Gal Costa: a eterna musa da Tropicália e MPB

Nesta quarta-feira (9), o país acordou com a notícia da morte de uma das suas maiores cantoras, Gal Costa, aos 77 anos. Um dos ícones da música popular brasileira, Gal tinha 57 anos de carreira e mais de 40 álbuns lançados. Em outubro de 2021, a cantora iniciou uma grande turnê que revisitava grandes sucessos dos anos 80 na MPB que entrou na lista de festivais no Brasil e tinha planos para se expandir na Europa. Infelizmente, a agenda de shows foi interrompida há alguns meses para a artista realizar uma cirurgia.

Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em 26 de setembro de 1945 na cidade de Salvador. O apelido Gal foi criado pelo produtor Guilherme Araújo, que preferiu trocar o nome Maria da Graça que foi apresentado no início de sua carreira. A artista conheceu Caetano Veloso em 1963, aos 18 anos, apresentada por sua amiga e vizinha Dedé Gadelha, futura esposa de Caetano. Assim, se iniciou uma grande amizade e profunda admiração entre os cantores que colaboraram várias vezes em suas carreiras.

Gal estreou no espetáculo Nós, Por Exemplo em agosto de 1964, na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. Ao lado de grandes nomes como Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano, a artista também estrelou o show Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova. A primeira aparição em um álbum foi no disco de estreia de Maria Bethânia, irmã de Caetano, na faixa Sol Negro em 1965. Em seu primeiro compacto (disco de vinil que só tinha duas canções) regravou as faixas Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil, e Sim, foi você, de Caetano Veloso.

O primeiro LP oficial foi Domingo com seu bom amigo Caetano, lançado em 1967. A música de destaque do disco foi Coração Vagabundo, um dueto entre os cantores. Em 1968, Gal participou do álbum Tropicália ou Panis et Circencis com Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano Veloso, Os Mutantes e Tom Zé. Esse disco foi o manifesto musical do movimento do tropicalismo, que mesclava elementos tradicionais da cultura brasileira com as tendências estrangeiras da época.

Gal no IV Festival da Música Popular Brasileira, em 1968. [Imagem: Acervo Estadão]

A revista Rolling Stones Brasil, considera Tropicália como o segundo dos 100 maiores discos da música brasileira. O álbum que moldou o futuro da música popular brasileira que contrastava com a formalidade da bossa nova teve como maior hit a faixa Baby, escrita por Caetano e interpretada por Gal. Esse foi o primeiro grande sucesso solo da cantora, que se tornou um grande clássico da MPB.

Em 1969, ela lançou seu primeiro disco solo intitulado Gal Costa que contava com três novos grandes hits, Divino Maravilhoso, Que pena (Ele já não gosta mais de mim) e Não identificado. No mesmo ano gravou já o segundo disco solo, chamado Gal, que foi a obra mais conceitual e psicodélica de sua carreira. O destaque do álbum vai para as canções Meu nome é Gal e Cinema Olympia. Em 1981, protagonizou uma das cenas mais icônicas da TV brasileira com Meu nome é Gal, em especial inédito da série Grandes Nomes na TV Globo. Nela, a cantora duelava com um solo de guitarra, atingindo vocais cada vez mais agudos com sua conhecida afinação invejável.

Gal realizou em 12 de outubro de 1971 um dos show mais importantes de sua carreira e da música brasileira, no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana. A série de espetáculos Fa-tal foi dirigida por Waly Salomão e gerou o disco ao vivo Fa-Tal / Gal a Todo Vapor, com os sucessos inéditos Vapor barato, Como 2 e 2 e Pérola negra. A performance se tornou icônica exatamente pela época em que foi realizado, com Caetano e Gil exilados em Londres, Gal desafiava a ditadura militar e se tornava porta-voz da contracultura do tropicalismo.

Dessa irreverência, foi lançado o álbum Índia em 1973 como o sexto álbum de estúdio da artista. Produzido por Gilberto Gil, o disco era vendido coberto de plástico, depois das imagens da capa e contracapa serem alvo dos censuradores na época. A capa é estampada por um close em Gal com biquíni vermelho e a contracapa mostrava parte dos seios da cantora. Na ditadura, foi a primeira vez em que um disco saiu com a embalagem lacrada e acabou despertando a curiosidade de todos.

Gal Costa também fez muito sucesso ao gravar músicas para as aberturas de novelas da Rede Globo. Em 1975, lançou Modinha para Gabriela, escrita por Dorival Caymmi para o enredo de Gabriela. Na segunda versão da novela, em 2012, Gal interpretou a canção mais uma vez. Em 1988, gravou a canção Brasil, escrita por Cazuza, Nilo Romero e George Israel para a telenovela Vale Tudo. Para a produção Deus nos Acuda, lançou Canta Brasil em 1992, e para Torre de Babel, gravou Pra Você em 1998.

