O Homem, o Bruxo, o Defunto

Texto por Felipe P. Marcondes

Por que ler Machado de Assis?

Inquieto leitor, pediram-me que tratasse contigo do porquê deverias ler a obra de Joaquim Maria Machado de Assis. Ao final dessas mal traçadas linhas, verás (ao menos é este o meu intento) que a pergunta é bem outra: Como não ler Machado de Assis!? Este espaço, apesar de muito estreito para tamanha matéria, e essas garatujas, embora fugazes demais para dar conta dela satisfatoriamente, podem proporcionar-te não menos que um vislumbre desse autor-abismo e da importância de seus escritos, pois, como diria um efêmero poeta nosso, uma folha bem escrita, ainda que pequena, tem muito valor [1].

I – O Homem

            A vinte um de junho de mil oitocentos e trinta e nove, nascia, no pobre morro do Livramento, em casa de agregados anexa à chácara do cônego Felipe, o franzino, doentio, tímido e gago Joaquim. Era filho de Francisco José de Assis, pintor e dourador, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, lavadeira na casa do senhorio. Aquele, na realidade, à inclinação literária do filho não via com bons olhos, supondo que o ofício de homem das letras conservá-lo-ia na miséria. Sua infância, parte mais nebulosa de sua recatada existência, transcorreu no arruar traquinas com os companheiros de mesma idade. Foi quando começou a ter os primeiros sinais do mal que acompanhá-lo-ia e atormentaria por toda a vida, a epilepsia.

            Ainda bem pequeno, morreu-lhe a mãe. Viúvo, Francisco de Assis casou-se com uma mulata, Maria Inês. Esta, com as poucas letras que possuía, assistia aos estudos do enteado, ensinando-lhe todas as noites, às escondidas de Francisco, aquilo que sabia. Parece ter sido ela quem arranjou que o forneiro imigrante da Madame Gallot (dona de padaria na rua S. Luiz Gonzaga) ensinasse o francês a Joaquim – posteriormente, aprenderia ainda o inglês e o alemão. Frequentou a escola primária, mas após esses parcos primeiros estudos, será autodidata, recorrendo a centros literários e relações ilustradas para lograr conhecimento e livros – tome-se, como exemplo, o Gabinete Português de Leitura e a loja de livros do mulato Francisco de Paula Brito que frequentava assiduamente. Sem empregos fixos, e necessitando conquistar o pão diário após a morte do pai, foi vendedor de balas e sacristão na igreja da Lampadosa (o que é convenção, pois não encontrou-se seu nome nos registros da igreja) até que, aos dezessete anos, tornou-se aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá permaneceu dois anos (1856-1858), sempre lendo pelos cantos, com os bolsos recheados de livros – conduta que, aliás, garantiu-lhe a simpatia e proteção do então diretor da Imprensa, Manoel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias.

            Trabalhador dedicado, foi também caixeiro e revisor de provas da Livraria de Paula Brito (responsável pela publicação de alguns dos primeiros versos de Machado, lançados em sua revista bimensal, a Marmota Fluminense); colaborador e revisor no Correio Mercantil; redator, aos 21 anos (1860), do jornal de seu amigo, Quintino Bocaiúva, Diário do Rio de Janeiro. Neste, passou a produzir crônicas semanais e crítica literária (valendo-se sempre de pseudônimos como Manassés, Eleazar, Dr. Semana, Jó, Gil, etc.) , antes de ser destacado da redação para atuar como representante da folha junto ao Senado – talvez sua produção mais larga seja essa, a das colaborações em jornais e revistas,  e um dos principais motivos da vulgarização de sua obra, haja visto que, levando em conta só o período de sua mocidade, escreveu para quase todos os veículos impressos de então: O Futuro, A Marmota, Diário do Rio, Correio Mercantil, Jornal das Famílias, Semana Ilustrada, Cruzeiro, O Globo, Almanaque Garnier e paro por aqui, pois a lista é extensa. Foi ainda diretor de publicação no Diário Oficial (a partir de abril de 1867), primeiro oficial nomeado para a reformada Secretaria de Agricultura(dezembro de 1873), tornando-se, nesta, Chefe de Seção, por decreto da Princesa Isabel, em dezembro de 1876; oficial de gabinete do Ministro da Agricultura, Buarque de Macedo, em 1880; diretor da Diretoria de Comércio em 1889 (seria dispensado desta em fins de 1897); presidente da Academia Brasileira de Letras em 1896; secretário do Ministro da Viação, S. Vieira, em 1898 e Diretor Geral da Contabilidade do Ministério da Viação em 1902.

            Como se vê, labutou, sem nunca descuidar de sua vocação literária, galgando a melhora de suas condições materiais e os degraus socioeconômicos da sociedade brasileira oitocentista – auxiliado, sem dúvidas, pelo círculo de relações e amizades que cultivou ao longo de toda a vida: dentre vários, citemos Francisco Otaviano, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Joaquim Nabuco e Graça Aranha. Apesar disso, foi modesta sua existência, como modesto era seu temperamento. Repudiando toda publicidade que não dissesse respeito aos seus textos, era avesso à confidências (tomemos sua correspondência como prova: sucinta e objetiva, atenuado um pouco esse modo de escrita ao fim da vida, quando inicia alguma revelação, interrompe-a, ora justificando que não deseja enfadar seu interlocutor, ora suspendendo-a simplesmente) e jamais almejou, quem o diz é o amigo José Veríssimo, que suas humildes condições de origem servissem para realçar-lhe a estima com o público. Exteriormente, como acertadamente pondera Antonio Candido, sua vida não excedeu em sofrimentos aos de toda gente (aos 29 anos já tinha feito um nome como jornalista e havia recebido o Título de cavaleiro da Ordem Rosa), nem aos de seus semelhantes mestiços (que, levadas em consideração as condições dessa realidade histórica, no Império Liberal alcançaram postos representativos). Sua verdadeira luta não era exterior ou estrepitosa, como as polêmicas que lidava com altivez: ela era silenciosa, invisível, interior. Era metido consigo mesmo, com seus livros, refletindo e esculpindo sua arte, com vagarosa paciência, mas continuadamente – Um sonho… As vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século… Sonhos… Sonhos [2].  

II – Bruxo ou Defunto?

            É verdade, sua biografia eram os seus livros, a sua arte era a sua prosápia [3].   A primeira publicação de Machado de que temos notícia, foi o soneto à Dona Petronilha, lançado em 1854 no Periódico dos Pobres, interrompendo-se sua atividade intelectual apenas com a eventualidade de sua morte, em 29 de setembro de 1908. Cinquenta e quatro anos de uma carreira multifacetada que trabalhou a poesia (Crisálidas, 1864; Falenas, 1864; Americanas, 1875; Ocidentais, 1901; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932), a crônica, a crítica literária, a dramaturgia (Hoje Avental, Amanhã Luva, 1860; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; As Forcas Caudinas, 1865/1956; Os Deuses de Casaca, 1866; O bote de rapé, 1878; Tu, só Tu, Puro Amor, 1880; Não Consultes Médico, 1896; Lição de Botânica, 1906), a tradução, a arte do conto (Contos Fluminenses, 1870; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis Avulsos, 1882; Histórias sem data, 1884; Várias histórias, 1896; Páginas Recolhidas, 1899; Relíquias da Casa Velha, 1906; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932) e o romance (Ressurreição, 1872; A mão e a Luva, 1874; Helena, 1876; Iaiá Garcia, 1878; Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881; Casa Velha, 1885; Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esaú e Jacó, 1904; Memorial de Aires, 1908).  

            Não é só multifacetada sua produção, é polissêmica também. Ler Machado de Assis é como jogar uma partida de xadrez (no que, diga-se de passagem, ele era exímio: além de ser o primeiro brasileiro a publicar um problema de xadrez, no primeiro torneio de xadrez disputado em nossa terra, 1880, obteve ele o terceiro lugar): quando parece que essa seguirá um curso natural e esperado, um movimento muda todo o cenário, tornando-se imprevisível. Mestre do humor, narrador que conversa com o leitor, colocando-se entre este e a narrativa, tratou de uma miríade de temas: da graciosidade romântica à vaidade; da traição, da crueldade, da tolice, do cinismo, da insânia, do pessimismo benevolente, do ceticismo e da irônica falta de sentido de nossa existência, da doença que corrói o corpo e subjuga o espírito, dos tipos, costumes e idiossincrasias brasileiras do oitocentos, porém, e sobretudo, tratou da alma humana. Trata a dor e a ilusão com gracejos, ensinando-nos a não levar a vida muito a sério. Nele, a fantasia torna-se verossímil e a realidade é retratada com a acuidade e penetração de observador atento, meticuloso. Tudo isso com uma linguagem prosaica, insinuativa e desabusada; é vernácula e artificiosa sem ser pedante, como que falando ao pé do ouvido do leitor, provocando-o, zombando-o, dissecando-o.

