[Crítica] ‘Versions of Me’ aposta em vários estilos musicais, mas acerta em poucos

O tão aguardado álbum de Anitta, Versions of Me, foi finalmente lançado na última terça-feira (12). O seu quinto projeto de estúdio é o primeiro lançamento com a gravadora internacional Warner Records.

Depois de 3 anos após seu último disco com orientações mais internacionais, o Kisses, a cantora volta com suas múltiplas facetas e diferentes estilos musicais como funk carioca, reggaeton, trap, pop rock, pagodão baiano e R&B.

O álbum trilíngue conta com 15 faixas e participações especiais de Chencho Corleone, Ty Dolla $ign, Afro B, Khalid, Saweetie, YG, Papatinho, MC Kevin o Chris, Mr. Catra, Myke Towers e Cardi B. A produção executiva do projeto é assinada por Ryan Tedder e Anitta. Já a mixagem ficou nas mãos de Jaycen Joshua e a masterização por Chris Gehringer, Colin Leonard e Dave Kutch.

Capa e Tracklist oficial de Versions of Me [Imagens: Reprodução/Instagram]

Versions Of Me já começa com o maior hit internacional da carreira da Anitta, Envolver. O quarto single que explora a sonoridade do reggaeton foi lançado em 11 de novembro de 2021 e viralizou alguns meses depois nas redes sociais pela coreografia do videoclipe, conhecido como o desafio “El paso de Anitta”. 

A canção se tornou a primeira entrada solo de uma artista latina na primeira posição do Spotify Global. Na parada musical da Billboard Global 200 alcançou o segundo lugar e se manteve no Top 10 pela terceira semana seguida. Já na Billboard Hot 100, Envolver superou o recorde de Me Gusta e conseguiu a 70ª posição.

Algumas semanas depois do feito histórico na parada musical do Spotify, alguns portais de notícias brasileiros postaram matérias com uma possível acusação de fraude para atingir o primeiro lugar global. A denúncia estava baseada no compartilhamento de uma conta oficial de fãs da cantora que ensinava como criar mais de uma conta na plataforma de streaming e elaborar playlists em que Envolver tocaria várias vezes ao longo de horas.

Apesar dessa ser uma tática para driblar as exigências do Spotify e maximizar os streamings dos fãs, ela acaba sendo comum no fandom de diversos artistas. Os termos da plataforma não diferenciam o que seria uma manipulação ou apenas fãs ouvindo a música inúmeras vezes para ajudar o ídolo.

Em reportagem divulgada no portal de notícias G1, fica claro que os brasileiros ajudaram a canção atingir o número 1, principalmente por serem a maioria das reproduções nos três dias que a música ficou no topo. Mas a canção chegou no Top 10 Global sendo mais ouvida fora do país e continuaria entre as 10 mais ouvidas até no dia que bateu recordes.

Passando para a segunda faixa do disco temos Gata, uma parceria com o cantor porto riquenho Chencho Corleone, muito conhecido no ritmo reggaeton. A música usa o sample de Guatauba do Plan B, duo em que Chencho participava com o cantor Maldy. Gata talvez seja a próxima aposta do álbum depois do sucesso de Envolver por ser um reggaeton animado, com referência a um sucesso de 2002 e pela sua virada no final para o funk brasileiro.

Ensaio de divulgação do novo álbum de Anitta [Imagens: Reprodução/Instagram]

Seguimos com I’d Rather Have Sex que mostra um lado da cantora muito conhecido por falar abertamente de sua liberdade sexual. A faixa é uma mistura sexy de música eletrônica com funk e tem como sample Boys & Girls de Will.i.am e Pia Mia.

A quarta música é Gimme Your Number, uma parceria entre Anitta e Ty Dolla $ign. A faixa usa o sample de La Bamba de Ritchie Valens, o primeiro grande hit nos Estados Unidos cantado totalmente em espanhol. Lançado em 1958, La Bamba atingiu o Top 30 nas paradas musicais americanas e foi considerada uma união de sucesso entre a música tradicional latina e o rock. Gimme Your Number brinca trazendo o trap e o hip-hop para uma das melodias mais reconhecidas internacionalmente e ainda coloca Ty Dolla $ign para arriscar em alguns versos em espanhol.

Maria Elegante com participação do britânico Afro B é a quinta faixa com seus ritmos latinos e a influência do afrobeat. Misturando inglês e espanhol, a música tem melodia cativante e é uma das essenciais do álbum.

Já em Love You, vemos uma Anitta mais apaixonada e reflexiva. A balada mais pop fala sobre como é difícil deixar alguém e com toda certeza você continuará amando aquela certa pessoa. Mas como a cantora coloca todas as suas versões em jogo, continuamos o álbum com Boys Don’t Cry que fala daqueles homens chorões que não largam o pé da cantora.

A música foi o quinto single, lançado em 27 de janeiro deste ano. Com videoclipe dirigido por Anitta e Christian Breslauer cheios de referências cinematográficas, como os filmes Beetlejuice, Harry Potter, Titanic, O Quinto Elemento e A Noiva em Fuga. A faixa se destaca por ser um pop-rock com os famosos teclados sintetizadores e como single ganhou apresentação no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e performance no Lollapalooza Brasil 2022 com a cantora Miley Cyrus.

A faixa-título Versions of Me conversa muito com a anterior pelo uso de sintetizadores, mas dessa vez com orientações mais eletrônicas e pop. A letra fala sobre as diferentes versões da cantora em um relacionamento, tema recorrente nas músicas anteriores. Talvez essa faixa seja outra que deverá ser single ainda esse ano, pois sumariza muito bem o conceito do álbum e é a favorita da crítica.

Turn It Up é a nona faixa do álbum, misturando inglês e espanhol, sendo um pop mais calmo com uma letra de romance. Já Ur Baby com o cantor Khalid, nas palavras da cantora, é uma música mais romântica e R&B para ouvir quando se está apaixonado e pensando em alguém. A canção usa no início um sample de A Garden of Peace de Lonnie Liston Smith.

Seguimos o disco com Girl From Rio, talvez uma das músicas que mudou a carreira de Anitta no último ano, já que passou a ser conhecida internacionalmente. Vale lembrar que esse era o nome anterior ao álbum, mas após o sucesso de Envolver a cantora não viu necessidade em maiores apresentações de sua versão brasileira.

Lançado como segundo single do álbum em 29 de abril de 2021, a faixa conta com o icônico sample de Garota de Ipanema de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O videoclipe alterna entre duas versões do Rio de Janeiro, a primeira sendo a reprodução da Praia de Ipanema com toques vintage, e a segunda são cenas do Piscinão de Ramos com a sua família.

Girl From Rio alcançou a 164° posição na Billboard Global 200 e ganhou apresentações no The Today Show, Jimmy Kimmel Live!, no intervalo do VMA 2021 e Miley’s New Year’s Eve Party.

Cenas das apresentações de Girl From Rio no VMA 2021 e Jimmy Kimmel Live! [Imagens: Reprodução]

Faking Love é o terceiro single de Versions of Me, lançado em 14 de outubro de 2021, com a participação da rapper americana Saweetie. O melody funk em inglês ganhou um videoclipe, coreografia e a primeira apresentação da artista no  The Late Late Show with James Corden

Que Rabão conta com a participação de YG, Kevin O Chris, produção do Papatinho e os vocais de Mr. Catra. Essa é a única faixa em português do álbum e carrega um significado muito especial. Com intenção de homenagear o funkeiro, a cantora decidiu doar sua parte dos lucros da canção para a família de Catra, que faleceu em 2018 por decorrência de um câncer.

A penúltima música do disco é Me Gusta, lançada como o primeiro single em 18 de setembro de 2020. A canção é uma parceria com a rapper americana Cardi B e do porto-riquenho Myke Towers. Misturando funk, pagodão baiano e pop latino, a faixa estreou na 91ª posição da Billboard Hot 100, sendo essa a primeira entrada de Anitta na parada musical. Na Billboard Global 200, atingiu o pico na posição 37 e se manteve no chart por 6 semanas. O videoclipe foi filmado em alguns lugares históricos de Salvador, na Bahia, e dirigido por Daniel Russel.

Love Me, Love Me foi a escolhida para encerrar o Versions of Me, o pop e R&B em inglês tem a melodia bem lenta e calma, explorando a temática do amor e relacionamentos novamente.

Nas primeiras 12 horas após o lançamento, o disco alcançou o Top 40 do Itunes nos Estados Unidos e apareceu no Top 10 em dez países, como Brasil, Portugal, Polônia, Peru, México e Nova Zelândia.

 No site Album of The Year, que reúne críticas especializadas, Versions of Me aparece com a nota 80, mas a nota é baseada em apenas duas resenhas do álbum. O site NME atribui 4 de 5 estrelas ao disco, apontando que é um projeto extremamente ambicioso que mistura power-pop, reggaeton e muito mais. Já a Rolling Stones cita o álbum como uma experiência global perfeita para uma pista de dança incansável.

O baixo número de críticas ao projeto aconteceu também com seu antecessor, Kisses. No site Album of The Year, o disco de 2019 ganhou nota 70 baseada em suas resenhas. Para Versions of Me entrar em sites como Metacritic e Pitchfork será necessário mais avaliações nas semanas seguintes.

Parte do ensaio que mostra as diferentes versões da cantora [Imagens: Reprodução/Instagram]

Em geral, o novo álbum de Anitta tenta nos mostrar várias versões da cantora, mas nada soa tão natural como a artista em ritmos latinos e bem brasileiros. Sua voz e personalidade se encaixam muito bem no espanhol e a prova disso é seu sucesso com a faixa Envolver. Gata, Maria Elegante e Me Gusta são outros exemplos de como a cantora se sente confortável no ritmo mais dançante.

Em contraponto, temos as faixas Boys Don’t Cry e Versions of Me. A duplinha do Synth-Pop são duas músicas incríveis e mostram realmente um lado novo da artista, mas não se encaixam nem um pouco com o resto do álbum. Elas existem em seu próprio mundo e talvez gostaríamos de ver Anitta no futuro explorando mais esse lado.

Love You, Turn it Up e Love Me, Love Me são as famosas faixas filler, que são totalmente dispensáveis e soam até parecidas por abordar sempre o mesmo tema de relacionamentos. As músicas mais pop-americano parecem muito pequenas e monótonas para a personalidade que conhecemos de Anitta

Que Rabão, a única faixa em português, é um presente aos brasileiros mas não faz sentido no projeto. Fica claro que a música foi produzida anos atrás para um álbum anterior e depois de tanto tempo ela soa datada e confusa. Provavelmente só permaneceu na tracklist pelas promessas aos fãs brasileiros e a homenagem ao funkeiro falecido.

As parcerias com Ty Dolla $ign e Khalid apresentam boa química com artistas nas faixas, mas foram mais empolgantes na expectativa do que no resultado. O sample de La Bamba tinha tudo para ser um dos mais interessantes, mas o hip-hop genérico definitivamente prejudica a música.

