Revolução do rádio na indústria musical

A história do rádio começa em 1860, quando as ondas de rádio foram descobertas pelo físico escocês James Maxwell, passando por sua real difusão durante a Primeira Guerra Mundial, até a chegada das transmissões no Brasil, em 1923. De lá para cá, a abordagem e influência desse meio de comunicação mudou bastante, a rádio ergueu carreiras e criou grandes sucessos com sua disseminação em massa. Mesmo que possa parecer uma indústria morta, ela apenas está se adequando, mas mantém sua hegemonia quando o assunto é difusão de hits.

A Era de Ouro do rádio aconteceu mundialmente a partir de 1927, quando passou por um processo de massificação por conta da possibilidade de transmissões sonoras de aparelhos que tocavam os discos direto no microfone, profissionalizando o meio com contratação de artistas, criação de grades com novelas, programas humorísticos e de auditório.

Com a chegada de outros artifícios midiáticos, como a TV e a internet, a rádio foi ameaçada de extinção diversas vezes, mas conseguiu e ainda consegue se adequar às novas realidades. A mais nova atualização é a transição de formatos, vindo do analógico ao digital. As emissoras possuem sites que transmitem ao vivo sua programação, seja ela recheada de músicas, entrevistas, notícias ou debates, podendo até mesmo conter imagens. Essa modalidade trouxe grande benefício, uma vez que rádios locais puderam se alastrar por toda internet, não apenas a pequena porção que antes cobria, expandindo suas barreiras geográficas e levando seu conteúdo a outros públicos, sem fronteiras.

A onda de podcasts também beneficiou o formato, fazendo com que o público voltasse a ser ouvinte. Seja escutando nas plataformas de áudio ou acompanhando o áudio do Youtube sem, necessariamente, estar vendo a imagem, os podcasts trazem de volta o storytelling ao rádio, despertando o interesse do ouvinte para ouvir a história completa, saber mais sobre o assunto, conhecer a pessoa entrevistada, todos esses estímulos atiçam a curiosidade, tornando mais pessoas fiéis ao formato – em sua versão atualizada.

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Na indústria musical, a rádio continua sendo carro forte na disseminação de músicas – com certeza não em seu formato analógico, mas em suas segmentações. Com a facilitação do processo de abrir sua própria empresa, foram criadas diversas rádios digitais que cobrem cada um dos gêneros musicais, dando oportunidades a novos artistas independentes, que conquistam o público nichado da estação sem precisar de grandes gravadoras fazendo o marketing por trás, evitando a polarização de gostos.

Polarização? Sim, em tempos remotos, quando o modelo analógico era forte, apenas músicas e gêneros rentáveis com grandes gravadoras por trás, como a Warner, Sony, Som Livre e Universal entravam na programação, para atingir superficialmente o público, fazendo-o focar apenas no que eles gostariam que fosse escutado, repetindo diversas vezes a mesma música e artista até que se tornasse um sucesso.

A polarização entra no quesito de que cada rádio fazia isso com um gênero ou artista específico, criando sucessos de extremos diferentes, enquanto músicas que seguiam a mesma linha, mas sem nenhum patrocínio, eram ignoradas. E se até os que seguiam a linha eram ignorados, os criativos que faziam obras fora da caixa simplesmente não existiam.

O formato criava personalidades endeusadas e muita rivalidade, uma vez que o espaço dentro da mídia era extremamente disputado e caro. Nesta nova fase, quem se arrisca e tem as ideias marketeiras mais criativas é que ganha destaque, indo parar nas rádios e grandes playlists organicamente, fruto da massificação do trabalho na internet.

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Isso certamente dificulta o trabalho das rádios, que antes criavam as tendências e agora tem que acompanhá-las para não ficar para trás, enquanto ainda luta com a pirataria e as novas leis de autorização do uso dessas músicas.

O que antes estava na rotina do indivíduo agora tem que disputar com diversas distrações para arranjar uma migalha de atenção, e nada cria mais relevância do que se sentir visto. A estratégia das emissoras para manter a audiência é um sistema de participação do ouvinte, quando este se sente parte da programação e tem seus pedidos atendidos, instintivamente cria um laço emocional com o programa e seus apresentadores, resultando na fidelidade deste indivíduo, que irá inserir o rádio em sua rotina meticulosamente – a atenção está nos detalhes, e o reconhecimento é uma grande porção desta migalha.

