[Crítica] Matrix Resurrections: um apelo pela nostalgia

ALERTA DE SPOILER

A quarta e mais recente sequência da franquia de filmes Matrix, teve sua estreia mundial nos cinemas na última quarta (22). Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss reprisam seus papéis icônicos como Neo e Trinity, além de haverem novas adições ao elenco compostas por Jonathan Groff, Christina Ricci, Neil Patrick Harris, entre outros. Em 1999, as irmãs Lilly e Lana Wachowski impactaram o gênero de ficção cientifica com o lançamento de Matrix. Recebendo excelente resposta de críticos, particularmente no que diz respeito aos efeitos visuais e cenas de ação, o filme conta uma história que, por si só, não é original, mas a forma inovadora como foi contada encantou a audiência de final do século 20, que via o mundo tecnológico evoluir cada vez mais rapidamente.

A história se passa vinte anos após os eventos da última sequência da franquia: Matrix Revolutions (2003). Neo vive sob a sua identidade original como Thomas A. Anderson em São Francisco e tem um terapeuta que o prescreve pílulas azuis para tratar visões anormais que ele tem ocasionalmente. Até que uma nova versão de Morpheus (Laurence Fishburne) o oferece mais uma vez a oportunidade de seguir o “Coelho Branco” e abrir a sua mente para a verdadeira realidade que gira em torno dele. Sem conseguir superar o original de 1999, mas ainda melhor avaliado do que o seu antecessor, o filme tem até o momento avaliação de 68% Rotten Tomatoes.

Confira o trailer:

Recapitulando…

Matrix (1999)

Neo vive uma vida dupla dentro do Matrix. Como Thomas A. Anderson ele segue as regras, cumpre as leis e paga seus impostos, mas como o hacker Neo ele é um criminoso virtual à procura de uma verdade que ele não sabe se existe, mas que o incomoda profundamente. Quando entra em contato com Morpheus que lhe apresenta a oportunidade de escolher como seguirá o seu caminho, tudo muda. Tomando a pílula azul, ele não se recordará de tê-lo conhecido e seguirá sua vida em ignorância, como se nada tivesse acontecido. Por outro lado, se ele escolher tomar a vermelha, a verdade sobre o Matrix será revelada.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é pilulas.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Seguindo a segunda opção, Neo se depara com um futuro distópico onde centenas de humanos estão conectados a máquinas sem a sua consciência; ele é resgatado por Morpheus e sua equipe, e abordo do Nebuchadnezzar ajudam ele na sua reabilitação e a entender o que é essa nova realidade.

O Matrix é controlado por uma nova raça, uma evolução da Inteligência Artificial desenvolvida pelos seres humanos no início do século 21, mas que cresceu para além dos seus criadores. Quando se trava uma guerra entre ambas as raças, os humanos decidem queimar o céu, como uma tentativa de impedir o funcionamento das máquinas que são movidas à luz solar. 

Morpheus narrando esses acontecimentos para Neo, enaltece a ironia que está no fato de a humanidade, historicamente, necessitar de máquinas e novas tecnologias para sobreviver, uma vez que a própria humanidade agora está sendo usada como combustível de energia para as máquinas. Portanto, o Matrix é uma realidade falsa criada para manter a humanidade complacente com a sua posição de escrava neste novo mundo. Atualmente só resta um lugar inteiramente humano: Zion, que segundo um dos tripulantes do aerobarco Nebuchadnezzar é “a última cidade humana, o único lugar que nos restou”.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é neo-v-as.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Morpheus acorda Neo por acreditar que ele é o Escolhido, que segundo a Oráculo (Gloria Foster), irá retornar para acabar com a guerra, destruir o Matrix e libertar a todos. O filme original da franquia se resume na jornada de herói de Neo, que lutando contra o Agente Smith (Hugo Weaving), reconhece o seu poder e seu papel como salvador da humanidade.

Matrix Reloaded (2003)

A continuação Matrix Reloaded, também escrito e dirigido pelas irmãs Wachowski, avança 6 meses na história de Neo, ele e Trinity são agora oficialmente um casal e continuam trabalhando ao lado de Morpheus e Link (Harold Perrineau Jr.), fica claro também que nos últimos 6 meses, com o auxílio do Escolhido eles libertaram mais pessoas do Matrix do que haviam conseguiram em anos. 

A pedido da capitã Niobe (Jada Pinkett Smith), o Nebuchadnezzar vai a Zion para uma reunião emergencial onde são informados do ataque de Sentinelas à cidade previsto em 72 horas, por conta disso o Comandante Lock (Harry Lennix) manda todos os barcos retornarem a Zion para se prepararem. Contra a vontade de Lock, Morpheus retorna ao Matrix para Neo poder encontrar a Oráculo. Enquanto isso Bane (Ian Bliss), um dos tripulantes do Caduceus, ainda dentro do Matrix, encontra o Agente Smith que toma conta do seu corpo e retorna ao mundo real. Depois de conversar com a Oráculo, Neo planeja ir a Fonte do Matrix, mas para isso precisa da ajuda do Chaveiro (Randall Duk Kim) que é prisioneiro na casa do programa Merovingian (Lambert Wilson).

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é neo.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Após inúmeras cenas de ação contra os aliados do Merovingian, eles conseguem libetar o Chaveiro e quando Neo finalmente consegue chegar à Fonte ele conhece o Arquiteto (Helmut Bakaitis), o criador do Matrix que revela que o Escolhido é na realidade uma anomalia criada para manter o controle dos seres humanos que se revoltam ao programa; já existiram 6 versões do Matrix e também 6 versões do Escolhido. Em todas elas o Escolhido é quem, segundo a Profecia, irá destruir o Matrix e libertar a humanidade, mas o Escolhido na verdade vai até a Fonte e lá deve escolher 16 mulheres e 7 homens para repopular Zion depois da sua destruição.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é neo2.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Em Matrix Reloaded, o protagonista tem presságios frequentes sobre a possível morte de Trinity, isso motiva Neo a fazer escolhas com base na emoção e não na razão. É exatamente isso que acontece quando o Arquiteto o faz escolher entre repopular Zion, ou salvar Trinity e o herói opta pela segunda opção. No retorno para o navio, Neo confessa a falha na Profecia e avisa que eles têm 24 horas para se preparar para a destruição da última cidade humana. 

Já no mundo real quando o Nebuchadnezzar é atacado e destruído pelos Sentinelas, Neo salva os companheiros e simultaneamente descobre uma nova habilidade, mas o esforço faz com que ele desmaie. Quando vemos ele novamente ele está em uma maca, abordo do barco Hammer, junto do corpo de Bane, que segundo os tripulantes foi o único sobrevivente encontrado no Caduceus, depois do massacre que aconteceu em Zion.

Matrix Revolutions (2003)

Seguindo imediatamente os acontecimentos do anterior, Matrix Revolutions começa com Morpheus procurando Neo dentro do Matrix pois seus sinais vitais não correspondem com o de uma pessoa em coma, mas sim os de uma pessoa conectada. Na verdade, Neo está preso em um tipo de limbo entre o Matrix e o mainframe, na estação de trem “Mobil Avenue”, onde ele conhece Sati (Tanveer K. Atwal) e sua família e o programa que controla a estação chamado Guarda-Freios (Bruce Spence), leal apenas ao Merovingian e por conta disso não deixa o protagonista sair de lá. Ao descobrir isso, com a ajuda da Oráculo (Mary Alice), Morpheus e Trinity vão atrás do Guarda-Freios que escapa, sem muita paciência eles vão até o Merovingian a mão armada obrigá-lo a soltar o Neo.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é mt.jpg
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Com novas premonições sobre a Cidade das Máquinas, Neo conversa com a Oráculo que explica que uma conexão entre ele e a Fonte foi formada depois que ele foi a Fonte, e por conta disso ele tem suas habilidades dentro e fora do Matrix. Além disso ela deixa claro que Neo e o Agente Smith são dois lados da mesma moeda e que Smith está ficando cada vez mais forte e isso pode acabar destruindo, além do Matrix, a Fonte e a Cidade das Máquinas. 

Na sequência, Niobe permite que Neo e Trinity usem o Logos para ir até a Cidade das Maquinas, enquanto o resto da tripulação tenta retornar para a guerra em Zion. Antes de partirem o casal é emboscado por Smith no corpo de Bane, que cega Neo, mas acaba morrendo. Chegando na cidade o Logos tem problemas na aterrisagem que acabam matando Trinity e obrigando Neo a seguir sozinho.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é neo-v-as2-1.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Neo conhece Deus Ex-Machina, uma personificação das máquinas, e tenta negociar a paz. Ele avisa que o Smith está muito poderoso e cada vez mais fora de controle, mas que ele pode impedir que Smith destrua tudo desde que Deus Ex-Machina garanta o fim da guerra em Zion. As máquinas param de atacar enquanto Neo entra no Matrix para confrontar Smith. Eles lutam enquanto diversas versões do agente assistem e por um instante quando Neo parece estar derrotado, Smith comemora e possui o corpo do herói que se torna mais uma versão do antagonista e que confirma que finalmente tudo acabou, com um sorriso no rosto. Porém no mundo real o corpo de Neo sofre espasmos, quando absorve uma onda de energia a partir da conexão com o Matrix e, a começar pela mais nova versão do agente, todos os Smiths são destruídos de dentro para fora.

Sacrificando-se pela causa, Neo alcança o objetivo final do Escolhido; todos possuídos pelo agente dentro do Matrix voltam ao normal, em Zion os Sentinelas se afastam sinalizando o fim da guerra. Nos últimos instantes do filme, em conversa com a Oráculo o Arquiteto confirma que todos os humanos serão libertos.

Matrix Resurrections (2021)

Como é possível criar uma sequência de uma trilogia que aparenta estar completamente finalizada? 

O filme reorganiza os acontecimentos dos três últimos filmes e os justifica dizendo que compõem uma trilogia de games hiper realista criada pelo renomado designer de games Thomas Anderson. Dentro do Matrix, apesar de ter uma vida comum e confortável, Anderson precisa da ajuda do seu analista que prescreve pílulas azuis para lidar com as suas visões frequentes nas quais ele acredita ser Neo, o protagonista do seu jogo. Enquanto isso novos personagens são introduzidos quando Bugs (Jessica Henwick) encontra uma encarnação de Morpheus (Yahya Abdul-Mateen) e eles, junto da tripulação do Mnemosyne libertam Neo do Matrix, a partir daí eles descobrem que Trinity segue viva e presa ao Matrix e tentam resgatá-la também.

Matrix Resurrections não é nada além do que promete ser: uma adaptação de um universo já conhecido e amado para audiências de séc. XXI. Durante os 30 primeiros minutos do filme cenas da trilogia original recortam o novo enredo, uma maneira de pontuar semelhanças e de deixar claro para a audiência que o que aconteceu anteriormente não está sendo esquecido ou deixado de lado. Aliás o filme em si cresce muito pouco para além da sua origem, sendo um longa genérico de ação com uma narrativa extremamente humilde.

[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Um ponto alto desse filme é que ele não se leva a sério como seus antecessores, inserindo um humor bem-vindo e confortante em tema com potencial para se tornar denso sobre a ambiguidade na coexistência entre a raça humana e digital. Ambiguidade na coexistência? Mas eles não passaram três filmes em guerra, e Neo teve que se sacrificar justamente para libertar a humanidade da sua escravidão? Pois é, de repente Lana tenta nos convencer que a melhor alternativa sempre foi se unir às máquinas por que só elas auxiliam na verdadeira evolução humana. Isso poderia ser abordado mais a fundo, mas não, Neo simplesmente aceita essa nova realidade e fica claro que nós devemos aceitar também. Isso é algo recorrente, cada vez que um novo fator implica na história já conhecida, algum personagem afirma que o que ele viveu não perdeu valor ou relevância, e que não foi nada à toa. 

Nesse caso a personagem que introduz essa nova maneira de pensar é Niobe que retorna para, em grande parte servir como mais um fator de nostalgia, mas também para se posicionar a favor da nova aliança entre as duas raças. Ela argumenta por exemplo, que antes não era possível cultivar nenhuma fruta ou vegetal em Zion, mas agora, com a ajuda de máquinas eles cultivam diversos alimentos. Ela e o Merovingian ambos retornam de uma maneira muito peculiar, com alterações físicas intensas que refletem na sua condição atual, eles trazem a memória dos personagens originais mas com uma nova caracterização que parece uma paródia e, no caso principalmente do Merovingian, serve apenas como alívio cômico.

O “fan service” sendo feito pela Lana Wachowski que dessa vez dirige o filme sem a sua irmã, é óbvio. A história original não é alterada, mas o que acontece imediatamente na sequência de Matrix Revolutions é adaptado à uma nova narrativa que se encaixe 20 anos depois, sem desvalorizar o passado. Neo novamente tendo que acordar como no filme de 1999, mas dessa vez com memória de tudo que fez serve como uma personificação dos fãs.

Além de uma introdução precária de diversas máquinas que ajudam os protagonistas no decorrer da narrativa, a equipe do Mnemosyne também sofre nessa adaptação. Tendo o foco em Neo e Trinity durante a maior parte do filme, os demais personagens demonstram pouco ou nenhum desenvolvimento e são rasos em personalidade e relacionamentos, eles servem como mais um veículo para o fã poder se consolar, atuando como uma representação generalizada de fãs que interagem com os protagonistas como seus ídolos.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é nt.png
[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

O recurso primordial no audiovisual é o “mostre, não conte”, no qual basicamente o diretor reconhece a inteligência do espectador e permite a ele um certo nível de interpretação. Lana prefere ignorar esse recurso durante praticamente todo o filme, nos momentos já mencionados em que ela quer indicar referências diretas à sua filmografia, e nos momentos em que o filme sente necessidade de eliminar qualquer sutileza e praticamente quebrar a quarta parede para consolar os fãs e justificar o que está acontecendo.

