguros e não errar é mais desejado do que investir em algo novo e acertar.

Essa postura regida pelo medo se intensifica ainda mais conforme as cifras vão crescendo: os filmes e séries encarecem cada vez mais a cada ano. Por essa razão, não é difícil imaginar que nenhum estúdio tem a intenção de investir milhões de dólares em um filme que não vá gerar o mínimo retorno. As sequências, franquias, remakes, prequels e outros diversos modos de se resgatar obras já conhecidas são a aposta perfeita nesse cenário. 

A Disney, por exemplo, tem colocado seus esforços e dinheiro em produções live-actions de suas animações clássicas, e pouco tem se arriscado em novos projetos (apesar das excelentes novas animações Soul e Luca). O estúdio tornou-se, hoje, um símbolo da era nostálgica que vivemos, já tendo lançado vários live-actions nos últimos anos.

Emma Stone como Cruella, em live action de mesmo nome da Disney. Estúdio tornou-se 
grande símbolo do “boom” dos remakes, reboots e prequels  atualmente.
(Divulgação: Disney,)

No entanto, essa lógica empresarial e industrial de escolher investimentos em projetos que sejam comerciais e com retorno certeiro não faria sentido se não houvesse reação positiva do público, uma vez que todas as decisões são tomadas pensando nela: a audiência.

O ponto de vista do telespectador é mais subjetivo e demanda explicações que ultrapassam a lógica de mercado que os estúdios seguem; essa subjetividade vem de sentimentos como a nostalgia e de características como a memória afetiva, emoções tão poderosas e reconfortantes que fazem as pessoas pagarem o ingresso do cinema ou assinarem um novo serviço de streaming para ver a mesma história.  

O cinema e a televisão como meios de comunicação massificados têm o poder de retratar a sociedade naquele momento. Em todas as gerações sempre haverá filmes e séries que as definirão e irão pautar seus comportamentos. É natural, portanto, que se crie uma memória afetiva por eles e os relacione aos tempos de infância, adolescência ou juventude… O que posteriormente, fará surgir um sentimento de nostalgia ao assistir tais obras novamente, anos depois. 

É esse o ponto que os reboots e remakes  buscam atingir: a volta ao passado. E a sétima arte é a escolha perfeita, já que pode transportar alguém de volta a um certo período como nenhuma outra poderia. 

Afinal, não é sobre isso a nostalgia? O sentimento e a vontade de voltar a um momento do passado onde tudo parecia mais simples, controlável e previsível? As frases “eu era feliz e não sabia” e “tempo bom que não volta mais” utilizadas pelos nostálgicos assumidos elucidam exatamente esse significado. Quando o presente é doloroso a volta a um passado aparentemente mais fácil parece uma ótima saída. Ainda mais em meio a uma pandemia recheada de incertezas políticas e de um iminente caos climático se aproximando. 

Humanos são controladores e pouco adaptáveis a mudanças em um primeiro momento. Um personagem já conhecido, uma história já contada, todos esses são terrenos muito seguros para momentos tão incertos.

Ao mesmo tempo, não se pode esquecer da série de memórias afetivas que rever tais histórias trazem à tona. Não se revê o mesmo filme buscando apreciar a história, se revê buscando resgatar aquelas mesmas memórias de momentos de pipoca, chuva e Sessão da Tarde ou de risadas no cinema com os amigos da escola. Mesmo que de forma inconsciente. 

Não só, a memória afetiva também está ligada diretamente aos personagens da trama, principalmente quando se tratam de séries televisivas. Elas costumam gerar mais memória afetiva em seus espectadores, pois os prendem por anos a fio contando as histórias dos mesmos personagens. Cria-se um laço com eles, uma boa memória, uma relação de proximidade com suas trajetórias e personalidades. É esse um dos componentes da receita de sucesso de Greys Anatomy (2005 – atualmente), por exemplo. Todos se sentem próximos de Meredith Grey.

A carismática protagonista de ‘Grey’s Anatomy’ (2005 – atualmente), Meredith Grey (Ellen Pompeo)
 (Divulgação: ABC)

Tal recurso é algo que pode a vir ser bem explorado para futuros revivals de outras produções que desejam voltar às telas: trazer de volta os sentimentos e as boas memórias que aqueles personagens proporcionaram. 

O uso de símbolos presentes nas produções que buscam o sentimento de nostalgia e memória afetiva também é muito presente. Aquela característica singular daquela produção específica que viria a definir uma geração. Símbolos são ferramentas poderosas de nostalgia, e não é só o cinema que os usam para tal. Quem não se lembra da famosa corneta azul de How I Met Your Mother (2005-2014), do sofá laranja de Friends (1994-2004), da livraria em Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) ou da dança final de Dirty Dancing (1987)?

Cena de ‘Friends’ (1994-2004) na famosa cafeteria Central Perk, local que abriga o icônico sofá laranja. 
(Divulgaçao: Warner Bros)

Quando se pensa em tais sentimentos pode-se perceber que diversos filmes e séries têm feito sucesso utilizando-se dessa receita. O novo reboot de ‘Gossip Girl’(2021) traz todo o clima do antigo seriado e resgata vários símbolos bem marcantes da série original:  a personagem Audrey que lembra Blair (e pasmem tem o mesmo nome da ídola de Blair Waldorf; Audrey Hepburn), os uniformes com saias repaginados  e os personagens sentados na escadaria do MET. Símbolos que despertam memórias e sentimentos nostálgicos nos jovens adultos de hoje, então adolescentes quando assistiram ao original. 

Personagens do reboot de ‘Gossip Girl’ (2021)  nas escadarias do MET (The Metropolitan Museum Of Art). Parece familiar? 
(Divulgação: HBO)

O revival de Sex and The City (1998 – 2004), que estreia esse ano, é precedido por dois filmes:  Sex and The City (2008) e Sex and The City 2 (2010).  Longas que souberam sabiamente adaptar suas tramas as vivências de seu público, já que nos dois casos as fases da vida das quatro amigas e suas problemáticas mudaram sem alterar a essência das mesmas, a modo de fortificar a memória afetiva do espectador e sua relação com as personagens que sempre fora de identificação com seus dilemas. Um outro bom exemplo de como usar a memória afetiva e a nostalgia em um comeback. 

Apesar de todas as produções citadas tratarem-se de filmes e séries que surgiram de outros já existentes, é possível vender nostalgia e mesmo assim apresentar um conteúdo original. É o que faz Stranger Things(2016 – atualmente), o produto mais nostálgico possível. Tudo no seriado da Netflix apela para a nostalgia daqueles que viveram sua infância e adolescência nos anos de 1980: os elementos de cena, a homenagem a produções famosas do período, os figurinos, as músicas…A série é um verdadeiro caldeirão de referências, que, mesmo assim,  mantêm sua trama original, sempre com a presença dos elementos oitentistas para contextos condizentes com o século XXI.

‘Stranger Things’ (2016- atualmente): elementos oitentistas fizeram a série tornar-se fenômeno. 
(Divulgação: Netflix)

Vale ressaltar e concluir que não é ruim sentir nostalgia, e que a reciclagem de filmes visando conquistar o público por essas vias também não. Basta que a produção não traga apenas a nostalgia pela nostalgia, o que vem sendo o caso de muitos desses lançamentos, como alguns live actions da Disney. Espera-se que essas obras tragam, também, o entendimento de que é bom valorizar o passado, sem deixar de reconhecer as melhoras e as mudanças do presente. 

Nesse ponto, a ideia por trás dos reboots e dos revivals bem elaborados parecem acertadas: trazer a mesma história, porém com novos personagens e/ou novas tramas que conversem melhor com os dias atuais. Reviver histórias sob outros pontos de vista, consertando passagens anacrônicas parece um bom jeito de trazer o passado de forma mais saudável e consciente. 

Don’t Watch-List

O que faz um filme bom? O diretor, o roteirista, o elenco? Ou o telespectador?

