[Crítica] Renaissance: os hinos de positividade iniciam uma nova era

O tão aguardado comeback da Beyoncé finalmente chegou! Renaissance, o sétimo álbum de estúdio da artista, foi lançado na última sexta-feira (29). O projeto, que é o primeiro ato de uma trilogia, vem sendo muito aguardado pelos fãs após um hiatus de 6 anos da cantora desde seu último disco solo, Lemonade.

Renaissance conta com 16 faixas e participações especiais de Beam, Grace Jones e Tems. Nas redes sociais, Beyoncé compartilhou o significado do projeto feito durante três anos na pandemia, onde a artista declarou na dedicatória do disco que foi uma época em que mais se achou criativa.

Criar este álbum me permitiu um lugar para sonhar e encontrar fuga durante um momento assustador para o mundo. Isso me permitiu sentir-me livre e aventureiro em uma época em que pouco mais estava se movendo. Minha intenção era criar um lugar seguro, um lugar sem julgamento”, contou a cantora.

O projeto tem doze produtores principais, A. G. Cook, Boi-1da, Guilty Beatz, Jahaan Sweet, Labrinth, The Neptunes, S1, Skrillex, Tate Kobang, The-Dream, Tricky Stewart e a própria Beyoncé. A masterização é feita por Colin Leonard e a mixagem assinada por Stuart White.

A primeira faixa do Renaissance é I’m That Girl, que usa o sample da música Still Pimpin de Tommy Wright III, Mac T-Dog e Princess Loko, lançada em 1994. A canção dançante inicia o álbum com uma mensagem bem simples do poder feminino. 

Nos versos, “It’s not the diamonds, It’s not the pearls, I’m that girl, It’s just that I’m that girl” (Não é os diamantes, não é as pérolas, eu sou aquela garota, é que eu sou aquela garota; em português) a artista exemplifica que não é necessário coisas de valor para lhe agregar poder.

Cozy é a segunda música do álbum e ela fala sobre estar confortável, sendo em ser quem você é, com seu próprio corpo e com sua cor. Com uma batida mais relaxada, a artista entrega novamente uma mensagem positiva para seus fãs. A canção usa como samples as faixas Get With U de Liddell Townsell e M.T.F. e Unique de Danube Dance e Kim Cooper.

Além disso, Cozy usa trechos do vídeo Bitch I’m Black da TS Madison, personalidade americana muito conhecida por ser a primeira mulher trans negra a produzir e apresentar um reality show.

Seguimos com Alien Superstar, uma faixa com batida eletrônica sensual e que se inicia com um sample da canção Moonraker do Foremost Poets, lançada em 1998. A música explora toda a sensualidade da artista e comunica com o público o poder de ser única ao som da faixa perfeita para se ouvir na pista de dança.

O destaque de Alien Superstar vai para a interpolação de I’m Too Sexy do grupo Right Said Fred no refrão da música, que destaca a genialidade da artista em usar uma canção muito conhecida de maneira tão revigorante. O sample de Unique de Danube Dance e Kim Cooper se repete e ao final da faixa é possível ouvir parte do discurso Black Theater da escritora e atriz Barbara Ann Teer.

Ensaio de divulgação do álbum Renaissance. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Cuff It é a quarta faixa, com sonoridade disco e synth funk (a mistura do uso de sintetizadores com a batida rítmica do funk), a música se desenvolve de maneira divertida e romântica. Essa é uma Beyoncé que só quer se divertir e não tem nada que irá prendê-la. A canção tem interpolação de Ooo La La La da Teena Marie e sample de Square Biz da mesma cantora.

A quinta música do álbum é Energy com participação de BEAM, cantor jamaicano e americano. A faixa com sonoridade dancehall e eletrônica, mistura as partes melódicas cantadas por Beyoncé e os versos de BEAM com o afrobeat. Na letra pode ser encontrar um incentivo para dançar e se divertir, mantendo sempre a energia alta.

Energy tem sample de Milkshake e Get Along With You da cantora Kelis e Explode de Big Freedia, que faz a transição com a próxima canção do disco. Seguimos com Break My Soul, lead single do álbum, que conta com o samples do hit dance dos anos 90, Show Me Love, da cantora Robin S. e novamente a canção Explode de Big Freedia, lançada em 2014. 

A música alcançou o 7° lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 5 semanas no chart. Break My Soul que chegou para anunciar a volta da artista, agora na sonoridade dance-pop, se manteve na proposta de ser um hino de positividade em tempos confusos.

Capa alternativa do disco. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Church Girl é a sétima faixa do Renaissance, onde a artista explora nos versos da música sua religiosidade e suas raízes do sul dos Estados Unidos. Com batidas animadas do bounce é celebrado a liberdade em todos os seus sentidos. A canção usa os sample de Center of Thy Will das The Clark Sisters, Drag Rap dos The Showboys e interpolações de Where They At do DJ Jimi e Think (About It) da Lyn Collins.

Seguimos com Plastic Off The Sofa, a música mais lenta e R&B, mas sem abandonar o upbeat eletrônico. Nela, Beyoncé fala sobre amor e as qualidades de seu interesse romântico, podendo ser até uma faixa dedicada ao seu marido, Jay-Z. Pelo caráter mais intimista da música, os vocais da cantora se sobressaem e são o grande acerto de Plastic Off The Sofa.

A nona canção é Virgo’s Groove, um clássico disco com letra mais romântica  dedicada ao amor da vida da artista. Com vocais e melismas arrepiantes, por mais de seis minutos podemos ouvir Beyoncé brincar com sua técnica vocal em uma faixa mais tranquila e pop.

Move é a próxima canção com a participação de Grace Jones e Tems. A faixa tem influência do afrobeat e bounce e explora os dois significados do termo “move”, em inglês, que pode significar o ato de se mexer e dançar, ou de sair da frente e abrir espaço para alguém mais importante. 

Seguimos com Heated, uma música mais R&B que conta uma menção e homenagem a uma das pessoas que inspiraram o Renaissance, Uncle Johnny. Ele, que era sobrinho da mãe de Beyoncé, teve participação na criação da artista e no início da sua carreira ajudava a criar designs e vestidos para serem usados por ela.

Em 2019 no GLAAD Awards, a cantora também dedicou o prêmio ao tio que morreu por complicações do HIV nos anos 90. No encarte do disco, Beyoncé agradece e explica a importância de Johnny. “Ele foi minha ‘madrinha’ e a primeira pessoa a me expor a muita música e cultura que servem de inspiração para este álbum.”, declara a artista.

Foto que aparece no encarte do álbum com agradecimentos ao Uncle Johnny.  [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

A décima segunda canção é Thique, uma faixa mais pop e trap, mas sem perder a sonoridade eletrônica. Nos versos se encontram rimas sobre dinheiro e sensualidade, com a exaltação do corpo da artista.

O álbum segue com All Up In Your Mind, uma das músicas mais diferentes do projeto e que coloca a cantora no universo ainda não explorado por ela, o hyperpop. Com letra bem pop falando sobre amor, o destaque vai para os vocais e performance de Beyoncé que combinam muito com o gênero.

America Has a Problem mistura a sonoridade de sintetizadores com o rap e usa o sample de America Has a Problem (Cocaine) de Kilo Ali, lançada em 1990. A faixa, apesar do nome, não tem nenhuma crítica política e deixa espaço para a cantora rimar de maneira divertida e interessante.

A penúltima canção é Pure/Honey, a faixa que é dividida em duas fases e gêneros. Na primeira parte, Pure, a artista apresenta rimas rápidas acompanhadas de uma batida perfeita para as boates. Já na parte Honey, Beyoncé se envolve completamente no soul e funk seguidos de vocais de outro mundo. A música tem os samples de Cunty da Kevin Aviance, Miss Honey de Moi Renee e Feels Like de MikeQ e Kevin JZ Prodigy.

O álbum termina com Summer Renaissance, a faixa que tem no refrão uma interpolação de I Feel Love de Donna Summer, um clássico do disco dos anos 70. A música encerra o álbum mais experimental da carreira da artista como o fim de um sonho. Levando os ouvintes a outras camadas da voz de Beyoncé em um ritmo que ninguém esperava vê-la dominando.

[Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Horas após o lançamento, Renaissance alcançou o topo do Apple Music em mais de 100 países, se tornando o primeiro disco feminino a conseguir o feito em 2022. No Spotify, o projeto teve a maior estreia de um álbum de uma artista feminina na plataforma este ano, com mais de 43 milhões streams

De acordo com o Hits Daily Double, o álbum tem previsão de vender entre 275 e 315 mil unidades, colocando o Renaissance em primeiro lugar nas paradas musicais americanas. Se conseguir chegar ao topo, Beyoncé se tornará a primeira artista feminina a colocar um disco nessa posição em 2022.

No metacritic, o projeto está com nota 93, acumulando 15 avaliações positivas e superando a avaliação de seu álbum anterior, Lemonade, que tem a nota 92. Na review da revista Rolling Stones, a artista foi aclamada por sua habilidade de dar aos ouvintes novos hinos pop e as faixas lentas e sensuais que todos amam e esperam nos projetos da cantora. 

A faixa Virgo’s Groove ganhou o selo de ‘Melhor Nova Música’ do site Pitchfork, destacando a música disco-funk como uma das melhores na carreira da Beyoncé. Na crítica de Renaissance, o álbum conquistou a nota 9 e a atribuição de ‘Best New Music’, dando ênfase no disco como uma rica celebração da música das boates e seu espírito emancipatório.

Em geral, o novo álbum se reinventa do que esperávamos no futuro da discografia da cantora. Após Lemonade, um dos projetos mais pessoais da artista, Renaissance reúne diversão, leveza e sensualidade nas faixas. Beyoncé aposta em um novo gênero musical e o mistura com outros ritmos, tornando o disco uma extensão de sua personalidade.

O uso correto de samples também merece destaque, pois demonstra a habilidade da cantora em transformar as interpolações e trechos de outras músicas em algo tão original e criativo quando aparece em Renaissance. Quem imaginou que após a faixa Way 2 Sexy de Drake e Young Thug o refrão da música I’m Too Sexy poderia soar de fato sensual e não cafona com em Certified Lover Boy? Só com os vocais de Beyoncé mesmo.

E falando em voz, a produção vocal do álbum está entre um dos melhores da artista, levando o ritmo eletrônico do house e disco a outros níveis. As faixas são conectadas não só pela sonoridade coesa do projeto, mas também em belas transições que o colocam na estética de um DJ unindo músicas para uma pista de dança.

Renaissance se estabelece como o início de uma trilogia animada e empolgante. É impossível ouvir o projeto e não se sentir contaminado ao dançar e melhorar o humor de quem está ouvindo. Assim, o álbum mais experimental de Beyoncé cumpre a promessa de nos levar a um lugar de exploração e liberdade.

[Crítica] Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter são emocionantes e imersivos

O quinto álbum de estúdio de Sabrina Carpenter, emails i can’t send, foi lançado na última sexta-feira, 15 de julho. Sob domínio da gravadora Island Records, produção de Leroy Clampitt, Jason Evigan, Jorgen Odegard, John Ryan, Ryan Marrone e Julian Bunetta. Já como compositores, participaram Julia Michaels, JP Saxe, Steph Jones, Amy Allen e a própria Sabrina descritos nas faixas. O álbum surpreende com composições honestas e pode ser representado por três pilares: storytelling, imersão e vulnerabilidade.

Com a imagem totalmente desvinculada da Disney, coloca um ponto final nas polêmicas em que foi envolvida no ano passado. Carpenter transita entre diversos gêneros musicais com o passar das músicas e se dá bem com todos. Arriscando com transições engraçadas e pessoais, consegue criar um enredo e conta o seu lado da história.

A primeira faixa, emails i can’t send, carrega o nome do álbum e é um verdadeiro soco no estômago. Com instrumental mínimo, poder vocal e rimas impecáveis, a apelidada pelos fãs de intro na época do pré-álbum, emociona e choca por revelar que a insegurança de Sabrina com relacionamentos é vinda da traição de seu pai. Cada palavra toca profundamente e a música prende a atenção por ser contada praticamente de maneira cronológica, como uma história.

Vicious foi lançada menos de um mês antes do álbum e foi responsável por aumentar as expectativas de todos. Vindo de uma sequência de singles não tão bem aceitos, essa canção é forte e debochada, tendo seu momento de explosão na ponte, onde é dito “Você não sente remorso, você não sente os efeitos, porque você não acha que me machucou se me deseja o melhor, eu deveria ter percebido antes que eu seria apenas a próxima a tomar suas músicas de amor como promessa”. Doeu por aí?

Tirando o ouvinte da transe causada pelas faixas anteriores, Read your Mind começa com vocais angelicais e tranquilos, mas essa calmaria passa poucos segundos depois, quando a melodia muda totalmente para algo mais agitado e dançante. A música retrata um amor confuso onde um dos lados quer continuar solteiro, mas não consegue resistir a paixão – embora não assuma, fazendo idas e vindas dolorosas e egoístas na vida da outra parte envolvida. Novamente é uma grande aposta no storytelling, contando a situação praticamente como uma fofoca para a melhor amiga.

Passando para Tornado Warnings, o quesito de conversação no início da música lembra muito o single skinny dipping, também presente no álbum. A faixa representa a fase de negação em um relacionamento mal sucedido, Sabrina contou em entrevista que possui as notificações do telefone ativadas para alertas de tornado, e que a composição se trata de uma história real envolta por uma metáfora, onde ela estava com alguém que não deveria estar em um parque e logo começou a chover, mas decidiu ignorar todos os alertas de perigo e mentiu para seu psicólogo sobre esse encontro, para não zangá-lo.