Apesar disso outro ponto alto é a inovação visual do filme, cenas icônicas como o primeiro treino de Kung-Fu de Neo no primeiro filme são adaptadas para uma audiência de 2021 com maiores expectativas e menor capacidade de atenção, solidificando a nostalgia em um presente mais pirotécnico.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é kf-nm.gif
[GIF: Reprodução/Giphy]

Em um determinado momento a nova encarnação de Morpheus diz a Neo “nada conforta a ansiedade como um pouco de nostalgia”, o filme todo poderia ser resumido apenas nessa frase. Desde cenas diretas da trilogia original até personagens que retornam como caricaturas das originais, Matrix Resurrections não um filme que precisava existir, mas ele não fere o legado da trilogia original e cumpre o que promete: nostalgia.

[Crítica] ‘Homem Aranha: Sem Volta Para Casa’ e o retorno de Peter Parker

Homem Aranha: Sem Volta Para Casa chegou aos cinemas na última quarta-feira (15), sendo o 27° filme da Marvel e um dos mais aclamados pelo público e imprensa. Em apenas 48 horas de lançamento, se tornou a maior estreia na história do Brasil, com mais de 1,7 milhões de espectadores. Já nos Estados Unidos, arrecadou em torno de U$122 milhões até agora, ficando atrás apenas de Vingadores: Ultimato.

A terceira obra solo do Tom Holland no papel do herói conseguiu estrear no Rotten Tomatoes – site de críticas especializado – com a altíssima avaliação de 100%. Apesar de não ter classificações perfeitas, vale lembrar que os últimos filmes de Holland como o super-herói também conseguiram uma excelente avaliação no site: De Volta Ao Lar (2017) tem 92% de aprovação enquanto Longe De Casa (2019) acumula 90%.

O filme inicia um importante capítulo na vida de Peter Parker, já que os acontecimentos das produções anteriores e a sua identidade revelada, o herói precisa lidar com as questões que a vida fora do anonimato trazem. Após tudo estar indo de mal a pior, Parker procura o Doutor Estranho para ajudá-lo a colocar sua vida nos eixos. No entanto, os dois heróis acabam piorando a situação e abrindo uma brecha no Multiverso, o que consequentemente, traz visitantes inesperados ao seu mundo, e com isso, Peter terá que ajeitar toda a bagunça que arrumou.

Como tudo começou nas HQs

O Homem-Aranha é um dos heróis mais populares de todo o mundo, ficando sempre em evidência: suas histórias estão entre as de maior sucessos e já ganhou uma quantidade de filmes que poucos super-heróis podem igualar. Nos quadrinhos, sua casa original, o amigo da vizinhança também sempre foi uma prosperidade e sua trajetória nesta mídia serve de parâmetro para toda a indústria dos comics.

Em 1962, Stan Lee concebeu um novo protagonista diferente dos demais: humanizado, uma pessoa normal, com problemas comuns como falta de dinheiro, problemas familiares, só que em meio a tudo isso, com superpoderes para combater o crime. O ideal era que não fosse um cara popular, sendo perseguido no colégio, sem sorte com as mulheres, não fosse extremamente bonito e nem musculoso. Por fim, o fato de ser um adolescente também era um novidade, afinal, os heróis eram sem exceção pessoas adultas. Os adolescentes eram apenas sidekicks ou “parceiros mirins”, como aqueles da concorrente DC Comics (Robin, Kid Flash, Moça-Maravilha). Depois, foi decidido que o personagem devia se chamar Spider-Man e tivesse os poderes relativos a uma aranha: escalar paredes, levantar dezenas de vezes o próprio peso e ter uma grande agilidade.

Mas desde o início, Aranha enfrentou problemas para ser lançado. O dono da Marvel, Martin Goldman, não gostou da nova ideia, já que as aranhas são animais que as pessoas costumam não gostar e isso poderia influenciar o gosto delas pelo personagem. Porém, Stan Lee conseguiu uma chance, afinal tinha emplacado várias revistas de boa vendagem, e com isso, poderia lançar essa nova criação na revista Amazing Fantasy, que estava com a data de cancelamento marcada devido as baixas vendas.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Para desenhar e desenvolver o seu novo personagem, Lee contatou o companheiro Jack Kriby, também criador de de Quarteto Fantástico, Thor e Hulk. Kirby começou a desenhar a história, um conto previsto para ter apenas oito páginas, mas Stan Lee não gostou dos desenhos, visto que o herói estava musculoso demais e a história escrita pelo desenhista fugia do propósito original. Alguns dizem que tratava-se de uma ficção científica nos moldes do Lanterna Verde da DC. Por sua vez, Kirby se baseou em outros dois personagens que havia criado anos antes, chamados The Silver Spider e The Fly, de onde retirou características como os poderes relacionados a insetos e até a história de um órfão criado por um casal de tios idosos. E por conta disso, o trabalho foi repassado para o desenhista Steve Ditko.

Os fãs disputam quem criou o uniforme do Homem-Aranha, Kirby desenhou o traje com uma malha tradicional de super-herói, inclusive com botas de bucaneiro – uma de suas marcas – e capa, além de usar uma pistola. Ditko criou a roupa bem expressiva do personagem, mas a dúvida permanece, já que a capa da primeira revista com a aparição do Homem-Aranha foi feita por Jack Kirby, com o herói segurando um bandido nos braços enquanto se balança em sua teia. Além disso, nas poucas vezes em que desenhou o aracnídeo, ele fazia o uniforme com algumas distinções: no traço original de Ditko as teias desenhadas no peito deixavam um quadrado em aberto dentro do qual se localizava o símbolo da aranha negra, enquanto na versão de Kirby a aranha está por cima das teias como se desenha até hoje, os olhos da máscara do herói também eram ligeiramente diferentes.

Na primeira história do Aranha, em Amazing Fantasy 15, o jovem estudante colegial Peter Parker é mostrado como um órfão, criado pelos amorosos tios Ben e May Parker, enquanto é um aluno brilhante, mas escorraçado pelos colegas populares, e é picado por uma aranha que, acidentalmente, foi bombardeada por radioatividade, durante uma exposição de ciências. Com o passar do tempo, o jovem desenvolve as habilidades de uma aranha verdadeira: super força, dá enormes saltos e pode escalar as paredes, além de ter um sexto sentido que alerta dos perigos.

Empolgado com as novas habilidades, cria a identidade de Homem-Aranha para ganhar partidas de luta livre e passa a se apresentar em programas de TV como uma sensação. O sucesso é imediato. Porém, ele deixa escapar da emissora um ladrão que assaltou uma pessoa, por dizer que o problema não era dele.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Pouco depois, seu tio Ben Parker, que o criou como se fosse um filho, é assassinado em um assalto comum. Um vingativo Peter parte vestido de Homem-Aranha em busca do assassino apenas para descobrir que é o mesmo ladrão que ele havia deixado fugir. Mas por um momento, se lembra da frase dita pelo tio: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Então, passa a se dedicar ao combate ao crime, enquanto cuida de manter sua identidade secreta, para poupar a Tia May, que é toda a família que resta. Além disso, ela é doente do coração e qualquer choque pode ser fatal. A história curta de oito páginas em que isso ocorre tornou-se um grande sucesso.

Devido ao triunfo da HQ, foi desenvolvida uma revista própria para o super-herói, mas na época a Marvel era uma editora pequena e sem distribuidora, e portanto tinha um limite de alguns títulos mensais que podiam ser lançados. Por isso, a revista The Incredible Hulk – que não vinha vendendo tão bem – foi cancelada em seu sexto número para dar lugar à casa do escalador de paredes. Com isso, The Amazing Spider-Man 01, chegou às bancas com data de capa de março de 1963, sete meses após sua estreia.

Mas não foi concebida uma capa para o novo quadrinho, e colocaram o Quarteto Fantástico fazendo uma participação especial, para que os leitores deles se interessassem também pela história e as vendas aumentassem. Na época, o Quarteto era o maior sucesso da editora. Assim como em Amazing Fantasy, a capa de Amazing Spider-Man também foi de Jack Kirby e não de Ditko, porque ele era o principal capista da Marvel.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

A primeira fase do Homem-Aranha foi dedicada a criar seu universo ficcional e um dos períodos mais profícuos do personagem, cheio de momentos clássicos. A influência desse trabalho em outros artistas – contemporâneos e futuros – também foi enorme. A dupla Stan Lee e Steve Ditko escreveram as primeiras 38 edições da revista Amazing Spider-Man, publicadas entre março de 1963 e maio de 1966, mais duas edições anuais, em 1965 e 1966.

Boa parte dessas histórias apresentaram as primeiras aparições dos grandes vilões do Homem-Aranha: Camaleão, Consertador, Abutre, Dr. Octopus, Lagarto, Electro, inclusive em uma aventura que traz de brinde um confronto entre o Aranha e o Tocha Humana. Além disso, Mysterio, Duende Verde, Kraven e Homem-Areia, também foram desenvolvidos, sem contar os confrontos com vilões da Marvel que já existiam, como Dr. Destino, inimigo do Quarteto Fantástico; Cabeça de Ovo, inimigo do Homem-Formiga e o Circo do Crime, uma aventura conjunta com o recém-criado Demolidor. Tudo isso somente nas 18 primeiras edições de Amazing. Depois, outros vilões clássicos continuariam a surgir, como Escorpião, Magma, Smithy e os Esmaga-Aranha.

Outros personagens incluídos nessa época foram: o eterno antagonista J. Jonah Jameson, editor-chefe do Clarim Diário, que destila veneno contra o Aranha em seus editoriais desde Amazing 01; Betty Brant, a primeira namorada de Peter Parker, mais velha, era a secretária de J.J.J (ASM 04).; Flash Thompson, o galã do colégio Middletown Hugh School onde Peter estuda e é o cara que inferniza a sua vida, ao mesmo tempo em que é o maior fã do herói aracnídeo (AF 15); e Lizz Allen, a musa do colegial, namorada de Thompson e que depois se interessaria por Parker (AF 15).

As primeiras histórias justificavam o fato de Peter manter sua identidade secreta por dois motivos: os editorais explosivos de Jameson, que faziam o Homem-Aranha ser tratado como um criminoso; e o fato de sua Tia May sofrer de uma doença cardíaca séria (revelada já em ASM 01) e que poderia morrer com o choque da descoberta. Ao mesmo tempo, a pensão deixada por Ben não é o suficiente para mantê-los, o que é agravado pelo caro tratamento e remédios de May. Então, Peter precisa desesperadamente de um trabalho de meio-período que não o atrapalhe na escola. Com isso, possui a brilhante ideia de fotografar a si mesmo, o herói, quando vê um anúncio no Clarim Diário oferecendo dinheiro por imagens exclusivas da “ameaça mascarada”, como mostra em Amazing 04.

É importante lembrar da edição Amazing Spider-Man 39, que chegou às bancas em agosto de 1966 e trouxe um grande estardalhaço por dois motivos: em primeiro lugar, uma icônica capa em que o Duende Verde aparece em seu jato carregando um Peter Parker amarrado, com as roupas civis rasgadas revelando seu uniforme, em segundo, pela mudança do desenhista da revista e o crédito ocupado por John Romita, uma futura lenda, mas no momento, um mero desconhecido.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

A fase de John Romita mudou bastante coisa dentro do universo do aracnídeo, principalmente por ser considerado o “rei das revistas de romance” dos anos 1950 e passou dez anos desenhando homens garbosos, mulheres bonitas e sabia como ninguém desenvolver uma novela amorosa, algo do qual Peter Parker se beneficiaria bastante. Alguns críticos irão dizer que Romita embelezou Parker e isso é verdade. O Peter de Romita também é um pouco mais autoconfiante, sendo um desenvolvimento da trama de seu ingresso na Universidade.

Além disso, a vida do personagem também ganhou ares mais adultos – incluindo sair de casa – o que também era condizente com a idade de um jovem universitário. A novela em torno do triângulo amoroso Peter-Betty-Liz foi sucesso entre os leitores, Lee e Romita decidiram reciclar a ideia, mas agora, com Peter-Gwen-MJ. Apesar disso, as referências ao sexo propriamente dito permaneceram muito subliminares, simplesmente porque o Comic Code Authority (CCA, o órgão de autocensura que regulava os quadrinhos dos EUA) não permitia.

Outro aspecto interessante é que Romita – longe da inflamação direitista de Ditko – teve mais preocupação em contextualizar Peter e seu universo às turbulências dos anos 1960. Assim, não apenas a UES aparece mais, como também questões sobre a política, guerra, os direitos civis, protestos, o rock e o vestuário. O desenhista estava o tempo todo pesquisando em revistas de modo o outfit de seus personagens, o que dava ares mais joviais e informais de um modo que Ditko ou mesmo Kirby não podiam. Isso incluiu criar um núcleo afroamericano para a revista na figura do editor de cidades do Clarim, Joe “Robbie” Robertson – muito mais humano e bondoso do que o irascível J.J. Jameson, e seu filho Randy, que é um dos colegas de Peter na UES.

A partir de ASM 73, a arte principal de Homem-Aranha passou por um período para o veterano Jim Mooney, artista da Era de Ouro que fez trabalhos marcantes nas histórias do Batman e da Supergirl na DC Comics, mas tinha trabalhado também na Timely-Atlas. A arte clássica e bonita de Mooney casou muito bem com o estilo de Romita com o Aranha e ele teria um longo futuro no personagem. Romita fazia a arte final, ou seja, cobria o lápis com tinta nanquim. A dupla ficou até a edição 82, quando a posição de artista backup de Romita passou a John Buscema, artista que emergia como um dos principais da Marvel pós-1968, e então, o responsável pela revista dos Vingadores. Buscema, Mooney e Don Heck trabalharam também nesse esquema até a edição 88.

