A influência das músicas e artistas periféricos na moda

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é xHLBypiPHXpcBGoKDazdXhulbiIWhv3H7rfq-ND-cr8tSpfW4prLu2OJz5gz58ZiZkOijD1iJU5lCeKKLxoNM-nxLeQbHdYR7Z7udXw0M6eRNMbuOBCxD5C2RYzwCmveR7f4S3s2jcGGLI0Aig

Foto reprodução: Mc Caverinha

“Meu Versace exalando, Jacaré [Lacoste] grudou no pano” (Me Sinto Abençoado- Filipe Ret e MC Poze do Rodo)

“Ela se interessa que eu tô de Nike” (Maçã Verde – Mc Hariel)

“Vou de Lacoste polo branca, jacaré da França” (DJ GM e Oldilla)“No estilo tchutchuco, Rei Lacoste, indomável”  (MD Chefe)

Essas frases vêm de letras de músicas de funk ou trap que relatam o uso e admiração de marcas, mesmo que os mencionam sem efetivamente ganharem nada por isso. Assim como nos anos 2000, teve um crescimento no desejo e procura do tênis ‘Nike Shox’ e marcas como Oakley, crescimentos derivados pelas menções em músicas do gênero e parte da composição dos looks dos artistas, hoje isso se vê em esbanjar e mencionar outras marcas como Lacoste e Nike.

Não só marcas esportivas, mas também de luxo, como Versace e Gucci, podem fazer parte dessa cultura, mesmo que parte do público não tenha o poder de compra das mesmas. De acordo com o produtor musical, Vinci (28), que viveu grande parte da sua vida nas periferias e no meio musical, nem todos prezam pela autenticidade das peças mas isso não é necessariamente um problema: “Quando se tem dinheiro, você compra a peça original. Quando não se tem e mesmo assim quer vestir, acaba-se optando pela réplica, peças falsas. Na teoria você vai estar vestido da mesma forma. O pessoal da periferia não tem preconceito entre si, não! Quem está de Mizuno falso vai andar com quem está de Mizuno original”. 

Rappers, trappers e funkeiros “trajados”, são as principais figuras de influência desse meio que divulgam e usam marcas mesmo que paguem para ter, e não para divulgar. De acordo com o produtor musical, todos querem se vestir bem e parecer o Mc famoso. “Eles querem estar com o tênis e marca do ano, e claro, usar o perfume e relógio que está em alta”. 

Foto reprodução: Mc Kyan, Tropa da Lacoste

Em setembro de 2021, uma das principais e mais citadas marcas do meio, a francesa Lacoste, divulgou sua nova coleção com um vídeo dos novos embaixadores não-periféricos que, de acordo com a repercussão, não são os verdadeiros influenciadores e divulgadores da marca, por mais que tenham sido escolhidos e pagos para isso. Artistas como o rapper Kyan, autor da música ‘Tropa de Lacoste’, se manifestaram com indignação por não se sentirem representados pela marca. “As marcas não querem se associar com a periferia. Ela acha que os clientes tradicionais, que em sua maioria são da elite, vão deixar de comprar porque não querem se vestir igual o pessoal da favela se veste. A marca vai escolher quem vai usar,  e sempre vai optar por quem tem o poder aquisitivo maior”, descreve Vinci à Frenezi

Depois da repercussão negativa, a marca voltou atrás e escolheu uma das grandes representações do funk brasileiro: Mc Dricka, que tem uma música que cita a marca, para compor o time de embaixadores da marca. Porém, para Vinci, a decisão foi apenas estratégia. “A Lacoste só voltou atrás porque não queriam sofrer boicote. Os trappers e funkeiros pagam e divulgam a marca, mas são os últimos a serem escolhidos. Eles não se sentem representados.”

No começo de junho deste ano, Caverinha e seu irmão Kay Black, foram convidados a irem à Paris, França, para conhecerem a loja da Lacoste em sua sede. Para eles, é uma representação de esforço e de sonho realizado. Os fãs da marca comentaram e aplaudiram a grife pelo reconhecimento em colocarem como embaixadores os artistas que sempre a mencionaram de forma gratuita.

Camisas de time, óculos lupa ‘Juliet’ e tênis de mola são algumas das tendências de moda que ainda continuam em evidência há anos vindas da periferia que reproduzem a forte influência dos artistas que as mencionam e usam. São itens de desejo dos fãs de funk que são provenientes de um lugar onde sempre sofreram preconceito pela sua cultura. “As pessoas que tem preconceito nunca são da periferia. As roupas da favela não são vistas como moda, já que a elite dita ela. Os jovens periféricos hoje estão quebrando essa barreira de moda e trazendo o conceito da moda da favela.”

A moda se apropria do meio em que está presente, além de ser influenciada pela cultura do local. A música sempre foi um instrumento de expressão. Ela encontra seu espaço e influencia as coisas à sua volta. “O Funk e o trap contribuíram muito para a moda, já que os jovens consomem esses estilos musicais e querem ser iguais. A música é o principal influenciador da moda. Todo mundo da favela sempre quis ter essas marcas, mas não se achavam na posição de ter aquilo. Quando o pessoal da favela começa a ganhar espaço na música, eles começam a ter dinheiro e comprar, mas sem tirar o pé da favela, e isso mostra que favelado também pode. Eles querem ter o que sempre sonharam.” 

Foto reprodução: Mc Ryan SP 
[Usando chapéu, calça e relógio Gucci] 

A periferia sempre influenciou a moda, movimento que vem de décadas. Analisando a cultura como um todo, de qualquer lugar que seja, se tudo o que derivou da periferia fosse excluído por um momento, lugares desapareceriam, estilos musicais iriam parar de ser reproduzidos, roupas sumiriam até em lugares de luxo). A periferia vem cada vez mais ganhando seu espaço no palco de apresentações. Mostrando que possuem habilidades de lançarem tendências riquíssimas e duradouras. Trappers e funkeiros souberam administrar seu trabalho e influência de forma que hoje são os maiores lançadores de tendências neste meio musical. 

Como os festivais impactaram a moda

Os festivais de música vão além de simples compilados de shows, são eventos que carregam símbolos geracionais, reunindo-os em representações culturais. A união entre música e moda sempre foi evidente, elementos que caracterizam ritmos como rock, country, pop, rap e suas variações, são constantemente introduzidos no meio fashion, influenciando não apenas o público-alvo desses estilos, mas sendo incorporados nos demais.

Tommy Hilfiger Spring 2015 [Reprodução/Dazed]

Estes eventos surgiram na Grécia Antiga, com caráter competitivo, como uma forma de cultuar o deus Apolo, ligado à música e às artes, durante os Jogos Píticos. Durante a Idade Média, foram dissociados dos esportes, mas mantiveram a competitividade. Só após a Revolução Francesa, os músicos e compositores ganharam admiração e prestígio na alta sociedade, esta, que enfrentava longas viagens para escutar os seus “ídolos”, o que influenciou a criação do Bayreuth Festival,na Alemanha, no ano de 1876, o primeiro a apresentar a música como ponto principal, reunindo performances de óperas e dramas musicais, do compositor Richard Wagner; seu impacto foi tanto, que se tornou um evento anual, que acontece até a atualidade — sua mais recente edição ocorreu em agosto de 2021.

Foi apenas no século XX, com a disseminação da música popular, principalmente, do jazz, que os festivais ganharam o formato similar ao que vemos hoje. Não demorou para que o rock e outros ritmos alternativos, também aderissem ao modelo. Um grande marco para a contracultura, da década de 60, foi o festival de Woodstock, que ocorreu em agosto de 1969, iniciando a “Era de Aquário”. Os “3 dias de paz e música”, questionavam os costumes e valores morais do tradicional estilo de vida estadunidense, através do movimento hippie, que estava em seu auge e, não por coincidência, caracterizou a moda dos anos 70. O lema “seja você mesmo” de Woodstock, serviu como inspiração para diversos festivais, que levam a liberdade como preceito principal, como o Coachella, também nos Estados Unidos e, o Lollapalooza e Rock in Rio, aqui no Brasil. 

Há quem os considere ‘semanas de moda ao ar livre’, por abrirem espaço para manifestações de estilo, que vão além do simples street style. Através de produções cheias de personalidade, o público divide os holofotes com os artistas; encontram nesses eventos, a liberdade de expressão que não lhes é possível no dia-a-dia. Desta forma, o Coachella conseguiu chamar a atenção de marcas, como Lacoste, Adidas, Revolve e H&M e, de veículos como Harper’s Bazaar, que já prestigiaram e patrocinaram o evento. A partir do exemplo internacional, C&A, Chilli Beans e Adidas, fizeram suas apostas em festivais nacionais, como Rock in Rio e Lollapalooza. 

Mas o sucesso dos shows não traz lucros apenas para seus investidores, lojas de departamento perceberam o ‘boom’ nas vendas, durante os períodos pré-festivais; a procura por roupas e acessórios nos estilos Grunge e Boho Chic costuma ser tão grande, em datas próximas ao Coachella, que a Forever 21, frequentemente, lança coleções inspiradas no evento – franjas, bandanas, kimonos e  jeans são indispensáveis. 

Os estilos Rocker, Grunge, Indie, Punk, Hipster (que marcou a era Tumblr) e Boho Chic – variação do Hippie, com um toque Country – são característicos desses eventos, mas engana-se quem pensa que eles se restringem aos festivais; celebridades como Bella Hadid, Kesha, Cara Delevingne e Jaden Smith, levaram franjas, spikes e tecidos flanelados, também para os tapetes vermelhos.