            Quando sua esposa, a portuguesa Carolina, morreu em outubro de 1904, sentia, atesta-o o Soneto à Carolina (1906), que a melhor parte de sua vida acabara, que já era meio defunto – era irmã do editor da revista O Futuro, Xavier de Novaes, que se opôs ao relacionamento dos dois por ser Machado mulato. Companheira fiel, lia para ele jornais e livros quando este teve uma enfermidade nos olhos e passou-lhe para o papel uma narrativa que este ditou à ela durante sua convalescença, eram as Memórias Póstumas. A frágil saúde de Machado foi debilitando-se cada vez mais, ainda assim escreveu e viu seu último livro sair a prelo, o comovente Memorial de Aires – sabia e dizia que seria o derradeiro, estava cansado. Foi, além da epilepsia e da doença dos olhos, acometido por um câncer na língua que atacava também a garganta; sentia dores reumáticas – contudo, não gemia de dor, pois não queria incomodar quem o cercava. Era cuidado com muito zelo pelas amigas da esposa e pelos companheiros que assistiram-no até o leito de morte. Na noite em que expirou, conta Euclides da Cunha em artigo lançado no Jornal do Comércio logo no dia seguinte, que estando reunidos ele e outros amigos do autor na sua casa em Laranjeiras, um garoto desconhecido de cerca de 18 anos bateu, cauteloso, à porta. Não conhecia o mestre, mas havia lido-o, queria vê-lo, pois sabia pelos jornais que seu estado era grave. Foi conduzido ao quarto do doente, e, sem dizer uma palavra sequer, ajoelhou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a e aconchegou-o brevemente ao peito. Saiu sem dizer palavra. Veríssimo perguntou-lhe o nome, era Astrojildo Pereira. No entanto, tem uma segunda e representativa identidade esse garoto, soube-a entrever o próprio Euclides: somos nós, a posteridade.  Machado morreu às 3:45 a.m. do dia 29 de setembro de 1908. Tornara-se autor-defunto. Morreu o homem, vive a obra. Oh, aflito leitor, uma vida e obra inteiras resumidas à essas poucas e pobres palavras… Sinto que cometi um crime! Faça-me um favor, sim? Apanhe essa folha e queime-a.  


[1] Carta de Álvares de Azevedo a Domingos Jacy Monteiro, Rio, 09 de setembro de 1850. In: Álvares de Azevedo – Obra Completa. Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro, 2000.

[2] Tu, só Tu, Puro Amor, 1880, Machado de Assis.

[3] J. Veríssimio, História da Literatura Brasileira, p. 182 (1915).

[RESENHA] “Conversa Entre Amigos” e os romances modernos

Apesar de Sally Rooney ter ganhado maior notoriedade com Pessoas Normais (2018), especialmente diante da premiada minissérie homônima de 2020, seu primeiro romance foi, na verdade, Conversa Entre Amigos (2017). Com ele, a autora irlandesa iniciou seu processo para o firmamento na literatura jovem moderna ao discutir vínculos interpessoais atravessados por interferências, como as relações de poder e falhas na comunicação. Chegou a ser considerada o fenômeno literário da (última) década pelo jornal britânico The Guardian e se tornou um sucesso editorial por todo o mundo.

Pôster da adaptação de Conversa Entre Amigos para uma minissérie pela Hulu.

O romance de lançamento na ficção de Rooney seleciona um fragmento da vida da jovem Frances, universitária da Trinity College, e recém introduzida na casa dos vinte anos. A obra é narrada em primeira pessoa, o que já mostra sua divergência em relação a Pessoas Normais e a mais recente obra, Belo Mundo, Onde Você Está (2021). A escolha dos narradores, fundamentalmente, influencia na imagem que o leitor constrói dos personagens dos três livros, que nos dois últimos de Rooney podem ser semelhantes, mas que com Conversa Entre Amigos, não.

Publicada no Brasil pela editora Alfaguara e traduzida por Débora Landsberg, a obra recebeu adaptação pela Hulu como uma minissérie de doze episódios — mesmo formato de Normal People. Com direção de Lenny Abrahamson, será protagonizada por Alison Oliver como Frances, Joe Alwyn como Nicki, Sasha Lane como Bobbi, e Jemima Kirke como Melissa. 

Sob os céus de Dublin, a jovem Frances vive sua vida consideravelmente tediosa. Não possui nada que a faça ser extraordinária, muito menos aspirações que a destaquem em relação às outras pessoas. Quando ao lado de Bobbi, sua melhor amiga e ex-namorada, sente-se apagada por sua personalidade subversiva, enérgica e vigorosa em manifestação. São uma espécie não tão característica de opostos, mais ligado à forma como se relacionam consigo mesmas, como indivíduos, e com o restante do mundo.

Após um namoro que não muito se desenvolveu com o fim do ensino médio, as duas terminam, mas continuam amigas. Passam a frequentar a mesma faculdade e dividir o mesmo ofício com apresentações de declamações poéticas juntas em eventos pela cidade. Enquanto Frances se dedica à escrita, Bobbi traz sua presença dramática para as elevar o tom das performances.

É dessa forma que a dupla conhece a fotógrafa e jornalista de 37 anos, Melissa. Uma daquelas mulheres que se evidencia com espontaneidade, sem muito esforço. Tem como aliados apenas seu carisma, talento, elegância e, é claro, um marido troféu, que, nesse caso, é o ator de média fama, Nick Conway, com 32. 

Melissa tem interesse em escrever uma matéria sobre as jovens poetas, então as leva a jantares e comparece às suas apresentações para que possam se conhecer melhor. Frances não gosta tanto de Melissa e sente que é imune aos encantos de seu perfil imponente, apesar de ser o contrário com Bobbi, que é encantada pela mulher. Enquanto isso, por detrás do emparelhamento decorrente dos traços comuns entre as duas e seus flertes, a protagonista se encontra no caráter tímido, com uma nuance de covardia, do marido da jornalista.

Ante um casamento em ruínas, Frances surge quase como o ser celestial pronto para resgatar Nick de si mesmo, de seu passado e da vida infeliz que tem vivido, através da relação extraconjugal construída às escondidas. De certa forma, é uma via de mão dupla, pois a universitária carrega tantos traumas e devaneios melancólicos quanto o ator.

O quarteto protagoniza uma narrativa que isola esse pedaço de suas vidas, ou seja, não se enquadra tão bem no modelo de início-meio-fim clássico. Esse é um padrão de Rooney e não agrada a todos os leitores pela constância em finais considerados “em aberto”. O objetivo não é dar finais amarrados e sim deixar clara a existência de uma vida acontecendo depois da última página. 

Uma coisa sobre a estreia da autora é que ela traz os personagens mais amargos, irritantes, irreverentes e contraditórios, mas que isso ainda não significa que sejam pessoas ruins — apesar do adultério, das mentiras e todo o restante. 

Também é preciso considerar que todos são vistos sob a perspectiva de Frances — que é denunciada como alguém que enxerga aqueles que ama como especiais —, logo, existe uma tendência a se apegar mais aos personagens com os quais ela tem um envolvimento mais harmônico, como Nick e Bobbi. E, por outro lado, desenvolver alguma aspereza ligada à Melissa. Porém, outras coisas colaboram com a ideia de que talvez o perspectivismo de Frances não seja de grande relevância à narrativa, como o fato de ela fantasiar Bobbi com alguma devoção, já que implora para ser desejada e amada por ela, mas a parceira ainda ser uma personagem egocentrada e não tão engajada como imagina.