Entre trancos e barrancos, o rádio ainda vive! Assim como todos os antigos meios de comunicação, o rádio precisou se atualizar para continuar em vigor, abandonando antigos costumes e abraçando a globalização, tudo isso precisando manter a essência do emissor e sua ligação com o receptor. Essas mudanças foram drásticas e tem seus pontos positivos e negativos, mas não anulam o esforço de emissoras e aspirantes a manter o sistema ativo, mesmo que com diferentes dinâmicas.

Beleza no audiovisual: O papel da caracterização nas artes cênicas

Em 1981, o aclamado O Homem Elefante de David Lynch saiu do Oscar de mãos vazias, apesar de suas 8 indicaçoes. A indignação da crítica com a falta de reconhecimento da Academia ao filme foi tamanha, especialmente pelas técnicas impactáveis de caracterização que a película mostra, que a Organização estruturou a nova categoria para premiar profissionais de cabelo e maquiagem.

A caracterização desperta atenção dos espectadores e tem seu espaço próprio nas grandes premiações. Mas muito mais que uma categoria no Oscar, é um importante elemento na narrativa de uma peça, produção cinematográfica e televisiva ao complementar outros aspectos e pode ser até mesmo ser parte ativa na história de um personagem.

Breve história sobre a maquiagem cênica

O teatro se popularizou na Grécia Antiga e, ainda que peças fossem encenadas com as famosas máscaras de Comédia e Tragédia, existem evidências de que chumbo branco e vermelho, material extremamente tóxico, chegaram a ser utilizados na época como parte da caracterização de atores. Na Europa, com o passar dos séculos, a maquiagem passou a ser bastante utilizada por atores – ainda que fosse discriminada pela Igreja, principalmente na Idade Média – até ser plenamente aceita no século XX e a função de maquiador ser vista como profissão. 

Mas foi no oriente que a técnica se popularizou. Os shows de encenação chineses tinham os “cara pintada”, figuras que como o nome já indica apareciam com rosto inteiramente pintado de branco. Já no Japão, os tradicionais teatros Kabuki se utilizavam de forte maquiagem (kumadori) para encenar personagens e mostrar símbolos.

Em Hollywood, a família Westmore revolucionou a área. O britânico George Westmore fundou o primeiro departamento da área no local e seis de seus filhos trilharam o mesmo caminho, cada um deles liderou trabalhos nos maiores estudos e foram responsáveis por clássicos como Rebecca, E O Vento Levou, Casablanca, Guerra dos Mundos, Sabrina entre outros. Já são quatro gerações de atuantes no segmento.  Um dos integrantes mais recente, Michael Westmore já ganhou 9 Emmys e 1 Oscar por Marcas do Destino.

O papel da caracterização no cênico

Primeiramente é importante entender as diferenças entre maquiagem para TV, cinema e palco.

No que diz respeito à maquiagem, existe uma diferença importante entre o que é visto na tela e o que é visto pessoalmente. O maquiador de Cinema e TV se preocupa com os mínimos detalhes, principalmente com a tecnologia de alta definição. Qualquer falha ou exagero é visível. Principalmente no cinema, onde a tela é gigantesca e as proporções aumentam drasticamente. Já no teatro, quanto mais você destacar e exagerar, mais será possível o público enxergar a arte e as expressões. Mesmo que esteja sentado nas últimas poltronas.”, aponta Mirella Oliveira, maquiadora de cinema e fundadora do portal Maquiagem No Cinema.

Por conta disso, as técnicas utilizadas também, se diferem.

[…] as técnicas de envelhecimento costumam ser diferentes para teatro e vídeo. No vídeo, a preocupação é sempre com o realismo, o espectador não deve enxergar a maquiagem. Geralmente são utilizadas técnicas de efeitos especiais (que envolvem próteses, produtos químicos que encolhem a pele, próteses capilares e de pelos postiços, lentes de contato e até próteses dentárias). Já no teatro é mais comum o uso de técnicas de luz e sombra e perucas, que, mesmo de longe, podem ser vistas. As marcas e linhas de expressão podem ser feitas através de um jogo de cores, gerando um efeito de ilusão de ótica. Além disso, no cinema e na TV, as cenas são rodadas diversas vezes, em ângulos diferentes, muitas vezes numa cronologia diferente do roteiro e, por fim, são editadas.  As maquiagens podem ser retocadas a cada corte de câmera e existe uma preocupação com a continuidade de cenas. No teatro, tudo acontece ao vivo.”