Kendall e Kylie no Coachella de 2016 [Reprodução/Pinterest].

Nas passarelas, estes estilos já apareceram inúmeras vezes, mas, ao falar em festivais, precisamos mencionar a coleção Spring 2015 da Tommy Hilfiger, durante a New York Fashion Week, que foi inspirada nos festivais de Rock da década de 70, homenageando The Beatles, Jimmy Hendrix e The Who; Hilfiger apresentou elementos icônicos, como pele (sintética), vinil, coletes, calças flare, patchwork, metalizados e composições all jeans, além dos motivos de estrelas e caveiras, que estampavam as peças. O desfile contou com presenças ilustres de Georgia May Jagger – filha do astro Mick Jagger – que abriu o catwalk e, Ella Richards – neta do guitarrista Keith Richards, também da The Rolling Stones.

Tommy Hilfiger Spring 2015 [Reprodução/Pinterest].

Com o avanço da vacinação contra a COVID-19, controle da pandemia e consequente retorno dos shows, após 2 anos de eventos cancelados, percebe-se, atualmente, a volta destes estilos e tendências – antes do esperado – simbolizando o anseio, pela tão aguardada, retomada das programações musicais. 

MET GALA 2022: Veja as principais tendências apontadas pelos convidados no tapete vermelho

Aconteceu nesta segunda-feira (01/05) o tradicional MET Gala, que, após dois anos, volta a ser celebrado na primeira segunda-feira de Maio – como historicamente sempre aconteceu. Com o tema “Gilded Glamour”, o evento abriu a exposição da ala de indumentária do museu nova iorquino, que desta vez é intitulada “In America: an anthology of fashion” e exibe uma coleção de indumentária americana datada dos séculos XVIII E XIX.

“Gilded Glamour” nada mais é que a era dourada da história estadunidense, período que vai de 1870 a 1890 e é marcado pela efervescência cultural, ascensão econômica e desenvolvimento interno do país.

A Frenezi fez a cobertura completa do evento, e agora destaca abaixo as principais tendências apresentadas pelos convidados no tapete vermelho.

[Reprodução: Vogue Runway].

CORSET

Peça tradicional da indumentária do século XIX, o corset era utilizado pelas mulheres por debaixo das roupas, com o intuito de afinar a cintura e garantir a tradicional silhueta em S característica no período. Mas é claro que, em 2022, com os padrões de beleza redefinidos e com novas perspectivas sociais, os convidados do MET Gala re-interpretaram a peça de maneira contemporânea e atual: Gigi Hadid veste macacão Versace em látex com corset da mesma cor e aparente, de maneira a fingir que a peça faz parte da roupa; já Lizzo e Precios Lee – que vestem, respectivamente, Thom Browne e Altuzarra – redefinem instantaneamente o imaginário de moda associado à peça justamente por serem mulheres gordas vestindo-a de maneira aparente e pouco ajustada; E Evan mock vai além – em seu conjunto de terno, assinado pela grife espanhola Palomo, o corset é acoplado ao blazer, criando assim um diálogo entre o feminino da era dourada e o dos tempos atuais.

[Reprodução: Vogue Runway].

BORDADOS E APLICAÇÕES

Para muitas convidadas o tema “Glamour dos tempos dourados” foi levado ao pé da letra: bordados, brilhos e aplicações mil deram o tom de diversos looks da noite – o que já era de se esperar, já que a indumentária dos mais ricos da época era fortemente bem executada e assessorada de maneira luxuosa. Dentre os favoritos, Kim Kardashian cruzou as escadarias do museu vestindo o icônico vestido “Happy Birthday Mr. President”, utilizado por Marilyn Monroe em 1962. Polêmicas à parte, a peça foi emprestada por um museu e é toda trabalhada na aplicação de cristais, resultando em um valor estimado de 5 milhões de dólares. Já Olivia Rodrigo e Cardi B recorreram à marca certa para garantir o look glamouroso: ambas vestem Versace ultra brilhosos, sendo o de Cardi composto por mais de 1Km de correntes douradas. Kaia Gerber foi mais uma que também explorou a tendência: a modelo veste custom Alexander Mcqueen, em um mix de rendas, bordados e aplicações que são a personificação do glamour da noite.

[Reprodução: Vogue Runway].

OMBROS À MOSTRA

A silhueta clássica desta era dava destaque ao busto e às clavículas – ao colo, como um todo – cobrindo totalmente ou em partes os ombros, com raras exceções. Mas, no MET deste ano, a exceção virou regra: Nicola Peltz, Carol Trentini, Maude Apatow e Anitta são alguns dos nomes que aderiram aos ombros à mostra, que garantem elegância e sex appeal na medida certa para o evento. Valentino, Danielle Frankel, Miu Miu e Moschino são as marcas que, respectivamente, as quatro vestem.

[Reprodução: Vogue Runway].

LUVAS

Item praticamente essencial na indumentária do século XIX, as luvas ¾ são também uma das fortes tendências da temporada, resultando, logicamente, em diversas aparições do acessório no tapete vermelho do baile. Khloé Kardashian, em seu primeiro MET Gala, veste um modelo custom Moschino, que é assessorado com luvas em cetim preto e desenho assimétrico; já Blake Lively, co-anfitriã e favorita da noite, complementa seu look princesa-versace com luvas do mesmo tom do vestido; Carol Trentini, mais ousada, adere aos modelos do acessório em couro, assim como vimos desfilar por diversas marcas na temporada passada; e Sza vai além: os modelos de luva utilizados pela cantora, que veste Vivienne Westwood, são em látex.

[Reprodução: Vogue Runway].

GÓTICO SUAVE

Cores sóbrias e em tons de preto não faziam exatamente parte da cartela de cores da época, mas, esses foram os tons escolhidos por celebridades de peso como Bella Hadid, Kendall Jenner, Irina Shayk e Karlie Kloss para compor seus looks e entregar um visual que beira o gótico – se utilizando de makes pesadas no mesmo tom e acessórios em couro e renda. Irina e Bella vestem Burberry, marca que apenas entregou preto como cor nos looks vestidos por celebridades: Bella aposta em um visual sexy e dark, fazendo uso de corset em couro e luvas e meia calça em renda; já Irina foge completamente do tema e entrega um look total em couro – com jaqueta, camisa, gravata, corset, luvas e calça no material. Kendall Jenner é mais fiel ao mood da noite: a modelo, que veste Prada, se apropria da silhueta do período ao mesmo tempo em que entra no mood dark – o look é todo em preto, finalizado com olhão no mesmo tom e sobrancelhas descoloridas. Vestindo Givenchy, a icônica supermodelo Karlie Kloss complementa o look dark todo em renda com um olhão preto no mesmo tom e boca vinho super escura.

[Reprodução: Vogue Runway].

Leia também:

A moda em tempos de guerra

Durante a nossa vida escolar, os livros de história nos bombardeiam com eventos catastróficos que permeram a vida humana na Terra. Guerras, epidemias, desastres naturais e dentre todos eles, não houve um sequer evento que não influenciou diretamente a forma como as pessoas se vestem. Pensar em moda como uma linguagem de comunicação intrínseca ao homem, é pensar em moda como um aspecto cultural que é capaz de se inovar a cada transformação que a humanidade passa. 

É necessário compreender a moda como um agente influente na economia mundial, não só pelo seu caráter artístico ou cultural, a indústria da moda é um dos setores que mais movimenta capital no mundo. Somente no varejo online, a moda é o setor que mais lucra entre os e-commerces, reportando um faturamento entre USD$525 bilhões por ano e sua média de crescimento espera atingir a casa do trilhão até o ano de 2025. 

No Brasil, mais de 8 milhões de pessoas fazem parte da cadeia produtiva da indústria da moda, sendo que 60% desses trabalhadores são mulheres, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT). Isto significa que insistir no debate retrógrado que julga a indústria da moda como supérflua e desnecessária só impossibilita o potencial político que a moda pode ter em períodos críticos. 

Operárias mulheres trabalhando em fábricas europeias durante a Primeira Guerra Mundial. 
[FOTO: Reprodução – Reuters/ Archive of Modern Conflict London]

Ao traçar uma linha do tempo, percebemos que em cada momento em que a humanidade passou por uma grande crise, seu guarda roupa consequentemente passa também por uma transformação. Quando avaliamos os períodos caóticos do século passado, que são momentos historicamente não muito distantes do que se vive hoje, é nítida a mudança de vestuário ao longo deste século, desde a Primeira Guerra, passando pela Crise de 29, Segunda Guerra, Crise do Petróleo,  e outros vários eventos que implodiram na história.

A Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial, foi a primeira guerra que de fato revolucionou a indústria têxtil de modo como nenhuma outra crise humanitária mundial foi capaz de fazer até então. Com a eclosão da Guerra, grande parte dos homens tiveram que deixar seus lares com a obrigação de servirem seu país no serviço militar, o que desencadeou o aumento exponencial da classe trabalhadora feminina nas fábricas e nos negócios em toda Europa que viram necessidade de mudar o uniforme e a roupa cotidiana das mulheres. 

A guerra mudou o horizonte da moda em muitos sentidos, mas o protagonismo francês na indústria soube se manter intacto. Mesmo com os horrores da guerra, um sentimento negacionista tomou conta dos profissionais do mercado, e ao longo do primeiro ano de guerra estilistas e veículos de comunicação da época como o The Queen, no Reino Unido, mal comentaram sobre os eventos que se sucediam. 

