Gloria: romance, sexualidade e liberdade.

Como prometido em outubro de 2022, Sam Smith lançou seu quarto álbum de estúdio, Glória, na última sexta-feira (27). O cantor britânico deixou fãs e apreciadores ansiosos para o projeto completo depois do pequeno spoiler do que tinha por vir com o lançamento, em setembro de 2022, do sucesso Unholy, com parceria de Kim Petras. O hit alcançou o topo da Billboard Hot 100 e dominou trends nas redes sociais. 

 O álbum conta com 13 faixas e grandes parcerias como de Ed Sheeran, Jessie Reyez, Koffee e Calvin Harris, mas o que deixou a todos com uma pulga atrás da orelha foi a escolha do nome do álbum. Ao podcast Rule Breakers da BBC, Sam explica que Gloria foi o nome que deu a sua voz interior, uma voz lutadora que deve ser alimentada: “Existe uma voz lutadora em todos nós e você só precisa cuidar disso”. 

“Chamei meu álbum de ‘Glória’ porque chamei aquela voz dentro de mim de Glória. É como uma voz na minha cabeça que apenas diz: ‘Você consegue’.” Não só inspirador, o álbum também é um símbolo de empoderamento e representatividade, é sobre ter a liberdade para se encontrar dentro de si. 

Na mesma entrevista à BBC, Sam menciona sua trajetória na descoberta de sua identidade: “Acho que sempre fui não-binário, sempre fui queer. E eu sempre me senti assim”, explicou. “Muito, muito estressante e assustador, mas no minuto em que encontrei essas palavras e encontrei esta comunidade, minha paz interior se acalmou pela primeira vez em anos. Foi incrível”, finalizou o artista. 

A primeira faixa do álbum é exatamente sobre amor próprio e autodescoberta. Love Me More foi lançada a quase um ano atrás, em abril de 2022, já deixando um gostinho de quero mais para as próximas faixas. A música começa com um ar mais melancólico, mas não perde a essência dançante que Sam oferece nas suas músicas e traz uma batida contagiante que segue até o final da canção. O clipe foi lançado na mesma época e traz imagens de Sam se amando mais, literalmente!

A próxima faixa, No God fala sobre o próximo sempre querer estar certo, sobre querer provar algo. Não há uma história por trás da música, mas tem uma letra perfeita para quem quiser soltar alguma indireta: “Por que você tem que estar no controle? Quando você estiver errado, baby, deixe pra lá. Só porque é a sua opinião, não significa que está certo.” Com um som clean e leve aos ouvidos, a voz do Sam se mostra bem característica nessa faixa.

Hurting Interlude é um interlúdio – um intervalo entre as canções de um álbum, que pode ser feito através de um som ou voz. Nesse caso, Sam opta por uma voz que em 18 segundos diz: “Ter que mentir, eu sinto, é a parte mais triste e feia de ser homossexual. Quando você tem sua primeira experiência amorosa ruim, por exemplo, você não pode ir até seu irmão ou irmã e dizer: ‘Estou sofrendo’”.

A ordem das faixas foi muito bem planejada, já que o interlúdio precede Lose You, a canção que fala sobre perder o parceiro, talvez fruto de uma experiência amorosa ruim. A música não é melancólica apesar do que sua letra sugere, tem uma batida dançante, poderosa, que fala diretamente com quem quer que pretenda deixar o interlocutor da canção.

Logo em seguida, Perfect, um feat comJessie Reyez,apresenta uma vibe mais romântica. Essa música fala sobre conquista, parar com as noitadas para um provável romance ao lado de alguém: “Pode ser o tempo certo para você cara, sim. Tenho um sentimento de que pode ser você, deve ser você.” 

Finalmente chegou a hora do maior hit do álbum: Unholy. Com parceria de Kim Petras, o single viralizou no TikTok quase dois meses antes de seu lançamento. A estratégia de Sam Smith de soltar o refrão da música na plataforma para só depois lançar a música completa nos streamings teve um grande sucesso, que continua até hoje. Lançada em setembro de 2022, Unholy esbanja sexualidade e domínio. A letra fala sobre um homem “malvado” que passa suas noites no “The Body Shop”, – referência a um famoso clube de strip-tease de Los Angeles, que no clipe da música, com o mesmo nome, é localizado em Londres – sem que sua mulher descubra sobre suas ações “pecaminosas”. 

O mais interessante é que Unholy foi gravada na Jamaica e Sam explicou ao Entertainment Tonight que foi um dos momentos criativos mais gloriosos que já teve como artista: “Eu acho que sei o que quero falar agora, acho que sei quem sou um pouco mais e estou pronto para me divertir”.

Em Unholy, Sam e Kim parecem estar em um mundo mágico de atitudes profanas, de liberdade e sexualidade, além da clara representatividade que apresentam na música. A canção é o maior sucesso global lançado por artistas transgênero e não-binário. “Sempre houve artistas trans incríveis e talentosas, mas sem o devido reconhecimento.”, disse Petras à Billboard

Depois do single, a sétima faixa do álbum é How To Cry, também mais inclinada a uma vibe melancólica, a qual Sam sabe bem como fazer. A música fala algo sobre mentiras, não mostrar sentimentos e a dor que isso causa aos outros. “Porque ninguém te ensinou como chorar, mas alguém te ensinou como mentir”.

Six Shots, a oitava faixa do disco, tem uma melodia sexy, o que combina muito com a letra da canção, que mistura bebida com prazer. Com direito a comparações, o artista diz ser como um Whiskey, o que atinge fortemente mas tem um gosto doce, por isso se torna difícil de ser amado: “Não tem como me amar, não tem como. Você diz que precisa de mim, mas não me conhece. Sou do tipo escuro (Whiskey), para sempre sozinho”

A próxima faixa com parceria de Koffee e Jessie Reyez, Gimme, apresentou um grande potencial para se tornar um hit desde o dia de seu lançamento nas plataformas, 11 de janeiro. A música é sensual, contém uma batida impactante e sexy e esbanja euforia com a voz de Jessie Reyez, mais nasal, que combina muito com o estilo da canção, assim como a da cantora jamaicana Koffe, que leva um sotaque característico aos versos da música. 

O clipe de Gimme foi lançado no dia 13 de janeiro e também entrega muita sexualidade de Sam, Jessie e Koffee. Se passa em uma balada e todos exercem livremente seu desejo de ser quem são, com muito beijo, bebida e dança. “Você tem o que eu quero e é melhor você me dar, me dar. Eu mexo com o seu corpo, então mexa o seu corpo junto ao meu”.

Depois de Gimme, Sam escolhe mais um interlúdio para separar as canções que estão por vir. Dessa vez, Dorothy´s Interlude tem 8 segundos e a voz no áudio é de Judy Garland, a atriz que interpretou Dorothy em O Mágico de Oz (1939) e se tornou um dos primeiros ícones gay da história. O áudio diz: “Como é para uma propagação central. Além do arco-íris. Acredite no poder gay” e faz várias referências aos “amigos de Dorothy”, como a comunidade gay era chamada na década de 50 e 60 em Londres, onde viviam sob ameaça e violência e acabaram encontrando nas representações de Judy um lugar de acolhimento.

Mais um feat com Jessie Reyes e dessa vez também com Calvin Harris, I´m Not Here To Make Friends fala sobre amar. A melodia se parece com uma balada electropop, bem animada ao estilo Calvin Harris e o refrão é contagiante, faz o ouvinte querer dançar e cantar com Sam. O clipe foi lançado recentemente, no dia 27 de janeiro, e combina muito com a canção. Dirigido por Tanu Muino, ele entrega cores vibrantes e muita festa. Smith aparece vivendo plenamente e livre, com looks icônicos, como plumas, penas e diamantes, além da já esperada sensualidade que se tornou uma marca registrada do álbum.  

A décima segunda faixa leva o nome do álbum, Gloria, que tem apenas 1 minuto e 50 segundos, se parece mais como uma canção sacra, um coro, e fala sobre ser quem é, sobre brilhar como um diamante e cantar um hino a ‘Gloria’. 

Finalizando o álbum, o grande e mais esperado feat aconteceu: Sam Smith se juntou com o também britânico Ed Sheeran para uma parceria poderosa em Who We Love. A letra é bonita e romântica, fala sobre amar quem se ama, sobre não poder escolher o amor, pois seu coração sabe mais do que você mesmo. A voz de Sam combinou perfeitamente com a de Ed, trazendo uma sensação de calmaria e romance a melodia da música. 

Sam coleciona em sua carreira mais de 35 milhões de vendas de álbuns, 260 milhões de vendas de singles e 45 bilhões de streams. Desde sua estreia no dia 27, Gloria liderou os charts, estreando como número 1 do Top Albums Debut Global, se tornando um dos maiores sucessos do artista nas paradas.

Gloria se tornou um marco na carreira de Sam. Sendo seu quarto álbum de estúdio, é onde ele se redescobre e se livra das amarras de uma sociedade preconceituosa e sufocante, mas que também há uma revelação criativa e pessoal sobre sua vida e sua carreira. Ao contrário do que parece ser em algumas canções, o álbum não é melancólico e nem feito para quem teve o coração partido, mas é uma marca de expressividade e foi a forma que o artista encontrou para mostrar sua construção identitária interior e exterior. 

O álbum é um misto de paixão, sexo, autoconhecimento e confiança, sendo o mais criativo e expressivo na carreira do britânico. Misturando temas improváveis como sexualidade e religião, o álbum conseguiu transbordar a sensação de libertação, tanto de seu corpo como o de sua alma, e finalmente liberou sua “Gloria”!

Rush!: glam rock, críticas sociais e muitas músicas para se dançar

Nesta última sexta-feira (20), a banda italiana de glam rock Måneskin lançou seu terceiro álbum Rush!. Formada em 2016 na cidade de Roma, o grupo conta com quatro integrantes: o vocalista Damiano David, o baterista Ethan Torchio, a baixista Victoria De Angelis e o guitarrista Thomas Raggi. O nome Måneskin vem do dinamarquês e significa “luz da lua’’. A banda decolou após sua vitória no 2021’s Eurovision Song Contest.

‘’Nesse álbum, tentamos experimentar mais e ir em diferentes direções. Cada um de nós tem diferentes personalidades e gostos pessoais. Tentamos explorar isso ao invés de ficarmos apenas em um lugar’’, disse Victoria De Angelis para Esquire.

Capa de Rush! [Imagem: Reprodução:Spotify]

O novo disco conta com 17 faixas e diferentemente dos outros dois álbuns da banda, Teatro d’ira e Il ballo della vita,  Rush! fugiu do costume do grupo italiano e tem a maioria de suas músicas em inglês, contando com a participação de Sly, Captain Cuts, Max Martin em sua produção. De acordo com o grupo, o álbum foi inspirado na banda britânica de rock alternativo Radiohead e em críticas sociais. 

A primeira faixa do álbum é OWN MY MIND, onde os fãs já puderam ter uma noção do que estava por vir. A música foge um pouco do padrão do grupo e explora mais o techno world, perfeita para dançar. Em seguida, GOSSIP não decepciona. Com a participação do guitarrista Tom Morello, foi lançada no dia 13 de janeiro como uma prévia do álbum e faz uma crítica ao American Dream das celebridades, que, segundo eles, se baseia em: fofocas, bebidas, falsidade e cirurgias plásticas. Algo supérfluo, que as pessoas só descobrem quando entram nesse meio.

TIMEZONE é a terceira faixa de Rush!. A letra foi escrita por Damiano como uma carta direta de amor. O ritmo vai ao encontro com a emoção da letra, começando com algo suave e terminando com raiva e desespero. BLA BLA BLA é perfeita para aqueles que acabaram de sair de um relacionamento. A música retrata uma relação totalmente tóxica, mas com tons de ironia e provocação. 

BABY SAID, vem em seguida misturando vários ritmos e abordando algo muito comum. O flerte. Damiano fala sobre aquele sentimento de conhecer alguém que te faz querer ter algo mais sério apenas para depois levar um balde de água fria na cabeça, pois a pessoa não queria nada além de algo casual. Quem nunca passou por isso, né! A sexta faixa é GASOLINE, uma música que muitos fãs da banda já conheciam, afinal ela já havia sido tocada nos últimos shows que eles fizeram, trazendo uma pegada bem rock ‘n roll e abusando da bateria.  

Seguimos com FEEL, uma canção que, de acordo com as explicações que o grupo forneceu ao Spotify no dia do lançamento, as palavras desta canção são usadas exclusivamente para fins sonoros e como uma experiência, sem nenhum significado. Uma coisa é fato, essa foi uma experiência que deu certo.  

DON’T WANNA SLEEP é a oitava música, com um forte contraste: uma letra que fala sobre solidão e uma melodia que te faz querer sair da cama e dançar. A necessidade de escapar da realidade e o excesso de pensamentos que os impedem de dormir são o foco dessa faixa. 

Continuamos com KOOL KIDS, uma das primeiras canções que a banda escreveu após ganhar o Eurovision. “O que te faz ser legal ou não? Até que ponto isso importa?” Esses são os questionamentos centrais da música. As fortes críticas que Måneskin recebeu após o prêmio, como as que desmereceram sua vitória, foi o que motivou o grupo a criar essa faixa. No entanto, o fato que mais chama atenção é que Damiano gravou essa faixa completamente bêbado. 

IF NOT FOR YOU é aquela que se você quiser chorar, é ela! Fugindo totalmente do ritmo tradicional, a banda apostou em uma música lenta e melancólica completamente diferente de todas as outras 16 canções de Rush!. A bateria e o baixo foram deixados de lado e o foco ficou apenas na voz anasalada de Damiano e na guitarra de Thomas Raggi. 

READ YOUR DIARY é uma canção um tanto peculiar. Quando misturados os sentimentos de obsessão e loucura, obtém-se a letra da décima primeira música. A banda trouxe uma canção que aborda a visão de uma pessoa que age de maneiras bizarras quando está obcecado por alguém. 

O disco segue com MARK CHAPMAN, a primeira música em italiano do álbum. Seguindo a mesma linha da faixa anterior, em que também se fala sobre obsessão, mais especificamente entre um stalker e sua musa. É a canção com o ritmo mais rápido da banda, com cerca de 178 bpm (batidas por minuto).

A próxima faixa também é em italiano e tem um tom mais agressivo. LA FINE retrata as preocupações da banda com a situação de seu país no que tange à direção política que a Itália está indo: a extrema-direita. A ascensão de Giorgia Meloni trouxe esse medo devido os valores mais tradicionais que a premiê apoia e suas críticas à comunidade LGBTQIA +. O governo é formado pela coalizão de outros dois líderes de direita. 

IL DONO DELLA VITA foi a primeira música escrita para o disco. Cantada no idioma materno de Måneskin, a melodia é mais calma, mas igualmente bela, falando sobre a exaltação da alegria e reforçando a necessidade de valorizarmos as coisas simples da vida. 

MAMMAMIA é aquela música para você ouvir no máximo enquanto dirige por aí. Trazendo a clássica combinação de bateria e instrumentos de corda, a banda acertou mais uma vez no quesito de fazer uma música que não sai da cabeça. Não é atoa que a faixa continua sendo ouvida mesmo tendo sido lançada há um ano atrás. Seu videoclipe atingiu mais de 34 milhões de visualizações. Sabe quando você está fazendo algo super bacana, mas alguém insiste em menosprezar seu trabalho? Pois é, é exatamente sobre isso que essa faixa fala. 

A penúltima faixa, lançada em maio de 2022 , SUPERMODEL foi escrita após o grupo ter passado alguns meses em Los Angeles e ficarem intrigados com a concepção do conceito de ‘’celebridade’’. A personagem retratada na canção parece ser super legal, quase a própria definição de it girl, mas na verdade, luta contra vícios, solidão e depressão. 