O papel da maquiagem é, em conjunto com outros elementos, comunicar a narrativa proposta para a produção. Por meio da caracterização entendemos não apenas a aparência do personagem – no sentido mais literal – mas seu espírito, ambiente, motivações e impressões. A maquiadora completa: “A criação de um personagem parte da concepção de suas características físicas e psicológicas descritas no roteiro, somadas à construção estética por parte dos departamentos de arte, figurino e caracterização, trazendo elementos físicos que contribuem para a atuação. Os personagens são criados a partir desta somatória de especialidades e a caracterização é, na minha opinião, tão importante quanto as demais.”

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, conta a história de dois pré-adolescentes que se sentem deslocados em seus meios, e após se conhecerem em uma apresentação de teatro, se apaixonam, passam a trocar cartas e decidem fugir. Suzy Bishop, a jovem protagonista do filme, é vista por seus pais como depressiva e problemática. A personagem usa maquiagem mais escura nos olhos e o cabelo levemente bagunçado, que trazem ar rebelde, impulsivo, uma certa tentativa de parecer madura no meio de adultos disfuncionais, e contrastam com o ambiente aparentemente harmônico (e um tanto exaustivo) que a garota vive. Suzy é o ponto fora da curva da família, é não apenas compreensível, mas perfeitamente planejado, que seus elementos visuais fujam do senso comum dos locais que passam.

Esse é só um exemplo de trabalho dentro de produções cinematográficas, trabalho de caracterização do filme é reconhecido justamente por carregar tantos simbolismos dentre outros presentes em roteiro, trilha e direção de arte.

Com tudo isso, é fácil notar quer  trabalho que equipe de maquiagem de uma produção é mais complexa do que pode-se imaginar, visto que a caracterização é um elemento essencial para se contar uma história e deve ser minuciosamente pensada para atender o plataforma que a história é contada, fazer sentido para toda a equipe envolvida, ajudar atores no processo de encenação e abraçar todas as características de um personagem.  

Mirella concorda: “Eu mesma só fui entender a proporção da importância do maquiador quando realizei meu primeiro trabalho em um set. Até então, como espectadora, eu acreditava que as pessoas estavam daquela forma por mero acaso e que o maquiador de cinema só cuidava das grandes transformações. Quando entendi que tudo é estudado nos mínimos detalhes, desde os figurantes até os protagonistas, e que cada um desses elementos é minuciosamente pensado e criado, me fascinei! E é essa a minha iniciativa com o portal, contribuir para que o mundo entenda a importância do nosso trabalho. Questionar o porquê de, na maioria das vezes, os créditos do maquiador estarem entre os últimos a serem apresentados, enquanto o figurino, por exemplo, é um dos primeiros. Não os desmerecendo, muito pelo contrário. Ambos são importantes, na mesma proporção.”

Quando a beleza sai do audiovisual

Muitas vezes o trabalho é tão marcante que ultrapassa as barreiras da tela não somente como fantasia (o que sempre foi bastante comum) mas como parte da vida de seus espectadores.

O exemplo recente – e já clássico – é o de Euphoria. Por um lado, temos Cassie, uma personagem cuja beleza é um elemento de autoaceitação tão grande que se torna quase uma tortura. A jovem acorda de madrugada para seguir longo processo de skincare, e se certifica de estar sempre chamando atenção, linda, sexy e adequada mesmo que isso a coloque em um lugar destrutivo O ritual da personagem, porém, viralizou nas redes e hoje é fácil encontrar postagens que explicam e ensinam os passos.

Esse é só um exemplo da influência que a série tem no meio. As produções estilo Euphoria (delineados ousados, cores, pedras, brilhos) hoje são comuns de se ver, e a maquiadora do show, Doni Davy, lançou uma linha de beleza. Além disso, outras produções também inspiraram linhas de beleza em parceria com marcas de cosméticos, como Bridgerton, Stranger Things, Pantera Negra e Capitão América.

Euphoria. Imagem/Reprodução HBO

Alguns trabalhos marcantes

Embaixadores de Beleza: a estratégia de marketing favorita do mercado

Sempre se falou muito sobre garotos-propaganda, representantes – famosos ou não – escolhidos para representar marcas dentro de um contexto publicitário, mas que muitas vezes ficam tão populares e familiares ao público que virão espécies de rostos e vozes oficiais. Temos exemplos em vários nichos.