Na metade dos anos 10, a moda se viu obrigada a mudar e o que gerou o abandono doo corset do guarda-roupa feminino e o encurtamento da bainha das saias, refletindo diretamente na mudança de papel social e econômico que a mulher teve, de uma mãe e dona de casa para uma operária fabril. Levando em conta que somente na França a indústria têxtil foi responsável pelo sustento de 34% das famílias da classe proletária, país este que foi um grande agente tanto na Primeira como na Segunda Guerra, é de se imaginar o impacto que esse setor teve na vida e na moda da época. 

Foi só a partir de 1915, que as primeiras referências militares começaram a nascer no design dos modelos da época. No vestuário feminino, casacos de corte discreto e silhuetas com uma cintura levemente marcada, além disso foi nessa época que as roupas femininas começaram a adquirir bolsos como compartimentos de utilidade, bolsos chapados e espaços, o que só aumentou ainda mais o eco militar na indumentária. 

Durante os anos em conflito, as fábricas de tecido se viram encurraladas a focar suas operações na fabricação e entrega de materiais que serviriam de insumo para uniformes militares. Como a maior parte da indústria têxtil focava sua produção nos tecidos naturais como o couro e o algodão, consequentemente esses materiais foram os principais produtos direcionados para confecção do vestuário militar, o que causou sua escassez no  estilo civil. Assim, as primeiras peças sintéticas de roupa como o Acetato e Rayon Viscose começaram a ganhar sucesso justamente nesse período onde não se podia mais depender unicamente das fibras naturais.

O maior legado que a Primeira Guerra deixou em termos de vestuário no geral, foi sem sombra de dúvidas o foco na praticidade no cotidiano. Blusas de algodão ou seda sem abotoamento,  a “extinção” das quatro mudas de roupas por dia em prol dos looks diurnos e noturnos, além das “novidades” da época em tecnologia têxtil.

Propaganda sobre a ‘Nova fibra milagrosa’, o Nylon. [FOTO: Reprodução – Blog Descalada]

A moda como um todo se voltou para os conflitos, e grandes nomes da indústria como o próprio Paul Poiret foi convocado pelo exército francês e esteve presente na confecção de uniformes militares. À medida que a silhueta feminina se alargava e a paleta de cores escurecia, a indústria da moda se viu encurralada pelo sentimento de perda e limitada nestes tempos de escassez. 

Logo depois, o mundo foi imerso em uma série de eventos que continuariam a impactar o vestuário da época como a  infestação da Gripe Espanhola, as festas regadas a álcool e drogas dos anos loucos de 1920 e em seguida mais uma vez, uma  Segunda Guerra que viria a acabar com a vida de 40 milhões de pessoas em toda a Europa. A partir da popularização do nylon, com o início da Segunda Guerra, as grandes fábricas têxteis se voltaram para a produção em massa da fibra para atender as necessidades dos exércitos na fabricação de mangueiras, cintos e outros artigos de vestuário militar. 

Por conta do foco em atender as atividades bélicas, o nylon deixou de fazer parte da produção de meias calças femininas, e só após a segunda metade dos anos de 1940 que a indústria têxtil volta a ter esse olhar para as mulheres. Enquanto isso, a popularização das calças entre as mulheres e as máscaras de gás foram gradualmente afirmando seu espaço no dia-a-dia das pessoas, por conta dos constantes ataques de bombas de gás direcionados aos civis durante os anos de conflito.

Máscaras de gás [FOTO: Reprodução/ Aventuras Na História]

Rapidamente após a primeira declaração de guerra, os designers da época se mobilizaram em oferecer modelos já pensados no contexto de conflito. O próprio governo da França só permitiu que os estilistas envolvidos nas confecções de roupas militares tivessem duas semanas para lançarem suas coleções de Outono/Inverno com a iminente guerra. Com a ocupação alemã em solo parisiense, a moda nacional se dispersou e as notícias de novas criações fashion não eram divulgadas da mesma forma como antes, e mesmo assim a moda soube sobreviver aos anos de escassez de insumos.

Os estilos civis não tiveram mudanças somente por conta das restrições de regras utilitárias, o guarda-roupa feminino, por exemplo se preocupava em sempre manter a boa aparência ao mesmo tempo que tinha de ser prática para vida domiciliar e a carreira profissional, enquanto que o vestuário masculino civil tornou-se cada vez mais informal, com camisas de pescoço aberto e calças de flanela ou tecido canelado começaram a substituir os ternos e gravatas.

O saldo da guerra foi uma Europa devastada, a potência estadunidense à todo vapor tanto no cenário econômico quanto no mundo fashion, nos primórdios do que viria a ser a Guerra Fria. Na década seguinte, o estilo utilitário seria deixado em segundo plano que a ultra-feminilidade seria o ponto em foco da moda, só confirmando o efeito pêndulo do mercado pré e pós eventos catastróficos da história humana.

A modelo Poly Kyrychenko, acompanhada de amigas, protesta contra a guerra durante a semana de Moda em Paris. [FOTO: Reprodução/In Magazine]

Um século após a Primeira Guerra, o mundo se encontra vivendo novamente esse ciclo de eventos entre a guerra na Ucrânia ocasionada pela invasão da Rússia enquanto ainda tenta se ajustar às sequelas que a pandemia da COVID-19 deixou.  

Momentos como este nos fazem questionar sobre a relevância da moda e como ela age e deve agir, enquanto milhares de vidas são destruídas. Tirar um tempo para se preocupar com roupas em eventos assim pode soar até um tanto presunçoso, mas é exatamente em instantes difíceis como este que a moda foi capaz de revolucionar a maneira de viver das pessoas. Da mesma forma que ocorreu no passado, não seria diferente que o potencial político e social da moda se manifestasse na atual conjuntura que o planeta se encontra. 

Em plena temporada de Outono/Inverno 2022, durante as semanas de moda que ocorriam nas maiores capitais do mundo fashion, a invasão russa em território ucraniano tomou os holofotes de todos os veículos de comunicação e foi impossível a comunidade fashionista se manter indiferente diante do início de um horror que todos presenciam até hoje, dois meses após o primeiro ataque do exército de Vladimir Putin, em 24 de fevereiro deste ano. 

Ao longo dos dias com a pressão da imprensa sobre o assunto, e o aumento das manifestações à favor da Ucrânia tanto no ambiente digital como nas portas dos desfiles, que os gigantes da indústria fashion se viram obrigados a tomar partido e se posicionar, até porque é o primeiro conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra. 

Manifestantes ucranianos pediram o apoio da comunidade fashion pelas redes sociais e o fim de qualquer relação comercial com a Rússia, incluindo os grandes conglomerados de luxo e os canais de comunicação dentro da moda. Dentre as iniciativas, um manifesto assinado por mais de 1500 profissionais do ramo como a designer italiana Angela Missoni, o fotógrafo Nick Knight, entre outros, repudia a violência russa.

“Lutamos continuamente por um mundo onde a expressão criativa, o intercâmbio cultural e a colaboração possam florescer. A violência da invasão russa vai contra tudo o que defendemos… A moda tem poder, e em tempos de crise é fácil descartar esse poder… mas somos uma cadeia de suprimentos que conectam países do mundo todo” declara o texto.

 Uma das primeiras grifes a se posicionar em relação ao confronto foi a marca húngara Nanushka, o próprio CEO, Peter Baldaszti, deu uma declaração sobre o fim das vendas em território russo afirmando que a decisão foi necessária levando em consideração os valores morais da marca. Além disso, Baldaszti deixa claro que “esta é uma decisão financeira relevante para a marca”.

Tanto a Nanushka como outras marcas de luxo, tiveram suas relações comerciais afetadas pelo embargo comercial, levando em conta o grande investimento de oligarcas e milionários russos no mercado da moda, uma das poucas que não teve o mesmo azar foi a Bvlgari, que teve um aumento de vendas dentro da ex-União Soviética.

Look 1, Nanushka temporada de Outono/Inverno 2022. [FOTO: Reprodução/ Vogue Runway]

LVMH e grupo Kering afirmaram que seu plano de apoio seria por meio de doações de valores não divulgados ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e à Agência de Refugiados da ONU, respectivamente. Assim, os gigantes da indústria seguiram o “efeito manada” e continuaram um por um com suas declarações sobre doações e bloqueios comerciais, como uma forma de auxílio aos vizinhos do leste europeu. 

Outras marcas lançaram suas campanhas de doações às ONG’s que se movimentaram para atender os refugiados e além disso suspenderam suas vendas na Rússia, como foi o caso da Adidas que tirou seu patrocínio da Federação Russa de futebol, e marcas como Chanel, a rede varejista H&M e Boohoo

Por outro lado,  houveram grifes que decidiram “ir além” e tomar partido durante os desfiles, como foi o caso da Balenciaga sob direção criativa do Demna Gvasalia. Ele mesmo já passou pelo terror  de ser um refugiado como os ucranianos, com a invasão russa na Geórgia em 2014, seu país natal.  “O mesmo agressor, talvez até os mesmos aviões que fizeram isso conosco. E vendo isso, fiquei pensando: ‘O que estamos fazendo aqui, com moda? Devo cancelar? mas não: decidi que devemos resistir.”, disse Gvasalia.

Toda a ambientação da passarela  girou em torno de um meio insalubre e quase inóspito, com quilos de neve em meio à uma “intensa” nevasca, os modelos desfilavam em uma plataforma ‘em meia lua’ segurando grandes sacos em pesadas roupas de inverno e óculos em formato de olhos de mosquito à la Gvasalia. O desfile foi a representação da peregrinação distópica nas péssimas condições que os refugiados ucranianos têm passado nos últimos dois meses. Gvasalia também incorporou à coleção as cores da bandeira ucraniana em homenagem aos refugiados.