Durante a história do cinema, vários filmes foram elevados ao status de obra-prima (como por exemplo, O Poderoso Chefão) e outros… Nem tanto. Sabe-se que filmes são produções feitas por pessoas, mas quem são essas e como trabalham juntas é o que pode fazer um filme ser indicado ao Oscar ou ao Framboesa de Ouro. 

Como explicado no Manual do Cinéfilo, cada departamento é de extrema importância para o sucesso do longa. Mas e quando mesmo com grandes nomes, o filme desaponta? Quais são os pontos que precisam ser acertados para criar uma boa experiência para quem assiste? A Frenezi não traz, dessa vez, a lista das melhores produções já feitas; essa é a lista de decepções. 

É comum dizer que a beleza está nos olhos de quem vê, mas nesses casos, foi difícil manter os olhos abertos. Roteiro péssimo, más atuações, efeitos especiais mal feitos e enredo ruim no geral: todos os porquês para NÃO assistir os filmes a seguir.

Cinderella (2021)

Cinderella' Trailer: Camila Cabello Stars in Amazon Movie - Variety
Kerry Brown / Courtesy of Amazon Studios

O filme de estreia da cantora Camila Cabello foi lançado no dia 3 deste mês no Amazon Prime Video. Dizer que o filme é ruim seria um eufemismo. 

O enredo segue a história clássica da Cinderela: uma moça que perdeu o pai e é mantida como empregada pela madrasta e meias-irmãs, até ir ao baile com ajuda da fada-madrinha e depois casar-se com o príncipe. Com tantas recriações da mesma história, o que fez Cinderella (2021) ser tão decepcionante?

Apesar do elenco ter grandes nomes como Pierce Brosnan (Mamma Mia), Idina Menzel (Encantada) e Minnie Driver (Gênio Indomável), não foi suficiente para deixar o filme agradável. Com atuações rasas dos atores principais (Camila Cabello e Nicholas Galitzine) e um roteiro pobre, Cinderella deixou muito a desejar.

Um dos piores aspectos com certeza foram as músicas. Não foi o melhor momento para Cabello, que é cantora. Além das canções originais mal escritas, os covers de músicas famosas como Somebody to Love da banda Queen, Material Girl da Madonna e Am I Wrong de Nico & Vinz fizeram 1h53min de filme parecer uma eternidade. Toda a seleção musical do filme não faz sentido e parece bagunçado.

E sobre a bagunça: o figurino. Não é possível entender nem em que século a história deveria acontecer. Muitas vezes é optado pelos produtores manter uma certa liberdade no figurino quando o filme é fantasia, e isso pode ser muito bem feito, como em Cinderela (2015), mas não dessa vez. Mesmo tentando relevar os figurinos sem sentido dos figurantes, os looks apresentados por Cabello são extremamente decepcionantes.

The Timeless Costumes in Camila Cabello's 'Cinderella' Reference Chanel and  '80s Lacroix - Fashionista
Courtesy of Amazon Studios

Na parte mais esperada do filme, a transformação, Cinderella ganha um terno azul – uma tentativa fracassada de parecer progressista – e, só então, o vestido do baile. O vestido é tão feio que ela deveria ter ido de terno. A fada-madrinha interpretada por Billy Porter (provavelmente a única coisa boa nesse filme) com certeza estava melhor vestida do que a personagem principal.

Para finalizar: não foi nada mais do que um esforço em vão de alavancar a carreira de Cabello, que talvez, por enquanto, deva se ater a apenas cantar. Com um roteiro que tenta o tempo todo forçar um tipo de ideia do que seria feminismo, o longa permanece superficial e falha em inovar de forma bem sucedida.

Um Dia de Chuva em Nova York (2019)

Um Dia de Chuva em Nova York - O Ultimato | Ultimato do Bacon
Divulgação/ Imagem Filmes

Um típico filme de Woody Allen que, sem surpresa, desaponta. 

Na receita cansada de Allen, Um Dia de Chuva em Nova York apresenta mais do mesmo: um grupo de pessoas complicadas em alguma cidade famosa do mundo, dessa vez Nova York. Apesar de um bom elenco, que conta com Timothée Chalamet no papel principal, Selena Gomez, Elle Fanning e Jude Law, o filme é extremamente entediante.

Gatsby (interpretado por Chalamet) é um jovem pretensioso que leva sua namorada, a jornalista Ashleigh (Elle Fanning) para um fim de semana em Nova York. A relação é sem química, visto que os dois mal se veem durante os dias. Gatsby reencontra Chan (Selena Gomez), irmã de sua ex-namorada e Ashleigh passa seu tempo com o diretor Rolland Pollard (Liev Schreiber), nome que, estranhamente, lembra muito outro certo diretor com alegações pesadas de assédio sexual…  

Um dos maiores erros do filme deve ser a falta de empatia que o espectador cria por Gatsby, que só reclama sobre tudo e passa um ar antipático. Os diálogos sem sentido e uma narrativa sem fundamentos são aspectos que nem as boas atuações de Chalamet, Gomez e Fanning conseguem salvar. Ashleigh e Chaz são uma das poucas partes aproveitáveis do filme, mas o mérito é todo das atrizes, não do roteiro.

Além disso, o final também decepciona e não traz muita resolução para os personagens. Um Dia de Chuva em Nova York é mais um trabalho clássico de Woody Allen: pretensioso e entediante. O atrativo do filme (o elenco) é sabotado pelo diretor e simplesmente não vale 1h32min.

The Neon Demon (2016)

The Neon Demon – O Demónio de Néon, em análise | Magazine.HD

Mais um filme de Elle Fanning, infelizmente. Apesar de ser uma grande atriz e demonstrar isso no longa, a experiência de assistir ao filme é totalmente de virar o estômago.

O terror é dirigido por Nicolas Winding Refn e conta com nomes como Fanning, Abbey Lee Kershaw (Mad Max 2015), Jenna Malone (Jogos Vorazes) e Keanu Reeves (Matrix). A história fala sobre Jesse, que se muda para Los Angeles aos dezesseis anos a fim de se tornar modelo. Lá, ela lida com os desafios e tentações da indústria, assim como a inveja das outras modelos. 

Pensando assim, o filme não parece ser tão pesado. Mas é, e muito. The Neon Demon não é necessariamente ruim, pois cumpre seu papel de chocar o espectador, somado à linda fotografia e atuações incríveis. Mas não é para qualquer um e deveria ter uma classificação indicativa de dezoito anos, tendo em vista que apresenta várias cenas extremamente gráficas, como canibalismo e necrofilia.

É difícil assistir Jesse passar por tantos abusos e ver os outros personagens cometerem crimes tão nojentos. A cena com Keanu Reeves é totalmente assustadora e dá vontade de – fisicamente – vomitar. O pior talvez seja a última meia-hora, quando o dedo já está no botão de desligar do controle-remoto mas o enredo obriga a assistir até o final para ver até onde o horror continua. Spoiler: vai até o último minuto. 

The Neon Demon acerta o que queria acertar, mas vale a pena 1h58min de trauma? A resposta é não.

Gatinhas & Gatões (1984)

Prime Video: Sixteen Candles
Divulgação / Amazon

Um dos clássicos das comédias românticas adolescentes, Gatinhas & Gatões é um dos filmes mais amados da década de 1980.

Com a rainha do gênero, Molly Ringwald (de Clube dos Cinco e A Garota Rosa Shocking), o filme deve ser um dos mais decepcionantes do diretor John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado). Apesar de ter a receita para o sucesso com o combo Ringwald + Hughes, Gatinhas & Gatões não traz nada de novo.

Como todo filme adolescente dos anos oitenta, não dá para esperar grandes roteiros ou fotografia. Mas o que mais decepciona no filme são, é claro, as piadas machistas e estereótipos super manjados. Se não prestar muita atenção pode-se até aproveitar o longa, mas há momentos tão ultrapassados que hoje em dia são difíceis de superar.

Na pior cena do filme, Jake Ryan (Michael Schoeffling) diz para Ted (Anthony Michael Hall), que sua namorada está desmaiada de bêbada e que ele “poderia violá-la de dez formas diferentes, se quisesse”, Ted responde com “o que você está esperando?”. Depois, Jake deixa Ted levar ela para casa e diz para ele se divertir. 