Dentro disso, podemos inserir o conceito de embaixador da marca, conhecido como brand ambassador, uma celebridade, um criador de conteúdos ou até mesmo uma figura anônima que, de alguma forma, represente bem o produto. A ideia é ter um contrato de longo prazo que liga os envolvidos em uma parceria que traga autoridade e familiaridade, diferente de um contrato pontual em que o perfil é escolhido para uma ativação mais específica e não necessariamente criará um vínculo do merca. 

Não necessariamente uma marca de beleza precisa chamar um especialista no assunto, como um maquiador, cosmetologista ou pesquisador da área. Mas é importante que o nome escolhido conheça e se identifique, e que ele e o contratante compartilhem valores básicos que o público já conhece em ambos os lados. Um dos principais motivos para apostar no formato é a consistência: o consumidor irá associar os envolvidos, seus gostos, hábitos e princípios e ver essa parceria estampada em todo lugar.  

Tendo todos esses pontos entende-se a diferença de um contrato mais simples para esse formato, e principalmente a essencialidade da sinergia entre todas as pontas. Exemplo nacional é o de Juliette Freire com a Avon. No anúncio, Danielle Bibas, vice-presidente de marketing da Avon, declarou ao Meio e Mensagem que a escolha veio pois “a paraibana carrega muitos propósitos de Avon, como o empoderamento feminino e a luta pela equidade e diversidade”. As características e a ligação organicamente construída entre a personalidade e os produtos durante o BBB – o batom vermelho da marca, por exemplo, virou uma das marcas registradas da participante na casa – foram grandes fatores.

A escolha ideal

O que você quer? Pretende chamar atenção de quem? Do que? Qual é a imagem que se quer passar? Bella Hadid é a escolha da Dior Beauty para aproximação com a GenZ, geração antenada e com grande poder de compra. Tantas celebridades coreanas estão sendo contratadas (especialmente no luxo) nos últimos anos pois o mercado asiático é conhecido pelo grande alcance de grifes.

No final, cada empresa tem questões que pesam na escolha de um embaixador, mas critérios em comum que podemos listar são: identificação genuína, popularidade e poder de marketing e venda. É sempre interessante também analisar o background, pois isso interfere diretamente em como a escolha pode refletir interna e externamente.

Jojo Toddynho foi nomeada embaixadora de Jean Paul Gaultier no Brasil. Pensando que JPG é um criativo, provocador, que aposta no mais inclusivo e expressivo, ter a cantora como parte do time faz muito sentido. A recepção foi bastante positiva, e a popularidade da Jojo resultou numa repercussão dentro e fora dos mercados de beleza e marketing. A cantora até mesmo foi chamada para integrar uma campanha global da marca. Todos os pontos listado podem ser visualizados aqui e  se encaixa muito bem.

Jojo Toddynho para Jean Paul Gaultier. Reprodução/Instagram

A Pantene é famosa por trabalhar com squad, estratégia que vem da preocupação da P&G em mostrar que os produtos podem ser usados por todos. A ideia é refletir  “todo cabelo é um Cabelo Pantene” – frase destaque na comunicação digital da marca. Por isso o casting é composto por celebridades e criadoras de conteúdo de diferentes portes, e diversidade nos tipos de fios, forma de trabalho, alcance e origem.

O trabalho pode ser realizado por campanhas digitais, tv, mídia impressa. É parte do processo alinhar os passos de forma que os conteúdos tenham um bom timing e que a marca seja mostrada como parte real do dia a dia e trajetória do protagonista da campanha.

Na beleza de luxo, que costuma ser mais criteriosa e menos agressiva na abordagem, é uma oportunidade de fazer uma publicidade mais sutil e natural, ainda assim muito certeira. O MET Gala é um grande momento para isso, Kaia Gerber de YSL Beauty e Cara Delevigne para Dior Beauty são dois exemplos da última edição.

Um passo além

A vezes a parceria dá tão certo que criar uma linha exclusiva se torna um passo natural. Os números já conquistados somados ao potencial de vendas desse próximo passo, claro, são alguns dos principais fatores. Mas é essencial que a linha carregue características, gostos e histórias para atrair a atenção do público e passar um sentimento de proximidade. Empolga os fãs saber que seu ídolo se envolveu, foi ouvido durante o processo.