Gvasalia não foi o único a falar sobre o assunto abertamente durante um desfile, Giorgio Armani aproveitou o momento e deu também seu parecer. O evento foi aberto com uma fala em inglês do próprio designer italiano. 

“Minha decisão de não usar música no show foi tomada como um sinal de respeito às pessoas afetadas pela tragédia em evolução.”,  declarou Armani. Em conjunto com essa fala, o Grupo Armani foi responsável pela doação de 500 mil euros pela arrecadação de fundos pela Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Ao sair da ajuda monetária o Grupo Armani também declarou um iniciativa de auxílio envolvendo o vestuário, de acordo com a empresa seria realizado doações de roupas essenciais ao refugiados feita pela Comunidade de Sant’Egidio, organização católica sediada em Roma com um histórico em ajuda à refugiados e mediação de paz.

Look 46, Giorgio Armani coleção de Outono/Inverno 2022.
[FOTO: Reprodução/ CNN] 

Diversas vezes o homem foi afetado por guerras ou crises, e assim a moda como um direto reflexo do estado de espírito deste homem, renasce; seja como válvula de escape, seja como portal de voz. Mas levando em conta a moda e todas as variáveis comerciais que envolvem essa indústria avaliada em milhões de dólares, até onde a moda ultrapassa o senso de agir de boa fé em prol dos afetados, e começa a agir pelo simples e bom marketing para atrair o holofote midiático?

Porque é fácil mostrar apoio e interesse em se posicionar em momentos onde o foco de todos os veículos de comunicação gira em torno da crise. Avaliar a transparência e honestidade das marcas que prometeram auxílio nos próximos meses é o caminho para tirarmos a limpo o papel ativista que o mercado de moda tem tomado para si nesses últimos eventos caóticos.

Não falta muito para podermos esmiuçar os impactos que o momento pode gerar no vestuário, mas há a certeza de que, nestes tempos conturbados como os de hoje com uma guerra atrás de uma pandemia, a moda está cada vez mais dinâmica e com tendências de ritmos desenfreados. Acima de tudo, tirar um instante de reflexão sobre o papel da moda tanto dentro do nosso cotidiano como em contexto maiores, como uma guerra ou um cenário econômico, é o início de toda mudança capaz de nascer dessa indústria. “Em tempos difíceis, a moda é sempre escandalosa”, Elsa Schiaparelli.

Alina Friendiy, influenciadora ucraniana em protesto à invasão ucraniana.
[FOTO: Reprodução/Instagram]

Leia também:

Frenezi no Met Gala 2022

Continuando a cobertura oficial da Frenezi sobre o baile do Met de 2022 — qual aconteceu na primeira segunda-feira de maio (02) como tradição —, o evento contou com os co-anfitriões Regina King, Blake Lively, Ryan Reynolds e Lin-Manuel Miranda.

Todos os anos desde sua fundação, o baile do Met (que foi criado como uma forma de arrecadação de fundos para o costume institute do Museu Metropolitan em Nova Iorque) tem um tema de vestimenta para seus convidados que sempre representa de certa forma a exposição anual do instituto de figurinos no museu. Para este ano o tema foi ‘Gilded Glamour’, um opulente momento da história estadunidense que data entre 1870 e 1890, de efervescência cultural, inovações tecnológicas e mudanças no vestuário.

Entenda mais sobre o tema do Met Gala 2022 em nosso texto especial apenas sobre ele, disponível aqui.

A editoria de Moda selecionou alguns grandes momentos desta segunda-feira, e entre os melhores (e os piores) looks temos alguns memoráveis para a história do baile:

Blake Lively de Atelier Versace (Reprodução/Vogue Runway).

Blake Lively

Blake Lively trouxe em seu design um dos símbolos mais importantes de Nova York: a Estátua da Liberdade. Usando custom Versace e se adequando à época do tema, o modelito é um vestido longo com luvas de ópera e laçarote. Em determinado momento do red carpet, a capa ouro-rosada é solta e apresenta a segunda cor: o azul. A Estátua da Liberdade chegou em NYC em 1885 durante a Gilded Age e, inicialmente, foi construída em cobre, mas com o tempo oxidou fazendo com que se tornasse azul.

(Reprodução/Vogue Runway).

Emma Chamberlain

Transitando entre a Gilded Age e a atualidade, a influencer Emma Chamberlain — embaixadora da Louis Vuitton — vestiu um look custom da marca que dividiu opiniões: a parte superior, em tom amarelo com babados, drapeados e mangas estilo princesa remete à Idade Dourada, enquanto a saia branca, justa e lisa, traz um aspecto mais moderno, marcando a dicotomia da produção.

(Reprodução/Vogue Runway).

Lizzo

Lizzo chegou ao Metropolitan Museum tocando uma flauta The Dryads Touch, adornada em ouro 18k — considerada a mais bonita do mundo. E por cima do vestido preto, em estrutura de espartilho e com recortes na parte inferior, a cantora vestiu uma verdadeira obra de arte: um longo casaco preto, com bordados dourados, custom Thom Browne, que foi desenvolvido em cerca de 22 mil horas — equivalente a 916 dias, ou seja, aproximadamente 2,5 anos. Levou a sério o Gilded Glamour!

(Reprodução/Vogue Runway).

Taylor Hill

A modelo Taylor Hill apostou num vestido com decote ombro-a-ombro, em cetim azul, da designer Miss Sohee. A junção da cintura marcada pelo corpete com flores bordadas, a cauda e as botas over the knee, em mesmo tecido, com amarração frontal, resultou numa belíssima silhueta, trazendo o volume característico da Idade Dourada. Um dos melhores momentos de moda da noite.

(Reprodução/Vogue Runway).

Laura Harrier

Laura Harrier usou custom H&M, em colab com Victor Glemaud. A estrutura em corset, combinada à saia ampla e volumosa — criada a partir de uma anágua original da época — marcarou a clássica silhueta em ampulheta, enquanto o tecido brilhante trouxe um toque moderno. Para compor o look, sua stylist Danielle Nachmani escolheu um colar de pérolas criado por David Yurman — designer que já assinou diversas joias utilizadas pela atriz.

(Reprodução/Vogue Runway).

Nicola Coughlan

Talvez um dos principais nomes da noite, a atriz Nicola Coughan (mais conhecida por seu papel como Penelope na série ‘Bridgerton’) parece ter se juntado ao grupo seleto de celebridades que se arriscam ao tema proposto. Em sua estreia no Met Gala a atriz optou por trabalhar ao lado de Richard Quinn — designer britânico —, e sua escolha, apesar de repreendida por muitos pelos tons usados, foi totalmente de acordo com a proposta desta edição. Nicola passou pela escadaria do MET num vestido rosa e preto com mangas bufantes e pontilhado com flores, que exala Gilded Glamour. O pecado talvez tenha sido a escolha dos cabelos soltos e escorridos — mas diante do que foi apresentado por outras celebs na noite, nós deixamos passar!

(Reprodução/Vogue Runway).

Anitta

Em seu segundo Met Gala, Anitta seguiu o tema proposto. E à risca. Usando um custom Moschino, roxo — cor associada à alta sociedade da época, visto que o pigmento púrpura era bastante raro e caro — com cintura marcada pelo espartilho e contrastando com o volume na região do quadril, a peça tinha como adornos e acessórios as pérolas, que trouxeram ainda mais glamour para a produção da nossa Girl from Rio. Com certeza um grande momento!

(Reprodução/Vogue Runway).

Kaia Gerber

A aparição de Kaia na primeira etapa do Met Gala, a ‘In America: a Lexicon of Fashion’, em um vestido Oscar de la Renta foi extremamente consistente e aclamada — o que infelizmente parece não ter acontecido nesta edição de 2022 e segunda parte do evento, ‘In America: An Anthology of Fashion’, em que a proposta era explorar a era dourada estadunidense. Apesar de ter escolhido um modelo Alexander McQueen (marca em que Kaia esteve presente nas passarelas desde seu início como modelo) dourado — o mais próximo da proposta — e com detalhes em franjas metálicas e muito brilho, o vestido parece não ter sido a melhor opção. Em um tema que buscava apresentar ao público as grandezas do país norte-americano, o combo Kaia x McQueen deixou o dever de casa de lado, a não ser pela escolha do cabelo — em cachos — que parece ter sido a atração principal.

(Reprodução/Vogue Runway).

Kim Kardashian

Kim Kardashian protagonizou um dos momentos mais impactantes do Met Gala 2022 ao usar o vestido cravejado de cristais (assinado por Bob Mackie, em seu primeiro projeto de pós-graduação) pertencente a Marilyn Monroe, utilizado pela atriz em 1962 durante o polêmico “Happy Birthday, Mr. President” no aniversário de 45 anos do ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. O vestido é uma verdadeira relíquia e estava exposto no museu Ripley’s Believe it or Not, em San Francisco. Por ser um acervo tão importante, não poderia ser alterado — por isso Kim precisou emagrecer cerca de 7 quilos em 3 semanas para que pudesse vestir a peça sem danificá-la.

O original foi usado apenas para uma sessão de fotos antes do evento, e durante a noite Kim usou uma réplica do modelo. Ainda assim, o ato foi criticado por especialistas em conservação do próprio Costume Institute, que julgaram como uma situação arriscada visto que o design é a vestimenta mais cara já leiloada da história, vendida por U$4,8 milhões. Apesar de fugir do dress code da noite, Kim se adequou ao tema da exposição como um todo ao usar um dos vestidos mais importantes da história da moda estadunidense, no mais importante evento fashion que tinha como proposta central a história da moda dos EUA.