Por fim, a última faixa de Rush! é THE LONELIEST. O single, lançado em 7 de outubro de 2022, permanece no Today´s Top Hits do Spotify até o início de janeiro. Uma música com uma pegada melancólica dos anos 90, simbolizando uma despedida por si só e mesclando uma carta de amor, de adeus e um testamento em seus 4 minutos e 7 segundos. Funcionando como uma espécie de catarse – liberação de emoções ou tensões reprimidas – para a banda e para aqueles que estão tentando superar a solidão e a falta de uma pessoa querida. 

Com esse terceiro álbum, Måneskin vem conquistando cada vez mais pessoas ao longo dos anos. Rush! mostrou que o grupo entende do que está fazendo e que pode ser versátil, mas sem abandonar suas origens italianas e do glam rock. Mostrando para as novas gerações que o rock ‘n roll não ficou apenas no século XX. 

Um álbum relativamente longo, com cerca de 52 minutos de duração, mas que contém desde músicas que te fazem querer chorar até aquelas impossíveis de ficar parado, tanto por conta de seus ritmos quanto pelo liricismo. É visível que houve um certo cuidado para que Rush! tivesse um pouco da cara de cada um dos integrantes, principalmente no que tange às letras das faixas do disco.  

O álbum, mesmo tendo sido produzido em solo estadunidense, na cidade de Los Angeles, não tentou se encaixar no padrão massificado da indústria musical, muito pelo contrário, trouxe autenticidade. Tentar restringir o álbum em apenas um gênero é praticamente impossível, mas uma coisa é certa: esse pode ter sido um dos melhores trabalhos de Måneskin até agora.

[Crítica] ‘Midnights’: os sonhos e pesadelos de noites em claro

Para a felicidade dos fãs da loirinha, Taylor Swift lançou seu décimo álbum de estúdio, Midnights, na última sexta-feira (21). O disco conceitual passa por histórias de 13 noites sem dormir ao longo da vida da artista e transita pelas madrugadas, tendo a meia noite como o maior símbolo do projeto.

No anúncio do álbum, Taylor o descreveu como “uma coleção de música escrita no meio da noite, uma jornada através de terrores e sonhos doces. Para todos nós que lançamos e viramos e decidimos manter as lanternas acesas e ir em busca – esperando que apenas talvez, quando o relógio bater às doze… nós nos encontraremos.”

O disco conta com 13 faixas (e 7 faixas bônus), divididas em lado A e B, e com uma única colaboração especial de Lana Del Rey. O projeto tem 6 produtores principais, Jack Antonoff, Jahaan Sweet, Keanu Beats, Sounwave e Taylor Swift. A masterização é feita por Randy Merrill e a mixagem assinada por Șerban Ghenea.

Além de Taylor como escritora creditada, o álbum tem como participações nas letras Jack Antonoff, Jahaan Sweet, William Bowery (pseudônimo do namorado da artista, Joe Alwyn), Keanu Beats, Lana Del Rey, Sam Dew, Sounwave e a atriz Zoë Kravitz.

A primeira faixa de Midnights é Lavender Haze, marcando a entrada do disco como um álbum pop. A música é inspirada na expressão “lavender haze”, que nos anos 50 era associada ao sentimento de estar apaixonada. A artista declarou que viu a frase em um episódio da série Mad Men e achou uma definição muito bonita do amor. A canção fala sobre não abandonar esse sentimento e o proteger a todo custo, ignorando os aspectos negativos que vem com ele. Taylor também cita seu relacionamento de 6 anos com o ator Joe Alwyn e todos os esteriótipos e rumores que teve que ignorar.

A segunda música é Maroon, uma faixa pop que estabelece conexão com a metáfora de cores usada na canção Red, do seu quarto álbum de estúdio. Em Red, a cor vermelha intensa é usada para descrever o fervor do amor, já em Maroon, o tom de vermelho ganha mais complexidades e descreve um relacionamento mais maduro e que de alguma forma foi perdido. 

Anti-Hero é a terceira faixa e lead single do projeto, a canção que aborda as inseguranças da artista tem uma abordagem bem honesta e quase satírica sobre o que ela mais odeia em sua vida. A música ganhou um clipe no mesmo dia do lançamento do álbum que foi escrito e dirigido pela artista. 

Na produção, a persona popstar de Taylor a assombra de várias maneiras e o vídeo contém inúmeras ironias sobre a carreira e vida da cantora. Além disso, Anti-Hero fez mais de 17 milhões de streams no Spotify, debutando no topo do chart global da plataforma e quebrando o recorde maior estreia de um single na história da plataforma.

Seguimos com Snow on The Beach, a canção com a participação de Lana Del Rey. A faixa fala sobre duas pessoas se apaixonando ao mesmo tempo, sentimento que parece tão surreal e mágico que se assemelha com a sensação de ver neve caindo na praia. Snow on The Beach é uma música pop moderna mais calma que mostra os vocais das duas artistas, mesmo com a colaboração de Lana sendo mais discreta do que o esperado. 

You’re on Your Own, Kid é a quinta música do projeto, que acompanha uma pessoa mais jovem em busca do amor. A faixa que vai crescendo sonoramente, debate a solidão da juventude e o destaque vai para a letra na ponte da canção. Nos versos, “You’re on your own, kid; You always have been.” (Você está por conta própria, garoto. Você sempre foi; em português) é possível resumir a intenção da canção.

A sexta música é Midnight Rain, uma faixa pop que apresenta o uso de sintetizadores em seu início e refrão, uma produção bem diferente na carreira da artista. A letra da canção fala sobre se lembrar de um amor passado, em que algumas noites Taylor contempla essa relação que já acabou por suas incompatibilidades.

A sétima faixa é Question…? , que inicia com uma interpolação de Out Of The Woods, do álbum 1989. A canção pop com melodia bem definida, traz na produção elementos diferentes como sintetizadores e palmas. Os versos são a incansável busca de respostas para algumas questões de um relacionamento passado que parecem assombrar a artista.

Vigilante Shit é a oitava música, com a sonoridade mais obscura do projeto, ela aborda o lado da vingança, que lembra muito seu disco Reputation. Na letra escrita unicamente por Taylor Swift, o eu-lírico se vinga de um amor passado e ajuda outras mulheres a fazer o mesmo. A faixa tem tudo para se tornar queridinha pelos fãs, já que vários versos tem potencial para viralizar nas redes sociais. 

Continuamos com Bejeweled, a canção mais animada e com uma óbvia mensagem positiva de Midnights. Nela, a artista sabe muito bem o seu valor e após situações frustradas em seu relacionamento, vai atrás do que realmente merece. O recado é claro, Taylor sabe que pode brilhar em qualquer espaço e qualquer interesse romântico deve entrar na fila pela sua atenção. A produção acompanha a ideia da letra, transportando o ouvinte para um mundo que parece estar cheio de brilho e glitter.

A décima canção é Labyrinth, uma faixa sobre o medo de se apaixonar. Seja por não ter superado um amor antigo ou pela velocidade em que se inicia um novo relacionamento, Taylor exibe seus medos e inseguranças em ter uma nova paixão pelo medo do fim. A produção da música brinca com os vocais da cantora, o que traz elementos interessantes à canção.

O disco segue com Karma, conceito conhecido pelos fãs da artista. A expressão indiana que simboliza que toda ação tem uma consequência, pode ser associada a uma vingança feita pelo universo. Taylor mostra sua versão de karma, que para ela é um sentimento divertido e tranquilizante, mas pode ser para os desafetos de sua carreira um grande problema.

Sweet Nothing é a décima segunda faixa, que mostra um pouco da dinâmica do relacionamento entre Swift e Joe Alwyn, além de ser escrita pelos dois. O namoro deles é mantido em torno de muita privacidade, exatamente pelo caos e curiosidade acerca da vida amorosa da cantora. A canção aborda a tranquilidade e facilidade da relação, além de enfatizar que Joe nunca teve alta cobranças em relação à artista.

A última faixa é Mastermind, que traz o encerramento do projeto com uma canção definidora da personalidade da artista. Na letra, as habilidades de Taylor em controlar e planejar o futuro são usadas para encantar uma nova paixão, mas os fãs sabem que a cantora é conhecida por ser uma verdadeira gênia em planejar sua carreira. Os easter eggs ou pequenas referências em seus clipes e músicas são essenciais e os fãs adoram decifrar todos os enigmas.

Para o lançamento do álbum, Taylor Swift lançou várias versões do disco com capas alternativas e faixas bônus. Midnights (3am Edition) foi a edição para as plataformas de streaming e download digital, que adicionou mais 7 músicas à versão standard. The Great War apresenta teclados sintetizadores bem característicos enquanto descreve um casal enfrentando a “guerra” e dificuldades no relacionamento, Bigger Than  The Whole Sky é uma balada pop que discute a perda de alguém importante e Paris é um pop raiz que fala sobre amor e a cidade do romance.

High Infidelity descreve um relacionamento instável e cercado de infidelidades dos dois lados, Glitch é uma das faixas mais sensuais do projeto e aborda uma amizade que evolui para o amor, assim como o relacionamento da cantora com Joe Alwyn, e Would’ve, Could’ve, Should’ve expressa o arrependimento de um relacionamento passado, tendo muitas referências com a faixa Dear John, escrita para o cantor John Mayer em seu álbum Speak Now. A última faixa bônus é Dear Reader, que como encerramento do disco deluxe tenta dar ao ouvinte alguns conselhos e lições de vida.

Todos os lançamentos de Taylor Swift estão acompanhados de muito sucesso e quebra de recordes, com Midnights não foi diferente. O álbum fez 185 milhões de streams no Spotify em seu primeiro dia, se tornando a maior estreia de um álbum na plataforma. Todas as 13 faixas da edição standard registraram 161 milhões de streams no Spotify, alcançaram o top 13 do chart global do streaming e se tornaram as 13 maiores estreias femininas na história do Spotify.

Midnights também se tornou o primeiro álbum de Taylor a alcançar o topo da Apple Music em mais de 100 países e quebrou o recorde de disco com maior streaming no primeiro dia de lançamento na plataforma. De acordo com Hits Daily Double, o projeto tem a previsão ser o disco mais vendido em uma semana nos Estados Unidos, depois da era dos bundles.

No Metacritic, o disco alcançou a nota 85 com 23 críticas, sendo só duas delas medianas em relação ao álbum. A revista Rolling Stones atribui ao Midnights nota máxima e o descreveu como um “deslumbrante synth-pop”, com letras sobre uma história de amor e um enredo de vingança. Já o New York Times, com a resenha de nota mais baixa para o álbum, apontou a familiaridade da sonoridade com outros projetos da carreira de Taylor e que Midnights seria uma aposta segura na discografia da artista.

[Imagem: Reprodução]

Depois de uma temporada experimentando em outros estilos musicais com Folklore e Evermore, Taylor Swift finalmente abandona o folk alternativo e volta para uma aguardada era pop. Midnights não era um lançamento esperado para tão cedo, já que a cantora vem regravando seus discos nos últimos anos. Mas traz uma boa surpresa para os fãs e movimentação na indústria musical.

Em geral, o destaque do disco vai para o liricismo, habilidade reconhecida no catálogo de Taylor. As letras são o ponto alto da maioria das canções, seja pela ironia ou genialidade nas rimas. Como tema central, a cantora explora a autocrítica, suas inseguranças e sua imagem pública. Mas deixa espaço também para vingança, autoconfiança, paixão e o fim dos relacionamentos. 

Midnights pode ser considerado um álbum de confissões pop, abordando as histórias das melhores e piores noites de Taylor. Na produção, os elementos são sutis, mas suficientes para deixar os ouvintes intrigados. O disco é uma boa adição a sua discografia e age como um check-in de onde a artista se encontra atualmente. O resultado é um projeto pop maduro e honesto, cheio de bons momentos.

[Crítica] Holy Fvck: A reação musical da liberdade e sobriedade de Demi Lovato

Um ano após o lançamento do renegado e brilhante Dancing with the Devil… The Art of Starting Over, Demi Lovato retorna ao palanque e suas raízes do rock com seu oitavo álbum de estúdio Holy Fvck. O disco lançado pela gravadora Island Records realmente não atingiu as expectativas da gravadora e fãs numericamente, mas mostra seu valor indo muito além, se tornando uma experiência sobre explosão de energia, é possível entender o sentimento de Demi com o passar das faixas, saindo da raiva e explorando outras sensações, como desejo e amor.

A primeira música é FREAK. A colaboração com YUNGBLUD já abre alas para o que se espera do restante, explora diversos ritmos e deixa expostas as emoções de ter seus traumas tirados como piada pela indústria e ser diminuída a “freak” (esquisita, em português). Após essa faixa, toda uma expectativa e energia já é estipulada, chegando para mostrar que o pop de Demi Lovato está realmente morto.

Dando sequência vem os dois singles lançados antes do álbum SKIN OF MY TEETH e SUBSTANCE, duas músicas muito fortes que abordam a superação do vício, se descobrir e entender o mundo socialmente sem o uso de substâncias, como as pessoas tratam umas às outras e o quanto é comum a indiferença. O rock rápido e melódico encaixa bem com a intenção de Lovato de deixar uma mensagem, não importa o quão rápido as coisas aconteçam, ter cuidado com o próximo exige tempo e empatia.

A quarta faixa EAT ME, com participação de Royal & the Serpent, é um verdadeiro tapa. Com o queixo caído desde o início, a letra é agressiva e impositiva, se tornando um hino de aceitação e denúncia sobre a maneira como a indústria molda seus artistas da maneira como acham que vende mais, ignorando a essência e vontades desse artista. Unanimemente a melhor faixa do álbum, que vem depois de tantas críticas voltadas à Demi em relação ao seu corte de cabelo e mudança de ritmo, não gostou? Engasgue com isso!

A música que dá nome ao álbum HOLY FVCK é empoderada e repleta de referências bíblicas explícitas, já saindo da parte raivosa do álbum e entrando na sexual. Até o final da música, qualquer um é capaz de comprar a mensagem e se sentir o próprio holy fuck, e acreditar que Demi Lovato também é.

29 é a faixa mais polêmica do álbum. Demi conta em entrevista ao podcast Call Her Daddy que a motivação para escrever a música passado tantos anos do término é a reflexão sobre a situação de maneira mais madura, o como mulheres jovens caem no canto de homens muito mais velhos de que elas são diferentes, mas na realidade são apenas mais maleáveis e manipuláveis. A música trata do relacionamento de seis anos de Demi com Wilmer Valderrama, que se iniciou quando ela tinha 17 anos e ele 29.

Wilmer tem um histórico de relações com mulheres de idade inferior, quando namorou Lindsay Lohan, ela tinha 18 anos e ele 24, com Mandy Moore, ela tinha 15 anos e ele 20. Essa percepção sobre o que aconteceu na própria vida por anos é sentida em ‘29’, a voz confiante carregada por emoções e o ritmo dramático transcreve seus sentimentos e emociona quem escuta.

Continuando na linha de baques emocionais, temos HAPPY ENDING. Uma música lenta que transcreve a desesperança com a vida, como ser a inspiração de tantas pessoas e tentar se manter perfeita para os holofotes a cansou, entre tantas tentativas mal sucedidas de felicidade genuína com relacionamentos, Demi expõe sua solidão, mesmo cercada de pessoas, como sua equipe, família e fãs, ainda se sente sozinha e desolada por não ter um final feliz.

HEAVEN, CITY OF ANGELS e BONES abordam abertamente o lado sexual. Com letras eletrizantes e ritmos dançantes, Demi não tem vergonha de mostrar seu desejo e se divertir com este lado utilizando diversos trocadilhos e, novamente, referências religiosas. A mais interessante e que é quase um easter egg se encontra em HEAVEN, a música trata sobre masturbação e possui versos que dizem “cut it off” (corte fora, em português), o motivo para esta linha existir é o versículo Mateus 5:30, onde é dito “E, se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno.”

A música WASTED é romântica e platônica, com um refrão um pouco repetitivo e chato, a música surpreende no restante por sua letra inesperadamente apaixonada e ritmo mais lento, deixando se tomar pela paixão, mesmo com medo de se magoar, vive este amor sem restrições.