Se as outras faixas se tratavam de um desabafo, because i liked a boy é um grito alto e claro. Retornando às origens do ódio que recebeu no passado, a artista diz que não esperava que um amor tão inocente e intenso te traria tantas ameaças de morte e ofensas pesadas, como “destruidora de lares” e “vagabunda”. A grande revelação da música é a afirmação de que quando o caos começou, o casal já havia terminado o relacionamento. Com uma melodia voltada para o R&B e a estética circense presente no clipe, essa canção se torna facilmente uma das queridinhas do álbum.

Already Over, que já havia uma prévia postada nas redes sociais da cantora, é uma faixa leve e divertida, com uma pegada mais country. Ela volta para o assunto do caos mesmo sem estarem mais juntos, e com tudo vindo à tona, é ainda mais difícil colocar um ponto final em um assunto que está constantemente aparecendo em sua frente, causando algumas recaídas entre os dois.

Quebrando a agitação da faixa anterior, how many things possui mais de quatro minutos e retrata o fim do amor de uma das partes: “Eu imagino quantas coisas você pensa antes de pensar em mim, eu imagino quantas coisas você quer fazer e eu estou impedindo”. É a fase do fim do relacionamento onde tudo ainda é muito recente e tudo lembra a pessoa, mas não sente que o outro está na mesma situação. Com um instrumental mínimo servindo apenas de acompanhamento, a música é muito relacionável, servindo para relacionamentos amorosos, familiares ou em amizades que não correspondem mais ao mesmo carinho.

bet u wanna é a herdeira de Sue me e Looking at Me. Com um tom mais debochado, vingativo, sexy e coberto de autoestima, a música trata do momento de respeito a si própria e seu valor após o fim de um ciclo, descritos através de frases provocativas. Carpenter ironiza a situação e aposta que a pessoa a quer de volta, mas agora já é tarde demais. Simplesmente a faixa que os fãs esperam todo álbum, para recuperar sua força e autoestima, e também porque fica bem nos “stories de biscoito”.

Nonsense possui uma raiz semelhante a de algumas faixas do álbum positions de Ariana Grande. A canção mantém a energia provocativa e irônica, onde está vivendo novas experiências e volta para a fase leve, perdendo a noção quando está ao lado de outra pessoa. O verso “Eu acho que tenho um ex, mas esqueci dele”, junto ao significado de bet u wanna, confirmam que estamos na parte da história onde já deu o que tinha que dar e está superado.

Fast times e skinny dipping dão procedência ao álbum e são os dois singles anteriores da era. Bem diferentes entre si, ambas das músicas representam elementos presentes no restante das faixas, o tom de storytelling presente na composição e clipes, sempre instigando o ouvinte a escutar a música até o final para saber o desfecho da história.

Chegando a penúltima faixa, Bad for Business traz uma ambiguidade na interpretação: A insegurança de um novo relacionamento atrapalhar sua carreira e imagem como o anterior ou essa paixão literalmente atrapalha os negócios, pois não a deixa dormir de noite e é sua grande fonte de inspiração, fazendo com que ela não consiga pensar em mais nada. A música tem uma melodia leve e um pouco mais lenta, a composição é apaixonada e traz a calmaria de um amor – por enquanto – tranquilo.

Encerrando o álbum com chave de ouro, decode é vulnerável e honesta, uma das mais pedidas pelos fãs – por conta de uma prévia anteriormente postada por Sabrina – vai além do esperado. A letra assume cruamente que não aguenta mais pensar e repensar sobre o relacionamento, sobre o que pode ou não ter acontecido, por isso simplesmente desiste e afirma que não há mais o que falar sobre o assunto, não há mais nada para decodificar, todos as partes deram seu lado da história e o assunto está encerrado entre eles.

[Imagem: Reprodução/Sabrina Carpenter Brasil]

O poder narrativo de Sabrina Carpenter é surpreendente, a cada faixa é possível desvendar seus sentimentos e simpatizar com eles. Todos sabem a maldade presente na internet e como ela pode afetar a vida das pessoas, como todo esse ódio e repressão toma conta de alguém, a ponto que ela não tenha como falar por si mesma. Portanto, emails i can’t send é a resposta de uma sobrevivente deste ódio, que ficou calada por muito tempo e ainda continua guardando algumas informações, mas prefere que elas continuem em segredo.

Este disco simboliza a maneira como a artista materializa sua arte, tratando suas músicas como um desabafo vulnerável, o sentimento de ser chamada de “destruidora de lares” enquanto estava vivendo o inferno dentro de sua casa com seus pais.

É gratificante escutar uma sequência tão real e bem produzida, cada faixa se destaca singularmente e mantém a coesão dentro de um conjunto. Os e-mails não enviados por Sabrina Carpenter vieram à tona e merecem o reconhecimento máximo, não somente por sua coragem de falar, mas pela qualidade imposta no álbum, a história contada em etapas, arriscando diversos gêneros e abordagens. Mesmo em meio a uma realidade de uma gravadora negligente e descuidada, o álbum se mantém desde seu lançamento em primeiro lugar no Apple Music Brasil, e é de se esperar que esses números continuem crescendo.

[Crítica] Stranger Things é uma das melhores séries da atualidade mesmo com algumas ressalvas dessa quarta temporada

Após uma espera de praticamente três anos desde o último lançamento, Stranger Things retornou com a quarta temporada no final de maio, levando todos os fãs de volta a Hawkins para contar mais uma história sombria dos irmãos Duffer.

O primeiro volume possui 7 episódios muito bem construídos do início ao fim, ainda mais pelo tempo: a maioria ultrapassa uma hora, o último chega a uma hora e quarenta minutos. No dia 01 de julho, os dois últimos episódios foram liberados, que somados entre si dão quatro horas de duração e encerram esse arco, que até agora pode ser considerado um dos melhores.

Relembre um pouco do que aconteceu nas temporadas anteriores

O início da série se passa em 1983, em Hawkins, Indiana. O jovem Will Byers (Noah Schnapp) desparece e seus amigos, Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) decidem procurá-lo com a sua família e a polícia da cidade. Com isso, eles se deparam com uma série de eventos sobrenaturais e é nesse momento que eles começam a entender um pouco sobre o Mundo Invertido.

[Imagem: Divulgação/Netflix]

Nancy (Natalia Dyer), que é a irmã de Mike, Steve (Joe Keery), namorado de Nancy, e Jonathan (Charlie Heaton), irmão de Will, investigam por conta própria o que pode ter acontecido com o menino e Barb (Shannon Purser) – a melhor amiga de Nancy que é morta por um Demogorgon no início da história.

Nesse meio-tempo, aparece Eleven (Millie Bobby Brown), uma garota que tem superpoderes e não sabe muito sobre seu passado ou conviver em sociedade. No final, eles salvam Will, graças a um sacrifício de El, mas os problemas e a ligação do menino com o Mundo Invertido estão longe de acabar.

[Imagem: Reprodução/Netflix]

A segunda temporada avança para 1984, onde todos tentam seguir em frente após tudo o que rolou no ano anterior. Porém, uma nova ameaça aparece direto do Mundo Invertido para ameaçar os protagonistas, e além desse novo inimigo, também há uma nova personagem Max (Sadie Sink), que chega na cidade junto com seu irmão problemático, Billy (Dacre Montgomery).

[Imagem: Reprodução/Netflix]

Enquanto isso, o detetive de Hawkins, Jim Hooper (David Harbour), decide criar Eleven, que sobreviveu aos acontecimentos do final da 1ª temporada, e é nesse ano que aborda mais sobre seu passado, sua mãe biológica, que ficou viva, mas teve sequelas após enfrentar uma terapia de eletrochoque, e a existência de uma irmã, a Eight/Kali (Linnea Berthelsen).

Eleven fica escondida na cabana de Hopper e só Mike sabe que ela está lá. Cansada dessa realidade, ela foge e, quando volta, aprende a verdade sobre sua história. Depois disso, seus amigos enfrentam um Demodog e Eleven entende que precisa fechar de vez o portal para o Mundo Invertido.

No final, ela consegue destruir o Monstro das Sombras, que está conectado a Will e ameaçando a todos, e fica com Mike no baile da escola. Só que há uma vítima no meio disso tudo: Bob (Sean Astin), o novo interesse amoroso de Joyce (Winona Ryder). Ainda nessa temporada, Nancy termina com Steve e fica com Jonathan.

No terceiro ano da série, em 1985, o verão chega e um shopping novo na cidade de Hawkins também, deixando o amado grupo ainda mais sintonizado com sua juventude e com novos casais no ar. Aparecem cientistas russos como vilões tentando abrir um portão para o Mundo Invertido embaixo desse shopping, como revela Alexei (Alec Utgoff), um dos envolvidos nisso. Eleven descobre que o irmão de Max está possuído pelo Devorador de Mentes e, em uma futura batalha com o monstro, acaba sendo ferida e perdendo seus poderes.

Já no final da trama, Billy se sacrifica para proteger o grupo após El entrar em sua mente e o Hopper tenta destruir a máquina usada pelos russos para manter o portal para a outra realidade aberto mas é dado como morto. Eleven, então, vai morar com os Byers, que se mudam para a Califórnia.

Agora, nessa quarta temporada, é possível ver o que aconteceu com cada personagem e todo o mistério por trás de uma nova ameaça do Mundo Invertido: o Vecna, que marca suas vítimas através de um vínculo psíquico e as mata das formas mais tenebrosas e brutais, para se alimentar.

ALERTA DE SPOILER

[GIF: Reprodução/Giphy]

Ao longo de toda essa trama, foi possível ver três núcleos separados: Eleven, Will, Jonathan e Mike estavam na Califórnia; Joyce, Murray e Hopper na Rússia e os demais em Hawkins. Essa dissonância do grupo afeta um pouco a fluidez dos episódios, porque para conciliar tantas linhas narrativas simultâneas, Stranger Things opera na constante quebra de ritmo, ou seja, desenvolve uma situação e, assim que ela estoura, muda de núcleo em uma tentativa de manter a tensão sempre alta.

Durante a primeira parte, parecia que essa divisão entre os personagens não funcionaria em sintonia para salvar Hawkins e o mundo de Vecna, deixando os papéis de cada personagem um tanto quanto confusa. No entanto, o segundo volume acaba mostrando como todos esses enredos funcionam bem para a primeira conclusão desta ameaça de fim do mundo.

A protagonista Eleven ou Jane, vive um difícil período de adaptação nesta season. Apesar de seus esforços, a jovem sofre para se encaixar na escola e é constantemente vista como “a esquisita” por seus colegas de escola. Para piorar, ela está sem os seus poderes, passa pelo luto da morte de Hopper e lida com as saudades dos amigos e do namorado Mike. Porém, após um início movimentado nos primeiros episódios, a jornada de Eleven se torna mais solitária, no entanto poderosa, no final. Millie Bobby Brown consegue sustentar um núcleo inteiro praticamente sozinha, ditando os pontos de virada e provando que nasceu para interpretar esse papel.

Outro grande destaque da temporada, se não for o maior, é Sadie Sink, que volta à pele de Max. É possível acompanhar um lado da jovem nunca visto antes, o que está marcado pelo trauma e culpa. Reclusa de todos, Max passa por uma interessante jornada de reconexão consigo mesma e com os amigos, enquanto carrega um dos principais e mais emocionantes acontecimentos do quarto ano da série.

Ela é capturada por Vecna mas escapa ao som de Running Up That Hill de Kate Bush, música favorita da personagem. A crença de que a canção seria capaz de salvar Max, foi baseada em uma conexão astuta feita por Robin Buckley e Nancy Wheeler depois que uma das primeiras vítimas de Henry, seu pai Victor Creel, parecia ter sido salvo por ouvir Dream A Little Dream Of Me de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong.

No entanto, como Vecna ​​revelou na conclusão da primeira parte da quarta temporada de Stranger Things, a música não foi a razão pela qual seu pai, Victor, sobreviveu. Em vez disso, foi simplesmente porque que Henry ultrapassou os limites de seus poderes, o que o levou a entrar em coma antes que pudesse acabar com seu pai.

Isso não deve minimizar a importância da canção de Kate Bush para a sobrevivência de Max. Nancy descreve isso como “uma ponte de volta à realidade” e deve haver pouca dúvida de que ela estava certa. A música evoca memórias fortes que são boas e ruins, então faz sentido que ela pudesse abrir uma porta para fora da alienação opressiva de trauma, desespero e culpa em que Max se encontrava. Além disso, também faz sentido que se ela não tivesse memórias tão positivas e o amor de seus amigos para retornar, não haveria como escapar da maldição de Vecna.

É importante mencionar também Eddie e Argyle, os novos personagens incluídos nessa história. Ambos são completamente diferentes, um é viciado no jogo D&D e é metaleiro, e o outro um completo maconheiro entregador de pizza, mas os dois são um alívio cômico no meio de tantos acontecimentos.

Eduardo Franco, que interpreta o personagem Argyle, esteve presente no MTV Movie&TV Awards e declarou ser uma honra fazer parte de uma série de tanto sucesso. “Todo mundo do elenco, da produção foram maravilhosos e gentis comigo. Todos me receberam muito bem, é como se fosse uma família mesmo”, afirmou o ator.

Inclusive, mesmo Eddie sendo um novo rosto, ele protagoniza a melhor cena do segundo volume da série, onde sobe no topo do próprio trailer no Mundo Invertido com uma guitarra e um amplificador e toca Masters Of Puppets da banda de heavy metal Metallica para atrair os morcegos de Vecna.

