O Homem, o Bruxo, o Defunto

Texto por Felipe P. Marcondes

Por que ler Machado de Assis?

Inquieto leitor, pediram-me que tratasse contigo do porquê deverias ler a obra de Joaquim Maria Machado de Assis. Ao final dessas mal traçadas linhas, verás (ao menos é este o meu intento) que a pergunta é bem outra: Como não ler Machado de Assis!? Este espaço, apesar de muito estreito para tamanha matéria, e essas garatujas, embora fugazes demais para dar conta dela satisfatoriamente, podem proporcionar-te não menos que um vislumbre desse autor-abismo e da importância de seus escritos, pois, como diria um efêmero poeta nosso, uma folha bem escrita, ainda que pequena, tem muito valor [1].

I – O Homem

            A vinte um de junho de mil oitocentos e trinta e nove, nascia, no pobre morro do Livramento, em casa de agregados anexa à chácara do cônego Felipe, o franzino, doentio, tímido e gago Joaquim. Era filho de Francisco José de Assis, pintor e dourador, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, lavadeira na casa do senhorio. Aquele, na realidade, à inclinação literária do filho não via com bons olhos, supondo que o ofício de homem das letras conservá-lo-ia na miséria. Sua infância, parte mais nebulosa de sua recatada existência, transcorreu no arruar traquinas com os companheiros de mesma idade. Foi quando começou a ter os primeiros sinais do mal que acompanhá-lo-ia e atormentaria por toda a vida, a epilepsia.

            Ainda bem pequeno, morreu-lhe a mãe. Viúvo, Francisco de Assis casou-se com uma mulata, Maria Inês. Esta, com as poucas letras que possuía, assistia aos estudos do enteado, ensinando-lhe todas as noites, às escondidas de Francisco, aquilo que sabia. Parece ter sido ela quem arranjou que o forneiro imigrante da Madame Gallot (dona de padaria na rua S. Luiz Gonzaga) ensinasse o francês a Joaquim – posteriormente, aprenderia ainda o inglês e o alemão. Frequentou a escola primária, mas após esses parcos primeiros estudos, será autodidata, recorrendo a centros literários e relações ilustradas para lograr conhecimento e livros – tome-se, como exemplo, o Gabinete Português de Leitura e a loja de livros do mulato Francisco de Paula Brito que frequentava assiduamente. Sem empregos fixos, e necessitando conquistar o pão diário após a morte do pai, foi vendedor de balas e sacristão na igreja da Lampadosa (o que é convenção, pois não encontrou-se seu nome nos registros da igreja) até que, aos dezessete anos, tornou-se aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá permaneceu dois anos (1856-1858), sempre lendo pelos cantos, com os bolsos recheados de livros – conduta que, aliás, garantiu-lhe a simpatia e proteção do então diretor da Imprensa, Manoel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias.

            Trabalhador dedicado, foi também caixeiro e revisor de provas da Livraria de Paula Brito (responsável pela publicação de alguns dos primeiros versos de Machado, lançados em sua revista bimensal, a Marmota Fluminense); colaborador e revisor no Correio Mercantil; redator, aos 21 anos (1860), do jornal de seu amigo, Quintino Bocaiúva, Diário do Rio de Janeiro. Neste, passou a produzir crônicas semanais e crítica literária (valendo-se sempre de pseudônimos como Manassés, Eleazar, Dr. Semana, Jó, Gil, etc.) , antes de ser destacado da redação para atuar como representante da folha junto ao Senado – talvez sua produção mais larga seja essa, a das colaborações em jornais e revistas,  e um dos principais motivos da vulgarização de sua obra, haja visto que, levando em conta só o período de sua mocidade, escreveu para quase todos os veículos impressos de então: O Futuro, A Marmota, Diário do Rio, Correio Mercantil, Jornal das Famílias, Semana Ilustrada, Cruzeiro, O Globo, Almanaque Garnier e paro por aqui, pois a lista é extensa. Foi ainda diretor de publicação no Diário Oficial (a partir de abril de 1867), primeiro oficial nomeado para a reformada Secretaria de Agricultura(dezembro de 1873), tornando-se, nesta, Chefe de Seção, por decreto da Princesa Isabel, em dezembro de 1876; oficial de gabinete do Ministro da Agricultura, Buarque de Macedo, em 1880; diretor da Diretoria de Comércio em 1889 (seria dispensado desta em fins de 1897); presidente da Academia Brasileira de Letras em 1896; secretário do Ministro da Viação, S. Vieira, em 1898 e Diretor Geral da Contabilidade do Ministério da Viação em 1902.

            Como se vê, labutou, sem nunca descuidar de sua vocação literária, galgando a melhora de suas condições materiais e os degraus socioeconômicos da sociedade brasileira oitocentista – auxiliado, sem dúvidas, pelo círculo de relações e amizades que cultivou ao longo de toda a vida: dentre vários, citemos Francisco Otaviano, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Joaquim Nabuco e Graça Aranha. Apesar disso, foi modesta sua existência, como modesto era seu temperamento. Repudiando toda publicidade que não dissesse respeito aos seus textos, era avesso à confidências (tomemos sua correspondência como prova: sucinta e objetiva, atenuado um pouco esse modo de escrita ao fim da vida, quando inicia alguma revelação, interrompe-a, ora justificando que não deseja enfadar seu interlocutor, ora suspendendo-a simplesmente) e jamais almejou, quem o diz é o amigo José Veríssimo, que suas humildes condições de origem servissem para realçar-lhe a estima com o público. Exteriormente, como acertadamente pondera Antonio Candido, sua vida não excedeu em sofrimentos aos de toda gente (aos 29 anos já tinha feito um nome como jornalista e havia recebido o Título de cavaleiro da Ordem Rosa), nem aos de seus semelhantes mestiços (que, levadas em consideração as condições dessa realidade histórica, no Império Liberal alcançaram postos representativos). Sua verdadeira luta não era exterior ou estrepitosa, como as polêmicas que lidava com altivez: ela era silenciosa, invisível, interior. Era metido consigo mesmo, com seus livros, refletindo e esculpindo sua arte, com vagarosa paciência, mas continuadamente – Um sonho… As vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século… Sonhos… Sonhos [2].  

II – Bruxo ou Defunto?

            É verdade, sua biografia eram os seus livros, a sua arte era a sua prosápia [3].   A primeira publicação de Machado de que temos notícia, foi o soneto à Dona Petronilha, lançado em 1854 no Periódico dos Pobres, interrompendo-se sua atividade intelectual apenas com a eventualidade de sua morte, em 29 de setembro de 1908. Cinquenta e quatro anos de uma carreira multifacetada que trabalhou a poesia (Crisálidas, 1864; Falenas, 1864; Americanas, 1875; Ocidentais, 1901; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932), a crônica, a crítica literária, a dramaturgia (Hoje Avental, Amanhã Luva, 1860; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; As Forcas Caudinas, 1865/1956; Os Deuses de Casaca, 1866; O bote de rapé, 1878; Tu, só Tu, Puro Amor, 1880; Não Consultes Médico, 1896; Lição de Botânica, 1906), a tradução, a arte do conto (Contos Fluminenses, 1870; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis Avulsos, 1882; Histórias sem data, 1884; Várias histórias, 1896; Páginas Recolhidas, 1899; Relíquias da Casa Velha, 1906; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932) e o romance (Ressurreição, 1872; A mão e a Luva, 1874; Helena, 1876; Iaiá Garcia, 1878; Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881; Casa Velha, 1885; Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esaú e Jacó, 1904; Memorial de Aires, 1908).  

            Não é só multifacetada sua produção, é polissêmica também. Ler Machado de Assis é como jogar uma partida de xadrez (no que, diga-se de passagem, ele era exímio: além de ser o primeiro brasileiro a publicar um problema de xadrez, no primeiro torneio de xadrez disputado em nossa terra, 1880, obteve ele o terceiro lugar): quando parece que essa seguirá um curso natural e esperado, um movimento muda todo o cenário, tornando-se imprevisível. Mestre do humor, narrador que conversa com o leitor, colocando-se entre este e a narrativa, tratou de uma miríade de temas: da graciosidade romântica à vaidade; da traição, da crueldade, da tolice, do cinismo, da insânia, do pessimismo benevolente, do ceticismo e da irônica falta de sentido de nossa existência, da doença que corrói o corpo e subjuga o espírito, dos tipos, costumes e idiossincrasias brasileiras do oitocentos, porém, e sobretudo, tratou da alma humana. Trata a dor e a ilusão com gracejos, ensinando-nos a não levar a vida muito a sério. Nele, a fantasia torna-se verossímil e a realidade é retratada com a acuidade e penetração de observador atento, meticuloso. Tudo isso com uma linguagem prosaica, insinuativa e desabusada; é vernácula e artificiosa sem ser pedante, como que falando ao pé do ouvido do leitor, provocando-o, zombando-o, dissecando-o.