[Imagem: Lovato Gallery]

COME TOGETHER une as duas vertentes anteriores: o amor e o desejo. Sendo uma das favoritas do álbum e a que tem mais influência pop/R&B, também é uma música mais lenta, mas mantendo o tom eletrizante e comovente, daquelas que é perfeita para cantar no carro ou no banho a plenos pulmões de um coração apaixonado.

Passando para a faixa 13, DEAD FRIENDS mostra a essência do álbum. A letra é dedicada aos amigos que Demi perdeu no passado por conta de vícios, e se sente em dúvida do porquê ela continua viva, e eles não. Mesmo com uma letra extremamente triste, a melodia é rápida e animada, fazendo você querer dançar – com a mão na consciência em respeito aos mortos, claro -. O que poderia ser um tiro no pé e uma música dramática demais é totalmente o contrário, sendo um desabafo real e emocionante, mas mantendo uma batida animada.

HELP ME segue a mesma linha de EAT ME. Com um tom de deboche escrachado, a parceria com Dead Sara é irônica e empoderada. Tratando sobre pessoas que querem “ajudar” mas no final só estão dando sua opinião que não foi pedida e acabam atrapalhando, a música é cativante e caminha para o final do álbum de maneira positiva, mantendo a atenção do ouvinte.

A penúltima música é FEED. Uma faixa honesta sobre a luta com os vícios e seus antigos hábitos que eram confortáveis, mas muito perigosos, a percepção de possuir um lado bom dentro de si e alimentá-lo para que ele se sobressaia e a vida fique mais leve, mas não retirando o outro lado, apenas aprendendo a lidar com ele e controlá-lo. É uma música muito emocionante e corajosa, considerando todo o seu contexto.

Para fechar com chave de ouro temos 4 EVER 4 ME, uma suma de tudo que foi abordado no restante do álbum, dando um fechamento esperançoso e contente. A letra fala sobre a mudança de vida, onde talvez ela tenha encontrado seu happy ending e, principalmente, seu grande amor. A música encaixa todas as pontas soltas deixadas pelas outras, dando um belo desfecho para suas questões e alimentando sua felicidade.

[Imagem: Lovato Gallery]

Álbuns rock tendem a ser repetitivos e com músicas muito similares, Demi quebra essa barreira e explora todas as vertentes do gênero, transformando seu álbum em uma verdadeira aula para os que estão acostumados com a bolha do pop.

Mesmo se tratando de um álbum extenso, com 16 faixas, HOLY FVCK prende a atenção do ouvinte em todas as músicas e conta uma história a partir de um ponto de vista honesto e mais maduro. Uma frase antiga de Demi que foi lema de muito lovatics facebookers por anos é “I’m maturing, not changing, I promise” (Eu estou amadurecendo, não mudando, eu prometo, em português) e é exatamente do que se trata o álbum, a recuperação de Demi e o retorno de suas raízes, que podem ser exemplificadas por seus dois primeiros álbuns Don’t Forget e Here we go again.

[Crítica] Elvis: a Ilusão de Ser uma Estrela do Rock

Elvis foi lançado nos cinemas brasileiros há praticamente um mês prometendo contar a história de vida e carreira de um dos maiores ícones do rock. Abusando do exagero nas roupas, cenas e fotografia, a obra mostrou potencial para conquistar a audiência, não é atoa que estreou com 86% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Até agora, os comentaristas fizeram diversos elogios para a atuação do elenco, principalmente para a performance de Austin Butler como o protagonista titular, um exemplo disso é a crítica feita pelo The Wrap, ‘há energia e substância o suficiente […] e Butler se joga em uma performance selvagemente física, mas nunca cartunesca ou desrespeitosa’. Mas também não deixaram de comentar sobre a desequilibrada condução de direção e roteiro.

Apesar disso, quando se fala que o longa de Elvis Presley é um grande exagero, não necessariamente é um ponto negativo, já que tudo que se refere a ele sempre foi exagerado. Então, a produção de duas horas e quarenta minutos não poderia assumir um tom blaseé – um termo francês que classifica a atitude de uma pessoa cética ou indiferente – e isso inclusive, acaba sendo um dos maiores acertos do diretor Baz Luhrmann.

Elvis conta a história do astro desde a infância até a queda, passando é claro, pela ascensão, quando ele se torna um dos cantores mais famosos e bem pagos dos Estados Unidos. Nascido em Tupelo, Mississippi, em 1953, o menino tinha um irmão gêmeo, chamado Jesse, que morreu após o parto.

Mas as tragédias da família Presley não cessaram por aí: seu pai foi preso por estelionato, e por conta disso, Elvis e sua mãe foram despejadados de onde viviam, indo morar em um bairro de pessoas negras – vale lembrar que durante essa época, o racismo e a segregação racial eram muito fortes.

Após esses episódios, a vida do garoto segue, na maioria das vezes, rodeado por influências negras. Então, Elvis começa a cantar em uma banda e sua voz é reconhecida pelo Coronel Tom Parker – interpretado por Tom Hanks – um homem ganancioso que vivia de dar golpes nas pessoas. É inclusive sob o ponto de vista de Parker que a história é contada, com a primeira meia hora de tela focada totalmente no empresário, onde ele mesmo diz “sem mim, não haveria Elvis Presley”.

[Imagem: Reprodução/Warner Bros]

Querendo ou não, o Coronel é importante na trama, porque há quem associe a degradação do astro à tirania com que o então empresário comandava a carreira de Presley. Tom Parker era um produtor de parques de diversão e circos que passou a empresariar o astro logo no início de sua caminhada. Entretanto, o título não expressa sua verdadeira origem, já que ele não era coronel, nem se chamava assim e tinha um passado misterioso na Holanda.

Seu nome verdadeiro é Andreas Cornelis van Kuijk. Nascido na Holanda em 1909, e que aos 20 anos, imigrou ilegalmente para os Estados Unidos. A sua partida ocorreu no mesmo dia em que a sua suposta amante, Anna, foi espancada e morreu em decorrência dos ferimentos. Quando chegou ao país, assumiu a identidade Tom Parker e se alistou ao exército, onde serviu por dois anos, até 1933. Na época, ele foi afastado por indisciplina e teve uma crise nervosa, diagnosticado com depressão aguda psicogênica, estado de psicopatia constitucional e psicose. Tom também foi descrito pelos especialista como um homicida em potencial.

Essa descrição é vista em certo momento da cinebiografia de Luhrmann. O diretor cita em entrevista durante o Festival de Cannes, a parte do filme em que o homem, vivido por Tom Hanks, está deitado em uma cama de hospital sob efeito de morfina se defendendo das acusações de ser uma má pessoa, que explorou Elvis Presley, impediu sua carreira internacional e acabou pressionando tanto o cantor, que ele se viciou em remédios e acabou morrendo prematuramente, aos 42 anos de idade. “Ele está dizendo que não é o vilão. Que só fez seu trabalho, que era fazer com que a carreira de Elvis fosse a mais lucrativa possível”, declarou.

“Parker diz que fez seu trabalho tão bem que nós amamos Elvis, e ele nos ama. Que o cantor só se sentia bem quando estava sendo amado pelos seus fãs e amando-os de volta”, incita Baz sugerindo que a culpa é voltada para os fãs do cantor. E que ‘graças’ a sua morte, seus discos bateram recordes de vendas, tornando-o memorável até os dias atuais.

O cineasta ainda comenta sobre trazer algo mais autoral em um momento onde os super-heróis dominam as salas de cinema, uma colocação não só muito inteligente do ponto de vista mercadológico, como também fiel ao tom mítico do longa. “Elvis é o super-herói original. Ele vem da sujeira e em alguns momentos ofuscantes, sobe tão alto, encontra sua kryptonita e cai”.

Fora a decisão de escolher o empresário para narrar a história, Elvis quase foi intitulado de O Rei e O Coronel, mas com o desgosto declarado de Presley desde sempre pelo apelido, a ideia não vingou. “Você tem algum amigo que conta histórias de maneira confiável?”, provocou Luhrmann. “Documentários são aparentemente a verdade e em geral trazem aquela narração típica. Mas daí a gente vê na internet como é fácil manipular as pessoas a acreditarem que algo é a verdade, quando não é. Eu acho que os dramas são mentiras contadas por alguém para chegar a uma verdade maior”, explicou.

Baz encerra a entrevista comparando a narrativa de Elvis com a de Amadeus, filme de Milos Forman de 1984 que ganhou oito Oscars, por também ser uma cinebiografia, mas sobre o compositor e músico Wolfgang Amadeus Mozart. “O filme é sobre inveja”, pontuou ele. Ele tem suas suspeitas de que Parker sentia-se de forma parecida. “Os dois tiveram infâncias muito complicadas, ambos tinham um buraco no peito e eram sonhadores. Parker queria ser grande. E Elvis, também”, finalizou.

Agora falando do próprio Elvis, o ator Austin Butler merece todo o reconhecimento ao estrelar o papel do cantor, o mais engraçado é que no inicío do longa, há um grande mistério em revelar o rosto dele, que a princípio só aparece de costas ou de lado, porque por mais que todo mundo soubesse que era Butler em cena, ninguém havia visto nada além dos trailers.

Ele encarnou brilhantemente a personalidade do astro, obviamente abusando do exagero. Desde o jeito de dançar rebolando os quadris até o tom de voz, passando pela maneira de falar com a boca semi aberta olhando para baixo, tudo parece milimetricamente bem encaixado. “Ele era punk antes do punk existir. Ele estava rolando no palco, cuspindo. Temos que mostrar o que você não consegue ver nas filmagens de arquivo”, declara o ator em entrevista a revista Elle.

Além disso, muitos artistas talentosos foram cogitados para o papel titular, incluindo supostamente, Harry Styles e Miles Teller, mas quando Luhrmann se deparou com um vídeo de Butler “em uma bola de emoção, tocando e cantando ‘Unchained Melody’ em um roupão de banho em um piano”, ele sabia que tinha encontrado seu Elvis. “Daquele momento em diante, e a cada momento que o conheci durante o processo de audição, ele literalmente viveu a vida de Elvis”, afirmou o diretor na mesma conversa.

A caracterização é tão bem feita que, somado ao fato do efeito granulado de alguns trechos do filme para parecer uma filmagem antiga, pode fazer com que o espectador se confunda e não tenha certeza se está vendo Austin ou o verdadeiro Elvis. Isso fica mais evidente em uma cena quase no final do longa, quando mostra o cantor já deprimido, doente e com sobrepeso, sentado em frente ao piano em seu último show antes de morrer.

Conhecido pelo seu rebolado único, Elvis foi perseguido pelos grupos conservadores da época que viam nesse estilo de dança luxúria e pecado. Nos jornais tradicionalistas, recebeu o apelido de ‘Elvis The Pelvis’ pelo modo de se apresentar nos palcos. Dito isso, Tom Parker tenta mudar a fim de não desagradar essa elite e continuar ganhando dinheiro. Mas, o que incomodava não era apenas o rebolado, o cabelo ‘de menina’ e a maquiagem nos olhos, e sim o fato dele cantar e dançar igual um homem negro.

O cantor viveu boa parte de sua vida rodeado de pessoas negras – chamadas na época de pessoas de cor – e isso é bem retratado no filme que mostra, inclusive, a relação de Elvis e B.B King – interpretado por Kelvin Harrison. Foi na igreja de negros que ele aprendeu a dançar e rebolar, o que mais tarde viria a se tornar sua marca registrada.

Ao misturar soul, gospel e folk, ele conquistou os Estados Unidos. Mas, em uma época em que o segregacionismo estava tão presente, onde haviam barreiras físicas separando negros e brancos, cantar como um negro era uma grande ofensa para a sociedade.

Portanto, pode-se dizer que Elvis tinha o talento de um negro com a passabilidade de um branco, e isso lhe permitiu emergir e se tornar um astro, ainda que tivesse que ir contra a corrente. Ele também abusava dos movimentos de dança para chocar as garotas brancas que não tinham visto giros como aqueles porque elas não saíam para os juke joint – pequeno estabelecimento informal de música, dança, jogos e bebidas, operados sobretudo por afro-americanos – ou até mesmo as tendas gospel. “Ele era um gosto de fruta proibida”, diz Parker em uma das cenas enquanto observa uma garota desmoronar em gritos. “Ela poderia ter comido ele inteiro […] Foi a maior atração de carnaval que eu já vi”.

Um outro momento que reforça essa situação, ocorre quando Elvis comenta com B.B King que estão querendo lhe prender devido ao seu jeito de dançar. O amigo retruca dizendo que Elvis é branco e pode fazer o que quiser, enquanto ele, sendo negro, pode ser preso apenas por atravessar a rua. Em seguida, uma das melhores e mais inesquecíveis cenas musicais do filme acontece na música Trouble

Registrado em gloriosa câmera lenta por Luhrmann e pela diretora de fotografia Mandy Walker, ele se atira na direção do público, o rosto a centímetros da plateia enquanto declama que “não aceita ordens de nenhum tipo de homem”. Desse modo, Elvis quer, acima de qualquer coisa, fazer com que os espectadores entendam a euforia que Elvis Presley provocava ao vivo, o coquetel irresistível de rebeldia, ritmo e carisma que mexia com uma parte visceral do público.

A obra desenvolve uma trama em torno de uma magia particular do seu biografado, ao ponto de ser uma parte mística inexplicável, que contém um apelo atemporal, mas que de certo modo também usufrui da apropriação cultural. Afinal, pode-se dizer que Presley era o artista certo, na hora certa e no lugar certo.

Há algo quase cômico na forma como Baz Luhrmann mostra a reação do público em algumas das primeiras apresentações de Elvis, mas o filme também reconhece os fatores históricos e artísticos dessa ascensão. De um jeito um pouco caótico, o script assinado pelo diretor ao lado de dois colaboradores de longa data, Craig Pearce e Sam Bromell, se desdobra relativamente bem para retratar as facetas mais complexas do artista durante as quatro décadas em que ele esteve presente.

A relação do astro com a música de sua época e a relativa injustiça de sua imortalização no panteão do rock n’ roll acima dos originadores das técnicas que ele usava, são parte tão integral da história da produção quanto a dimensão política e moral de sua subida à fama. Então, é possível ver Elvis como um ‘branqueamento’ do rock e Elvis como símbolo de transformação moral em momentos de virada importantes do século XX nos EUA.

Elvis não está realmente interessado em Elvis Presley, o homem, embora dê a ele a prerrogativa de qualidades tremendamente humanas dentro do contexto melodramático do filme. Seu luto pela mãe, a generosidade que pautava suas relações pessoais, a admiração genuína que ele sentia por artistas com a coragem de se expressar, a relação visceral com a música, datada de seus primeiros contatos com ela na infância. Tudo está aqui, reconhecido e estilizado no ritmo inconfundível de Luhrmann, mas essa fundação humana serve apenas para apoiar uma exploração que é muito mais sobre Elvis Presley, o mito, o ícone, o símbolo – e ainda bem que é.

É verdade, é claro, que Elvis foi um homem. Tantas biografias, no entanto, se perdem no caminho de tentar decifrar algo intrinsecamente indecifrável: as idas e vindas, os cantos mais escuros e complicados, as partes mais íntimas e privadas da vida de uma pessoa de verdade. O diretor, até por sua natureza como artista, foge dessa armadilha quando cria, ao invés disso, uma ode – poema lírico – audiovisual a Elvis, uma jornada biográfica contada em linguagem pop, e que fala sobre cultura pop, cuja relação com a realidade é meramente incidental, quando ela existe.