Apesar disso, é inegável reconhecer que algumas faixas têm grande potencial comercial e de viralização. Até porque as redes sociais movimentam muito o consumo da indústria musical e pautam como serão os novos projetos. Nesse ponto, talvez a cantora esteja certa em explorar ao máximo sua habilidade trilíngue e passear nos mais diferentes estilos. Mas para os fãs e crítica, a falta de coesão e conceito claro em quem é Anitta como artista, pode sim prejudicar seu desempenho no futuro.

[Crítica] A série De Volta aos Quinze é uma viagem no tempo para os adolescentes dos anos 2000 

Se você tivesse a oportunidade de voltar aos seus 15 anos, voltaria? Reviver todas as experiências, o primeiro dia do ensino médio, reencontrar os crushes e até mesmo aquelas brigas infantis? Foi o que aconteceu com  Anita (Maisa Silva e Camila Queiroz) da série “De volta aos Quinze” (2022) que teve uma experiência maluca viajando no tempo.

A série foi inspirada no livro homônimo de 2013, da escritora e youtuber Bruna Vieira. A história se passa em duas fases: a Anita adolescente, que é interpretada por Maisa e a adulta, protagonizada por Camila Queiroz. O elenco também é composto por Mariana Rios que faz a versão adulta de Luiza, irmã de Anita, João Guilherme, como a versão adolescente de Fabrício, Klara Castanho como  a versão jovem de Carol, entre outros grandes nomes.

Maisa Silva // Foto divulgação Netflix

O sentimento de nostalgia se faz presente em todos os capítulos, tanto nos figurinos marcados pelas calças de cintura baixa, os acessórios coloridos e de miçangas, como nas músicas dos anos 2000, câmeras fotográficas e até mesmo nas comunidades do ORKUT, que automaticamente remetem a uma época de saudade que aperta o coração mostrando como realmente foi a vida dos adolescentes brasileiros nesta época.

A série lembra as comédias românticas “De repente 30” (2004) e “Quero ser grande” (1988), porém neste caso, ao invés da protagonista ser adolescente, ela é  uma adulta insatisfeita com o rumo que sua vida levou. A trama também tem um dedo de “Efeito Borboleta” (2004), perceptível quando Anita, ao  voltar no tempo, não perde a oportunidade de mudar algumas situações e nisso perceber como cada ação refletirá no seu futuro e no das pessoas à sua volta.

O enredo não tem de muito inovador comparado a outros filmes e séries que tem como base a viagem no tempo, mas é uma história gostosa, leve e divertida de acompanhar num fim de noite, do jeito que uma comédia romântica clichê deve ser apreciada. 

De Volta aos 15 é uma ótima série para o público infanto-juvenil da Netflix, quem cresceu vendo a Maisa no SBT se diverte com a sua versão da Anita, brincalhona e impulsiva como toda adolescente deve ser. As atuações de maneira geral são medianas para boas, alguns personagens acabam sendo estereotipados, principalmente na fase adolescente, como é o caso de Fabrício sendo um badboy.

Pedro Vinícius e Alice Marcone / foto divulgação Netflix

Um ponto muito bacana foi na diversidade que a série abordou. César, um dos amigos de Anita, interpretado por Pedro Vinícius, acaba sofrendo muitos preconceitos durante a adolescência, pela forma de se vestir e sua sexualidade, porém sempre foi aceito pelo seu pai. Já na sua fase adulta, César passa a se chamar Camila, interpretada nessa etapa por Alice Marcone, uma atriz trans representando uma personagem trans, o que é uma representatividade muito boa para a comunidade LGBTQIA + no cinema, principalmente no cinema nacional.

Por ser dividido em dois elencos, é bem interessante ver ao longo da série a evolução e o amadurecimento de cada personagem, logo no primeiro episódio quando Anita volta para sua cidade natal e reencontra seus colegas da escola, ainda persiste a opinião de que são pessoas falsas, e os meninos continuam sendo os classificados como os típicos “boys lixo”. Conforme as  mudanças e desenvolvimento da trama ocorrem, as personalidades vão mudando e alguns coadjuvantes começam a ganhar mais destaque na tela perdendo certos rótulos que Anita dava a eles .

A consciência da protagonista permanece a mesma da Anita adulta, elemento  que torna a série curiosa, já que a personagem acaba sendo madura o suficiente em muitas situações e em outras age como se tivesse menos que seus 15 anos, tornando o enredo leve e engraçado, ao mesmo tempo que se deixa bater uma raiva pela  imaturidade da personagem ao não perceber as coisas óbvias.

A série possui  no total 6 episódios com uma média de 35/40 minutos de duração, ou seja, é perfeita para maratonar num dia de preguiça. A segunda temporada ainda não foi confirmada, porém tanto Maisa como Camila anseiam pela sequência, assim como os telespectadores, já que o final tem pontas soltas e que dão muita curiosidade sobre o que pode vir, sendo um possível gancho para uma continuação.

Assista ao trailer abaixo:https://www.youtube.com/watch?v=WLaFr5eem2o

[CRÍTICA] The Batman: o lado mais pessoal e sinistro do herói

Após diversos adiamentos nas gravações e na data de lançamento devido à pandemia do coronavírus, uma nova produção de um dos heróis mais queridos da DC, The Batman, estreou nos cinemas no início de março. O novo filme solo do Homem-Morcego é estrelado por Robert Pattinson (Crepúsculo), a direção foi comandada por Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra) e o roteiro foi escrito por Mattson Tomlin (Power) e Peter Craig (Jogos Vorazes: A Esperança).

Como começou nas HQs

Batman é um dos personagens mais queridos e populares da DC e de todo o mundo. Desde 1940, já foram vendidos 460 milhões de HQs do homem morcego, ficando apenas atrás de Superman que já vendeu aproximadamente 600 milhões de cópias. 

Em 1939, Batman foi criado por Bob Kane, que teve a ideia de desenvolver um herói sem poderes. Além de Kane,o escritor Billy Finger, que foi convidado pelo mesmo para ajudar a escrever o primeiro HQ, concedeu os elementos essenciais no universo do Homem-Morcego; colaborou fazendo o traje do personagem, criou o nome “Bruce Wayne” e originou os seus inimigos e aliados, como Coringa, Mulher-Gato, Robin, Alfred e entre outros. A primeira aparição do Cavaleiro das Trevas foi na revista Detective Comics #27, mas ficou popular apenas em 1940, após ganhar uma série de HQs próprias, Batman #1 foi a primeira revista publicada.

A revista Detetive Comics #27 apresenta o justiceiro pela primeira vez, mas a sua origem e introdução acontece em Detetive Comics #33, também lançado em 1939. Bruce Wayne é o filho do médico Dr. Thomas e Martha Wayne. Aos 8 anos, a vida do jovem Bruce muda  completamente ao presenciar seus pais serem baleados e assassinados pelo assaltante Joe Chill em um beco de Gotham, a cidade onde vive. Logo após esse homicídio, Bruce jurou que lutaria contra os crimes e começou a treinar intensamente para combater a criminalidade com suas próprias mãos como Batman. 

[Imagem: Reprodução/ DC Comics]

Com o sucesso das HQs, o homem morcego foi conquistando vários fãs, e várias adaptações cinematográficas e televisivas passaram a surgir, como Batman, dos anos 1960, interpretado por Adam West, a versão de Batman (1989) interpretado por Michael Keaton e dirigido por Tim Burton e sua sequência Batman Returns (1992), a aclamada trilogia de Cavaleiro das Trevas (2005–2012) estrelada por Christian Bale e dirigida por Christopher Nolan, que conta com a premiada atuação de Heath Ledger como Coringa. Por fim, antes de Pattinson assumir o papel do icônico personagem, o ator Ben Affleck deu vida ao milionário justiceiro atuando em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), Esquadrão Suicida (2016), Liga da Justiça (2017) e Liga da Justiça de Zack Snyder (2021), todos filmes do Universo DC.

[Imagem: Divulgação/ Warner Bros. Pictures/ HBO Max]

Em uma entrevista para Esquire, Matt Reeves, o diretor de The Batman (2022), afirmou que o longa não abordará a origem do Homem-Morcego, pois o público já a assistiu várias vezes: “Nós vimos isso tantas vezes. Foi feito à exaustão. Desde o começo, sabia que não deveríamos refazer isso”. Por tal razão, a nova produção será baseada nas HQs Batman: Ano Um, de Frank Miller, Batman: O Longo Dia das Bruxas, de Jeph Loeb e Tim Sale, e Batman: Ego, de Eisner Darwyn Cooke, que não abordam as origens do herói.

Confira a crítica sem spoilers

Em The Batman, em seus primeiros anos lutando com suas próprias mãos, Batman (Pattinson) enfrenta as injustiças e a bandidagem nas ruas sombrias de Gotham. Todavia, uma série de assassinatos surgem na cidade e o herói precisa, juntamente com Jim Gordon (Jeffrey Wright), desvendar os mistérios e enigmas feitos pelo vilão Charada (Paul Dano).

O trabalho de Matt Reeves de adaptar as três HQs em um filme é de forma certeira e bem encaixado no enredo. Apesar da produção ter quase 3 horas de duração, acompanhar os mistérios e desvendar os segredos ocultos durante as investigações do “maior detetive do mundo” não se torna muito cansativo, já que cada ação desenvolvida por Charada é bem trabalhada, assustadora e violenta. O telespectador fica cismado, impactado e grudado na telona pelo surgimento de cada enigma e código, que são montados como um quebra-cabeça até uma grande descoberta no final do longa.

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

Por ser bastante intenso, The Batman entrega um herói mais sombrio que as outras produções e mostra o lado mais pessoal, realista e profundo do personagem. O longa mostra que o herói tem suas cicatrizes externas e internas que o atormenta é visível, também, o trauma e a culpa que Bruce Wayne carrega pelo assassinato de seus pais. Embora ele guarde um rancor e tenha uma sede de vingança, a trama também desenvolve o amadurecimento de Bruce Wayne/ Homem-Morcego. Durante a exibição do longa, o  telespectador consegue sentir entusiasmo, tensão e nervosismo na poltrona, e também reconhecer a dor pelo olhar do protagonista.

Ademais, as cenas de ação são brutais, bem realistas e muito explícitas, esse combate corpo a corpo e os sons dos golpes são impactantes e estremecedores que faz o telespectador ficar inquieto na poltrona. O aparelhamento da trilha sonora dramática, assinada por Michael Giacchino, com as sequências de conflito e perseguição contribuem para a sensação de inquietação e aflição sempre presentes.

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

A fotografia, responsável por Greig Fraser, é um grande destaque do longa, os tons sombrios e acinzentados trazem esse lado mais aterrorizante na narrativa, principalmente nas sequências de luta e perseguição. Do mesmo modo que a cor vermelha representa a vingança que evidencia essa sede presente no Cavaleiro das Trevas. A mesclagem entre as cores, trilha sonora e cenas sinistras apresenta um longa amedrontador e impactante.