O mais curioso dessa cena é que Tye Trujillo, filho do baixista da banda, Robert Trujillo, participou da quarta temporada gravando as faixas de guitarra utilizadas nessa versão. Além dele, o guitarrista do Metallica, Kirk Hammet, colaborou nas gravações.

Além da escolha da música refletir bem as características do personagem, que é fã de thrash metal. A letra de Master of Puppets combinou muito com Stranger Things. James Hetfield, líder da banda, fala da perda de controle e do uso de drogas na música, então os versos sombrios fazem jus a atmosfera ameaçadora do Mundo Invertido. “Master of Puppets lida com drogas. Como as coisas ficam de cabeça pra baixo, em vez de você assumir e fazer, as drogas controlam você” o vocalista afirmou sobre a faixa em entrevista à Thrasher Magazine.

Porém, infelizmente no final dessa trama o Eddie morre nos braços do Dustin, mas os fãs ainda não possuem 100% de certeza, talvez porque não querem acreditar ou porque não têm uma confirmação de fato. De qualquer maneira, isso é uma pena e que chega a ser revoltante, principalmente por ter sido um personagem inserido na penúltima temporada da série, onde foi muito bem desenvolvido e aceito por parte do público.

Uma das grandes surpresas do quarto ano da série, foi a junção de Nancy e Robin como uma dupla. As atrizes apresentam uma ótima sintonia e as personagens, surpreendentemente, se completam, rendendo cenas memoráveis. Já Steve e Dustin, voltam a chamar atenção por sua incrível e divertida dinâmica em conjunto.

Por outro lado, alguns personagens perdem completamente o destaque e ficam à deriva durante a narrativa. É o caso dos irmãos Byers, na qual é possível contar nos dedos quantas falas tiveram ao longo de todos os episódios. Mike e Lucas também não apresentam tanta relevância, mas ainda conseguem aparecer mais do que os primeiros.

O mais revoltante é que o Will saiu de personagem principal para um mero coadjuvante, e que o maior arco gira em torno do personagem ser gay e estar apaixonado por Mike. Já o Jonathan, foi reduzido a maconheiro e que até a trama entre ele e a Nancy que poderia ser explorada, foi deixada de stand by.

Apesar disso, Will protagoniza uma das cenas mais tocantes da quarta temporada. Sem qualquer ambição de grandiosidade, nem ameaça monstruosa pelo caminho, o adolescente demonstra toda sua coragem quando, de coração partido, aconselha Mike sobre seu relacionamento com a Eleven. E, como se suas lágrimas não fossem suficientes para dar conta da sua vulnerabilidade, os olhares furtivos de Jonathan pelo retrovisor denunciam o quanto dói no irmão mais novo estender a mão para seu melhor amigo dessa maneira.

Apesar disso, a direção consegue equilibrar melhor o tempo de tela dos núcleos, onde é possível identificar perfeitamente o motivo pelo qual eles estão separados, como é o caso de Joyce e a Rússia. A história flui em um bom ritmo e se mostra mais madura em relação às outras temporadas. Ao mesmo tempo, referências aos anos anteriores estão mais presentes, assim como pontos narrativos que se conectam com o início da série.

Como é o caso do grande vilão da temporada, Vecna. Ele vem do jogo de RPG Dungeons & Dragons, citado na série desde a primeira temporada. No game, ele é uma criatura que usa um tipo proibido de mágica para se tornar imortal, e é quase isso que Stranger Things mostra. Na série, o monstro se torna ainda mais forte a cada humano que mata. A escolha de suas vítimas, no entanto, não é aleatória. Vecna prefere possuir pessoas que passaram por algum evento traumático e estão vulneráveis emocionalmente, e as tortura com memórias dolorosas antes de acabar com suas vidas.

Voltando a D&D, no jogo Vecna nasceu humano séculos atrás, e sua mãe, Mazzell, foi executada por praticar feitiçaria. Então, em busca de vingança, Vecna se tornou um mestre das magias obscuras, chegando a um nível em que nenhum outro mortal havia alcançado. Em Stranger, os adolescentes começaram a comparar o monstro do Mundo Invertido com Vecna, devido aos seus poderes e pela aparência. Tão poderoso quanto o personagem do jogo, o Vecna de Hawkins é mais perigoso que o Demogorgon, mais complexo de se entender e mais difícil de ser combatido.

Não é só no RPG que Vecna tem um passado traumático com a família. Na série, se descobre que o monstro é Henry Creel, agora conhecido como Peter. O personagem, interpretado por Jamie Campbell, foi uma criança que demonstrava comportamentos estranhos. Com isso, sua mãe buscou ajuda profissional para tratar sua “natureza perturbada” e ele não gostou nada disso. Henry começou a usar seus poderes, primeiramente, para matar animais, até acabar matando a própria família. Victor Creel, o pai, foi o único sobrevivente para poder carregar a culpa pelos crimes.

Também é revelado a origem dos poderes de Eleven, mostrando que Henry, agora Peter, é o paciente 001 dos experimentos do laboratório de Hawkins. Levado à força para lá, Martin Brenner usou o sangue de Henry para criar outras crianças com os mesmos poderes. Para isso, no entanto, precisaria suprimir suas habilidades com a ajuda de um dispositivo implantado em seu pescoço.

Ao longo de todos esses anos, Peter esteve no laboratório de Hawkins auxiliando Brenner nos experimentos, quando descobriu que Eleven era tão poderosa quanto ele. Então, nos flashbacks de 1979 no episódio 7, O massacre no laboratório de Hawkins, os fãs podem ver que ela foi manipulada por Peter e acabou removendo o dispositivo que controlava seus poderes.

Então, Henry provoca um massacre no laboratório, matando as crianças e funcionários da instalação, mas é detido por Eleven, que acaba abrindo o portal para o Mundo Invertido e empurrando ele para lá. Ao cair, ele é queimado por um raio e se transforma em Vecna, o que é comprovado com a marca 001 no pulso.

É inegável como Jamie, que já tem grandes nomes no currículo, como Caius Vulturi em Crepúsculo, Jace em Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos e Gellert Grindelwald em Harry Potter, se sobressaiu fazendo o Vecna. Em entrevista a Vanity Fair, o ator declarou que não enxerga necessariamente o seu personagem como um vilão.

“Eu sou capaz de vê-lo como um vilão? Eu certamente sou capaz de vê-lo como um ponto de conflito”, afirmou. “Mas em termos de, tipo, ele é mau ou [é um] vilão? Quero dizer, eu o entendo e o amo. E eu me relaciono com ele. Fiquei com os olhos lacrimejados ao dizer isso – talvez eu devesse calar a boca! Tipo, eu o entendo, então sempre estarei do lado dele”. Ele ainda acrescenta que: “Acho que ainda há um nível de humanidade nele, mesmo onde ele está agora, mas acho que a humanidade dele estar onde está agora é um fato com o qual posso me relacionar. Tenho certeza que todos nós podemos.”

Com um aspecto bizarro, Vecna tem uma aparência tétrica, que até mesmo fez Millie Bobby Brown chorar quando viu o ator caracterizado. Em conversa com The Verve, Barrie Gower, designer de próteses e maquiador, revelou que o personagem foi feito à base de efeitos especiais e muito lubrificante.

“No dia [da filmagem] ele tem que estar superviscoso, então usamos produtos como lubrificante K-Y. Também usamos um produto chamado UltraWet, um gel transparente, que passamos em todo o corpo dele”, declarou ele. “É o tipo de coisa que, no set, se você colocava a mão no ombro dele, você se arrependia porque ficava todo melecado”, enfatizou Barrie.

O perfil oficial da Netflix compartilhou um vídeo que mostra a impressionante transformação de Jamie Campbell Bower no poderoso vilão da 4ª temporada de Stranger Things. O processo, que inclui a aplicação de diversas camadas de tecido e maquiagem no rosto e no corpo do ator, impressionou os internautas.

Além disso, a caracterização dos personagens carrega um estilo oitentista em seu auge, onde os penteados e figurinos tentam rejuvenescer o elenco, mas não é com todos que consegue. No entanto, tudo não se torna um mero detalhe assim que adentra a nostalgia da série. Os produtores da série reveleram algumas características sobre os looks, que vão desde tênis personalizados da Converse, até referências a nomes como o cantor britânico David Bowie e o filme Grease – Nos Tempos da Brilhantina.

Nessa temporada, Natalie Dyer fez uma permanente mas também usou uma peruca parcial para chegar ao visual de Nancy. Já Mike, deixou o cabelo crescer para ficar parecido com Eddie, em quem se inspira, mantendo um pouco mais comprido atrás e com camadas curtas.

Para os cenários da Califórnia nessa temporada, a figurinista Amy Parris usou diversas referências visuais, como a Thrasher Magazine, Skateboard Magazine, Surfer Magazine, além de anuários reais de escolas do ensino médio americano.

A equipe de figurino colaborou com a Quiksilver para criar o visual tipicamente californiano de Argyle: os tênis do personagem foram customizados pela Vans, e ele usa meias tie-dye igualmente customizadas. O figurino de Mike na Califórnia também foi feito pela Quiksilver, com o intuito de combinar com as roupas do personagem de Eduardo Franco.

O visual de Jonathan nessa season foi influenciado pelo Argyle e pelas atividades extracurriculares que eles fazem juntos. Consequentemente, ele está usando estampas mais psicodélicas. Já para o visual dos alunos do Colégio Hawkins, a Converse fez tênis personalizados em três cores para combinar com a paleta da escola.

No capítulo 4 dessa quarta temporada, a roupa da Robin parece que saiu do armário da Nancy e foi inspirada por catálogos antigos da coleção primavera-verão da Sears, Montgomery Ward e JCPenney em 1986.

Originalmente, os irmãos Duffer queriam que o cabelo do Eddie fosse parecido com o penteado clássico do David Bowie como Jareth em Labirinto – A Magia do Tempo, mas a equipe responsável pelos cabelos dos atores baseou o visual final em Ozzy Osbourne e outros integrantes de bandas famosas dos anos 1980.

E por fim, o penteado de Chrissy foi inspirado na personagem de Olivia Newton-John chamada Sandy em Grease – Nos Tempos da Brilhantina, no estilo líder de torcida americana, mas com franjas bem anos oitenta.

A fotografia de Stranger Things sempre foi bastante mutável e na quarta temporada isso não foi diferente. A depender do contexto de cada cena, a iluminação transita entre o claro e o escuro, também dando bastante destaque para a cor vermelha no mundo de Vecna. As transições do mundo real para o mundo invertido também acontecem e apresentam um bom jogo de câmeras.

Como foi dito anteriormente, a trama se divide entre núcleos diferentes, portanto, a cenografia é intercalada entre a Califórnia, Hawkins, a Rússia e o Mundo Invertido. São muitos os cenários que carregam a história neste ano, entre novos e já conhecidos, mas o destaque vai para a mansão que habita Vecna. O local é cheio de detalhes e uma importante peça para a narrativa, que inclusive por fora, lembra um pouco da casa do filme A Casa Monstro.

A trilha sonora da série também é um grande marco e que trouxe boas posições nos charts. A música de Kate Bush, Running Up That Hill por exemplo, na época de lançamento alcançou a posição mais alta do Hot 100 da Billboard da carreira da cantora, com um 30º lugar. Mas a série da Netflix mostrou o poder de uma plataforma de streaming, levando a música à 1ª posição do ranking no Spotify. Agora, a canção do Metallica, Masters Of Puppets, é a próxima a atingir bons lugares nas paradas musicais.

Outra música dessa quarta temporada que caiu no gosto do público foi Pass the Dutchie, do grupo Musical Youth. A trilha de Argyle e Jonathan, alcançou o 9º lugar no ranking da Apple Music. Além disso, embala vários vídeos divertidos nas redes sociais.

Mas não são apenas esses três sucessos resgatados. A quarta temporada também trouxe o hit da banda The Beach Boys, California Dreamin e Detroit rock city, do KISS. Afinal, Stranger Things aposta na nostalgia para conquistar o público, inclusive aqueles que nem viveram nos anos 80, e essa fórmula se repete desde a primeira temporada.

Quais as pontas soltas?

Com os dois episódios finais da quarta temporada de Stranger Things, muita coisa foi respondida mas algumas situações ainda ficaram pendentes para o grande final da série. Como prometido pelos criadores, os irmãos Duffer, a temporada não terminou com tudo resolvido, muito pelo contrário. O maior desafio de todos foi anunciado, e a próxima temporada precisa dar um jeito para resolver tudo o que ficou para trás, mas já foi confirmado que a produção terá um salto temporal.

Max morre?

Depois de ter escapado da morte por muito pouco, Max encerra a temporada em uma cama de hospital em coma. Além disso, parece que ela não está dentro de sua mente, que Eleven encontrou vazia. Então, fica um questionamento de que talvez ela esteja presa dentro da mente do Vecna e se ela vai ficar sem enxergar ou andar.

[Imagem: Reprodução/Twitter]

O que vai acontecer com Hawkins?

A season encerra com as quatro mortes causadas por Vecna abrindo portais que permitiram que o Mundo Invertido invadisse Hawkins. As partículas começaram a cair lentamente e a matar a vegetação que encontravam pelo caminho, então resta saber se os civis que sobreviveram continuarão por lá mesmo ou se a cidade abrigará apenas algumas pessoas, além dos protagonistas e possivelmente agentes do governo.

Vecna vivo

Vecna apesar de ter ficado bem ferido com o ataque de Nancy, Robin e Steve, conseguiu fugir e, muito provavelmente, passará estes anos do salto temporal reunindo forças a fim de concretizar seu plano de uma vez por todas. A não ser que um novo personagem poderoso seja introduzido, Eleven é a única capaz de enfrentar Henry frente a frente.