Tudo isso é embrulhado em um pacote cintilante de espetáculo teatral, modelado tanto na decadência opulenta dos shows de magia e música de Las Vegas quanto na tragédia. O ponto é que Elvis, como de costume para as obras de Luhrmann, só funciona realmente se aceito dentro de sua própria lógica. O melhor jeito de aproveitá-lo é imaculado por preocupações morais sobre a integridade de cinebiografias, por regras arbitrárias de bom gosto estético e, principalmente, pelo apego insistente a uma ideia rígida de cinema e narrativa ‘de qualidade’. Sob os parâmetros de quem não se desprende de nada disso, alguns momentos do filme mal poderão ser considerados cinema, em sua abordagem distorcida e caótica da linguagem dessa mídia.

Acontece que, sob o olhar de quem reconhece entretenimento e arte pop como propósitos por si mesmos, ele é certamente um belo espetáculo. Talvez, o maior ponto que o filme tem em comum com o verdadeiro Elvis Presley é esse: no fim das contas, render-se aos prazeres que ele oferece é muito melhor do que tentar entendê-lo a partir de um molde no qual ele nunca teve vontade nenhuma de caber.

Algumas situações no filme que não acontecem na realidade

Assim como ocorreu com outras cinebiografias, especialmente de música, Elvis não é 100% preciso em seus relatos, e isso não é um problema, visto que algumas adaptações são necessárias para dar ritmo à trama. A equipe capitaneada pelo diretor Baz, retratou alguns fatos com certa fidelidade enquanto outras situações não aconteceram na vida real.

O próprio Elvis Presley interpretado por Austin Butler está um pouco diferente, como era de se esperar. O filme mostra que quase todas as influências musicais de Presley vieram da música negra. Alanna Nash, escritora de diversos livros sobre a vida e carreira do Rei do Rock, garante que não foi bem assim. Em entrevista à Variety, ela declara que: “Elvis também teve muitas influências brancas e disse, quando ainda estava na sétima série, que se apresentaria na Grand Ole Opry – famoso local de apresentações de country na cidade de Nashville. Lembre-se, ele entrou em um concurso na infância cantando ‘Old Shep’ – um clássico da música country”.

O filme também ignorou por completo as parceiras que Elvis teve no final de sua vida após terminar seu casamento com Priscilla Presley, além de ter mudado algumas coisas na sua relação com o coronel Tom Parker. E por falar no empresário de Elvis, ele também não passou ileso de situações que foram criadas para a obra.

O personagem de Tom Hanks tem um jeito mais exagerado e meloso, além de ser uma pessoa cheia de ideias que poderiam ter consequências desastrosas. Em uma cena da cinebiografia, Parker sugere a Presley dar uma maneirada no seu estilo para evitar críticas dos conservadores. Alanna revelou que o empresário, na realidade, pensava o contrário. “(Parker) gostava do fato que Elvis atraía muita gente para seus shows. Parker amava o fato de Elvis ser visto como um stripper masculino. Aquilo vendia muitos ingressos”. Ela também garantiu que o Coronel nunca chegou a ser ameaçado pelo governo por conta das apresentações de Elvis, algo que ocorre no longa.

[Imagem: Reprodução/Warner]

Além disso, Tom Hanks optou por dar um sotaque considerado ‘europeu’ – afinal, ele nasceu nos Países Baixos – ao seu personagem. Coisa que pouco lembrava o do Tom Parker de verdade, como é possível perceber em uma gravação de entrevista realizada na década de 80.

A obra também retrata que, após ouvir bons comentários sobre Elvis Presley, Tom foi até o programa de TV Hayride para conhecer o cantor, que começou a ganhar fama. Então, essa seria a primeira apresentação do Rei do Rock no lugar – e no mesmo dia, os dois se conheceram.

Na realidade, as coisas se desenrolaram de outro modo. O coronel não estava presente nesse evento. O astro de fato estava nervoso ao se apresentar, mas após uma pausa, se acalmou e conquistou o público. Apenas meses mais tarde que o empresário foi até o local para assistir a um show de Elvis, e eles se conheceram semanas depois, em um espetáculo do cantor na cidade de Memphis.

Em Elvis, é possível ver que Presley era próximo do lendário bluesman B.B. King. Uma das cenas do longa mostra o cantor após um ataque de fúria, ‘fugindo’ para uma casa de shows frequentada por King e outros artistas negros, como Sister Rosetta Tharpe e Little Richard. No entanto, na vida real, as coisas eram bem diferentes. Nash, agora para o jornal USA Today, afirmou: “Elvis e B.B. se conheciam, mas não eram amigos próximos. Eles provavelmente cruzaram caminhos pela primeira vez no estúdio Sun, mas foi algo breve”.

Além disso, uma das críticas mais fortes e repetidas em relação ao Elvis era como ele teria se apropriado de características da música negra em um ainda altamente segregado Estados Unidos. E com isso, o empresário junto a gravadora, venderam uma imagem pioneira do artista mesmo sabendo de todas as barreiras raciais, e só ofereceram uma versão mais ‘diluída’ do que muitos já conheciam através de nomes como Chuck Berry.

Em contrapartida, o próprio B.B King refutou qualquer percepção de Presley ao se tratar de uma pessoa preconceituosa. O fã-clube australiano de Elvis resgatou um artigo do San Antonio Examiner, onde contém uma entrevista do bluesman realizada em 2010 – 5 anos antes de sua morte. Nela, ele declara: “Nascemos pobres no Mississippi, passamos por infâncias desprivilegiadas. Aprendemos e conquistamos nosso caminho através da música. Veja bem, eu conversei com Elvis sobre música desde o início, e eu sei que uma das grandes coisas no seu coração era esta: a música é propriedade de todo o universo. Não é exclusividade do negro ou do branco ou de qualquer outra cor. É compartilhado em e por nossas almas”.

Em dezembro de 1968, o canal americano NBC exibiu um especial que marcou a primeira apresentação de Elvis Presley em sete anos. O material foi gravado, mas representou a volta do cantor aos palcos diante de um pequeno público. A atração ganhou o nome de ’68 Comeback Special’ – em tradução ‘O Especial de Retorno de 68’.

No filme, enquanto Presley gravava a apresentação, o senador Robert Kennedy foi assassinado, mas de acordo com Alanna, a gravação do especial e o assassinato do senador não aconteceram ao mesmo tempo. A escritora revelou que na realidade, apenas um dos ensaios ocorreu no dia em que Kennedy foi atingido pelos tiros que tiraram sua vida – 5 de junho de 1968. “Elvis chegou para iniciar as semanas de gravações em 3 de junho de 1968, e Kennedy levou os tiros em 5 de junho, morrendo no dia seguinte, 6 de junho”.

Além disso, o longa chega a retratar a gravação sendo interrompida pelo barulho dos tiros que mataram Kennedy. Na vida real, o hotel em que o assassinato ocorreu era distante do estúdio em que o especial era produzido. Mas, a produção ao menos acertou em retratar que Elvis ficou abalado pelas mortes de Kennedy e do ativista Martin Luther King, assassinado dois meses antes do político. A música If I Can Dream, composta por Walter Earl Brown especialmente para o programa de TV, foi inspirada por trechos do famoso discurso I Have a Dream, de King.

Em Elvis, há um momento em que ele se alista ao exército para evitar uma possível prisão devido a sua péssima influência para os conservadores e um incidente violento em um show.

Elvis, de fato, se alistou no exército americano e cumpriu serviço militar entre 1958 e 1960, mas não teve relação alguma com uma possível prisão. Nash lembrou que a presença do astro entre os militares teve outro intuito e foi arranjada pelo Coronel Parker. “(Parker) negociou com o intuito de ser uma jogada de relações públicas, para fazer dele (Elvis) um garoto americano”.

O artista também se aventurou no mundo dos cinemas e participou de vários filmes, apesar de nunca terem sido grandes sucessos nas telonas. Há uma cena do longa em que Tom garante que Elvis se tornou o ator mais bem pago de Hollywood, mas não foi bem assim. Ele recebia salários de respeito para gravar algumas produções, justamente por conta de sua fama. Em 1965, por exemplo, ganhou US$1 milhão para gravar Feriado no Harém.

No entanto, três anos antes, Marlon Brando recebeu US$250 mil a mais para gravar O Grande Motim, e em 1963, Elizabeth Taylor ganhou a mesma quantia de Elvis para estrelar o clássico Cleopatra.

Ao decorrer do filme, Elvis Presley demite o Coronel em meio a um show em Las Vegas. Esse episódio até aconteceu na vida real, mas de uma maneira diferente. No espetáculo, ocorrido em setembro de 1973, Elvis destilou sua fúria contra Barron Hilton – dono da rede de hotéis homônima e que também era o proprietário do local em que ele teve que se apresentar por muito tempo.

O astro ficou insatisfeito ao saber que Hilton havia demitido um empregado do hotel com o qual simpatizava. Por conta do incidente, Parker teve uma discussão acalorada com Presley. Foi neste momento que o cantor, de fato, demitiu seu empresário – que foi recontratado após mostrar uma conta do que o cantor estaria devendo a ele.

Além disso, na produção, é revelado que Tom combinou esta série de apresentações no hotel como forma de bancar suas dívidas – afinal, ele perdeu muito dinheiro com jogos de azar. Na vida real, ele realmente se endividou desta forma ao longo de sua vida, mas Alanna Nash garante que os shows que Elvis fazia no hotel não tinham ligação com os problemas financeiros do empresário.

Como a caracterização em Elvis foi essencial

Para o desenrolar de toda a história, é necessário que os personagens tenham uma boa construção de imagem através de figurinos que complementem o roteiro. Com Elvis não seria diferente, principalmente por conta da responsabilidade em dar vida a uma persona lembrada não apenas pelas roupas e maquiagem, mas por uma história complexa, que passa por uma relação polêmica, por vezes violenta, e assistida pelo mundo em uma época com outro olhar em relação às estruturas do patriarcado.

Atender às expectativas do público era um dos maiores desafios que Shane Thomas, chefe de cabelo e maquiagem do filme, enfrentaria. Não só ele, mas também a equipe de figurino, com Catherine Martin e a participação de ninguém mais, ninguém menos que, Miuccia Prada. A designer italiana foi responsável por boa parte dos looks dos protagonistas através de suas duas empresas de roupas, Prada e Miu Miu, onde pode fezer esboços e desenhos para Austin Butler, que interpreta Elvis e para Olivia DeJonge, que interpreta Priscilla Presley.

[Imagem: Reprodução/Prada]

Além disso, a colaboração entre Miuccia Prada, Baz Luhrmann Catherine Martin é renovada depois que os três já deram vida às roupas para dois outros filmes do diretor: os de O Grande Gatsby, em 2013 , e o que Leonardo DiCaprio usou em Romeu+Julieta, em 1996.

Martin, figurinista quatro vezes vencedora do Oscar e criadora de roupas para a maioria dos filmes de Luhrmann -ambos são casados ​​desde 1997 e têm dois filhos – explicou que o centro da narrativa em Elvis é o amor lendário entre Elvis e Priscilla, destacando a beleza e o estilo icônico, justamente por ser um marco a cultura contemporânea. “Por isso, era importante para Baz e eu permanecermos fiéis ao seu verdadeiro legado, não simplesmente imitando as roupas da Sra. Presley, mas encontrando uma maneira moderna de conectar o público com seu estilo distinto e histórico”, afirma Catherine.

Priscilla é um dos pontos-chave da trama de Baz, afinal ela é um exemplo do que era a representação da estética e dos padrões de beleza norte-americanos em meados dos anos 60 e 70, abusando de cabelos volumosos, olhos bem marcados em delineados impecáveis, e até mesmo o formato das unhas. AFinal, nada é banal ou fútil quando se fala em narrativas cinematográficas.

Além disso, ela remonta a trajetória e as fontes de cultura negra das quais bebeu Elvis Presley. É por meio dela e do figurino que se marcam as passagens de tempo no longa. E, para o diretor, o visual dos personagens era tão importante quanto a história. “Baz tem muita certeza de como quer ver os personagens retratados. O meu trabalho era reproduzir sua visão junto de Catherine”, comenta Shane.

“Evitei replicar o visual dela. Priscilla é um pilar da cultura americana, então era muito mais sobre representá-la na frente das câmeras de forma respeitosa e homenagear seu status de ícone de beleza”, conta o beauty artist à Vogue Austrália. “Também precisei entender como trazer a beleza de Priscilla no rosto de outra pessoa; era sobre respeitá-la, mas também traduzi-la no rosto de Olivia DeJonge”.

[Imagem: Divulgação/Warner Pictures]

O início da história de Priscilla e Elvis é problemático, já que ela tinha apenas 14 anos quando eles se conheceram, e ele era 10 anos mais velho. A produção não retrata essa informação, mas, na ocasião, ela é representada como uma jovem esperta, porém sem grandes destaques em termos de elementos estéticos, sendo apenas uma garota comum.

Quando ela se casa com Elvis, em 1967, há um certo amadurecimento no estilo e o ícone começa a se consolidar. É como se ela tivesse, de fato, mergulhado na atmosfera que envolve uma estrela do rock. “Cilla usava uma maquiagem pesada. Eram três pares de cílios postiços em cima, além de cílios nas pálpebras inferiores e um super delineado”, comenta o expert, em entrevista ao POPSUGAR.

De acordo com o profissional, Olivia passava quase duas horas na cadeira de maquiagem todos os dias para chegar ao resultado visto nas telonas. E a parte mais complicada era acertar as sobrancelhas, já que, na vida real, Priscilla adorava mudá-las.

Além do olhar, não dá para falar da Presley sem lembrar do topete enorme, como aquele usado no casamento com o cantor. “Eu olhava para fotos e achava que aquilo era mentira”, entrega Shane. Para recriá-lo, ele lançou mão de duas até bater a altura. Em um segundo momento do filme, após a crise no casamento com Elvis seguida do divórcio, Olivia assume fios loiros, representados por quatro laces diferentes.

[Imagem: Divulgação/Warner Pictures]

Agora partindo para a estrela do rock and roll, além de bonito e talentoso, Elvis usava a estética de uma forma inteligente e consciente para se sobressair e construir uma imagem. A roupa passou a ser sua melhor aliada, compondo perfeitamente com seu cabelo e com os movimentos de seu corpo.

Para a obra, Austin Butler reviveu o cantor por meio do topete e da alfaiataria larga, que por muitas vezes não possui um gênero específico. O ‘estilo Presley’ inspirou muitos astros, como Bruno Mars, e grifes, como Versace e Cavalli.

A colaboração da Prada foi muito importante, principalmente nos ternos sob medida, em cores como marrom ou bordô, com lapelas largas e detalhes, como óculos escuros ou cintos coloridos. Já no caso da esposa, vestiu Miu Miu, com vestidos de chiffon, saias curtinhas, calças de campanha e paetês. Absolutamente tudo para ajudar a caracterizar os personagens sem cair no grotesco ou no disfarce.

Para as peças, os criadores se inspiraram em momentos específicos vividos por Elvis e Priscilla, como um macacão de paetês que ela usou em um show em Las Vegas, ou um vestido de lã que ela usou com uma jaqueta em um especial da NBC dedicado a Elvis, uma peça que, por exemplo, foi literalmente recriada.

A caracterização de Butler acontece até mesmo nos mínimos detalhes. O ator, que é loiro, tingiu o cabelo para a produção, mas também abusou de próteses e perucas. Ou até mesmo na maquiagem com os olhos esfumados – usados pelo cantor na vida real – tudo para contar sua jornada, da ascensão à decadência.

A música como ferramenta principal da obra

Elvis Presley é um nome imediatamente associado ao rock and roll. Não é atoa que ele é conhecido como Rei do Rock, sendo um dos maiores pioneiros do gênero, um verdadeiro símbolo da cultura dos Estados Unidos e de tudo que a engloba.

Hoje em dia, quando se fala do rock, o termo soa quase que obsoleto em seu significado mais literal. Existem pessoas gente vão dizer que, atualmente, o rap é o rock. Para outros, o rock realmente só cabe quando há uma banda, com guitarra, baixo e bateria. Mas também, há quem diga que o gênero não está ligado à música e sim à atitude.