(Reprodução/Vogue Runway).

Kylie Jenner

Kylie Jenner prestou homenagem ao seu falecido amigo Virgil Abloh usando um dos looks da sua última coleção: o vestido de noiva que encerrou o desfile. Em 2020, ela havia dito a ele que usaria um design da Off-White para o Met, mas o evento foi cancelado por conta da pandemia e infelizmente ele não pode ver em vida este momento. Portanto, Kylie escolheu o evento de segunda-feira para prestigiar Abloh e a marca. O vestido é branco e longo, e ela inseriu um boné fazendo referência ao streetwear de Virgil.

(Reprodução/Vogue Runway).

Rosalía

Para esta edição do Met Gala, Rosalía usou custom Givenchy Haute Couture desenhado por Matthew M. Williams. O vestido era um longo em tule de seda, de tom marfim, repleto de adornos e cristais cravejados, que foi combinado à bolsa e luvas bordadas, joias e óculos de sol (tudo também Givenchy) que trouxeram um toque moderno. O look da Motomami se adequa à estética Gibson Girl — mas passou bem perto do tema, vai!?

(Reprodução/Vogue Runway).

Shawn Mendes

Não é segredo algum que a maioria do público masculino opte por ternos pretos, básicos e convencionais, seja qual for o tema. Este é um caso também específico de Shawn Mendes. Entretanto, nesta edição de 2022 o astro se permitiu arriscar e tentar seguir um pouco o tema apresentado — mesmo que não tenha sucedido 100% na tarefa. Em seu terninho Tommy Hilfiger, o cantor parecia mais saído diretamente das produções de Bridgerton (com semelhanças com o personagem Anthony) ou de alguma produção da Disney do que da Era Dourada norte-americana em si.

(Reprodução/Vogue Runway).

Bella Hadid

Em referência à obra ‘Retrato de Madame X’, feita em 1884 pelo artista John Singer Sargent — que está exposta no próprio Metropolitan Museum of Art —, a supermodelo Bella Hadid usou um vestido preto Burberry, em corset, com saia fluida cuja abertura lateral revelava a meia calça em renda. Não podemos esquecer da tornozeleira de pérolas, que roubou todos os holofotes. O design foi uma ode à primeira versão do quadro, que foi ridicularizada pela sociedade da época por conta da vestimenta muito sugestiva da pintura.

(Reprodução/Vogue Runway).

Billie Eilish

A cantora Billie Eilish foi uma das celebridades que mais se adequou ao tema do baile. Usando Gucci, fez homenagem ao ‘Retrato de Madame Paul Poirson’ de 1885, por John Singer Sargent, conhecido por fazer retratos da sociedade sobre a moda. As cores do vestido e a silhueta vão de encontro à Gilded Age, e com um toque de personalidade, ela insere a gargantilha preta.

(Reprodução/Vogue Runway).

Adut Akech

A supermodel Adut Akech encantou a todos com um vestido verde esmeralda vintage de Christian Lacroix para Shrimpton Couture (da coleção Outono/Inverno de 2003), em modelo ombro-a-ombro, com bordados na região da cintura e detalhes em azul turquesa. Inspirado na pintura da árvore da vida que decora a escadaria do Chateau-sur-Mer, construído em 1852 em Newport, o local foi um marco da alta arquitetura Vitoriana, e redecorado seguindo o estilo do Segundo Império francês durante a década de 70.

(Reprodução/Vogue Runway).

Olivia Rodrigo

Em vestido custom Versace de malha metálica lilás, com abertura lateral, o modelo vestido por Olivia remetia ao vintage, porém com elementos modernos: combinado a luvas de tule em um tom mais claro e adornos de borboletas nos cabelos, a cantora apostou numa estética mística, sonhadora e glamourosa — mas que ainda assim exalava seu estilo teen rockstar.

(Reprodução/Vogue Runway).

Cardi B

Com uma entrada triunfal ao Metropolitan Museum of Art, Cardi desfilou pelo tapete vermelho do evento com um atelier Versace todo em joalheria dourada, talvez sendo a referência mais literal ao Gilded Glamour proposto — mas que apesar da distância com a proposta real, não deixou o bom gosto de lado.

(Reprodução/Vogue Runway).

Normani

Vestindo Christian Siriano, Normani entregou o que talvez tenha sido um dos principais looks da noite. A cantora optou por um look all black, mas que trouxe as referências e a silhueta da Era Dourada para uma pegada totalmente moderna e sexy que se encaixa completamente com seu estilo. Se uma das propostas entre a dupla Normani e Siriano era quebrar as regras, fizeram isso muito bem!

(Reprodução/Vogue Runway).

Sarah Jessica Parker

Sarah Jessica Parker desfilou pela escadaria do Met em um custom Christopher John Rogers homenageando Elizabeth Hobbs Keckley, escritora e primeira mulher negra — que nasceu em situação de escravidão — a se tornar modista da Casa Branca, durante o mandato de Abraham Lincoln. A saia volumosa traz a clássica silhueta da Gilded Age, já a estampa quadriculada do modelo usado pela nossa eterna Carrie Bradshaw faz referência a um dos designs mais importantes criados por Keckley, para a então primeira dama Mary Todd Lincoln.

(Reprodução/Vogue Runway).

Katy Perry

Talvez um dos poucos nomes de destaque da noite, a artista Katy Perry surpreendeu ao posar no red carpet com um vestido assimétrico — nos tons de creme e preto — com rendas florais, da marca também norte-americana Oscar de La Renta. Sem deixar de ser excêntrico, discreto (se comparado às últimas escolhas da cantora nas edições passadas do Met) e também sexy, a peça ainda trouxe algumas referências a vestimenta e obras de arte da época pretendida a ser abordada. O look foi completo com a presença de luvas — bastante protagonistas na época —transparentes.

(Reprodução/Vogue Runway).

É… Talvez Anna Wintour não tenha acertado no tema para a edição de 20022 — em geral, não houve grande aderência — e ainda assim, o Met é sempre uma experiência para os amantes da moda. Qual foi o seu look favorito da noite


Leia também:

Porque O Diabo Veste Prada é um dos melhores filmes do século XXI 

Uma análise intimista sobre o impacto de O Diabo Veste Prada no imaginário cultural e o que faz desse filme uma obra-prima cinematográfica

Baseado no livro de mesmo nome da autora Lauren Weisberger lançado em 2003, O Diabo Veste Prada inova quando ao se tornar uma das poucas exceções da máxima “o livro sempre é melhor que o filme”. Um marco da cultura pop do século XXI, o longa se consagra como um dos melhores filmes já feitos desde, bom… sempre (de acordo com esta que escreve, pelo menos). Constantemente citado nas redes sociais, referência para outros filmes e uma eterna fonte de inspiração, O Diabo Veste Prada foi, e ainda é, a porta de entrada para vários amantes de moda e cinema.

O livro

O ano é 2003. A efervescência da virada do século se reflete na moda, que, cada vez mais rápido, muda com a evolução da tecnologia, o começo das redes sociais e o boom da cultura de celebridades e paparazzi. 

Desde os anos 80 e 90, as personalidades do mundo da moda deixaram de ficar apenas no backstage e começaram a virar celebridades por si só. Designers são cada vez mais reconhecidos e modelos viram quase semideusas, criando uma certa mística sobre suas personalidades: quem são; de onde vieram; o que fazem; com quem fazem e onde fazem? Esse ambiente foi muito propício para a virada cultural do século XXI, onde celebridades não precisavam mais ser dotadas de beleza e/ou talento.

Com a glorificação e o mistério de conhecer quem são as pessoas mais poderosas da moda, aliado ao sempre crescente império da Vogue Americana, outra celebridade havia nascido, quisesse ela ou não Anna Wintour, editora-chefe da revista norte-americana desde 1988 até os dias atuais, ascendeu à posição de Mulher Mais Poderosa na Moda e todos os holofotes se voltaram para ela.

Com sua aparência intrigante (o bob que nunca muda, os óculos escuros) e sua personalidade reservada, Wintour facilmente tornou-se alvo de fofocas e capas de revista. Quem é essa mulher que mexe todos os pauzinhos na revista mais influente do mundo? É fácil imaginar e tentar se colocar nos pés de alguém tão poderoso e aparentemente inalcançável.

É nesse cenário que O Diabo Veste Prada, o livro, nasce. Lauren Weisberger, recém-formada em jornalismo pela Cornell (também Ivy League, como a Brown, universidade que Andy estudou no livro), trabalha como assistente da editora-chefe mais amedrontadora de todas: Anna Wintour. Meio ficção, meio crítica, O Diabo Veste Prada é uma espiada nos bastidores da revista mais badalada do mundo e uma crítica venenosa sobre os membros dessa elite nova-iorquina. 

Weisberger é perspicaz ao perceber que suas experiências poderiam se tornar um best-seller e transforma tudo isso em nada mais, nada menos, do que um dos livros mais icônicos dos anos 2000. É impossível não ter curiosidade sobre o backstage de uma das indústrias mais lucrativas do mundo, que, decorada com modelos lindas, roupas fabulosas e os eventos mais comentados do ano, mascara péssimas condições trabalhistas, chefes abusivos e jogos de poder.

Dotado de uma ótima escrita e de um humor afiado, O Diabo Veste Prada é um must-read para apaixonados por uma boa fofoca, moda e cultura pop.