            Quando sua esposa, a portuguesa Carolina, morreu em outubro de 1904, sentia, atesta-o o Soneto à Carolina (1906), que a melhor parte de sua vida acabara, que já era meio defunto – era irmã do editor da revista O Futuro, Xavier de Novaes, que se opôs ao relacionamento dos dois por ser Machado mulato. Companheira fiel, lia para ele jornais e livros quando este teve uma enfermidade nos olhos e passou-lhe para o papel uma narrativa que este ditou à ela durante sua convalescença, eram as Memórias Póstumas. A frágil saúde de Machado foi debilitando-se cada vez mais, ainda assim escreveu e viu seu último livro sair a prelo, o comovente Memorial de Aires – sabia e dizia que seria o derradeiro, estava cansado. Foi, além da epilepsia e da doença dos olhos, acometido por um câncer na língua que atacava também a garganta; sentia dores reumáticas – contudo, não gemia de dor, pois não queria incomodar quem o cercava. Era cuidado com muito zelo pelas amigas da esposa e pelos companheiros que assistiram-no até o leito de morte. Na noite em que expirou, conta Euclides da Cunha em artigo lançado no Jornal do Comércio logo no dia seguinte, que estando reunidos ele e outros amigos do autor na sua casa em Laranjeiras, um garoto desconhecido de cerca de 18 anos bateu, cauteloso, à porta. Não conhecia o mestre, mas havia lido-o, queria vê-lo, pois sabia pelos jornais que seu estado era grave. Foi conduzido ao quarto do doente, e, sem dizer uma palavra sequer, ajoelhou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a e aconchegou-o brevemente ao peito. Saiu sem dizer palavra. Veríssimo perguntou-lhe o nome, era Astrojildo Pereira. No entanto, tem uma segunda e representativa identidade esse garoto, soube-a entrever o próprio Euclides: somos nós, a posteridade.  Machado morreu às 3:45 a.m. do dia 29 de setembro de 1908. Tornara-se autor-defunto. Morreu o homem, vive a obra. Oh, aflito leitor, uma vida e obra inteiras resumidas à essas poucas e pobres palavras… Sinto que cometi um crime! Faça-me um favor, sim? Apanhe essa folha e queime-a.  


[1] Carta de Álvares de Azevedo a Domingos Jacy Monteiro, Rio, 09 de setembro de 1850. In: Álvares de Azevedo – Obra Completa. Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro, 2000.

[2] Tu, só Tu, Puro Amor, 1880, Machado de Assis.

[3] J. Veríssimio, História da Literatura Brasileira, p. 182 (1915).

Destaque

Conheça o artista: Thamires Ribeiro

Texto por: Alexandre Araujo.

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ chega ao fim e apresenta a última artista do projeto universitário carioca em parceria com a revista: Thamires Ribeiro, de 21 anos. 

Nascida em Minas Gerais e atual moradora de São Paulo, a artista é formada em maquiagem profissional. Contudo, as práticas e habilidades não se resumem apenas nisso. Conheça mais sobre a mineira. 

O interesse e admiração por maquiagem vem desde muito cedo, quando ainda era apenas uma criança. Thamires conta que sempre foi fã da cantora Lady Gaga e admirava a forma em que a artista se expressava de forma autêntica e segura de si mesma. “Eu amava todas as suas maquiagens excêntricas e chamativas”. Já atualmente, a inspiração vem de mulheres empoderadas, além de Tom Savini, um famoso maquiador, técnico em efeitos especiais de cinema, ator e cineasta norte-americano.

Como nem tudo são flores, a maquiadora enfrentou diversos desafios ao longo desses anos como profissional. Ela conta que o maior desafio foi no começo da pandemia, em 2020. “Foi um momento muito complexo onde eu enfrentei a síndrome do pânico e recebi meu diagnóstico de transtorno bipolar. Eu não conseguia clientes por não ter condições de trabalhar e, além disso, as clientes não tinham razões para me contratar, já que não tinham eventos durante a pandemia”, contou. 

Em contrapartida a isso, a jovem relatou que mesmo diante às barreiras e dificuldades, percebeu que é capaz de ser uma grande maquiadora. “A maquiagem, pra mim, é a minha forma de me expressar”, completou.

Confira a entrevista com Thamires Ribeiro:

  1. Quem é Thamires Ribeiro?

Sou formada em maquiagem profissional, mas também faço maquiagens artísticas, como a criação de personagens, Drag Queens, maquiagem de terror e sfx (próteses cênicas e efeitos especiais).

  1. Acha que a sua sexualidade interfere ou pode interferir futuramente nos seus planos/carreira? 

Acredito que minha sexualidade interfira em algumas questões. Por ser bissexual, a sociedade leva em conta de que sou apenas uma pessoa “confusa”. Alguns clientes já cancelaram comigo assim que souberam da minha sexualidade. Segundo eles, eu iria dar em cima.

  1. A indústria brasileira da sua área, na sua concepção, vem acolhendo a diversidade?

Acredito que, por ser um trabalho na área da beleza, o acolhimento da diversidade seja um pouco “aceito”, já que existem muitas pessoas LGBTQIAP+ trabalhando na área.

  1. Apesar de todas as circunstâncias, você pretende seguir com a carreira de maquiadora ou existe um plano B profissional?

Eu pretendo continuar com a carreira e tenho objetivos de trabalhar fora do país.

  1. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Não tenha receio de continuar a fazer algo que gosta por medo de não ser aceito. Lembre-se, você se aceitar é um ótimo começo.

  1. Onde podemos conhecer mais sobre o seu trabalho?

No meu instagram, @succubgirl.

[RESENHA] “Conversa Entre Amigos” e os romances modernos

Apesar de Sally Rooney ter ganhado maior notoriedade com Pessoas Normais (2018), especialmente diante da premiada minissérie homônima de 2020, seu primeiro romance foi, na verdade, Conversa Entre Amigos (2017). Com ele, a autora irlandesa iniciou seu processo para o firmamento na literatura jovem moderna ao discutir vínculos interpessoais atravessados por interferências, como as relações de poder e falhas na comunicação. Chegou a ser considerada o fenômeno literário da (última) década pelo jornal britânico The Guardian e se tornou um sucesso editorial por todo o mundo.

Pôster da adaptação de Conversa Entre Amigos para uma minissérie pela Hulu.

O romance de lançamento na ficção de Rooney seleciona um fragmento da vida da jovem Frances, universitária da Trinity College, e recém introduzida na casa dos vinte anos. A obra é narrada em primeira pessoa, o que já mostra sua divergência em relação a Pessoas Normais e a mais recente obra, Belo Mundo, Onde Você Está (2021). A escolha dos narradores, fundamentalmente, influencia na imagem que o leitor constrói dos personagens dos três livros, que nos dois últimos de Rooney podem ser semelhantes, mas que com Conversa Entre Amigos, não.

Publicada no Brasil pela editora Alfaguara e traduzida por Débora Landsberg, a obra recebeu adaptação pela Hulu como uma minissérie de doze episódios — mesmo formato de Normal People. Com direção de Lenny Abrahamson, será protagonizada por Alison Oliver como Frances, Joe Alwyn como Nicki, Sasha Lane como Bobbi, e Jemima Kirke como Melissa. 

Sob os céus de Dublin, a jovem Frances vive sua vida consideravelmente tediosa. Não possui nada que a faça ser extraordinária, muito menos aspirações que a destaquem em relação às outras pessoas. Quando ao lado de Bobbi, sua melhor amiga e ex-namorada, sente-se apagada por sua personalidade subversiva, enérgica e vigorosa em manifestação. São uma espécie não tão característica de opostos, mais ligado à forma como se relacionam consigo mesmas, como indivíduos, e com o restante do mundo.

Após um namoro que não muito se desenvolveu com o fim do ensino médio, as duas terminam, mas continuam amigas. Passam a frequentar a mesma faculdade e dividir o mesmo ofício com apresentações de declamações poéticas juntas em eventos pela cidade. Enquanto Frances se dedica à escrita, Bobbi traz sua presença dramática para as elevar o tom das performances.

É dessa forma que a dupla conhece a fotógrafa e jornalista de 37 anos, Melissa. Uma daquelas mulheres que se evidencia com espontaneidade, sem muito esforço. Tem como aliados apenas seu carisma, talento, elegância e, é claro, um marido troféu, que, nesse caso, é o ator de média fama, Nick Conway, com 32. 