Na época do #MeToo Movement, Molly Ringwald disse em artigo para o The New Yorker: “Se as atitudes em relação à subjugação feminina são sistêmicas, e eu acredito que são, é lógico que a arte que consumimos e aprovamos desempenha um papel no reforço dessas mesmas atitudes”, quando falando da cena mencionada acima. 

Se até Ringwald concorda que o filme é ultrapassado e não reflete os dias de hoje, talvez seja preferível escolher assistir Clube dos Cinco da próxima vez.

Ligeiramente Grávidos (2007)

Ligeiramente Grávidos | É bom e Vale a pena Assistir? Confira Trailer,  Sinopse e mais

Do diretor de famosas comédias besteirol, Judd Apatow, (O Virgem de 40 Anos), não acerta a mão desta vez.

Em Ligeiramente Grávidos, Katherine Heigl (queridinha das romcom) é Alison, uma jornalista que se vê em apuros quando engravida depois de uma ficada de uma noite só com o fracassado Ben, interpretado por Seth Rogen. Além dos dois, Leslie Mann (esposa de Apatow) e Paul Rudd estão no elenco. E nenhum desses nomes consegue salvar o filme. 

Talvez a culpa seja inteiramente de Seth Rogen, que por algum motivo, em todos esses anos de carreira, não consegue sair do mesmo typecasting e estraga quase todos os filmes em que atua. Ou talvez a culpa seja do roteiro péssimo que não engaja quem assiste e faz um filme que já é longo (2h13min), parecer mais longo ainda. 

Não é esperado uma grande obra-prima cinematográfica de uma comédia, mas essa nem engraçada é. O filme cria um sentimento de agonia e dó em relação à Alison, pois Ben não é nem um pouco capaz de criar um filho. O relacionamento é totalmente forçado e os dois não têm nada em comum, logo não é possível torcer pelo casal. 

O humor “de maconheiro” que sempre acompanha Rogen onde quer que ele vá, simplesmente não funciona e é extremamente irritante ao decorrer do filme. Ligeiramente Grávidos é mais um para a lista de filmes que não deveriam ter sido feitos.

Cats (2019)

Trilha sonora do filme 'Cats' tem Taylor Swift, Jennifer Hudson e mais;  ouça | Jovem Pan
Divulgação / Monumental Pictures

Não tem como fazer uma lista de filmes ruins e não incluir Cats.

É na verdade, impressionante, que um filme com atores de tanto renome como Judi Dench (007), Idris Elba (Thor: Ragnarok), Ian McKellen (O Senhor dos Anéis), e cantores incríveis como Taylor Swift e Jennifer Hudson, seja tão ruim. Talvez Cats seja o pior filme desta lista. 

É quase impossível assistir do começo ao fim. E é difícil apontar qual departamento mais errou, porque nesse caso podem ter sido todos. Os produtores falharam em entender que um musical quando adaptado para as telas, deve ter um ritmo diferente. As músicas e os diálogos não são bons e não conseguem segurar o enredo. 

Porém, o que definitivamente marca Cats como um dos piores filmes desse século são os efeitos especiais. A ideia de transformar os atores em gatos – literalmente -, não funcionou nem um pouco. É mais um dos obstáculos da passagem Broadway-Hollywood que Tom Hooper (diretor) não superou. 

Assistir aos atores mexendo as orelhas e enrolando o rabo não é algo que alguém queira ver e é praticamente humilhante. Esse filme deveria ser passado em câmaras de tortura. 

Thor (2011)

Ficha Técnica | Thor (2011) - Entreter-se
Divulgação / Marvel Studios

O filme marca a estreia de Chris Hemsworth como Thor no Universo Cinematográfico Marvel e até hoje é considerado o pior dos 23 filmes.

Thor (2011) introduziu um novo herói na época em que a Marvel Studios ainda estava construindo o seu império. Apesar de ser compreensível que os produtores estavam testando o terreno em termos de público e aceitação, o filme desaponta.

Mesmo contando com um elenco bom e efeitos especiais interessantes para retratar a terra fantasiosa de Asgard, esses aspectos não foram suficientes. O problema é quando Thor chega à Terra e começa um relacionamento com Jane (Natalie Portman). O casal não faz muito sentido no enredo e o humor é um tanto forçado.

Com o nível de produção dos filmes da Marvel, a história não agrada e é uma experiência entediante. Thor é totalmente esquecível – uma pena, considerando que o personagem é um dos mais engraçados e aprofundados da UCM. 

Let Them All Talk (2020)

CRÍTICA - 'Let Them All Talk': Soderbergh entre Bergman e Allen sem ser  incisivo
Divulgação / HBO Max

Este é mais um dos casos de um grande elenco que não conseguiu carregar o filme.

Lançado diretamente no streaming HBO Max em dezembro do ano passado, Let Them All Talk conta a história de três senhoras amigas de longa data que viajam juntas em um navio depois de anos sem se verem. O elenco tem nomes de peso como Meryl Streep, Dianne Wiest, Candice Bergen e Gemma Chan.

Não há dúvidas que as atuações são de qualidade, mas o roteiro teve um direcionamento curioso. O diretor Steven Soderbergh (Erin Brockovich 2000) deixou campo livre para que as atrizes improvisassem. Escolha muito interessante, mas que simplesmente não funcionou muito bem. 

A trama escorre muito lentamente e fica difícil entender sobre o que se trata. O roteiro (ou a falta dele) deixa confusa a intenção do diretor e os diálogos quase embalam o sono. 

Apesar dos personagens bem definidos e uma premissa interessante, Let Them All Talk transmite a mesma sensação que os filmes de Woody Allen (o que não é uma boa coisa). 

Esses são alguns exemplos de quando as engrenagens delicadas de um filme não funcionam tão bem quanto deveriam. 

Porém, é importante lembrar que em Hollywood nem sempre má qualidade significa más cifras, e alguns dos filmes acima fizeram relativo ou muito sucesso de bilheteria, o que evidencia que muitas vezes outros mecanismos fazem um filme se destacar: um casting poderoso, o pertencimento a uma franquia ou um diretor de renome encabeçando o projeto. Atrativos que podem fazer com que, muitas vezes, um filme não tão bem produzido; com um roteiro não muito bom; ou medonhos efeitos especiais lotem as salas de cinema, não fazendo jus a sua verdadeira qualidade.

O cinema brasileiro: dos primórdios à atualidade

Em 125 anos de história, o cinema brasileiro sofreu mudanças significativas e percorreu uma grande trajetória que até hoje está em constante progresso. Desde o início, o contexto socioeconômico, cultural e político nacional interferem na produção e estrutura cinematográfica brasileira, que faz com que a história do audiovisual seja separada em diversos períodos, tais como o domínio de Hollywood, o Cinema Novo, o Cinema Marginal, a crise da década de 80, a Retomada e a Pós-Retomada.

Contudo, no Brasil, comentários como “o cinema brasileiro é muito ruim, o internacional é melhor” e “filmes nacionais só têm palavrão, cenas de sexo e violência” são comuns. Você com certeza já ouviu frases do tipo, e sabe-se que, infelizmente, isso contribui para a disseminação de uma implicância com o cinema brasileiro entre o público, uma vez que tais julgamentos carregam preconceitos infundados.

A sétima arte no Brasil se desenvolveu tardiamente e enfrentou inúmeros impasses no caminho. Em 1950, os custos de produção eram altíssimos, já em 1968, a forte repressão da censura dos militares se tornou o problema. Hoje, produzir peças audiovisuais muitas vezes ainda é complicado, em razão da ausência de incentivos. Porém, mesmo com adversidades, o cinema produzido no país foi e continua sendo rico e grandioso, e é possível assegurar isso por várias nomeações e vitórias que brasileiros conquistaram em premiações do mundo inteiro, que contradiz os comentários preconceituosos comumente propagados pelo público. O que será que houve, então, para tamanha implicância?