Após ser anunciado que Robert Pattinson receberia o manto do Homem-Morcego, a decisão foi bastante criticada devido ao seu trabalho na saga adolescente Crepúsculo. No entanto, o ator não se deixou abalar pelo julgamento e entregou uma atuação sinistra e arrepiante e conseguiu incorporar o lado intenso e sombrio da personagem. 

[Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures]

Outro destaque de atuação é de Zoë Kravitz interpretando Selina Kyle, a Mulher-Gato, assim como os vilões Charada e Pinguim, interpretados respectivamente por Paul Dano e Colin Farrell, que conquistam seus espaços na trama e entregam uma proposta impecável de seus personagens no enredo.

Por fim, The Batman é um dos melhores filmes do ano e pode receber indicações de algumas premiações, visto que promete entregar de maneira ousada uma proposta distinta das outras produções do herói ao desenvolver esse lado mais intimista da personagem, já que fica claro no longa que além da vingança, ele também luta por esperança. O final surpreende a todos fazendo com que o público vibre e espere ansiosamente pela possível sequência que pode ser ainda mais intrigante.

Confira o trailer abaixo:


[Crítica] Apesar dos esforços, a segunda temporada de Euphoria não atende as expectativas

No último domingo (27) foi ao ar o último episódio da segunda temporada de Euphoria, uma releitura da versão original israelense, que retrata jovens dos anos 1990. A série americana conta a história de um grupo de jovens que estudam no mesmo colégio, tendo como protagonista Rue, uma adolescente viciada em drogas desde a morte do pai.

A trama foca nos conflitos e traumas desse grupo de estudantes e mostra como cada um deles lida com seus problemas. Em sua jornada pela complicada fase da adolescência, os personagens cruzam com debates como identidade de gênero, sexo, consumo de drogas e autoaceitação. Desde 2019, a série faz sucesso e conta com 16 episódios ao todo e mais 2 especiais entre as duas seasons.

O destaque da obra é tanto que, se tornou a segunda série mais assistida da HBO, ficando atrás somente do clássico Game of Thrones. De acordo com a revista Variety, o episódio final dessa temporada nova resultou em 6,6 milhões de espectadores na HBO e HBO Max na estreia. Até o momento, a média de audiência é de 16,3 milhões espectadores só nos Estados Unidos. Já na América Latina, se tornou a série mais assistida no HBO, o que provocou mais de 34 milhões de tweets em todo o mundo, de acordo com o Twitter.

Mas o que culminou para tanto sucesso?

ALERTA DE SPOILER

[GIF: Reprodução/Giphy]

Na primeira temporada, a série introduziu seu elenco principal e os desafios que cada um teria que enfrentar, sempre focando nos eventos em torno de Rue. Ainda assim, houve espaço para o desenvolvimento individual de personagens, como Kat Hernandez e Maddy Perez. O segundo ano da série dá mais atenção para a nova relação entre Cassie e Nate, a história de Fezco e Ash, e a recaída de Rue, que enfrenta ainda mais tumultos na vida e na relação com Jules.

Assim como a nova temporada aproveita para destacar outros personagens, ela também acrescenta novos rostos à trama, como o de Elliot. Apresentado como um companheiro para as horas de usar drogas, ele logo se torna um grande amigo de Rue. Como uma faca de dois gumes, ele colabora para que a personagem de Zendaya permaneça nas drogas nos primeiros episódios, e também é uma peça-chave para ela ficar limpa.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Além de Elliot, a temporada também apresenta Laurie, a grande fornecedora de drogas da cidade. Com um temperamento diferente do esperado para uma traficante, ela mostra que é capaz de qualquer coisa para não ser passada para trás. Apesar de não ter protagonizado nenhum grande momento no segundo ano, talvez deva bagunçar a vida de Rue no futuro. Do contrário, a personagem terá sido desperdiçada como uma falsa promessa de potencial vilã.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

A grande produção conta com atuações impecáveis de Zendaya e Sydney Sweeney, que ao interpretarem personagens complexas, conseguem entregar uma grande variedade de emoções que convencem o espectador. O trabalho delas ganha mais destaque nas cenas em que ambas as personagens se encontram no fundo do poço, como quando Rue derruba uma porta aos chutes ou quando Cassie cria um ritual de beleza insano para chamar a atenção de Nate no colégio.

Outros grandes destaques dessa temporada nova foram os personagens Fezco e Cal Jacobs. A história de Fez foi muito bem explorada, mostrando até mesmo a infância do rapaz, e principalmente a trama de sua avó, que sempre apareceu em uma maca, mas que antigamente era uma excelente traficante, e foi com ela que aprendeu tudo o que sabe. Já o pai de Nate Jacobs, é mais desenvolvido a partir do momento em que a série volta no passado e mostra sua sexualidade, ou seja, tudo o que aconteceu até chegar no contexto atual de um adulto problemático.

E provavelmente, um dos maiores feitos dessa temporada foi protagonizado por Fezco, que briga com Nate Jacobs. A cena ocorre logo no início da trama, na festa de ano novo, onde Nate é espancado até ficar inconsciente por Fez, como vingança por ter a polícia invadindo sua casa e forçá-lo a jogar todas as suas drogas no vaso sanitário.

Em entrevista ao The Tonight Show com Jimmy Fallon, Jacob Elordi declara que “Eu acho que eu como Jacob, eu adoraria bater nele. Eu adoraria dar a ele um grampo nas orelhas. Mas como Nate, eu me sinto muito mal por ele. Eu tive que levar uma surra. Foi uma droga”.

Já Angus Cloud, em entrevista ao NME, deixou claro como se impressionou com como a cena era extensa, pois Fez passou cerca de 30 segundos agredindo o personagem de Elordi após acertá-lo na cabeça com uma garrafa de vidro. Depois, o ator afirmou: “Acho que Nate ganhou o que merecia, era o que precisava acontecer”.

Sobre o dia de filmagens da cena especificamente, Cloud relembrou como tomou boa parte do dia e foi muito exaustivo. “Foi bem intenso, mas um bom dia. É difícil, definitivamente, mas a energia está presente na sala, então você se aproveita disso, sabe?”, declara o ator.

Uma personagem que merece menção é Lexi, devido a peça Our Life, que antes foi nomeada Oklahoma. O espetáculo é totalmente inspirado na vida dos personagens, é a visão de Lexi Howard retratada totalmente sem filtro.

Desde a primeira temporada, ela era uma das personagens mais subestimadas, beirando a irrelevância para alguns espectadores. Contudo, o segundo ano do show mostrou que Lexi tem muito potencial, e ficou claro como ela é uma pessoa que sempre esteve a margem dos outros, como Cassie. Mas agora, se mostrou no centro do placo, e a peça era a única coisa que sentia estar em seu controle e que dava propósito para sua vida.

Apesar de icônica, o show é irreal para os parâmetros de uma escola de Ensino Médio, que nunca teria condições financeiras de arcar com uma produção daquele tipo. Eram vários detalhes e partes móveis que faziam parte de um cenário rotativo que agiam como uma extensão do corredor da escola, digna de um espetáculo da Broadway.

Mas apesar disso, conseguiu proporcionar muitos momentos incríveis, como a comparação de Lexi com a puberdade de Cassie, já que o monólogo revelou muito sobre a relação que ela tem com a irmã. Mesmo que com idades muito próximas, Cassie cresceu muito mais rápido do que Lexi, e ela acabou tendo um senso de autoconfiança distorcido por causa disso.

O ponto alto, sem dúvidas, foi a performance de Ethan como Nate ao som de Holding Out for a Hero. Lexi simplesmente mostrou para toda a escola a visão que ela possuía de Nate. Na plateia, é possível ver ele angustiado e cerrando os punhos, travando internamente uma batalha contra sua frustração sexual e sua masculinidade tóxica, ao ponto de quando Cassie tenta acalmá-lo, ele explode saindo do teatro dizendo que o relacionamento deles acabou.

Em entrevista ao Entertainment Weekly, Maude Apatow revelou que a inspiração para a peça está nos anos de ensino médio da própria atriz, quando viveu uma situação similar. “Faria sentido para Lexi ser uma criança do teatro. Eu era na vida real, e a peça é levemente baseada no meu último ano do ensino médio. Tivemos uma apresentação dirigida e produzida por alunos. Eu era a produtora e era como um tirano. Então, sim, é baseado em evento real”.

Além disso, o nome do penúltimo episódio da segunda temporada, The Theatre and It’s Double, é o nome original do livro O Teatro e seu Duplo do dramaturgo Antonin Artaud, então essa referência acaba fazendo sentido sabendo do que se trata a peça.

Por fim, Rue finalmente consegue passar um tempo longe das drogas após se aproximar do limite sob os efeitos delas e da abstinência. Nesse momento, Zendaya mostra mais uma vez o poder de sua atuação ao revelar a gritante diferença entre os estados da personagem. Para muitos fãs, ver a redenção de Rue após acompanhar sua dor por duas temporadas é um dos principais marcos do season finale, enquanto para a história, pode significar novas possibilidades no futuro.

Ainda que o segundo ano da série tenha uma grande lista de acertos e episódios individualmente incríveis, há um certo desnível no roteiro em comparação com a primeira temporada. Ao focar em novas histórias, Euphoria deixou importantes fatos de lado, como o aborto feito por Cassie e a tortura que a personagem de Alexa Demie, Maddy Perez, sofreu no segundo ano, o que foi completamente ignorada nos episódios seguintes. E algumas outras pontas soltas que ficam são:

Ashtray morreu mesmo?

Todo mundo sabe que, nas telas, uma morte só é definitiva quando o corpo é mostrado. Isso não aconteceu com Ash após ser supostamente baleado por um oficiail da S.W.A.T, então talvez ainda exista uma chance do personagem estar vivo.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

#Fexi vai acontecer?

A segunda temporada entregou um casal que nenhum fã da série sabia que precisava: Lexi e Fezco. Apesar de nem terem engatado em um romance, já foi suficiente para todo mundo torcer pelo casal. Contudo, o episódio chegou ao fim antes mesmo de Lexi saber porque o traficante não compareceu a peça.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Rue e a traficante Laurie

Uma trama que ficou muito mal resolvida foi o envolvimento de Rue com a traficante Laurie. A protagonista nunca vendeu as drogas que pegou, pois consumiu parte delas e o restante sua mãe jogou fora. Ela até levou alguns itens roubados para pagar a dívida, mas sabemos que não está quitada.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

O sumiço de McKay, figuração de Kat e polêmicas no set de Euphoria

Algumas histórias se perderam no desenrolar dessa temporada, como McKay, que construiu um relacionamento com Cassie durante a primeira season. O sexto episódio mostra uma cena no dormitório da faculdade, em que o casal transa mas um grupo de rapazes mascarados e seminus invade o quarto.