Melissa tem interesse em escrever uma matéria sobre as jovens poetas, então as leva a jantares e comparece às suas apresentações para que possam se conhecer melhor. Frances não gosta tanto de Melissa e sente que é imune aos encantos de seu perfil imponente, apesar de ser o contrário com Bobbi, que é encantada pela mulher. Enquanto isso, por detrás do emparelhamento decorrente dos traços comuns entre as duas e seus flertes, a protagonista se encontra no caráter tímido, com uma nuance de covardia, do marido da jornalista.

Ante um casamento em ruínas, Frances surge quase como o ser celestial pronto para resgatar Nick de si mesmo, de seu passado e da vida infeliz que tem vivido, através da relação extraconjugal construída às escondidas. De certa forma, é uma via de mão dupla, pois a universitária carrega tantos traumas e devaneios melancólicos quanto o ator.

O quarteto protagoniza uma narrativa que isola esse pedaço de suas vidas, ou seja, não se enquadra tão bem no modelo de início-meio-fim clássico. Esse é um padrão de Rooney e não agrada a todos os leitores pela constância em finais considerados “em aberto”. O objetivo não é dar finais amarrados e sim deixar clara a existência de uma vida acontecendo depois da última página. 

Uma coisa sobre a estreia da autora é que ela traz os personagens mais amargos, irritantes, irreverentes e contraditórios, mas que isso ainda não significa que sejam pessoas ruins — apesar do adultério, das mentiras e todo o restante. 

Também é preciso considerar que todos são vistos sob a perspectiva de Frances — que é denunciada como alguém que enxerga aqueles que ama como especiais —, logo, existe uma tendência a se apegar mais aos personagens com os quais ela tem um envolvimento mais harmônico, como Nick e Bobbi. E, por outro lado, desenvolver alguma aspereza ligada à Melissa. Porém, outras coisas colaboram com a ideia de que talvez o perspectivismo de Frances não seja de grande relevância à narrativa, como o fato de ela fantasiar Bobbi com alguma devoção, já que implora para ser desejada e amada por ela, mas a parceira ainda ser uma personagem egocentrada e não tão engajada como imagina.

Ou seja, mesmo que a percepção de Frances sobre Bobbi seja preenchida por idealizações românticas de quem gostaria que ela fosse — e de quem Frances gostaria de ser —, nem por isso ela se torna tragável. Ainda, a carência de simpatia com Melissa, que possui uma personalidade intensamente semelhante a da dupla da protagonista, não é bem recebida pela narradora. Há o envolvimento de diversos fatores, mas além de ser casada com o homem por quem Frances está apaixonada, há, igualmente, o desejo de ter sua estabilidade econômica.

Alison Oliver como Frances em Conversa Entre Amigos (2022) [Imagem: Divulgação]

Os pais de Frances são separados e vivem numa área remota da cidade. O pai a marcou eternamente com o alcoolismo invasivo à sua infância, enquanto a mãe se torna colaboradora até os dias atuais com os pedidos incisivos de que a jovem perdoe o pai. Para a filha, até o uso dessa palavra que remete a algum tipo de afeição exprime um valor que não pode ser atribuído nesse caso. E, não obstante, essa atribulação familiar é fortalecida pela situação financeira delicada, cujo entendimento não alcança nenhuma figura do trio central da obra. A condição de assimilação sobre a classe socioeconômica deixa Frances sempre à margem dos outros, independentemente de qual seja o grau de intimidade pairando entre eles no momento.

Os personagens da autora, adicionando os protagonistas de seus dois outros romances, trazem debates semelhantes sobre o capitalismo e como ele é corrosivo, mas que soam consideravelmente superficiais ao serem usualmente pautadas pelos personagens ricos que são diretamente beneficiados pelo sistema e não buscam mover as engrenagens noutra direção, a não ser deixar que as palavras críticas morram nas conversas de bar. Bobbi é uma delas, mas ainda que Melissa não seja tão sugestiva quando os tópicos surgem, Frances permanece cultivando um ressentimento acumulado à porção de questões externas interferentes nesse todo — pois ela ainda faz parte disso, mesmo que não tome partido. A própria manifesta sua alegação de que talvez o que faça com que Frances realmente não goste dela seja, na verdade, a identificação por serem mulheres que buscam algum poder para suprir a imponência a qual foram infringidas durante a fase de amadurecimento, mas que tal busca por isso em Nick, como um homem que se mostra omisso, vulnerável e conformado, era infundada.

A relação tempestuosa de Nick e Frances é repleta de oscilações. Todo o contexto no qual estão inseridos e a maneira como iniciaram sua história já, objetivamente, mostrava que ela jamais poderia ser linear. A verdade é que, nesse caso, parece que Nick encontra em Frances muito do que passou a sentir falta em Melissa e que Frances encontra em Nick muito do que passou a sentir falta em Bobbi, porém essa falta é reflexo de suas perspectivas pessoais sobre o que querem de alguém, e não necessariamente o que realmente “faltava” em suas parceiras. Mas, por mais que eles deem vida a um amor nascido daquela paixão, prosseguem preservando o mesmo sentimento pelas pessoas com quem estiveram antes. Dessa forma, acabam num impasse que não deveria ser um, pois a narrativa faz o que promete e os guia à pergunta principal: é preciso amar só uma pessoa e se dedicar isoladamente a ela?

Ao todo, Rooney busca abordar os relacionamentos modernos que não se encaixam no modelo tradicional de que o amor deve funcionar de modo restritivo, de caráter possessivo e limitante; no qual esse amor só pode ser depositado numa só pessoa, o que não é o caso, porque Frances ama Nick, mas também ama Bobbi. E, na mesma linha, Nick ama Frances, mas ele também ama Melissa. Os sentimentos existentes entre eles não são enfraquecidos por terem mais de um direcionamento, mas são reanimados e reforçados. Porém, há um caminho para que Nick e Frances compreendam isso; que possam ter alguma percepção ampliada de quem eles podem ser um para o outro e quem podem ser para aqueles que já estavam em suas vidas antes de se conhecerem.

Conversa Entre Amigos, no panorama geral de um romance de estreia, tem a potência necessária para apresentar a voz de Sally Rooney na literatura atual, como foi feito. Embora não supere o ilustre Pessoas Normais — e nem mesmo Belo Mundo, Onde Você Está consegue esse feito —, deixa clara a habilidade da autora em escrever jovens mulheres modernas passíveis de identificação: elas têm tendências autodestrutivas, desvios de caráter e estão completamente perdidas em si mesmas e no mundo, especialmente porque que não sabem como comunicar seus sentimentos — já que raramente conseguem reconhecê-los ou dar nome a eles.

Beleza cultural: a influência das características culturais nos ideais de beleza pelo mundo

Quando pensamos em cultura, as primeiras características que vêm à mente são idiomas falados, costumes de etiqueta, crenças, sistema educacional e marcos históricos. Porém, outro importante ponto que também se destaca na diferenciação entre culturas é a beleza, ou melhor, o que esse termo representa. Formatos de corpo, comprimento dos cabelos, estilo de maquiagem e até mesmo o sorriso, podem ser considerados características culturais de um grupo social e exercem influência direta nos ideais que definem o que é belo nas distintas culturas ao redor do globo. 

O gestor educacional Júlio César de Lima, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo responsável pela página Sociologia Cotidiana, pontua que cada sociedade possui sua cultura que vai se modificando ao longo do tempo a partir de contato com outras, em um processo ininterrupto. “No passado, o contato entre diferentes culturas era físico, através de imigrações, invasões, por exemplo. […] Atualmente, as chamadas mídias sociais vem acelerando ainda mais a difusão cultural.” Com base nesse raciocínio, ele dispõe que cada grupo cultural, cada povo e sociedade possui seu ideal de beleza, moda e costumes, no entanto, eles são fluidos e modificam-se muito rapidamente “Se o ideal de beleza é o estilo, padrão ou modelo socialmente definido como belo, ele existe em toda e qualquer sociedade, mas a questão é que ele é marcado pela fluidez.”.

Ademais, a busca pelo encaixe perfeito nos padrões de uma sociedade também podem ser resultantes da vontade de gerar um sentimento de pertencimento a um grupo específico, funcionando como uma forma de validação de valor social. Nesse sentido, Júlio César menciona: “O homem é um animal gregário, só existe porque vive em grupo. Com a chamada sociedade de consumo, a necessidade de se viver em grupo divide espaço com a necessidade de se sentir parte desse grupo. […] Fazer parte dele requer sim ser validado em alguns quesitos estabelecidos.”

Mesmo em países multiculturais, como o Brasil, sabemos que existem algumas características que são intrínsecas à construção social do que é belo. Porém, de um ponto de vista mais “macro”, podemos notar que determinados padrões são vistos de forma mais ampla nos diferentes continentes. 