Em 1967, Gil Kane passou a fazer parte da equipe de Homem-Aranha, que trabalhou ao lado de Romita até a edição 95, e em seguida, assumiu a arte principal “solo” de Amazing por 10 edições seguidas até o número 105, já em 1971. A escolha de Kane se deu provavelmente pela habilidade do artista em criar cenas de ação dinâmicas e constantemente usava enquadramentos de cima para baixo ou de baixo para cima, o que casava muito bem com a agilidade e as acrobacias dos poderes do Aranha.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Ao longo do avanço da década de 1960, as tramas de Lee e Romita foram ficando cada vez mais adultas, cada vez mais sérias. Na passagem de 1970 para 1971, temáticas mais duras e realistas começaram a aparecer em todas as edições: morte, corrupção, drogas. Embora Peter Parker continuasse lidando com um mundo fantástico, ele era cada vez mais preenchido por elementos da vida real. E um ponto de virada nesse sentido ocorre com Amazing Spider-Man 90, de novembro de 1970, com a morte do capitão Stacy, pai de Gwen. Personagens já haviam morrido na revista, mas Stacy era um membro forte do elenco coadjuvante do herói e pai de sua namorada. Um homem bondoso e justo com um potencial grande de ser um aliado do escalador de paredes.

Quando a HQ chegou a sua centésima edição, outro desenhista precisou assumir, Roy Thomas, e por ser fã de histórias de terror, criou um arco de histórias bizarras, publicado entre 101 a 105, na qual Peter Parker termina dotando de mais quatro braços, ficando como um aracnídeo com oito patas e que luta contra o vampiro-humano Morbius.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

A última edição regular do Homem-Aranha escrita por Stan Lee foi Amazing Spider-Man 110, de julho de 1972. infelizmente, uma aventura para lá de ordinária, que serve apenas para mostrar Peter Parker continuando a ter ciúmes de Gwen e Flash e o surgimento do inacreditável Gibão. A partir disso, os roteiros passaram às mãos de Gerry Conway, um jovem de 19 anos.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Essa nova fase, traz um clímax dos anos 1970, a crise na virada para os 1980. A Marvel decidiu ampliar o universo do amigo da vizinhança. Stan Lee providenciou para que o Homem-Aranha se tornasse o primeiro personagem da Marvel a possuir duas revistas mensais, além da já existente, surgiu Marvel Team-Up, que reuniu o Aranha com os outros heróis da franquia, como os Vingadores e X-man.

Marvel Team-Up era uma pegada diferente do que os leitores estavam acostumados em Amazing Spider-Man. A revista era pautada em uma fórmula que exigia sempre um novo parceiro de aventuras a cada edição e ainda desenvolver uma ameaça condizente. Por isso, eram aventuras mais soltas, menos amarradas à cronologia e que muito raramente traziam os usuais coadjuvantes da vida pessoal de Peter Parker. Ainda que alguns escritores, como Gerry Conway – e futuramente outros como Chris Claremont e Bill Mantlo – investiram em algum senso mínimo de continuidade. Mas de algum modo, era praticamente possível ler MTU sem os conhecimentos dos eventos de Amazing Spider-Man.

As equipes de criadores também eram sazonais, sendo cada arco de histórias – geralmente duas ou três edições – entregues a artistas diferentes, primeiramente “consagrados”, mas depois, passou a servir como um laboratório para novos artistas trabalharem com o aracnídeo ou com outros personagens. Por conta disso, desenhistas como Ross Andru fizeram parte da empresa.

Team-Up terminou servindo como um tipo de vitrine para personagens mais obscuros e um veículo para lançar visibilidade sobre novos personagens, revistas etc. Por isso, Morbius apareceu para ganhar aventuras próprias na linha de revistas adultas em preto e branco da Marvel e dava-se satisfação sobre os X-Men, que tiveram sua revista cancelada em 1970, ao mesmo tempo em que anunciavam uma trama para o Fera, que ganharia aventuras solo em Amazing Adventures. Após três edições menos apelativas com Visão, Coisa e Thor; o número 08 trazia a Gata – que estreara há pouco tempo e mais tarde assumiria o nome de Felina – passando em uma aventura contra Kang, o Conquistador, nas edições seguintes ao lado de Homem de Ferro e o Tocha Humana novamente; e assim, sucessivamente.

Enquanto MTU iniciava sua longa carreira de publicação, Amazing Spider-Man entrava em uma fase totalmente nova mas ainda mantendo enredos já criados anteriormente e dicionando novas tramas, como as mortes de Gwen Stacy e Norman Osborn, o novo vilão Chacal, entre outros acontecimentos.

Além disso, também teve a criação das revistas Giant-Size, que eram publicações maiores, com mais páginas e formato maior (magazine) destinadas, como antes, a grandes histórias. Elas não seriam anuais, mas quadrimestrais. A primeira edição trouxe uma batalha do Homem-Aranha contra o Drácula, a estrela da revista The Tomb of Dracula, publicada em magazine e um grande sucesso entre o público adulto. A trama foi escrita por Len Wein (que cuidava de MTU) e desenhada por Ross Andru, com capa de John Romita. Já a segunda, trouxe um team-up com Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu.

Alguns anos depois, o que pode ser considerada a terceira fase das HQs do Homem-Aranha, traz o casamento do personagem, a época de maior sucesso comercial, uma grave crise criativa em meados dos anos 1990, um período de reinvenção, de polêmicas decisões editoriais e um novo começo.

O casamento do Homem-Aranha foi um evento bombástico em 1987 e foi o principal fruto da tal reformulação editorial. Curiosamente, o evento teve sua origem em uma disputa entre as revistas regulares do personagem e uma nova série de tiras de jornal escritas pelo próprio Stan Lee, o criador do Homem-Aranha. Nos jornais, Lee planejou uma história em que Peter Parker iria se casar com Mary Jane e, ao saber disso, o Editor-Chefe Jim Shooter decidiu que tal fato não podia ocorrer primeiro nos jornais e só depois nas revistas do cânone oficial.

Então, às pressas, foi produzida uma história que mostrasse o enlace matrimonial do casal, após as consequências do arco de Michelinie e Romita Jr. Assim, Peter e MJ se casaram nas escadarias da biblioteca nacional, com Harry Osborn e Flash Thompson como padrinhos em Amazing Spider-Man Annual 21, de 1987, escrita por Jim Shooter e David Michelinie e desenhada por Paul Ryan.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Enquanto ocorria o casamento, para não criar choques cronológicos, a Marvel ocupou todas as três revistas do Homem-Aranha com a publicação de um arco de histórias chamado Simetria Temível, escrito por J.M. DeMatteis e desenhado por Mike Zeck, alternando-se entre Web of Spider-Man 31 e 32Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 131 e 132 Amazing Spider-Man 293 e 294.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

A revista Peter Parker perdeu o “nome real” do personagem e passou a se chamar oficialmente apenas The Spectacular Spider-Man. Peter David escreveu um arco em quatro partes que trouxe o retorno e a morte do Devorador de Pecados, o vilão que criou.

A história de conteúdo excelente foi o marco de dois eventos: por um lado marcou o retorno do desenhista Sal Buscema às revistas do Homem-Aranha. Seu traço expressivo de linhas retas e quadradas voltou a abrilhantar o universo do cabeça de teia. Por outro, foi a despedida de Peter David. O editor Jim Owsley conseguiu com que David fosse demitido sob a alegação de que seu trabalho estava “abaixo do padrão” do Homem-Aranha, e é no mínimo curioso que Spectacular era, naquela altura, a melhor revista do personagem.

Há anos, quando ainda escrevia Web of Spider-Man, David Michelinie planejava criar um novo vilão baseado no uniforme negro e no alienígena simbionte. Agora no comando de Amazing Spider-Man, o escritor decidiu por em prática suas ideias. O arco em que desenvolveu isso, entre os números 298 e 300, de 1988, também trouxeram um novo desenhista: Todd McFarlane.

Michelinie e McFarlane criaram uma história em que um repórter do Globo Diário encontrava o uniforme simbionte (que todos pensavam ter sido destruído) e se tornava um monstro chamado Venom. O alienígena queria se vingar de Peter Parker por tê-lo abandonado e Eddie Brock também nutria ódio pelo Homem-Aranha. Seu motivo era uma “história retroativa” que Michelinie criou dentro do famoso arco A Morte de Jean DeWolff, de Peter David: em sua investigação, Brock pensava ter descoberto a identidade secreta do Devorador de Pecados, mas quando o Homem-Aranha prendeu Stanley Carter arruinou a carreira do jornalista.

No plano editorial, a Marvel passava por transformações. Após 10 anos de uma gestão muito polêmica, o Editor-Chefe Jim Shooter foi afastado do cargo e substituído por Tom DeFalco. Este continuou escrevendo as histórias do Thor (e eventualmente dos Vingadores) e deu bastante atenção ao Homem-Aranha. Além disso, a gestão de DeFalco impôs um ritmo de muita interligação entre as revistas e não raro eventos de que uma se transferiam para outra, como no caso dos três títulos do Homem-Aranha (Amazing, Spectacular e Web). Iniciava-se a Era dos Crossovers, o que inicialmente deu certo e aumentou bastante as vendas.

Conforme a trama foi ganhando novos desdobramentos, participações especiais e algumas revistas diferentes, por fim, só sobrou Amazing Spider-Man, que se tornou o único título a trazer o Homem-Aranha dentro de sua continuidade regular e passou a ser uma revista com três edições mensais.

Quanto ao conteúdo, muito embora os leitores – especialmente os mais antigos – tenham reclamado das mudanças e da maneira como foram realizadas, todos concordam que a qualidade da revista melhorou muito, com histórias mais concisas, autocentradas e resgatando o velho humor do personagem, tão caro à fase de Stan Lee no passado. Novos inimigos, novos coadjuvantes e novas situações – como Osborn no poder – também foram campo fértil para boas histórias.

Em janeiro de 2011, a partir da edição 648, a revista passou a ser publicada duas vezes ao mês, mantendo Dan Slott como o escritor fixo. O autor veio fazendo vários arcos, como Big Times, desenhado pelo mexicano Humberto Ramos, que apresenta um novo Duende Macabro na figura de Phil Urich, sobrinho de Ben Urich, que passa a agir como mercenário para o Rei do Crime. Nesse conto, o Homem-Aranha usa vários uniformes diferentes, de cores reluzentes.

Vale lembrar que no começo dos anos 2000 a Marvel percebeu que era necessário criar um novo selo de histórias onde os seus heróis mais clássicos pudessem ganhar novas versões, para se adequar a uma nova geração de fãs que estava encantada com os filmes que eram lançados na época. Foi assim que surgiu Ultimate Homem-Aranha, o quadrinho que deu o pontapé inicial em todo o Universo Ultimate.

[Imagem: Reprodução/Marvel Comics]

Nela é possível ver um Peter Parker muito mais “pé-no-chão” e atualizado para o novo século, com vilões peculiares e um elenco coadjuvante que saiu diretamente das HQs clássicas, mas todos repaginados. O melhor de tudo é que, ao menos no início, o Universo Ultimate tinha a proposta de trazer consequências reais em suas histórias, o que faz com que a história do Peter desse universo tenha um início, meio e fim. E por falar no fim, a Morte de Peter Parker está entre os arcos mais bonitos, honrosos e inteligentes dos quadrinhos da Marvel – sem contar que deu início ao legado icônico de outro herói.

Miles Morales, criado como o substituto de Parker, ele tem uma ligação direta com a morte do herói e começou a desenvolver seus próprios poderes, enquanto aprendeu que qualquer um poderia ser o Homem-Aranha, desde que mantivesse a luta de Peter contra o mal e, acima de tudo, fosse uma inspiração para milhares de pessoas.

E ainda que tenha sido visto com maus olhos pelos fãs da época, Miles logo se tornou uma das figuras mais incríveis e espetaculares já criadas pela Marvel – tanto é que ganhou sua própria adaptação para os cinemas em Homem-Aranha no Aranhaverso. Ele se tornou não apenas um herói marcante, mas um símbolo para milhões de fãs, além de ter dado o pontapé para a criação do aranhaverso com a criação de dezenas de versões do herói.

Essa fase inicial durou pouco tempo, mas é bem interessante para conhecermos um herói diferente e original, que ainda assim segue à risca o legado de Peter Parker. Criado por Brian Michael Bendis (que também havia criado o Ultimate “original”) e Sara Pichelli, esse novo super-herói trouxe muitas coisas positivas para o Universo Marvel e conquistando os fãs que querem ter uma nova perspectiva sobre um dos personagens mais clássicos de todos os tempos.

Principais Easter Eggs e acontecimentos

ALERTA DE SPOILER

[GIF: Reprodução/Giphy]

Sem Volta Para Casa possui vários easter eggs, que são uma marca registrada das obras da Marvel Studios. O filme começa em Nova York logo depois dos eventos de Longe de Casa – quando a vida de Peter Parker é virada de ponta-cabeça com a revelação de sua identidade secreta para o mundo. E já no começo, temos um easter quando ele e MJ estão fugindo da multidão na Times Square.

É possível ver um grande outdoor com um anúncio de Rogers: The Musical – a peça da Broadway que conta um pouco da vida do Capitão América e sua relação com os Vingadores. Recentemente, passou um pouco do musical no primeiro episódio de Gavião Arqueiro.