Aos gritos de McKay, os colegas arrancam o atleta da cama e o jogam no chão, se atirando sobre ele. A cena não mostra muito além e é muito rápida. Cassie, que troca mensagens com a irmã após a agressão, dá algumas pistas sobre o que pode ter acontecido de verdade, mas nem ela sabe ao certo. No banheiro, McKay parece muito abalado, mas faz questão de continuar a transa, transferindo para Cassie a agressividade que sofreu momentos antes.

A dúvida que fica é se ele realmente sofreu abuso sexual, mas conforme a história segue, isso não é respondido e na segunda temporada, o personagem só aparece no primeiro episódio, depois é cortado do enredo. Em entrevista ao The Daily Beast, o ator Algee Smith declarou “Eu realmente não tenho certeza, para ser honesto. Acho que esta é uma pergunta que deve ser feita ao nosso criador sobre como ele enxerga o rumo da história”.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Além disso, Kat foi outra personagem que foi apagada nessa segunda temporada, que embora seja coadjuvante na história de Rue, tinha bastante destaque e um arco de autodescobrimento bem construído. No último episódio, por exemplo, alguns fãs compararam a duração da música de Elliot com toda a participação da personagem na temporada.

Este não parecia ser o destino da personagem quando a temporada começou. Era muito claro que o relacionamento com Ethan, apesar de doce e confortável, deixava a desejar quando o assunto era sexo. Mesmo ela tentando não pensar a respeito, seu inconsciente o manifestava.

A jovem teve pelo menos um sonho intenso, no qual transava com um Dothraki, uma figura que não poderia ser mais oposta ao seu namorado. Ela aos poucos se dava conta, como Maddy mesmo disse que “existe uma diferença entre o que você acha que deveria querer e o que você realmente quer” e essa realização ameaçava a estabilidade que queria atingir.

Simultaneamente, ela vivia debates internos turbulentos sobre seu corpo e a pressão das redes sociais de ter que se achar bonita o tempo todo. Porque ainda que Kat tenha se tornado um símbolo de autoaceitação e body positivity, como toda mulher ela tem inseguranças, ainda mais considerando o excesso de posts de modelos, atrizes e influencers, todas magras e dentro do padrão, que ela consumia.

Por mais interessantes e relacionáveis que essas discussões pudessem ser, elas começaram a se desenrolar fora da vista do público, transbordando, no máximo, em diálogos pontuais, aqui e ali. Quer dizer, o dilema sobre sua autoimagem ficou pelo caminho, mas ela terminou com Ethan, ainda que de um modo desastrado e pouco característico. Eventualmente, a maior função da Kat passou a ser como um ombro amigo para Maddy quando o triângulo amoroso com Nate e Cassie se revelou.

Em entrevista ao The CutBarbie Ferreira afirmou que “a jornada de Kat nessa temporada é mais interna e um pouco misteriosa para o público. Ela está secretamente passando por crises existenciais. Ela perde um pouco o controle, como todo mundo nesta temporada“, como se dissesse que essa saída da personagem dos holofotes foi algo intencional. Contudo, não é essa a sensação que ficou ao assistir à segunda temporada. Parece que houve uma mudança inesperada no meio do caminho, praticamente um improviso que resultou no abandono do seu arco.

Rumores do The Daily Beast dizem que Ferreira se desentendeu com o criador, roteirista e diretor da série, Sam Levinson, sobre os rumos da sua personagem, o que teria culminado em duas ocasiões que a atriz abandonou o set e no corte de uma cena de sexo. Embora essas alegações possam fazer sentido diante da mudança abrupta na jornada da personagem e encaixem com a ausência de Ferreira na première de lançamento, elas estão longe de serem confirmadas.

[Imagem: Reprodução/HBO Max]

Principalmente devido aos relatos divulgados pelo The Daily Beast, em que vários membros da equipe e figurantes afirmaram terem vivido rotinas de trabalho extremamente intensas, sem conseguirem se alimentar direito e ir ao banheiro quando precisavam. “Parecia tóxico para mim porque acho que ninguém estava realmente feliz por estar lá”, declarou um figurante que não teve a identidade revelada.

Outros profissionais declararam que a diária da filmagem poderia durar até 18 horas, às vezes começando no pôr do sol e terminando no amanhecer do dia. Embora o SAG-AFTRA – sindicato de atores de Hollywood – exija que o elenco nas produções seja alimentado a cada seis horas, alguns integrantes afirmaram que ficaram com fome enquanto esperavam no set. Um figurante alegou que ele e seus colegas de trabalho não eram tratados como pessoas.

“Eu entendo que estou fazendo um trabalho de figuração, não sou a pessoa mais importante lá, sei onde estou no totem. Mas chegou a um ponto em que eu estava tipo, ainda sou uma pessoa, ainda sou humana. Por favor, deixe-me ir ao banheiro, não me diga que não posso ir por 30 minutos ou me diga que não posso comer um lanche quando você não vai me alimentar e são 4 da manhã. Nós não existíamos como pessoas.”, detalhou acrescentando que vários figurantes teriam passado mal ao mesmo tempo devido aos problemas de produção da série.

HBO afirmou que a produção de Euphoria seguiu todas as diretrizes de trabalho estabelecidas pelo SAG-AFTRA. Em resposta reproduzida na Variety, a emissora afirmou: “O bem-estar de nosso elenco e equipe são sempre as prioridades de nossas produções. Euphoria seguiu todas as diretrizes de segurança dos sindicatos. Não é incomum que séries dramáticas tenham filmagens complexas, e os protocolos de prevenção da covid-19 adicionaram uma camada a mais nisso. Sempre mantemos uma linha de comunicação aberta com os sindicatos, incluindo o SAG-AFTRA. Não houve nenhuma reclamação formal realizada contra esta produção em específico”.

Além disso, a atriz Minka Kelly, que interpreta a Samantha na segunda temporada, afirmou a Vanity Fair que o diretor Levinson escreveu uma cena de nudez logo no primeiro dia de gravação. No entanto, Sam aceitou bem sua negativa ao pedido: “Ele achou que seria mais interessante se o meu vestido caísse no chão, era meu primeiro dia na série e eu simplesmente não me senti confortável em ficar nua ali. Eu disse que adoraria gravar, mas que poderia ficar com o meu vestido. Ele concordou e nem hesitou”.

[GIF: Reprodução/Tumblr]

Ao The Cut, Sydney Sweeney também revelou uma situação semelhante quando pediu ao showrunner para cortar sequências em que aparecia com os seios à mostra. “Há momentos em que Cassie deveria estar sem camisa mas eu dizia a Sam que não era necessário naquele momento, e ele concordava. Nunca senti que ele me forçou ou estava apenas tentando colocar uma cena de nudez em uma série da HBO. Quando eu não queria fazer isso, ele não me obrigou”.

[GIF: Reprodução/Giphy]

A produção artística por trás da história

Apesar de todas as polêmicas, é inegável que a produção da obra entrega um excelente resultado da história com toda uma construção através da imagem, figurino e trilha sonora. Por exemplo, a fotografia trouxe contrastes e referências que somaram muito ao contexto, não somente esteticamente, mas também na narrativa.

Se na primeira temporada trouxe tons escuros de azul e roxo, agora a tela ganha tons de amarelo e laranja. O primeiro ano da série foi gravado no digital, já a segunda foi concebida em filme Kodak Ektachrome. A ideia é causar uma sensação de que os espectadores estavam às cinco horas da manhã, já que logo no primeiro episódio teve uma festa que pareceu ser às duas da madrugada. 

E isso traz a reflexão de como uma tecnologia teoricamente em desuso, como esse tipo de filme, pode ter uma qualidade superior ao que é apresentado pelo digital.

Já um figurino é capaz de contar a história de um personagem ou de toda a série, transmitindo traços de personalidade, o período da história em que se passa, região, status, e muitas outras variáveis que podem ser comunicadas através da moda.

Um belo exemplo de storytelling em Euphoria, ocorre com as personagens Cassie e Lexi Howard. A figurinista responsável, Heidi Bivens, escolheu as marcas Prada e Miu Miu para contar a história das duas irmãs. No primeiro episódio, Cassie aparece usando uma sandália de couro branca da Prada. Já Lexi, ao decorrer dos episódios, usa diversas peças da Miu Miu.

Para muitos, Miu Miu é considerada a “irmã mais nova da Prada“, que mesmo sendo do mesmo grupo de donos, ambas possuem uma narrativa diferente. Prada foi criada em 1913 e suas peças representam o glamour e luxo. Já a Miu Miu, fundada em 1993, conversa com mulheres mais jovens, de modo que seja mais casual e divertido. E no contexto das duas irmãs na série, isso fica bem representado.

E seguindo uma tradição já imposta por Euphoria, em que a maquiagem e o arranjo de figurino são fundamentais, a continuidade das histórias das personagens foi ampliada na maneira em que se vestiam. Por exemplo, Jules permitindo-se construir sua própria identidade com as roupas que lhe agradassem os olhos e não que lhe atraíssem olhares ou até mesmo a Cassie, explorando roupas que agradece aos olhares do Nate.

Além disso, é possível ver diversas outras tendências de moda e beleza ao longo da obra, como as luvas usadas por Maddy, Jules e Kat; as diferentes golas exibidas por Lexi; todo o elenco fazendo uso de cores mais claras; o vestido de tule da Kat; o famoso conjuntinho da Cassie e da Maddy; o vestido preto icônico do designer mexicano Aidan Euan usado por Maddy; as famosas unhas de gel também utilizadas por Maddy; e os coques no cabelo por Jules;

E por fim, a trilha sonora, novamente sob responsabilidade de Labrinth, contou com as participações de Tove Lo, Noah Cyrus e Lana Del Rey. Também têm Zendaya cantando, compondo e produzindo junto de Labrinth, I’m Tired, que encerra a 2ª temporada. A colaboração dos artistas também foi em Elliot’s Song, música performada por Dominic Fike, durante uma conversa de Ellitot com Rue – a apresentação não agradou muito a audiência, visto que a música foi apresentada integralmente no episódio, ocupando mais de três minutos de cena.

Portanto, o diretor sabe filmar e faz um uso de uma câmera que a todo momento se movimenta, colocando o espectador como participante de diversos momentos da história. Os planos sequência usados, como o da cena de abertura, são primorosos e muito bem gravados e inseridos. Levinson faz uso dessas habilidades por saber fazer e saber inserir elas no contexto que deseja apresentar. Nada é colocado na produção de modo gratuito, tudo possui um propósito.

E mesmo abordando temas mais pesados, a primeira temporada tinha seus momentos de ternura. Já nesse segundo ano, eles são quase que inexistentes por apresentar uma narrativa sobre amadurecimento através da dor. É algo sombrio, cruel e bastante real.

Sam Levinson foi capaz de reafirmar o poder da série diante de seu público e mostra que a trama ainda tem muito a explorar. Atraído por atuações espetaculares, o espectador fica mais uma vez preso à tela esperando o próximo passo de seus personagens e desenrolar da história. Com novas possibilidades para os próximos anos, Euphoria encerra a segunda temporada reiniciando sua trama e prometendo um futuro esperançoso para seus velhos e novos personagens.