Em se tratando das Américas, no Norte, como nos Estados Unidos, observamos que bustos volumosos, pele, cabelos e olhos claros são as características mais apreciadas nas mulheres, enquanto dos homens é esperado um físico atlético e uma barba bem cuidada, em um visual conhecido como “lumbersexual”. Já na região Central e Sul, peles bronzeadas, cabelos longos e corpo curvilíneo, o famoso “corpo violão”, formam o ideal estético feminino, ao passo que o masculino é composto pela pele também “beijada pelo sol”, cabelos escuros e um porte malhado, em uma mistura de casualidade elegante com um toque sensual. 

Nas terras europeias, continente em que a população tende a ser mais reservada e discreta no que tange ao comportamento, observamos que corpos esguios e um visual casual são as características gerais dos padrões de beleza que, todavia, podem sofrer pequenas alterações de país para país. Se estivermos falando sobre a França, pele bem cuidada, físico magro, cabelo levemente bagunçado e maquiagem leve são o combo apreciado – também compartilhado pela Inglaterra, com a diferença de que esta opta por um visual mais aristocrático e sério, menos despretensioso que o francês. Em se tratando da Itália, os padrões ficam levemente mais extravagantes, o corpo segue magro, mas o busto aumenta de tamanho, as pernas ficam mais torneadas, os cabelos ganham mechas e um comprimento maior; enquanto a Espanha preza por ares mais sexy, de pele morena, olhos e cabelos castanhos, corpos curvilíneos e bem torneados, enquanto, em contraponto, a beleza nórdica preza por peles alvas, cabelos bem claros e uma imagem quase etérea.   

O continente africano também conta com variações no ideal que o compõem, se observadas suas diferentes partes. Em se tratando da região sul, que sofreu grande influência da cultura europeia por conta da colonização, observamos um apreço por traços delicados, poucas curvas e um físico esguio, levemente malhado. O que vai de encontro ao observado em partes da África Ocidental, em localidades como a Mauritânia, em que os corpos volumosos são almejados por serem a representação de prosperidade financeira e disponibilidade de recursos. 

No continente asiático, onde a praticidade, discrição e agilidade são pontos fortes de sua cultura, o que é visto como belo possui traços finos, uma pele bem cuidada e clara, a união de características que, juntas, consigam formar uma imagem de inocência e leveza que são associadas à elegância. 

Porém, mesmo sendo tão discutidos e abordados com mais intensidade nos tempos atuais, o estabelecimento de ideais de beleza têm um histórico longo e notável. Os primeiros registros de uma espécie de padrão no tocante ao belo foram observados na Pré-História, quando o uso de garras e dentes de animais como adornos representava o poder masculino e a obesidade feminina era vista como sinônimo de prosperidade em recursos e símbolo de fertilidade. Posteriormente, na Grécia Antiga, onde muito se valorizava a questão da harmonia e equilíbrio, os corpos compostos por quadris largos e seios volumosos – que eram associados à fertilidade – além de um pele clara, uma aparência etérea e que transmitisse a ideia de saúde acabaram por ser interpretados como o ideal; enquanto no Egito Antigo (em que a aparência física era de grande importância), corpos esguios, pele bronzeada e ausência de pelos representavam a imagem almejada. Sob esse panorama, observa-se que mesmo com a passagem do tempo e a alteração de muitos pontos tidos como representantes do bela por motivos diversos, como os de cunho religioso e cultural, o que perdura até os dias de hoje é a constante mutação do que é compreendido como parâmetro. Dessa forma, com o entendimento de que as raízes dos padrões de beleza são profundas, ainda que disformes, o questionamento é: será possível vislumbrar uma sociedade livre desses ideais? Júlio César de Lima pontua que acredita ser improvável que isso aconteça. “Acredito ser improvável a existência de uma sociedade livre das amarras dos padrões de beleza e então, a discussão que cabe pode tomar outro rumo, como por exemplo, no campo da ética, que pode lançar reflexões sobre consequências para a saúde física, mental e até social dos excessos causados pela busca irrefletida por estar bonito, com o corpo ideal, com o cabelo da mocinha da novela […] Em resumo, continuaremos tentando estar belos, mas provados por questões sobre como estar belo de maneira mais racional.”

Por fim, em uma comparação meramente singela, podemos analisá-los como uma faca de dois gumes que corta um mesmo entendimento em duas questões, pois, o questionamento de um padrão pode representar o entendimento de que há outro “melhor” para ser colocado em seu lugar. Mesmo sendo rechaçados por muitas pessoas e transformados em pauta de discussões acaloradas ou, em outros casos, tendo sua existência negada dada a diversidade de ideais presentes nos diferentes continentes, os padrões de beleza reverberam para além do campo da estética, porque, como foi exposto, por meio deles conseguimos diferenciar momentos históricos, grupos sociais e até mesmo entendimentos culturais. Conseguimos, então, observar que a pluralidade da cultura faz com que o belo não seja uma afirmação, mas, sim, um eterno questionamento. 

Por que ainda nos importamos como Shakespeare?

Texto por Victor Haruo

Uma homenagem ao Grande Mestre

406 anos se passaram entre sua morte e os dias de hoje, porém, sua relevância permanece presente no século XXI. O alcance dos sonetos do dramaturgo é de uma extensão incalculável, com pessoas do mundo todo, de todas as esferas, que leram e assistiram suas peças, ou acompanharam suas adaptações para as telas do cinema e televisão.

Todos os dias contactamos sua poesia; os teatros se enchem com suas performances, os acadêmicos ainda analisam seus textos e sonetos, leitores criam páginas com as mais prolíficas notas de rodapé espalhadas pelo tempo. Obstante sua contribuição como intérprete da condição humana, ele também é patrono da língua inglesa como a conhecemos; a produção literária Shakespeariana inclui a criação de mais de 1700 palavras, utilizadas até hoje. É algo incrível como uma pessoa possa ter tamanha influência em uma língua. O que Shakespeare nos ensinou é que o sucesso advém da criatividade, jogando com a linguagem e encontrando novos meios de comunicação. Shakespeare foi “redescoberto”  no Romantismo do século XIX, inspiração para aqueles grandes romancistas e poetas do fin de siècle como Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Balzac, Flaubert, Dumas, entre outros.

 Sua dramaturgia é de suma importância na história artística da humanidade, com seus ecos ressoando inclusive — ainda atualmente — também, na arte brasileira. O teatro shakespeariano atracou nas terras brasileiras em 1835, por meio de apresentações de companhias estrangeiras. Todas as peças encenadas eram de traduções portuguesas feitas do francês ou do italiano, geralmente as pátrias dos atores. Alguns escritores brasileiros traduziram o dramaturgo para o português, como Machado de Assis, Álvares de Azevedo e Olavo Bilac. O próprio Machado  revolucionou a literatura brasileira devido, também, à importantíssima contribuição dramática da influência Shakespeariana aos seus romances. Por consequência, não foi pouca a sua influência na nossa literatura tupiniquim, incluindo nesta lista praticamente todos os nomes que encabeçaram o milieu da alta produção literária brasileira no século XIX até a transição do século XX.

Desde então, não há como falar em literatura transformadora, sem incluir Shakespeare como pedra fundamental. Quem de nós não conhece a famosa indagação do príncipe Hamlet: “Ser ou não ser? Eis a questão”.

Esse é o diálogo mais declamado por todos os atores, no palco ou nas telas de cinema. Suas obras são mais atuais que as obras de qualquer outro dramaturgo, escritor ou cineasta contemporâneo,  já que seus versos penetraram profundamente na essência dos temas arquetípicos que permeiam toda a existência humana, onipresentes em quaisquer sociedades, e preenchendo todos os corações humanos, como vingança, orgulho, adultério, amor,  cobiça, magia, poder, sonhos, anjos e fantasmas. Atualmente, em um mundo de mudanças incessantes, onde todos os referenciais existenciais perderam suas bases, tais temas são, talvez, mais relevantes do que nunca.

Aqui está uma seleção de 2 títulos para despertar o interesse daqueles que buscam um ponto de partida:

1 – Hamlet: é a obra de Shakespeare que mais ganhou destaque. A tragédia é baseada num príncipe que busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa reflexiva sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, filosofia, poder, moralidade e todas as circunstâncias da condição humana. O que define a legitimidade do nosso propósito? Os fins justificam os meios? Qual o ponto de tensão entre Direito e Dever? O que acontece quando nossos fantasmas ganham corpo e movimento?

Othello, 1951. Adaptação cinematográfica.

2 – Otelo: a peça estreou em 1604 e levou para os palcos um casamento inter-racial – assunto polêmico para a época!  É uma das mais comoventes tragédias shakespearianas. Por tratar de temas universais – como ciúme, traição, amor, inveja e racismo, ela pode ser ponto de partida para diversas reflexões e interpretações. Hoje em dia, a nossa sociedade é menos preconceituosa? A cor da pele e a nacionalidade de uma pessoa são motivos para exaltá-la ou diminuí-la? É possível listar formas veladas de preconceito comuns no dia a dia? No mundo atual, qual é o peso da aparência? Levamos muito a sério a opinião dos outros a nosso respeito? As postagens nas redes sociais transmitem a imagem do que realmente somos?