[Vídeo: Reprodução/Twitter]

Nancy, Jonathan e Steve

A relação de Nancy e Jonathan sofreu bastante com a distância física e emocional entre os dois. A diferença de planos do casal pode acabar terminando com o relacionamento, enquanto Steve está pronto para levar uma vida de família com Nancy e seus seis futuros filhos.

Will e a ligação com o Mundo Invertido

Os criadores da série já confirmaram à Collider que Will terá um grande foco na última temporada da série, o que faz sentido já que no final do nono episódio, é possível ver o personagem se arrepiando devido a ligação com o Vecna. É importante lembrar que a conexão entre ele e o Devorador de Mentes foi estabelecida na 1ª temporada, antes de ser resgatado do Mundo Invertido. Alguns fãs já estão especulando que como tudo começou com ele, faz sentido toda essa história ser finalizada com ele também.

Stranger Things continua encontrando mais força nos indivíduos e menos na jornada. A fórmula dos Irmãos Duffer funciona e entretém justamente porque eles amam seus personagens, fazem todo mundo amar seus personagens e gostam de permanecer o máximo possível em seus conflitos e emoções. Também ajuda bastante quando há consequências brutais, como no último episódio – e é de se esperar que os criadores tornem o impacto permanente.

A escala do seriado só tem aumentado, com a produção dando um show visual cada vez maior, seja esteticamente, seja cinematograficamente. Por mais desnecessariamente extenso que seja a finalização da quarta temporada, é impossível negar que foi o ano mais épico e macabro da série, mas, como sempre, mantendo o lado humano que torna a obra tão empática e divertida de acompanhar.

De uma série de mistério ao tom de terror, o seriado caminha para o seu desfecho carregando uma legião de fãs consigo. Dá para ter uma noção do que esperar do fatídico quinto ano, se considerar que apenas dois episódios foram tratados como um verdadeiro evento da cultura pop de 2022. É possível aguardar uma sequência com toda qualidade e potencial que trouxeram até aqui. Principalmente quando a promessa é grande demais para se esperar tanto.

[Crítica] ‘Twelve Carat Toothache’ mostra os altos e baixos de Post Malone

Na última sexta-feira (03), foi lançado o quarto álbum de estúdio do rapper Post Malone, intitulado Twelve Carat Toothache. O projeto conta com 14 faixas e participações especiais de Roddy Ricch, Doja Cat, Gunna, Fleet Foxes, The Kid LAROI e The Weeknd

Após três anos do seu último disco, Hollywood’s Bleeding, Malone volta com o álbum mais curto de sua carreira, mas nas palavras do mesmo, com menos faixas fillers que podem ser encontradas em seus projetos anteriores. Em entrevista à revista Billboard, o rapper afirma que as novas músicas falam mais sobre como ele está se sentindo no momento. “É sobre os altos e baixos, a desordem e essa bipolaridade de ser um artista hoje no mainstream”, conta Malone.

O disco conta com 8 produtores principais, Andrew Bolooki, Brian Lee, Charlie Handsome, Jasper Harris, Louis Bell, Omer Fedi, Watt e o próprio Post Malone. A masterização é feita por Mike Bozzi e a mixagem é assinada por Louis Bell e Manny Marroquin.

Capa e tracklist do álbum Twelve Carat Toothache. [Imagens: Reprodução/Genius]

A primeira faixa do disco é Reputation, sendo a música mais melancólica e que tem como elementos principais o piano acompanhado dos vocais de Malone. A canção que introduz o projeto discute sobre a reputação do rapper e, principalmente, sua relação com a fama. 

Em versos como “You’re the superstar, entertain us” (Você é o superstar, nós entretenha; em português), não fica claro se ao longo da música o desabafo é para os seus fãs ou um antigo amor. Mas mesmo assim, é possível ver que ele coloca toda a sua vulnerabilidade na música e acerta o tom para o resto do disco. 

Seguimos com Cooped Up com participação de Roddy Ricch, lançado como segundo single do álbum. A faixa mais hip-hop com refrão viciante segue o tema da fama e como o rapper se sente engaiolado nessa situação. Post Malone e Roddy Ricch já trabalharam anteriormente no remix da música Wow. Em Cooped Up, o verso de Roddy não impressiona, deixando o destaque para o refrão e ponte cantados por Post. 

A música atingiu a posição 29 em sua estréia na parada musical Billboard Hot 100 e permaneceu somente duas semanas no chart. O videoclipe de Cooped Up foi lançado em maio desse ano e tem como espaço principal apenas um cômodo em que Post Malone canta seus versos, evidenciando a ideia de se sentir enclausurado em sua vida de superstar.

A terceira música do disco é Lemon Tree, outra faixa mais vulnerável do artista. Acompanhada de violão, o rapper discute com a vida a falta de sorte que parece estar enfrentando. Nos trechos “Life is pretty sweet, I’m told; I guess I’m shit outta luck, growin’ a lemon tree” (A vida é bem doce, me disseram; Acho que estou sem sorte, cultivando um limoeiro, em português), Malone brinca com a ideia de como a vida deveria ser doce para ele, mas ultimamente ele se sente com a vida bem azeda.

Wrapped Around Your Finger é a quarta faixa com elementos mais pop e animados do disco. Nela o artista admite como estava completamente envolvido em um relacionamento do passado e expõe toda sua personalidade de apaixonado. Seguindo o álbum, passamos para I Like You (A Happier Song) com participação de Doja Cat

A música como diz o título é bem animada e com uma batida contagiante, e a repetição do refrão “I like You, I do” é daqueles de ficar grudado na cabeça por dias. A dinâmica dos dois artistas na música é bem legal, com cada um cantando de sua perspectiva nesse possível relacionamento apaixonado. I Like You (A Happier Song) começou a ser promovida nas rádios, seguido do lançamento do disco, e se caracteriza como o terceiro single da era.

A sexta faixa de Twelve Carat Toothache é I Cannot Be (A Sadder Song) com participação do rapper Gunna. A música que representa o oposto da anterior, fala sobre um relacionamento que a outra pessoa está atrasando e segurando o artista de maneira negativa. Apesar da letra mais triste, a faixa é um hip-hop animado com a cara do Post Malone.

Seguimos com Insane, a canção com orientações mais trap do projeto e que tem grandes chances de virar o próximo single. Nela o rapper rima sobre dinheiro e mulheres sem maiores preocupações em cima de uma batida rápida e viciante.

Love/Hate Letter To Alcohol é a oitava faixa do álbum e conta com a participação da banda Fleet Foxes. A música se inicia com um coro de vozes e como diz o título se desenrola em um desabafo da relação de amor e ódio com o álcool. Nela fica explícito os problemas que o artista tem com a bebida, mas essa ainda é a sua forma de encarar a tristeza. Em sua participação no Saturday Night Live em maio deste ano, a faixa ganhou sua primeira apresentação ao vivo.

Já a nona música do projeto é Wasting Angels com The Kid LAROI, a faixa mais lenta e com orientações pop, coloca os dois artistas para discutir a relação com a fama e reputação. Vale destacar como Malone e LAROI possuem similaridades vocais, fazendo até ouvintes atentos se questionarem quais são de fato os versos de cada um.

O álbum continua então com Euthanasia, que conta com o sample da música de 2003, Pink & Blue do OutKast. A faixa que faz uma referência clara a eutanásia, prática médica que consiste em abreviar a vida de um paciente em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos. Em uma das músicas mais sombrias do projeto, Malone então fala sobre a ideia de sua própria morte e fantasia sobre uma morte indolor em que possa encontrar um coro de anjos.

When I’m Alone é a décima faixa do Twelve Carat Toothache, com a batida rápida da bateria acompanhada de guitarra e voz, essa música mistura pop e rock ao mesmo tempo. When I’m Alone então abre espaço para o rapper falar sobre sua infidelidade em um relacionamento anterior.

[Imagem: Reprodução/Billboard]

Depois de uma faixa mais animada, Post volta a uma música mais lenta e introspectiva. Waiting For A Miracle é novamente uma das canções que discute a morte de alguma maneira, seja no verso “And everything done for the dead after they’re dead, is for the living” (E tudo que é feito para os mortos após eles estarem mortos, é para os vivos; em português) ou quando fala sobre suicídio.

Mudando totalmente de estilo, a penúltima música do álbum, One Right Now, conta com a participação de The Weeknd. Lançada como primeiro single do projeto ainda em 2021, a canção tem clara influência do pop dos anos 80 com uso de sintetizadores. A faixa tem relação com os trabalhos mais recentes de The Weeknd, mas não necessariamente se encaixa no disco de Malone. One Right Now estreou na sexta posição na Billboard Hot 100 e ganhou um videoclipe no mesmo mês de lançamento.

O álbum encerra com New Recording 12, Jan 3 2020, uma gravação caseira e demo de parte da letra de Euthanasia. No áudio de 1 minuto e meio, é possível ouvir Malone cantando somente acompanhado de seu violão. Essa maneira de terminar o projeto com uma demo, evidencia que essas músicas mais sombrias e reflexivas do artista, foram de pensamentos recorrentes de Post Malone nos últimos anos.

Em relação a crítica especializada, o site metacritic atribuiu nota 66 ao álbum baseado em apenas seis reviews. Com maioria de resenhas positivas, as revistas Rolling Stone e NME destacam o sucesso do artista em compartilhar sua verdade, em um disco mais reflexivo que segue com a cara do artista.

Twelve Carat Toothache estreou no Spotify com mais de 30 milhões de streams e em comparação com seu antecessor Hollywood’s Bleeding, que fez 74 milhões em seu primeiro dia, o número parece desapontar. Já em relação às projeções de venda, a Hits Daily Double previu cerca de 115,000 a 130,000 mil unidades vendidas, quantidade também inferior ao disco anterior, mas que pode dar a possibilidade do terceiro número 1 de Post Malone na Billboard 200.

De fato, o lançamento de Twelve Carat Toothache não foi cercado de muita promoção e singles que fizessem muito barulho como os trabalhos anteriores de Malone. O projeto também sofreu alguns adiamentos, Post anunciou que estava trabalhando em um álbum novo durante live tributo a banda Nirvana ainda em 2020 e em 2021 seu empresário chegou a postar no Instagram que talvez teria dois discos do rapper naquele ano. Infelizmente, nenhum novo projeto ganhou um anúncio e em julho de 2021, o single Motley Crew foi lançado, mas a música não faz parte de Twelve Carat Toothache.

A menor quantidade de faixas é um fator que pode prejudicar o número de streams do disco, mas como citado anteriormente, a escolha do rapper foi selecionar o que considerava as melhores músicas para a edição final. O álbum foi claramente pensado como um todo, desde as temáticas das músicas que se cruzam a todo momento até as transições entre as faixas.

Twelve Carat Toothache talvez seja um dos discos mais tristes da carreira de Post Malone, nele é possível ver que mesmo após o sucesso do artista, ele prefere evidenciar seu sofrimento, vícios, problemas com drogas e álcool, e a relação ambígua com a fama. Para os fãs do rapper, o álbum provavelmente não decepcione, pois apesar dos assuntos mais sombrios, não se afasta da essência musical de Malone.

Cópia física do álbum novo de Post Malone. [Imagem: Reprodução/UMusic]

O destaque de Twelve Carat Toothache ainda vai para as faixas mais energéticas como Love/Hate Letter To Alcohol, Insane, Cooped Up e I Like You (A Happier Song), deixando algumas outras participações e músicas solos mais esquecidas. Pelas especulações e críticas, talvez o projeto não seja um grande sucesso nas paradas musicais e número de streams, mas essa não parece ter sido a intenção do artista.

Depois de algumas eras anteriores bem sucedidas e várias aparições no topo das paradas, Post Malone fez seu comeback inspirado em um relato super honesto sobre seus sentimentos e impressões sobre sua vida atual. Para isso, Twelve Carat Toothache cumpre seu papel e vale a pena pelo seu poder de reflexão. E o trabalho mais curto talvez indique que essa seja apenas uma das partes iniciais de seus lançamentos futuros.

[CRÍTICA] Harry Styles mostra estabilidade ao acertar mais uma vez com Harry’s House

De uma coisa, todos que estão por dentro do mundo fervoroso das celebridades sabem: Harry Styles esbanja carisma. Como se tivesse nascido para estar nos maiores palcos do mundo com suas roupas brilhantes e nenhuma preocupação além de falar o que sente e pensa através das músicas, ele se tornou um dos membros de maior sucesso desde o fim da boy band One Direction, da qual fez parte entre 2010 e 2015.

Na terceira semana de maio (20), Styles lançou Harry’s House, seu terceiro álbum de estúdio, com a proposta de convidar à sua casa quem quiser conhecê-lo.

Desde o hiato do grupo, ele se consolidou na indústria pop, começando por seu álbum de estreia self-titled carregado de pop rock, Harry Styles (2017), responsável pelo single de sucesso Signal Of The Times. Como uma prova de sua consistência e ousadia, lançou-se à criatividade e à experimentação com Fine Line (2019), um estouro pop por todo o globo com singles como Watermelon Sugar, Adore You e Golden.

Apesar da última era de Harry ter sido marcante, a mais nova trazida pelo artista promete muito, mas será que cumpre? Produzido por Kid Harpoon, Tyler Johnson e Samuel Witte, o álbum apresenta uma gama de canções acústicas interessantes, mas é dominado por um pop oitentista que, ainda que não tenha sido feito de maneira original, tem uma sonoridade interessante juntamente às composições do cantor.