Ou seja, mesmo que a percepção de Frances sobre Bobbi seja preenchida por idealizações românticas de quem gostaria que ela fosse — e de quem Frances gostaria de ser —, nem por isso ela se torna tragável. Ainda, a carência de simpatia com Melissa, que possui uma personalidade intensamente semelhante a da dupla da protagonista, não é bem recebida pela narradora. Há o envolvimento de diversos fatores, mas além de ser casada com o homem por quem Frances está apaixonada, há, igualmente, o desejo de ter sua estabilidade econômica.

Alison Oliver como Frances em Conversa Entre Amigos (2022) [Imagem: Divulgação]

Os pais de Frances são separados e vivem numa área remota da cidade. O pai a marcou eternamente com o alcoolismo invasivo à sua infância, enquanto a mãe se torna colaboradora até os dias atuais com os pedidos incisivos de que a jovem perdoe o pai. Para a filha, até o uso dessa palavra que remete a algum tipo de afeição exprime um valor que não pode ser atribuído nesse caso. E, não obstante, essa atribulação familiar é fortalecida pela situação financeira delicada, cujo entendimento não alcança nenhuma figura do trio central da obra. A condição de assimilação sobre a classe socioeconômica deixa Frances sempre à margem dos outros, independentemente de qual seja o grau de intimidade pairando entre eles no momento.

Os personagens da autora, adicionando os protagonistas de seus dois outros romances, trazem debates semelhantes sobre o capitalismo e como ele é corrosivo, mas que soam consideravelmente superficiais ao serem usualmente pautadas pelos personagens ricos que são diretamente beneficiados pelo sistema e não buscam mover as engrenagens noutra direção, a não ser deixar que as palavras críticas morram nas conversas de bar. Bobbi é uma delas, mas ainda que Melissa não seja tão sugestiva quando os tópicos surgem, Frances permanece cultivando um ressentimento acumulado à porção de questões externas interferentes nesse todo — pois ela ainda faz parte disso, mesmo que não tome partido. A própria manifesta sua alegação de que talvez o que faça com que Frances realmente não goste dela seja, na verdade, a identificação por serem mulheres que buscam algum poder para suprir a imponência a qual foram infringidas durante a fase de amadurecimento, mas que tal busca por isso em Nick, como um homem que se mostra omisso, vulnerável e conformado, era infundada.

A relação tempestuosa de Nick e Frances é repleta de oscilações. Todo o contexto no qual estão inseridos e a maneira como iniciaram sua história já, objetivamente, mostrava que ela jamais poderia ser linear. A verdade é que, nesse caso, parece que Nick encontra em Frances muito do que passou a sentir falta em Melissa e que Frances encontra em Nick muito do que passou a sentir falta em Bobbi, porém essa falta é reflexo de suas perspectivas pessoais sobre o que querem de alguém, e não necessariamente o que realmente “faltava” em suas parceiras. Mas, por mais que eles deem vida a um amor nascido daquela paixão, prosseguem preservando o mesmo sentimento pelas pessoas com quem estiveram antes. Dessa forma, acabam num impasse que não deveria ser um, pois a narrativa faz o que promete e os guia à pergunta principal: é preciso amar só uma pessoa e se dedicar isoladamente a ela?

Ao todo, Rooney busca abordar os relacionamentos modernos que não se encaixam no modelo tradicional de que o amor deve funcionar de modo restritivo, de caráter possessivo e limitante; no qual esse amor só pode ser depositado numa só pessoa, o que não é o caso, porque Frances ama Nick, mas também ama Bobbi. E, na mesma linha, Nick ama Frances, mas ele também ama Melissa. Os sentimentos existentes entre eles não são enfraquecidos por terem mais de um direcionamento, mas são reanimados e reforçados. Porém, há um caminho para que Nick e Frances compreendam isso; que possam ter alguma percepção ampliada de quem eles podem ser um para o outro e quem podem ser para aqueles que já estavam em suas vidas antes de se conhecerem.

Conversa Entre Amigos, no panorama geral de um romance de estreia, tem a potência necessária para apresentar a voz de Sally Rooney na literatura atual, como foi feito. Embora não supere o ilustre Pessoas Normais — e nem mesmo Belo Mundo, Onde Você Está consegue esse feito —, deixa clara a habilidade da autora em escrever jovens mulheres modernas passíveis de identificação: elas têm tendências autodestrutivas, desvios de caráter e estão completamente perdidas em si mesmas e no mundo, especialmente porque que não sabem como comunicar seus sentimentos — já que raramente conseguem reconhecê-los ou dar nome a eles.

Por que ainda nos importamos como Shakespeare?

Texto por Victor Haruo

Uma homenagem ao Grande Mestre

406 anos se passaram entre sua morte e os dias de hoje, porém, sua relevância permanece presente no século XXI. O alcance dos sonetos do dramaturgo é de uma extensão incalculável, com pessoas do mundo todo, de todas as esferas, que leram e assistiram suas peças, ou acompanharam suas adaptações para as telas do cinema e televisão.

Todos os dias contactamos sua poesia; os teatros se enchem com suas performances, os acadêmicos ainda analisam seus textos e sonetos, leitores criam páginas com as mais prolíficas notas de rodapé espalhadas pelo tempo. Obstante sua contribuição como intérprete da condição humana, ele também é patrono da língua inglesa como a conhecemos; a produção literária Shakespeariana inclui a criação de mais de 1700 palavras, utilizadas até hoje. É algo incrível como uma pessoa possa ter tamanha influência em uma língua. O que Shakespeare nos ensinou é que o sucesso advém da criatividade, jogando com a linguagem e encontrando novos meios de comunicação. Shakespeare foi “redescoberto”  no Romantismo do século XIX, inspiração para aqueles grandes romancistas e poetas do fin de siècle como Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Balzac, Flaubert, Dumas, entre outros.

 Sua dramaturgia é de suma importância na história artística da humanidade, com seus ecos ressoando inclusive — ainda atualmente — também, na arte brasileira. O teatro shakespeariano atracou nas terras brasileiras em 1835, por meio de apresentações de companhias estrangeiras. Todas as peças encenadas eram de traduções portuguesas feitas do francês ou do italiano, geralmente as pátrias dos atores. Alguns escritores brasileiros traduziram o dramaturgo para o português, como Machado de Assis, Álvares de Azevedo e Olavo Bilac. O próprio Machado  revolucionou a literatura brasileira devido, também, à importantíssima contribuição dramática da influência Shakespeariana aos seus romances. Por consequência, não foi pouca a sua influência na nossa literatura tupiniquim, incluindo nesta lista praticamente todos os nomes que encabeçaram o milieu da alta produção literária brasileira no século XIX até a transição do século XX.

Desde então, não há como falar em literatura transformadora, sem incluir Shakespeare como pedra fundamental. Quem de nós não conhece a famosa indagação do príncipe Hamlet: “Ser ou não ser? Eis a questão”.

Esse é o diálogo mais declamado por todos os atores, no palco ou nas telas de cinema. Suas obras são mais atuais que as obras de qualquer outro dramaturgo, escritor ou cineasta contemporâneo,  já que seus versos penetraram profundamente na essência dos temas arquetípicos que permeiam toda a existência humana, onipresentes em quaisquer sociedades, e preenchendo todos os corações humanos, como vingança, orgulho, adultério, amor,  cobiça, magia, poder, sonhos, anjos e fantasmas. Atualmente, em um mundo de mudanças incessantes, onde todos os referenciais existenciais perderam suas bases, tais temas são, talvez, mais relevantes do que nunca.

Aqui está uma seleção de 2 títulos para despertar o interesse daqueles que buscam um ponto de partida:

1 – Hamlet: é a obra de Shakespeare que mais ganhou destaque. A tragédia é baseada num príncipe que busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa reflexiva sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, filosofia, poder, moralidade e todas as circunstâncias da condição humana. O que define a legitimidade do nosso propósito? Os fins justificam os meios? Qual o ponto de tensão entre Direito e Dever? O que acontece quando nossos fantasmas ganham corpo e movimento?

Othello, 1951. Adaptação cinematográfica.

2 – Otelo: a peça estreou em 1604 e levou para os palcos um casamento inter-racial – assunto polêmico para a época!  É uma das mais comoventes tragédias shakespearianas. Por tratar de temas universais – como ciúme, traição, amor, inveja e racismo, ela pode ser ponto de partida para diversas reflexões e interpretações. Hoje em dia, a nossa sociedade é menos preconceituosa? A cor da pele e a nacionalidade de uma pessoa são motivos para exaltá-la ou diminuí-la? É possível listar formas veladas de preconceito comuns no dia a dia? No mundo atual, qual é o peso da aparência? Levamos muito a sério a opinião dos outros a nosso respeito? As postagens nas redes sociais transmitem a imagem do que realmente somos?