Todos os dramas da vida humana desfilam por seus versos como modelos da existência mais básica do que chamamos de humanidade. Munidas com um simbolismo profundo, as palavras de abertura do monólogo de Hamlet são um ótimo argumento para o debate de por que o trabalho de Shakespeare continua a ressoar em cada geração. Além disso, contribuem para a questão de por que ler os clássicos ainda é algo de suma importância. Em uma época de estímulos instantâneos, onde a arte tornou-se indissociável do mero entretenimento, todo e qualquer prazer contemplativo torna-se difícil de cultivar. Em uma época de estímulos de recompensas imediatas, colher os frutos de uma aventura dentro das florestas literatura, é algo  que demanda vontade e esforço.

Porém, tais aventuras valem cada página. Ler ou não Ler? Eis a Questão.

21 de março: mulheres que marcaram a poesia

Em A Hora da Estrela (1977), Clarice Lispector escreveu: “enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever”. Apesar do cenário literário ter sido, por muito tempo, monopolizado pela figura masculina, é inegável que a arte deve ser democratizada sem fronteiras ou limitações, e isso inclui a escrita.

Lispector não se dedicou à poesia, mas muitas outras mulheres enxergaram a si mesmas diante de pontos de interrogação que as levaram à mesma conclusão: existem perguntas e escrever é o que dará as respostas. Ou ao menos tentará. Essas mulheres reformularam as regras do mundo e lutaram pelo seu direito de dizer o que precisava ser dito; de apresentar reflexões multifacetadas fundamentais que talvez não tivessem sido introduzidas senão através de suas perspectivas.

As autoras que hoje são pilares à literatura e representam sonhos e concepções anteriormente renegadas, de certa forma, ao seu gênero, buscaram transformar sua poesia — não apenas — em algo tão sublime, que deixou de ser vista como um subproduto do que a arte deveria ser — produzida por homens.

Conheça nomes da poesia mundial que não se amedrontam diante de suas perguntas, mas continuaram a escrever por uma espécie de necessidade irremediável por respostas.

Nomes de destaque na literatura poética

Audre Lorde

[Imagem: Ute Weller/Bazar do Tempo/Divulgação]

Nascida em 1934, nos Estados Unidos, Audre Lorde foi escritora, poeta e ativista. Suas obras se destacaram na área teórica relacionado aos seus estudos feministas, porém sua atuação na poesia foi consistente e marcante. Sua primeira obra publicada foi The First Cities (1968), repleto de poemas sobre suas origens, sua identidade e suas experiências como mulher negra e mãe.

Ao traçar um panorama por toda a obra poética produzida por Lorde, é possível observar que, em sua poesia, manifestam-se questões relacionadas à homossexualidade, raça, gênero, amor de modo amplo, entre outros. Por sua excelência, Audre foi laureada como poeta pela cidade de Nova York em 1991.

No Brasil, grande parte de suas obras, incluindo coletâneas de poemas, são publicadas pela Relicário Edições, mas podem ser lidas em sua língua original (inglês) na Poetry Foundation.

Cecília Meireles

[Imagem: Reprodução]

A aclamada e inesquecível Cecília Meireles marcou a literatura brasileira. Contabilizou mais de cinquenta obras publicadas que a expuseram como a gloriosa autora que foi. Meireles é estudada em escolas de todo o país e elevou a imagem feminina na literatura nacional.

Sua poesia completa foi publicada pela Global Editora em dois volumes densos que contemplam um fragmento de sua história com a escrita.  

Emily Dickinson

[Imagem: Reprodução]

Emily Dickinson foi uma poeta estadunidense do século XIX. Seus poemas, quase que inteiramente, tiveram publicação póstuma, pois em vida estava inserida num ambiente social de domínio masculino.

Foco de estudo literário por todo o globo com mais de mil poemas escritos, Dickinson é considerada uma das mais importantes poetisas da história. No Brasil, tem publicação por diversas editoras. Na língua original (inglês), todos estão disponíveis na Poetry Foundation.

Hilda Hilst

[Imagem: Gal Oppido/Divulgação]

A brasileira Hilda Hilst se tornou patrimônio da literatura nacional através de obras intensas e essenciais. Além da poesia, também se dedicou à escrita de peças de teatro e ficção, com êxito.

Alguns de seus poemas podem ser lidos no site de Hilst. Sua obra está disponível em diversas editoras, mas grande parte reside na Companhia das Letras.

Louise Glück

[Imagem: Gasper Tringale]

Louise Glück apresenta uma genialidade inigualável responsável por lhe garantir a gama de láureas de alguns dos mais visados prêmios literários, como o Prêmio Pulitzer de Poesia (1993) e o Nobel da Literatura (2020). Segundo a banca do Prêmio Nobel, Glück possui “inconfundível voz poética, que, com uma beleza austera, torna universal a existência individual”.

Na infância, em quem se é no mundo, na família, no trauma e na natureza residem as temáticas utilizadas pela poetisa para desenvolver suas obras. Foi publicada no Brasil pela primeira vez em 2021 através de uma coletânea de seus poemas entre 2006 e 2014, pela Companhia das Letras, em edição bilíngue.

Maya Angelou

[Imagem: Chester Higgins]

Maya Angelou se tornou um dos maiores nomes da literatura contemporânea diante de todo o trabalho impecável que produziu. Com Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola (1969), sua primeira e de maior notoriedade obra, e outras seis autobiografias, apresentou uma história de luta. No decorrer de sua vida, publicou 23 livros de poesia que a consagraram como uma dos nomes de maior peso na poesia.

Pela excelência, foi indicada ao Prêmio Pulitzer de Poesia em 1971 e, ainda, honrada com a Medalha Nacional de Artes, em 2000, e a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2011, também recebida por artistas como Toni Morrison e Aretha Franklin.

No geral, a obra de Angelou é atemporal ao abordar questões como raça, família, luta de classes e gênero, além de muitos outros tópicos. Nacionalmente, tem exemplares em diversas editoras, mas é possível encontrar sua poesia completa publicada pela editora Astral Cultura. Na língua original, alguns deles estão disponíveis na Poetry Foundation.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[Imagem: José Gageiro]

Vencedora do Prêmio Camões (1999), a maior honraria da literatura em língua portuguesa, a poetisa é de origem portuguesa, nascida na cidade do Porto. Versou, em sua obra poética, através de uma grande diversidade de temas que, de tão bem desenvolvidos e aprofundados, a distinguiram em relação à maioria dos outros produtores literários. Além disso, teve relação com a resistência ao cenário político português durante a ditadura salazarista, que também foi abordada em seus poemas.

Atualmente, é considerada um nome de peso da literatura portuguesa e foi publicada, no Brasil, pela Companhia das Letras nas edições Coral e Outros Poemas (2018) e Poemas Escolhidos (2004).

Sylvia Plath

[Imagem: Reprodução/Lilly Library]

A história de vida de Sylvia Plath transcendeu sua obra e intensificou, de certo modo, a busca pela sua obra. A Redoma de Vidro (1963) foi seu único romance publicado, ao considerar que sua escrita era direcionada à poesia. Apesar do livro ter se tornado um clássico contemporâneo, o trabalho poético de Plath foi igualmente aclamado pela crítica e lhe rendeu um póstumo prêmio Pulitzer de Poesia por The Collected Poems (1981), igualmente publicado postumamente.

Em vida, a poetisa lutou contra a depressão, que pôde ser externada com clareza na arte que produziu. Aos 30 anos, Plath tirou sua própria vida e deixou sobre a escrivaninha Ariel, cuja publicação ocorreu de modo diferente do desejado. Posteriormente, em 2004, a obra restaurada, organizada como originalmente requerido pela poetisa, foi publicada em respeito à memória de Sylvia.

Seus contos, diários e o romance unitário foram publicados no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, enquanto os poemas podem ser encontrados através de edições da Verus Editora, selo do Grupo Editorial Record, e da Editora Iluminuras. Na língua original (inglês), estão disponíveis para leitura na Poetry Foundation.

Wislawa Szymborska

[Imagem: Joanna Helander]

A polonesa Wislawa Szymborska ganhou reconhecimento mundial após vencer o Prêmio Nobel da Literatura em 1966. Chegou a ter seus poemas censurados no país, porém não foi desencorajada pela ocorrência.

Com uma obra poética considerada de linguagem coloquial, objetiva e irônica, distribuída em onze livros, Szymborska foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras em três edições bilíngues: Poemas (2011), Um amor feliz (2016) e, mais recentemente, Para o meu coração num domingo (2020).