[Crítica] ‘LADY LESTE’ de Gloria Groove é uma obra-prima do pop brasileiro

Gloria Groove lançou LADY LESTE na última quinta-feira (10), o seu segundo álbum de estúdio após diversos singles e dois EPs de sucesso.

O disco conta com 13 faixas que expressam toda a versatilidade e feminilidade da cantora. “É uma carta de amor para as mulheres da minha vida, que me criaram, que possibilitaram que eu fosse essa pessoa de hoje. Sem a energia feminina na minha vida e sem a arte, não teria conseguido expressar metade dos meus sentimentos”, afirma Gloria na coletiva de imprensa para o lançamento do álbum.

Produzido por Ruxell e Pablo Bispo, com mixagem e masterização de Tap Sounds e participações especiais de MC Hariel, MC Tchelinho, Sorriso Maroto, Marina Sena, Tasha&Tracie e Priscilla Alcantara. A obra passeia por diferentes gêneros musicais, como funk, pop, pagode, trap, hip hop, reggaeton e rasteirinha.

Além das canções, a artista lança, em parceria com o Spotify, a produção em formato de Álbum Clips, funcionalidade que busca trazer uma experiência visual, interativa e mais profunda para os usuários do streaming. Para cinco das treze músicas que compõe o álbum, a plataforma e a cantora criaram clipes de 30 segundos exclusivos. O recurso ainda está em testes, mas LADY LESTE é o primeiro trabalho brasileiro a contar com essa função.

SFM dá o start na obra servindo como uma ‘música-chave’ para tudo o que ainda está por vir. Em parceria com MC Hariel, conhecido por Maçã Verde e Set dos Casados, a faixa é uma mistura de rap e funk com uma introdução ao som de rock.

Em seguida, BONEKINHA foi o primeiro single do álbum e traz funk no início, rap e trap no meio e a guitarra no fim. Além disso, conta com participação de Mirella, irmã da rapper Drik Barbosa, cantando um trecho. De acordo com Groove: “Bonekinha é onde toda essa brincadeira começou! Experimentei a estética de Lady Leste a partir dela e tornei Bonekinha como meu norte”, e ainda acrescenta que é o maior hino do disco e que nos shows é um fênomeno.

VERMELHO apresenta um funk bem raiz para celebrar o legado de Daniel Pedreira Senna Pellegrine, mais conhecido como MC Daleste, cantor de funk paulista muito reconhecido que aos 20 anos de idade morreu a tiros. Esse último single possui sample de Quem É e Mina de Vermelho do funkeiro. “Ele marcou a vida de muitas pessoas da minha idade nas festas e nos bailes. Antes de mim, ele foi um dos artistas que colocou a zona leste no mapa, por isso a escolhi para puxar a chegada do álbum.”, declara a artista.

FOGO NO BARRACO é um samba pop com uma letra mais sensual e conta com a presença de MC Tchelinho. Já em TUA INDECISÃO, o típico pagode romântico que, desde os anos 2000, ganhou o Brasil. A faixa tem o toque do Sorriso Maroto, grupo carioca liderado pelo vocalista Bruno Cardoso.

APENAS UM NENÉM, a sexta música do álbum traz um arrocha cheio de dengo em parceria com a musa do pop nacional da vez, Marina Sena, conhecida pelo sucesso Por Supuesto.

Para dar uma quebrada no disco, o reggaeton JOGO PERIGOSO explicita a veia pop que pulsa em todo o trabalho e é uma das faixas mais antigas de LADY LESTE, escrita na época do EP ALEGORIA (2019). “Conseguimos expandir o ritmo para o Brasil e o mundo com o reino da nossa musa Anitta. É uma das faixas solo do álbum, estaria no álbum da diva pop que eu escutaria”, complementa Groove.

GRETA apresenta o lado mais hip hop do álbum, onde Gloria Groove assume mais uma personagem: “Em ALEGORIA, criei a Mary Jane e outras duas personagens em SEDANAPO. Repito esse comportamento em LEILÃO. É como os filmes do Eddie Murphy ou os clipes da P!nk, em que eles interpretam todo mundo. Se Mary Jane é meu alter-ego fofinho, amoroso e até meio trouxa, Greta vem para ser o meu outro extremo, quando estou muito brava e nervosa. Acho que eu a escondo dentro de mim, jamais seria a Greta para fora. Greta porque é Treta que se escreve com G!”.

Em seguida, o trap PISANDO FOFO em parceria com as irmãs Tasha e Tracie Okereke, é um recado para os invejosos através de uma mistura de rap com elementos do hip hop. Já em LEILÃO, terceiro single do disco que foi lançado em novembro de 2021, fala sobre o valor volátil da arte no mercado comum da vida humana.

LSD aborda a temática de como o sucesso e a notoriedade afetam a saúde mental dos artistas, e por conta disso, fazem sacrifícios e encontram vícios pelo caminho. Além disso, a faixa traz uma densidade que cumpre o papel de abrir a parte final do álbum, puxando um pouco mais para o rock e R&B.

O segundo single do disco, A QUEDA é o auge do pop rock em que fala sobre o ódio coletivo que é o grande medo da sociedade, e apresenta uma estética mais de terror. A artista declara que essa faixa é um divisor de águas em sua carreira: “A Queda é a grande ironia da minha vida, porque depois dela as coisas só têm decolado! Talvez porque eu fui muito mais humano do que podia imaginar falando sobre isso, e me divertindo. Acho que isso cativou as pessoas!”.

Para encerrar o álbum, SOBREVIVI é uma mistura de rock com gospel em parceria com Priscilla Alcantara, que traz uma mensagem apontando para o futuro com esperança, amor e paz.

LADY LESTE é uma obra de grande sucesso e Gloria Groove conseguiu emplacar todas as faixas novas no Top 100 do Spotify Brasil. Além disso, na atualização da noite de sexta-feira (11) na Deezer BR, todas as faixas apareceram no Top 40, conseguindo o melhor desempenho na plataforma desde DOCE 22, da Luísa Sonza.

Gloria Groove apresentou um trabalho musical e visual que consolida a ascensão da artista no universo pop nacional, e se bobear internacional. A verdade é que, a única parte ruim de LADY LESTE é quando o álbum acaba!

[CRÍTICA] ‘O Beco do Pesadelo’: A Reflexão de Del Toro Sobre os Limites da Ganância Humana

Após quatro anos do sucesso de seu último filme A Forma da Água (2018) o diretor mexicano Guillermo Del Toro volta à Holywood com um remake do filme de 1947 Nightmare Alley (aqui no Brasil com o nome O Beco das Almas Perdidas), e os fãs do diretor puderam checar em primeira mão a interpretação do mexicano sobre o clássico. 

Filme De Guillermo Del Toro Sobre O Beco Do Pesadelo Ganha Nova Data De  Lançamento - DESIGNE
Poster do filme de 1947 que no Brasil chegou com o título Beco das Almas Perdidas

A história, que trata-se de uma adaptação do livro homônimo de William Lindsay Gresham, segue Stanton Carlisle (Bradley Cooper) um jovem atormentado por um passado obscuro que se junta a um circo para trabalhar como ajudante. Sempre observador, prestativo e com certa pose de bom moço, Stan conquista seus colegas de circo, principalmente o casal de mentalistas Zeena (Toni Collette) e Pete (David Strathairn), que logo lhe passam todos os conhecimentos que utilizam em seu show de adivinhação baseado no charlatanismo. 

Apaixonado pela colega de circo, Molly (Rooney Mara), e almejando crescer na vida e proporcionar uma melhor condição à ele e sua amada, o ambicioso Stan logo percebe que os truques de Zeena e Pete podem ser utilizados a seu favor e convence Molly a sair do circo rumo a Nova York, onde passa a aplicar golpes como falso clarividente para a elite local. Sua cobiça aumenta quando conhece a psicanalista Lilith Ritter (Cate Blanchett), uma mulher tão ambiciosa quanto Stanton. Ambos começam a trabalhar juntos para aplicar um golpe em um magnata da cidade, até que as coisas começam a dar errado para o anti herói.  

O Beco do Pesadelo" assume clima de terror em novos trailers
Staton em um de seus shows de falsa clarividência / Imagem Divulgação

Um clássico conto de Ícaro, que narra a ascensão e queda de um personagem, O Beco do Pesadelo pode surpreender o espectador que chega aos cinemas esperando um terror fantasioso (devido ao nome do título), ao melhor estilo do diretor mexicano, mas se depara com um suspense noir dramático e reflexivo, que tem em seu cerne uma fábula sobre os limites da ganância humana ao trazer a história de um jovem atormentado, mas ganancioso e cego que toma escolhas duvidosas em busca da grandeza e de distanciar-se de um passado traumático. Del Toro (que co-escreveu o roteiro em parceria com Kim Morgan) traz em seu filme um verdadeiro conto moral sobre a personalidade humana de forma subjetiva, diferentemente do literalismo de suas outras obras, onde a monstruosidade humana era sempre mostrada na forma de criaturas e universos fantásticos. 

Apesar da surpresa pelo nome do título, o roteiro é um pouco previsível, sendo possível entender nos primeiros segundos que muitas das ações do protagonista se pautam em seu passado misterioso e profundo. E logo quando os primeiros passos do plano de Stan e os traços de sua personalidade passam a aparecer na tela torna-se previsível qual será o final de sua jornada. Fato que não é de todo ruim, já que é o caminho para sua ruína que prende o espectador e o atrai pelo absurdo da história.

Seu desenvolvimento é lento e gradual, repleto de contextualizações e ambientações, o que faz com que suas duas horas e meia de duração, divididas em três atos claros,  pareçam longuíssimas. Apesar da lentidão da trama e da extensa duração – desnecessariamente longo vale pontuar – O Beco do Pesadelo é um bom filme, mas que exige certa dose de paciência que talvez não seja do agrado de muitos espectadores acostumados aos filmes frenéticos e cheios de viradas rápidas de mesa dos heróis da Marvel. Uma jogada audaciosa do diretor mexicano e de sua equipe de produção, que optaram por trazer uma narrativa gradual em tempos de cinema frenético.

O elenco conta com, além de Bradley Cooper interpretando o protagonista, Cate Blanchett, Rooney Mara, Toni Collette, David Strathairn, Willem Dafoe, Richard Jenkins e outros nomes de peso. Bradley Cooper conquista entregando uma boa (apesar de não ser sua melhor) atuação para o vigarista sem escrúpulos, porém profundo, Stanton Carlisle e Cate Blanchett encarna de forma brilhante a personalização da figura de femme fatale – elemento importado das produções noir dos anos 40 – em sua doutora Lilith. A atriz domina as cenas e atrai os olhares na tela, apesar do protagonismo ultra centrado em Bradley Cooper, que atrapalha, de certa forma, o desenvolvimento de sua personagem e dos demais. A química entre ambos funciona e dá corpo à narrativa do segundo e terceiro atos. Willem Dafoe, ainda que apareça em pequenas participações, trás um excelente Cleim, já Rooney Mara e sua ingênua Molly não impressionam, talvez pelo fraco desenvolvimento da personagem.  