Os primórdios do cinema brasileiro

O cinema surgiu no Brasil em julho de 1896, quando na cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, aconteceu a primeira sessão de cinema no país, organizada por Henri Paillie, um exibidor itinerante belga. No momento, Henri exibiu uma série de filmes curtos que mostravam somente imagens de cidades europeias.

Em 19 de junho de 1898, os irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto realizaram gravações na Baía de Guanabara. O curta-metragem Vista da Baía de Guanabara é considerado o primeiro filme nacional da história, embora não haja registros da obra. Por causa disso, nessa data é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

Os irmãos Segreto e mais cineastas da época, em razão do escasso fornecimento de energia elétrica no país, enfrentaram muitos problemas para realizarem suas exibições. Nesse período, a maior parte dos filmes exibidos eram estrangeiros e os brasileiros eram principalmente documentais – todos em preto e branco e mudos. Foi somente em 1907, com a melhoria no sistema energético do país, que o mercado cinematográfico progrediu.

Em 1908, com o curta-metragem que é considerado o primeiro filme nacional de ficção, Os Estranguladores, de Francisco Marzullo e Antônio Leal, produções ficcionais começaram a ganhar visibilidade. E, em 1914, o primeiro longa-metragem foi exibido, O Crime dos Banhados, dirigido por Francisco Santos. Os filmes “cantados”, nos quais atores realizavam dublagens ao vivo, também fizeram sucesso nesse tempo.

O domínio de Hollywood

A Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e durou até 1918, causou diversas consequências na indústria cinematográfica, tais como uma brusca mudança no mercado, o que desencadeou uma crise no cinema brasileiro. Desse modo, produções de Hollywood dominaram as sessões de cinema, na mesma medida em que as produções da Europa reduziram consideravelmente, e fez também com que os filmes nacionais fossem marginalizados.

À custa da consequente intermissão das produções hollywoodianas, o público brasileiro se acomodou com o clássico estilo dos filmes de Hollywood com narrativas que seguem uma sequência: início, meio e fim, sobretudo com finais felizes.

Por isso, em março de 1930, a Cinédia surgiu como o primeiro grande estúdio de cinema do Brasil. Nesse mesmo período, com avanços tecnológicos, a inserção de som nas produções se tornou possível. Assim, o estúdio começou a investir na produção de comédias musicais que seguiam o caráter hollywoodiano, como Alô, Alô, Carnaval (1936), dirigido por Ademar Gonzaga, que fez sucesso com a memorável Carmem Miranda como protagonista.

Entretanto, a Cinédia e demais produtoras que surgiram naquele momento não conseguiram se desenvolver no mercado nacional, visto que as produções estrangeiras só cresciam, mas, no final das contas, o cinema brasileiro resistiu novamente. Em 1949, o estúdio Vera Cruz foi criado, e se tornou um grande marco da industrialização do nosso cinema. Produzido no estúdio Vera Cruz, O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, foi o primeiro longa-metragem brasileiro a ganhar o prêmio internacional no Festival de Cannes.

As chanchadas, um novo gênero de comédia musical de baixo orçamento, encheram as sessões de cinema na década de 1940 até 1960 e eternizaram humoristas como Grande Otelo, Oscarito e Anselmo Duarte. Embora as chanchadas agradassem o público e retomassem a identidade brasileira, não agradavam a crítica. No fim dos anos 60, a pornochanchada despontou, explorava o erotismo – não a pornografia – e trazia filmes nacionais com muita malícia e humor.

Milton Ribeiro e Alberto Ruschel como Capitão Galdino e Teodoro em O Cangaceiro (1953) [Imagem: Reprodução/Twitter]

Cinema Novo

O Cinema Novo nasceu em reação à extrema desigualdade social no Brasil e foi um movimento de vanguarda que buscou representar o país inteiramente, sem a recorrente estética hollywoodiana. O cineasta Nelson Pereira dos Santos foi o precursor do Cinema Novo, estreou com Rio, 40 Graus em 1955, porém o movimento se firmou somente nos anos 60.

O Cinema Novo tinha como propósito relatar temáticas populares e induzir críticas sociais e políticas, à procura do realismo e com a pretensão de cessar a alienação causada pela comédia das chanchadas e pornochanchadas.

Nesse período, o baiano Glauber Rocha produziu obras que marcaram não só o Cinema Novo, mas o cinema mundial, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968). Vidas Secas (1963), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis (1964), dirigido por Ruy Guerra, também marcaram o movimento.

Cinema Marginal

Em 1969, durante a ditadura militar, a criação da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes) marcou a história do cinema brasileiro, recebeu assistência do rigoroso governo vigente para financiar filmes que estivessem de acordo com as premissas do regime. Desse modo, produzir filmes que induziam críticas como no Cinema Novo se tornou perigoso.

Com isso, o Cinema Marginal surgiu como um movimento de contracultura que também ficou conhecido por “udigrúdi”. Os cineastas desse movimento criaram a chamada “estética do lixo”, recusaram quaisquer narrativas já existentes e usaram do humor e do grotesco para produzir representações alegóricas sobre o estado do Brasil.

A crise da década de 80

Em 1980, os videocassetes chegaram no Brasil e se popularizaram, o que desencadeou uma crise no mercado cinematográfico. Além de que, nesse tempo, o país estava passando por uma crise econômica pós-ditadura. Nesse momento, a Embrafilme se concebeu como principal financiadora da indústria do cinema e chegou a ser considerada a mais importante empresa pública cinematográfica da América Latina.

Porém, a Embrafilme também recebeu críticas. No fim dos anos 80, uma forte campanha contra a empresa a acusou de desperdício e má administração. E, em 1990, com o início do governo de Fernando Collor, em razão da contenção de gastos, o presidente acabou com a produtora, com o Ministério da Cultura, com o Conselho Nacional de Cinema, com a Fundação do Cinema Brasileiro e com leis que providenciavam mais incentivos à produção brasileira.

Retomada

Em 1992, com o impeachment de Collor, Itamar Franco assumiu a presidência e a história do audiovisual brasileiro começou a mudar novamente. O governo Itamar Franco não só trouxe de volta o Ministério da Cultura, mas criou a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, que desenvolveu a Lei do Audiovisual.

Franco se livrou de tudo que estagnou a produção cinematográfica nacional para que o nosso cinema ganhasse mais uma chance, por causa disso o período é chamado de “Retomada”, que trouxe uma diversidade de gêneros. Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, é o primeiro de muitos longas-metragens realizados por meio da Lei do Audiovisual. Entre 1992 e 2003, a produção brasileira ganhou reconhecimento em premiações importantes, como o Oscar. Em 1999, Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, recebeu uma nomeação de melhor filme estrangeiro e uma na categoria de melhor atriz, para Fernanda Montenegro. Em 2003, o filme Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles, marcou o fim desse período. O filme de Meirelles foi indicado a quatro estatuetas no Oscar: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor direção de fotografia e melhor edição, além de ter ganhado o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira como Dora e Josué em Central do Brasil (1998) [Imagem: Reprodução/Twitter]
Leandro Firmino como Zé Pequeno em Cidade de Deus (2002) [Imagem: Reprodução/STUDIOCANAL]

Pós-Retomada

A Pós-Retomada é o período atual, que começou em 2003. É nela que o cinema brasileiro segue sua caminhada de resistência, com um incrível crescimento e diversificação no setor audiovisual. Hoje, o cinema brasileiro está consolidado com inúmeros filmes “vendáveis” no mercado, com os de comédia se sobressaindo na cultura popular, tais como Se Eu Fosse Você (2006), De Pernas pro Ar (2010) e Minha Mãe é uma Peça (2013).

Contudo, na medida em que as comédias fazem muito sucesso comercialmente, produções independentes cada vez mais estão sendo reconhecidas nos festivais de cinema internacionais, como por exemplo O Som Ao Redor (2012), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), Que Horas Ela Volta? (2015), Aquarius (2016), As Boas Maneiras (2017) e Bacurau (2019).