Entender isso é, sem dúvidas, um dos grandes méritos do filme Elvis e de sua excelente trilha sonora, que não foi feita apenas para respeitar o legado de Presley, mas entender que é preciso se conectar com passado, presente e futuro, para conversar com todos os públicos que irão assistir a obra. Essa compreensão permite não apenas que a trilha seja uma das mais interessantes do ano, como também faz com que ela cumpra um papel fundamental em ressignificar a carreira do Rei do Rock, mostrando como a sua influência foi muito além do formato tradicional.

Um dos maiores exemplos disso isso é Vegas, faixa assinada por Doja Cat que usa um sample de Hound Dog. Famosa na voz de Elvis, a canção aparece em sua versão cantada por Shonka Dukureh e mostra como é possível construir algo totalmente diferente a partir de um grande clássico do ritmo.

Mais do que isso, a presença desse sample é uma homenagem as verdadeiras origens do rock – algo que, em vida, Presley sempre pareceu entender e respeitar, como foi retratado no longa de Luhrmann. O mesmo é válido para outras canções que trazem trechos de clássicos, como a ótima The King and I, de Eminem e CeeLo Green, que utiliza de Jailhouse Rock.

Da mesma forma, a presença de uma versão espetacular de Stevie Nicks e Chris Isaak para Cotton Candy Land é o pedido certo para quem esperava versões mais próximas das originais, sem contar as próprias mixagens especiais feitas para o filme de clássicos como I’m Coming Home, Suspicious Minds, Polk Salad Annie e muitas outras.

Também existe a versão de Can’t Help Falling in Love, assinada por Kacey Musgraves, sendo um ótimo exemplo de como essa trilha foi capaz de ‘traduzir’ as canções tão antigas para um contexto atual. E o mesmo vale para If I Can Dream, regravada pela banda italiana Måneskin.

Até agora, é possível entender o passado e o presente, mas e o futuro? Quando se trata de Elvis Presley, o futuro está sempre no presente – afinal de contas, o pioneirismo e a quebra de barreiras são marcas registradas do Rei do Rock, como ficou claro para qualquer um que tenha assistido ao filme.

Mas falar de futuro nesse ponto, é se permitir ir um pouco além nas hipóteses. É acreditar que, graças a uma trilha sonora como essa, algum fã de Doja Cat, de Eminem ou de Diplo, possa mergulhar de cabeça na história do rock.

Ao fim do filme, duas coisas permaneceram na memória. A primeira é como a decadência de um astro é aplaudida de forma cruel pelos próprios fãs, desde que o show business tomou conta da maneira como o ser humano consome a arte. De Kurt Cobain e Amy Winehouse, chama a atenção como essa sanha por testemunhar o fracasso, de vangloriar-se por estar diante da fragilidade de uma pessoa que não aguenta mais o peso do próprio talento. Por isso, ao longo de anos, milhares de pessoas compareciam semanalmente a Las Vegas para assistir à mais uma apresentação do Rei do Rock, por mais que seu corpo e sua voz pedissem socorro.

A segunda, é a frustração do cantor pelas inúmeras maneiras como seu empresário freou o processo de internacionalização de sua turnê, que acabou virando uma residência. Algo que a produção dá conta de esmiuçar e esclarecer as motivações pelo lado de Parker. Um apátrida viciado em jogo que fez de Vegas a prisão do homem mais famoso do mundo. Um desgaste que fez com que, em uma das cenas finais, o rosto e a voz de Austin Butler, tão bem no papel de Elvis Presley, revelasse um milionário de quarenta anos que se sente incapaz de sonhar, podendo ser uma tragédia aos olhos de qualquer um, ou um espetáculo pelo olhar de Baz Luhrmann.

E apesar de tudo isso, Elvis Presley não morreu e nem nunca morrerá, uma vez que ele vive através de suas obras que marcaram o mundo, e principalmente a indústria musical.

[Crítica] Renaissance: os hinos de positividade iniciam uma nova era

O tão aguardado comeback da Beyoncé finalmente chegou! Renaissance, o sétimo álbum de estúdio da artista, foi lançado na última sexta-feira (29). O projeto, que é o primeiro ato de uma trilogia, vem sendo muito aguardado pelos fãs após um hiatus de 6 anos da cantora desde seu último disco solo, Lemonade.

Renaissance conta com 16 faixas e participações especiais de Beam, Grace Jones e Tems. Nas redes sociais, Beyoncé compartilhou o significado do projeto feito durante três anos na pandemia, onde a artista declarou na dedicatória do disco que foi uma época em que mais se achou criativa.

Criar este álbum me permitiu um lugar para sonhar e encontrar fuga durante um momento assustador para o mundo. Isso me permitiu sentir-me livre e aventureiro em uma época em que pouco mais estava se movendo. Minha intenção era criar um lugar seguro, um lugar sem julgamento”, contou a cantora.

O projeto tem doze produtores principais, A. G. Cook, Boi-1da, Guilty Beatz, Jahaan Sweet, Labrinth, The Neptunes, S1, Skrillex, Tate Kobang, The-Dream, Tricky Stewart e a própria Beyoncé. A masterização é feita por Colin Leonard e a mixagem assinada por Stuart White.

A primeira faixa do Renaissance é I’m That Girl, que usa o sample da música Still Pimpin de Tommy Wright III, Mac T-Dog e Princess Loko, lançada em 1994. A canção dançante inicia o álbum com uma mensagem bem simples do poder feminino. 

Nos versos, “It’s not the diamonds, It’s not the pearls, I’m that girl, It’s just that I’m that girl” (Não é os diamantes, não é as pérolas, eu sou aquela garota, é que eu sou aquela garota; em português) a artista exemplifica que não é necessário coisas de valor para lhe agregar poder.

Cozy é a segunda música do álbum e ela fala sobre estar confortável, sendo em ser quem você é, com seu próprio corpo e com sua cor. Com uma batida mais relaxada, a artista entrega novamente uma mensagem positiva para seus fãs. A canção usa como samples as faixas Get With U de Liddell Townsell e M.T.F. e Unique de Danube Dance e Kim Cooper.

Além disso, Cozy usa trechos do vídeo Bitch I’m Black da TS Madison, personalidade americana muito conhecida por ser a primeira mulher trans negra a produzir e apresentar um reality show.

Seguimos com Alien Superstar, uma faixa com batida eletrônica sensual e que se inicia com um sample da canção Moonraker do Foremost Poets, lançada em 1998. A música explora toda a sensualidade da artista e comunica com o público o poder de ser única ao som da faixa perfeita para se ouvir na pista de dança.

O destaque de Alien Superstar vai para a interpolação de I’m Too Sexy do grupo Right Said Fred no refrão da música, que destaca a genialidade da artista em usar uma canção muito conhecida de maneira tão revigorante. O sample de Unique de Danube Dance e Kim Cooper se repete e ao final da faixa é possível ouvir parte do discurso Black Theater da escritora e atriz Barbara Ann Teer.

Ensaio de divulgação do álbum Renaissance. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Cuff It é a quarta faixa, com sonoridade disco e synth funk (a mistura do uso de sintetizadores com a batida rítmica do funk), a música se desenvolve de maneira divertida e romântica. Essa é uma Beyoncé que só quer se divertir e não tem nada que irá prendê-la. A canção tem interpolação de Ooo La La La da Teena Marie e sample de Square Biz da mesma cantora.

A quinta música do álbum é Energy com participação de BEAM, cantor jamaicano e americano. A faixa com sonoridade dancehall e eletrônica, mistura as partes melódicas cantadas por Beyoncé e os versos de BEAM com o afrobeat. Na letra pode ser encontrar um incentivo para dançar e se divertir, mantendo sempre a energia alta.

Energy tem sample de Milkshake e Get Along With You da cantora Kelis e Explode de Big Freedia, que faz a transição com a próxima canção do disco. Seguimos com Break My Soul, lead single do álbum, que conta com o samples do hit dance dos anos 90, Show Me Love, da cantora Robin S. e novamente a canção Explode de Big Freedia, lançada em 2014. 

A música alcançou o 7° lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 5 semanas no chart. Break My Soul que chegou para anunciar a volta da artista, agora na sonoridade dance-pop, se manteve na proposta de ser um hino de positividade em tempos confusos.

Capa alternativa do disco. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Church Girl é a sétima faixa do Renaissance, onde a artista explora nos versos da música sua religiosidade e suas raízes do sul dos Estados Unidos. Com batidas animadas do bounce é celebrado a liberdade em todos os seus sentidos. A canção usa os sample de Center of Thy Will das The Clark Sisters, Drag Rap dos The Showboys e interpolações de Where They At do DJ Jimi e Think (About It) da Lyn Collins.

Seguimos com Plastic Off The Sofa, a música mais lenta e R&B, mas sem abandonar o upbeat eletrônico. Nela, Beyoncé fala sobre amor e as qualidades de seu interesse romântico, podendo ser até uma faixa dedicada ao seu marido, Jay-Z. Pelo caráter mais intimista da música, os vocais da cantora se sobressaem e são o grande acerto de Plastic Off The Sofa.

A nona canção é Virgo’s Groove, um clássico disco com letra mais romântica  dedicada ao amor da vida da artista. Com vocais e melismas arrepiantes, por mais de seis minutos podemos ouvir Beyoncé brincar com sua técnica vocal em uma faixa mais tranquila e pop.

Move é a próxima canção com a participação de Grace Jones e Tems. A faixa tem influência do afrobeat e bounce e explora os dois significados do termo “move”, em inglês, que pode significar o ato de se mexer e dançar, ou de sair da frente e abrir espaço para alguém mais importante. 

Seguimos com Heated, uma música mais R&B que conta uma menção e homenagem a uma das pessoas que inspiraram o Renaissance, Uncle Johnny. Ele, que era sobrinho da mãe de Beyoncé, teve participação na criação da artista e no início da sua carreira ajudava a criar designs e vestidos para serem usados por ela.

Em 2019 no GLAAD Awards, a cantora também dedicou o prêmio ao tio que morreu por complicações do HIV nos anos 90. No encarte do disco, Beyoncé agradece e explica a importância de Johnny. “Ele foi minha ‘madrinha’ e a primeira pessoa a me expor a muita música e cultura que servem de inspiração para este álbum.”, declara a artista.

Foto que aparece no encarte do álbum com agradecimentos ao Uncle Johnny.  [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

A décima segunda canção é Thique, uma faixa mais pop e trap, mas sem perder a sonoridade eletrônica. Nos versos se encontram rimas sobre dinheiro e sensualidade, com a exaltação do corpo da artista.

O álbum segue com All Up In Your Mind, uma das músicas mais diferentes do projeto e que coloca a cantora no universo ainda não explorado por ela, o hyperpop. Com letra bem pop falando sobre amor, o destaque vai para os vocais e performance de Beyoncé que combinam muito com o gênero.

America Has a Problem mistura a sonoridade de sintetizadores com o rap e usa o sample de America Has a Problem (Cocaine) de Kilo Ali, lançada em 1990. A faixa, apesar do nome, não tem nenhuma crítica política e deixa espaço para a cantora rimar de maneira divertida e interessante.

A penúltima canção é Pure/Honey, a faixa que é dividida em duas fases e gêneros. Na primeira parte, Pure, a artista apresenta rimas rápidas acompanhadas de uma batida perfeita para as boates. Já na parte Honey, Beyoncé se envolve completamente no soul e funk seguidos de vocais de outro mundo. A música tem os samples de Cunty da Kevin Aviance, Miss Honey de Moi Renee e Feels Like de MikeQ e Kevin JZ Prodigy.

O álbum termina com Summer Renaissance, a faixa que tem no refrão uma interpolação de I Feel Love de Donna Summer, um clássico do disco dos anos 70. A música encerra o álbum mais experimental da carreira da artista como o fim de um sonho. Levando os ouvintes a outras camadas da voz de Beyoncé em um ritmo que ninguém esperava vê-la dominando.

[Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Horas após o lançamento, Renaissance alcançou o topo do Apple Music em mais de 100 países, se tornando o primeiro disco feminino a conseguir o feito em 2022. No Spotify, o projeto teve a maior estreia de um álbum de uma artista feminina na plataforma este ano, com mais de 43 milhões streams

De acordo com o Hits Daily Double, o álbum tem previsão de vender entre 275 e 315 mil unidades, colocando o Renaissance em primeiro lugar nas paradas musicais americanas. Se conseguir chegar ao topo, Beyoncé se tornará a primeira artista feminina a colocar um disco nessa posição em 2022.

No metacritic, o projeto está com nota 93, acumulando 15 avaliações positivas e superando a avaliação de seu álbum anterior, Lemonade, que tem a nota 92. Na review da revista Rolling Stones, a artista foi aclamada por sua habilidade de dar aos ouvintes novos hinos pop e as faixas lentas e sensuais que todos amam e esperam nos projetos da cantora. 

A faixa Virgo’s Groove ganhou o selo de ‘Melhor Nova Música’ do site Pitchfork, destacando a música disco-funk como uma das melhores na carreira da Beyoncé. Na crítica de Renaissance, o álbum conquistou a nota 9 e a atribuição de ‘Best New Music’, dando ênfase no disco como uma rica celebração da música das boates e seu espírito emancipatório.

Em geral, o novo álbum se reinventa do que esperávamos no futuro da discografia da cantora. Após Lemonade, um dos projetos mais pessoais da artista, Renaissance reúne diversão, leveza e sensualidade nas faixas. Beyoncé aposta em um novo gênero musical e o mistura com outros ritmos, tornando o disco uma extensão de sua personalidade.

O uso correto de samples também merece destaque, pois demonstra a habilidade da cantora em transformar as interpolações e trechos de outras músicas em algo tão original e criativo quando aparece em Renaissance. Quem imaginou que após a faixa Way 2 Sexy de Drake e Young Thug o refrão da música I’m Too Sexy poderia soar de fato sensual e não cafona com em Certified Lover Boy? Só com os vocais de Beyoncé mesmo.

E falando em voz, a produção vocal do álbum está entre um dos melhores da artista, levando o ritmo eletrônico do house e disco a outros níveis. As faixas são conectadas não só pela sonoridade coesa do projeto, mas também em belas transições que o colocam na estética de um DJ unindo músicas para uma pista de dança.

Renaissance se estabelece como o início de uma trilogia animada e empolgante. É impossível ouvir o projeto e não se sentir contaminado ao dançar e melhorar o humor de quem está ouvindo. Assim, o álbum mais experimental de Beyoncé cumpre a promessa de nos levar a um lugar de exploração e liberdade.

[Crítica] Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter são emocionantes e imersivos

O quinto álbum de estúdio de Sabrina Carpenter, emails i can’t send, foi lançado na última sexta-feira, 15 de julho. Sob domínio da gravadora Island Records, produção de Leroy Clampitt, Jason Evigan, Jorgen Odegard, John Ryan, Ryan Marrone e Julian Bunetta. Já como compositores, participaram Julia Michaels, JP Saxe, Steph Jones, Amy Allen e a própria Sabrina descritos nas faixas. O álbum surpreende com composições honestas e pode ser representado por três pilares: storytelling, imersão e vulnerabilidade.

Com a imagem totalmente desvinculada da Disney, coloca um ponto final nas polêmicas em que foi envolvida no ano passado. Carpenter transita entre diversos gêneros musicais com o passar das músicas e se dá bem com todos. Arriscando com transições engraçadas e pessoais, consegue criar um enredo e conta o seu lado da história.

A primeira faixa, emails i can’t send, carrega o nome do álbum e é um verdadeiro soco no estômago. Com instrumental mínimo, poder vocal e rimas impecáveis, a apelidada pelos fãs de intro na época do pré-álbum, emociona e choca por revelar que a insegurança de Sabrina com relacionamentos é vinda da traição de seu pai. Cada palavra toca profundamente e a música prende a atenção por ser contada praticamente de maneira cronológica, como uma história.