Quando a identidade de Peter é exposta, ele logo começa a ser caçado e as consequências disso levam à chegada do Departamento de Controle de Danos, um órgão governamental que começa a investigar e interrogar não apenas Peter, mas também seus amigos e sua Tia May.

Para quem não se lembra, o Controle de Danos é uma peça fundamental na franquia do Homem-Aranha no MCU, já que eles apareceram desde o primeiro filme da saga, De Volta ao Lar, para limpar os estragos feitos pelos Vingadores durante a Batalha de Nova York.

Quando as coisas se tornam insustentáveis na casa de Parker, por conta da perseguição dos paparazzi e do público, ele acaba se mudando para um apartamento de Happy Hogan, junto de May. O local é mais seguro e equipado com várias coisas criadas por Tony Stark.

Entre elas, DUM-E, o “robô burro” que Tony criou em seus filmes e que o auxiliava a construir alguns protótipos de armas e armaduras. Ele aparece bem pouco e está ali mais como um easter-egg para os fãs do Homem de Ferro.

Quando o feitiço do Doutor Estranho dá errado, ele não só não apaga as lembranças sobre a identidade secreta do Homem-Aranha, como também traz outras pessoas de outros universos que sabem que Parker é o herói. E entre os vilões, temos: Duende Verde vivido por Willem Dafoe, o vilão de Homem-Aranha, 2002; Doutor Octopus vivido por Alfred Molina, o vilão de Homem-Aranha 2, 2004; Homem-Areia vivido por Thomas Haden Church, o vilão de Homem-Aranha 3, 2007; O Lagarto vivido por Rhys Ifans, o vilão de O Espetacular Homem-Aranha, 2012; E o Electro vivido por Jamie Foxx, o vilão de O Espetacular Homem-Aranha 2, 2014. Então não aparece o Sexteto Sinistro, como muitos acreditavam, já que o filme só apresenta apenas cinco vilões.

O filme acaba trazendo alguns novos visuais para os vilões clássicos. O exemplo perfeito disso é o Electro, que consegue “controlar” melhor sua energia e acaba voltando à forma humana, ainda que bem diferente do que antes – e em dado momento, alguns raios formam seu traje clássico das HQs. Outro que também passa por uma mudança de visual é o Duende Verde, que abandona a armadura de Homem-Aranha e passa a usar um visual mais “civil”. Porém, com tons de verde e roxo, em referência às cores do traje clássico do vilão nos quadrinhos.

O momento mais dramático e emocional do longa acontece quando May Parker morre devido à explosão de uma bomba do Duende. Só que antes de falecer, ela diz a icônica frase: “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”.

Essa frase é muito mais fiel ao discurso original de Tio Ben na HQ de Lee e Ditko (“with great power there must also come great responsibility“), além de sedimentar de vez May como o “Tio Ben” dessa franquia, dando o mote para uma verdadeira origem desse Peter Parker.

[GIF: Reprodução/Giphy]

Enquanto MJ e Ned Leeds procuram pelo Homem-Aranha, os dois acabam se deparando com uma versão bem diferente do herói. Como todos já esperavam, se trata do Peter Parker vivido por Andrew Garfield, que protagonizou a franquia O Espetacular Homem-Aranha. Inclusive, ele chega a contar um pouco de como foi sua vida após a morte de Gwen Stacy, e como ele se tornou mais violento e vingativo.

E depois de trazerem de volta o Peter do Andrew, MJ e Ned também se deparam com outra versão do Aranha – dessa vez, o Peter Parker vivido por Tobey Maguire, que conhecemos da trilogia original de filmes de Sam Raimi. Ele já está bem mais velho e mais experiente e, de acordo com o que diz, ele e Mary Jane Watson conseguiram “fazer funcionar” todo o seu relacionamento, mesmo com todas as atribulações apresentadas nos filmes originais.

[Vídeo: Reprodução/TikTok @svfih]

Por outro lado, a dinâmica dos três Homens-Aranha é bem divertida e até rende momentos espetaculares. Um deles acontece quando Ned chama “Peter Parker” e os três respondem sem saber de qual se trata, ainda que o menino faça o melhor para se explicar. Nessa cena, alguns fãs percebem que há momentos em que os Aranhas se olham e apontam um para o outro. Seja isso intencional ou não, parece muito com o clássico meme que já circula na internet há anos do desenho do Homem-Aranha, que mostra dois amigos da vizinhança se encarando.

[Imagem: Reprodução/Marvel]

Por ser um filme ambientado no Universo Cinematográfico da Marvel, as citações e easter-eggs aos Vingadores não podiam faltar. Em uma cena, Peter do Tom conta para Andrew e Tobey que ele já fez parte dos Vingadores – o problema é que nenhum deles sabe o que isso significa. Ele tenta se explicar dizendo que são os “Heróis Mais Poderosos…”, mas não consegue completar a frase. Provavelmente ele queria dizer “Os Heróis Mais Poderosos da Terra“, o nome que sempre é usado nas HQs e animações para se referir à equipe.

Além disso, Tobey proporciona uma cena engraçada durante a preparação para a batalha final, onde ele fala que sente dor nas costas. Esse é um breve aceno a um problema real que quase tirou o ator da sequência de Homem-Aranha. Na época, Jake Gyllenhaal chegou a ser cotado para substituir o ator na sequência.

Ao descobrir que o Homem-Aranha de Maguire solta teias orgânicas, os outros dois Peters questionam os limites deste poder. A versão de Garfield pergunta se seu irmão interdimensional nunca teve problemas de falta de teia. Maguire responde que sim, lembrando do arco de Homem-Aranha 2 em que seus problemas psicológicos afetaram seu corpo, transformando-o temporariamente em uma pessoa “normal”.

Outra teoria que já estava começando a ganhar força desde que o segundo trailer foi lançado é que Peter do Andrew salvaria MJ da queda que é provocada por um colapso na estrutura da Estátua da Liberdade. E é exatamente isso o que acontece. A cena serve quase como uma redenção psicológica para ele, por conta da morte de Gwen. Tanto que, quando eles pousam, MJ percebe que Peter está quase chorando, tendo flashbacks da morte de sua namorada.

[Vídeo: Reprodução/TikTok @slsmacedo]

O fim do filme também traz uma nova mudança de ares para o Aranha. Pela primeira vez em anos, ele recomeça sua carreira e não terá mais um traje tecnológico criado por Tony Stark para auxiliá-lo. Por isso, podemos ver que ele mesmo cria um novo uniforme.

O traje é visto bem brevemente no take final do filme e parece bem fiel à sua versão clássica dos quadrinhos. Contudo, existem alguns detalhes mais “brilhantes”, como as partes azuis – e isso até lembra um pouco a roupa que ele criou na época que estava à frente de sua própria empresa, nas HQs.

[Imagem: Reprodução/Marvel]

O futuro de Peter Parker e do MCU

Ao longo dos meses que antecederam o lançamento de Homem-Aranha, muito se perguntava sobre como os eventos do longa iriam impactar o futuro do Universo Cinematográfico da Marvel. Todos imaginavam que a história iria mexer com o multiverso e trazer personagens de outras realidades, mas a grande questão eram as consequências que viriam em seguida.

Agora que o filme finalmente chegou aos cinemas, as respostas sobre o futuro do MCU começam a se desenhar. Embora a sua conclusão deixe tudo em aberto para o que está por vir tanto para o super-herói quanto para o restante dos heróis à sua volta, alguns pontos importantes apresentados indicam algumas reviravoltas importantes que devemos ver nos próximos lançamentos da Marvel.

A principal questão deixada no final do filme é que o feitiço usado pelo Doutor Estranho para resolver a invasão de vilões de outras realidades não fez as pessoas esquecerem que Peter Parker era o Homem-Aranha, mas apagou completamente a existência do garoto da mente de todo o mundo. Assim, com um estalar de dedos, o rapaz passou a ser um indigente, sem lenço, sem documento e sem que ninguém tivesse a menor ideia de quem ele é. Isso fica bem claro tanto na cena com MJ quanto em seu diálogo com Happy. Para eles, Parker é um desconhecido, um aleatório qualquer.

[Vídeo: Reprodução/Giphy]

Ao mesmo tempo, é importante destacar que o Homem-Aranha ainda é um herói que o público conhece. Logo após a batalha final, J. J. Jameson reaparece atacando novamente o super-herói em seu programa, mas sem comentar nada sobre sua identidade. É como se a pessoa jurídica do herói ainda fosse lembrada por todos, mas a pessoa física foi completamente esquecida. Em linhas gerais, é uma versão muito mais radical do feitiço que Peter tinha pedido ao Mago.

Esse final um tanto quanto melancólico é definidor para o futuro do personagem e do MCU. Por um lado, coloca Peter Parker na estaca zero de sua história como todos conhecem nos quadrinhos: sozinho, pobre e tendo que recomeçar sua vida – a heróica e a pessoal. É como se tivessem apertado um reset ou um reboot. E isso pode ser explorado de duas formas: a primeira é se destacando de vez do MCU e seguindo apenas dentro do universo Sony. A história toda caminha nesse sentido e dá a entender que a ideia é, a partir de agora, deixá-lo menos atrelado à Marvel. Sem uniforme tecnológico e sem conexão com os Vingadores, ele passa a ser autossuficiente de um modo que até então não tinha sido visto. Só que Peter ainda existe dentro daquela realidade, mesmo que ninguém se lembre dele, ainda está no mundo que sofreu com o ataque de Thanos e que idolatra o Capitão América e o Homem de Ferro.

Assim, se o acordo entre as empresas continuar e o personagem permanecer no universo, será possível ver um novo tipo de jornada para esse Peter mais experiente e ciente das responsabilidades que acompanham a vida de herói. Além disso, em um primeiro momento, a ideia de que todo o mundo esqueceu quem é o Homem-Aranha soa como uma grande revolução dentro da história Marvel, mas isso deve trazer poucas consequências reais para os próximos filmes. O amigo da vizinhança sempre atuou mais como um coadjuvante dos Vingadores e a sua identidade estava muito mais ligada à amizade que ele tinha com Tony Stark, do que algo fundamental para o restante do universo, o que faz com que esse reset acabe não atrapalhando em muita coisa.

E como todo filme da Marvel que se preze, o longa contém cenas pós-créditos que falam sobre o que está por vir. A primeira foca no Venom de Tom Hardy, que muito se especulou sobre sua presença no novo filme da franquia, após a cena pós-crédito de Tempo de Carnificina. Nela, o anti-herói é transportado para uma outra realidade, aparecendo em um quarto de hotel, onde vê o noticiário expondo a identidade do Homem-Aranha, que aconteceu em Longe de Casa e na abertura dessa terceira obra.

[Imagem: Divulgação/Marvel]

Em Sem Volta Para Casa, o personagem Eddie Brock nunca saiu de seu resort no México. Pelo contrário, ele está se atualizando sobre tudo o que aconteceu no Universo Cinematográfico com a ajuda de um bartender. Ele mal consegue acreditar que esse mundo tem um homem com armadura de lata, Homem de Ferro, e um monstro verde chamado Hulk. O trabalhador ainda conta para o portador de Venom como Thanos causou o blip com “algumas pedras mágicas”.

Quando Brock decide que precisa ir para Nova York conversar com o Homem-Aranha, a magia final de Doutor Estranho faz efeito e ele é transportado de volta para sua realidade – para o desespero do bartender, pois ele sumiu sem pagar a conta. Porém, por trás de uma cena engraçada, é possível ver um pedaço de simbionte se movendo no balcão do bar, indicando que uma versão de Venom pode aparecer no MCU.

A segunda cena pós-crédito é um teaser do próximo lançamento da franquia, Doutor Estranho: No Multiverso da Loucura. Nele, são repetidas as frases de Strange em Sem Volta para Casa, sobre como sabemos pouco do conceito de Multiverso, onde as linhas de espaço e tempo são instáveis. Paralelamente, Mordo também diz como as ações irresponsáveis com magia não serão esquecidas.

O momento mais aguardado é o encontro de Wanda Maximoff com Doutor Estranho. Ela diz que esperava por ele e confessa que machucou pessoas, mas o feiticeiro não está lá para falar dos acontecimentos de WandaVision, mas sim pedir sua ajuda. Depois, Wanda aparece com o clássico uniforme de Feiticeira Escarlate.

[Imagem: Reprodução/Legião dos Heróis]

Outros trechos mostram as presenças de Wong e a novata America Chavez, além de um inimigo clássico de Strange: Shuma Gorath. Mais uma cena de luta contra Mordo aparece, onde ele afirma que o maior perigo do universo é o próprio personagem. No fim, Doutor Estranho acaba encontrando uma versão alternativa de si mesmo, o Doutor Estranho Supremo – visto nos episódios de What If…?. No desenho da Marvel, uma versão do herói utilizou magia de maneira irresponsável para salvar a vida de Christine, voltando no tempo diversas vezes e quebrando as regras, e como resultado, destruindo seu universo.

Além disso, esse terceiro filme de Homem-Aranha confirma a volta do Demolidor. Matt Murdock aparece como o advogado de Peter no começo do filme e que ele já tem todas as habilidades do Homem Sem Medo, uma vez que conseguiu segurar um tijolo jogado contra Parker com extrema facilidade. Embora ainda seja interpretado por Charlie Cox, não quer dizer que o Demolidor de Sem Volta Para Casa é o mesmo do universo da Netflix.

Havia uma teoria que dizia que o mesmo feitiço que levou os vilões e os demais Homens-Aranhas para o MCU também iria levar os heróis da Netflix. Contudo, é explicado que somente aqueles que conhecem a identidade secreta de Parker é que foram puxados pela magia, o que deixaria Murdock de fora. Além disso, ele está totalmente integrado com aquela realidade, seguindo sua vida de advogado e sem estranhar ter parado em uma Nova York que não é a sua. Isso significa que ele sempre existiu naquele mundo, só que nunca tinha sido visto até então.