Fábio Audi e Ghilherme Lobo como Gabriel e Leonardo em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) [Imagem: Reprodução/Vortex Cultural]
Regina Casé e Michel Joelsas como Val e Fabinho em Que Horas Ela Volta? (2015) [Imagem: Divulgação/Globo Filmes]

A cinematografia nacional é extremamente diversa e melindrosa, e ao observar o cinema como representação artística, o cinema nacional é extraordinário quando se trata de reproduzir realidades e desenvolver um pensamento crítico. O Brasil produziu obras magníficas, difíceis de serem conhecidas quando se ouve comentários negativos sem fundamento.

O Manual do Cinéfilo

Sala escura, pipoca feita na hora, o som dos trailers  e aquele friozinho na barriga no início de um filme, é tudo o que um bom cinéfilo sentiu falta durante a pandemia da Covid-19. 

A oportunidade de apreciar um filme bem feito na atmosfera de uma sala de cinema é realmente indescritível, mas já parou para pensar na dinâmica por trás das câmeras?

Entender o que se passa nos bastidores de um set de gravações pode ser comparado com as engrenagens de um relógio: todas as partes possuem uma função autônoma, mas no fim do dia o relógio só mostra suas horas se todos os elementos trabalharem juntos. 

E para todos aqueles amantes de cinema, entender cada parte dessa peculiar engrenagem é essencial, dessa forma, segue abaixo um manual de como cada parte funciona para resultar em um bom filme!

Direção Geral

Quando pensamos em cinema, pensamos no Oscar, nos cineastas renomados que nos serviram filmes icônicos como E.T. O Extraterrestre (1982)  ou Titanic (1997)… E realmente é poético termos essa primeira visão sobre esse profissional, mas existem muitas camadas para se entender a complexidade de sua função.

O diretor de cinema tem a difícil responsabilidade de “tirar a história do papel”e torná-la real. Sua tarefa consiste em montar uma equipe de produção de audiovisual – isso engloba os cinegrafistas (cameraman), diretor de fotografia, diretor de arte, diretor de som e cada assistente associado ao departamento de audiovisual.  

Outro dever do diretor geral é definir o que chamamos de Proposta de Direção, que explica detalhadamente os caminhos que cada departamento do filme deve seguir. Som, arte, fotografia, cenografia, todos esses setores devem seguir as ordens da proposta de direção como dogmas. O documento em questão também facilita o trabalho de cada atividade dentro do set com referências e informações.

Diretor de Arte

A direção de arte de um filme consiste em planejar o conceito, a atmosfera visual da narrativa. Este profissional raramente trabalha sozinho, dependendo de outros funcionários que o auxiliam a atingir o conteúdo imagético para o filme. 

Existe até mesmo o que chamamos de “hierarquia de Desenho de Produção”no cinema, principalmente em longas metragens de alto valor envolvido. 

Em primeiro lugar, temos o Coordenador de Arte, que é responsável pela gestão administrativa e financeira do departamento de arte; em seguida, temos o próprio Production Designer ou Diretor de Arte, já mencionado; e por fim o Assistente de Arte, que a função geral consiste em acompanhar o planejamento do diretor e assegurar de que nada do plano visual seja esquecido durante as filmagens.

Importante lembrarmos de que dentro da função de Assistente de Arte existe uma subdivisão: primeiro e segundo assistentes. O primeiro assistente deve direcionar as equipes acerca das suas prioridades, organizar os horários de cada atividade, atualizar o plano de filmagem para o dia seguinte e observar os planos de filmagem para que não haja erro de continuação nas cenas seguintes .

Já o segundo assistente recepciona a chegada do elenco controlando os horários definidos para a ordem do dia; é responsável pelo andamento do camarim e supervisiona as atividades paralelas a gravação como provas de figurino, fotos de cenas e ensaios. 

O Grande Hotel Budapeste (2014), dir. Wes Anderson [Foto: Divulgação/Searchlight Pictures]

Diretor de Fotografia

A direção de fotografia possui a responsabilidade de juntar todos os elementos do planejamento de filmagem – sejam eles sonoros, de cenário ou roteiro, e construir com esses elementos as imagens em movimento. Cada cena, enquadramento, ‘take’ das câmeras deve seguir uma linha lógica de raciocínio que está sob a supervisão do diretor de fotografia.

Aspectos do local, dos figurinos e cores podem mudar completamente dependendo do manuseio das câmeras, provando a importância dessa função no set e do seu poder de influência no olhar óptico do espectador. 

O profissional à frente desse departamento deve supervisionar o foquista, o cinegrafista, os eletricistas, assistente de câmeras e equipe de luz para garantir que a atmosfera imagética pensada pelo diretor de arte e roteirista sejam atingidas. 

Detalhes como tipos de lente como uma 40mm ou 50mm, filtros, manuseio da câmera pela mão ou câmera fixa são todas decisões definidas pelo diretor de fotografia também durante o planejamento da Decupagem ou Shooting Board, que refere-se aos enquadramentos dos planos visuais de cada take do filme.

Ter um olhar artístico durante esse processo é o que define o estilo de fotografia de cada diretor, levando em consideração que cada estilo pode ser interpretado como uma assinatura desse especialista. 

Alguns dos diretores com estilos singulares de fotografia são Wes Anderson com sua inusitada paleta de cores em filmes como O Grande Hotel Budapeste (2014); Woody Allen com seus enquadramentos em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977); clássicos como Kubrick em O Iluminado (1980); e Del Toro, que aproveita de sua sensibilidade como um artista plástico em sua filmografia também.

Outras personalidades importantes do cinema como Tarantino e Sofia Coppola também traduzem sua visão artística por meio de um estilo de fotografia específico.  A lista não para desde Scorsese em Goodfellas (1990), passando por Spike Lee, Spielberg e Chloe Zhao, todos diretores que transmitem sua personalidade através da lente de uma boa câmera.

Produção

Podemos dizer que o cargo mais importante na pirâmide hierárquica do cinema é o Produtor. Cada decisão, do início ao fim do projeto, é tomada pelo produtor de cinema. Sua tarefa  começa na tentativa de convencer os investidores de que o projeto vale a pena a ser investido e trará altos números de bilheteria, e alta lucratividade .

Resumindo, seu papel fundamental é garantir a verba necessária para a rodagem do filme. O produtor pode estar envolvido na parte criativa ou pode ser apenas um investidor. 

Escolha de locações, cronograma das filmagens, proteger os direitos da obra, supervisionar o elenco, controle do orçamento, formação de toda a equipe desde o roteirista até o assistente mais básico da cadeia profissional – tudo fica a cargo do departamento de produção. 

A fim de ajudar o produtor, o gerente de locação deve obter a autorização de uso dos locais escolhidos, enquanto o gerente de produção  controla os gastos diários da produção. Torna-se importante também traçarmos a diferença entre Produtor e Produtor-executivo, o primeiro é responsável por administrar o dinheiro enquanto o segundo é encarregado de garantir o financiamento para o filme.

A produção precisa ter uma linha de comunicação direta com os roteiristas e os diretores  para se certificar de que o projeto está seguindo o plano pensado originalmente pelos acionistas e garantir sucesso de vendas.

Nas fases finais do projeto, este especialista continua em negociação com o diretor e equipe de pós-produção para definir as estratégias de marketing para a divulgação do filme.

Roteiro

Todo filme com uma narrativa envolvente é pensado, escrito e reescrito por uma equipe de roteiristas que não só entende de literatura, mas acima de tudo sabe adaptar a história para a sétima arte. Estes profissionais devem estar atentos à proposta do projeto, tipo de obra audiovisual, exigida pelos diretores e produtores. 

O roteiro nada mais é do que um documento sobre o que deve ser capturado pelas câmeras e a forma como isso deve ser orquestrado pela equipe de direção. Cada projeto precisa de técnicas diferentes de linguagem para apresentar a história contada, seus personagens e ambientes por meio do roteiro.

Um bom roteirista sabe aplicar e abusar das boas estruturas narrativas para não só garantir a riqueza do conteúdo mas também para atender aos padrões do mercado de cinema. Depois de várias mudanças na fase de desenvolvimento do roteiro, e com a aprovação da versão final, o projeto começa a ganhar “corpo, nome e sobrenome”, e sua produção finalmente se inicia.