Vicious foi lançada menos de um mês antes do álbum e foi responsável por aumentar as expectativas de todos. Vindo de uma sequência de singles não tão bem aceitos, essa canção é forte e debochada, tendo seu momento de explosão na ponte, onde é dito “Você não sente remorso, você não sente os efeitos, porque você não acha que me machucou se me deseja o melhor, eu deveria ter percebido antes que eu seria apenas a próxima a tomar suas músicas de amor como promessa”. Doeu por aí?

Tirando o ouvinte da transe causada pelas faixas anteriores, Read your Mind começa com vocais angelicais e tranquilos, mas essa calmaria passa poucos segundos depois, quando a melodia muda totalmente para algo mais agitado e dançante. A música retrata um amor confuso onde um dos lados quer continuar solteiro, mas não consegue resistir a paixão – embora não assuma, fazendo idas e vindas dolorosas e egoístas na vida da outra parte envolvida. Novamente é uma grande aposta no storytelling, contando a situação praticamente como uma fofoca para a melhor amiga.

Passando para Tornado Warnings, o quesito de conversação no início da música lembra muito o single skinny dipping, também presente no álbum. A faixa representa a fase de negação em um relacionamento mal sucedido, Sabrina contou em entrevista que possui as notificações do telefone ativadas para alertas de tornado, e que a composição se trata de uma história real envolta por uma metáfora, onde ela estava com alguém que não deveria estar em um parque e logo começou a chover, mas decidiu ignorar todos os alertas de perigo e mentiu para seu psicólogo sobre esse encontro, para não zangá-lo.

Se as outras faixas se tratavam de um desabafo, because i liked a boy é um grito alto e claro. Retornando às origens do ódio que recebeu no passado, a artista diz que não esperava que um amor tão inocente e intenso te traria tantas ameaças de morte e ofensas pesadas, como “destruidora de lares” e “vagabunda”. A grande revelação da música é a afirmação de que quando o caos começou, o casal já havia terminado o relacionamento. Com uma melodia voltada para o R&B e a estética circense presente no clipe, essa canção se torna facilmente uma das queridinhas do álbum.

Already Over, que já havia uma prévia postada nas redes sociais da cantora, é uma faixa leve e divertida, com uma pegada mais country. Ela volta para o assunto do caos mesmo sem estarem mais juntos, e com tudo vindo à tona, é ainda mais difícil colocar um ponto final em um assunto que está constantemente aparecendo em sua frente, causando algumas recaídas entre os dois.

Quebrando a agitação da faixa anterior, how many things possui mais de quatro minutos e retrata o fim do amor de uma das partes: “Eu imagino quantas coisas você pensa antes de pensar em mim, eu imagino quantas coisas você quer fazer e eu estou impedindo”. É a fase do fim do relacionamento onde tudo ainda é muito recente e tudo lembra a pessoa, mas não sente que o outro está na mesma situação. Com um instrumental mínimo servindo apenas de acompanhamento, a música é muito relacionável, servindo para relacionamentos amorosos, familiares ou em amizades que não correspondem mais ao mesmo carinho.

bet u wanna é a herdeira de Sue me e Looking at Me. Com um tom mais debochado, vingativo, sexy e coberto de autoestima, a música trata do momento de respeito a si própria e seu valor após o fim de um ciclo, descritos através de frases provocativas. Carpenter ironiza a situação e aposta que a pessoa a quer de volta, mas agora já é tarde demais. Simplesmente a faixa que os fãs esperam todo álbum, para recuperar sua força e autoestima, e também porque fica bem nos “stories de biscoito”.

Nonsense possui uma raiz semelhante a de algumas faixas do álbum positions de Ariana Grande. A canção mantém a energia provocativa e irônica, onde está vivendo novas experiências e volta para a fase leve, perdendo a noção quando está ao lado de outra pessoa. O verso “Eu acho que tenho um ex, mas esqueci dele”, junto ao significado de bet u wanna, confirmam que estamos na parte da história onde já deu o que tinha que dar e está superado.

Fast times e skinny dipping dão procedência ao álbum e são os dois singles anteriores da era. Bem diferentes entre si, ambas das músicas representam elementos presentes no restante das faixas, o tom de storytelling presente na composição e clipes, sempre instigando o ouvinte a escutar a música até o final para saber o desfecho da história.

Chegando a penúltima faixa, Bad for Business traz uma ambiguidade na interpretação: A insegurança de um novo relacionamento atrapalhar sua carreira e imagem como o anterior ou essa paixão literalmente atrapalha os negócios, pois não a deixa dormir de noite e é sua grande fonte de inspiração, fazendo com que ela não consiga pensar em mais nada. A música tem uma melodia leve e um pouco mais lenta, a composição é apaixonada e traz a calmaria de um amor – por enquanto – tranquilo.

Encerrando o álbum com chave de ouro, decode é vulnerável e honesta, uma das mais pedidas pelos fãs – por conta de uma prévia anteriormente postada por Sabrina – vai além do esperado. A letra assume cruamente que não aguenta mais pensar e repensar sobre o relacionamento, sobre o que pode ou não ter acontecido, por isso simplesmente desiste e afirma que não há mais o que falar sobre o assunto, não há mais nada para decodificar, todos as partes deram seu lado da história e o assunto está encerrado entre eles.

[Imagem: Reprodução/Sabrina Carpenter Brasil]

O poder narrativo de Sabrina Carpenter é surpreendente, a cada faixa é possível desvendar seus sentimentos e simpatizar com eles. Todos sabem a maldade presente na internet e como ela pode afetar a vida das pessoas, como todo esse ódio e repressão toma conta de alguém, a ponto que ela não tenha como falar por si mesma. Portanto, emails i can’t send é a resposta de uma sobrevivente deste ódio, que ficou calada por muito tempo e ainda continua guardando algumas informações, mas prefere que elas continuem em segredo.

Este disco simboliza a maneira como a artista materializa sua arte, tratando suas músicas como um desabafo vulnerável, o sentimento de ser chamada de “destruidora de lares” enquanto estava vivendo o inferno dentro de sua casa com seus pais.

É gratificante escutar uma sequência tão real e bem produzida, cada faixa se destaca singularmente e mantém a coesão dentro de um conjunto. Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter vieram à tona e merecem o reconhecimento máximo, não somente por sua coragem de falar, mas pela qualidade imposta no álbum, a história contada em etapas, arriscando diversos gêneros e abordagens. Mesmo em meio a uma realidade de uma gravadora negligente e descuidada, o álbum se mantém desde seu lançamento em primeiro lugar no Apple Music Brasil, e é de se esperar que esses números continuem crescendo.

[Crítica] Stranger Things é uma das melhores séries da atualidade mesmo com algumas ressalvas dessa quarta temporada

Após uma espera de praticamente três anos desde o último lançamento, Stranger Things retornou com a quarta temporada no final de maio, levando todos os fãs de volta a Hawkins para contar mais uma história sombria dos irmãos Duffer.

O primeiro volume possui 7 episódios muito bem construídos do início ao fim, ainda mais pelo tempo: a maioria ultrapassa uma hora, o último chega a uma hora e quarenta minutos. No dia 01 de julho, os dois últimos episódios foram liberados, que somados entre si dão quatro horas de duração e encerram esse arco, que até agora pode ser considerado um dos melhores.

Relembre um pouco do que aconteceu nas temporadas anteriores

O início da série se passa em 1983, em Hawkins, Indiana. O jovem Will Byers (Noah Schnapp) desparece e seus amigos, Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) decidem procurá-lo com a sua família e a polícia da cidade. Com isso, eles se deparam com uma série de eventos sobrenaturais e é nesse momento que eles começam a entender um pouco sobre o Mundo Invertido.

[Imagem: Divulgação/Netflix]

Nancy (Natalia Dyer), que é a irmã de Mike, Steve (Joe Keery), namorado de Nancy, e Jonathan (Charlie Heaton), irmão de Will, investigam por conta própria o que pode ter acontecido com o menino e Barb (Shannon Purser) – a melhor amiga de Nancy que é morta por um Demogorgon no início da história.

Nesse meio-tempo, aparece Eleven (Millie Bobby Brown), uma garota que tem superpoderes e não sabe muito sobre seu passado ou conviver em sociedade. No final, eles salvam Will, graças a um sacrifício de El, mas os problemas e a ligação do menino com o Mundo Invertido estão longe de acabar.

[Imagem: Reprodução/Netflix]

A segunda temporada avança para 1984, onde todos tentam seguir em frente após tudo o que rolou no ano anterior. Porém, uma nova ameaça aparece direto do Mundo Invertido para ameaçar os protagonistas, e além desse novo inimigo, também há uma nova personagem Max (Sadie Sink), que chega na cidade junto com seu irmão problemático, Billy (Dacre Montgomery).

[Imagem: Reprodução/Netflix]

Enquanto isso, o detetive de Hawkins, Jim Hooper (David Harbour), decide criar Eleven, que sobreviveu aos acontecimentos do final da 1ª temporada, e é nesse ano que aborda mais sobre seu passado, sua mãe biológica, que ficou viva, mas teve sequelas após enfrentar uma terapia de eletrochoque, e a existência de uma irmã, a Eight/Kali (Linnea Berthelsen).

Eleven fica escondida na cabana de Hopper e só Mike sabe que ela está lá. Cansada dessa realidade, ela foge e, quando volta, aprende a verdade sobre sua história. Depois disso, seus amigos enfrentam um Demodog e Eleven entende que precisa fechar de vez o portal para o Mundo Invertido.

No final, ela consegue destruir o Monstro das Sombras, que está conectado a Will e ameaçando a todos, e fica com Mike no baile da escola. Só que há uma vítima no meio disso tudo: Bob (Sean Astin), o novo interesse amoroso de Joyce (Winona Ryder). Ainda nessa temporada, Nancy termina com Steve e fica com Jonathan.

No terceiro ano da série, em 1985, o verão chega e um shopping novo na cidade de Hawkins também, deixando o amado grupo ainda mais sintonizado com sua juventude e com novos casais no ar. Aparecem cientistas russos como vilões tentando abrir um portão para o Mundo Invertido embaixo desse shopping, como revela Alexei (Alec Utgoff), um dos envolvidos nisso. Eleven descobre que o irmão de Max está possuído pelo Devorador de Mentes e, em uma futura batalha com o monstro, acaba sendo ferida e perdendo seus poderes.

Já no final da trama, Billy se sacrifica para proteger o grupo após El entrar em sua mente e o Hopper tenta destruir a máquina usada pelos russos para manter o portal para a outra realidade aberto mas é dado como morto. Eleven, então, vai morar com os Byers, que se mudam para a Califórnia.

Agora, nessa quarta temporada, é possível ver o que aconteceu com cada personagem e todo o mistério por trás de uma nova ameaça do Mundo Invertido: o Vecna, que marca suas vítimas através de um vínculo psíquico e as mata das formas mais tenebrosas e brutais, para se alimentar.

ALERTA DE SPOILER

[GIF: Reprodução/Giphy]

Ao longo de toda essa trama, foi possível ver três núcleos separados: Eleven, Will, Jonathan e Mike estavam na Califórnia; Joyce, Murray e Hopper na Rússia e os demais em Hawkins. Essa dissonância do grupo afeta um pouco a fluidez dos episódios, porque para conciliar tantas linhas narrativas simultâneas, Stranger Things opera na constante quebra de ritmo, ou seja, desenvolve uma situação e, assim que ela estoura, muda de núcleo em uma tentativa de manter a tensão sempre alta.

Durante a primeira parte, parecia que essa divisão entre os personagens não funcionaria em sintonia para salvar Hawkins e o mundo de Vecna, deixando os papéis de cada personagem um tanto quanto confusa. No entanto, o segundo volume acaba mostrando como todos esses enredos funcionam bem para a primeira conclusão desta ameaça de fim do mundo.

A protagonista Eleven ou Jane, vive um difícil período de adaptação nesta season. Apesar de seus esforços, a jovem sofre para se encaixar na escola e é constantemente vista como “a esquisita” por seus colegas de escola. Para piorar, ela está sem os seus poderes, passa pelo luto da morte de Hopper e lida com as saudades dos amigos e do namorado Mike. Porém, após um início movimentado nos primeiros episódios, a jornada de Eleven se torna mais solitária, no entanto poderosa, no final. Millie Bobby Brown consegue sustentar um núcleo inteiro praticamente sozinha, ditando os pontos de virada e provando que nasceu para interpretar esse papel.

Outro grande destaque da temporada, se não for o maior, é Sadie Sink, que volta à pele de Max. É possível acompanhar um lado da jovem nunca visto antes, o que está marcado pelo trauma e culpa. Reclusa de todos, Max passa por uma interessante jornada de reconexão consigo mesma e com os amigos, enquanto carrega um dos principais e mais emocionantes acontecimentos do quarto ano da série.

Ela é capturada por Vecna mas escapa ao som de Running Up That Hill de Kate Bush, música favorita da personagem. A crença de que a canção seria capaz de salvar Max, foi baseada em uma conexão astuta feita por Robin Buckley e Nancy Wheeler depois que uma das primeiras vítimas de Henry, seu pai Victor Creel, parecia ter sido salvo por ouvir Dream A Little Dream Of Me de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong.

No entanto, como Vecna ​​revelou na conclusão da primeira parte da quarta temporada de Stranger Things, a música não foi a razão pela qual seu pai, Victor, sobreviveu. Em vez disso, foi simplesmente porque que Henry ultrapassou os limites de seus poderes, o que o levou a entrar em coma antes que pudesse acabar com seu pai.

Isso não deve minimizar a importância da canção de Kate Bush para a sobrevivência de Max. Nancy descreve isso como “uma ponte de volta à realidade” e deve haver pouca dúvida de que ela estava certa. A música evoca memórias fortes que são boas e ruins, então faz sentido que ela pudesse abrir uma porta para fora da alienação opressiva de trauma, desespero e culpa em que Max se encontrava. Além disso, também faz sentido que se ela não tivesse memórias tão positivas e o amor de seus amigos para retornar, não haveria como escapar da maldição de Vecna.

É importante mencionar também Eddie e Argyle, os novos personagens incluídos nessa história. Ambos são completamente diferentes, um é viciado no jogo D&D e é metaleiro, e o outro um completo maconheiro entregador de pizza, mas os dois são um alívio cômico no meio de tantos acontecimentos.

Eduardo Franco, que interpreta o personagem Argyle, esteve presente no MTV Movie&TV Awards e declarou ser uma honra fazer parte de uma série de tanto sucesso. “Todo mundo do elenco, da produção foram maravilhosos e gentis comigo. Todos me receberam muito bem, é como se fosse uma família mesmo”, afirmou o ator.

Inclusive, mesmo Eddie sendo um novo rosto, ele protagoniza a melhor cena do segundo volume da série, onde sobe no topo do próprio trailer no Mundo Invertido com uma guitarra e um amplificador e toca Masters Of Puppets da banda de heavy metal Metallica para atrair os morcegos de Vecna.

O mais curioso dessa cena é que Tye Trujillo, filho do baixista da banda, Robert Trujillo, participou da quarta temporada gravando as faixas de guitarra utilizadas nessa versão. Além dele, o guitarrista do Metallica, Kirk Hammet, colaborou nas gravações.

Além da escolha da música refletir bem as características do personagem, que é fã de thrash metal. A letra de Master of Puppets combinou muito com Stranger Things. James Hetfield, líder da banda, fala da perda de controle e do uso de drogas na música, então os versos sombrios fazem jus a atmosfera ameaçadora do Mundo Invertido. “Master of Puppets lida com drogas. Como as coisas ficam de cabeça pra baixo, em vez de você assumir e fazer, as drogas controlam você” o vocalista afirmou sobre a faixa em entrevista à Thrasher Magazine.

Porém, infelizmente no final dessa trama o Eddie morre nos braços do Dustin, mas os fãs ainda não possuem 100% de certeza, talvez porque não querem acreditar ou porque não têm uma confirmação de fato. De qualquer maneira, isso é uma pena e que chega a ser revoltante, principalmente por ter sido um personagem inserido na penúltima temporada da série, onde foi muito bem desenvolvido e aceito por parte do público.