Essa leitura faz ainda mais sentido com o quinto episódio de Gavião Arqueiro, que revelou que o Rei do Crime também segue em atividade no MCU, comandando o submundo da cidade como sempre visto nos quadrinhos. Caso ele tivesse vindo de uma realidade diferente – ‘netflixverso’ – jamais seria esse líder que Clint Barton tanto fala.

[Imagem: Reprodução/Netflix]

Essa conclusão abre duas frentes que devem ser consideradas para o futuro. A primeira é que nem Murdock e nem Wilson Fisk desaparecem com o feitiço final de Strange, ou seja, eles continuam existindo dentro do universo Marvel e prontos para serem usados em histórias futuras. Tanto que a aposta é que o Rei do Crime esteja em Eco e o Demolidor em She-Hulk.

Outro ponto, é a inclusão dos demais personagens do ‘netflixverso’ a partir do momento que é dito que esse Murdock existe, implica em imaginar variantes do Justiceiro, Jessica Jones, Luke Cage e até do Punho de Ferro – que aparece em Shang-Chi – em que a franquia pode trazê-los de volta a qualquer momento. E quando se fala de outra realidade, é possível mudar o ator e dizer que a mesma origem das séries seguem válidas e que apenas uma ou outra coisa mudou.

A verdade é que, assim como o futuro de Peter Parker, os próximos passos da Marvel diante das revelações feitas em Sem Volta para Casa são desconhecidos, mas cheios de possibilidades, e somente os próximos lançamentos devem explicar o que vem por aí.

Incrível mundo Marvel

A estreia de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa realizou o encontro de três gerações do herói, o que ocasiona um debate de “quem seria o melhor?”. Essa não é uma pergunta fácil e já foi alvo de muita discórdia entre o público nerd, uma vez que não há consenso em relação ao tema. Quem defende Tobey Maguire é acusado de ser saudosista e que, por isso, ignora as várias mudanças feitas na época. Já os fãs de Tom Holland têm que ouvir que essa versão sem tio Ben tem vários problemas no conceito do que é o herói, enquanto o pobre do Andrew Garfield acaba ofuscado pelos péssimos roteiros de seus filmes.

E ao mesmo tempo em que todas essas críticas são reais, não há como ignorar os acertos que cada uma das encarnações do Homem-Aranha teve. Seja em termos de personalidade, uniforme ou mesmo o arco do herói como um todo, cada uma das três versões do escalador de paredes entregou uma faceta diferente do personagem que agradou mais ou menos determinado tipo de fã.

Isso porque, na verdade, não existe uma versão definitiva do Homem-Aranha nem nos quadrinhos, muito menos no cinema. Como ele é um personagem, tudo vai depender de como o roteiro vai trabalhá-lo, como o artista vai imaginar seu visual ou mesmo seu estado de espírito quando acompanhou aquela história. Por isso, é virtualmente impossível cravar que esse ou aquele é a melhor encarnação do herói e ponto final.

Antes de existir um Homem-Aranha, é preciso que exista um Peter Parker e isso é fundamental para a construção da persona do herói, e nesse ponto, já há uma grande divisão de opinião entre os fãs, muito por causa de uma questão geracional. Tobey Maguire encarna uma versão bem tradicional do personagem, enquanto as duas encarnações mais modernas atualizam bastante o conceito. Assim, dependendo do tipo de leitor, isso vai impacta diretamente o tipo de Parker que espera ver no cinema.

[Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Dessa forma, nem vale a pena entrar no mérito se o herói precisa ser o nerd estereotipado ou uma versão mais descolada. O que realmente importa na questão do melhor Peter Parker se resume a frase icônica, e nesse sentido, a versão de Tobey Maguire ainda é a que se sai melhor nesse quesito. Isso porque deixa sempre claro o peso que é ser o amigão da vizinhança, de modo que vestir aquele uniforme é quase um sacrifício que ele faz em prol desse bem maior.

Mais do que saber dos riscos que a atividade heróica pode trazer para a vida de quem ama, ele não se importa com as consequências que isso traz para a sua própria vida. Ele se prejudica em relacionamento, no trabalho e com a família porque sabe que precisa fazer algo pela cidade, que somente o Homem-Aranha é capaz de fazer. É um samaritano puro.

E as versões de Andrew Garfield e Tom Holland pecam em alguns pontos cruciais nesse sentido. Os problemas enfrentados pelo Peter Parker do MCU, por exemplo, foram causados pelo próprio personagem, seja tentando impressionar Tony Stark para entrar nos Vingadores ou entregando a tecnologia Stark para o Mysterio. Isso sem falar que ele literalmente diz pra Nick Fury que ele preferia não salvar o mundo porque estava de férias e estava focado em dar uns beijos na MJ.

Já o Parker de Garfield tenta modernizar de forma errada o jeito do personagem. Nada contra ele ser mais descolado e com essa pegada dos gibis Ultimate, mas a ideia da responsabilidade que vem com os poderes vai embora quando ele se torna o bully e usa suas habilidades para sacanear quem zombava dele no passado. Nesse ponto, Tobey Maguire realmente sai ganhando.

Quando Peter veste o uniforme, a coisa muda de figura. Não que ele deixe a responsabilidade de lado, mas é porque há outros fatores que devem ser levados em conta na persona do herói. Exemplo disso é que o Homem-Aranha precisa ser muito bem-humorado, nunca calando a boca e sempre fazendo piadinha e tirando sarro dos vilões enquanto se pendura de um canto para o outro.

[Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Isso é importante porque representa uma característica que é pouco explorada nos roteiros, mas que volta e meia é citada nos quadrinhos e que deixa o herói muito mais humano. Segundo o próprio Aranha, a língua solta durante a ação é uma forma de controlar o nervosismo. Ele sabe que enfrentar um homem vestido de rinoceronte ou um maluco voando com fantasia de Halloween e soltando bombas pra todos os lados não é tarefa fácil, então falar e tirar sarro é a sua forma de quebrar a tensão e assumir as rédeas da situação.

E, nesse ponto, Tobey Maguire fica devendo. Ele é bem mais quieto e carrega demais o peso dramático da responsabilidade ou mesmo de estar enfrentando o pai de seu melhor amigo, o que faz com que sobre pouco espaço para esse Homem-Aranha linguarudo que brinca com o oponente. Os filmes até ensaiam algumas tiradinhas aqui e ali, mas nada muito significativo.

Por outro lado, Garfield e Holland fazem isso muito bem, de modo que é quase um empate técnico entre os dois. Só que, como o objetivo não é ficar em cima do muro, a versão do MCU é quem leva o ponto justamente pelos roteiros saberem usar muito bem o universo já construído dos filmes para fazer com que essas piadas e sacadinhas ganhem conotações e camadas muito mais divertidas. A participação do Homem-Aranha de Holland na batalha do aeroporto em Capitão América: Guerra Civil é impagável até hoje, com ele tendo um treco diante de cada oponente, elogiando seus adversários e irritando todo mundo com seu jeito tagarela.

[Imagem: Reprodução/Marvel Studios]

Se tem uma coisa que o leitor de quadrinhos adora é discutir uniforme. Há um quê de estilista em todo fã, que sempre vai dar pitaco se o visual do seu herói favorito está de acordo e, no caso do cinema, se ele funciona em cena ao mesmo tempo em que respeita suas origens nos gibis. E, com o Homem-Aranha, isso é ainda mais presente.

Ao longo de seus oito filmes, o amigo da vizinhança já mexeu no guarda-roupa diversas vezes, mas nenhum dos trajes usados supera o que Andrew Garfield vestiu em O Espetacular Homem-Aranha 2. Enquanto o uniforme que o ator colocou em seu primeiro longa era uma atrocidade, a segunda versão voltou para os designs clássicos das HQs de um jeito incrível. Embora a textura ainda seja estranha, o traje lembra muito o que Steve Ditko apresentou no design original do personagem, com pitadas de outros artistas com passagens icônicas pelo Homem-Aranha, como John Romita Sr., John Byrne e Todd McFarlane. É impossível não se sentir diante de um gibi ao ver o Aranha com aqueles olhões brancos e o traje vermelho e azul.

[Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Tom Holland também merece destaque aqui com duas versões em específico. O uniforme de sua estreia no MCU, com o vermelho e azul clássico e os olhos mecânicos são bem charmosos, assim como o uniforme rubro-negro de Longe de Casa, que lembra muito o design que ele tem nos quadrinhos quando era desenhado por John Romita Jr. Só que o fato de o traje depender tanto de tecnologia tira muito da graça daquilo que faz o Homem-Aranha tão divertido: as suas habilidades. Já no caso de Tobey Maguire, o traje clássico funciona muito bem e tem conexões bem diretas com as versões dos quadrinhos. O problema é que aquele excesso de relevo nas teias mais atrapalha do que ajuda nesse sentido.

Para analisar a jornada de cada personagem nos cinemas, não se trata apenas de dizer qual versão do herói teve os melhores filmes, mas qual a combinação de Peter Parker, Homem-Aranha e traje funciona com a história que é apresentada em tela. Isso é importante porque cada encarnação do herói tem os seus méritos, assim como os seus próprios problemas. No caso de Andrew Garfield, por exemplo, não há como ignorar que ele funciona muito bem como o herói e que ver a sua relação com Gwen Stacy é uma das coisas mais gostosas de toda a série. Isso sem falar que ele sente na pele o sacrifício que é ser o Homem-Aranha.

[Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

No entanto, ele sofre muito com um roteiro bastante questionável e cheio de decisões erradas, como os pais espiões e aquele Duende Verde lamentável. Isso sem falar que o segundo longa, A Ameaça de Electro, parte para um caricato que é totalmente anacrônico. Ele tenta ser cartunesco na construção do vilão, mas esse estilo já não funcionava mais em 2014 e tudo só ficou ruim. Já o queridinho do momento, Tom Holland, segue muito bem a cartilha do herói e traz uma encarnação muito divertida e que remete muito ao espírito descompromissado dos quadrinhos. O único porém é que, na tentativa de desassociar-se de seus antecessores, ele se esquece daquilo que norteia a sua vida heróica: a ideia de que grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Por mais repetitivo que isso soe, essa ideia é crucial para o personagem e motiva todas as suas decisões a partir do momento que ele assume a identidade de Homem-Aranha. Assim, termos um Parker que está mais preocupado em curtir as férias com a namorada do que ajudar os outros é algo que assusta os fãs mais puristas, assim como o fato de que esse Peter está sempre buscando algum tipo de figura paterna para se espelhar, sendo que o seu modelo moral sempre deveria ter sido o tio Ben. É por essa razão que, apesar de todos os pontos e com muitos asteriscos, a versão do Homem-Aranha de Tobey Maguire, para muitos é a que melhor funciona até hoje. Ele é o que mais se encaixa dentro da essência do herói nos quadrinhos e que melhor respeita a mitologia do personagem.

Porém, Sem Volta Para Casa é um grande lembrete das consequências que os heróis tem ao sair do anonimato. Desde o início do MCU, sempre foi passada aquela visão colorida da vida de ser um herói por dentro dos Vingadores, a qual, todos os idolatravam e queriam ser como eles. Nesse sentido, o longa traz esse lado e mostra que ser um herói público não é, exatamente, um jardim de flores. Ter a sua identidade revelada trouxe muitos mais impactos negativos para a vida de Peter do que ele poderia prever. Desse modo, o que mais pesa para o super-herói é ver como a vida das pessoas que ele ama simplesmente é devastada pelo peso que a sua convivência traz.

Ao decorrer do filme, podemos ver a questão “o que é ser um herói?” ser colocada em pauta. Em Homem-Aranha 3, esse conceito vai muito além de salvar vidas, sendo muito bem trabalhado dentro da exibição, o que leva Parker ao extremo diante de grandes sacrifícios e perdas. Nas duas entradas anteriores do Tom Holland, é possível ver que por mais que ele enfrentasse dificuldades, nada o colocou suficientemente à prova de se autoquestionar dos seus princípios de ser um herói. Os acontecimentos dessa obra não facilitam para o querido amigo da vizinhança, o que o deixa à mostra de tudo o que acredita, exibindo a verdadeira essência do que é ser o Homem-Aranha, e faz jus a famosa frase pertencente a franquia.

[GIF: Reprodução/Giphy]

Nos primeiros filmes solos estreando Holland, é possível ver que mesmo que haja questões pessoais, não foram feitas da mesma forma como nesse novo longa. A nova parcela trouxe um lado sentimental e emocional que, por mais que os espectadores se contenham, é possível sentir a dor pelo outro lado da tela ao analisar as principais questões em jogo. Sendo assim, pode-se descrever os dois primeiros filmes como um caminho que mostra onde Peter acertou e olhar as suas melhores qualidades. Entretanto, já em Sem Volta Para Casa, se observa o pontapé definitivo para o desenvolvimento e ancoragem de quem realmente é o Peter Parker sob a pior circunstância possível.

O desenvolvimento do filme começa pelo grande encaixe ao dar espaço suficiente de tela para os outros personagens que deram vida a histórias anteriores. Embora, ao mesmo tempo, deixando Parker à mostra para triunfar o seu protagonismo e explorar diversos detalhes, os quais, se pode esperar. Em prol a remixagem perfeita que foi o equilíbrio estabelecido durante os minutos, a obra foi uma ótima ocasião para explorar lugares nunca avistados antes e os dá a oportunidade de tomarem o seu próprio espaço conforme a trama se desenrola.