O Beco do Pesadelo' tem elenco rico e Del Toro de volta à sua boa forma -  26/01/2022 - Ilustrada - Folha
Rooney Mara e Bradley Cooper contracenando em O Beco do Pesadelo (2022) / Imagem Divulgação

Assim como seus demais longas, o filme segue a primazia pela direção de arte e fotografia, parte da assinatura do diretor e elemento que cria grandes expectativas em torno de suas obras. Guillermo Del Toro sempre foi conhecido por seus filmes esteticamente belos que flertam com o fantástico e preenchem o imaginário da audiência. O mexicano sempre foi excelente em contar histórias através de elementos imagéticos (como a cenografia, o figurino e a direção de arte como um todo) abusando dos recursos cinematográficos, e apesar de diferente, sem todo o exagero fantasioso clássico dos filmes do diretor, O Beco do Pesadelo não perde seu charme e o apelo estético característico de seus trabalhos. 

Del Toro é preciso, trazendo ao filme a atmosfera noir que pede a história através de jogos de câmeras, luz e sombra e ambiguidades que fazem alusão ao gênero, pincelando as cores da história com tons mais escuros de azul, dourado e leves acinzentados à medida que a trajetória de Stan muda de ambiente. 

As cenas iniciais do longa já trazem toda a atmosfera noir que perdura durante todo o filme, resultando em uma primeira impressão chocante à audiência que já está acostumada com a estética do diretor. Logo nos primeiros momentos o personagem de Bradley Cooper é rodeado por um cenário repleto de sombras e escuridão, de seu rosto pouco se vê, e Stan passa os primeiros minutos do longa sem dizer nenhuma palavra. É clara, a partir daí, a homenagem do diretor aos personagens masculinos clássicos de filmes do gênero: misteriosos e sombrios.

O figurino do filme, seguindo a premissa, entrega uma verdadeira ode aos clássicos noir dos anos 1940, sem perder a assinatura e identidade visual características de seus antigos trabalhos, principalmente nos figurinos de circo.

Staton Carlisle se veste como o clássico vigarista da década de 40, utilizando até mesmo o indispensável chapéu cobrindo parte de seu rosto. Já Cate Blanchett foi vestida como a própria femme fatale, com direito a vestidos pretos sensuais e batom vermelho.   

O Beco do Pesadelo” é uma produção sofisticada, mas com desenvolvimento  raso | Crítica
Bradley Cooper e Cate Blanchett como Stanton Carlisle e Lilith Ritter: homenagem ao cinema noir é vista também no figurino /Imagem Divulgação

Mesmo com tal mudança estética palpável, continua sendo um belíssimo filme aos olhos, ainda que o caráter fantástico do diretor esteja menos acentuado e mais diluído, aparecendo em poucos momentos da trama. É justamente nos primeiros momentos do longa, quando Carlisle ainda é um ajudante de circo, onde a assinatura visual do diretor mais aparece. As atrações apresentadas, os figurinos dos colegas de circo e toda a ambientação cenográfica se aproximam muito daquilo que vemos em seus antigos trabalhos.

Em um de seus primeiros momentos no circo, quando o “geek” (pessoa, geralmente usuária de drogas, que é capturada pelo circense para ser utilizada como atração) de Cleim (Willem Dafoe) foge de sua jaula e Stan, ajudando a caçá-lo, acaba por entrar em uma das atrações do circo é onde é possível enxergar aquilo que estamos acostumados a ver de Del Toro, ainda que permeado por uma atmosfera noir muito mais sombria.   

Bradley Cooper em cena da caçada ao “geek” em O Beco do Pesadelo (2022) /Imagem Divulgação

Em suma, O Beco do Pesadelo trata-se de um suspense e drama soturno ao melhor estilo noir e foge em partes das características que deram fama à Del Toro. Desta vez, o fantástico que ele sempre busca retratar não é tão presente – como se pode ver em suas criaturas em O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água – mas sim trata-se de uma abordagem mais realista e sutil do seu universo fantasioso. O diretor, no entanto, não perde o lado moral de contar as suas histórias, sempre trazendo à tela uma fábula que gera reflexão ao seu final, porém, desta vez, o filme possui um viés mais pessimista – seguindo a característica noir da trama – e um pouco mais escancarado e obscuro do que suas antigas histórias. 

O longa talvez não seja o melhor trabalho do diretor mexicano, mas é um de seus mais ambiciosos. Del Toro tentou sair de sua zona de conforto, e apesar de não ser brilhante, sua mais nova empreitada tem, no geral, um saldo positivo. 

Mesmo que cansativo e um pouco previsível O Beco do Pesadelo é um filme que vale a pena ser assistido. Até porque, fábulas morais que refletem sobre as facetas da personalidade humana são sempre bem vindas no cinema, e o longa de Del Toro endossa a importância de se utilizar de contos morais para propor a reflexão de até onde o mal caratismo humano pode chegar. E porque não fazer essa reflexão em um filme belo e primoroso que flerta com o fantasioso e o obscuro e que está nas mãos de um dos melhores diretores em atividade na atualidade? Só por esta razão, não há motivos para não vê-lo. 

Confira o trailer:

[Crítica] ‘QVVJFA?’: Baco Exu do Blues versa sobre o amor do homem negro

Baco Exu do Blues lançou na última semana Quantas Vezes Você Já Foi Amado?, seu terceiro álbum de estúdio depois dos grandes sucessos Esú (2017) e Bluesman (2018).

O disco conta com 12 faixas que falam sobre a fragilidade do homem negro se permitir amar e ser amado. Baco expõe dores, memórias e amores na luta contra o racismo estruturado na sociedade brasileira e contra as heranças culturais de um mundo machista.

Produzido por Marcelo de Lamare, a obra apresenta beats criados por Dactes, JLZ e Nansy Silvvz em torno dos gêneros R&B, soul e blues, que são muito utilizados na música negra norte-americana. Além disso, é possível perceber uma sonoridade bem próxima a de grandes artistas como o The Weeknd, mas com um belo toque de música brasileira, usando samples de Gal Costa e Vinícius de Moraes. Também possui uma influência das raízes africanas, principalmente religiosas, que o cantor carrega até em seu nome artístico.

Sinto Tanta Raiva… dá o start no álbum com trechos instrumentais evocativos do jazz e fala sobre as nuances de como receber e dar afeto sendo um homem preto, especialmente nessa faixa introdutória, em que afirma: ‘Eu sinto tanta raiva que amar parece errado’. A solidão do homem negro, muitas vezes é menos discutida – inclusive foi tema do filme ganhador do Oscar, Moonlight (2016) – e que enfrenta o adicional da cultura da masculinidade tóxica, que ensina os homens a não expressarem seus sentimentos.

Em Dois Amores, Baco explora um espaço mais religioso com a Umbanda, onde utiliza um ponto de Pomba-Gira para complementar sua canção, e faz uma interpolação – uso de uma melodia já existente com uma nova letra – de Streets da Doja Cat. Para quem acompanha o rapper por conta do hit Te Amo Desgraça (2017), o álbum QVVJFA fornece uma munição romântica e até mesmo sexual bem similar nas faixas Cigana 20 ligações. Além disso, em Mulheres Grandes, o artista traz uma visão mais sacana de si cantando que ‘mulheres grandes demais, com desejos gigantes, não servem para ser amantes’.

Samba in Paris, feat com a Gloria Groove, é a música mais ouvida do álbum até agora no YouTube, com mais de 530 mil visualizações, e esse destaque se deve a essa belíssima R&B envolvente com uma rima impecável da Gloria, fazendo com que seja o ápice do amor. E a sétima canção, Sei Partir, possui outra parceria, mas com Muse Maya, e mais uma interpolação, mas dessa vez do próprio Baco, com a música Kanye West da Bahia, uma parceria com Bibi Caetano e Deekapz.

Em Autoestima, Baco foge da dor enquanto procura o amor próprio que afirma ter sido roubado, e que demorou 25 anos para se achar bonito. Essa canção reflete o estereótipo de que o homem negro só é bonito quando possui um corpo definido, e isso possui uma relação direta com a mudança de visual recente do cantor.

A música de Baco Exu do Blues levanta questões relevantes que vêm sendo mais discutidas nos últimos anos. Os corpos negros sempre foram animalizados e objetificados, justamente porque a sociedade tardou a agregar valor a eles. As mulheres, por muitas vezes, eram vistas apenas como bons corpos para a reprodução e que não têm necessidade de afeto. Já os homens, eram aqueles bem-dotados. Ambos, hipersexualizados.

Dessa forma, apesar das mudanças em que a sociedade passou ultimamente com estudos e movimentos antirracistas, ainda prevalece um pensamento associado à valorização da comunidade negra que está atrelado às características físicas. Muitas pessoas ainda acreditam que para serem aceitos e considerados bonitos e desejáveis, é necessário ter um corpo dentro dos padrões estéticos e o mais próximo da branquitude, como pele mais clara, traços mais ‘delicados’ e cabelos com uma textura mais lisa.

A gordofobia dentro da comunidade negra se mostra como um problema ainda mais grave do que entre indivíduos brancos, já que os negros devem lidar também com o racismo. Com o lançamento do disco QVVJFA? e a repercussão das fotos de Baco, que mostra o cantor mais magro e musculoso, muitas pessoas começaram a ressaltar a beleza dele, o que já rendeu diversas críticas por parte de alguns internautas.

Lágrimas verte o medo de amar entre os ecos da voz de Gal Costa, sampleada de Lágrimas Negras (Jorge Mautner e Nelson Jacobina, 1974), e uma interpolação de outro clássico brasileiro, Malandragem da eterna Cássia Eller. O clímax do disco é na décima música, Inimigos, com um rap mais sombrio e agressivo, que relembra as obras anteriores do artista. Em seguida, o tema da falta de amor reverbera em Imortais e Fatais 2 – sequência da música original apresentada no álbum Esú – entre sample de versos do afro-samba Tempo De Amor na voz de Vinicius de Moraes (feat Baden Powell, 1966).

No arremate do álbum, o rap 4 da Manhã em Salvador jorra em rimas ágeis o ódio entranhado na jornada de Baco Exu do Blues em busca do amor, incluindo o amor-próprio. O disco ainda traz trechos de Batatinha e Originais do Samba, áudios de personalidades da música da Bahia como Ravi Lobo do Rap Nova Era, JF e Polêmico da Banda O Metrô e o ator Leandro Ramos.