Uma das grandes surpresas do quarto ano da série, foi a junção de Nancy e Robin como uma dupla. As atrizes apresentam uma ótima sintonia e as personagens, surpreendentemente, se completam, rendendo cenas memoráveis. Já Steve e Dustin, voltam a chamar atenção por sua incrível e divertida dinâmica em conjunto.

Por outro lado, alguns personagens perdem completamente o destaque e ficam à deriva durante a narrativa. É o caso dos irmãos Byers, na qual é possível contar nos dedos quantas falas tiveram ao longo de todos os episódios. Mike e Lucas também não apresentam tanta relevância, mas ainda conseguem aparecer mais do que os primeiros.

O mais revoltante é que o Will saiu de personagem principal para um mero coadjuvante, e que o maior arco gira em torno do personagem ser gay e estar apaixonado por Mike. Já o Jonathan, foi reduzido a maconheiro e que até a trama entre ele e a Nancy que poderia ser explorada, foi deixada de stand by.

Apesar disso, Will protagoniza uma das cenas mais tocantes da quarta temporada. Sem qualquer ambição de grandiosidade, nem ameaça monstruosa pelo caminho, o adolescente demonstra toda sua coragem quando, de coração partido, aconselha Mike sobre seu relacionamento com a Eleven. E, como se suas lágrimas não fossem suficientes para dar conta da sua vulnerabilidade, os olhares furtivos de Jonathan pelo retrovisor denunciam o quanto dói no irmão mais novo estender a mão para seu melhor amigo dessa maneira.

Apesar disso, a direção consegue equilibrar melhor o tempo de tela dos núcleos, onde é possível identificar perfeitamente o motivo pelo qual eles estão separados, como é o caso de Joyce e a Rússia. A história flui em um bom ritmo e se mostra mais madura em relação às outras temporadas. Ao mesmo tempo, referências aos anos anteriores estão mais presentes, assim como pontos narrativos que se conectam com o início da série.

Como é o caso do grande vilão da temporada, Vecna. Ele vem do jogo de RPG Dungeons & Dragons, citado na série desde a primeira temporada. No game, ele é uma criatura que usa um tipo proibido de mágica para se tornar imortal, e é quase isso que Stranger Things mostra. Na série, o monstro se torna ainda mais forte a cada humano que mata. A escolha de suas vítimas, no entanto, não é aleatória. Vecna prefere possuir pessoas que passaram por algum evento traumático e estão vulneráveis emocionalmente, e as tortura com memórias dolorosas antes de acabar com suas vidas.

Voltando a D&D, no jogo Vecna nasceu humano séculos atrás, e sua mãe, Mazzell, foi executada por praticar feitiçaria. Então, em busca de vingança, Vecna se tornou um mestre das magias obscuras, chegando a um nível em que nenhum outro mortal havia alcançado. Em Stranger, os adolescentes começaram a comparar o monstro do Mundo Invertido com Vecna, devido aos seus poderes e pela aparência. Tão poderoso quanto o personagem do jogo, o Vecna de Hawkins é mais perigoso que o Demogorgon, mais complexo de se entender e mais difícil de ser combatido.

Não é só no RPG que Vecna tem um passado traumático com a família. Na série, se descobre que o monstro é Henry Creel, agora conhecido como Peter. O personagem, interpretado por Jamie Campbell, foi uma criança que demonstrava comportamentos estranhos. Com isso, sua mãe buscou ajuda profissional para tratar sua “natureza perturbada” e ele não gostou nada disso. Henry começou a usar seus poderes, primeiramente, para matar animais, até acabar matando a própria família. Victor Creel, o pai, foi o único sobrevivente para poder carregar a culpa pelos crimes.

Também é revelado a origem dos poderes de Eleven, mostrando que Henry, agora Peter, é o paciente 001 dos experimentos do laboratório de Hawkins. Levado à força para lá, Martin Brenner usou o sangue de Henry para criar outras crianças com os mesmos poderes. Para isso, no entanto, precisaria suprimir suas habilidades com a ajuda de um dispositivo implantado em seu pescoço.

Ao longo de todos esses anos, Peter esteve no laboratório de Hawkins auxiliando Brenner nos experimentos, quando descobriu que Eleven era tão poderosa quanto ele. Então, nos flashbacks de 1979 no episódio 7, O massacre no laboratório de Hawkins, os fãs podem ver que ela foi manipulada por Peter e acabou removendo o dispositivo que controlava seus poderes.

Então, Henry provoca um massacre no laboratório, matando as crianças e funcionários da instalação, mas é detido por Eleven, que acaba abrindo o portal para o Mundo Invertido e empurrando ele para lá. Ao cair, ele é queimado por um raio e se transforma em Vecna, o que é comprovado com a marca 001 no pulso.

É inegável como Jamie, que já tem grandes nomes no currículo, como Caius Vulturi em Crepúsculo, Jace em Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos e Gellert Grindelwald em Harry Potter, se sobressaiu fazendo o Vecna. Em entrevista a Vanity Fair, o ator declarou que não enxerga necessariamente o seu personagem como um vilão.

“Eu sou capaz de vê-lo como um vilão? Eu certamente sou capaz de vê-lo como um ponto de conflito”, afirmou. “Mas em termos de, tipo, ele é mau ou [é um] vilão? Quero dizer, eu o entendo e o amo. E eu me relaciono com ele. Fiquei com os olhos lacrimejados ao dizer isso – talvez eu devesse calar a boca! Tipo, eu o entendo, então sempre estarei do lado dele”. Ele ainda acrescenta que: “Acho que ainda há um nível de humanidade nele, mesmo onde ele está agora, mas acho que a humanidade dele estar onde está agora é um fato com o qual posso me relacionar. Tenho certeza que todos nós podemos.”

Com um aspecto bizarro, Vecna tem uma aparência tétrica, que até mesmo fez Millie Bobby Brown chorar quando viu o ator caracterizado. Em conversa com The Verve, Barrie Gower, designer de próteses e maquiador, revelou que o personagem foi feito à base de efeitos especiais e muito lubrificante.

“No dia [da filmagem] ele tem que estar superviscoso, então usamos produtos como lubrificante K-Y. Também usamos um produto chamado UltraWet, um gel transparente, que passamos em todo o corpo dele”, declarou ele. “É o tipo de coisa que, no set, se você colocava a mão no ombro dele, você se arrependia porque ficava todo melecado”, enfatizou Barrie.

O perfil oficial da Netflix compartilhou um vídeo que mostra a impressionante transformação de Jamie Campbell Bower no poderoso vilão da 4ª temporada de Stranger Things. O processo, que inclui a aplicação de diversas camadas de tecido e maquiagem no rosto e no corpo do ator, impressionou os internautas.

Além disso, a caracterização dos personagens carrega um estilo oitentista em seu auge, onde os penteados e figurinos tentam rejuvenescer o elenco, mas não é com todos que consegue. No entanto, tudo não se torna um mero detalhe assim que adentra a nostalgia da série. Os produtores da série reveleram algumas características sobre os looks, que vão desde tênis personalizados da Converse, até referências a nomes como o cantor britânico David Bowie e o filme Grease – Nos Tempos da Brilhantina.

Nessa temporada, Natalie Dyer fez uma permanente mas também usou uma peruca parcial para chegar ao visual de Nancy. Já Mike, deixou o cabelo crescer para ficar parecido com Eddie, em quem se inspira, mantendo um pouco mais comprido atrás e com camadas curtas.

Para os cenários da Califórnia nessa temporada, a figurinista Amy Parris usou diversas referências visuais, como a Thrasher Magazine, Skateboard Magazine, Surfer Magazine, além de anuários reais de escolas do ensino médio americano.

A equipe de figurino colaborou com a Quiksilver para criar o visual tipicamente californiano de Argyle: os tênis do personagem foram customizados pela Vans, e ele usa meias tie-dye igualmente customizadas. O figurino de Mike na Califórnia também foi feito pela Quiksilver, com o intuito de combinar com as roupas do personagem de Eduardo Franco.

O visual de Jonathan nessa season foi influenciado pelo Argyle e pelas atividades extracurriculares que eles fazem juntos. Consequentemente, ele está usando estampas mais psicodélicas. Já para o visual dos alunos do Colégio Hawkins, a Converse fez tênis personalizados em três cores para combinar com a paleta da escola.

No capítulo 4 dessa quarta temporada, a roupa da Robin parece que saiu do armário da Nancy e foi inspirada por catálogos antigos da coleção primavera-verão da Sears, Montgomery Ward e JCPenney em 1986.

Originalmente, os irmãos Duffer queriam que o cabelo do Eddie fosse parecido com o penteado clássico do David Bowie como Jareth em Labirinto – A Magia do Tempo, mas a equipe responsável pelos cabelos dos atores baseou o visual final em Ozzy Osbourne e outros integrantes de bandas famosas dos anos 1980.

E por fim, o penteado de Chrissy foi inspirado na personagem de Olivia Newton-John chamada Sandy em Grease – Nos Tempos da Brilhantina, no estilo líder de torcida americana, mas com franjas bem anos oitenta.

A fotografia de Stranger Things sempre foi bastante mutável e na quarta temporada isso não foi diferente. A depender do contexto de cada cena, a iluminação transita entre o claro e o escuro, também dando bastante destaque para a cor vermelha no mundo de Vecna. As transições do mundo real para o mundo invertido também acontecem e apresentam um bom jogo de câmeras.

Como foi dito anteriormente, a trama se divide entre núcleos diferentes, portanto, a cenografia é intercalada entre a Califórnia, Hawkins, a Rússia e o Mundo Invertido. São muitos os cenários que carregam a história neste ano, entre novos e já conhecidos, mas o destaque vai para a mansão que habita Vecna. O local é cheio de detalhes e uma importante peça para a narrativa, que inclusive por fora, lembra um pouco da casa do filme A Casa Monstro.

A trilha sonora da série também é um grande marco e que trouxe boas posições nos charts. A música de Kate Bush, Running Up That Hill por exemplo, na época de lançamento alcançou a posição mais alta do Hot 100 da Billboard da carreira da cantora, com um 30º lugar. Mas a série da Netflix mostrou o poder de uma plataforma de streaming, levando a música à 1ª posição do ranking no Spotify. Agora, a canção do Metallica, Masters Of Puppets, é a próxima a atingir bons lugares nas paradas musicais.

Outra música dessa quarta temporada que caiu no gosto do público foi Pass the Dutchie, do grupo Musical Youth. A trilha de Argyle e Jonathan, alcançou o 9º lugar no ranking da Apple Music. Além disso, embala vários vídeos divertidos nas redes sociais.

Mas não são apenas esses três sucessos resgatados. A quarta temporada também trouxe o hit da banda The Beach Boys, California Dreamin e Detroit rock city, do KISS. Afinal, Stranger Things aposta na nostalgia para conquistar o público, inclusive aqueles que nem viveram nos anos 80, e essa fórmula se repete desde a primeira temporada.

Quais as pontas soltas?

Com os dois episódios finais da quarta temporada de Stranger Things, muita coisa foi respondida mas algumas situações ainda ficaram pendentes para o grande final da série. Como prometido pelos criadores, os irmãos Duffer, a temporada não terminou com tudo resolvido, muito pelo contrário. O maior desafio de todos foi anunciado, e a próxima temporada precisa dar um jeito para resolver tudo o que ficou para trás, mas já foi confirmado que a produção terá um salto temporal.

Max morre?

Depois de ter escapado da morte por muito pouco, Max encerra a temporada em uma cama de hospital em coma. Além disso, parece que ela não está dentro de sua mente, que Eleven encontrou vazia. Então, fica um questionamento de que talvez ela esteja presa dentro da mente do Vecna e se ela vai ficar sem enxergar ou andar.

[Imagem: Reprodução/Twitter]

O que vai acontecer com Hawkins?

A season encerra com as quatro mortes causadas por Vecna abrindo portais que permitiram que o Mundo Invertido invadisse Hawkins. As partículas começaram a cair lentamente e a matar a vegetação que encontravam pelo caminho, então resta saber se os civis que sobreviveram continuarão por lá mesmo ou se a cidade abrigará apenas algumas pessoas, além dos protagonistas e possivelmente agentes do governo.

Vecna vivo

Vecna apesar de ter ficado bem ferido com o ataque de Nancy, Robin e Steve, conseguiu fugir e, muito provavelmente, passará estes anos do salto temporal reunindo forças a fim de concretizar seu plano de uma vez por todas. A não ser que um novo personagem poderoso seja introduzido, Eleven é a única capaz de enfrentar Henry frente a frente.

[Vídeo: Reprodução/Twitter]

Nancy, Jonathan e Steve

A relação de Nancy e Jonathan sofreu bastante com a distância física e emocional entre os dois. A diferença de planos do casal pode acabar terminando com o relacionamento, enquanto Steve está pronto para levar uma vida de família com Nancy e seus seis futuros filhos.

Will e a ligação com o Mundo Invertido

Os criadores da série já confirmaram à Collider que Will terá um grande foco na última temporada da série, o que faz sentido já que no final do nono episódio, é possível ver o personagem se arrepiando devido a ligação com o Vecna. É importante lembrar que a conexão entre ele e o Devorador de Mentes foi estabelecida na 1ª temporada, antes de ser resgatado do Mundo Invertido. Alguns fãs já estão especulando que como tudo começou com ele, faz sentido toda essa história ser finalizada com ele também.

Stranger Things continua encontrando mais força nos indivíduos e menos na jornada. A fórmula dos Irmãos Duffer funciona e entretém justamente porque eles amam seus personagens, fazem todo mundo amar seus personagens e gostam de permanecer o máximo possível em seus conflitos e emoções. Também ajuda bastante quando há consequências brutais, como no último episódio – e é de se esperar que os criadores tornem o impacto permanente.

A escala do seriado só tem aumentado, com a produção dando um show visual cada vez maior, seja esteticamente, seja cinematograficamente. Por mais desnecessariamente extenso que seja a finalização da quarta temporada, é impossível negar que foi o ano mais épico e macabro da série, mas, como sempre, mantendo o lado humano que torna a obra tão empática e divertida de acompanhar.

De uma série de mistério ao tom de terror, o seriado caminha para o seu desfecho carregando uma legião de fãs consigo. Dá para ter uma noção do que esperar do fatídico quinto ano, se considerar que apenas dois episódios foram tratados como um verdadeiro evento da cultura pop de 2022. É possível aguardar uma sequência com toda qualidade e potencial que trouxeram até aqui. Principalmente quando a promessa é grande demais para se esperar tanto.

[Crítica] ‘Twelve Carat Toothache’ mostra os altos e baixos de Post Malone

Na última sexta-feira (03), foi lançado o quarto álbum de estúdio do rapper Post Malone, intitulado Twelve Carat Toothache. O projeto conta com 14 faixas e participações especiais de Roddy Ricch, Doja Cat, Gunna, Fleet Foxes, The Kid LAROI e The Weeknd

Após três anos do seu último disco, Hollywood’s Bleeding, Malone volta com o álbum mais curto de sua carreira, mas nas palavras do mesmo, com menos faixas fillers que podem ser encontradas em seus projetos anteriores. Em entrevista à revista Billboard, o rapper afirma que as novas músicas falam mais sobre como ele está se sentindo no momento. “É sobre os altos e baixos, a desordem e essa bipolaridade de ser um artista hoje no mainstream”, conta Malone.

O disco conta com 8 produtores principais, Andrew Bolooki, Brian Lee, Charlie Handsome, Jasper Harris, Louis Bell, Omer Fedi, Watt e o próprio Post Malone. A masterização é feita por Mike Bozzi e a mixagem é assinada por Louis Bell e Manny Marroquin.

Capa e tracklist do álbum Twelve Carat Toothache. [Imagens: Reprodução/Genius]

A primeira faixa do disco é Reputation, sendo a música mais melancólica e que tem como elementos principais o piano acompanhado dos vocais de Malone. A canção que introduz o projeto discute sobre a reputação do rapper e, principalmente, sua relação com a fama. 