O mais novo roteiro funciona como uma incrível coreografia: tudo acontece no seu tempo e em seu momento exato. Mesmo que tenha uma ótima quantidade de eventos acontecendo, sem um espaço entre eles, a trama acaba fluindo de forma natural e espetacular, logo, se assimilando muito a experiência do que foi Vingadores: Ultimato

Além disso, se pode encarar a produção e tudo o que foi levantado anteriormente como uma “conclusão”, pelo menos temporária, a qual não há espaço para criar, apenas o tempo certo para concluir. E como sempre, não pode ficar de fora o bom e velho humor que só a Marvel tem para ser o quebra galho de toda a tensão das cenas. Dessa maneira, há uma formação de um filme um tanto interessante, envolvente e divertido, o qual, os fãs não percebem o tempo passar e acaba chegando ao final com aquela sensação de não querer sair mais da sala do cinema.

Com uma história envolvente e brilhante de ser ver, só resta dizer que Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa é tudo aquilo que todos estavam esperando e um pouco mais, a nível de produção e enredo. Com cenas muito bem desenvolvidas em quesito de ação, um roteiro muito bem escrito, momentos surpreendentes, além de um toque de humor, a fórmula mágica do que é ser um filme que deixa todos sem palavras, de um modo bom.

Ressoando cenas duras de serem vistas, esse filme traz a melancolia e emoção em um conjunto que, de algum jeito, fazem sentido juntos. Com isso, é um grande longa que pode ser visto como uma carta aberta a próximas produções da franquia, seja para explorar ainda a sua história restante ou para deixar um legado e tanto ao mundo, e assim, finalizar o que fora começado a partir de uma reflexão de um novo recomeço. E com isso, a grande questão que fica é: algum dia teremos outro filme a nível de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa?

[CRÍTICA] Encanto, o 60º filme da Disney é completamente latino

A nova animação da Disney acaba de chegar às telinhas do cinema. Encanto (2021) é um musical da Walt Disney Animation Studios, dirigido por Byron Howard (Zootopia, 2016, e Bolt: O Supercão, 2001) e Jared Bush (Penn Zero: Quase Zero, 2014, e Moana, 2016). O elenco de peso chama atenção pelos nomes, sendo composto dentre eles pela Stephanie Beatriz (Brooklyn Nine Nine, 2013), Carolina Gaitan (Sin Senos Si Hay Paraíso 2016), Wilmer Valderrama (That’s 70’s Show, 1998), Diane Guerrero (Orange Is The New Black, 2013), e John Leguizamo (O Justiceiro das Trevas, 1997).

A história emocionante e que abraça o telespectador, acontece em uma pequena vila escondida nas montanhas da Colômbia. É apresentado a história da família Madrigal, liderados pela Abuela Alma (voz da María Cecilia Botero, El que se enamora pierde de 2019) e todos vivem juntos em uma casa mágica. Cada membro foi concedido a um dom diferente, exceto a protagonista Mirabel, por conta disso, todo dia ela quer provar a sua prestabilidade dando o seu melhor a qualquer custo, isso para não se sentir tão excluída, por ser a única da família sem poder.

Mirabel ganha o público adulto a partir desse ponto, de uma forma muito leve, tratando o assunto de como não se comparar a outras pessoas e não se diminuir por ser diferente. Principalmente na relação familiar, onde tende-se a comparar os irmãos e a nossa protagonista passa por isso, por exemplo sua irmã Luísa (voz dada por Jessica Darrow) que tem como dom a superforça ou a Isabela (Diane Guerrero) denominada a “Senhorita Perfeita” com seu poder de fazer as flores surgirem, remetendo as princesas clássicas da Disney, como a Branca de Neve.

Suas duas irmãs apresentam características totalmente diferentes entre elas, tanto na feminilidade, poderes, gostos, como na forma de se vestir e Mirabel luta para não se comparar ou deixar que a comparação feita pelo resto de sua família a afete de uma forma negativa. 

É a primeira vez que a Disney coloca 12 personagens principais a serem trabalhados no mesmo filme, no caso toda a Família Madrigal, entretanto, não foram todos que receberam uma música exclusiva ou tiveram um bom desenvolvimento, o que acaba sendo um grande descaso por parte da empresa do rato. Ainda sim, representa bem uma família latina, o convívio, multigeracional e as brigas entre eles. Assim como Voldemort de Harry Potter, o Tio Bruno também não pode ser nomeado ou lembrado, isso porque foi banido da casa.

O filme é uma das primeiras narrativas ambientada na América Latina e Mirabel é a primeira princesa latina (vale lembrar que a Elena de Avalor é considerada princesa apenas do Disney Channel, porém não foi oficializada). Esse é o principal diferencial de Encanto, a expansão do universo latino que a Disney está abraçando em seus projetos. Em entrevista a Splash, John Leguizamo que dá voz ao Tio Bruno, comenta: “Não é apenas um filme que representa a comunidade latina, mas que conversa com toda a gama de cores que nós temos. (…) Tudo está representado no filme e, especificamente, os elementos colombianos. Sabe, temos arepas con queso, o vallenato. Está tudo ali.”

Com seu próximo recurso Encanto, Disney troca pura fantasia por realismo  mágico - TEG6
Foto reprodução: Disney +

A trilha sonora também é de origem latina, o porto-riquenho indicado ao Oscar, Lin Manuel Miranda, autor de grandes peças da Broadway como Hamilton (2015), o novo musical da Netflix Tick Tick… Bom (2021) e encarregado da trilha sonora de Moana, foi responsável pelas oito músicas originais do longa. Diferente de Frozen (2013) que emplacou Let It Go nos charts e marcou o filme, em Encanto a trilha sonora acaba sendo pessoal, a canção principal, que é a de Mirabel, Waiting on a Miracle pode ser comparada a clássica Part Of Your World de A Pequena Sereia (1989).

Mesmo seguindo o ritmo colombiano em suas músicas, quem conhece e escuta a trilha do filme, já percebe o dedo de Lin Manuel, a conexão das letras com os acontecimentos do filme, de uma forma bem descritiva, contextualizada e teatral, além da mistura de pop, rock e as influências do rap, sempre puxando para a raíz colombiana.

Seria uma possível referência a Hamilton? No musical as irmãs Schuyler tem o seu destaque com The Schuyler Sisters além de suas próprias músicas e, não foi diferente com Mirabel, Isabela e Luisa. As três tiveram os melhores números de todo o filme, seja na música ou seja no cenário, chamando a atenção do público e com certeza, tornando-se uma das melhores cenas.

Pôster reprodução Disney +
Pôster reprodução Disney +

Quando o assunto é cenário, ainda mais em animação, a Disney sabe muito bem como reproduzir. A casa mágica que acaba se assemelhando aos objetos mágicos de A Bela e a Fera (1991), tem muitas cores e detalhes, todos relacionados a cultura, fauna e flora, tradições, no povo, em toda raiz colombiana. 

A casa é a protagonista principal, o filme é centrado nos cômodos, quartos, salas, cozinha ou do quintal, mas é o lugar principal onde é ambientado a história. Por conta disso, cada espaço mostra um pouco da personalidade de cada membro da família, a caracterização do cenário é muito única, peculiar e mágica, não só agradando como também traz conforto para os telespectadores. 

Diretores de 'Encanto' falam sobre princesa brasileira
Foto reprodução: Disney +

Para alguns o figurino pode ser considerado o típico estereótipo latino, com as saias longas e estampadas, poncho, muitas cores e blusas ombro a ombro. Pelo filme não ter um contexto histórico definido, é possível ver nas roupas a busca e a preocupação que os diretores e a Disney tiveram em trazer ao público as tradições colombianas, vestindo cada personagem com peças mais clássicas da cultura.

Encanto, como diz o próprio nome, encanta quem assiste. O longa ensina uma moral, como uma típica animação e te mantém atento a todo segundo, fora os Madrigal que acolhem e fazem sentir parte da família, como um dos primos. O 60º filme da Disney provou ser totalmente latino, não só pela história mas pelos próprios dubladores, o que promete abrir portas para uma nova etapa, agora a espera são novas produções com heranças latinas ganhando o devido destaque na indústria.

Assista o trailer do filme a seguir:

[Crítica] Noite Passada em Soho: a grande ambição de Edgar Wright

ALERTA DE SPOILER

O novo terror psicológico de Edgar Wright estreou em outubro nos Estados Unidos, e desde então colecionou críticas mistas. Na última quinta-feira (18), o filme chegou aos cinemas brasileiros e marcou sua estreia como um dos mais antecipados do ano entre os amantes do gênero. Com um elenco estrelado pela favorita do ano Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha), Thomasin McKenzie (Jojo Rabbit) e Matt Smith (The Crown), Noite Passada em Soho apresenta um show de cores e psicodelia para quem assiste.

Ambientado entre duas épocas, o longa segue Eloise Turner (Thomasin McKenzie), uma jovem tímida do interior da Inglaterra que se muda para Londres a fim de estudar moda na London College of Arts. Lá, ela encontra dificuldades em se encaixar e logo adentra um mundo de alucinações quando se muda para um quitinete alugado pela Sra. Collins (Diana Rigg). Em seus sonhos, Eloise conhece Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora nos anos 1960, que procura Jack (Matt Smith) para ser seu agente, até que as coisas vão para um mau caminho.

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

O filme tem um roteiro que procura alcançar várias tonalidades, e temas como saúde mental, traumas e assédio sexual são abordados em meio a um cenário colorido e ilustrado pelas ruas de Londres. Desde o começo conhecemos Eloise como uma garota sonhadora e inocente, que mora com a avó e lida com o falecimento de sua mãe. É comentado já no início que Eloise é sensitiva e capaz de ver imagens de sua mãe, a qual também tinha problemas mentais que levaram à sua morte, e é essa habilidade que carrega o filme todo.

Após sentir-se hostilizada na república de estudantes, Eloise procura um quarto para alugar na rua Goodge 8, onde é apresentada Sandie, personagem que Eloise acompanha nas ruas londrinas dos anos 1960. Toda vez que Eloise dorme, ela viaja ao passado e se encanta pela cantora, que costumava dormir no mesmo quarto na casa da Sra. Collins. A personagem de Anya Taylor-Joy é, assim como a atriz, cativante e impossível de tirar os olhos. 

Com um figurino impecável e fiel à época, não há como não se deixar levar pela visão romantizada de um cenário tão vivo no imaginário atual. A efervescência cultural de Londres, o Swinging Sixties e a promessa de sucesso de uma nova era é o mood ditado por Wright nas sequências do passado. É irônico como é essa mesma romantização da época, sob a perspectiva da protagonista Eloise, é aos poucos quebrada à medida que ela conhece mais Sandie e Jack. 

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

A cada vez que Eloise dorme, a vontade de passar mais tempo no passado aumenta. Porém, logo ela descobre as dificuldades que Sandie enfrenta no show business londrino, regado à prostituição e homens predadores. Jack torna-se, então, o vilão da história. Aqui, Edgar Wright mostra uma das suas maiores intenções: o verdadeiro perigo são os homens da vida de Sandie. Quão longe ela iria para conquistar seus sonhos? Quanto ela sacrificaria? O antagonista Jack – brilhantemente atuado por Matt Smith que, sem dificuldade, passa o ar assustador necessário – pressiona Sandie a prostituir-se, até ela perder sua essência. 

Enquanto isso, Eloise começa a ficar cada vez mais instável e tenta salvar Sandie a todo custo. Essa talvez seja a parte mais emocionante do filme, quando a realidade se mistura com alucinações da vida passada. A expectativa de saber o que aconteceu com Sandie cresce a cada minuto e é ilustrada pelos incríveis efeitos especiais do filme. 

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

Os vilões, homens que abusaram sexualmente de Sandie, vão aterrorizando diariamente Eloise, que começa uma investigação para encontrar Jack na vida real. E é aqui que o filme decai em qualidade de roteiro. O que antes era uma busca psicológica e instigante, vira uma confusão mal trabalhada. As visões dos abusadores são impactantes no começo, mas depois viram apenas um jumpscare. Além disso, à medida que Eloise perde sua sanidade mental, o ritmo acelera e atropela a história. 

Apesar de um crescimento fantástico, o roteiro peca na busca de Eloise por Jack, que poderia ter sido trabalhada de uma forma melhor. Ela confunde Jack por Lindsay, um personagem que foi brevemente introduzido no passado e precisava de mais tempo de tela para criar um impacto maior no espectador quando a confusão é explicada. Assim como Lindsay, John (amigo de Eloise), cativa e promete ser um dos melhores personagens do longa, mas não é aprofundado e seu relacionamento com a protagonista acaba sendo raso.

Wright, entretanto, consegue camuflar essas pequenas falhas com um show de efeitos especiais e cores incríveis, fazendo com que mal se preste atenção nisso.  A fotografia é, com certeza, o quesito mais digno de premiação em Noite Passada em Soho, junto das atuações (em especial da novata Thomasin McKenzie).

Imagem: Reprodução/PARISA TAGHIZADEH

O maior erro do filme, algo que nem a estética salvou, foi o final. O foco de repente vira a Sra. Collins, que revela ser Sandie, ou seu nome real: Alexandra Collins. O roteiro tenta convencer que Sandie é a verdadeira vilã, que assassinou os homens que tentaram estuprá-la e os escondeu debaixo do piso da casa. Apesar de uma sequência visual interessante, é mais do que decepcionante o jeito com que Eloise descobre a verdade sobre a Sra. Collins e entende o que realmente aconteceu.

Collins simplesmente entrega em uma conversa a resolução do filme todo e muda a narrativa inicial, aliada a uma cena desconcertante onde os homens mortos pedem ajuda à Eloise, como se indicassem ser as reais vítimas do filme. É estranha a forma que Wright termina o longa, pois passou mais da metade do filme mostrando a misoginia e a realidade das mulheres no show business, só para colocar uma das protagonistas como uma assassina fria. 