Ao fugir, em grande parte, do escopo do que trouxe anteriormente, o artista inovou dentro de sua discografia e ganhou aclamação da crítica, com nota 84 pela média de 25 críticas no Metacritic. A relevante New Music Express (NME), ainda, destaca esse como o melhor álbum de Styles. Dentre as críticas positivas, estão comentários de Rolling Stones, The Guardian e Los Angeles Times, apesar da avaliação mediana do New York Times.

Como uma espécie de convite, o lead single escolhido foi As It Was, faixa quatro do disco. Ela exprime alguma angústia em relação ao passado e traz aquela coisa íntima de cuidado com os detalhes. De todas as canções, essa é a que melhor introduz o propósito de Harry’s House como um álbum intimista — uma possibilidade de conhecer o mundo do astro. Um artifício que pontua com ainda mais ênfase a pessoalidade da composição é a introdução marcada pela voz de Ruby Winston, filha de cinco anos do produtor Ben Winston e afilhada de Harry, com quem confessou falar todas as noites.

A faixa de abertura é um eletropop cheio de energia: Music For a Sushi Restaurant. Utilizando até mesmo o recurso auditivo da estereofonia  — uma produção sonora que possibilita, por exemplo, ouvir um instrumento em apenas um lado do fone — para criar a imersão do ouvinte na atmosfera envolvente do álbum. É dançante e divertida, exatamente como a música seguinte, Late Night Talking — já performada no Coachella 2022. Ambas não têm uma riqueza lírica na composição e, por serem até um pouco superficiais nesse sentido, podem frustrar a princípio ao considerar que o single de promoção do álbum é contrário nesse ponto, pois revela uma face real de Harry. De qualquer forma, elas não deixam de fortalecer um clima aconchegante que remete a estar numa festa em casa, dançando com os amigos.

Grapejuice, por outro lado, é receptiva. É envolvente, instigante e soa como uma ponte, em relação à sonoridade, entre seu disco de estreia e Harry’s House com a combinação de sua fase new wave e o pop rock de músicas como Two Ghosts (2019). O uso das banalidades — de momentos pequenos e rotineiros — demarcam a inserção nesse ambiente hospitaleiro de amor e recordação a partir de um narrador e seus devaneios ao longo da letra.

Como as duas primeiras canções, Daylight tem uma batida envolvente e que facilmente fixa na cabeça. A seguir, o ritmo começa a desacelerar e se tornar consideravelmente menos dançante com a presença dupla mais melancólica do álbum: Little Freak e Matilda. Na primeira, o artista utiliza um artifício de enriquecimento à música a partir da adição de camadas com instrumentos a mais a cada vez que o refrão se repete. Assim, esse crescimento eleva a sensação do público quando vai evoluindo juntamente à construção desse cenário de conforto.

Matilda segue a mesma linha de sua antecessora e tem como inspiração o livro infantil homônimo de Roald Dahl, como comentou Harry em entrevista à Apple Music. A história da obra ganhou maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de 1997, também homônima, responsável por marcar gerações como as que mais ouvem o cantor britânico. Ainda, comentou sobre como seu objetivo era se mostrar como alguém disposto a ouvir, o que parece ter sido muito bem realizado ao considerar a comoção gerada pela música nas redes.

Sem tempo para respirar após o baque, Cinema chega com mais eletropop dançante para levantar a poeira. A faixa, apesar de trazer versos mais repetitivos, tem um enorme potencial para single pela simplicidade de sua composição e a energia de um sucesso digno de Harry Styles, assim como Daydreaming, faixa nove. Divertida e romântica, essa se mostra a com o maior potencial comercial pelas batidas marcadas, os versos também simplórios e suas confissões amorosas. Ela segue a mesma linha de alguns dos principais singles da carreira — Adore You, Lights Up

Keep Driving com sua ponte alucinante que certamente conta uma intensa história antecede uma nova descida que já encaminha para as faixas finais. Satellite começa com aquela mesma sonoridade apresentada pelo disco, mas no minuto final toma um formato robusto mais aprofundado que a torna ainda mais interessante, dinâmica e cheia de personalidade.

Boyfriends, também já performada no Coachella 2022 juntamente a Late Night Talking na apresentação de Styles como headliner, é um acústico sereno. Uma espécie de carta aberta sobre relacionamentos disfuncionais cujas tensões são ocasionadas pela parte masculina, é como se sentar diante de Harry na sala de sua casa e ouvi-lo, apenas voz e violão, dar conselhos indispensáveis.

[Imagem: Divulgação]

Para encerrar, a atmosfera é serena e doce com Love Of My Life, uma genuína declaração amorosa carregada de angústia e recordações dolorosas. No verso “eu me me lembro lá na casa do Jonny, nada mais é como era”, encerra-se o ciclo aberto pelo lançamento de As It Was como o lead single que serviu como o convite à sua casa. A faixa finaliza fazendo jus à aventura proposta pelo álbum e ameniza esse labirinto de emoções.

Harry Styles se mostrou mais experimental e ousado em Fine Line, quando saiu consideravelmente da zona de conforto que criou com seu álbum de estreia – que, apesar de bom, é tímido quando se compreende a potência da voz artística do cantor. Com muita personalidade e audácia, usou o segundo para explorar sua mais recente liberdade criativa. Com Harry’s House, para a indústria, não há nenhuma revolução significativa e a gama de canções com composições previsíveis pode até mesmo soar menos original que o que já foi produzido por ele em tempos remotos, quando pareceu se mostrar mais como artista e indivíduo que agora, quando formalizou tal convite.

Apesar de todas as oposições, Harry’s House pode ser melhor definido como o álbum mais divertido e dançante de Harry, ao mesmo que traz canções desoladoras e inesquecíveis. A experiência geral baseada na premissa também pode variar conforme o grau de proximidade com a arte do cantor, mas o que não pode deixar de ser dito é: esse é um ótimo disco que mantém o lugar do britânico no pódio da música mundial e demarca como seu talento e criatividade são grandes ganhos para as novas gerações.

[Crítica] Dance Fever, de Florence + The Machine é um grito segurado há muito tempo

O quinto álbum da união entre Florence Welch e a banda The Machine está entre nós. O álbum foi muito esperado após o hiatus de 4 anos da banda inglesa indie rock desde o álbum High As Hope, de 2018. Lançado no dia 13 de maio, pela gravadora Polydor Records, as 14 faixas foram produzidas por Jack Antonoff, que fez parte de trabalhos recentes de Lana del Rey e Taylor Swift, e Dave Bayley, vocalista do grupo Glass Animals. Dance Fever é ensurdecedor, é notável o desespero e a vontade de se livrar dessas palavras e sentimentos, colocando para fora todas as emoções comprimidas em uma explosão de experiências instrumentais.

E quando é bom, é impossível não ser notado. A rainha das bruxas emplacou notas altíssimas e elogios da crítica, com nota 7.1 na Pitchfork, 9,4 dos usuários e 85 no Metacritic, o álbum vem para mostrar outros segmentos musicais da banda. Por mais que seja similar ao que foi entregue anteriormente, o novo trabalho revitaliza e traz novos elementos que tiram qualquer um – inclusive o grupo – de sua zona de conforto. Guitarras fortes substituem o tradicional piano e o uso de diferentes tons da voz de Florence são muito bem explorados.

O álbum – que foi escrito durante a pandemia – traz conflitos sobre imagem pública, a necessidade de estar em alta, o papel da mulher na sociedade (principalmente a obrigação patriarcal de se tornar mãe, esposa e dona de casa) e sentimentos sombrios e individuais. A narrativa de repressão divina sobre injustiça sobre os humanos e poder te deixa em dúvida sobre os reais sentimentos da artista, mas esta indecisão é uma forma honesta de mostrar ao seu público como funciona a mente humana, todos temos conflitos, isso não nos torna confusos, nos torna sujeitos, pessoas reais.

Artistas costumam ser desumanizados e até objetificados pela fama, mas continuam motivados pelo gosto pela profissão e pela música, sua arte. Dance Fever mostra a febre de dançar conforme seus sentimentos, mesmo não os entendendo, representado por uma linguagem poética, que aborda a luxúria, solidão, tristeza e medo em meio a acontecimentos que não somos capazes de controlar, como a pandemia e as ações divinas.

Essa febre de dançar vem do conceito de coreomania. Também chamado de dançonomia, foi um fenômeno social que ocorreu na Europa da Idade Média, tendo seu primeiro acontecimento em grande escala em Aquisgrano, na Alemanha, em 24 de junho de 1374. Rapidamente se alastrou pela Europa, contatando outros ataques nos Países Baixos, colônias, Metz e mais tarde em Estrasburgo, aparentemente na trilha de rotas de peregrinação entre os séculos XIV e XVIII.

Esse fenômeno consistia em grupos de pessoas, chegando até a centenas de uma só vez, que dançavam de forma ininterrupta e incontrolável publicamente até o cansaço extremo. Eles continuavam se movendo, mesmo exaustos e alucinando até espumar pela boca e desmaiar de cansaço. Por mais sombrio e bizarro que seja, é essa a sensação trazida pelo álbum, sentimento de urgência, sofrimento e descontentamento.

[Imagem: Divulgação]

Passando para as músicas, “King” abre o álbum exalando poder. Com instrumentais marcantes e estridentes, a faixa descreve um relacionamento em que o cônjuge quer ser superior à mulher, engrandecendo seus feitos e sempre agindo com seu “coração apodrecido”, acredita que a mulher deve ter filhos, se demonstrar sempre feliz e esconder sua ambição, a manipulando até que ela achasse que deveria acreditar nessa construção patriarcal.

A mulher, em contrapartida, rebate esse pensamento com afirmações de individualidade, descrevendo que sua personalidade é sombria, que o drama, mitologia e grandiosidade fazem parte dela. O refrão diz o que muitas mulheres gostariam de gritar, ela não é mãe, nem esposa, ela reina sobre si mesma e sua vida. É possível sentir a voz se tornando mais fraca e inquieta com o decorrer da música, demonstrando a dor real da composição.

Em ritmo mais acelerado e eclético, a segunda faixa “Free” traz a luta com doenças psicológicas, como essa condição toma poder sobre a pessoa todos os dias e o tempo todo, derrubando qualquer outro sentimento senão o de angústia, que talvez seria melhor estar sedada o tempo todo para não sentir essa avalanche constante. Também traz o drama de possuir essa condição e não ser respeitada por outros que estão ao redor, “’You’re too sensitive’, they said” (Eles dizem: “Você é muito sensível”, em português) é um trecho que ilustra perfeitamente a afirmação anterior. 

A música é quem libera a pessoa dessa angústia, pois quando sente o ritmo e dança conforme a música se sente livre, mas demonstra a indignação dessa ser a realidade, de não haver cura para sua doença “It is what it is” (é o que é, em português) e não tem como resolver.

Choreomania”, faixa intitulada a partir do fenômeno explicado anteriormente, traz um ritmo mais leve e jovial. Com um batuque constante e rápido, que lembra o tic toc de um relógio, começa como um desabafo sobre autoconhecimento. É possível interpretar que a batida no fundo se relaciona ao tempo passando e a jornada de busca a si mesmo traz indignação e pressa para conquistas que ainda não aconteceram e histórias que deveriam ser contadas, mas não foram vividas, com vozes que a pressionam a fazer escolhas e viver de maneira diferente. Como tudo é temporário, os padrões se tornam inúteis, pois podem mudar a partir da percepção de cada um dependendo do tempo em que estão vivendo e sua realidade.

A quarta faixa “Back in Town” é nostálgica, demonstra a intensidade das emoções ao retornar a sua cidade natal, viver no próprio mundo sem metas definidas, vivendo todos os dias sem perspectivas, a vida muda, mas o passado continua igual. Retornando a momentos de sua infância para reviver aquela felicidade, acabou ficando pela tristeza da nostalgia do passado. Relembrar momentos mais fáceis que não voltam mais e lidar com a mudança de sentimento e perspectiva sobre os acontecimentos, acreditou em algo por anos, mas, ao se lembrar, percebeu mais madura que não foi bem assim.

Em “Girls Against God” é retratada a insatisfação do tratamento divino com mulheres, o medo, as emoções à flor da pele, a passividade imposta desde a infância, ser tratada como pequenos animais de estimação e nunca como figuras de poder. Essa injustiça leva mulheres a se colocarem no lugar que o divino não as colocou e lutar por sua posição e reconhecimento.

Há uma reviravolta no último trecho da música, quando acontece uma troca de melodia para uma mais maléfica, com gargalhadas e som de passos, trazendo uma estética de terror, e afirma que como Deus não quis um acordo, ela conheceu o diabo e ele a prometeu um coração de ouro ou uma voz de ouro, deixando aberto para interpretações de que ela escolheu a voz, uma vez que suas músicas trazem melancolia e tristeza. Reforçou o canto da bruxa depois dessa!

Dream Girl Evil” fecha a primeira parte do álbum com um amor platônico, há alguém apaixonado pela versão dela que criou em sua cabeça e não quem ela realmente é. Ele a imagina como uma menina angelical e tradicional, embora ela seja assumidamente “evil” (má, em português), o que desapontou suas expectativas, mas ela não liga, até gosta da admiração, ela não é mãe de ninguém e não deve nada a esse homem, mesmo que ele queira que ela seja, ela não se desfaz da própria personalidade má por ninguém. Deu um fecho no macho que doeu daqui!

A intro “Prayer Factory” traz a resolução de abraçar seus medos e lutos, mas não aguenta mais a pressão de viver angustiada, precisa que alguém lhe dê uma chance, e talvez isso a tire dessa solidão e tristeza.