Todos os dramas da vida humana desfilam por seus versos como modelos da existência mais básica do que chamamos de humanidade. Munidas com um simbolismo profundo, as palavras de abertura do monólogo de Hamlet são um ótimo argumento para o debate de por que o trabalho de Shakespeare continua a ressoar em cada geração. Além disso, contribuem para a questão de por que ler os clássicos ainda é algo de suma importância. Em uma época de estímulos instantâneos, onde a arte tornou-se indissociável do mero entretenimento, todo e qualquer prazer contemplativo torna-se difícil de cultivar. Em uma época de estímulos de recompensas imediatas, colher os frutos de uma aventura dentro das florestas literatura, é algo  que demanda vontade e esforço.

Porém, tais aventuras valem cada página. Ler ou não Ler? Eis a Questão.

21 de março: mulheres que marcaram a poesia

Em A Hora da Estrela (1977), Clarice Lispector escreveu: “enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever”. Apesar do cenário literário ter sido, por muito tempo, monopolizado pela figura masculina, é inegável que a arte deve ser democratizada sem fronteiras ou limitações, e isso inclui a escrita.

Lispector não se dedicou à poesia, mas muitas outras mulheres enxergaram a si mesmas diante de pontos de interrogação que as levaram à mesma conclusão: existem perguntas e escrever é o que dará as respostas. Ou ao menos tentará. Essas mulheres reformularam as regras do mundo e lutaram pelo seu direito de dizer o que precisava ser dito; de apresentar reflexões multifacetadas fundamentais que talvez não tivessem sido introduzidas senão através de suas perspectivas.

As autoras que hoje são pilares à literatura e representam sonhos e concepções anteriormente renegadas, de certa forma, ao seu gênero, buscaram transformar sua poesia — não apenas — em algo tão sublime, que deixou de ser vista como um subproduto do que a arte deveria ser — produzida por homens.

Conheça nomes da poesia mundial que não se amedrontam diante de suas perguntas, mas continuaram a escrever por uma espécie de necessidade irremediável por respostas.

Nomes de destaque na literatura poética

Audre Lorde

[Imagem: Ute Weller/Bazar do Tempo/Divulgação]

Nascida em 1934, nos Estados Unidos, Audre Lorde foi escritora, poeta e ativista. Suas obras se destacaram na área teórica relacionado aos seus estudos feministas, porém sua atuação na poesia foi consistente e marcante. Sua primeira obra publicada foi The First Cities (1968), repleto de poemas sobre suas origens, sua identidade e suas experiências como mulher negra e mãe.

Ao traçar um panorama por toda a obra poética produzida por Lorde, é possível observar que, em sua poesia, manifestam-se questões relacionadas à homossexualidade, raça, gênero, amor de modo amplo, entre outros. Por sua excelência, Audre foi laureada como poeta pela cidade de Nova York em 1991.

No Brasil, grande parte de suas obras, incluindo coletâneas de poemas, são publicadas pela Relicário Edições, mas podem ser lidas em sua língua original (inglês) na Poetry Foundation.

Cecília Meireles

[Imagem: Reprodução]

A aclamada e inesquecível Cecília Meireles marcou a literatura brasileira. Contabilizou mais de cinquenta obras publicadas que a expuseram como a gloriosa autora que foi. Meireles é estudada em escolas de todo o país e elevou a imagem feminina na literatura nacional.

Sua poesia completa foi publicada pela Global Editora em dois volumes densos que contemplam um fragmento de sua história com a escrita.  

Emily Dickinson

[Imagem: Reprodução]

Emily Dickinson foi uma poeta estadunidense do século XIX. Seus poemas, quase que inteiramente, tiveram publicação póstuma, pois em vida estava inserida num ambiente social de domínio masculino.

Foco de estudo literário por todo o globo com mais de mil poemas escritos, Dickinson é considerada uma das mais importantes poetisas da história. No Brasil, tem publicação por diversas editoras. Na língua original (inglês), todos estão disponíveis na Poetry Foundation.

Hilda Hilst

[Imagem: Gal Oppido/Divulgação]

A brasileira Hilda Hilst se tornou patrimônio da literatura nacional através de obras intensas e essenciais. Além da poesia, também se dedicou à escrita de peças de teatro e ficção, com êxito.

Alguns de seus poemas podem ser lidos no site de Hilst. Sua obra está disponível em diversas editoras, mas grande parte reside na Companhia das Letras.

Louise Glück

[Imagem: Gasper Tringale]

Louise Glück apresenta uma genialidade inigualável responsável por lhe garantir a gama de láureas de alguns dos mais visados prêmios literários, como o Prêmio Pulitzer de Poesia (1993) e o Nobel da Literatura (2020). Segundo a banca do Prêmio Nobel, Glück possui “inconfundível voz poética, que, com uma beleza austera, torna universal a existência individual”.

Na infância, em quem se é no mundo, na família, no trauma e na natureza residem as temáticas utilizadas pela poetisa para desenvolver suas obras. Foi publicada no Brasil pela primeira vez em 2021 através de uma coletânea de seus poemas entre 2006 e 2014, pela Companhia das Letras, em edição bilíngue.

Maya Angelou

[Imagem: Chester Higgins]

Maya Angelou se tornou um dos maiores nomes da literatura contemporânea diante de todo o trabalho impecável que produziu. Com Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola (1969), sua primeira e de maior notoriedade obra, e outras seis autobiografias, apresentou uma história de luta. No decorrer de sua vida, publicou 23 livros de poesia que a consagraram como uma dos nomes de maior peso na poesia.

Pela excelência, foi indicada ao Prêmio Pulitzer de Poesia em 1971 e, ainda, honrada com a Medalha Nacional de Artes, em 2000, e a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2011, também recebida por artistas como Toni Morrison e Aretha Franklin.

No geral, a obra de Angelou é atemporal ao abordar questões como raça, família, luta de classes e gênero, além de muitos outros tópicos. Nacionalmente, tem exemplares em diversas editoras, mas é possível encontrar sua poesia completa publicada pela editora Astral Cultura. Na língua original, alguns deles estão disponíveis na Poetry Foundation.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[Imagem: José Gageiro]

Vencedora do Prêmio Camões (1999), a maior honraria da literatura em língua portuguesa, a poetisa é de origem portuguesa, nascida na cidade do Porto. Versou, em sua obra poética, através de uma grande diversidade de temas que, de tão bem desenvolvidos e aprofundados, a distinguiram em relação à maioria dos outros produtores literários. Além disso, teve relação com a resistência ao cenário político português durante a ditadura salazarista, que também foi abordada em seus poemas.

Atualmente, é considerada um nome de peso da literatura portuguesa e foi publicada, no Brasil, pela Companhia das Letras nas edições Coral e Outros Poemas (2018) e Poemas Escolhidos (2004).

Sylvia Plath

[Imagem: Reprodução/Lilly Library]

A história de vida de Sylvia Plath transcendeu sua obra e intensificou, de certo modo, a busca pela sua obra. A Redoma de Vidro (1963) foi seu único romance publicado, ao considerar que sua escrita era direcionada à poesia. Apesar do livro ter se tornado um clássico contemporâneo, o trabalho poético de Plath foi igualmente aclamado pela crítica e lhe rendeu um póstumo prêmio Pulitzer de Poesia por The Collected Poems (1981), igualmente publicado postumamente.

Em vida, a poetisa lutou contra a depressão, que pôde ser externada com clareza na arte que produziu. Aos 30 anos, Plath tirou sua própria vida e deixou sobre a escrivaninha Ariel, cuja publicação ocorreu de modo diferente do desejado. Posteriormente, em 2004, a obra restaurada, organizada como originalmente requerido pela poetisa, foi publicada em respeito à memória de Sylvia.

Seus contos, diários e o romance unitário foram publicados no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, enquanto os poemas podem ser encontrados através de edições da Verus Editora, selo do Grupo Editorial Record, e da Editora Iluminuras. Na língua original (inglês), estão disponíveis para leitura na Poetry Foundation.