Não existe a sensação de descobrir aos poucos o que realmente aconteceu, porque isso foi explicado palavra por palavra. Sandie, que recebeu tanta profundidade, agora é Alexandra Collins, uma mulher traumatizada em sua juventude que não recebe a mesma profundidade na velhice. 

O que era um filme sobre um medo extremamente real de mulheres do mundo todo, termina de forma agridoce. Edgar Wright, mais uma vez, conquista uma narrativa estética brilhante, como é visto em Baby Driver (2017) e Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010). É admirável a ambição de Noite Passada em Soho, que apesar dos pesares, consegue lidar com saúde mental e traumas ligados à abuso sexual de forma interessante e – até certo ponto – respeitosa às suas importâncias. 

É definitivamente um filme para a lista de filmes que é necessário assistir para criar a própria opinião, mas ainda é uma experiência divertida e de agarrar o assento. Noite Passada em Soho é um dos melhores filmes do ano até agora e, com certeza, uma razão para ir aos cinemas.

Veja o trailer abaixo:

[CRÍTICA] ‘30’: O comeback de Adele

Mesmo sem lançar nada desde 2016, Adele está maior e melhor do que nunca. Com um dos álbuns mais esperados dos últimos tempos, 30 chegou ontem (19) e já quebrou recordes, ao se tornar o primeiro disco feminino a atingir o topo na Apple Music em 120 países, a 6ª maior estreia por um álbum feminino na história do Spotify e está no Top 11 da Apple Music dos EUA e Top 13 do Spotify EUA com todas as faixas.

Inicialmente era para ser lançado em Setembro de 2020, porém foi adiado devido a pandemia do COVID-19. Assim, esse ano as divulgações começaram de maneira misteriosa. O número 30 foi visto em projeções pelo mundo e especulações de um novo álbum da cantora surgiram.

Em Outubro, Adele lançou o single Easy On Me, a música que conseguiu o primeiro lugar 109 países, a primeira a fazer isso na história da Apple Music, e divulgou oficialmente o 30 com uma carta aberta onde conta que começou a escrevê-lo em 2018 quando passava por momentos difíceis e turbulentos, como seus amigos a ajudaram a passar por essas dificuldades e que se sente finalmente pronta para lançar esse álbum.

Além disso, esse mês, Adele continuou as divulgações com photoshoots e particões em eventos e entrevistas. Seu especial da CBS Adele: One Night Only, onde conversou com Oprah Winfrey, cantou seus maiores hits e 3 músicas novas, foi o programa de entretenimento mais assistido do canal com quase 10 milhões de telespectadores. Hoje (20), fez uma permance no NRJ Music Awards e amanhã (21) está previsto outro especial, o An Audience With Adele, onde também cantará mais músicas do novo álbum. Algumas das maiores celebridades do momento mostram seu apoio e amor pela cantora na plateia de ambos os eventos.

Em entrevista para a Apple Music, ela confessa que este é o seu “álbum mais pessoal e sensível até o momento”, é uma maneira de explicar seu divorcio com o empresário Simon Konecki para o filho do casal, a terceira faixa My Little Love, é uma das mais íntimas e abertas, ela representa claramente isso ao incorporar alguns clipes dela conversando com o menino de nove anos sobre o rompimento. Em um momento ela até considerou não lançar o álbum, mas foi muito importante na sua vida nos últimos anos e que “quando sair, será a última porta se fechando naquele capítulo da minha vida”.

A primeira música Strangers By Nature, co-produzida pelo compositor de cinema Ludwig Göransson, passa um ar de filme e mostra o que esperar do resto da coletânea. Adele se arriscou nesse álbum, não somente pelas composições vulneráveis e honestas, mas também pelos novos ritmos e estilos explorados nele. As canções do meio como Cry Your Heart Out, Oh My GodCan I Get It e o interlude All Night Parking com Errol Garner, possuem ritmos mais animados e diferentes do que costumamos ouvir da cantora, mas ainda passam sua essencia e funcionam muito bem. 

Confessa a revista The Face “Eu só queria reconhecer todas as minhas muitas camadas, o que eu acho que definitivamente é algo que vem com a idade. Obviamente, depois de um grande momento de vida, como meu divórcio, é bom experimentar um pouco mais com inspirações ecléticas. Eu queria, mais do que tudo, apenas me confortar. Não era realmente sobre o que eu queria dizer às pessoas . Era mais como:“ O que eu preciso ouvir para mim, liricamente?”

I Drink Wine, uma das favoritas dos fãs, foi descrita por Adele em sua entrevista para a revista Rolling Stone, como “uma canção sobre como se livrar do ego, com um toque de Elton John e Bernie Taupin dos anos setenta”. Também revelou que a faixa originalmente teria mais de 15 minutos e a gravadora pediu para que alguns cortes fossem feitos e a duração fosse menor. “[A gravadora] estava tipo, ‘Ouça, todo mundo te ama, mas ninguém toca uma música de 15 minutos no rádio’”. Agora com o sucesso de Taylor Swift com a versão de 10 minutos de All Too Well, os provou errado e só podemos imaginar como seria ela inteira.

Adele por Simon Emmett [Imagem: Reprodução/ Twitter]

“Eu sinto que este álbum é uma autodestruição, depois uma autorreflexão e depois uma espécie de autorredenção” Adele disse à Vogue Britânica. Ela assume a responsabilidade pela separação, Não houve brigas, gritos, infidelidades, diz ela, apenas uma lenta percepção de que “realmente não estava feliz”. 

Woman Like Me é mais direta, ela repreende seu ex por ser complacente, preguiçoso e inseguro, e desperdiçar o potencial de seu relacionamento, mas  fala também sobre ela mesma, e seu caminho para se encontrar. E Hold On, acompanhada por um coral, continua na sua jornada de autoconhecimento e críticas a si mesma. 

To Be Loved, é uma faixa muito emotiva e profunda, tem sete minutos de duração apenas do piano do co-escritor e produtor Tobias Jesso Jr e de Adele, além da potência dos vocais da cantora e contou com um vídeo caseiro. A última música Love Is A Game, é o encerramento perfeito do álbum. Junta os elementos de canções anteriores e conclui toda a narrativa trabalhada no “30”. 

Adele, nunca decepciona e trouxe novamente um álbum impecavel, aclamado pelos críticos, com a pontuação de 91 no Metacritic. A cantora consegue usar seus piores momentos e transformá-los em arte, compartilha seus sentimentos e emoções de maneira pura, capaz de fazer você chorar sobre um divórcio mesmo sem nunca ter se casado. Ela prova que é uma das maiores vozes da nossa geração e continua maior do que nunca. 

Adele no estúdio [Imagem: Reprodução/ Twitter]

[Crítica] Eternos: o hate é justificável?

Eternos chegou aos cinemas na última semana (04) como o primeiro filme de um grupo de super-heróis a se reunir depois de Vingadores: Ultimato nessa Fase 4.

Normalmente os filmes do incrível universo cinematográfico Marvel possuem uma grande força nos lançamento, mas a obra bateu um recorde negativo: recebeu o primeiro “B” no CinemaScore, site que regista dados de pesquisa de audiência nos cinemas. No Rotten Tomatoes, conhecido por compilar opiniões de diversos críticos, o novo épico da MCU também não teve uma boa performance. Atualmente, o filme possui 49% de aprovação, número mais baixo do estúdio até hoje. Apesar disso, conseguiu ser a segunda maior estreia entre as bilheterias globais nos cinemas na era da pandemia, superando até mesmo Viúva Negra e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis.

Interpretados por Angelina Jolie, Salma Hayek, Barry Keoghan, Gemma Chan, Richard Madden, Ma Dong-seok, Kumail Nanjiani, Lauren Ridloff, Brian Tyree Henry e Lia McHugh, são uma poderosa raça de seres imortais criados por deuses cósmicos, Celestiais, que os colocaram na Terra como um experimento de avanço tecnológico de uma cultura primitiva, moldando parte da história e das civilizações enquanto enfrentavam os Deviantes, principais inimigos.

A história nas HQs

A história dos Eternos começou nos anos de 1970, quando Jack Kirby deixou a Marvel Comics para trabalhar na DC Comics. O autor tinha como ideia criar uma nova franquia que não estivesse atrelada aos tradicionais heróis da editora. Então, ele produziu os Novos Deuses, que mostram uma casta de seres imortais extremamente poderosos — inclusive Darkseid faz parte deles. Contudo, essa saga ficou incompleta quando Kirby retornou para a Marvel, e a trama foi incorporada ao Universo DC.

Em meados de 1970, Kirby utilizou alguns dos conceitos que havia idealizado em Novos Deuses para criar os Eternos, com uma proposta semelhante de franquia descolada da cronologia tradicional do Universo Marvel. A edição Eternals #1 foi lançado em 1976, com o autor introduzindo os deuses cósmicos Celestiais, que visitaram a Terra há um milhão de anos e fizeram experimentos com os ancestrais, que mais tarde formariam a raça humana.

Já em 1980, os roteiristas Roy Thomas e Mark Gruenwald aproveitaram a criação de Kirby e terminaram algumas linhas de narrativa inacabadas em Eternals na revista do Thor, indo da edição #283 até #301. A saga mostra o Deus do Trovão lutando contra os Eternos, Celestiais e os Deviantes, e a partir disso, eles começaram a ser incorporados à cronologia do MCU, ainda que de uma forma tímida e um tanto desconexa.

Cinco anos depois, 1985, a Marvel resolveu reposicionar os Eternos como parte definitiva da criação do Universo Marvel, com uma minissérie de 12 edições desenvolvidas por Peter B. Gillis e Sal Buscema. Já havia algumas amarrações com os heróis tradicionais e um especial lançado em 2000 fez uma conexão dos Eternos com os X-Men e o vilão Apocalypse.

Após essas histórias, os Eternos chegaram a aparecer em um reboot (reinício) na frente de publicações adultas Marvel MAX. Porém sua maior importância na história do MCU foi em 2006, quando Neil Gaiman escreveu uma minissérie com 7 edições sobre a equipe.

O quadrinho, com arte de John Romita Jr, faz o que todas as outras histórias dos Eternos haviam tentando até aquele momento, mas não conseguiram fazer por completo: integrar a equipe de vez ao Universo Marvel, definindo melhor o papel de cada integrante do grupo, assim como sua função de proteção evolutiva sem interferência no progresso da humanidade.

Os Eternos ganhou mais uma série limitada, de nove edições, em 2008 e 2009 por Charles e Daniel Knauf. Agora, em 2021, foi divulgado um novo título, com autoria de Kieron Gillen, que combina tudo o que aconteceu no passado e encaixa definitivamente a franquia na cronologia do MCU, com direito a elementos diretamente conectados a versão que está nos cinemas.

Deuses e Lendas representados por cada Eterno

O universo cinematográfico da Marvel já usou da mitologia em alguns de seus filmes, como em Thor, que são reinterpretações diretas dos mitos nórdicos. Thor, Odin, Loki, Hel — também conhecido como Hela — e o resto, todos entram no MCU. Os deuses da mitologia inspiram os Eternos, e criam eles em seu próprio mundo ficcional. Na maioria dos casos, a correlação entre uma figura mitológica e um Eterno parece óbvia, mas em outros, a conexão é mais turva.

Thena, interpretada por Angelina Jolie, é baseada na Atenas da mitologia grega. Nos quadrinhos, Thena é filha de Zuras, líder dos Eternos da Terra. Zuras e Thena se parecem com Atenas e seu pai, Zeus. Isso significa que Thena costuma ser confundida com a deusa Atenas, mas elas não são a mesma pessoa no mundo dos quadrinhos.

Na mitologia grega, Atenas é a deusa da sabedoria e da guerra. Nasceu do crânio de Zeus e portanto, possui conhecimento ilimitado. Embora possa ser agressiva, também governa sobre a paz e o artesanato. A personagem Thena é uma combatente feroz com uma mente militar brilhante.

Ikaris, interpretado por Richard Madden, é baseado em Ícaro, também da mitologia grega. Ícaro não era um deus, mas uma figura mítica. Na história, ele é mais conhecido por voar muito perto do sol, e é filho de um famoso inventor, Dédalo, que construiu o labirinto que abrigava o monstruoso Minotauro de Creta.

O rei de Creta não queria que ninguém soubesse como seu labirinto funcionava, então ele aprisionou Dédalo e Ícaro em uma torre. Mas o artesão genial projetou uma saída, construindo asas para si mesmo e Ícaro para que eles pudessem escapar. Essas asas eram mantidas juntas por cera. Notoriamente, Dédalo avisa Ícaro para não voar muito alto e nem muito baixo, já que poderiam derreter com o calor do sol ou ficarem úmidas, tornando-as inúteis.

Como alguns mitos, este é um conto de moralidade, para que uma pessoa não seja muito arrogante e complacente. Infelizmente, Ícaro sucumbe à arrogância, voando muito perto do sol, fazendo com que suas asas derretam e o façam cair para a morte.

Ikaris é conhecido por ser um excelente aviador que pode reorganizar moléculas de outras substâncias. Em certo sentido, isso também se encaixa porque o ápice da história de Ícaro acontece quando o sol reorganiza as moléculas de suas asas.

Sersi, interpretada por Gemma Chan, é baseada em Circe da mitologia grega. Em Eternos, ela tem uma forte conexão com a humanidade. Além disso, ela e Ikaris são almas gêmeas e seu relacionamento se estende por séculos.