Casting

A escolha do elenco de um filme é papel do diretor de elenco, que organiza o processo de casting, audições, testes de química (interação) e callbacks. O elenco entra no projeto depois de aprovado a versão final do roteiro, que muitas vezes já é escrito com alguns atores pré definidos.

Houveram até casos em que alguns destes atores pré definidos, chegaram a participar da produção (financiamento) do filme em que atuaram. Vale lembrar que os atores pensados previamente são contratados com base em um admirável portfólio ou por estarem em alta na mídia. 

A curadoria de um bom elenco tem o poder de decidir o sucesso ou não da produção, não somente quando pensamos no talento dos atores, mas também na química que estes têm em cena juntos. Quando o teste de interação não é levado a sério, o público tem dificuldade de acreditar na conexão que os personagens possuem, o que pode colocar em cheque toda a narrativa.

Cenário da série de comédia Friends [Reprodução Revista Celebrity Land]

Cenografia

O cenógrafo é responsável por coordenar toda a ambientação do filme, desde lugares já existentes até cenários que precisam ser construídos somente para a gravação.  Ele trabalha lado a lado com o diretor de arte e o produtor durante a montagem dos cenários, com o objetivo de atender a visão artística do diretor de arte e não ultrapassar no orçamento do produtor.

Saber e decorar o roteiro na íntegra é um dos deveres de um cenógrafo durante a projeção dos ambientes. Existem dois tipos de ambientação:  a Externa, locais  reais que necessitam de autorização e locação para a gravação da obra; e a Interna, aquele ambiente que reproduz locais fechados como salas de TV, bares, escolas e entre outros. 

Outra  curiosidade sobre o departamento de cenografia, é que este não só está à frente das decisões acerca da estrutura do cenário mas também seleciona os objetos (Set Props), que em sua maioria são objetos de decoração. 

Ao longo da produção do filme, outros departamentos também dependem das decisões feitas pelo cenógrafo, como a equipe de luz, som e até mesmo figurino, como veremos a seguir.

A Voz Suprema do Blues (2020), dir. George C. Wolfe [Foto: Divulgação/Netflix]

Figurino, Cabelo e Maquiagem

Da mesma forma que há um longo processo de tentativa e erro na estruturação do cenário e da fotografia , é preciso que a aparência dos atores em cena seja condizente com o universo do enredo. Cada figurinista, maquiador e cabeleireiro responde diretamente ao diretor de arte e à proposta exigida pelo roteiro. 

Vários estudos são elaborados para a formação do guarda-roupa das personagens, pesquisa de estéticas diferentes que dialogam com a história, cores, tecidos, acessórios e entre outros. Acompanhado por uma extensa equipe de estilistas, costureiros, peruqueiros e assistentes de guarda-roupa, o figurinista é responsável por trazer para nossa realidade essas personagens.

Além disso, a maquiagem em comunicação com o figurino facilita o trabalho do ator de dar vida ao personagem, criando a fisionomia deste. Um bom maquiador deve retocar a maquiagem pelo menos uma vez durante o dia, sem contar os filmes que necessitam de maquiagens específicas como efeitos especiais.

Vingadores: Ultimato (2019), dir. Anthony Russo e Joe Russo [Reprodução Marvel616]

Edição e Efeitos especiais

A maioria das pessoas acredita que os filmes são produzidos na ordem cronológica da narrativa, como ocorre no teatro, mas na realidade o diretor não se preocupa com essa sequência temporal durante a produção. O montador é o profissional responsável por organizar as diversas partes na ordem definitiva e garantir a aprovação do diretor.

Ele e o diretor após várias discussões terminam o corte provisório do filme com a trilha sonora, mas as cenas ainda não estão exatamente definidas. O corte provisório é a famosa versão do diretor na íntegra, mesmo assim o filme ainda sofre mais alterações na fase de edição que devem passar pela aprovação do diretor de fotografia e do produtor. 

Os efeitos especiais são adicionados durante essa fase para a versão final que chegará nas salas de cinema. Eles podem ser divididos em dois tipos: os visuais, resultado de extensas manipulações de imagem; e os mecânicos, obtidos por dispositivos físicos durante a gravação no set.

 Além do cabelo e maquiagem, elementos como os dublês, tela verde (chroma key), máquinas de chuva, fantoches, transições entre outros também são usados nos efeitos especiais. 

Mesa de mixagem de som [Reprodução Portal da Produção]

Sonoplastia (Som)

Sonoplastia nada mais é do que a manipulação dos sons no meio do audiovisual. Qualquer elemento captado pelos nossos ouvidos, seja ele uma música, ruído ou diálogo em um filme é planejado pela equipe de som. 

A tecnologia das câmeras atuais nos filmes, é capaz de captar os sons com boa qualidade. No entanto, os efeitos sonoros “entram em cena” justamente para tornar mais real a experiência cinematográfica. 

Em Um Lugar Silencioso (2018), o som é incorporado ao roteiro como um personagem com vida própria,  tornando a narrativa do filme muito mais  interessante quando levamos em conta que o filme todo trata-se de um mundo “sem som”.

O sonoplasta possui total liberdade de encontrar ferramentas diversas para a descoberta de novos sons. Técnicas inusitadas como amassar verduras, casquinha de sorvete, manusear grãos e cereais, mexer em rodinhas de móveis de casa são usadas para criação de sons feitos sob medida para o filme.

Na medida em que cada engrenagem do set respeita e trabalha na mesma sintonia que as demais,  o filme se torna coeso e emocionante. “Se você realmente ama cinema com todo o seu coração e tem paixão o suficiente, você não consegue deixar de fazer um bom filme”, com essa frase Quentin Tarantino nos mostra, que no final do dia, a sétima arte é sobre paixão e cooperação, ter profissionais que amam o que fazem é o verdadeiro segredo de um bom cineasta.

Hollywood e a maldição das estrelas mirins

A Hollywood dos sonhos é composta pelo glamour, fama, dinheiro e tapete vermelho, mas existe a parte que ninguém comenta: a grande pressão estética e mental, a pedofilia, abusos sexuais, os transtornos alimentares e outras tantas polêmicas e problemáticas que já vieram à tona. São tantos os traumas que vivem os artistas, que em muitos casos acabam até mesmo duvidando da própria capacidade profissional. E é ainda pior para aqueles que deram início à sua carreira quando crianças. 

Há uma lista enorme de atores que começaram muito cedo a trabalhar nesse ramo – boa parte para as emissoras infantis como Disney e Nickelodeon, e outros para grandes produtoras como a Warner Bros e a 20th Century Studios. Entre os gigantes da indústria temos Drew Barrymore, Lindsay Lohan, Macaulay Culkin, Mary-Kate e Ashley Olsen, Amanda Bynes… É uma lista interminável.

Aos moldes da Disney & Nickelodeon

Quando se cresce assistindo Disney Channel e Nickelodeon, o sonho de atuar em um dos programas é imenso e compartilhado por grande parte da audiência – ainda mais ao pensar em conviver com nomes como Selena Gomez, Ariana Grande, Miley Cyrus, Miranda Cosgrove e outras celebridades que levavam crianças ao delírio. Entretanto, assim que seus contratos acabam, relatos dos ex-atores começam a ser contados e o mundo se depara com histórias absurdas  e jamais imaginadas. 

Selena Gomez, Demi Lovato e Miley Cyrus TCA 2008 / Foto: Getty

O arrependimento de começar tão cedo e perder sua infância e adolescência é sempre pautado. Certa vez, em entrevista a Now Magazine, Nick Jonas disse que “a Disney não cria modelos de comportamento, cria apenas personagens”. A infantilização por parte da emissora já foi reclamação de Selena Gomez, Miley Cyrus e até mesmo de Dove Cameron. Manter a imagem de “boa garota” fazia parte do personagem que as atrizes eram obrigadas a interpretar dentro e fora dos holofotes. 