Wislawa Szymborska

[Imagem: Joanna Helander]

A polonesa Wislawa Szymborska ganhou reconhecimento mundial após vencer o Prêmio Nobel da Literatura em 1966. Chegou a ter seus poemas censurados no país, porém não foi desencorajada pela ocorrência.

Com uma obra poética considerada de linguagem coloquial, objetiva e irônica, distribuída em onze livros, Szymborska foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras em três edições bilíngues: Poemas (2011), Um amor feliz (2016) e, mais recentemente, Para o meu coração num domingo (2020).

Poesia e exclusão

Há, nos dias atuais, uma maior variedade de vivências na literatura. Decerto, a tendência é que muitas pessoas, com experiências particulares que por muito tempo foram apagadas, encontrem seu espaço para falar através do ambiente literário.

As mulheres demonstraram um furor determinante capaz de moldar a cultura à sua aceitação, mas isso precisará de tempo. Ainda que as nove poetas acima tenham alterado o curso e abandonado o marasmo do protagonismo masculino, sua participação ainda precisa ser reconhecida com coerência.

Para incentivar a literatura feita por mulheres, é necessário uma disponibilidade para ler o que elas têm a oferecer, seja um leitor ordinário que apenas lê por diversão, seja um grande crítico que está condicionado a oferecer holofotes ao mesmo arquétipo masculino sempre. A ausência de inserção feminina pode ser exemplificada através do próprio Nobel da Literatura, recebido por Szymborska e Glück, mas também por apenas outras 14 mulheres desde 1901. Ou seja, dentre os 118 prêmios entregues na categoria, um século inteiro foi usado para destacar a literatura produzida por homens.

Esses são alguns dos trabalhos de autoras com produções literárias que devem ser reconhecidas:

Para que a literatura feminina cresça e alcance gerações de meninas que vejam a si mesmas no que estão lendo, é necessário incentivar tal produção de modo intenso. Isso é feito através do consumo consciente das obras. Dessa forma, ao mesmo tempo que mais perguntas surgirão, mais respostas virão como consequência e, ao considerar a natureza feminina como desumanizada por um processo social arrastado, muitas mulheres ainda não conhecem a si mesmas como seres reais no mundo. A arte, em conceito amplo, entra em cena com o papel de colaborar com o autoconhecimento, seja no consumo, seja na construção.

As poetisas apresentam versos que são capazes de comportar a densidade de questões, sentimentos e existências inteiras que não poderiam ser melhor descritas; que servem como um abraço quente ou um choque de realidade. Confortável ou não, sua maneira de produzir literatura colabora pontos sobre a natureza feminina e humana, no geral, difundidas por todo globo e, cada dia mais, são responsáveis por oferecer a mulheres — ainda que não apenas — concepções sobre quem são, quem querem ser e quem podem ser.

Olivia Colman em "A Filha Perdida" (2021) [Imagem: Reprodução/Netflix}

“A Filha Perdida” é um retrato do lado oculto e sufocado da maternidade

Ao longo da evolução histórica das relações humanas, a maternidade tomou uma forma de caráter utópico. As mães foram moldadas em cânones e tiveram suas vidas fragmentadas entre os períodos de antes de seus filhos e depois deles. É nesse cenário de perda de identidade que muitas delas passam seu tempo caminhando em uma linha tênue entre quem costumavam ser e em quem os espectadores do show da vida em sociedade esperam que sejam na nova realidade.

Dentro desse imaginário, a autora italiana Elena Ferrante aprofunda a narrativa de A Filha Perdida (2006), que recentemente recebeu uma adaptação homônima pela Netflix, estrelada por Olivia Colman e Dakota Johnson, com direção de estreia de Maggie Gyllenhaal.

Publicado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca e traduzido por Marcello Lino, a história acompanha as férias de Leda, uma professora universitária de quarenta e oito anos. Ao que encara como um escape das obrigações cotidianas, a mulher passa seus primeiros dias assentada em uma praia da costa italiana sendo acompanhada por livros e algum trabalho.

Leda mora em Florença, mas é nascida em Nápoles. Lá, vivia com mãe e irmã em um relacionamento arisco e desagradável repleto de abusos psicológicos que são relevados pela personagem durante em relatos casuais. Ao partir de seu passado, abandonou os costumes originários da região, aos quais demonstra desprezo profundo, e que buscou afastar da criação das filhas, Marta e Bianca.

Durante sua estadia em repouso, com suas visitas à praia, a protagonista é surpreendida pela presença de uma família cujos hábitos em muito são carregados pelos traços napolitanos. Tal presença é responsável pela volta repentina de memórias da infância que se misturam com as de sua vida adulta enquanto mãe em exercício integral. Ali, na beira da água, Leda é impactada pela visão de três figuras de destaque na família: uma jovem mãe, Nina, sua filha, Elena, e a boneca da criança, Neni.

A rotina da personagem, anteriormente preenchida pela ocupação literária, toma forma diante da substituição direcionada à apreciação dos atos que possuem o envolvimento de Nina, Elena e Neni. Na mulher, enxerga as características socialmente requeridas para uma mãe: jovem, bonita e, aparentemente, feliz em ser mãe, como se sua única tarefa fosse coexistir à vida da filha.

As cenas da relação entre mãe e filha se tornam um pano de fundo para o resgate intenso de memórias que levam o leitor à compreensão de quem é Leda agora, quem foi como filha e quem foi como mãe. Em diversas passagens, a personagem retoma momentos sobre sua infância conturbada que não são, por ela, interpretados como traumas que se espelharam na criação de suas filhas. Sua leitura das ocorrências é transposta de maneira fria e objetiva, de modo a não serem reconhecidas com a carga emocional negativa que, de fato, possuem, algo esclarecido pela fala despretensiosa.

Em determinado momento, a menina, Elena, e sua boneca se perdem na praia, o que ocasiona euforia em suas buscas. De prontidão, Leda se voluntaria à procura da criança e a reencontra, mas não à boneca. O motivo pelo qual a perda de Neni não ter retorno é revelada quando a protagonista retira o brinquedo da bolsa ao chegar em casa e se vê sozinha.

Ilustração de Mara Cerri para o livro “Uma Noite na Praia”, de Elena Ferrante [Imagem: Reprodução/Intrínseca]

Quase que de maneira involuntária e irreflexiva, Leda rouba a boneca, mas sem saber o porquê. No trecho “As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender” (p. 6), há a apresentação de uma ideia sucinta sobre a irracionalidade da ação e sua dificuldade que culmina na não devolução imediata do brinquedo à Elena e Nina.

Leda, enquanto pratica a busca pelo entendimento de sua atitude, decide cuidar de Neni. Limpa-a, compra roupas novas, penteia seus cabelos e, consequentemente, retoma o fluxo de memória para o momento onde entregou sua boneca de infância à filha mais velha, Bianca, e reagiu com repulsa ao ver que a criança não cuidou da maneira que Leda consideraria a correta a ser. Durante sua relação com Neni, busca ser o mais delicada e atenciosa possível, quase como uma maneira de reparação à mãe e à filha que foi.

“Eu mesma estava brincando naquele momento, uma mãe não é nada além de uma filha que brinca (…).” (p. 22)

Em suas memórias, divaga pela criação de Marta e Bianca. Abdicou consideravelmente de sua carreira em prol da criação das duas meninas, e demonstra ter sentido que sugavam toda a sua vitalidade e talento. Apesar de enfatizar seu amor pelas duas, não consegue escapar da espiral nociva que a recorda das exigências intermináveis da maternidade que lhe rendiam respostas de ingratidão e desgaste físico-emocional.

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota e, enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia. Sua vida quer se tornar a de outro.” (p. 45)

Leda não devolve a boneca a Nina, apesar de se encontrar com a mulher diversas vezes pela cidade e observar seu sofrimento que é ocasionado pelo sofrimento da filha e sua saudade da boneca. Permanece a observá-la como um retrato da maternidade que não foi o seu, mas por outro lado, Nina apresenta uma perspectiva de Leda de caráter sábio e confiável. O fato se decorre diante de uma conversa entre ambas, ao lado de Rosária, a cunhada grávida de Nina, na qual descobrem um fato sobre a protagonista: ela abandonou as filhas.