A já citada parceria de Juliette com a Avon resultou em uma edição especial, composta por produtos que já faziam parte do portfólio da marca Avon e agradam a cantora e ex-bbb. Gigi Hadid e Maybelline trabalham juntos desde 2015, e em 2017 a coleção Gigi x Maybelline, inspirada na cidade natal e estilo de vida da modelo, chegou às lojas. Lisa do Black Pink ganhou sua própria linha com a MAC em 2021, um ano após ser anunciada como primeira idol embaixadora da marca. Talento, ousadia e confiança da artista são características que guiaram o trabalho.

Em todos os aspectos, o que pode-se entender é que o trabalho com embaixadores não é simples! Não somente pelo volume de trabalho, mas porque faz parte da construção de imagem e comunicação de uma empresa.

Beleza cultural: a influência das características culturais nos ideais de beleza pelo mundo

Quando pensamos em cultura, as primeiras características que vêm à mente são idiomas falados, costumes de etiqueta, crenças, sistema educacional e marcos históricos. Porém, outro importante ponto que também se destaca na diferenciação entre culturas é a beleza, ou melhor, o que esse termo representa. Formatos de corpo, comprimento dos cabelos, estilo de maquiagem e até mesmo o sorriso, podem ser considerados características culturais de um grupo social e exercem influência direta nos ideais que definem o que é belo nas distintas culturas ao redor do globo. 

O gestor educacional Júlio César de Lima, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo responsável pela página Sociologia Cotidiana, pontua que cada sociedade possui sua cultura que vai se modificando ao longo do tempo a partir de contato com outras, em um processo ininterrupto. “No passado, o contato entre diferentes culturas era físico, através de imigrações, invasões, por exemplo. […] Atualmente, as chamadas mídias sociais vem acelerando ainda mais a difusão cultural.” Com base nesse raciocínio, ele dispõe que cada grupo cultural, cada povo e sociedade possui seu ideal de beleza, moda e costumes, no entanto, eles são fluidos e modificam-se muito rapidamente “Se o ideal de beleza é o estilo, padrão ou modelo socialmente definido como belo, ele existe em toda e qualquer sociedade, mas a questão é que ele é marcado pela fluidez.”.

Ademais, a busca pelo encaixe perfeito nos padrões de uma sociedade também podem ser resultantes da vontade de gerar um sentimento de pertencimento a um grupo específico, funcionando como uma forma de validação de valor social. Nesse sentido, Júlio César menciona: “O homem é um animal gregário, só existe porque vive em grupo. Com a chamada sociedade de consumo, a necessidade de se viver em grupo divide espaço com a necessidade de se sentir parte desse grupo. […] Fazer parte dele requer sim ser validado em alguns quesitos estabelecidos.”

Mesmo em países multiculturais, como o Brasil, sabemos que existem algumas características que são intrínsecas à construção social do que é belo. Porém, de um ponto de vista mais “macro”, podemos notar que determinados padrões são vistos de forma mais ampla nos diferentes continentes. 

Em se tratando das Américas, no Norte, como nos Estados Unidos, observamos que bustos volumosos, pele, cabelos e olhos claros são as características mais apreciadas nas mulheres, enquanto dos homens é esperado um físico atlético e uma barba bem cuidada, em um visual conhecido como “lumbersexual”. Já na região Central e Sul, peles bronzeadas, cabelos longos e corpo curvilíneo, o famoso “corpo violão”, formam o ideal estético feminino, ao passo que o masculino é composto pela pele também “beijada pelo sol”, cabelos escuros e um porte malhado, em uma mistura de casualidade elegante com um toque sensual. 

Nas terras europeias, continente em que a população tende a ser mais reservada e discreta no que tange ao comportamento, observamos que corpos esguios e um visual casual são as características gerais dos padrões de beleza que, todavia, podem sofrer pequenas alterações de país para país. Se estivermos falando sobre a França, pele bem cuidada, físico magro, cabelo levemente bagunçado e maquiagem leve são o combo apreciado – também compartilhado pela Inglaterra, com a diferença de que esta opta por um visual mais aristocrático e sério, menos despretensioso que o francês. Em se tratando da Itália, os padrões ficam levemente mais extravagantes, o corpo segue magro, mas o busto aumenta de tamanho, as pernas ficam mais torneadas, os cabelos ganham mechas e um comprimento maior; enquanto a Espanha preza por ares mais sexy, de pele morena, olhos e cabelos castanhos, corpos curvilíneos e bem torneados, enquanto, em contraponto, a beleza nórdica preza por peles alvas, cabelos bem claros e uma imagem quase etérea.   