O pensamento de “por que este artista não sai da casinha e sempre interpreta os mesmos personagens?”, pode ser explicado pelo seguinte raciocínio: ao fazer grande sucesso em um filme ou série, os produtores de Hollywood decidem focar apenas nesse estilo. Vanessa Hudgens também revelou ao The Guardian que esse foi um dos fatores para ter participado apenas de projetos semelhantes, tendo em vista o sucesso de sua protagonista Gabriela no filme ‘High School Musical’.

Zendaya e Bella Thorne confessaram que quando se trabalha para a Disney, é preciso escolher bem seus futuros projetos, já que não se é levado a sério em outros estúdios. “Os diretores nem me ofereciam testes. Eles diziam coisas do tipo ‘ela é tão Disney’. Eu tive que implorar por uma audição”, afirmou Bella Thorne em uma entrevista à Harper ‘s Bazaar.

Outra atriz que se arrepende dos papéis que fez é Jennette McCurdy, conhecida por ser a Sam em iCarly. “Eu me arrependo da minha carreira de várias formas”, declarou durante o episódio Fish Out of Water (Peixe Fora D’água) do podcast Empty Inside que é apresentado pela ex-atriz. “Meus amigos aos 15 anos nunca foram ‘ah, que legal, você está numa série da Nickelodeon’. Era vergonhoso. E eu acredito que existe uma diferença muito grande na experiência de atuar em papéis que você tem orgulho e se sente realizada”. 

Diferentemente da Disney, a Nickelodeon teve rumores mais sérios relacionados a sexualização infantil e fetiches. Dan Schneider, criador de séries como iCarly (2007  – 2012), Zoey 101 (2005 – 2008), Drake & Josh (2004 – 2007), Victorious (2010 – 2013), O show da Amanda (1999 – 2002) e muitos outros programas conhecidos pelo público infantojuvenil, foi afastado da emissora em 2018, anunciado pelo Deadline, após a intensificação dos rumores de abuso verbal e infantil com os atores das séries.

Dan Schneider e Erin Sanders / Foto: ErinSanders.com

Durante o movimento #MeToo, a tag #DanSchneiderIsOver também marcou grande presença nas redes sociais e principalmente no Twitter. Dessa forma usuários passaram a frisar falas, poses e situações de cunho sexual nos programas criados por ele. Vale lembrar que o público alvo é infantil e que, na época, os atores também eram menores de idade.

 Um ponto extremamente discutido é o fetiche por pés que Schneider teria – há inúmeras cenas em que o foco se dá a essa parte do corpo, muitas vezes de forma mal intencionada. É possível, inclusive, encontrar diversos compilados no Youtube, de tão recorrentes que eram tais momentos em seus programas.

Colagem com cenas de iCarly e Victorious  / Foto: divulgação

Outros boatos relacionados ao produtor seriam sobre os abusos sexuais sofridos por Amanda Bynes e Erin Sanders, e o costume de chamar as atrizes menores de idade para as festas na piscina que costumava dar.

Relatos 

Várias estrelas mirins que protagonizaram filmes que marcaram a infância de muitos, de alguma maneira sofreram na mão de Hollywood. A atriz Lindsay Lohan foi o rosto do fim dos anos 90, quando estrelou Operação Cupido (1998), e teve destaque até mais ou menos 2010, protagonizando diversos filmes. Por conta do envolvimento com drogas e álcool, além de várias passagens pela polícia, Lohan contou em entrevista para o programa Oprah’s Next Chapter, apresentado pela Oprah Winfrey. De acordo com um anúncio da Netflix, Lindsay irá protagonizar um novo filme natalino para a plataforma, finalmente voltando às telas após longos hiatos. 

Amanda Bynes, estrela de grandes comédias românticas dos anos 2000, como S.O.S do Amor (2005) e Ela e os caras (2007), também teve muitos traumas causados pela indústria cinematográfica. Drogas, dirigir alcoolizada, ser presa e atear fogo na garagem de um estranho foram algumas das polêmicas que causaram seu afastamento das câmeras, além do diagnóstico de bipolaridade. Desde 2014, está sob um regime de curatela administrado pelos seus pais que cuidam das decisões médicas, legais e financeiras da ex-atriz.

Macaulay Culkin começou sua carreira aos 4 anos de idade, tanto nos palcos como na televisão nos anos 1980. Com o lançamento de Esqueceram de Mim (1990), seu nome ficou nas alturas, sendo considerado na época o ator mais bem pago e requisitado de toda Hollywood. 

Foto: GETTY

Devido ao ambiente de agressões e o instável relacionamento de seus pais, Culkin conseguiu que o juiz proibisse o acesso deles a sua fortuna. “Meu pai era um homem abusivo”, declarou à Time anos depois, “Eu lhe pedia um descanso, queria sair de férias pela primeira vez na vida, e ele não parava de assinar contratos para mais filmes. Ninguém me ouvia. Meu pai tinha uma cama tamanho gigante e uma televisão enorme e me fazia dormir com meu irmão no sofá. Fazia isso para quebrar meu espírito”. 

O vício em drogas, bebidas e a compulsão para gastar seu dinheiro como se não houvesse o amanhã, veio logo em seguida, como uma forma de distração e fuga do ambiente tóxico em que vivia.

Assim como Culkin, Drew Barrymore também começou a carreira muito nova, estrelando em filmes como ET (1982), e até hoje pode ser considerada uma das maiores atrizes mirins de Hollywood.  A fama precoce e a família conturbada, fez com que Drew, aos 12 anos, já fosse viciada em cocaína e álcool, e posteriormente fosse internada em uma clínica de reabilitação aos 13 anos, como conta em sua autobiografia Wildflower e para o The Guardian.

O trágico mundo de Oz 

A atriz Judy Garland, conhecida mundialmente pelo seu papel em O Mágico de Oz como Dorothy em 1939, foi uma das personalidades que mais sofreu. O sucesso de Judy foi durante a Era de Ouro de Hollywood, uma época em que as coisas não eram fáceis e temas como saúde mental nem sequer eram discutidos. A pressão dos produtores e grandes estúdios era ainda mais desumana e desrespeitosa do que nos dias atuais. 

Garland sofreu muito, não só com a indústria hollywoodiana mas, principalmente, com sua mãe. Assim como outros artistas já citados, também começou sua carreira ainda criança, e ter perdido sua infância é de longe o menos pior que lhe passou durante a sua vida e carreira. 

Judy Garland como Dorothy em o Mágico de Oz / Foto: Shutterstock 

Sua mãe, ou melhor, a verdadeira bruxa má do oeste, como a chamava, garantiu sua estrela em Hollywood a base de ensaios contínuos, mesmo quando Judy estava extremamente cansada. Tudo piorou quando começou as gravações de O Mágico de Oz, Judy seguia dietas nada saudáveis, a ponto de ficar sem comer (lembrando que a mesma tinha meros 16 anos na época), além de fumar cigarro, consumir café exageradamente e utilizar drogas estimulantes para as gravações não serem interrompidas.

Devido a sua longa e dolorosa trajetória que envolveu diversas polêmicas, por ser exposta a drogas muito cedo e não ter um apoio saudável de sua família, Judy Garland faleceu em 22 de junho de 1969, justamente de overdose.

A infância roubada

O estresse pós-traumático por começar a trabalhar desde cedo na Disney ou Nickelodeon ou estrelando grandes filmes de Hollywood, não é frescura ou de fato uma maldição. O que leva os artistas a terem uma grande desestabilidade mental quando começam a carreira jovem é devido a alguns fatores, como explica a psicóloga especializada em psicologia da infância pela UNIFESP, Carolina Santilli, ao site Viva Bem da Uol.

A psicóloga explica que a infância é uma fase em que as crianças estão começando a desenvolver sua personalidade, partindo disso, ao viverem uma vida em cena podem ter problemas para diferenciar uma realidade da outra  “A infância é o período da vida em que a estrutura psicológica é constituída, sua identidade, personalidade, é o momento de formação do aparelho psíquico. Por isso, todas as vivências têm um impacto fundamental”.

Ter muito dinheiro e poder ainda jovem tem como consequência a má administração, viver em um ambiente cheio de festas, bebidas, cocaína, uma terra sem lei, é um cenário vulnerável, para quem é propício a desenvolver algum vício e não compreende o que é certo ou errado, pelo simples fato de ser de muito jovem.