Poesia e exclusão

Há, nos dias atuais, uma maior variedade de vivências na literatura. Decerto, a tendência é que muitas pessoas, com experiências particulares que por muito tempo foram apagadas, encontrem seu espaço para falar através do ambiente literário.

As mulheres demonstraram um furor determinante capaz de moldar a cultura à sua aceitação, mas isso precisará de tempo. Ainda que as nove poetas acima tenham alterado o curso e abandonado o marasmo do protagonismo masculino, sua participação ainda precisa ser reconhecida com coerência.

Para incentivar a literatura feita por mulheres, é necessário uma disponibilidade para ler o que elas têm a oferecer, seja um leitor ordinário que apenas lê por diversão, seja um grande crítico que está condicionado a oferecer holofotes ao mesmo arquétipo masculino sempre. A ausência de inserção feminina pode ser exemplificada através do próprio Nobel da Literatura, recebido por Szymborska e Glück, mas também por apenas outras 14 mulheres desde 1901. Ou seja, dentre os 118 prêmios entregues na categoria, um século inteiro foi usado para destacar a literatura produzida por homens.

Esses são alguns dos trabalhos de autoras com produções literárias que devem ser reconhecidas:

Para que a literatura feminina cresça e alcance gerações de meninas que vejam a si mesmas no que estão lendo, é necessário incentivar tal produção de modo intenso. Isso é feito através do consumo consciente das obras. Dessa forma, ao mesmo tempo que mais perguntas surgirão, mais respostas virão como consequência e, ao considerar a natureza feminina como desumanizada por um processo social arrastado, muitas mulheres ainda não conhecem a si mesmas como seres reais no mundo. A arte, em conceito amplo, entra em cena com o papel de colaborar com o autoconhecimento, seja no consumo, seja na construção.

As poetisas apresentam versos que são capazes de comportar a densidade de questões, sentimentos e existências inteiras que não poderiam ser melhor descritas; que servem como um abraço quente ou um choque de realidade. Confortável ou não, sua maneira de produzir literatura colabora pontos sobre a natureza feminina e humana, no geral, difundidas por todo globo e, cada dia mais, são responsáveis por oferecer a mulheres — ainda que não apenas — concepções sobre quem são, quem querem ser e quem podem ser.

12 livros para 2022

Um dos eventos mais empolgantes do ano para um amante de livros é organizar a lista de leitura para o ano seguinte. Parar para analisar todos os futuros livros que serão lidos é uma tarefa e tanto, bem como aquela de marcar um check ao fim do ano depois de tantas leituras incríveis. É emocionante.

Com indicações das editorias, separamos uma lista de doze livros que podem – e devem – fazer parte da sua To Be Read List do ano. Se seu gênero favorito é romance, thriller, autobiografia, suspense ou qualquer outro, não precisa se preocupar porque tem o bastante para agradar a todos!

A Metade Perdida, Brit Bennett

Indicação da Editoria de Moda

Escrita pela autora estadunidense Brit Bennet, a narrativa se desenvolve ao redor de duas irmãs gêmeas a viver em uma pequena cidade majoritariamente negra no interior dos Estados Unidos. Traçando um paralelo entre questões raciais e familiares que marcam as irmãs de maneiras distintas, com ênfase nos opostos vivenciados quanto ao preconceito tão intrínseco à sociedade.

Descrito como intenso e envolvente do início ao final, o Best-Seller apresenta uma perspectiva indispensável para a compreensão dos efeitos do preconceito racial. A obra teve seus direitos comprados pela HBO para a produção de uma série acerca da vida das irmãs VIgnes.

Pequena Coreografia do Adeus, Aline Bei

Indicação da Editoria de Música

Imagem: Companhia das Letras

O segundo livro da brasileira Aline Bei insere o leitor em uma dinâmica familiar altamente ostensiva. A jovem Julia Terra, protagonista da narrativa, é submetida a uma série de violências físicas e psicológicas no ambiente doméstico quando ainda era menina. A forma de expressar a dor e o desconforto, seguiu vivendo em busca de encontrar coisas que dessem sentido à vida que sua mente, ainda imatura conforme a idade precoce, não conseguia entender. Ao crescer, Júlia busca espaço para ir atrás de algum conforto com as novas perspectivas que recebe, apesar de carregar marcas latentes e frescas de um passado doloroso.

Vencedora do prêmio São Paulo de Literatura, a obra tem o poder de ser sufocante e libertadora ao mesmo tempo. Um alento aos filhos de lares partidos.

O Estrangeiro, Albert Camus

Indicação da Editoria de Cultura

Imagem: Grupo Editorial Record

Na obra do autor francês, é apresentada a história de um homem simplório que comete um crime sem se dar conta. O protagonista, Meursault, é completamente apático e não esboça interesse algum por coisa alguma. É diante da ação criminosa que inicia uma jornada à tomada de consciência sobre si, o mundo e, primordialmente, sua liberdade.

Descrito como irremediavelmente reflexivo, a leitura sugere a possibilidade de encarar a vida de maneira diferente.

É importante estar atento à saúde mental antes de embarcar nessa leitura, pois a densidade do conteúdo talvez não seja ideal para aqueles que precisam de uma literatura um pouco mais receptiva e suave.

E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie

Indicação da Editora Chefe

Imagem: Globo Livros

A rainha do crime, Agatha Christie, não falha em fazer leitores fiéis. Essa indicação é de um dos títulos mais relevantes da autora consagrada na literatura de suspense.

Dez pessoas são misteriosamente convidadas a uma ilha. Logo, o terror toma conta quando um deles é assassinado. Milhares de perguntas começam a surgir a deixá-los cada vez mais intrigados e… suspeitos. Cativante e detentora de uma reviravolta surpreendente, a obra de Agatha Christie reforça o talento inigualável que a rendeu a alcunha de rainha do crime.

Aprendizados, Gisele Bündchen

Indicação da Editoria de Moda

Imagem: Grupo Editorial Record

Parte da cultura brasileira, Gisele Bündchen pôde compartilhar um pouco de sua vida com o público através de sua autobiografia. Infância, carreira, casamento, maternidade. A maneira singular de encarar as coisas é uma lição importante. Não há meio de sair dessa leitura o mesmo que foi antes. Leitura leve, simples e transformadora

Frankenstein, Mary Shelley

Indicação da Editoria de Moda

Imagem: Penguin Companhia/Companhia das Letras

Um clássico da literatura mundial, o romance gótico conta a história do Dr. Viktor Frankenstein e o seu monstro, criatura peculiar desenvolvida pelo cientista: Frankenstein. Ao tecer uma narrativa atemporal, a grandiosa Mary Shelley apresenta uma metáfora sobre os sentimentos humanos, principalmente a solidão.

A Vida Não É Útil, Ailton Krenak

Indicação da Editoria de Cultura

Imagem: Companhia das Letras

Ailton Krenak, ambientalista e escritor indígena ganhou notoriedade em suas observações indispensáveis para tempos como o atual. Em A Vida Não É Útil, elabora uma reflexão acerca da relação do ser humano e natureza, bem como aprofunda questões do coletivo: funcionamento do sistema capitalista e sentimentos sobre a pandemia. 

Descrito como transformador e inteligente, Krenak é responsável por apresentar um debate elementar de maneira sucinta e esclarecedora.

Duna, Frank Herbert

Indicação da Editoria de Cultura

Imagem: Editora Aleph

Para quem gosta de uma saga de ficção científica envolvente e construída com riqueza, Duna é perfeito! O clássico de Frank Herbert contém seis livros ao todo e narra a trajetória de Paul Atreides. O protagonista possui uma missão em Arrakis,  planeta das dunas onde a água é escassa e o povo anseia por um novo messias.

Recentemente, a obra foi adaptada para o cinema estrelando ninguém menos que Timothée Chalamet e indicada a dez categorias no Oscar 2022. Um sucesso de bilheteria e de venda de exemplares, independente do formato na qual esteja sendo contada, a criação de Herbert é um sucesso

O Alquimista, de Paulo Coelho

Indicação da Editoria de Música

Imagem: Paralela/Companhia das Letras

Paulo Coelho é um dos componentes da Academia Brasileira de Letras e autor de um fenômeno literário mundial com O Alquimista. Na história, há o protagonismo de Santiago, um pastor que abandona suas obrigações para viajar para o Egito em busca de tesouros. No caminho, se depara com várias pessoas que trazem consigo diversas mensagens importantes. Uma cigana, um homem que se diz rei e um alquimista são responsáveis por alterar a narrativa principal de Santiago e oferecer novas perspectivas.

Foi descrito como detentor de uma bela filosofia ao abordar as sincronicidades e o destino com delicadeza.