O continente africano também conta com variações no ideal que o compõem, se observadas suas diferentes partes. Em se tratando da região sul, que sofreu grande influência da cultura europeia por conta da colonização, observamos um apreço por traços delicados, poucas curvas e um físico esguio, levemente malhado. O que vai de encontro ao observado em partes da África Ocidental, em localidades como a Mauritânia, em que os corpos volumosos são almejados por serem a representação de prosperidade financeira e disponibilidade de recursos. 

No continente asiático, onde a praticidade, discrição e agilidade são pontos fortes de sua cultura, o que é visto como belo possui traços finos, uma pele bem cuidada e clara, a união de características que, juntas, consigam formar uma imagem de inocência e leveza que são associadas à elegância. 

Porém, mesmo sendo tão discutidos e abordados com mais intensidade nos tempos atuais, o estabelecimento de ideais de beleza têm um histórico longo e notável. Os primeiros registros de uma espécie de padrão no tocante ao belo foram observados na Pré-História, quando o uso de garras e dentes de animais como adornos representava o poder masculino e a obesidade feminina era vista como sinônimo de prosperidade em recursos e símbolo de fertilidade. Posteriormente, na Grécia Antiga, onde muito se valorizava a questão da harmonia e equilíbrio, os corpos compostos por quadris largos e seios volumosos – que eram associados à fertilidade – além de um pele clara, uma aparência etérea e que transmitisse a ideia de saúde acabaram por ser interpretados como o ideal; enquanto no Egito Antigo (em que a aparência física era de grande importância), corpos esguios, pele bronzeada e ausência de pelos representavam a imagem almejada. Sob esse panorama, observa-se que mesmo com a passagem do tempo e a alteração de muitos pontos tidos como representantes do bela por motivos diversos, como os de cunho religioso e cultural, o que perdura até os dias de hoje é a constante mutação do que é compreendido como parâmetro. Dessa forma, com o entendimento de que as raízes dos padrões de beleza são profundas, ainda que disformes, o questionamento é: será possível vislumbrar uma sociedade livre desses ideais? Júlio César de Lima pontua que acredita ser improvável que isso aconteça. “Acredito ser improvável a existência de uma sociedade livre das amarras dos padrões de beleza e então, a discussão que cabe pode tomar outro rumo, como por exemplo, no campo da ética, que pode lançar reflexões sobre consequências para a saúde física, mental e até social dos excessos causados pela busca irrefletida por estar bonito, com o corpo ideal, com o cabelo da mocinha da novela […] Em resumo, continuaremos tentando estar belos, mas provados por questões sobre como estar belo de maneira mais racional.”

Por fim, em uma comparação meramente singela, podemos analisá-los como uma faca de dois gumes que corta um mesmo entendimento em duas questões, pois, o questionamento de um padrão pode representar o entendimento de que há outro “melhor” para ser colocado em seu lugar. Mesmo sendo rechaçados por muitas pessoas e transformados em pauta de discussões acaloradas ou, em outros casos, tendo sua existência negada dada a diversidade de ideais presentes nos diferentes continentes, os padrões de beleza reverberam para além do campo da estética, porque, como foi exposto, por meio deles conseguimos diferenciar momentos históricos, grupos sociais e até mesmo entendimentos culturais. Conseguimos, então, observar que a pluralidade da cultura faz com que o belo não seja uma afirmação, mas, sim, um eterno questionamento. 

Como os óleos essenciais podem trazer benefícios para a pele?

Entre os diversos tipos de skincare e produtos para a pele e corpo disponíveis no mercado, a prática de utilizar óleos no dia-a-dia vem se tornando muito comum. O uso de óleos essenciais e vegetais está tão em alta que até a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) reconheceu a aromaterapia como uma prática terapêutica de bem-estar complementar a outros tratamentos. Mas como ela funciona?

AROMATERAPIA

O processo da aromaterapia consiste no uso de óleos concentrados voláteis (os essenciais, com nome derivado da sua essência) e gorduras (óleos vegetais) extraídos de plantas, cujas essências promovem o bem estar e saúde. A técnica consiste em quatro etapas: manutenção da boa forma física, alimentação consciente, relaxamento profundo e direcionamento dos pensamentos. Porém, a aromaterapia tem que ser recomendada por profissionais médicos, aromaterapeutas, psicoterapeutas e profissionais de estética como massagistas. 