Após uma epifania causada por acontecimentos decisivos, Leda conhece um professor universitário e o segue. Deixa as duas filhas e o marido e retorna três anos depois.

“Às vezes, precisamos fugir para não morrer”, é o que diz a Nina quando confessa o abandono. Seu cansaço e a necessidade de recuperar a liberdade anterior à maternidade são o que diz justificar sua partida.

“Queria sentir a mim mesma de forma cada vez mais intensa, os meus méritos, a autonomia das minhas qualidades.” (p. 123)

Com o decorrer da narrativa, Leda reforça inúmeras vezes seu descontentamento com a vida de mãe, que entra em conflito com o amor pelas suas filhas — e, ainda, com o fato de não gostar de quem as meninas são. Sente falta de quem ela era antes, mas reconhece que não há meio de deixar voltar àquele espaço de tempo, pois a visão que têm dela agora é a de mãe e nada além; como aquela que carrega os fardos e obrigatoriedade de não demonstrar a realidade ambígua do que vive.

“Que bobagem pensar que é possível falar de si mesmo aos filhos antes que eles tenham pelo menos cinquenta anos. Querer ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função.” (p. 98)

Através de uma trajetória intensa e nua, Elena Ferrante disseca os contornos realistas da maternidade, sem dar importância ao desconforto que possa causar no leitor. A personagem principal da trama é descascada camada por camada em toda a sua complexidade como mãe, filha e espectadora da relação mãe-e-filha alheia. Os retornos incontroláveis às memórias colocam Leda de volta à perspectiva de juventude, enquanto exercia o papel de mãe: atitudes equivocadas, distantes de qualquer rastro de racionalidade e que, decerto, foram responsáveis por afastar as duas meninas da mãe, reforçam a perda de rumo e de identidade.

É traçado um paralelo entre Nina que perde Elena na praia; Leda que perde Bianca, quando mais nova, no mesmo cenário; E então, Elena, que perde Neni. O ciclo se repete. Talvez Leda acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que Elena. Talvez acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que foi para as próprias filhas.

Ela se aproxima de Nina. Consegue enxergá-la fora da bolha de mãe utópica que havia criado nos dias de observação na praia. É quando entende: Nina ama Elena, mas está igualmente cansada, só não possui permissão para externar tal cansaço. As gerações mudam, mas o peso e a cobrança permanecem os mesmos. As mães, ao se tornarem mães, são destituídas de qualquer ligação com a humanidade e seu papel se torna, quase que unicamente, coexistir ao restante; jamais para ela.

“Nina, por sua vez, não tinha nenhuma das defesas que eu ergui antes da ruptura. E, nesse meio-tempo, o mundo não havia melhorado nem um pouco; pelo contrário, tornara-se mais cruel com as mulheres.” (p. 166)

Após a conclusão desse fragmento da vida de Leda, que marcou a dela, de Nina e Elena para sempre, demonstra alguma satisfação ao falar com as filhas pelo telefone. Ao perguntarem “Mamãe, o que você anda fazendo, não liga mais para a gente? Pode pelo menos nos dizer se está viva ou morta?”, e então Leda responder “Estou morta, mas bem”, há espaço para uma interpretação que contemple a compreensão de que, apesar de já não ter mais a capacidade de voltar a ser quem costumava, naquele tempo remoto antes de se tornar mãe, está tudo bem.

Taylor Swift para The Witch Collection do álbum Evermore (2020)

A música nas entrelinhas

“A arte existe porque a vida não basta”, disse o escritor brasileiro Ferreira Gullar. Sua reflexão leva ao sentido de que a vida sem arte é insustentável; um caminho à dormência. Talvez seja por isso que os artistas buscam fazer combinações delas entre si, a fim potencializar sua capacidade de transformar a realidade em um ambiente não apenas suportável, mas igualmente prazeroso.

As artes solitárias sustentam-se muito bem, mas unidas são mais poderosas. A música apenas como música, por si só, tem sua imensa influência, porém unida a outra expressão artística pode mudar absolutamente tudo, seja atada ao cinema, à fotografia, à dança ou à literatura. Juntas, todas elas são capazes de guiar uma pessoa ao imensurável e modificar completamente perspectivas e sentimentos.

Música e literatura, por exemplo, aparecem em diversas narrativas e composições entre elas. São parte de ambos os universos, ao transitar por suas entrelinhas como forma de intensificarem seus sentidos. Não se pode negar que possuem um objetivo em comum: alcançar o emocional do público. Emoções sensibilizadas e manipuladas, expostas ao toque do artista para te fazer sentir o que é necessário. Por terem tanto em comum, é importante reconhecer que uma influencia a outra de diversas maneiras… e ainda bem!

Influência mútua

Apesar da música e da literatura não serem artes pela metade, quando diretamente conectadas, complementam-se. A música, já apresenta muito da literatura em suas composições, além do fato de que diversos cantores são reconhecidos no meio literário.

Em 2016, o músico Bob Dylan recebeu o Nobel da Literatura. Popular no mundo da música, o recebimento do maior prêmio do meio literário exaltou esse elo e o fortificou. Já em 2019, Chico Buarque, patrimônio da música brasileira, foi homenageado com a maior honraria da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões. Para compreender a magnitude dessa atribuição, autores como José Saramago, Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, primeira mulher brasileira indicada ao Nobel da Literatura, são alguns dos nomes consagrados pelo prêmio.

Tais contemplações da literatura, ao premiarem personalidades da música, apenas reforçam o que é impossível negar: tudo é melhor quando as artes se mesclam. Porém, essa dupla já caminha de mãos dadas há um bom tempo. Desde a Grécia Antiga, a poesia lírica era aclamada. Caracterizada por apresentações de pessoas que recitavam poemas em forma de canto e acompanhadas por instrumentos em segundo plano, essa maneira de expressão persiste até os dias atuais. 

Seu casamento tomou novas formas de se difundir, seja através de livros ficcionais com temáticas musicais, seja com as influências da literatura ou nas canções de grandes artistas pelo mundo.

Música nos livros

Ao reconhecer como há intervenção significativa de ambos os lados, a literatura em muito tem explorado o cenário musical para desenvolver narrativas interessantes. A seguir, conheça alguns livros cuja trama se desenvolve em meio à música:

Daisy Jones & The Six (2019)

Da mesma autora do extraordinário Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (2018), Taylor Jenkins Reid, a obra Daisy Jones & The Six (2019) se tornou best-seller e está prestes a ganhar uma série pela Amazon Prime, já em produção.

A narrativa é desenrolada ao redor de uma famosa banda dos anos 70, aquela que dá nome ao livro. Todos queriam ser como eles: astros do rock. Queriam ter o sucesso, a personalidade e a sorte que eles tinham.. Isso até sua separação misteriosa em 1979. Por fim, quebram o silêncio sobre o fim súbito somente muitos anos depois, em uma série de entrevistas que constituem o decorrer da história.

Você irá mergulhar tão profundamente nas vidas de Daisy, Billy, Graham, Karen, Warren, Eddie e Pete, que irá acreditar que eles são reais.

Na Hora da Virada (2019)

O segundo livro de Angie Thomas, a mesma autora de O Ódio Que Você Semeia (2017), conta a história da jovem Brianna, apelidada de Bri. Seu pai era um astro do rap, cujo falecimento acarretou em um peso enorme à menina, que sonha em ser uma rapper grandiosa.

Contudo, a arte precisa ser deixada de lado por um tempo quando enfrenta situações financeiras comprometedoras e, para extravasar, deposita toda a frustração em uma música que viraliza e se torna um mártir à garota.

Não só com um forte elo com a música, que faz parte da vida de Bri e de suas aspirações para o futuro, Angie Thomas aborda, em Na Hora da Virada, questões indispensáveis sobre raça que precisam ser debatidas.

Gota D’Água (1975)

Essa obra é puramente composta por intertextualidades. A princípio, a peça escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes como um musical foi adaptada da criação de Eurípides, Medeia. Repleta de canções marcantes na carreira de Chico, foi transformada em um livro de mesmo título publicado ainda em 1975, no ano de estreia da peça.