Verity, Colleen Hoover

Indicação da Editoria de Música

Imagem: Grupo Editorial Record

Colleen Hoover é uma das autoras de maior sucesso editorial atualmente. Em busca de destoar de seu gênero de conforto, embarcou na criação de um thriller de arrepiar sobre uma escritora de sucesso, Verity, que sofre um acidente e fica incapacitada de escrever. Sua equipe acaba por contratar uma jornalista e escritora, Lowen, para terminar sua série de livros cujo êxito tem alcance astronômico.

Em uma temporada na casa da família de Verity para investigar as anotações da autora para a continuação do projeto, Lowen encontra um manuscrito de uma autobiografia contraditória e reveladora, que a coloca em uma situação de indecisão e… medo.

Escrever livros que prendem o leitor do início ao final é o super-poder de Hoover, e com Verity não poderia ser diferente.

Visão noturna, Tobias Carvalho

Indicação da Editoria de Moda

Imagem: Editora Todavia

Tobias Carvalho, uma das principais novas vozes da literatura brasileira, explora os limites e as composições subjetivas acerca dos sonhos em 4 contos que circulam pelos mais diferentes gêneros e prendem o leitor do início ao fim. Envolvente, ritmada e de escrita extraordinária. Sua maneira de resgatar temáticas insistentes como o sono ao lhes dar uma nova vestimenta muito mais interessante é o que caracteriza sua genialidade como autor.

Quarto de Despejo, Maria Carolina de Jesus

Indicação da Editoria de Música

Imagem: Editora Ática

Clássico e atemporal é o que melhor pode apresentar a obra de Maria Carolina de Jesus ao mundo. Quarto de Despejo é o diário de uma catadora de papel, cujos relatos aprofundam sua realidade enquanto moradora da comunidade do Canindé, na cidade de São Paulo, com os filhos. Comovente, realista e indispensável. As palavras de Maria Carolina penetram todas as novas visões que surgirão após a leitura dessa obra quanto ao mundo e tudo aquilo que não é visto, mas existe fora da bolha da cada um.

Com essas indicações extraordinárias, o ano de 2022 irá ser preenchido por perspectivas alteradas, arrepios dos pés à cabeça, muitas noites em claro lendo e, é claro, exemplares novinhos na estante para fazer parte da sua história como leitor e como pessoa.

Os novos Modernistas: seleção Frenezi de artistas que inovam no cenário artístico brasileiro, assim como na Semana de 22

Texto por Julio Cesar Ferreira

Em comemoração ao Centenário da Semana de Arte Moderna de 22, a editoria de Cultura da Frenezi separa aqui alguns artistas que, assim como naquela data, buscam romper com o conservadorismo e estruturas de poder e renovam o cenário artístico brasileiro atual.

Em meio aos debates sobre a influência da Semana de Arte Moderna, é muito discutido que embora buscassem renovar-se artisticamente, o grupo de criativos selecionados para participar dessa rebelião ainda fazia parte da elite paulistana — com seus privilégios de cor, monetários, entre outros. No entanto, 100 anos depois, ainda acontecem transformações nesse cenário artístico.

Em uma matéria concedida à Revista VEJA, a secretária municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, relembrou que o Modernismo atual concede mudança não somente às produções artísticas, mas também aos protagonistas. ‘’Se era uma parte da elite que realizou a Semana de 22, escreveu o seu manifesto e dava os rumos da cultura, hoje, é o inverso. É a periferia que está dando a direção da cena artística. São figuras negras, indígenas, LGBTQIA+, asiáticas e mulheres, que estão fomentando o debate”, concluiu.

Diante às mudanças constantes no mundo da arte, selecionamos 5 artistas que estão inovando e são os novos protagonistas nas manifestações artísticas brasileiras.

Ventura Profana

[Imagem: Igor Furtado]

Ventura é cantora, escritora, compositora, performer e artista visual. Nascida na Bahia, em sua arte trabalha questões da vivência negra e travesti. Foi doutrinada em templos batistas, e agora mergulha na crença para construir suas obras — sempre de forma crítica, desconstruindo os preceitos da igreja.

Você precisa conhecer… O álbum ‘Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor’ e a música ‘RESPLANDESCENTE – Ventura Profana – podeserdesligado’.

Instagram: @venturaprofana

Samuel de Saboia

[Imagem: Helena Cebrian]

Samuel é pintor e artista autodidata, e aos 15 anos passou a usar sua paixão também como carreira. Com a arte abstrata como maior foco, seu trabalho explora no imaginário pessoal a figura e protagonismo do jovem negro no Brasil.

Você precisa conhecer… As exposições ‘Samuel de Saboia | A Bird Called Innocence’ e ‘O Guia de Sobrevivência Para Adolescentes Incomuns – Por Samuel Saboia’.

Instagram: @samueldesaboia

Grace Passô

[Imagem: Ana Paula Mathias]

Atriz, diretora e dramaturga, em seu trabalho Grace mistura o cinema e o teatro para criar obras que trabalham as experiências de um grupo marginalizado. O ‘filme-teatro’ é como se fosse uma obra cinematográfica, mas mais dinâmica por acompanhar os personagens e as narrativas que são encenadas numa peça.

Você precisa conhecer… Os curtas ‘Vaga Carne’ e ‘República’.

Instagram: @gracepasso

Aun Helden

[Imagem: Arquivo pessoal]

Aun Helden é um espetáculo por si só: seu corpo é seu próprio objeto de trabalho, e a artista utiliza dele para se expressar com modificações — em sua maioria bem distantes da anatomia humana. Sem se apegar a gêneros, a performer usa da maquigem, efeitos especiais e jogos de luz para criar estudos sobre o pós-humano.

Você precisa conhecer… ‘AUN Helden #perfo’.

Instagram: @aunhelden

Ingrid Rizzieri

[Imagem: Arquivo pessoal]

Ingrid é designer e escultora, o que reflete muito bem em suas obras: as jóias não são meros acessórios aqui, mas sim obras de arte que questionam o comum. A ‘Entre Cubos’, sua marca autoral, produz peças para diversas partes do corpo, que tomam seu lugar e chamam a atenção — detalhe para o acessório de nariz na imagem acima.

Você precisa conhecer… Todo o Instagram profissional de Ingrid, o @entrecubos.

A semana de 22 em 2022

Vendo cada um dos criativos que mostramos aqui, fica claro que o movimento criado a 100 anos segue forte no país — temos muitos Modernistas, e agora com ainda mais rostos e vozes: cada vez mais, os grupos esquecidos pela história se levantam para mostrar sua potência. Que possamos valorizá-los.

Centenário da Semana de Arte Moderna: o que foi o evento e sua importância

‘Semana de 22’, o evento que buscou se opor ao conservadorismo artístico e cultural presente no país desde o século XIX e deu novos rumos às manifestações artísticas 

Não se sabe ao certo, até hoje, quem sugeriu a ideia de reunir um grupo de artistas e intelectuais paulistas e organizar uma semana de exposições de pinturas, recitais de poesia e apresentações musicais no Theatro Municipal de São Paulo. Porém, segundo alguns autores, o pintor carioca, Emiliano Di Cavalcanti, pode ter sido essa pessoa que, em 13 de fevereiro de 1922, iniciou a Semana de Arte Moderna e, durante 3 dias, mudou os rumos da arte no Brasil e no mundo, através da oposição à cultura e à arte conversadora presente desde o século XIX. 

Ocorrendo em um contexto de crises políticas, sociais, econômicas e culturais, o Brasil se chocou com as novas ‘’linguagens libertadoras’’ do fazer artístico — com inspiração das vanguardas europeias, como o Cubismo, Futurismo e o Expressionismo – e, consequentemente, o acontecimento recebeu muitas críticas e foi mal interpretado por diversos intelectuais da época. O país não estava preparado para a revolução artística. 

Participaram da Semana de Arte Moderna nomes consagrados do modernismo brasileiro como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tácito de Almeida, Di Cavalcanti, Agenor Fernandes Barbosa. Na ocasião, Tarsila do Amaral, considerada um dos grandes pilares do modernismo brasileiro, encontrava-se em Paris e não participou do evento.

Embora tenha se passado 100 anos, a Semana de 22 exerce, ainda hoje, influência nas discussões artísticas do país, que se estende para outras esferas, como sociológica e histórica. A sua grande importância se deu por trazer ao país uma atualização de linguagens artísticas que romperam com o passado e com as produções clássicas, para criar uma nova linguagem brasileira de arte. A partir daí, o modernismo brasileiro surge, embora antes houvesse já movimentações para essa renovação, como na ‘Exposição de Pintura Moderna’ de Anita Malfatti que foi alvo de julgamentos de Monteiro Lobato, em 1917. 