Essa obra já conquistou feitos importantes para o cantor, onde superou a marca de 2 milhões de plays em menos de 24h no Spotify, e todas as 12 faixas na lista das 100 mais ouvidas na plataforma. Também foi reconhecido internacionalmente, onde conseguiu ser o quinto álbum mais ouvido nos lançamentos globais do Spotify e também ganhou destaque na mídia, como no HYPEBEAST:

Por fim, o artista usa de combustível a raiva, o romance e o sexo para a construção desse disco que conta a sua história e de todos os negros, com uma pauta de falta do afeto ou do amor, de si e do outro. Em entrevista ao JC, Diogo Moncorvo – nome de batismo – declara: ‘Quem representou o amor por muito tempo, quem fez ele ser válido ao longo da história, foram as pessoas brancas. Parece que esse amor que criaram não foi feito para negros, e isso é um pouco assustador’.

Baco Exu do Blues desenvolveu uma arte tão profunda, ao ponto de qualquer ouvinte se emocionar e se questionar: Quantas Vezes Você Já Foi Amado?

[Crítica] Spencer: “Uma fábula sobre uma verdadeira tragédia”

A aclamada produção, Spencer, estreou recentemente nos cinemas brasileiros depois de constantes adiamentos. Em 2021, o filme já tinha sido lançado no Festival de Veneza e foi bastante elogiado pelo público presente no evento. O roteiro do longa é assinado por Stephen Knight (Peaky Blinders), Pablo Larraín (Jackie) ficou responsável pela direção, Kristen Stewart (Crespúsculo) é a protagonista e interpreta a princesa Diana e, além da artista, o elenco é composto por Jack Farthing (The Lost Daughter), Sally Hawkins (Godzilla 2: O Rei dos Monstros), Timothy Spall (Encantada) e Amy Manson (Once Upon a Time).

Diana Francis Spencer era uma mulher humilde, simpática, espontânea e querida pela nação. Conhecida por ser defensora de causas comunitárias, e desmentir os mitos que existiam sobre as pessoas com AIDS e com hanseníase. A princesa visitava os pacientes e doava fundos para ajudar os hospitais. Por conseguinte, Lady Di acabou se tornando uma das figuras mais icônicas no século XX, tanto que ela foi intitulada, pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, de a “princesa do povo”.

[Imagem: Reprodução/ Getty Images]

No dia 31 de agosto de 1997, o mundo parou e se comoveu com a trágica morte de Diana que aconteceu no túnel Pont de L’Alma, em Paris, milhares de pessoas saíram pelas ruas para fazer homenagem à “princesa do povo” e o seu funeral foi assistido por aproximadamente dois bilhões de espectadores. No funeral, Conde Spencer, o irmão de Diana, disse: “Acima de tudo, nós agradecemos pela vida de uma mulher que tenho muito orgulho em poder chamar de minha irmã – a única, a complexa, a extraordinária e a insubstituível Diana, cuja beleza, interna e externa, jamais se extinguirá de nossas mentes”. Lady Di deixou um grande legado e continua sendo um dos membros mais populares da família real britânica.

A memorável trajetória da sua vida é, atualmente, lembrada pelo mundo, e também fez desenvolver diversas produções sobre sua história. No entanto, de todos os projetos feitos sobre a vida de Lady Di, Spencer consegue, por trás dos holofotes, mostrar um lado mais caótico, sobre a pressão de ser uma mulher perfeita e controlada pelas tradições da monarquia.

Ambientada em 1991, a obra dramática é focada na jornada interna da personagem. O telespectador se torna íntimo acompanhando o estado emocional da princesa Diana durante a vivência na realeza. Após rumores de traição, Diana percebe que seu casamento com príncipe Charles está chegando ao fim e, além disso, ela apresenta uma grande exaustão com as normas impostas pela Família Real. Portanto, Lady Di mostra-se sobrecarregada por tudo que está acontecendo ao seu redor e passa dias e noites bastantes turbulentos.

Por ser uma produção muito intimista, o telespectador acompanha cada passo da princesa e também percebe seu estado emocional abalado no decorrer do filme, conseguindo assistir detalhadamente a angústia e o aprisionamento que ela passa por conta do divórcio e das tradições da monarquia. Nota-se que Diana sempre tentava buscar apoio e procurava formas para tentar fugir daquelas situações e conseguir sua liberdade. Inclusive, a ansiedade e a inquietação podem ser apresentados pelo público que está consumindo a obra, é inegável a torcida para a monarca escapar daquele pesadelo.

[Imagem: Reprodução/ Diamond Films]

Vale pontuar que a saudade pela juventude antes de integrar a Família Real é um ponto importante na produção, Diana se sente perdida e não consegue se encontrar vivendo na monarquia. Ela tenta o possível reviver seu passado e faz de tudo para visitar sua casa. O local onde Diana morou na época da infância era um elemento significativo para a princesa, com objetivo de se livrar do sofrimento e alcançar a tranquilidade e a liberdade que tanto deseja.

Sobre a estética na produção, a brilhante fotografia e a trilha sonora são pontos muito fortes para comunicar-se com o telespectador e remetem a melancolia e a dor que a personagem de Kristen Stewart está sentindo.

Dirigida por Claire Mathon, a fotografia demonstra a proporção dramática de forma digna, a câmera consegue enquadrar o rosto da princesa e seu sentimento sobrecarregado, mostrando de perto a respiração ofegante, a sensação de tremor e os olhos lacrimejados. 

Aliás, é notável que as cores pastéis evidenciam um ambiente elegante e um cenário da realeza. No entanto, a intercalagem entre tons frios e quentes representam determinadas emoções da personagem. Os tons frios correspondem momentos em que Diana se sente desesperada com as situações que estava enfrentando e os tons quentes representam a alegria, conforto e paz, como nas cenas em que a princesa está com seus filhos, William e Harry.

[Imagem: Reprodução/ Diamond Films]

Além disso, a trilha sonora, assinada por Jonny Greenwood, parece ter sido usada para intensificar o estado emocional da personagem, o som dramático e instrumental se estende gradativamente nos momentos em que ela estava com um estado turbulento e tentava o possível para encontrar sua própria identidade. 

A sincronia entre a fotografia, a trilha sonora e as cores frias em momentos de tensão foi bem trabalhada, visto que o telespectador consegue sentir também aquele sufoco e nervosismo que a princesa Diana estava sentindo.

A atuação impressionante de Kristen Stewart é um grande destaque, Kristen evidenciou seu enorme talento como atriz no filme dirigido por Pablo Larraín. A artista consegue alcançar o ápice de sua atuação. Sua performance bem desenvolvida pode levá-la à uma indicação ao Oscar. Inclusive, segundo os críticos, Stewart pode ser a favorita ao prêmio da categoria de Melhor Atriz.

[Imagens: Getty Images/ Diamond Films]

Spencer é um filme bastante distinto de outras obras que foram adaptadas para contar sobre a vida da princesa de Diana. A nova produção consegue mostrar um lado mais sombrio de sua vida, e, de forma profunda, o que ela passou em seu casamento e a convivência com as regras rígidas da realeza. Além dos momentos despertadores que a personagem enfrenta, a produção traz assuntos muito delicados que podem ativar gatilhos para o telespectador. Por fim, a obra soube trazer a oportunidade aos telespectadores de assistir um trágico conto de fadas da personagem e se conectar profundamente com a história.

Confira o trailer abaixo.

[Crítica] Dawn FM, parte da nova trilogia de The Weeknd!

Abel Tesfaye, mais conhecido por seu nome artístico The Weeknd, é um dos maiores artistas da atualidade. No meio tempo entre álbuns, lança regularmente singles e faz colaborações especiais com outros grandes nomes da indústria musical como Doja Cat, Ariana Grande e Post Malone.

Seu novo álbum, Dawn FM, muito esperado pelos fãs e pela crítica especializada, chegou ao mundo na última sexta-feira (7) e já foi muito bem recebido: em cerca de 24 horas, de acordo com Hits Daily Double, acumulou mais de 60 milhões de streams — além de todas as faixas possuírem mais de 5 milhões de streams cada, com algumas chegando perto dos 20 milhões ainda na primeira semana.

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The Weeknd [Imagem: Reprodução/ Brian Riff]

Além de ótimas músicas, o novo disco é uma experiência. Deve ser tocado na ordem pelo menos uma vez (a primeira, de preferência) para que o ouvinte possa acompanhar toda a trajetória e desenvolvimento da narrativa que Abel quis mostrar. Como nome entrega, Dawn FM se fantasia como uma estação de rádio e seu locutor é o ator Jim Carrey, amigo e vizinho de Abel, que aparece em diversas faixas pelo álbum — inclusive na canção de abertura homônima Dawn FM, na qual o narrador anuncia que “tudo isso é uma jornada em direção à luz”.

Após o lançamento, The Weeknd compartilhou algumas informações sobre o projeto: “Imagine o álbum como se o ouvinte estivesse morto. E eles estão presos neste estado de purgatório, que eu sempre imaginei que seria como estar preso no final do túnel. Enquanto você está preso no trânsito, eles têm uma estação de rádio tocando no carro, com um locutor guiando você para o semáforo e ajudando na transição para o outro lado. Portanto, pode parecer comemorativo, pode parecer desolador, na maneira que você quiser que pareça, mas isso é The Dawn para mim”. O cantor também escreveu em seu Twitter: “Estou pensando… vocês sabem que estão experienciando uma nova trilogia?”, gerando teorias por parte do público.

Os fãs do artista acreditam que seu álbum After Hours, de 2020, é primeira parte desta trilogia e é sua morte; Dawn Fm é a segunda e o purgatório; com a terceira obra sendo sua jornada após a morte com o possível nome de “After Life” — na música Every Angel Is Terrifying, é citado um produto intitulado “After Life” – “Intenso, gráfico, sexy, eufórico / Provocativo, ousado, instigante / Técnicamente e visualmente deslumbrante / Uma obra convincente de ficção científica / Um exposé cheio de suspense / Cinema como você nunca viu antes / O mundo exótico, bizarro e belo de “After Life”.

Tweet de The Weeknd sobre uma misteriosa trilogia

O disco foi produzido por alguns dos gigantes da indústria: Max Martin e Oneohtrix Point Never, também conhecido como Daniel Lopatin, Swedish House Mafia, Calvin Harris e o colaborador de longa data Oscar Holter são alguns dos nomes presentes. Abel conseguiu experimentar mais com seu som. Entre todas as 16 faixas, as músicas são em sua maioria animadas e dançantes. É clara também a influência de Disco Music e New Wave dos anos 80 e 90, apesar de ainda manter os ritmos de pop, R&B e hip hop que reconhecemos em seu trabalho.

Dawn FM pode ser dividido em três partes, todas separadas por interlúdios. A primeira vai até a sexta faixa A Tale By Quincy, o interlúdio de Quincy Jones, onde reflete sobre sua criação difícil e como isso afetou seus relacionamentos futuros. Ainda na primeira parte do álbum, é possível encontrar algumas das faixas mais marcantes e singles: Gasoline, How Do I Make You Love Me?, Take My Breath e Sacrifice são animadas e cativantes, com forte presença de sintetizadores.