Os autores contam com a musicalidade para a fluidez de sua narrativa para apresentar, a princípio, a angústia de Joana, moradora da Vila do Meio-Dia e mãe de duas crianças. A mulher é abandonada por Jasão, homem de origem humilde que faz fama ao emplacar seu samba Gota D’água em todas as rádios. O sambista se envolve em um noivado com Alma, filha de Creonte, o homem rico a quem pertence a vila repleta de pessoas humildes que lutam para pagar suas prestações injustas.

Gota D’água veio ao mundo durante a época do Regime Militar, momento histórico marcado por censura. O livro desenvolve críticas à economia do país, principalmente relacionado ao aumento considerável da desigualdade social que o Brasil enfrentava arduamente no período. Paulo Pontes e Chico Buarque entregam tudo isso ao unir o teatro, a literatura e a música em forma de protesto.

O Fantasma da Ópera (1909)

O Fantasma da Ópera (1909) é um clássico da literatura mundial, escrito pelo jornalista francês Gaston Leroux. É também conhecido por sua adaptação para Broadway por Andrew Lloyd Webber e Richard Stilgoe, em 1988, que foi premiada diversas vezes pelo Tony Awards, maior honraria do teatro.

Posteriormente, o romance voltou a ser adaptado em 2004, mas desta vez para as telas de cinema. O filme homônimo não passou despercebido e foi indicado a três categorias do Oscar de 2005.

O enredo do livro se destrincha diante de Christine Daaé, uma jovem que ocupa o lugar da prima-dona, Carlotta, após rumores de um fantasma que assombra a Ópera de Paris.

Em sua noite de estreia, um antigo amigo de Christine, Raoul, ouve-a cantar em uma apresentação e se recorda de todas as emoções vividas. Contudo, o envolvimento de Daaé e Raoul sofre um abalo quando o fantasma se mostra amargo e ciumento sobre a relação do casal.

Se Eu Ficar (2009)

Aqui os clichês também têm vez! Por isso, um queridinho do mundo do romance não pode ficar de fora. O livro Se Eu Ficar (2009), da autora best-seller Gayle Forman, recebeu uma adaptação cinematográfica cinco anos após sua publicação, em 2013.

A trama conta a história de Mia Hall, uma adolescente que sonha em entrar para Juilliard School para estudar violoncelo, sua paixão desde criança. Em meio à sua luta por seu sonho, a jovem conhece Adam, vocalista de uma banda com gênero musical distinto bastante divergente do de Hall, com quem inicia um namoro.

O ponto principal da narrativa é o estado de Mia que, após sofrer uma acidente de carro juntamente aos pais e ao irmão, permanece em coma. Durante esse período, mergulha em memórias sobre sua vida e as pessoas que ama, o que leva o leitor a conhecer um pouco da trajetória da violoncelista, seu amor pela música e sua batalha para permanecer viva.

Livros nas músicas

Assim como a música tem uma grande influência sobre a literatura, o oposto acontece com ainda mais frequência. Muitos artistas musicais buscam inspiração nas páginas de um bom livro para colocar suas obras no mundo.

A seguir, algumas canções associadas a livros ou escritores:

hope is a dangerous thing for a woman like me to have, Lana Del Rey

Em seu álbum Norman F****** Rockwell (2019), Lana Del Rey trouxe a faixa hope is a dangerous thing for a woman like me to have que, apesar de não fazer citação direta a uma obra, exalta a ilustre poetisa, cronista e romancista estadunidense, Sylvia Plath, autora de A Redoma de Vidro (1963).

Em uma publicação de seu instagram, Lana contou que o nome da música seria o mesmo da poetisa, porém, após o lançamento do álbum, a faixa contava com um título diferente.

Além disso, a musicalidade melancólica em muito se assemelha com tom da escrita de Sylvia, cujos escritos são reconhecidos pela linguagem estarrecedora que traduzia sua depressão. Em 1963, aos 30 anos, Sylvia Plath cometeu suicídio, e suas obras se tornaram um marco na literatura moderna que ecoam debates acerca da saúde mental e, inclusive, de papéis de gênero, até os dias atuais.

This Is Why We Can’t Have Nice Things e happines, Taylor Swift

É difícil elencar somente duas músicas de Taylor Swift quando o assunto é literatura, já que suas composições estão sempre repletas de referências literárias. New Romantics, do álbum 1989 (2014), faz referência ao livro A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, por exemplo. O livro Rebecca (1938), de Daphne du Maurier, inspirou a artista a compor duas canções: no body, no crime, em parceria com a irmãs Haim, e tolerate it, ambas do mesmo álbum, evermore (2020).

Em This Is Why We Can’t Have Nice Things, faixa do disco Reputation (2017), Taylor faz referência a Jay Gatsby, protagonista do livro O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Swift usa alusões ao relacionar o momento em sida vida, no qual vivia  em festas como as dadas por Gatsby, ao momento em que precisou trancar os portões, exatamente da mesma maneira que o protagonista faz durante o clímax do livro.

Por outro lado, na canção happiness, de seu já mencionado álbum evermore, há adaptações de trechos do mesmo livro. Taylor compõe ao usar algumas das citações de Daisy Buchanan, o par romântico de Jay Gatsby.

1984 e Big Brother, David Bowie

Com inspiração no romance distópico de George Orwell, 1984 (1949), David Bowie escreveu as canções 1984 e Big Brother para seu álbum Diamond Dogs (1974).

1984 faz referência direta ao título do livro de Orwell, e fala sobre uma sociedade ditatorial que vive sob vigilância contínua e transforma os seres humanos em robôs que reagem automaticamente a ordens, como no livro. Já Big Brother leva o nome de um dos personagens do romance. O Grande Irmão é como chamam o líder por detrás do Partido Interno, aquele que controla a sociedade criada por George.

Geni e o Zepelim, Chico Buarque

Novamente, Chico Buarque na lista da combinação entre música e literatura, coisa que faz muito bem. Dessa vez, com Geni e o Zepelim, canção escrita para a peça Ópera do Malandro (1978).

A faixa possui ligação com o conto Bola de sebo (1880), do escritor francês de Guy de Maupassant. Sua narrativa, apresentada por Chico, representa uma crítica à hipocrisia da sociedade e a maneira com a qual as pessoas tratam umas às outras com base nos seus interesses próprios. Além disso, se popularizou recentemente após a interpretação da atriz e cantora Letícia Sabatella em 2011.

Another Brick On The Wall, Pink Floyd

A memorável canção Another Brick On The Wall, da banda Pink Floyd, é uma crítica ao sistema educacional que permeia até a atualidade. Do disco The Wall (1979), ela expõe a maneira com a qual os alunos são tratados como itens materiais em uma linha de produção, a fim de censurá-los e padronizá-los.

A inspiração da composição veio do poema Mending Wall (1914), do poeta estadunidense Robert Frost. Ambos os escritos fundamentam suas mensagens em metáforas ao redor da construção de um muro e, ainda que com distintos objetivos, os recados são altamente intensos.

Além disso, em seu álbum Animals (1977), anterior ao The Wall, também se basearam na literatura com o livro A Revolução dos Bichos (1945), do já comentado autor, George Orwell. Ambas as obras contém críticas políticas claras, especialmente ao sistema socioeconômico capitalista. Para isso, concentram-se, mais uma vez, no uso de metáforas e comparações.

***Flawless, Beyoncé ft. Chimamanda Ngozi Adichie

Você se recorda da frase “Feminist: the person who believes in the social, olitical, and economic equality of the sexes“ (Em tradução: “feminista: a pessoa que acredita na vida social, igualdade política e econômica entre os sexos”)? Ela viralizou quando, na edição platina do marcante álbum Beyoncé (2013), a cantora uniu a música à literatura ao concretizar uma parceria extraordinária com a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Americanah (2013) e Hibisco Roxo (2003).

Essa versão de ***Flawless aborda a exaltação da feminilidade e da autoestima da mulher frente à sociedade patriarcal. Ngozi Adichie apresenta uma interpolação do discurso de Nós Deveríamos ser Todos Feministas, apresentado no TEDx Talks em 2012, e posteriormente deu origem ao livro Sejamos Todos Feministas (2014). As artistas exploram o conceito de feminismo e usam sua voz para, através da música e da literatura, difundirem a luta das mulheres em busca de igualdade e respeito.