Tudo isso, pretensiosamente ou não, torna-se praticamente irresistível à uma adaptação nos cinemas. Três anos depois, o filme baseado no livro estreou. 

O que faz um filme brilhante

Na Frenezi, sempre batemos na tecla da importância de uma boa equipe para que o filme seja bem sucedido. Em O Diabo Veste Prada, isso é feito com a maior das maestrias. Do diretor à figurinista, do elenco ao editor: o longa é um exemplo de todas as partes trabalhando em sintonia a fim de criar não só um ótimo filme, mas se arriscar a ser um filme perfeito. Deve-se levar em consideração a opinião parcial da autora desse texto -amante do cinema e estudante de moda-, mas não é grande esforço meu te convencer que, apesar de ser grandemente subestimado como apenas mais um chick flick, O Diabo Veste Prada é, sim, um filme excepcional e que alcança sucesso em todas as categorias importantes para se destacar na minha lista de melhores filmes da história.

O roteiro

Dez páginas. Se em dez páginas você entendeu sobre o que é o filme, então é um bom roteiro. É exatamente isso que O Diabo Veste Prada faz. 

Em dez minutos você sabe quem é Andrea Sachs (Anne Hathaway), entende que ela não liga para moda e que é recém-formada em jornalismo. Conhecemos Emily Carlton (Emily Blunt), a coadjuvante, que é o total oposto de Andy. Nessa hora também somos apresentados à revista Runway, casa de metade do filme, e a Nigel (Stanley Tucci), a força contrária de Miranda, um personagem levemente baseado no eterno André Leon Talley. A vilã é Miranda Priestly (Meryl Streep): fria, rude e impossível de agradar. Essa é a grande narrativa do filme todo: Andy conseguiria ser aceita e respeitada por Miranda?

Uma falha em muitos filmes da época que O Diabo Veste Prada não comete é a falta de aprofundamento de personagens femininas.

Todas, até Emily, são facilmente assimiladas pelo público e suas motivações são sempre claras e justificadas. Um ótimo exemplo disso é a cena em que Andy encontra Miranda em seu quarto de hotel, em Paris. A Miranda do filme é muito mais humana, e é aqui onde percebemos isso. Com um toque da própria Meryl Streep, vemos a tão temida megera finalmente vulnerável, sem maquiagem, se abrindo com Andy. Não temos outra chance senão de nos compadecer com Miranda, pois, como audiência feminina ( na grande maioria), entendemos as dificuldades de obter sucesso em um mundo onde mulheres podem ter ambição, mas nunca mais que os homens. Mulheres poderosas são vistas como monstros quando homens são parabenizados pelas mesmas atitudes.

Essa genialidade é toda da roteirista Aline Brosch McKenna (e claro, também de Weisberger), rainha dos comfort movies como Vestida Para Casar, Compramos um Zoológico e Crazy Ex-Girlfriend. Eu friso aqui a importância de McKenna porque, apesar de ser um ótimo livro, de alguma forma o filme consegue ser melhor. Talvez seja a indulgência visual que o longa oferece, mas o roteiro é, de verdade, excepcional. Apesar de conter vários momentos de improvisação, grande parte do roteiro foi seguido e mesmo assim permaneceu natural, esperto e engraçado. Frases como Flowers? For spring? Groundbreaking; You eat carbs for chrissake!; Can you please spell Gabbana?, e obviamente o monólogo do suéter cerúleo são icônicos e citados até os dias de hoje.

Não é cansativo, te mantém engajado e respeita o tom da autora original. Essa seção é uma salva de palmas para Aline Brosch McKenna!

O figurino

O Oscar de Melhor Figurino de 2007 foi uma das disputas mais acirradas. Maria Antonieta (2006) é um filme incrível e um dos favoritos da Editoria de Cinema & Tv da Frenezi. A modernização do figurino de época foi extremamente bem feita por Milena Canonero, que nos poupou da previsibilidade de mais um filme histórico que não oferece nada visualmente. Dreamgirls (2006), estrelado por Beyoncé e Jennifer Hudson, também foi um ótimo filme, mas, de novo: mais um figurino histórico.

O que talvez muitas pessoas da Academia não entendem é que, apesar de grandes vestidos bufantes e perucas super trabalhadas serem, sim, incríveis, a dificuldade de construir um figurino contemporâneo que consiga representar a história, ao mesmo passo que sobreviver ao teste do tempo, é muito maior.

É nesse aspecto que Patricia Field deveria ter mais reconhecimento. Sim, Sex And The City – um outro brilhante trabalho da figurinista – foi um marco geracional, mas O Diabo Veste Prada alcança algo que SATC não consegue: o bom envelhecimento da moda da época. Em entrevista para a Harpers Bazaar em 2016, Patricia disse: “Eu acho que atemporalidade é um fator muito importante em tudo o que eu faço. É isso que faz um clássico. É óbvio o que é atemporal e o que não é, mas você precisa de tempo para achar essa resposta.” 

Field dá a impressão de, muitas vezes, tentar demais ser vanguarda e fora do normal nos figurinos da famosa série da HBO. Muitos looks de Carrie são completamente sem sentido, tanto para a narrativa quanto para a personagem. Mas, no longa de 2006, ela abaixa o tom, traz um toque de realidade e demonstra o crescimento das personagens de forma mais limpa, clara e primorosa. “Eu amo fazer moda. Eu sempre coloco a moda em todo o meu storytelling porque é quem eu sou, mas eu não estou vendendo roupas, estou contando uma história”, disse Field.

Eu poderia ficar horas e horas apontando o porquê de o figurino desse filme ser  genial, e com certeza, se você já conversou cinco minutos comigo, sabe minha fixação com absolutamente todos os looks. Vamos analisar o figurino de cada personagem e o que faz de Patricia Field uma das melhores figurinistas da geração dela (vamos deixar de lado Emily em Paris, em respeito aos olhos da audiência).

Andrea Sachs

Ah Andy, o patinho feio. Podem tentar discutir, mas ela é a pick-me girl original. Nos primeiros minutos do filme já vimos como ela é diferente das outras, como ela não liga para todas-as-coisas-femininas. Brilhantismo da roteirista? Sim. Ali já entendemos quem é Andy por completo.

Desde o começo ela demonstra desdém pelo mundo da moda, pois acha que é tudo muito superficial (alô, monólogo do suéter cerúleo, vamos chegar lá!). Os mocassins horrorosos, que ironicamente estão muito em alta, e as roupas que não fazem absolutamente nada para valorizar o corpo de Anne Hathaway, representam quem ela é naquele momento: crua e ignorante.

O momento do suéter cerúleo é, na minha opinião, a parte mais brilhante do filme todo. Aqui é o turning point da transformação de Andy, aqui ela entende a importância da indústria da moda.

“[…] esse azul representa milhões de dólares de incontáveis empregos e é quase cômico como você acha que fez uma escolha que te isenta da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi escolhido para você pelas pessoas nessa sala… de uma pilha de ‘coisas’.’’

Depois de vários outros suéteres feios, Andy falha em uma tarefa de Miranda. Procurando consolo em Nigel, que, educadamente, lhe põe no devido lugar quando fala que ela não está levando a sério o trabalho que milhões de garotas matariam para ter, ela percebe que deve mudar. Então chega a parte mais divertida do filme: a transformação. 

Andy abandona as saias medonhas, joga fora o mocassim e aposenta os suéteres desleixados. Com um bom banho de Chanel, agora a silhueta muda para algo mais liso e reto, linhas verticais e um entendimento do corpo de Hathaway. É possível perceber uma mistura do estilo das outras personagens, as cores escuras, texturas de Emily e as golas e vibe preppy de Miranda. Vemos ela experimentar com texturas e acessórios, até chegar a escolher suas próprias roupas em Paris. Quando ela se gaba para Nigel de ter ido do tamanho 40 para o 38: esse é o fim da transformação de Andy em uma das clackers que ela tanto criticava no começo do filme. Um mix de elegância e peças refinadas, a nova Andy é muito chique e totalmente diferente de quem costumava ser. Em Paris, seu estilo chega muito perto do de Miranda, com como por exemplo, o decote dos vestidos que elas usam antes de Andy se demitir (parte que, no livro, é muito mais divertida).

O que mais me aquece o coração é o último look do filme, que representa quem ela é de verdade. Mostra como ela aprendeu com Nigel, Miranda e Emily mas continuou fiel à sua essência. É uma Andy casual, prática e ainda bem arrumada. Não sente mais a necessidade de saltos de dez, mas mantém o bom corte de cabelo e as roupas que lhe servem. A transformação está completa.

Emily Charlton

A melhor personagem do filme inteirinho é Emily. Trabalhadora, determinada, irônica, a fashionista que amamos odiar. Ela leva seu trabalho muito a sério e não deixa ninguém interferir nos seus planos. Emily e Nigel são os mais engraçados do filme todo, pois mesmo com os estereótipos, são uma representação fiel das pessoas de moda. 

Sua personalidade fria e distante é demonstrada em sua paleta de cores: pretos, cinzas e tons escuros. Emily não é só mais uma clacker, ela é mais avant-garde. As escolhas de peças não são óbvias e mostram seu lado mais arrojado, com silhuetas interessantes e linhas afiadas. Vivienne Westwood e Rick Owens estão presentes no seu guarda-roupa, marcas que, na época, eram mais desconhecidas. Os toques de cor vem nas suas maquiagens (sou obcecada pelas sombras que ela usa) e, obviamente, seu cabelo vermelho brilhante, demonstrando sua personalidade forte. 