As principais formas de utilização destes óleos são os usos aromáticos e tópicos. O uso interno é feito em alguns países e culturas, porém ainda não é permitido no Brasil. Além disso, eles podem ser utilizados em:

  • massagens;
  • banhos e escalda-pés;
  • colares aromáticos;
  • inalação.

Os óleos essenciais podem ser utilizados por meio de inalação, colocando algumas gotas na mão, e após esfregá-las, inspirando seu aroma; ou por uso tópico, sendo diluídos em óleos vegetais e usados para massagens corporais. 

Massagem com óleo essencial [Imagem Shutterstock]

Esfregá-los em partes do corpo como peito, pescoço, pulso, testa, mãos e pés também podem ajudar a relaxar a pele (nunca em contato com a pele, mas sim diluídos em óleos vegetais, por exemplo, para evitar alergias). A dermatologista Dra. Aline Tiemi diz que:

“O óleo essencial nunca deve ser usado puro na pele pois ele pode irritar, causar alergias, e até mesmo pigmentações como é o caso dos óleos cítricos (principalmente associado à exposição solar). […] Seu uso pode ser juntamente com o restante da rotina de cuidados da pele e cabelos, basta acrescentar algumas gotas do óleo essencial nos produtos de uso diário (limpadores, hidratantes, máscara capilar, shampoo ou condicionador)”.

“Os rótulos desse tipo de produto nem sempre evidenciam todos os componentes da fórmula, pois não há uma regulamentação para isso. Além disso, o objetivo principal dos processos de extração de óleo essencial é capturar aromas. Sendo assim, a maioria dos óleos não deve ser ingerida.” Completa ela.

A PRÁTICA PODE SER REALIZADA EM CASA?

Sim. Os óleos utilizados podem ser encontrados no mercado e você pode fazer ambos os tipos de utilização. Algumas pessoas ainda preferem realizar a inalação por meio de difusores, aparelhos que são feitos especialmente para o uso de óleos essenciais. A aromaterapia também pode ser feita no ambiente, como velas de aromaterapia (que contêm óleos essenciais na cera) ou até mesmo diluídos em água e borrifados no quarto ou em seu travesseiro.

Aromaterapia com velas a base de óleos essenciais. [Imagem Shutterstock]

Outros métodos como adicionar os óleos numa panela com água fervente e inalar o vapor aromatizado ou colocar algumas gotas em sais de banho também são muito utilizados. Porém, a Dra. Aline Tiemi adverte:

“Com relação a seu uso não há dúvidas que trazem uma sensação de bem-estar, no entanto é importante reforçar a falta de estudos de qualidade sobre seus efeitos. Existem diversos estudos, mas com avaliações subjetivas, poucos pacientes, pouca padronização, entre diversos outros problemas. […] O importante é que sejam bem indicados e que sejam sempre usados como um adjuvante no tratamento indicado pelo médico, principalmente pacientes com quadros de doenças de pele mais graves.” 

Assim, é sempre bom ter uma recomendação profissional antes de realizar os procedimentos.

OS ÓLEOS ESSENCIAIS MAIS COMUNS E SUAS PROPRIEDADES

“Os óleos essenciais são basicamente extratos vegetais concentrados obtidos por prensagem ou destilação a vapor de flores, folhas, cascas, frutos ou sementes.” diz Aline. Abaixo, ela lista alguns dos óleos essenciais existentes e suas propriedades:

Óleo essencial de lavanda. [Imagem Shutterstock]
  • Lavanda:  ansiolítica e analgésica 
  • Melaleuca: anti microbiana, anti fúngico, reduz oleosidade
  • Gerânio: Anti-inflamatório.
  • Citronela: Repelente de insetos.
  • Rosa Mosqueta: hidratação.
  • Alecrim: Antioxidante e antimicrobiano.
  • Lemon grass: Anti séptico, tônico e estimulante.
  • Bergamota: despigmentante.
  • Camomila: Calmante e anti-inflamatório.

BENEFÍCIOS DO USO DOS ÓLEOS ESSENCIAIS

Os principais benefícios da utilização de óleos essenciais estão na promoção do equilíbrio físico, mental, espiritual e emocional de quem realiza o processo de aromaterapia.