[Imagem: Twitter]

A faixa “Cassandra” fala sobre sonhos interrompidos, o futuro que foi lapidado desrespeitando suas próprias vontades, viver a vida que ela não quer, todas as pessoas criativas e artistas (representadas na música como “all the gods”, ou todos os deuses em português) foram domesticados e sua liberdade de escolha e expressão foi tirada. Tudo está sendo manipulado cegamente e o que ela conhecia não é mais o mesmo ou autorizado, censurando a liberdade de pessoas artísticas diminuídas a meras tarefas comuns.

Heaven is Here” é outra música de menos de 2 minutos que se difere das demais em questões rítmicas. Começando com um grito que lembra uma marcha, uma possível interpretação é que o céu está aqui pois ela é uma santidade e deixou o mundo desse jeito, por conta de sua melancolia.

Chegando a décima faixa intitulada “Daffodil”, a banda traz algo ainda mais diferente da sequência anterior. Ela é a escolhida divina, mesmo não sendo totalmente boa, ela possui poderes míticos e absorve a dor para tentar deixar o mundo melhor, mesmo sabendo que o futuro não é brilhante nem contente.

My Love” é o single absoluto do álbum. Com ritmo mais animado e leve, após tanta melancolia e solidão ela busca a salvação e felicidade, amor. O problema que encontra é não ter onde disseminar esse amor, não ter com quem compartilhar sua vida e sua felicidade.

Clipe “My Love” de Florence + The Machine

Em outra intro, a faixa “Restraint” possui apenas dois versos cantados em um tom de voz que divide opiniões, mais parecendo um arroto, sinceramente. Os versos abrem a interpretação que talvez as músicas esperançosas anteriores eram mentira, e ela estava perguntando se aprendeu a se limitar, se passou credibilidade posando de boazinha, não demonstrar suas emoções reais era o que tinha que ser feito. Confira os versos abaixo:

 “And have I learned restraint? Am I quiet enough for you yet?” 

(Eu já aprendi a contenção? Já estou quieta o suficiente para você?)

Depois do baque emocional da música anterior, quem procede é “The Bomb”, trazendo a temática de um amor que não aconteceu por briga de ego. Ambos gostam do que é difícil, pois se fosse fácil não seria tão interessante, ela sabe que não o ama, apenas gosta da bomba de sentimentos que a causa. O fato de não ter dado certo foi por conta da demonstração mínima de vulnerabilidade por parte dela, que o afastou. 

A música termina com um dos versos mais marcantes do álbum, “Sometimes you get the good, sometimes you get a song”, às vezes você tem um relacionamento bem sucedido, e às vezes você consegue mais uma música, no sentido triste e melancólico. É para pegar em qualquer recém solteiro.

Fechando a narrativa e a obra de arte, o álbum termina com “Morning Elvis”. O peso do mundo e a reação dela sobre os acontecimentos, pressão psicológica, pensamentos suicidas, fama desenfreada, depressão e tristeza que a trazem dores físicas. Ela pensa em desistir da música, mas a vontade de cantar é mais forte que ela, se poupa da dor da morte em troca de continuar cantando.

[Imagem: Pinterest]

O álbum como um todo traz muita reflexão, são emoções que muitos guardam dentro de si e Florence Welch gritou para quem quiser ouvir. A descoberta de sentimentos e o poder de colocá-los para fora torna a obra gigantesca, a novidade não somente na honestidade, mas melodicamente, a volta das guitarras fortes e diferentes tons de voz utilizados justamente para gerar incômodo, pois todo o sentimento trazido na letra é desconfortável.

Florence + The Machine é inigualável, não são músicas para escutar no caminho do trabalho ou no carro (a não ser em um dia de frio e melancólico, assim talvez encaixe com a vibe do momento), são para sentir e gritar sozinho em casa. Dance Fever é um monumento, que vem para reconstruir o cenário indie rock, que vive no mesmo tom há muito tempo.

[Crítica] ‘Mr. Morale & the Big Steppers’ é um patrimônio histórico feito por Kendrick Lamar

Mais do que um álbum, Mr. Morale & the Big Steppers é um conceito. Além das faixas, a mais nova composição de Kendrick Lamar, em hiato desde 2017, traz uma viagem ao seu lírico interno. Com 18 faixas, o disco se torna uma espécie de diálogo com o ouvinte, que por cerca de uma hora se vê nos pensamentos do artista.

Algo que chama atenção é que, diferente de nomes consagrados do rap internacional (como Kanye West), Kendrick não fez nenhuma parceria com algum outro grande artista para impulsionar as canções, mas adotou feats com pessoas próximas a ele — incluindo seu primo Baby Keem.

A unicidade que cerca todo o álbum já se apresenta na imagem de capa, divulgada dias antes do lançamento (que aconteceu no último dia 13 de maio): Lamar aparece junto a sua filha de dois anos e sua esposa, Whitney Alford, que está com um recém-nascido no colo — o que levanta a hipótese de que a família cresceu. Além disso, o cantor está com uma coroa que supostamente simula a coroa de Jesus Cristo. Outro símbolo que ganha notoriedade é uma pistola, escondida na parte de trás de sua cintura.

Grande parte dos elementos da capa são desvendados conforme as faixas avançam. Kendrick traduz com uma singularidade de flows em cada música abordagens como saúde mental, paternidade, críticas a negacionistas e anti-vacinas, solidão do homem preto, hipocrisia dos falsos cristãos — o que é observado na coroa de jesus como referência — e por fim, homofobia.

Lamar é o único artista de hip–hop a ganhar um Prêmio Pulitzer, conquistado pela letra de DAMN. O disco é um sucesso até os dias atuais, mesmo após cinco anos de seu lançamento. Mr. Morale & the Big Steppers traz uma receita parecida, mas com ingredientes muito mais avançados.

Sobre as faixas:

O primeiro título, United in Grief, abre com um verso que diz “espero que você encontre alguma paz de espírito nesta vida”. É como uma metáfora sobre a imersão psicológica trazida por todo o álbum. Pode se traduzir como uma forma onde o artista fala sobre “lutar com seus demônios internos”, em uma busca pelo seu bem-estar pessoal. Muito se diz sobre emoções sufocadas —  talvez pela fama e a difícil trilha —, além de conflitos familiares. Kendrick abre o coração e fala sobre como  o dinheiro é algo supérfluo quando você não encontra paz interior, visto muito no verso “o que é um rapper com jóias”, enquanto lista diversos conflitos que a fama e o luxo não curaram. Portanto, é um  jeito de abrir o álbum e já prender a atenção do ouvinte.

N95 faz uma referência direta à questão da pandemia e uma crítica aos negacionistas. Assuntos  sobre o pânico causado pelas mortes — que por diversas vezes eram anuladas e vistas como exagero por aqueles que não eram atingidos ou não acreditavam — foram discutidos. Uma análise dura e atual, muito bem traduzida pelo rapper.

Wordwide Stepper é, sem dúvidas, uma das faixas com os versos mais impactantes. Um grito de revolta ao racismo. A parte mais dura e mais sincera é quando ele faz uma alusão à sua filha e ao fato de estar preocupado com os perigos do lado de fora de sua casa, devido ao que ele chama de “genética”. Outro assunto pautado é a violência racial, visto no verso “nos consideram assassinos“. Além dessa pauta, também traz uma crítica à questão da religião e da hipocrisia das classes mais altas e de tradicionais instituições mundiais, como a igreja. 

 8 bilhões de pessoas na terra, assassinos silenciosos

Organizações sem fins lucrativos, pastores e a igreja, os bandidos e assaltante

A corporação Hollywood na escola, ensinando filosofias

Ou você morre, ou vai pra prisão, psicologia assassina

Essa sinceridade trouxe em palavras um grito de revolta que muitos não têm coragem de falar, o que faz a composição incrível e arriscada; e que  também alude às referências vistas na capa do disco. 

Die Hard fala novamente sobre o eu lírico do artista. Kendrick conta que precisou desenvolver toda sua força durante a trajetória, que não pode sucumbir a fraqueza e sempre buscou driblar as dificuldades impostas por toda a sua vida. Ele relembra seu passado, em uma viagem na qual o ouvinte embarca junto e entra na mente do artista — além de falar sobre arrependimentos, família e lutas internas.

[Imagem: Reprodução/Complex]

Father Time, como o nome já diz, fala sobre paternidade e os famosos daddy issues, que podem ser simplificados como “problemas paternos” — relacionados a alienação, solidão e tudo que vem junto com a ausência de um pai ou figura que o represente. Lamar viaja para suas memórias de infância e distância do pai, mostrando como isso o afetou. Junto a isso, traz a discussão referente à solidão do homem negro, onde narra que por toda a vida teve que esconder como isso o afetava e sempre se mostrar como forte. 

A visão da sua imagem como um pai, citado tanto em algumas músicas quanto na capa do álbum, como uma forma de fugir de algo que sentiu falta durante toda a sua vida. Um tema atual e muito debatido, ele expõe uma fragilidade pessoal que contorna a imagem que, quem vê de fora desconhece. Outro destaque nessa música foi a citação à Drake e Kanye West, passando pela briga entre os dois e a forma como se resolveram.

Rich e Rich Spirit conversam bem entre si. Foi de extrema inteligência que, quando na composição do disco, foram colocadas em sequência. Na primeira, descreve seu passado e as dificuldades enfrentadas, traz os “veteranos”, aqueles que já possuem dinheiro e ostentam na soberba, expondo como pessoas assim se comportam, sempre com uma visão pejorativa. Já a segunda, cita uma versão mais atual: novamente fala sobre sua filha, mas além da questão relacionada ao dinheiro e ao que a fama lhe trouxe, traz a questão de “espírito” e do sentimento de liberdade. 

We cry together é uma das letras mais fracas — quando comparada às outras. Não que seja ruim, a sonoridade é de fato boa, mas não é tão profunda como as outras músicas. O que talvez chame mais atenção é a exposição das pessoas que aderem pautas sociais, mas não cumprem, o que ele descreve como “falsas feministas”. Se assemelha à uma discussão de casal, o que a torna interessante. Os ataques pessoais se transformam em uma crítica total ao sistema.

[Imagem: Reprodução/Youtube]

Purple Hearts traz, mais uma vez, referências bíblicas: cita o fruto proibido numa metáfora, como se várias de suas dificuldades surgissem em torno de um objeto em específico. Não tão forte comparada às outras, mas com um flow intenso que atrai.

Crown fala da sua relação com a fama e sobre ser idolatrado. O próprio título se refere a isso, a tradução “coroa” alude a questão de ser um “rei” — alguém que ocupa um alto patamar na hierarquia musical e do Rap. Mas, diferentemente de muitos nomes do gênero, Kendrick não preza pela ostentação e sim por expor o lado negativo da fama e da idolatria. 

Eles te idolatram e louvam seu nome no país todo. Batem os pés e balançam a cabeça confirmando. Prometam que vão deixar a música tocando. É isso que eu chamo de amor. Mas chegará a hora de não estar lá quando alguém precisar de você.

Silent Hill faz referência ao jogo de terror que leva o mesmo nome, uma tirada bem pensada. Novamente com um conflito interno sendo discutido, o interessante na faixa é que, mesmo que o tema seja algo comum em diversas composições do álbum, sempre é abordado com novos pontos de vista. 

Savior fala sobre “salvar” ou “ser salvador”. Uma das músicas mais explosivas, responde a uma questão levantada em N95: “O que diabos é cultura de cancelamento?”. Uma canção se conecta a outra, e assim, é criada uma narrativa que se completa e torna tudo mais subjetivo.

Auntie Diaries retrata questões relacionadas a LGBTfobia, ao citar a narrativa de uma tia transgênero e a forma pela qual tal conceito foi compreendido e desmistificado pelo cantor quando passou a entender melhor e rompeu certos tabus que carregou por toda a vida.

Mr. Morale leva o nome do álbum. Fala de Lil Uzi, Oprah e muitas outras personalidades. Em um mix de suas próprias histórias e narrativas alheias — ao citar, por exemplo, o pai de Uzi —, Kendrick retrata a vida de pessoas de seu círculo pessoal.

E por fim, Mirror fecha o disco. A música faz uma analogia à Lamar olhando para si mesmo, com todas as suas forças e fraquezas. Sobre autoestima e a questão de se priorizar também, mas junto a isso, traz uma certa auto-piedade ao se sentir culpado por pensar em se pôr em primeiro lugar.

Kendrick Lamar falou sobre família, relações tóxicas e propôs muitas viagens introspectivas, em um disco quase todo baseado em si e em suas vivências, mas que conversa com certeza com temas comuns à várias pessoas. Sem medo de expor duras críticas, revela diversos aspectos sociais aos quais muitos artistas se limitam, o que torna o álbum uma verdadeira obra de arte, sem defeitos e sem papas na língua. 

Talvez o que o torna mais interessante seja a capacidade de conversar debates importantes, e também relacionar com pontos pessoais — principalmente colocando em um dos  grandes focos a paternidade, onde cita sua história com seu pai, mas seu ponto de vista como progenitor também.

Em menos de uma semana de lançamento, Kendrick mostrou como o impacto foi grande e que, mesmo com o hiato, evoluiu em sua criatividade e em suas composições. Em diversos países, está em primeiro lugar na Apple. Já no Spotify, está no Top 18 Global. Aclamado, o rapper recebeu grandes elogios da crítica especializada e o álbum Mr. Morale & The Big Steppers estreou no Metacritic com uma média de 100.

Com toda certeza, é um trabalho digno de Grammy.

[Crítica] Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, além de louca, é a obra mais macabra do MCU

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura estreou na última quinta-feira, dia 5 de maio, nos cinemas brasileiros. O quinto filme da Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel é estrelado por Benedict Cumberbatch, Elizabeth Olsen, Benedict Wong e Xochitl Gomez. A direção tem o retorno de Sam Raimi, responsável por trazer a trilogia do Homem-Aranha nos anos 2000, aos filmes de heróis.