Por: Julio Cesar Ferreira | @estoujulio

Fontes: fonte 1 | fonte 2

Olivia Colman em "A Filha Perdida" (2021) [Imagem: Reprodução/Netflix}

“A Filha Perdida” é um retrato do lado oculto e sufocado da maternidade

Ao longo da evolução histórica das relações humanas, a maternidade tomou uma forma de caráter utópico. As mães foram moldadas em cânones e tiveram suas vidas fragmentadas entre os períodos de antes de seus filhos e depois deles. É nesse cenário de perda de identidade que muitas delas passam seu tempo caminhando em uma linha tênue entre quem costumavam ser e em quem os espectadores do show da vida em sociedade esperam que sejam na nova realidade.

Dentro desse imaginário, a autora italiana Elena Ferrante aprofunda a narrativa de A Filha Perdida (2006), que recentemente recebeu uma adaptação homônima pela Netflix, estrelada por Olivia Colman e Dakota Johnson, com direção de estreia de Maggie Gyllenhaal.

Publicado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca e traduzido por Marcello Lino, a história acompanha as férias de Leda, uma professora universitária de quarenta e oito anos. Ao que encara como um escape das obrigações cotidianas, a mulher passa seus primeiros dias assentada em uma praia da costa italiana sendo acompanhada por livros e algum trabalho.

Leda mora em Florença, mas é nascida em Nápoles. Lá, vivia com mãe e irmã em um relacionamento arisco e desagradável repleto de abusos psicológicos que são relevados pela personagem durante em relatos casuais. Ao partir de seu passado, abandonou os costumes originários da região, aos quais demonstra desprezo profundo, e que buscou afastar da criação das filhas, Marta e Bianca.

Durante sua estadia em repouso, com suas visitas à praia, a protagonista é surpreendida pela presença de uma família cujos hábitos em muito são carregados pelos traços napolitanos. Tal presença é responsável pela volta repentina de memórias da infância que se misturam com as de sua vida adulta enquanto mãe em exercício integral. Ali, na beira da água, Leda é impactada pela visão de três figuras de destaque na família: uma jovem mãe, Nina, sua filha, Elena, e a boneca da criança, Neni.

A rotina da personagem, anteriormente preenchida pela ocupação literária, toma forma diante da substituição direcionada à apreciação dos atos que possuem o envolvimento de Nina, Elena e Neni. Na mulher, enxerga as características socialmente requeridas para uma mãe: jovem, bonita e, aparentemente, feliz em ser mãe, como se sua única tarefa fosse coexistir à vida da filha.

As cenas da relação entre mãe e filha se tornam um pano de fundo para o resgate intenso de memórias que levam o leitor à compreensão de quem é Leda agora, quem foi como filha e quem foi como mãe. Em diversas passagens, a personagem retoma momentos sobre sua infância conturbada que não são, por ela, interpretados como traumas que se espelharam na criação de suas filhas. Sua leitura das ocorrências é transposta de maneira fria e objetiva, de modo a não serem reconhecidas com a carga emocional negativa que, de fato, possuem, algo esclarecido pela fala despretensiosa.

Em determinado momento, a menina, Elena, e sua boneca se perdem na praia, o que ocasiona euforia em suas buscas. De prontidão, Leda se voluntaria à procura da criança e a reencontra, mas não à boneca. O motivo pelo qual a perda de Neni não ter retorno é revelada quando a protagonista retira o brinquedo da bolsa ao chegar em casa e se vê sozinha.

Ilustração de Mara Cerri para o livro “Uma Noite na Praia”, de Elena Ferrante [Imagem: Reprodução/Intrínseca]

Quase que de maneira involuntária e irreflexiva, Leda rouba a boneca, mas sem saber o porquê. No trecho “As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender” (p. 6), há a apresentação de uma ideia sucinta sobre a irracionalidade da ação e sua dificuldade que culmina na não devolução imediata do brinquedo à Elena e Nina.

Leda, enquanto pratica a busca pelo entendimento de sua atitude, decide cuidar de Neni. Limpa-a, compra roupas novas, penteia seus cabelos e, consequentemente, retoma o fluxo de memória para o momento onde entregou sua boneca de infância à filha mais velha, Bianca, e reagiu com repulsa ao ver que a criança não cuidou da maneira que Leda consideraria a correta a ser. Durante sua relação com Neni, busca ser o mais delicada e atenciosa possível, quase como uma maneira de reparação à mãe e à filha que foi.

“Eu mesma estava brincando naquele momento, uma mãe não é nada além de uma filha que brinca (…).” (p. 22)

Em suas memórias, divaga pela criação de Marta e Bianca. Abdicou consideravelmente de sua carreira em prol da criação das duas meninas, e demonstra ter sentido que sugavam toda a sua vitalidade e talento. Apesar de enfatizar seu amor pelas duas, não consegue escapar da espiral nociva que a recorda das exigências intermináveis da maternidade que lhe rendiam respostas de ingratidão e desgaste físico-emocional.

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota e, enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia. Sua vida quer se tornar a de outro.” (p. 45)

Leda não devolve a boneca a Nina, apesar de se encontrar com a mulher diversas vezes pela cidade e observar seu sofrimento que é ocasionado pelo sofrimento da filha e sua saudade da boneca. Permanece a observá-la como um retrato da maternidade que não foi o seu, mas por outro lado, Nina apresenta uma perspectiva de Leda de caráter sábio e confiável. O fato se decorre diante de uma conversa entre ambas, ao lado de Rosária, a cunhada grávida de Nina, na qual descobrem um fato sobre a protagonista: ela abandonou as filhas.

Após uma epifania causada por acontecimentos decisivos, Leda conhece um professor universitário e o segue. Deixa as duas filhas e o marido e retorna três anos depois.

“Às vezes, precisamos fugir para não morrer”, é o que diz a Nina quando confessa o abandono. Seu cansaço e a necessidade de recuperar a liberdade anterior à maternidade são o que diz justificar sua partida.

“Queria sentir a mim mesma de forma cada vez mais intensa, os meus méritos, a autonomia das minhas qualidades.” (p. 123)

Com o decorrer da narrativa, Leda reforça inúmeras vezes seu descontentamento com a vida de mãe, que entra em conflito com o amor pelas suas filhas — e, ainda, com o fato de não gostar de quem as meninas são. Sente falta de quem ela era antes, mas reconhece que não há meio de deixar voltar àquele espaço de tempo, pois a visão que têm dela agora é a de mãe e nada além; como aquela que carrega os fardos e obrigatoriedade de não demonstrar a realidade ambígua do que vive.

“Que bobagem pensar que é possível falar de si mesmo aos filhos antes que eles tenham pelo menos cinquenta anos. Querer ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função.” (p. 98)

Através de uma trajetória intensa e nua, Elena Ferrante disseca os contornos realistas da maternidade, sem dar importância ao desconforto que possa causar no leitor. A personagem principal da trama é descascada camada por camada em toda a sua complexidade como mãe, filha e espectadora da relação mãe-e-filha alheia. Os retornos incontroláveis às memórias colocam Leda de volta à perspectiva de juventude, enquanto exercia o papel de mãe: atitudes equivocadas, distantes de qualquer rastro de racionalidade e que, decerto, foram responsáveis por afastar as duas meninas da mãe, reforçam a perda de rumo e de identidade.

É traçado um paralelo entre Nina que perde Elena na praia; Leda que perde Bianca, quando mais nova, no mesmo cenário; E então, Elena, que perde Neni. O ciclo se repete. Talvez Leda acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que Elena. Talvez acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que foi para as próprias filhas.

Ela se aproxima de Nina. Consegue enxergá-la fora da bolha de mãe utópica que havia criado nos dias de observação na praia. É quando entende: Nina ama Elena, mas está igualmente cansada, só não possui permissão para externar tal cansaço. As gerações mudam, mas o peso e a cobrança permanecem os mesmos. As mães, ao se tornarem mães, são destituídas de qualquer ligação com a humanidade e seu papel se torna, quase que unicamente, coexistir ao restante; jamais para ela.

“Nina, por sua vez, não tinha nenhuma das defesas que eu ergui antes da ruptura. E, nesse meio-tempo, o mundo não havia melhorado nem um pouco; pelo contrário, tornara-se mais cruel com as mulheres.” (p. 166)

Após a conclusão desse fragmento da vida de Leda, que marcou a dela, de Nina e Elena para sempre, demonstra alguma satisfação ao falar com as filhas pelo telefone. Ao perguntarem “Mamãe, o que você anda fazendo, não liga mais para a gente? Pode pelo menos nos dizer se está viva ou morta?”, e então Leda responder “Estou morta, mas bem”, há espaço para uma interpretação que contemple a compreensão de que, apesar de já não ter mais a capacidade de voltar a ser quem costumava, naquele tempo remoto antes de se tornar mãe, está tudo bem.