Ao contrário de Andy, ela não passa por uma transição de estilos pois ela sabe quem é e onde quer chegar. Patricia Field contou para a Bazaar: “[Emily Blunt] foi a atriz com quem eu pude ser um pouco mais expressiva. Eu podia arriscar, ter liberdades, porque ela conseguiria segurar isso dentro do jeito que ela interpretou a personagem. Ela interpretou com ousadia e expressão, então eu juntei isso com o figurino.”.

Miranda Priestly

Miranda é o suprassumo da classe e elegância. Ao conhecer Meryl Streep pessoalmente, Patricia pensou imediatamente em Donna Karan. “Eu fui para os arquivos de Donna Karan, porque quando ela começou nos anos 1980 e 90, suas silhuetas eram clássicas, atemporais, vestiam bem as mulheres e não eram complicadas.”.

A ideia era criar um guarda-roupa para Miranda que não refletisse as tendências da época e, dessa forma, parecesse já ser seu estilo próprio. Para criar a aparência de uma editora-chefe poderosa, Patricia evitou propositalmente fazer a conexão com Anna Wintour. Ela queria criar algo novo, que não tivesse sido feito antes. Junto de Meryl e seu hair stylist, o penteado totalmente branco de Miranda nasceu, parcialmente inspirado pela ex-editora da Harper ‘s Bazaar, Liz Tilberis.

Miranda é clássica, mas também um pouco sexy. Era importante para Streep e Field mostrar esse lado poderoso em mulheres mais velhas. A única vez que vemos Miranda com um look simples é em Paris, quando seu marido pede o divórcio e ela se abre com Andy, mostrando vulnerabilidade.

Os fabulosos casacos de pele, os terninhos, bolsas, óculos escuros e cintos foram todos um mix de Donna Karan, com toques de Valentino e, claro, Prada. 

Field conseguiu dar personalidade a uma das personagens mais memoráveis da cultura pop, fazendo você não só temê-la, mas também desejar ser ela.

O elenco

Boa parte do sucesso de O Diabo Veste Prada veio pelo alto calibre do elenco. Obviamente, quando se tem Meryl Streep a bordo, as coisas vêm muito mais facilmente. 

Anne Hathaway ainda estava no começo da carreira, tendo deixado a Disney depois de O Diário da Princesa, e obteve elogios em seu papel coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain. Era o seu primeiro filme “sério” como protagonista. Emily Blunt também teve sua estreia em um filme mais reconhecido internacionalmente, impressionando a todos.

Stanley Tucci não precisava de introduções… ator versátil, engraçado e perfeitamente perfeito. Todo filme é um bom filme se tem Stanley Tucci no elenco (amo ele em A Mentira).

Meryl Streep conquistou mais uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, e todo o resto do elenco continuou a ter uma carreira longa e bem sucedida. Apesar de amar todas as atuações, nenhuma delas acima citada é a minha parte preferida do filme. Como falar da genialidade de trazer Gisele Bündchen para fazer uma pontinha?

Faz todo o sentido trazer a melhor e mais famosa modelo do mundo, no melhor e maior filme de moda da história. É engraçado porque Gisele é citada no livro, na parte em que Andy vai para o Met Gala. Ela diz que a Gisele não é tão bonita assim pessoalmente, e adoro a ironia do diretor David Frankel em trazer ela como um membro da Runway. Na verdade, a ideia veio da roteirista Aline, que encontrou Gisele em um voo. A über disse que só participaria se ela não interpretasse uma modelo.

Personalidade intrínseca à moda dos anos 2000, Gisele como Serena não só traz aquele momento de ‘ei! eu conheço ela!’, mas também mostra como em sintonia estavam as pessoas que fizeram o filme com o who is who do mundo da moda.

Outras menções honrosas são Heidi Klum e, claro: Valentino Garavani. Wendy Finerman, a produtora do longa, foi quem conseguiu a aparição do designer. Acerca do medo de muitas pessoas de participar do filme e irritar Anna Wintour, Wendy disse: “Ele tomou uma posição, alguém ia se manifestar e nos apoiar, e isso foi ótimo porque ter Valentino nos deu credibilidade. Ele é um ícone.”. 

A música

Sim, chegou a hora de falarmos da cena de abertura.

O poder que essa sequência tem sobre mim não é normal. Toda vez que eu me arrumo para sair, Suddenly I See da KT Tunstall toca automaticamente na minha cabeça. Julia Michels é a responsável pela supervisão de música de O Diabo Veste Prada e muitos outros filmes como Pitch Perfect (2012) e Nasce Uma Estrela (2018).

Músicas de Madonna, U2, Alanis Morissette e outros artistas incríveis, trazem um toque especial ao filme. Um destaque também para Theodore Shapiro, que compôs a música original do filme, tão icônica quanto às acima citadas.

O legado e o futuro

Dezesseis anos depois, O Diabo Veste Prada se mantém relevante e permanece no topo dos filmes mais amados do século. Um perfeito exemplo de excelência, o longa conquistou um público que excede as barreiras de idade e gênero, sendo apreciado por todos os tipos de telespectadores. 

Após se tornar um ícone da cultura pop, ele ascendeu ao status de obra-prima. É possível para cada pessoa se identificar com alguma parte do filme. Em entrevista à Teen Vogue, Lauren Weisberger disse: “Na final das contas, é sobre uma garota recém-formada da universidade que não só tem o seu primeiro emprego depois da faculdade, mas também uma chefe terrível. É algo que eu ouvi várias e várias vezes de jovens mulheres pelo país todo. Nem sempre se parecia com Miranda Priestly, e nem sempre era na indústria da moda, mas todo mundo teve essa experiência. Pareceu universal.”

O filme não mudou só as nossas vidas, como também o mundo da moda afora. Abriu espaço para mais pessoas desabafarem sobre as péssimas condições de trabalho, abusos e bullying. Anna Wintour até citou o filme no documentário da Vogue The September Issue

Anna também foi em grande parte impactada pelo filme, sempre usando isso a seu favor. Na reunião do elenco em 2021, a roteirista Aline contou para a Entertainment Weekly que Wintour estava presente nas primeiras screenings de O Diabo Veste Prada. “Ela sentou bem na minha frente e do David Frankel com a filha dela e vestiu Prada, o que mostra que ela tem um grande senso de humor!”.

E o legado de Lauren Weisberger não para por aí. Esse ano mesmo, o musical baseado no livro e filme estreia na Broadway, com músicas compostas por ninguém mais, ninguém menos, que Sir Elton John. “É tão legal que ainda seja relevante, que ainda se mantenha”, disse Lauren para o Independent.

A previsão é de que esse legado continue a se expandir, pois, assim como o figurino, o filme é eterno e continuará sendo citado pelos anos seguintes. Sei que ainda vou recorrer a ele em dias que preciso de um comfort movie ou de apenas uma inspiração. O Diabo Veste Prada é um exemplo do poder dos filmes em nos acompanhar pela vida, e ser parte intrínseca dela.

Você pode rever O Diabo Veste Prada no Star+

Met Gala 2022 – Gilded Glamour

A época da Inocência (1993) Reprodução/ Vogue US

Bem: finalmente chegamos na primeira segunda-feira de Maio, após dois anos turbulentos de pandemia. Em 2021 foi anunciado que o baile e a exposição do Costume Institute — órgão regulador da preservação ativa de tecidos e roupas históricas do Metropolitan Museum of Art — foram divididos em duas partes.

Sendo a primeira parte uma ode a moda Norte-americana com um twist moderno (como roupas de designers independentes), brilharam na exposição peças como o vestido xadrez de Christopher John Rogers ou criações de Prabal Gurung. O tema escolhido para o baile de 2021 foi exatamente sobre essa ativa exaltação da moda Norte-Americana.

Infelizmente o evento acabou sem muito clímax, com uma grande quantidade de convidados esquecendo o tema em casa e oportunidades perdidas de grandes momentos que poderiam ser memoráveis. Poucas previsões sobre a volta do baile naquele ano foram vingadas, e o esforço de um baile pós-pandemia de parar o mundo da moda com grandes entradas realmente não aconteceu com a força que muitos desejavam.

Os organizadores e curadores do evento, Andrew Bolton e Anna Wintour, nunca foram de perder muito tempo — a segunda parte do evento contará com uma representação histórica estadunidense, incluindo vestimentas utilizadas durante o racionamento na época de guerra, Era Dourada, anos vinte, entre outros grandes momentos ligados diretamente com a história da moda americana:

“Esta segunda exposição, apresentada em 13 das salas do período americano no Met, “fornece um contexto histórico para Lexicon, de certa forma”, disse o curador Bolton.  “As histórias realmente refletem a evolução do estilo americano, mas também exploram o trabalho individual de alfaiates, costureiras e designers”, diz ele.  “O que é emocionante para mim é que alguns dos nomes são muito familiares para os estudantes de moda, como Charles James, Halston e Oscar de la Renta, mas muitos outros nomes realmente foram esquecidos, ignorados ou relegados às notas de rodapé de  história da moda.  Portanto, uma das principais intenções da exposição é destacar os talentos e contribuições desses indivíduos, e muitos deles são mulheres.”

Andrew Bolton para a Vogue UK.

Na última linha de cada convite para o baile do Costume Institute é possível encontrar o tema e o código de vestimenta para o evento. Todos os anos desde sua fundação em 1943, o tema do baile é proporcional à exposição anual do instituto de figurinos, sendo a exposição deste ano (‘In America: An Anthology of Fashion’) construída em torno dos princípios do estilo americano entre a sua história e celebrando designs dos EUA, segundo a Vogue. Levando em consideração essa ligação, o tema escolhido para esse ano olhou para uma era específica interessante.