[GIF: Reprodução/ Pinterest]

CRÍTICA SEM SPOILERS

Após o sucesso estrondoso de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, o segundo filme do herói dos magos prometia ser impactante, visto que, quando se trata do Multiverso, tudo pode sair do controle e inclusive ter algumas participações especiais. 

O longa acompanha a jornada do Doutor Estranho rumo ao desconhecido. Além de receber ajuda de novos aliados místicos e outros já conhecidos do público, o personagem atravessa as realidades alternativas incompreensíveis e perigosas do Multiverso para enfrentar um novo e misterioso adversário.

A temática do multiverso começou a ser introduzida em algumas produções, como WandaVision, Loki, What If…? e Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. Nesta ocasião, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura explora sobre as outras realidades e versões dos personagens e possui uma pegada que nunca foi vista no MCU.

[Imagens: Divulgação/ Marvel Studios]

Escrito por Michael Waldron (Loki, 2021), o roteiro é direto, sem enrolação e explicações e com muitas cenas de ação. Talvez seja, até mesmo, muito rápido para uma duração de 2 horas, visto que, poderia ter explorado mais o seu tema central: o multiverso. A correria na narrativa afeta os diálogos e explicações sobre alguns casos curiosos do multiverso. É possível viajar profundamente com o filme em relação às viagens de um universo para o outro e também a presença de muitas cores e formatos deixa a experiência muito louca e eletrizante. O público da sala de cinema pode entrar em delírio momentâneamente, com a aparição de alguns personagens que serão mais detalhados na crítica com spoilers.

O longa adota elementos de terror que nunca foram vistos em qualquer produção do Universo Cinematográfico da Marvel. Em alguns momentos, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura consegue estabelecer o jump scare, uma técnica usada para o telespectador pular da cadeira pelo susto. Inclusive, o longa consegue referenciar alguns filmes de horror, como Carrie, A Estranha (1976), O Chamado (2002), Invocação do Mal (2013) e A Morte do Demônio (1981). Em adição, a obra traz inovações, como cenas violentas, sombrias e muita magia, o que pode causar aflição, porém, como em alguns filmes do universo, não deixa o humor de lado.

Sam Raimi entrega uma direção de forma corajosa, com certeza, ele realizou um dos projetos ousados de sua carreira e do MCU. Ele trabalha o longa com primazia e mostra progressivamente mais sua ambição de trazer as referências e os componentes de terror para a trama.

[Imagem: Reprodução/ Marvel Studios]

Após o incidente envolvendo o Homem-Aranha, Doutor Estranho/ Stephen Strange percebe que perdeu o controle do multiverso e mostra que não tem como conter toda a situação. O personagem não podia ser de outro ator sem ser do Benedict Cumberbatch, mais uma vez o astro realizou um trabalho competente e com muito carisma se envolvendo em uma jornada bastante louca interpretando o Mago. 

Elizabeth Olsen entrega uma atuação excepcional como Wanda Maximoff/ Feiticeira Escarlate. Após os acontecimentos em Westview que foram mostrados em WandaVision (2021), a dor que a personagem carrega por ter perdido Visão (Paul Bettany) e seus filhos gêmeos, Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne), é perceptível e não tem como ficar sensibilizado assistindo o seu sofrimento.

[Imagem: Divulgação/ Marvel Studios]

O longa apresenta uma nova personagem para o universo: America Chavez, interpretada por Xochitl Gomez, a nova heroína do MCU. A jovem heroína é introduzida de forma não muito detalhada, porém a narrativa consegue mostrar mais sobre a sua habilidade de abrir diversos portais para o multiverso.

Por fim, com efeitos especiais esplêndidos e uma pegada única, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura tem seus pontos positivos e negativos, mas é um dos filmes mais diferenciados já feitos pela MCU. O trabalho criativo de Sam Raimi não deixa a desejar e entrega sem medo um evento grandioso de deixar arrepios do começo ao fim. 

ATENÇÃO!

CRÍTICA COM SPOILERS + FINAL EXPLICADO

Embora a parte técnica, as cenas impactantes e o protagonismo e antagonismo de alguns personagens sejam positivos, na crítica com spoilers, será explicado com mais detalhes o motivo do filme ter decepcionado alguns fãs e telespectadores.

Desde diversas divulgações de teasers e trailers, os internautas questionaram-se sobre qual seria o estopim do novo longa, ao assistir o filme percebe-se que a Feiticeira Escarlate é a grande vilã de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura onde mostra o seu comportamento impiedoso e sombrio sob a influência do Darkhold. Seu arco narrativo se constrói a partir da obsessão que Wanda possuía de ter seus filhos de volta, após os acontecimentos de WandaVision, e, inclusive, na cena pós-créditos do seriado, a personagem estuda o livro Darkhold para tentar mudar de realidade e conviver com Billy e Tommy novamente. Repara-se que as histórias dos seriados do MCU, disponíveis no Disney+, começam a entrelaçar-se com as futuras produções, como o caso da série da vingadora que traz uma conexão significativa para o enredo do filme.

[Imagem: Reprodução/ Marvel Studios]

Para realizar esse feitiço, ela precisa capturar America Chavez e apanhar seu poder de se deslocar de uma realidade para outra. Toda essa perseguição começa logo na primeira cena bastante eletrizante, com a presença de Estranho Defensor, uma variante do Mago e provindo de outro universo, ajudando a personagem de Xochitl Gomez, mas ele acaba morrendo durante a batalha contra uma criatura, mandada pela Feiticeira, que tentava raptar a jovem. Contudo, Chavez consegue escapar para o mundo de Doutor Estranho.

[Imagem: Divulgação/ Marvel Studios]

Doutor Estranho descobre todo o plano da Feiticeira Escarlate e arrisca-se para salvar a vida de America. O Mago foge e passa por diversas dimensões para proteger a personagem de Xochitl Gomez, logo, várias viagens pelos universos são mostradas, em uma delas aparece o cenário de What If…?, e a passagem é visualmente fascinante e bem trabalhada. Além de conhecer novos personagens que podem levar o telespectador à loucura.

Com a viagem pelo multiverso, a Marvel não podia negligenciar a presença de algumas participações especiais que todos esperavam: o surgimento dos Illuminati. Em um outro universo, Doutor Estranho e América ficam presos em uma instituição de pesquisa e, nesse momento, o Mago é levado para conhecer o grupo de heróis, composto por Mordo (Chiwetel Ejiofor), a Capitã Carter (Hayley Atwell), o Raio Negro (Anson Mount), a Capitã Marvel (Lashana Lynch),Reed Richards (John Krasinski) de Quarteto Fantástico e a aparição de ninguém mais e ninguém menos que Professor Charles Xavier (Patrick Stewart). O aparecimento deles trouxe uma nostalgia para os fãs e foi capaz de arrancar gritos na sala de cinema.

[Imagens: Marvel Comics/ Marvel Studios]

Nesse encontro com os Illuminati, Doutor Estranho descobre que sua outra versão desse universo, Estranho Supremo, foi morta, dado que, para derrotar o Thanos, ele recorreu ao Darkhold. Mas o Mago acabou sendo sacrificado por causar uma Incursão, que é quando acontece a colisão de dois universos obliterados, causando a destruição de um ou ambos. 

Todavia, o que é bom dura pouco e esse seria um dos pontos negativos do filme que decepcionaram os fãs; o pouco tempo de tela dos Illuminati que tiveram um destino brutal causado pela Feiticeira Escarlate, essa aparição era o momento mais esperado pelo público e acabou decepcionando pela passagem quase insignificante do grupo. Mas, há a possibilidade de surgirem novamente em outros universos e serem mais desenvolvidos futuramente, visto que a Marvel Studios confirmou uma produção do Quarteto Fantástico, então é possível chegar muitas novidades em breve.

Um outro ponto que surgiu nos trailers, mas não foi tão explorado: a presença do Estranho Sinistro (Strange de Três Olhos), a expectativa de ter uma batalha grandiosa entre ele e o Doutor Estranho, na verdade, foi rápida. Contudo, os efeitos especiais são inovadores e envolviam as notas musicais juntamente com um som clássico. A versão sombria do Mago deixou um alerta: se praticar a possessão do Darkhold, pagará um preço alto.

[imagem: Reprodução/ Marvel Studios]

O tão aguardado momento do filme, no entanto, aconteceu, para quem acompanhou a série What If…?, o Doutor Estranho zumbi, usando o cadáver do Estranho Defensor. O Mago usa a magia perigosa do Darkhold e entra no corpo do Defensor para impedir a Feiticeira Escarlate de sacrificar America, essa com certeza é uma das cenas mais assustadoras e sombrias da obra. No final, quem consegue também acabar com os planos de Wanda é a personagem de Xochitl Gomez que consegue ter o controle de seus poderes.

[GIF: Reprodução/ Giphy]

América abre mais um portal e Wanda encontra seus filhos que se assustam com sua figura de feiticeira e ela percebe que sua obsessão machucou todas pessoas ao seu redor. Então, ela toma uma atitude corajosa e destrói o livro Darkhold de todos os universos para que não seja usada por ninguém, o castelo na Montanha Wundagore desmorona e a vingadora é soterrada, considerada “morta”. É impossível não ficar impactado com o destino da personagem, mas não tem como afirmar se ela voltará ou se também terá uma outra versão de Wanda futuramente, então o filme deixa essa abertura.

Após impedir Wanda de apanhar os poderes de America, Doutor Estranho volta para o seu universo e caminha pelas ruas de Nova York, porém ele acaba pagando o preço alto por ter usado a magia do Darkhold e, como resultado, aos gritos, revela seu terceiro olho se abrindo na testa. Essa cena final deixa o telespectador chocado e a espera o que acontecerá futuramente com o Mago lidando com as consequências após a prática da dominação onírica.

A primeira cena pós-créditos é um fator importante para o futuro da Marvel, Doutor Estranho é abordado pela Clea, interpretada por Charlize Theron, que o alerta sobre o ínicio de uma incursão, esse evento aconteceu devido ao herói usar a magia para possuir uma mente de outra versão, que no caso foi o cadáver do Estranho Defensor. Então, eles entram para uma outra dimensão e o terceiro olho aparece na testa do Mago. 

[Imagens: Marvel Comics/ Sunday Magazine]

A segunda cena pós-créditos faz uma referência à cena final de A Morte do Demônio II, dirigido por Sam Raimi. O diretor chamou o seu amigo Bruce Campbell, que atuou na trilogia clássica de terror, para interpretar o dono da Pizza Poppa em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. No filme, em um outro universo, o personagem de Campbell foi enfeitiçado pelo Mago para se bater por 3 semanas, após o fim da magia, ele olha para a câmera com um sorriso e falando “acabou”, que se refere ao fim do feitiço e do filme. Esse momento é apenas uma zueira com o telespectador que ficou os últimos segundos da produção.

Em conclusão, embora não tenha agradado uma parte do público e dos críticos, o filme entrega uma obra bem ousada com tons de terror bem encaixado, um introdutório do multiverso bem louco e um bom desenvolvimento dos personagens, mas o filme deixou mais tópicos em aberto e, logo, pode ser um preparativo do que estar por vir. No final, o longa promete que Doutor Estranho voltará, então uma possível sequência pode trazer mais uma jornada árdua sobre a incursão e também introduzir a maga Clea (Charlize Theron). 


[Crítica] ‘Versions of Me’ aposta em vários estilos musicais, mas acerta em poucos

O tão aguardado álbum de Anitta, Versions of Me, foi finalmente lançado na última terça-feira (12). O seu quinto projeto de estúdio é o primeiro lançamento com a gravadora internacional Warner Records.

Depois de 3 anos após seu último disco com orientações mais internacionais, o Kisses, a cantora volta com suas múltiplas facetas e diferentes estilos musicais como funk carioca, reggaeton, trap, pop rock, pagodão baiano e R&B.

O álbum trilíngue conta com 15 faixas e participações especiais de Chencho Corleone, Ty Dolla $ign, Afro B, Khalid, Saweetie, YG, Papatinho, MC Kevin o Chris, Mr. Catra, Myke Towers e Cardi B. A produção executiva do projeto é assinada por Ryan Tedder e Anitta. Já a mixagem ficou nas mãos de Jaycen Joshua e a masterização por Chris Gehringer, Colin Leonard e Dave Kutch.

Capa e Tracklist oficial de Versions of Me [Imagens: Reprodução/Instagram]

Versions Of Me já começa com o maior hit internacional da carreira da Anitta, Envolver. O quarto single que explora a sonoridade do reggaeton foi lançado em 11 de novembro de 2021 e viralizou alguns meses depois nas redes sociais pela coreografia do videoclipe, conhecido como o desafio “El paso de Anitta”. 

A canção se tornou a primeira entrada solo de uma artista latina na primeira posição do Spotify Global. Na parada musical da Billboard Global 200 alcançou o segundo lugar e se manteve no Top 10 pela terceira semana seguida. Já na Billboard Hot 100, Envolver superou o recorde de Me Gusta e conseguiu a 70ª posição.

Algumas semanas depois do feito histórico na parada musical do Spotify, alguns portais de notícias brasileiros postaram matérias com uma possível acusação de fraude para atingir o primeiro lugar global. A denúncia estava baseada no compartilhamento de uma conta oficial de fãs da cantora que ensinava como criar mais de uma conta na plataforma de streaming e elaborar playlists em que Envolver tocaria várias vezes ao longo de horas.