Na mitologia, Circe é uma feiticeira poderosa, que por meio de uma combinação de magia e drogas, transforma humanos em animais. Quando o herói Odisseu encontra o caminho para sua ilha, ela transforma seus homens em porcos, mas Odisseu, protegido por um presente de Hermes, permanece imune. Ele a desafia a devolver seus homens, Circe o faz e, impressionada com Odisseu, o convida para ficar em sua ilha. Eles passam um ano juntos. Além disso, as duas são as mesmas nos quadrinhos.

Phastos, interpretado por Brian Tyree Henry, é baseado em Hefesto da mitologia grega. Na história, Hefesto é o deus da forja, o que faz sentido com o filme, porque Phastos é um grande inventor dos Eternos. As criações de Hefesto são elogiadas em todo o mito, forjando muitas armas, como o escudo de Aquiles e também esculpe a primeira mulher humana.

Makkari, interpretada por Lauren Ridloff, é baseada em Mercúrio da mitologia romana. Embora Makkari tenha a imortalidade padrão de um Eterno, a personagem também possui velocidade sobre-humana, sendo a mais rápida que existe. Além disso, pode pensar sobrenaturalmente rápido, permitindo que leia e processe informações rapidamente.

Este impulso de rapidez faz muito sentido quando se trata de Mercúrio, o deus dos viajantes e mercadores. Ele é associado a Hermes da mitologia grega, um deus conhecido por ter pés rápidos. As sandálias aladas de Hermes são icônicas. Mercúrio também atua como uma ponte entre deuses e mortais, muitas vezes servindo como uma espécie de mediador.

Gilgamesh, interpretado por Ma Dong-seok, é baseado na mitologia suméria. O Épico de Gilgamesh é um poema antigo da Mesopotâmia gravado na língua acadiana e existe como uma das primeiras peças da literatura nos registros. O poema apresenta o semideus Gilgamesh, rei da cidade-estado mesopotâmica de Uruk, como uma parte mortal e parte divino. Embora ele busque a imortalidade, nunca a obtém, e em vez disso, consegue uma compreensão do significado da vida.

A Epopeia de Gilgamesh conta uma história de amizade. Quando ele se torna muito arrogante, os deuses criam Enkidu como seu rival. Enkidu representa o mundo natural, enquanto Gilgamesh representa a ordem da sociedade. Os dois inicialmente brigam, mas se tornam amigos. Embora não haja nenhuma palavra sobre um irmão épico para o personagem em Eternos, seria interessante se isso fosse explorado.

Ajak, interpretada por Salma Hayek, é baseada no Ajax da mitologia grega. Ele também não é um deus, mas sim um ser humano excepcional. A força e bravura de Ajax lhe valeram muito renome, ficando atrás apenas de Aquiles. Nos quadrinhos, ele é arqueólogo, homem e um lutador.

Druig, interpretado por Barry Keoghan, não tem uma contraparte clara na mitologia. Nos quadrinhos, Druig vem das regiões eslavas, mas nenhumas das divindades parecem se alinhar com ele. Além disso, se especializou em manipular a realidade e gosta de voar usando plataformas de fogo ou terra que ele mesmo gera. Essa conexão elementar pode ter relação na origem mitológica dos druidas, afinal, seu nome lembra a palavra. Druidas são sacerdotes celtas conectados ao mundo natural, e embora sejam geralmente pacíficos, em certos mitos, eles eram vistos mais como feiticeiros.

Sprite, interpretada por Lia McHugh, tem uma conexão mais difusa com a mitologia do que outros Eternos. Existiu muitos sprites em toda a mitologia europeia. Como as definições mais amplas, eles são elfos ou fadas, e muitas vezes são envolvidos com travessura.

Como os sprites da mitologia, Sprite dos Eternos tem mais poder do que parece. Embora ela tenha vivido por séculos, continua presa à aparência de uma criança de 12 anos. Sprites folclóricos costumam agir infantilmente, e nos quadrinhos, esse era o caso a personagem. No entanto, no filme, a situação tem uma reviravolta, a mente dela envelhece, mas o corpo não.

Kingo, interpretado por Kumail Nanjiani, não tem uma associação mitológica aparente, mas pode ser baseado em Kingu da mitologia babilônica. De acordo com o mito, a mãe de Kingu, uma deusa, deu a Kingu a Placa dos Destinos, que ele usava como uma couraça e que lhe deu grande poder. Mais tarde, foi morto, mas os deuses usaram seu sangue para criar os primeiros humanos. O personagem compartilha das mesmas habilidades na luta e ambos parecem desejar um certo nível de poder.

Easter Eggs e referências

Além de todos os paralelos estabelecidos entre os heróis e figuras místicas, também há referências à Bíblia. Como a semelhança dos sete dias que eles têm para salvar a Terra com os sete dias que Deus precisou para criar o mundo, o que também aparece em forma de piadas. Sem saber como resolver o conflito com os Celestiais, a personagem Sprite chega a dizer: “O que vocês sugerem fazer? Separar todo mundo em casais e embarcar numa arca gigantesca?”.

No filme, quando há o reencontro da equipe no Domo (a nave deles) vários artefatos históricos aparecem, principalmente porque Makkari é uma colecionadora dessas peças. Pode-se reparar no Excalibur, espada do Rei Arthur; Tábua Esmeralda, um dos textos mais antigos relacionados à alquimia; e também o Santo Graal, cálice supostamente usado por Jesus Cristo na Última Ceia.

[Imagem: Reprodução/Marvel Studios]

Eternos também deixa um questionamento de qual época se passa na linha temporal no MCU, e o produtor Nate Moore, da Marvel Studios, afirmou em entrevista à revista Empire Magazine que ocorre no mesmo período de Homem Aranha: Longe de Casa, com o mundo se recuperando do ataque do Thanos e do retorno de metade da população mundial.

A obra faz menções diretas e indiretas à guerra contra ele. Primeiro, ocorre um diálogo entre Sersi e Dane Whitman logo após o professor descobrir que sua namorada é, na verdade, uma Eterna. Whitman não entende porque a equipe de heróis não interferiu no conflito contra o Titã Louco, ao que ela responde com uma das regras primordiais que eles receberam dos Celestiais: interferir apenas nos conflitos entre humanos e Deviantes.

Embora não seja mencionado nos filmes, nas HQs Thanos é um Eterno com uma condição chamada de Síndrome Deviante, ou seja, uma mutação no seu DNA que o concedeu algumas semelhanças com os Deviantes. Inclusive, esta é a razão pela qual ele não parece um humano como os demais da sua espécie.

O outro momento em que o vilão é mencionado está mais ao final do filme, quando Ajak conta para Ikaris o prazo que eles possuem para salvar a humanidade. Para a líder do grupo, o fato das pessoas terem conseguido reverter o cenário com um estalar de dedos é um motivo para que eles lutem pelos humanos.

[Imagem: Reprodução/Marvel Studios]

Também há, ao menos, duas menções aos personagens da DC. A primeira foi revelada em um dos trailers do filme, quando Sersi e Ikaris visitam a família de Phastos pela primeira vez, e o filho do Eterno compara o herói da Marvel ao Superman: “Você estava com capa e soltando laser pelos olhos”.

Chloé Zhao, diretora do longa-metragem, afirmou em entrevista ao ComicBook, que o Homem de Aço é um ser mitológico e que se responsabiliza por esse diálogo: “Em todo tipo de cultura há uma versão do Super-Homem. As pessoas que criaram o personagem dos quadrinhos, e os cineastas brilhantes que o trouxeram para a tela, estão fazendo uma interpretação moderna dessa mitologia”.

A outra ocorre quando parte da equipe vai até Thena e Gilgamesh. Diante do ajudante pessoal do Kingo, Karun (Harish Patel), Gilgamesh o chama de Alfred, mordomo do Bruce Wayne.

Além disso, o tio com quem Dane Whitman está brigado no início de Eternos é também um easter egg. Essa misteriosa figura é ninguém mais, ninguém menos que Nathan Gerrett, um dos personagens que já assumiu o título de Cavaleiro Negro nas HQs. Essa menção é importante porque, ao que tudo indica, o filme lança o professor em uma história de origem para tomar justamente esse posto. Primeiro, ele ganha de Sersi o anel com a insígnia da sua família e, na cena pós-crédito, herda de Garrett a Espada de Ebano, ambos acessórios do Cavaleiro Negro.

Whitman não está sozinho quando descobre a Espada de Ebano: uma voz misteriosa o questiona “você tem certeza disso, Sr. Whitman?”. Embora sua figura não seja revelada na cena, sabe-se que se trata de Blade, que ganhará um filme, possivelmente em 2022, estrelado por Mahershala Ali.

[Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

Em outra cena pós-crédito, Marvel mostra uma nova camada à história de Thanos ao apresentar o irmão Eros, com quem o Titã Louco tem uma relação de rivalidade. Interpretado por Harry Styles, o Eterno aparece se oferecendo como um aliado na jornada de Thena, Druig e Makkari para avisar os heróis do universo sobre os reais planos dos Celestiais. Vale pontuar que Eros não está sozinho: ele vem acompanhado de Pip, o troll.

MCU e o mundo da fantasia

Eternos é diferente de tudo que a gigante dos super-heróis já fez, a nova produção dirigida por Zhao aposta tudo em uma carga dramática: desenvolve personagens, expande horizontes, levanta reflexões e traz uma brisa de frescor ao Universo Marvel.

Os fãs da empresa são acostumados a sempre se manterem ligados em seus filmes. Desde a junção dos Vingadores, em 2012, é necessário estar atento aos mínimos detalhes e as junções entre diferentes obras a fim de uma conexão maior. Porém, isso não acontece no longa. Destoa do resto das produções da editora, já que apresenta uma narrativa autoral focada em si mesma, com arcos dramáticos dos seus próprios personagens, o que faz o espectador refletir sobre questões existenciais através da simplicidade de diálogos e contradições.

Com 2 horas e 37 minutos de duração do longa, o roteiro abre espaço para permitir a belíssima atuação de um elenco estrelado e múltiplas combinações de personalidades. Um leque de possibilidades é atingido, contendo desde Angelina Jolie dando vida a uma Thena multifacetada e complexa, lutando contra traumas e transparecendo toda a sua dor até Kumail Nanjiani e Brian Tyree vivendo personagens que transparecem seu lado carismático e cômico, abraçando o espectador e não afastando por completo a sensação de estar vendo um filme da Marvel.

Apesar de toda a excelência dos atores, de longe, quem brilha mais é a coragem do seu roteiro. Após 13 anos de filmes de origem baseados na “fórmula do sucesso Marvel”, Chloe Zháo abre mão de uma narrativa reciclada em um mercado já estabelecido e dá origem ao filme mais autoral desse universo de super-heróis. Com o andamento da obra, é possível entender que não se trata de mais um filme de construção para um universo maior, mas sim de uma obra que trabalha seus personagens, desenvolve ideias e promove a reflexão sobre questões mais profundas do que “o bem contra o mal”. 

[Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

Eternos não é sobre heróis que lutam contra vilões e nem sobre expandir um universo cinematográfico, mas sim uma história bem contada sobre seres que, assim como os humanos, evoluem, se compadecem, são enganados e possuem o direito de se redimir e exercerem seu livre arbítrio.

Ao se aventurar para o drama, a obra abre mão de sequências de ação empolgantes e eletrizantes características da Marvel, dando lugar a diálogos longos carregados de questionamentos e incertezas que, ao final do filme, se traduzem em ações coerentes. Mesmo com a ausência de cenas empolgantes, os poucos embates são pontuais e muito bem executados.

O movimento dos personagens condiz com sua majestosidade e o certo “tom de superioridade”, dando origem a cenas muito bem coreografadas que parecem ter saído diretamente de uma peça de teatro. Portanto, devido a falta de pancadaria e destruição, muitos se frustraram com o tom do filme por apenas não terem recebido o que estavam acostumados a receber de outras produções do estúdio.

Os efeitos especiais das lutas também são muito simplistas e elegantes, tornando-se uma experiência agradável. Além disso, a figurinista Sammy Sheldon Differ, contou em entrevista ao ScreenRant, que trabalhou em conjunto com o grupo responsável por eles para complementar o visual das roupas e como foi esse processo de desenvolver as vestes, que também se diferenciam de tudo o que a Marvel já fez: “A ideia é que eles parecessem orgânicos. Esperamos que, quando os fãs assistirem ao filme, fiquem se perguntando de que tipo de material as roupas são feitas. Não queremos que as pessoas possam dizer: ‘Oh, é uma armadura’, ou ‘oh, é um traje de spandex”.

[Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

Outro ponto a ser mencionado é a representatividade do filme. Sem fazer alarde nenhum na mídia para se vender, a produção apresenta um integrante gay e negro — com direito a um beijo nas telonas e outras cenas de afeto —, três protagonistas asiáticos, uma latina e uma heroína surda afro-latina, tudo no mesmo longa. Não há nenhuma representatividade forçada, todos os acontecimentos se desenvolvem organicamente e muito bem encaixados na história.

Eternos traz a mensagem de esperança na humanidade, na sua evolução e em seu potencial de se unir e se proteger. Eles estão presentes há milhares de anos na Terra, acompanhando a evolução humana, presenciando conflitos, genocídios, guerras, perdas, amor, construções de famílias e todas as emoções que a humanidade é capaz de sentir sem poder interferir. A jornada de autoconhecimento que os personagens percorrem no filme é sobre evolução, livre arbítrio e empatia. Além de aprenderem com os erros e não cometê-los novamente, protegem quem amam simplesmente por sentirem que é o certo a se fazer.

Com uma direção fantástica, roteiro muito caprichado, diálogos precisos e necessários, combates majestosos e pontuais e uma fotografia bonita, Eternos traz o lado mais dramático e humano da Marvel a tona, usando seus personagens como espelhos para os espectadores se permitirem mergulhar nas mais profundas emoções e sentimentos humanos.