Quando a criança começa a atuar é preciso ter acompanhamento psicológico e moderar suas funções para não sobrecarregar com as responsabilidades das  gravações, já que é um trabalho infantil. A família deve dar um apoio positivo e respeitar as escolhas, mantendo um equilíbrio, para preservar a infância o quanto for preciso.

 A indústria cinematográfica americana está começando a mudar, tópicos como esses, que antes eram abafados, passaram a ganhar grande força e visibilidade. Atualmente, ex-artistas mirins se sentem confortáveis e seguros para contar a própria história e revelar as situações que passaram no início da carreira, como foi o caso, já citado, de Drew Barrymore e Bella Thorne.

Embora os traumas não possam ser desfeitos, a lenta evolução de Hollywood pode permitir que o ambiente do trabalho mirim, aos poucos, se torne mais saudável, prevenindo que a história se repita e protegendo a vida e a consciência da criança.

Viúva Negra e a sexualização das adaptações de quadrinhos no cinema

No dia 8 de julho, aconteceu o lançamento do filme Viúva Negra, filme solo da personagem protagonizada por Scarlett Johansson. O longa já atraiu polêmicas com o processo da atriz alegando quebra de contrato por parte da Disney, mas, outro aspecto do filme também merece atenção: o figurino. 

Desde sua primeira aparição no cinemas em 2010, no filme Homem de Ferro 2, Natasha Romanoff virou uma personagem querida pelos fãs de quadrinhos e filmes de super-heróis. A Viúva Negra permaneceu sendo a única integrante mulher da formação original dos Vingadores no Universo Cinemático Marvel até sua morte em Vingadores: o Ultimato (2018). A falta de representação feminina nesse meio foi notada pela Disney, que começou a tentar corrigir nos últimos anos. A mudança foi perceptível ao observar o tratamento da personagem nos últimos onze anos. 

Em seu primeiro filme, ela é vista apenas como algo a ser desejado, como o próprio Tony Stark diz depois de a ver pela primeira vez: “Eu quero uma”. Essa visão objetificada é totalmente refletida em seu figurino. Um macacão extremamente apertado certamente não é a opção mais óbvia para lutar, muito menos com o decote à mostra. O cabelo perfeitamente solto e cacheado e a bota de salto também não. 

Imagem de Divulgação / Marvel Studios

Apesar de grande parte da personalidade da heroína ser baseada no uso da sensualidade para manipulação, Scarlett Johansson contou esse ano, em entrevista para o site Collider: “Ela é tratada como um pedaço de algo, uma posse – como um pedaço do seu traseiro, na verdade”. A atriz também disse que seu pensamento era diferente na época do filme e que sua autoestima provavelmente era mensurada por esse tipo de comentário.

Ao longo de onze anos, Natasha passou por diversas mudanças de cabelo e algumas de figurino, mas nunca recebeu o desenvolvimento de personagem que merecia. Sua história nunca tinha sido aprofundada e ela era usada apenas como ponto de apoio nos enredos dos outros personagens masculinos, como em Capitão América 2: o Soldado Invernal. Agora, em 2021, com o seu filme solo esperado por muito tempo pelos fãs, a Viúva Negra pode, finalmente, ter o holofote que tanto precisava. 

Com Johansson na produção e Cate Shortland na direção, há uma narrativa focada na evolução da personagem de forma mais humanizada. Essa nova perspectiva é vista na mudança do macacão clássico da Viúva Negra por um branco com mais ênfase no conforto, assim como seu cabelo amarrado longe do rosto em tranças. 

Imagem de Divulgação / Marvel Studios

Para a Collider, Scarlett disse: “Eu tenho um entendimento muito mais evoluído de mim mesma hoje. Eu sou mais compreensiva comigo como mulher – provavelmente não o suficiente, mas me aceito melhor e tudo isso está relacionado ao afastamento dessa sexualização”.

Porém, infelizmente, não é apenas Natasha Romanoff que sofreu com a sexualização e falta de aprofundamento no cinema. A Mulher Maravilha, a Mulher Gato e a Arlequina também passaram por algumas representações carregadas por male gaze e, com o tempo, evoluíram conforme a indústria foi reconhecendo os danos dessa prática. Figurinos totalmente desconfortáveis e nem um pouco apropriado para lutas, peles à mostra vulneráveis, cabelos ao vento e botas de salto alto são parte do combo personagem-feminina-de-quadrinhos que, apesar de poder funcionar no papel, no cinema acaba parecendo absurdo e quase cômico. 

Perto da profundidade e cuidado com qual os homens no mundo dos quadrinhos recebem nas adaptações, é nítido o tratamento injusto e sexualizado que a Viúva Negra e outras heroínas receberam todos esses anos e que, só agora, começaram a ser notadas e discutidas. Quando o constante male gaze é presente no material original da adaptação (HQ’s com personagens – não só femininos – hiperssexualizados), fazer a cópia fiel nas telonas parece lógico para algumas pessoas.

 Porém, é preciso saber entender o que faz sentido manter e o que mudar. Grandes histórias, como essas escritas nos quadrinhos, por vezes precisam  ser ajustadas para conversar com o mundo atual, alcançar novos públicos e sobreviver.

Confira o trailer:

O Cinema e sua essência

No dia 22 de março de 1895, em uma câmara escura em Paris, os irmãos Auguste e Louis Lumière apresentaram ao mundo o primeiro filme já feito. A produção era simplória e mostrava apenas os trabalhadores saindo da fábrica da família Lumière em Lyon, na França. Mas foi a partir da obra dos irmãos Lumière, apresentada naquele eterno dia 22, que se iniciou um bem sucedido relacionamento de 126 anos entre o cinema e o homem.

Dos primeiros truques de ilusionismo nas telas apresentados nos curtas de Georges Méliès aos efeitos especiais computadorizados dos longas de (impressionantes) mais de três horas feitos pelos grandes estúdios da atualidade, o cinema mantém-se firme nos seus propósitos de comover, encantar, registrar e retratar a sociedade.

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Jakob Owens/Unplash

Nunca saímos como entramos após uma sessão de filmes – há sempre dentro de nós alguma mudança. E essa é a magia do cinema: despertar uma onda de sentimentos distintos, nos transportar para dentro da história e nos fazer imaginar aquele universo. Rimos, gritamos, choramos, sentimos medo, angústia, felicidade… Mesmo que fantasiosa, a narrativa sempre tem o objetivo de refletir a complexidade humana de um jeito único: trazendo em um só elemento o som, a imagem, a dança, e a dramaturgia. Como já dizia Ricciotto Canudo, crítico e teórico de audiovisual italiano, “o cinema é a sétima arte, pois traz consigo todas as outras”. É por isso que amamos tanto ver um bom filme. Nada é tão arrebatador, nada mexe tanto com nossos sentidos.

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Noom Peerapong/Unplash

Porém, para além de nos fazer sentir, nesses 126 anos o cinema provou ter outro propósito: o de espelhar o homem e a sociedade, reinventando-se conforme a própria humanidade mudava. A sétima arte conectou-se com o mundo moderno e suas questões de forma que nenhuma outra arte conseguiu. Cabe ao cinema, portanto, a tarefa de retratar (de forma fantasiosa ou realista) todos esses anos de história, e de se reinventar e trazer novas perspectivas sejam elas em questões de narrativas ou tecnologia para as telas.

E é por essa razão que, respeitando a essência do cinema de nos fazer sentir – e principalmente pensar sobre nosso próprio mundo – que a editoria de Cinema & TV da Frenezi vem trazer não só indicações de bons blockbusters para se divertir, mas críticas e reflexões sobre nosso próprio sistema como sociedade que se reflete nas histórias que vemos nas telas, sejam elas contemporâneas ou antigas. Afinal, o homem muda e o cinema o acompanha. Por isso, desliguem os celulares (a não ser que seja para acessar a Frenezi) e peguem a pipoca porque a frenezia vai começar.