A arte é o que basta

Sylvia Plath em Paris, 1956 [Imagem: Gordon Lameyer]

Há enorme conforto em se sentar em uma tarde e encontrar seu lugar no mundo dentro das páginas amareladas de um livro. Da mesma forma, a música é como uma consolação para dias difíceis. Colocar os fones de ouvido e emergir como se o mundo externo a si não tivesse mais sentido ou necessidade de existir. Juntas, são capazes de criar um ambiente que o faça encarar o fato de que a arte é o que basta. Ler livros sobre música ou ouvir músicas sobre livros, elas estão entrelaçadas como uma maneira de fazer a vida bastar. Isso é o suficiente.

8 livros com temática LGBTQIA+ para se identificar e se informar

Se informar é o melhor jeito de evoluir. Vem com a gente conhecer alguns livros sobre a comunidade e aproveite essas leituras emocionantes!

O Pride Month é só em junho mas o orgulho, a força e o talento duram o ano inteiro. Conheça aqui alguns títulos que trazem histórias e personagens queer para todos os gostos, passando desde clássicos da literatura até leituras mais leves, autobiográficas e histórias em quadrinho. Então, se ficou interessado, se liga nessa lista com algumas indicações MARAVILHOSAS!

1. O quarto de Giovanni – James Baldwin

Narrada em primeira pessoa, a história acompanha David, um jovem americano que viaja para França à espera de sua namorada, Hella, que está na Espanha aguardando uma resposta para seu pedido de casamento; e Giovanni, um garçom francês com quem o personagem desenvolve uma profunda relação ao longo do livro.

O autor discorre na obra a complexidade de amores interrompidos por preconceitos impostos pela sociedade e a dificuldade de se viver um romance homossexual dentro de uma sociedade lgbtfóbica e violenta.

James Baldwin (1924 – 1987) é um autor Americano, negro, homossexual e militante que conseguiu fazer história na literatura americana com o título. Na obra, suas experiências de vida permeiam a história de David e Giovanni tornando o livro um tanto quanto autobiográfico.

2. Os Sete Maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Em “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”, a autora narra a história de Evelyn, uma famosa atriz que já no fim de sua carreira decide contar todas as suas memórias de vida (sem guardar nenhum detalhe) para uma jornalista, que não tem ideia de por quê foi escolhida. 

Ambientado na antiga Hollywood e todo seu esplendor cinematográfico, a obra acompanha a ascensão da estrela desde sua infância em um bairro pobre, passando pelos seus primeiros papéis como atriz e até vencer um Oscar.

Com uma escrita dinâmica e emocionante, o livro é daqueles que você lê em uma sentada só, perdendo fôlego e segurando as lágrimas. É impossível não se intrigar com a vida e as experiências da protagonista.

3. Dois Garotos se Beijando – David Levithan

Este livro conta quatro histórias diferentes narradas simultaneamente. Acompanhamos Peter e Neil, um casal junto há 1 ano que está com medo de experimentar coisas novas; Cooper, um jovem que passa suas noites em salas de bate-papo online com homens adultos; Avery e Ryan, que se conhecem num baile de escola e despertam o interesse um do outro; e por fim Harry e Craig, ex namorados que se juntam para bater o recorde de beijo mais longo do mundo (com duração de 32 horas).

A grande sacada de “Dois Garotos se Beijando” é sua narração: com um formato de narrador-observador, a voz que conta as histórias e as comenta ao longo da narrativa é a de uma geração passada de homens gays, que morreram na epidemia de AIDS dos Estados Unidos, em 1980, trazendo pontos de vista extremamente emocionantes e necessários para a história.

“(…) A liberdade não é só uma questão de votar e casar e beijar na rua, embora todas essas coisas sejam importantes. A liberdade também é uma questão do que você vai se permitir fazer(…)”, com essa frase o autor sintetiza a dualidade da narração x narrativa. Apesar de viverem um presente com uma sociedade muito mais aberta e livre, os garotos da história ainda vivenciam muitos dos mesmos preconceitos sofridos pelos narradores da década de 80.

4. Stella Manhattan – Silviano Santiago

Ambientada em Nova York, a obra mostra um grupo de brasileiros exilados que planeja um golpe contra o adido militar sediado no consulado brasileiro, ligado ao golpe de 64. A narrativa ficcional acompanha Eduardo Costa e Silva, que mais tarde se descobre como Stella Manhattan.

Considerado o primeiro romance gay da literatura brasileira, Silviano Santiago fez história ao narrar a vida de uma travesti como protagonista de um romance, articulando uma história entre aparência e realidade, opressão e liberdade e criando um ótimo retrato da literatura pós-golpe.

5. A Canção de Aquiles – Madeline Miller

O livro traz uma “releitura da Ilíada” feita por Madeline Miller, porém do ponto de vista de um personagem que na obra original foi deixado de lado. Patroclus é um jovem que após ser exilado, vai morar sob o teto do rei Peleu para entrar em seu exército, porém acaba conhecendo Aquiles, o príncipe, com quem desenvolve uma relação profunda.

Na Ilíada original, Patroclus é descrito por Aquiles como “uma amada companhia”. Muitos gregos acreditavam que os dois realmente foram amantes e possuíam uma relação complexa e extensa, mas como muitos outros casais homossexuais da história, seu relacionamento foi apagado. (“oh, they were just very good friends!”)

Usando essa premissa, a escritora conta sua versão da clássica odisseia grega numa narrativa permeada de poesia e beleza, com passagens de arrancar o fôlego e rolar lágrimas.

6. Variações Enigma – André Aciman

Do aclamado autor de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’, ‘Variações Enigma’ acompanha a trajetória do italiano Paul e todas as suas paixões e relacionamentos ao longo de sua vida.

Com a mesma escrita sensual, apaixonante, profunda e rica de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’, André Aciman retrata em sua obra a fluidez da sexualidade humana e a amplitude de seu espectro. Nas palavras do próprio autor, “O tema medíocre, você poderia dizer, é a sexualidade humana. O que poderia ser mais estúpido do que a sexualidade humana?

E, no entanto, olhe só, ela domina toda a nossa vida, ela basicamente nos marca e nos faz fazer todo tipo de coisa. É um impulso humano, que nós aceitamos e toleramos, e jogamos segundo as suas regras. Mas, ao mesmo tempo, não é exatamente o aspecto mais lisonjeador da nossa humanidade. Talvez seja, não sei”.

7. Eu, Travesti – Luísa Marilac e Nana Queiroz

Assumida travesti à sua família aos 17 anos de idade, Luísa Marilac é sinônimo de força e resistência – aos dezesseis levou sete facadas nas costas, ficou em coma e perdeu um pulmão devido a um ataque homofóbico “foi a minha primeira experiência com a morte. Ali, eu achei que iria morrer. eu já tinha sofrido muitas outras violências, mas nada comparado a essa, em que pessoas queriam me ver morta”, recorda Luísa.

O livro traz a biografia de Marilac escrita pela jornalista Nana Queiroz, com uma história extremamente forte e dura de se ler mesclada com uma bela mensagem de positividade, aceitação e liberdade.

Pele de Homem – Hubert e Zanzim 

O famoso quadrinista francês, Zanzim, se junta com o escritor Hubert para criar uma história um tanto quanto inovadora em “Pele de Homem”. Bianca é uma jovem italiana que chegou na idade de se casar, e de fato está prestes a fazê-lo – seus pais já lhe encontraram um noivo, o jovem, rico e simpático Giovanni. Porém Bianca não consegue deixar de se frustrar por estar se casando com alguém que mal conhece. 

É então que a dupla de autores introduz o segredo guardado pela família da garota por gerações, uma “pele de homem”. Bianca veste tal pele e se transforma em Lorenzo, um jovem belo e elegante, e passa a desfrutar de todos os benefícios de ser homem na época.

Ambientado na Itália renascentista, esta HQ conquistou o prêmio Fauve de Lycéens em 2021 e diversos outros importantes prêmios franceses e mundiais. Com uma história cativante e extremamente interessante, a obra explora os limites sociais impostos às mulheres, a sexualidade, a curiosidade e o amor.

Como dissemos, o Mês do Orgulho LGBTQIA+ acontece só em junho, mas sempre temos motivos para celebrar e procurar força em artistas que fazem parte desse grupo tão marginalizado.

Na editoria de Cultura traremos muitas resenhas, matérias pautadas em grupos históricamente excluídos e tantos outros motivos pra celebrar a arte que há por aí. E que comece a frenezia!