Apesar dessa ser uma tática para driblar as exigências do Spotify e maximizar os streamings dos fãs, ela acaba sendo comum no fandom de diversos artistas. Os termos da plataforma não diferenciam o que seria uma manipulação ou apenas fãs ouvindo a música inúmeras vezes para ajudar o ídolo.

Em reportagem divulgada no portal de notícias G1, fica claro que os brasileiros ajudaram a canção atingir o número 1, principalmente por serem a maioria das reproduções nos três dias que a música ficou no topo. Mas a canção chegou no Top 10 Global sendo mais ouvida fora do país e continuaria entre as 10 mais ouvidas até no dia que bateu recordes.

Passando para a segunda faixa do disco temos Gata, uma parceria com o cantor porto riquenho Chencho Corleone, muito conhecido no ritmo reggaeton. A música usa o sample de Guatauba do Plan B, duo em que Chencho participava com o cantor Maldy. Gata talvez seja a próxima aposta do álbum depois do sucesso de Envolver por ser um reggaeton animado, com referência a um sucesso de 2002 e pela sua virada no final para o funk brasileiro.

Ensaio de divulgação do novo álbum de Anitta [Imagens: Reprodução/Instagram]

Seguimos com I’d Rather Have Sex que mostra um lado da cantora muito conhecido por falar abertamente de sua liberdade sexual. A faixa é uma mistura sexy de música eletrônica com funk e tem como sample Boys & Girls de Will.i.am e Pia Mia.

A quarta música é Gimme Your Number, uma parceria entre Anitta e Ty Dolla $ign. A faixa usa o sample de La Bamba de Ritchie Valens, o primeiro grande hit nos Estados Unidos cantado totalmente em espanhol. Lançado em 1958, La Bamba atingiu o Top 30 nas paradas musicais americanas e foi considerada uma união de sucesso entre a música tradicional latina e o rock. Gimme Your Number brinca trazendo o trap e o hip-hop para uma das melodias mais reconhecidas internacionalmente e ainda coloca Ty Dolla $ign para arriscar em alguns versos em espanhol.

Maria Elegante com participação do britânico Afro B é a quinta faixa com seus ritmos latinos e a influência do afrobeat. Misturando inglês e espanhol, a música tem melodia cativante e é uma das essenciais do álbum.

Já em Love You, vemos uma Anitta mais apaixonada e reflexiva. A balada mais pop fala sobre como é difícil deixar alguém e com toda certeza você continuará amando aquela certa pessoa. Mas como a cantora coloca todas as suas versões em jogo, continuamos o álbum com Boys Don’t Cry que fala daqueles homens chorões que não largam o pé da cantora.

A música foi o quinto single, lançado em 27 de janeiro deste ano. Com videoclipe dirigido por Anitta e Christian Breslauer cheios de referências cinematográficas, como os filmes Beetlejuice, Harry Potter, Titanic, O Quinto Elemento e A Noiva em Fuga. A faixa se destaca por ser um pop-rock com os famosos teclados sintetizadores e como single ganhou apresentação no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e performance no Lollapalooza Brasil 2022 com a cantora Miley Cyrus.

A faixa-título Versions of Me conversa muito com a anterior pelo uso de sintetizadores, mas dessa vez com orientações mais eletrônicas e pop. A letra fala sobre as diferentes versões da cantora em um relacionamento, tema recorrente nas músicas anteriores. Talvez essa faixa seja outra que deverá ser single ainda esse ano, pois sumariza muito bem o conceito do álbum e é a favorita da crítica.

Turn It Up é a nona faixa do álbum, misturando inglês e espanhol, sendo um pop mais calmo com uma letra de romance. Já Ur Baby com o cantor Khalid, nas palavras da cantora, é uma música mais romântica e R&B para ouvir quando se está apaixonado e pensando em alguém. A canção usa no início um sample de A Garden of Peace de Lonnie Liston Smith.

Seguimos o disco com Girl From Rio, talvez uma das músicas que mudou a carreira de Anitta no último ano, já que passou a ser conhecida internacionalmente. Vale lembrar que esse era o nome anterior ao álbum, mas após o sucesso de Envolver a cantora não viu necessidade em maiores apresentações de sua versão brasileira.

Lançado como segundo single do álbum em 29 de abril de 2021, a faixa conta com o icônico sample de Garota de Ipanema de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O videoclipe alterna entre duas versões do Rio de Janeiro, a primeira sendo a reprodução da Praia de Ipanema com toques vintage, e a segunda são cenas do Piscinão de Ramos com a sua família.

Girl From Rio alcançou a 164° posição na Billboard Global 200 e ganhou apresentações no The Today Show, Jimmy Kimmel Live!, no intervalo do VMA 2021 e Miley’s New Year’s Eve Party.

Cenas das apresentações de Girl From Rio no VMA 2021 e Jimmy Kimmel Live! [Imagens: Reprodução]

Faking Love é o terceiro single de Versions of Me, lançado em 14 de outubro de 2021, com a participação da rapper americana Saweetie. O melody funk em inglês ganhou um videoclipe, coreografia e a primeira apresentação da artista no  The Late Late Show with James Corden

Que Rabão conta com a participação de YG, Kevin O Chris, produção do Papatinho e os vocais de Mr. Catra. Essa é a única faixa em português do álbum e carrega um significado muito especial. Com intenção de homenagear o funkeiro, a cantora decidiu doar sua parte dos lucros da canção para a família de Catra, que faleceu em 2018 por decorrência de um câncer.

A penúltima música do disco é Me Gusta, lançada como o primeiro single em 18 de setembro de 2020. A canção é uma parceria com a rapper americana Cardi B e do porto-riquenho Myke Towers. Misturando funk, pagodão baiano e pop latino, a faixa estreou na 91ª posição da Billboard Hot 100, sendo essa a primeira entrada de Anitta na parada musical. Na Billboard Global 200, atingiu o pico na posição 37 e se manteve no chart por 6 semanas. O videoclipe foi filmado em alguns lugares históricos de Salvador, na Bahia, e dirigido por Daniel Russel.

Love Me, Love Me foi a escolhida para encerrar o Versions of Me, o pop e R&B em inglês tem a melodia bem lenta e calma, explorando a temática do amor e relacionamentos novamente.

Nas primeiras 12 horas após o lançamento, o disco alcançou o Top 40 do Itunes nos Estados Unidos e apareceu no Top 10 em dez países, como Brasil, Portugal, Polônia, Peru, México e Nova Zelândia.

 No site Album of The Year, que reúne críticas especializadas, Versions of Me aparece com a nota 80, mas a nota é baseada em apenas duas resenhas do álbum. O site NME atribui 4 de 5 estrelas ao disco, apontando que é um projeto extremamente ambicioso que mistura power-pop, reggaeton e muito mais. Já a Rolling Stones cita o álbum como uma experiência global perfeita para uma pista de dança incansável.

O baixo número de críticas ao projeto aconteceu também com seu antecessor, Kisses. No site Album of The Year, o disco de 2019 ganhou nota 70 baseada em suas resenhas. Para Versions of Me entrar em sites como Metacritic e Pitchfork será necessário mais avaliações nas semanas seguintes.

Parte do ensaio que mostra as diferentes versões da cantora [Imagens: Reprodução/Instagram]

Em geral, o novo álbum de Anitta tenta nos mostrar várias versões da cantora, mas nada soa tão natural como a artista em ritmos latinos e bem brasileiros. Sua voz e personalidade se encaixam muito bem no espanhol e a prova disso é seu sucesso com a faixa Envolver. Gata, Maria Elegante e Me Gusta são outros exemplos de como a cantora se sente confortável no ritmo mais dançante.

Em contraponto, temos as faixas Boys Don’t Cry e Versions of Me. A duplinha do Synth-Pop são duas músicas incríveis e mostram realmente um lado novo da artista, mas não se encaixam nem um pouco com o resto do álbum. Elas existem em seu próprio mundo e talvez gostaríamos de ver Anitta no futuro explorando mais esse lado.

Love You, Turn it Up e Love Me, Love Me são as famosas faixas filler, que são totalmente dispensáveis e soam até parecidas por abordar sempre o mesmo tema de relacionamentos. As músicas mais pop-americano parecem muito pequenas e monótonas para a personalidade que conhecemos de Anitta

Que Rabão, a única faixa em português, é um presente aos brasileiros mas não faz sentido no projeto. Fica claro que a música foi produzida anos atrás para um álbum anterior e depois de tanto tempo ela soa datada e confusa. Provavelmente só permaneceu na tracklist pelas promessas aos fãs brasileiros e a homenagem ao funkeiro falecido.

As parcerias com Ty Dolla $ign e Khalid apresentam boa química com artistas nas faixas, mas foram mais empolgantes na expectativa do que no resultado. O sample de La Bamba tinha tudo para ser um dos mais interessantes, mas o hip-hop genérico definitivamente prejudica a música.

Apesar disso, é inegável reconhecer que algumas faixas têm grande potencial comercial e de viralização. Até porque as redes sociais movimentam muito o consumo da indústria musical e pautam como serão os novos projetos. Nesse ponto, talvez a cantora esteja certa em explorar ao máximo sua habilidade trilíngue e passear nos mais diferentes estilos. Mas para os fãs e crítica, a falta de coesão e conceito claro em quem é Anitta como artista, pode sim prejudicar seu desempenho no futuro.

[Crítica] A série De Volta aos Quinze é uma viagem no tempo para os adolescentes dos anos 2000 

Se você tivesse a oportunidade de voltar aos seus 15 anos, voltaria? Reviver todas as experiências, o primeiro dia do ensino médio, reencontrar os crushes e até mesmo aquelas brigas infantis? Foi o que aconteceu com  Anita (Maisa Silva e Camila Queiroz) da série “De volta aos Quinze” (2022) que teve uma experiência maluca viajando no tempo.

A série foi inspirada no livro homônimo de 2013, da escritora e youtuber Bruna Vieira. A história se passa em duas fases: a Anita adolescente, que é interpretada por Maisa e a adulta, protagonizada por Camila Queiroz. O elenco também é composto por Mariana Rios que faz a versão adulta de Luiza, irmã de Anita, João Guilherme, como a versão adolescente de Fabrício, Klara Castanho como  a versão jovem de Carol, entre outros grandes nomes.

Maisa Silva // Foto divulgação Netflix

O sentimento de nostalgia se faz presente em todos os capítulos, tanto nos figurinos marcados pelas calças de cintura baixa, os acessórios coloridos e de miçangas, como nas músicas dos anos 2000, câmeras fotográficas e até mesmo nas comunidades do ORKUT, que automaticamente remetem a uma época de saudade que aperta o coração mostrando como realmente foi a vida dos adolescentes brasileiros nesta época.

A série lembra as comédias românticas “De repente 30” (2004) e “Quero ser grande” (1988), porém neste caso, ao invés da protagonista ser adolescente, ela é  uma adulta insatisfeita com o rumo que sua vida levou. A trama também tem um dedo de “Efeito Borboleta” (2004), perceptível quando Anita, ao  voltar no tempo, não perde a oportunidade de mudar algumas situações e nisso perceber como cada ação refletirá no seu futuro e no das pessoas à sua volta.

O enredo não tem de muito inovador comparado a outros filmes e séries que tem como base a viagem no tempo, mas é uma história gostosa, leve e divertida de acompanhar num fim de noite, do jeito que uma comédia romântica clichê deve ser apreciada. 

De Volta aos 15 é uma ótima série para o público infanto-juvenil da Netflix, quem cresceu vendo a Maisa no SBT se diverte com a sua versão da Anita, brincalhona e impulsiva como toda adolescente deve ser. As atuações de maneira geral são medianas para boas, alguns personagens acabam sendo estereotipados, principalmente na fase adolescente, como é o caso de Fabrício sendo um badboy.

Pedro Vinícius e Alice Marcone / foto divulgação Netflix

Um ponto muito bacana foi na diversidade que a série abordou. César, um dos amigos de Anita, interpretado por Pedro Vinícius, acaba sofrendo muitos preconceitos durante a adolescência, pela forma de se vestir e sua sexualidade, porém sempre foi aceito pelo seu pai. Já na sua fase adulta, César passa a se chamar Camila, interpretada nessa etapa por Alice Marcone, uma atriz trans representando uma personagem trans, o que é uma representatividade muito boa para a comunidade LGBTQIA + no cinema, principalmente no cinema nacional.

Por ser dividido em dois elencos, é bem interessante ver ao longo da série a evolução e o amadurecimento de cada personagem, logo no primeiro episódio quando Anita volta para sua cidade natal e reencontra seus colegas da escola, ainda persiste a opinião de que são pessoas falsas, e os meninos continuam sendo os classificados como os típicos “boys lixo”. Conforme as  mudanças e desenvolvimento da trama ocorrem, as personalidades vão mudando e alguns coadjuvantes começam a ganhar mais destaque na tela perdendo certos rótulos que Anita dava a eles .

A consciência da protagonista permanece a mesma da Anita adulta, elemento  que torna a série curiosa, já que a personagem acaba sendo madura o suficiente em muitas situações e em outras age como se tivesse menos que seus 15 anos, tornando o enredo leve e engraçado, ao mesmo tempo que se deixa bater uma raiva pela  imaturidade da personagem ao não perceber as coisas óbvias.

A série possui  no total 6 episódios com uma média de 35/40 minutos de duração, ou seja, é perfeita para maratonar num dia de preguiça. A segunda temporada ainda não foi confirmada, porém tanto Maisa como Camila anseiam pela sequência, assim como os telespectadores, já que o final tem pontas soltas e que dão muita curiosidade sobre o que pode vir, sendo um possível gancho para uma continuação.

Assista ao trailer abaixo:https://www.youtube.com/watch?v=WLaFr5eem2o