Ao lado de seus conterrâneos e grandes amigos Gilberto Gil, Caetano e Maria Bethânia, Gal reuniu o grupo chamado Doces Bárbaros para uma turnê pelo país em comemoração aos 10 anos de carreira deles. O conjunto de artistas rodou o Brasil em 1976 com o espetáculo, que resultou em um disco ao vivo de mesmo nome e um documentário dos bastidores. Doces Bárbaros foi um dos mais importantes grupos da contracultura dos anos 70 e até virou enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira em 1994.

O quarteto Doces Bárbaros. [Imagem: Reprodução]

Em 1978, Gal Costa apresentou seu álbum Água Viva, o primeiro disco de ouro de sua carreira (ultrapassando a venda de 40 mil cópias). Desse projeto foi criado o espetáculo Gal Tropical, a virada de chave para a cantora no mainstream. Já que amadurecia sua imagem de musa hippie do tropicalismo para uma cantora solo mais estabelecida. A apresentação foi sucesso de crítica e gerou outro disco de mesmo nome, em que cantava seus grandes hits e faixas inéditas, como Força estranha, escrita por Caetano Veloso, Balancê e Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono)

Em seguida vem o álbum Profana, lançado em 1984, e outro ponto alto da discografia da artista. As canções fenômeno do projeto foram Chuva de prata, com participação do grupo Roupa Nova, e Vaca profana. No ano seguinte, Gal seguiu desafiando os limites da liberdade feminina e posou nua para a revista Status, quando estava prestes a completar 40 anos. Outro momento marcante aconteceu em 1994 na apresentação da música Brasil no Rio de Janeiro, onde ela apareceu de camisa aberta e os seios à mostra para o choque do público.

A cantora foi homenageada pela Academia Latina das Artes e Ciências da Gravação em 2011, na cerimônia do Grammy Latino. Gal Costa recebeu o grande Prêmio à Excelência Musical, pelo conjunto de sua discografia. O último projeto com faixas inéditas foi A Pele do Futuro, em 2018. Esse que foi seu quadragésimo álbum de estúdio, contou com participações de Maria Bethânia e Marília Mendonça. Em 2021, foi lançado o último disco da cantora, Nenhuma Dor, com regravações de seus maiores clássicos. O elenco de participações contava com artistas masculinos da nova geração, como Zeca Veloso, Seu Jorge, Silva e Rubel.

Parte da capa do álbum comemorativo, Nenhuma Dor. [Imagem: Reprodução]

Em sua homenagem, o filme Meu Nome é Gal que conta a vida da cantora  já estava em produção e chega aos cinemas na primeira semana de março de 2023, no Dia Internacional da Mulher. Gal será interpretada no longa pela atriz Sophie Charlotte. A cantora sempre foi discreta quanto a sua vida pessoal, mantendo a vida da família e relacionamentos na esfera privada. 

Gal era assumidamente bissexual e manteve namoros com homens e mulheres anónimos e famosos. Em entrevistas revelou nunca ter conseguido engravidar por um problema físico e realizou o sonho da maternidade através da adoção. Em 2007, adotou um menino de dois anos de idade, após visitar um abrigo no Rio de Janeiro, e o batizou de Gabriel. 

A importância de Gal Costa para a música brasileira é inestimável, graças a seu timbre de voz, afinação e vocais impecáveis. A cantora se tornou a musa da tropicália e da MPB em um cenário em que o público precisava de música para sua luta. Gal trabalhou com os maiores artistas brasileiros, carregando composições de seu amigo Caetano Veloso, de Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento.

[Imagem: Reprodução]

Sua sensualidade profana durante a ditadura, lhe rendeu o título de ídola da contracultura nos anos 70 e seu trabalho nesse tempo foi inovador com ruídos e misturas não típicas da música brasileira. A cantora nunca se prendeu a um gênero musical específico, o que a permitia sempre estar atenta ao que havia de novo e incorporar essas novidades ao seu trabalho. 

Gal sempre soube se atualizar para as próximas gerações, suas performances eram atemporais e sempre arrancava alguma reação do público, seja positiva ou negativa. Ela sempre será lembrada como uma das maiores cantoras brasileiras e seu impacto é percebido até hoje na música nacional e internacional. Gal Costa é e sempre será a maior musa da indústria fonográfica do Brasil.