Videoclipe do single Gasoline

Os clipes de Gasoline, Take My Breath e Sacrifice tem grande produção e ajudam a passar a narrativa e mostrar o universo do álbum criado pelo cantor. Ao seguir o conceito de purgatório, ele o representa com visuais fortes, coreografias, maquiagens de criaturas e de seu próprio envelhecimento e cenários que definem toda a atmosfera do ambiente. Cada detalhe foi cuidadosamente escolhido — há referências que conectam a trilogia em todos os lugares, desde a melodia, letras, fotografia, cores, figurinos e até um ponto no fundo.

Alguns dos pontos ressaltados por The Weeknd durante a produção do álbum

A segunda parte possui ritmos mais lentos e trabalha na composição, com faixas mais reflexivas e autocríticas. Out of Time dá início à essa sessão e faz uma ótima transição para Here We Go… Again, parceria com Tyler, The Creator, que deu o que falar na internet devido a sua letra “Suas amigas estão tentando juntar você com alguém mais famoso / Mas em vez disso, você terminou com alguém tão básico, sem rosto / Alguém para tirar suas fotos e emoldurá-las / E a minha namorada nova, ela é uma estrela de cinema”. Muitos acreditam que Abel se refere a ex-namorada Bella Hadid e a atriz Angelina Jolie, com quem foi visto em jantares algumas vezes em 2021.

Best Friends, Is There Someone Else e Starry Eyes, próximas faixas da sequência, tem influência de R&B mais forte e o tema principal são relacionamentos, seus erros e aprendizados. Narrada por Jim Carrey, Every Angel Is Terrifying, como diz o título, se refere e faz uma crítica à representação dos anjos, muitas vezes retratados como seres bonitos e delicados, mas que de acordo com a Bíblia são bem diferentes e até mesmo “aterrorizantes”

A seguinte e última fração do álbum chega com Dont Break My Heart, que poderia ter saído diretamente dos anos 80. I Heard You Are Married com Lil Wayne e produzida por Calvin Harris, e Less Than Zero, continuam com o amor como tema geral, apesar de interpretado por situações e pontos de vista diferentes. O encerramento é dado por Phantom Regret by Jim, voltando com a narração de Jim Carrey e uma auto-reflexão. A faixa final fala sobre a alma, suas muitas experiências ao longo da vida — e o que está por vir depois dela; ficar em paz com suas escolhas e arrependimentos para seguir em frente, o poder de suas decisões, o que te faz sentir vivo, o amor e a aceitação de tudo.

É a maneira perfeita para terminar o disco. Ao trabalhar em toda uma narrativa e imersão nesse universo físico-espiritual, o desfecho é certeiro e se encaixa perfeitamente. A experiência de ouvi-lo na ordem e acompanhar a trama com os visuais dos clipes é única e faz com que o ouvinte se sinta uma parte desse mundo. São as experiências e emoções de Abel sendo contadas na “rádio”. Para além disso, há o ponto da criação: é um som original que o diferencia de seus trabalhos anteriores e outros artistas, mostrando sua potência e qualidade como músico.

Videoclipe de Take My Breath

O disco continua a fazer sucesso e cresce mais a cada dia. The Weeknd se tornou o primeiro artista masculino a ter 2 álbuns que atingiram o #1 na Apple Music em mais de 100 países, além de liderar as paradas no Spotify. Dawn FM segue com impressionantes 89 pontos no Metascore e nota 9,3 no Metacritic, e até o momento e ainda recebe críticas positivas como de Alexis Petridis da The Guardian “[…] Mas a coisa mais notável sobre Dawn FM é como ela se sente sem esforço e confiante, como se Tesfaye tivesse sido fortalecido em vez de intimidado pelo sucesso de seu antecessor. Escrito, produzido e cantado de forma brilhante, ele oferece o som cativante de um artista que sabe que está no topo de seu jogo, em um ponto feliz em que cada melodia adere e cada ideia de produção funciona exatamente assim”


The Weeknd já anunciou também a turnê mundial para o seu quarto e quinto álbuns de estúdio, After Hours e Dawn FM, A ‘The After Hours til Dawn Stadium Tour’, realizada somente em estádios. A tour promete ir a todos os continentes, porém ainda segue sem datas.

[CRÍTICA] Rebelde Netflix acerta na nostalgia mas comete deslizes

Desde que o trailer oficial de Rebelde Netflix (2022) lançou, comentários relacionando a nova geração da novela mexicana com o seriado Elite (2018 – atualmente)  foram muito presentes. Isso se deve, principalmente, pela mesmice da Netflix em seus roteiros que dificilmente inova em suas produções adolescentes. A nova série é uma continuação da telenovela mexicana de 2004, dirigida por Santiago Limón, que também é o diretor do filme No, porque me enamoro (2020).

A atriz e produtora Cris Morena criou a novela argentina Rebelde Way (2002), estrelada por Luisana Lopilato, Camila Bordonaba, Benjamin Rojas e Felipe Colombo, juntamente à produção  também foi formada a banda ErreWay. Por conta do grande sucesso foram desenvolvidos remakes da obra em outros países, como, por exemplo: México, Portugal, Índia e Brasil. 

Rebelde (2004), foi a versão mexicana produzida por Pedro Damián, também diretor de Clase 406 (2002), e estrelada por Anahí (Mia), Alfonso Herrera (Miguel), Maite Perroni (Lupita), Christian Chávez (Giovanni), Dulce María  (Roberta) e Christopher Uckermann (Diego), além da novela o elenco principal formou o grupo musical RBD, que se tornou a banda mais premiada do mundo.

Foto reprodução/ montagem: RBD (esquerda) e ErreWay (direita)

A Netflix produziu a sequência que se passa no mesmo universo de Rebelde México, que conta com a presença de personagens da 1ª geração como Celina Ferrer (Estefania Villarreal), que é a nova diretora do Elite Way School, e Pilar Gandía (Karla Cossío),  a mãe da protagonista Jana Cohen (Azul Guaita). A ex chiquitita Giovanna Grigio interpreta Emília e o elenco principal também é formado pelo primo da Mia, Luka Colucci (Franco Masini), M.J. (Andrea Chaparro), Dixon (Jerónimo Cantillo), Sebas (Alejandro Puente), Andi (Lizeth Selene) e Esteban (Sérgio Mayer).

Após o gigantesco legado deixado pela banda, o EWS que, até então, era um colégio bem tradicional, aderiu o programa de música a sua grade escolar, e passou a realizar  anualmente uma batalha de bandas em que o vencedor poderá ter um contrato com uma gravadora renomada.

Logo no começo do primeiro episódio, é possível notar o apelo a nostalgia  ao iniciar a trama com uma conversa entre  Jana e Pilar. A introdução de Dixon  também trouxe lembranças de quando Giovanni ingressou no colégio, ambos pedindo para a mãe não chamar muita atenção e escondendo a verdadeira identidade, mudando de nome. A elite, assim como na telenovela de 2004, está sempre presente, desta vez através  de Sebastian Langarica, o filho da próxima chefe de governo. Será que sua mãe será tão bruta como era León Bustamante com o Dieguinho?

Foto reprodução Netflix/ Emília (Giovanna Grigio) e Andi (Lizeth Selene) em cena

Os 8 episódios, que duram em torno de 40 minutos, garantiram um enredo leve sobre adolescentes com problemas de adolescentes. O desenvolvimento de cada personagem foi um tanto raso, assim como dos casais e das amizades. Os plots twists foram previsíveis e a história foi muito rápida separando-se entre a  audição, a formação da banda e o final, talvez, por isso, não foi possível passar a audiência um vínculo de amizade entre os personagens. Assim que chegaram ao colégio os protagonistas já tiveram que se preparar para a batalha das bandas, com isso a relação entre eles gira em torno de desmascarar a seita e vencer a competição sem todo o envolvimento esperado entre as personagens.

O maior deslize da série foi a forma que a seita La Logia foi trabalhada. Tanto na versão original como na primeira geração mexicana, o foco da associação secreta era criar o terror com os bolsistas, uma guerra de classes entre os alunos de elite com os mais pobres, além das “pegadinhas” que eram agressões pesadas a ponto de quase matar. Em RBN a seita foi totalmente ridicularizada, ao invés dos bolsistas o novo alvo foram os novatos e o trote foi (alerta de spoiler) vestir-se com o uniforme dos RBD e fazer eles cantarem a música Rebelde. Esse foi, com certeza, um grande erro para para os fãs e para o que representava a La Logia e a problemática envolvendo o preconceito dos alunos de elite com os bolsistas que era retratada na novela.

Montagem/Reprodução

Mia Colucci foi o centro das referências. Entre algumas delas, por exemplo, M.J usa a estrela vermelha na testa e Jana  o celular flip na bota. Por ser típico dos  Colucci não apoiarem seus filhos no mundo musical, a história de seu primo, Luka, também se assemelha com a de Mia. Assim como Franco, Marcelo prefere que seu filho entre para os negócios da família ao invés de fazer música.

Mas e Roberta, Lupita, Diego, Miguel e Giovanni? Os outros RBD ‘s foram esquecidos pela Netflix? As referências foram poucas e até mesmo inexistentes,  uma falta de consideração com os outros personagens e que causou grande descontentamento a muitos RBDManiacos. 

Porém, o legado da banda foi muito bem retratado com a exposição na parede do corredor, os uniformes, prêmios, o chapéu de Salvame, fotos e alguns instrumentos. O mural, além de ser um bom incentivo para os alunos e validar o prestígio da banda para o Elite Way, é de longe o momento mais nostálgico e sentimental para todos os fãs.

Reprodução Twitter @rebelde_netflix

Pensando no público alvo, a atuação de maneira geral é mediana e nada surpreendente ou inovadora. Até mesmo Esteban (Sérgio Mayer) que possui  um plot importante,  tornou-se o menos interessante, devido a falta de expressão em quase todas as cenas. Mayer acabou se envolvendo em polêmicas dizendo que não gostava de RBD, o que causou certo aborrecimento com os fãs.

A Netflix também pecou ao não colocar uma interação entre Pilar e Celina. É  de conhecimento dos fãs  o trauma que Gandía tem em relação ao EWS, mas uma conversa de velhas amigas ou até mesmo um telefonema sobre Jana, que compareceu diversas vezes na diretoria, seria ainda mais nostálgico, mas quem sabe fique para a próxima temporada?


Ainda sem data de estreia, a segunda temporada foi gravada simultaneamente e com novos covers, como Besame Sin Miedo, novos personagens e a confirmação de todos os principais. Por mais que não tenha tido um gancho no último episódio, ainda é esperado que a história se aprofunde assim como o desenvolvimento de cada um, dos casais e também das amizades. A Netflix precisa sair da mesmice do roteiro de séries adolescentes e procurar inovar sem medo, RBN já conquistou o seu espaço e não é preciso forçar Rebelde México em seu enredo.