O alívio de sintomas como estresse e ansiedade também pode ser feito por meio dos óleos, assim como o alívio da insônia, por terem efeitos calmantes. Porém, cada óleo se adapta diferentemente no corpo de cada pessoa, podendo funcionar melhor para alguns do que para outros. Por isso, é importante analisar o desempenho do óleo de acordo com seu uso.

É importante certificar-se de que os óleos sejam 100% puros e não apenas aromas, pois os segundos funcionam apenas como perfumes e são sintéticos, não tendo ligação nenhuma com o bom estar, diferentemente dos óleos essenciais puros.

Além do corpo e bem estar, os óleos essenciais podem também fazer bem aos fios. Alguns óleos podem auxiliar no crescimento capilar de forma saudável, nutrindo a raiz. Além disso, o óleo de lavanda pode acalmar e hidratar o couro cabeludo por conta de suas propriedades cicatrizantes e antimicrobianas.

Wellness: a beleza alinhada com o bem-estar

Recentemente, a Galeries Lafayette, um dos mais icônicos e tradicionais centros de compra da Europa, anunciou a abertura de uma área dedicada ao wellness. Com inauguração prevista para julho, o departamento terá funcionalidades e venda de produtos ligados ao relaxamento e bem estar de dentro pra fora – beauty & care, medicina alternativa, suplementos. Além disso, contará com serviços como massagens, academia com horário de funcionamento estendido e um restaurante. Esse é só mais um passo do movimento do investimento em well being de espaços físicos, virtuais e marcas nos últimos anos.

Galeries Lafayette. Imagem: Arrivals Guide

Será coincidência tantos estarem apostando na mesma ideia? De jeito nenhum! O wellness de fato não é um conceito novo, porém é notável a popularização da ideia nos últimos anos e os pesquisadores de tendências apontam os desdobramentos disso. Hoje, o público procura bens e serviços que não apenas trazem benefícios estéticos, mas também sensação de cuidado, autoestima e conforto. Consequentemente, a área passou a perceber que, a cada dia mais, a beleza é sobre bem pessoal além da aparência e consumo.

TRADUZINDO O CONCEITO

Wellness ao pé da letra significa bem estar. Na prática, a ideia que trazemos aqui se relaciona a um estilo de vida satisfatório e estimulante. É sobre conhecimento e consciência corporal, saúde física e mental, e momentos de relaxamento, alimentos benéficos. Dentro dessa pauta, cabe também a discussão sobre processos de produção éticos e preocupação com ingredientes.

SEXUAL WELLNESS

Neste mesmo segmento, surge a prática que ganha cada vez mais importância: o sexual wellness, bem estar sexual, que propõe o prazer aliado à saúde, educação e liberdade para falar e conhecer o próprio.

Ainda que tabus existam, principalmente se tratando de mulheres cis e corpos trans, atualmente busca-se tratar o assunto com muito mais abertura e respeito. Até mesmo empresas que não são especialistas no segmento, como Amaro, Sephora e Simple Organic já investem na categoria, enquanto veículos diversos têm editorias e plataformas próprias para o assunto.

A Simple Organic lançou uma série de produtos de sexual care.
Imagem: Divulgação/Simple Organic 

EXISTEM PONTOS NEGATIVOS?

É difícil (e parece um pouco improvável) pontuar os malefícios de uma rotina de bem estar próprio. Porém, é inegável que criou-se um ambiente muito idealizado de estilo de vida, que é falsamente dado como correto. A utilização dessa falsa perfeição ser ligada ao wellness é prejudicial e desfoca a ideia real.

De repente, pareceu fácil se equilibrar entre obrigações, lazer e outras demandas do dia, é imprescindível ter um ritual incrementado de skin e bodycare, tempo para longos banhos, momento com velas, incensos e óleos essenciais. A indústria de beleza, por muitas vezes, incentiva tudo isso com lançamentos, anúncios e postagens, enquanto as redes sociais se encheram de pessoas que supostamente vivem esse lifestyle “ideal”. Na vida real, fatores como rotina, local, oportunidades ou realidade financeira nem sempre permitem que quem recebe a mensagem possa realmente se inspirar no que vê, o que pode gerar inúmeras frustrações. Viver influenciado por essa imagem erroneamente vendida como ideia é o problema. Mas precisamos pontuar que esse problema é causado por quem vende essa imagem, e fazer uma separação é importante.