Em versos como “You’re the superstar, entertain us” (Você é o superstar, nós entretenha; em português), não fica claro se ao longo da música o desabafo é para os seus fãs ou um antigo amor. Mas mesmo assim, é possível ver que ele coloca toda a sua vulnerabilidade na música e acerta o tom para o resto do disco. 

Seguimos com Cooped Up com participação de Roddy Ricch, lançado como segundo single do álbum. A faixa mais hip-hop com refrão viciante segue o tema da fama e como o rapper se sente engaiolado nessa situação. Post Malone e Roddy Ricch já trabalharam anteriormente no remix da música Wow. Em Cooped Up, o verso de Roddy não impressiona, deixando o destaque para o refrão e ponte cantados por Post. 

A música atingiu a posição 29 em sua estréia na parada musical Billboard Hot 100 e permaneceu somente duas semanas no chart. O videoclipe de Cooped Up foi lançado em maio desse ano e tem como espaço principal apenas um cômodo em que Post Malone canta seus versos, evidenciando a ideia de se sentir enclausurado em sua vida de superstar.

A terceira música do disco é Lemon Tree, outra faixa mais vulnerável do artista. Acompanhada de violão, o rapper discute com a vida a falta de sorte que parece estar enfrentando. Nos trechos “Life is pretty sweet, I’m told; I guess I’m shit outta luck, growin’ a lemon tree” (A vida é bem doce, me disseram; Acho que estou sem sorte, cultivando um limoeiro, em português), Malone brinca com a ideia de como a vida deveria ser doce para ele, mas ultimamente ele se sente com a vida bem azeda.

Wrapped Around Your Finger é a quarta faixa com elementos mais pop e animados do disco. Nela o artista admite como estava completamente envolvido em um relacionamento do passado e expõe toda sua personalidade de apaixonado. Seguindo o álbum, passamos para I Like You (A Happier Song) com participação de Doja Cat

A música como diz o título é bem animada e com uma batida contagiante, e a repetição do refrão “I like You, I do” é daqueles de ficar grudado na cabeça por dias. A dinâmica dos dois artistas na música é bem legal, com cada um cantando de sua perspectiva nesse possível relacionamento apaixonado. I Like You (A Happier Song) começou a ser promovida nas rádios, seguido do lançamento do disco, e se caracteriza como o terceiro single da era.

A sexta faixa de Twelve Carat Toothache é I Cannot Be (A Sadder Song) com participação do rapper Gunna. A música que representa o oposto da anterior, fala sobre um relacionamento que a outra pessoa está atrasando e segurando o artista de maneira negativa. Apesar da letra mais triste, a faixa é um hip-hop animado com a cara do Post Malone.

Seguimos com Insane, a canção com orientações mais trap do projeto e que tem grandes chances de virar o próximo single. Nela o rapper rima sobre dinheiro e mulheres sem maiores preocupações em cima de uma batida rápida e viciante.

Love/Hate Letter To Alcohol é a oitava faixa do álbum e conta com a participação da banda Fleet Foxes. A música se inicia com um coro de vozes e como diz o título se desenrola em um desabafo da relação de amor e ódio com o álcool. Nela fica explícito os problemas que o artista tem com a bebida, mas essa ainda é a sua forma de encarar a tristeza. Em sua participação no Saturday Night Live em maio deste ano, a faixa ganhou sua primeira apresentação ao vivo.

Já a nona música do projeto é Wasting Angels com The Kid LAROI, a faixa mais lenta e com orientações pop, coloca os dois artistas para discutir a relação com a fama e reputação. Vale destacar como Malone e LAROI possuem similaridades vocais, fazendo até ouvintes atentos se questionarem quais são de fato os versos de cada um.

O álbum continua então com Euthanasia, que conta com o sample da música de 2003, Pink & Blue do OutKast. A faixa que faz uma referência clara a eutanásia, prática médica que consiste em abreviar a vida de um paciente em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos. Em uma das músicas mais sombrias do projeto, Malone então fala sobre a ideia de sua própria morte e fantasia sobre uma morte indolor em que possa encontrar um coro de anjos.

When I’m Alone é a décima faixa do Twelve Carat Toothache, com a batida rápida da bateria acompanhada de guitarra e voz, essa música mistura pop e rock ao mesmo tempo. When I’m Alone então abre espaço para o rapper falar sobre sua infidelidade em um relacionamento anterior.

[Imagem: Reprodução/Billboard]

Depois de uma faixa mais animada, Post volta a uma música mais lenta e introspectiva. Waiting For A Miracle é novamente uma das canções que discute a morte de alguma maneira, seja no verso “And everything done for the dead after they’re dead, is for the living” (E tudo que é feito para os mortos após eles estarem mortos, é para os vivos; em português) ou quando fala sobre suicídio.

Mudando totalmente de estilo, a penúltima música do álbum, One Right Now, conta com a participação de The Weeknd. Lançada como primeiro single do projeto ainda em 2021, a canção tem clara influência do pop dos anos 80 com uso de sintetizadores. A faixa tem relação com os trabalhos mais recentes de The Weeknd, mas não necessariamente se encaixa no disco de Malone. One Right Now estreou na sexta posição na Billboard Hot 100 e ganhou um videoclipe no mesmo mês de lançamento.

O álbum encerra com New Recording 12, Jan 3 2020, uma gravação caseira e demo de parte da letra de Euthanasia. No áudio de 1 minuto e meio, é possível ouvir Malone cantando somente acompanhado de seu violão. Essa maneira de terminar o projeto com uma demo, evidencia que essas músicas mais sombrias e reflexivas do artista, foram de pensamentos recorrentes de Post Malone nos últimos anos.

Em relação a crítica especializada, o site metacritic atribuiu nota 66 ao álbum baseado em apenas seis reviews. Com maioria de resenhas positivas, as revistas Rolling Stone e NME destacam o sucesso do artista em compartilhar sua verdade, em um disco mais reflexivo que segue com a cara do artista.

Twelve Carat Toothache estreou no Spotify com mais de 30 milhões de streams e em comparação com seu antecessor Hollywood’s Bleeding, que fez 74 milhões em seu primeiro dia, o número parece desapontar. Já em relação às projeções de venda, a Hits Daily Double previu cerca de 115,000 a 130,000 mil unidades vendidas, quantidade também inferior ao disco anterior, mas que pode dar a possibilidade do terceiro número 1 de Post Malone na Billboard 200.

De fato, o lançamento de Twelve Carat Toothache não foi cercado de muita promoção e singles que fizessem muito barulho como os trabalhos anteriores de Malone. O projeto também sofreu alguns adiamentos, Post anunciou que estava trabalhando em um álbum novo durante live tributo a banda Nirvana ainda em 2020 e em 2021 seu empresário chegou a postar no Instagram que talvez teria dois discos do rapper naquele ano. Infelizmente, nenhum novo projeto ganhou um anúncio e em julho de 2021, o single Motley Crew foi lançado, mas a música não faz parte de Twelve Carat Toothache.

A menor quantidade de faixas é um fator que pode prejudicar o número de streams do disco, mas como citado anteriormente, a escolha do rapper foi selecionar o que considerava as melhores músicas para a edição final. O álbum foi claramente pensado como um todo, desde as temáticas das músicas que se cruzam a todo momento até as transições entre as faixas.

Twelve Carat Toothache talvez seja um dos discos mais tristes da carreira de Post Malone, nele é possível ver que mesmo após o sucesso do artista, ele prefere evidenciar seu sofrimento, vícios, problemas com drogas e álcool, e a relação ambígua com a fama. Para os fãs do rapper, o álbum provavelmente não decepcione, pois apesar dos assuntos mais sombrios, não se afasta da essência musical de Malone.

Cópia física do álbum novo de Post Malone. [Imagem: Reprodução/UMusic]

O destaque de Twelve Carat Toothache ainda vai para as faixas mais energéticas como Love/Hate Letter To Alcohol, Insane, Cooped Up e I Like You (A Happier Song), deixando algumas outras participações e músicas solos mais esquecidas. Pelas especulações e críticas, talvez o projeto não seja um grande sucesso nas paradas musicais e número de streams, mas essa não parece ter sido a intenção do artista.

Depois de algumas eras anteriores bem sucedidas e várias aparições no topo das paradas, Post Malone fez seu comeback inspirado em um relato super honesto sobre seus sentimentos e impressões sobre sua vida atual. Para isso, Twelve Carat Toothache cumpre seu papel e vale a pena pelo seu poder de reflexão. E o trabalho mais curto talvez indique que essa seja apenas uma das partes iniciais de seus lançamentos futuros.

[CRÍTICA] Harry Styles mostra estabilidade ao acertar mais uma vez com Harry’s House

De uma coisa, todos que estão por dentro do mundo fervoroso das celebridades sabem: Harry Styles esbanja carisma. Como se tivesse nascido para estar nos maiores palcos do mundo com suas roupas brilhantes e nenhuma preocupação além de falar o que sente e pensa através das músicas, ele se tornou um dos membros de maior sucesso desde o fim da boy band One Direction, da qual fez parte entre 2010 e 2015.

Na terceira semana de maio (20), Styles lançou Harry’s House, seu terceiro álbum de estúdio, com a proposta de convidar à sua casa quem quiser conhecê-lo.

Desde o hiato do grupo, ele se consolidou na indústria pop, começando por seu álbum de estreia self-titled carregado de pop rock, Harry Styles (2017), responsável pelo single de sucesso Signal Of The Times. Como uma prova de sua consistência e ousadia, lançou-se à criatividade e à experimentação com Fine Line (2019), um estouro pop por todo o globo com singles como Watermelon Sugar, Adore You e Golden.

Apesar da última era de Harry ter sido marcante, a mais nova trazida pelo artista promete muito, mas será que cumpre? Produzido por Kid Harpoon, Tyler Johnson e Samuel Witte, o álbum apresenta uma gama de canções acústicas interessantes, mas é dominado por um pop oitentista que, ainda que não tenha sido feito de maneira original, tem uma sonoridade interessante juntamente às composições do cantor.

Ao fugir, em grande parte, do escopo do que trouxe anteriormente, o artista inovou dentro de sua discografia e ganhou aclamação da crítica, com nota 84 pela média de 25 críticas no Metacritic. A relevante New Music Express (NME), ainda, destaca esse como o melhor álbum de Styles. Dentre as críticas positivas, estão comentários de Rolling Stones, The Guardian e Los Angeles Times, apesar da avaliação mediana do New York Times.

Como uma espécie de convite, o lead single escolhido foi As It Was, faixa quatro do disco. Ela exprime alguma angústia em relação ao passado e traz aquela coisa íntima de cuidado com os detalhes. De todas as canções, essa é a que melhor introduz o propósito de Harry’s House como um álbum intimista — uma possibilidade de conhecer o mundo do astro. Um artifício que pontua com ainda mais ênfase a pessoalidade da composição é a introdução marcada pela voz de Ruby Winston, filha de cinco anos do produtor Ben Winston e afilhada de Harry, com quem confessou falar todas as noites.

A faixa de abertura é um eletropop cheio de energia: Music For a Sushi Restaurant. Utilizando até mesmo o recurso auditivo da estereofonia  — uma produção sonora que possibilita, por exemplo, ouvir um instrumento em apenas um lado do fone — para criar a imersão do ouvinte na atmosfera envolvente do álbum. É dançante e divertida, exatamente como a música seguinte, Late Night Talking — já performada no Coachella 2022. Ambas não têm uma riqueza lírica na composição e, por serem até um pouco superficiais nesse sentido, podem frustrar a princípio ao considerar que o single de promoção do álbum é contrário nesse ponto, pois revela uma face real de Harry. De qualquer forma, elas não deixam de fortalecer um clima aconchegante que remete a estar numa festa em casa, dançando com os amigos.

Grapejuice, por outro lado, é receptiva. É envolvente, instigante e soa como uma ponte, em relação à sonoridade, entre seu disco de estreia e Harry’s House com a combinação de sua fase new wave e o pop rock de músicas como Two Ghosts (2019). O uso das banalidades — de momentos pequenos e rotineiros — demarcam a inserção nesse ambiente hospitaleiro de amor e recordação a partir de um narrador e seus devaneios ao longo da letra.

Como as duas primeiras canções, Daylight tem uma batida envolvente e que facilmente fixa na cabeça. A seguir, o ritmo começa a desacelerar e se tornar consideravelmente menos dançante com a presença dupla mais melancólica do álbum: Little Freak e Matilda. Na primeira, o artista utiliza um artifício de enriquecimento à música a partir da adição de camadas com instrumentos a mais a cada vez que o refrão se repete. Assim, esse crescimento eleva a sensação do público quando vai evoluindo juntamente à construção desse cenário de conforto.

Matilda segue a mesma linha de sua antecessora e tem como inspiração o livro infantil homônimo de Roald Dahl, como comentou Harry em entrevista à Apple Music. A história da obra ganhou maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de 1997, também homônima, responsável por marcar gerações como as que mais ouvem o cantor britânico. Ainda, comentou sobre como seu objetivo era se mostrar como alguém disposto a ouvir, o que parece ter sido muito bem realizado ao considerar a comoção gerada pela música nas redes.

Sem tempo para respirar após o baque, Cinema chega com mais eletropop dançante para levantar a poeira. A faixa, apesar de trazer versos mais repetitivos, tem um enorme potencial para single pela simplicidade de sua composição e a energia de um sucesso digno de Harry Styles, assim como Daydreaming, faixa nove. Divertida e romântica, essa se mostra a com o maior potencial comercial pelas batidas marcadas, os versos também simplórios e suas confissões amorosas. Ela segue a mesma linha de alguns dos principais singles da carreira — Adore You, Lights Up

Keep Driving com sua ponte alucinante que certamente conta uma intensa história antecede uma nova descida que já encaminha para as faixas finais. Satellite começa com aquela mesma sonoridade apresentada pelo disco, mas no minuto final toma um formato robusto mais aprofundado que a torna ainda mais interessante, dinâmica e cheia de personalidade.

Boyfriends, também já performada no Coachella 2022 juntamente a Late Night Talking na apresentação de Styles como headliner, é um acústico sereno. Uma espécie de carta aberta sobre relacionamentos disfuncionais cujas tensões são ocasionadas pela parte masculina, é como se sentar diante de Harry na sala de sua casa e ouvi-lo, apenas voz e violão, dar conselhos indispensáveis.

[Imagem: Divulgação]

Para encerrar, a atmosfera é serena e doce com Love Of My Life, uma genuína declaração amorosa carregada de angústia e recordações dolorosas. No verso “eu me me lembro lá na casa do Jonny, nada mais é como era”, encerra-se o ciclo aberto pelo lançamento de As It Was como o lead single que serviu como o convite à sua casa. A faixa finaliza fazendo jus à aventura proposta pelo álbum e ameniza esse labirinto de emoções.

Harry Styles se mostrou mais experimental e ousado em Fine Line, quando saiu consideravelmente da zona de conforto que criou com seu álbum de estreia – que, apesar de bom, é tímido quando se compreende a potência da voz artística do cantor. Com muita personalidade e audácia, usou o segundo para explorar sua mais recente liberdade criativa. Com Harry’s House, para a indústria, não há nenhuma revolução significativa e a gama de canções com composições previsíveis pode até mesmo soar menos original que o que já foi produzido por ele em tempos remotos, quando pareceu se mostrar mais como artista e indivíduo que agora, quando formalizou tal convite.

Apesar de todas as oposições, Harry’s House pode ser melhor definido como o álbum mais divertido e dançante de Harry, ao mesmo que traz canções desoladoras e inesquecíveis. A experiência geral baseada na premissa também pode variar conforme o grau de proximidade com a arte do cantor, mas o que não pode deixar de ser dito é: esse é um ótimo disco que mantém o lugar do britânico no pódio da música mundial e demarca como seu talento e criatividade são grandes ganhos para as novas gerações.