O título oficial do tema é o “Gilded Glamour” uma intrínseca nomeação, qual é a junção do “Gilded” — que se refere a Gilded Age, a era dourada — e o “Glamour” como uma volta para as raízes glamourosas e opulentas do baile. Após críticas sobre o ano passado, esse será um baile com o código White Tie como vestimenta oficial. O evento acontece na primeira segunda-feira (02) de maio, com os co-chairs como Regina King, Blake Lively, Ryan Reynolds e Lin-Manuel Miranda.

A série distribuída e produzida pela HBO Max Era Dourada (2022)

O tema

A Era Dourada foi um momento de grandes inovações em diversos departamentos da sociedade. Máquinas sendo construídas, tecnologias se desenvolvendo, imigrantes embarcando para os EUA, e uma nova classe social endinheirada graças às revoluções industriais surgia após os racionamentos da Guerra de Secessão — em Nova Iorque uma verdadeira guerra fria aconteceu entre os antigos ricos e os novos rico. Um tempo de movimentação social e o começo da dita modernidade, uma nova era estava no ar e era possível sentir.

O nome “Era Dourada” foi popularizado graças ao escritor Mark Twain, que se refere exatamente a 1873 até meados de 1890 como o período dessa efervescência cultural americana. Mas sabem quem realmente prosperava neste tempo? A farta alta-sociedade nova iorquina.

O Met Gala 2022 pedirá a seus participantes que incorporem a grandeza e talvez a dicotomia da Gilded Age de Nova York: a prosperidade, mudança cultural e industrialização sem precedentes, quando fortunas aparentemente surgiram da noite para o dia. A Sra. Astor e seus 400 governaram a sociedade educada até que os Vanderbilts com dinheiro novo se forçaram a entrar. E imigrantes chegavam em navios fartos para tentar a sorte na cidade de Nova Iorque, assim como pessoas dentro do país tentavam se estabilizar e esquecer a guerra passada.

New money x Old Money:

“As melhores histórias tendem a contar com uma fada madrinha para acenar sua varinha mágica para fazer acontecer, mas na vida real, um pai bem colocado pode fazer o truque” Nina-Sophia Miralles em ‘Glossy: The inside story of Vogue‘.

Carolus-Duran (1890) Mrs. William Astor, Caroline Webster Schermerhorn, 1831–1908 (Reprodução/MET)

Nascida como Caroline Webster Schermerhorn, a Senhora Astor era uma herdeira milionária em seu direito próprio: depois de ter criado cinco filhos começou a procurar por seu chamado verdadeiro, era uma mulher descrita como ainda regente às severidades da era Vitoriana. Ela decidiu que sua trajetória era proteger uma hierarquia elitista estabelecida por sua posição vantajosa entre as duas principais famílias ricas de Nova Iorque na época.

Em 1892 foi anunciado para a imprensa que a Mansão Brownstone da família Astor na quinta avenida conseguia acomodar apenas 400 pessoas em seu salão de baile. A capacidade do cômodo era uma simbologia: em conjunto com a tenacidade de sua proprietária, os 400 convidados personificariam o que havia de melhor da sociedade Nova Iorquina — afinal, que jeito melhor de deixar os novos ricos de fora do que literalmente tirá-los das festas?

Figurinos de A época da inocência (1993).

Os quatrocentos se tornaram rapidamente um apelido para a quantidade limite de quem poderia entrar para o status quo tradicional, preparados para serem reconhecidos como socialmente relevantes. Entre dos quatrocentos (e um grande aliado da senhora Astor) estava Arthur Turnure, que também procurava uma nova trajetória e no mesmo ano se preparava para introduzir sua debutante à sociedade — a jovem se chamava Vogue. Não por coincidência, a primeira edição da revista tinha como ilustração de capa uma debutante à bordo de uma cintura apertada e luvas longas, com as letras VOGUE acima.

Turnure era um cavalheiro muito bem conectado na sociedade. Charmoso, eloquente, entusiástico e cosmopolita são palavras utilizadas para descrevê-lo, segundo a autora, e muito da antecipação da cidade em conhecer sua nova empreitada vinha de sua popularidade eminente. A carta de abertura da primeira edição da revista era cheia de significado reforçando a importância da elite de Nova Iorque;

A sociedade americana tem a distinção de ser a mais progressista do mundo: a mais salutar e a mais benéfica.  É rápido para discernir, rápido para receber e rápido para condenar.  Não é atrapalhado por uma nobreza degradada e imutável.  Tem o mais alto grau de aristocracia fundada na razão e desenvolvida na ordem natural.” Parte da carta de abertura da revista Vogue assinada por Arthur Turnure.

Os meios de comunicação também prosperavam durante esse tempo: telefone, jornais e revistas tiveram suas circulações aumentadas e mais páginas adicionadas. O tema deste ano do baile do Costume Institute não apenas é uma ode à um momento especial da cidade de Nova Iorque, é uma ligação direta com a história da própria revista Vogue, sua criação e seu fundador não conseguiriam de forma alguma prosperar sem a ajuda da alta-sociedade e a benção da senhora Astor.

O que esperar do Baile do MET de 2022?

“Para o alto escalão, a moda naquele período era de excessos. Graças às recentes inovações dos teares elétricos e movidos a vapor, o tecido tornou-se mais rápido e barato de produzir. Como resultado, os vestidos femininos geralmente apresentavam uma combinação de muitos tecidos, como cetim, seda, veludo e franja, todos adornados com texturas exageradas, como rendas, laços, babados e babados. (O edital não oficial? Quanto mais acontecendo, melhor.)” – Elise Taylor para a Vogue US.

Grandes capas da Vogue nesta época conseguem traduzir um pouco das lentes, opulência e glamour que a vestimenta reproduzia nessa época, com uma infinidade de tecidos como veludo, renda e tafetá, tons de joias com baixa exposição e grandes pedras adornando os pescoços. Podemos esperar realmente um baile como nenhum outro. Se o tema for seguido.

Acredito que uma previsão com a qual podemos contar é a reinterpretação da palavra Gilded como uma forma de vestimenta completa: vestidos inteiros em dourado, grandes joias em ouro, o dourado como o ponto central e completo do look. Vestidos longos com caudas e bordados no tom, Schiaparelli de Daniel Roseberry, Loewe de Jonathan Anderson e Versace de Donatella Versace seriam ótimos para representar essa parte mais moderna da interpretação do tema.

Afinal, não podemos pedir uma silhueta de 1870 em um baile de 2022, poderia ficar até caricato de certa forma… Mas existem nuances que podem te fazer entrar no tema sem perder a beleza moderna e agradar os amantes da moda. Interpretações de códigos da Era dourada como corsets dos mais variados tipos, especialidades de Vivienne Westwood e John Galliano; luvas adornadas, decotes, tecidos ricos e tons de jóias podem ser ótimas apostas; pedrarias e pérolas podem funcionar a favor do look. Depois de um tempo turbulento na indústria e um baile anti-climático em 2021, esperamos que com um tema tão rico e glamouroso, com inúmeras referências e oportunidades, os convidados tenham criatividade para entregar um Baile do Met memorável.


Leia também:

Por trás do DNA: Demna Gvasalia

Balenciaga não é o nome do momento à toa. A marca, que possui anos de história, tradição e sofisticação, agora conta com uma direção criativa e direção de marketing praticamente perfeitos. 

A presença de nomes como Kanye West & Kim Kardashian 一 agora o famigerado ex-casal ‘Kimye’ 一, Rihanna e Cardi B pode acabar por exercer um encargo fundamental para a promoção da marca. No entanto, outro nome pode ser fortemente associado ao sucesso e patamar esplêndidos nos quais a casa Balenciaga fora elevada e este é: Demna Gvasalia. 

Natural da cidade de Sucumi, capital da Abecásia (uma república independente dentro da Geórgia), o estilista de 41 anos agora reposiciona a maison em seu parâmetro de ousadia, ironia e duramente real e cru.

Com seus designs extremamente sólidos e inovadores, Gvasalia tem, de forma extremamente sucessiva, voltado os olhos do mundo da moda 一 quase que exclusivamente 一 à Balenciaga. 

[Imagem retirada do site da Vogue USl]

História

Demna Gvasalia nasceu em 26 de março de 1981 na cidade de Sucumi (ou Sukhumi), na república 一 naquela época 一 soviética da Geórgia em uma família inserida nos costumes ortodoxos georgianos. 

Diferentemente de outros designers que despertam sua paixão pelo universo da moda e desfrutam-na ainda na adolescência, Demna presenciou uma juventude até então conturbada. 

Apesar de adorar criar vestimentas desde os seus 8 anos, aos 12 ele fugiu de seu país em decorrência ao momento em que atravessava a Geórgia: uma árdua guerra civil consistida em conflitos inter-étnicos e intra-nacionais perante o violento Golpe de Estado por parte de militares (entre o final do ano de 1991 e início de janeiro de 1992) contra o primeiro Presidente democraticamente eleito, Zviad Gamsakhurdia. 

Dentro deste contexto de conflitos, de 2001 por diante o estilista e sua família se mudaram para a cidade de Düsseldorf, na Alemanha. Antes de ingressar no mundo da moda e do design, Demna Gvasalia cursou Economia Internacional durante 4 anos na Universidade Estadual de Tbilissi (Ivane Javakhishvili Tbilisi State University), na capital da Geórgia, com a intenção de trabalhar como banqueiro. Anos mais tarde, insatisfeito com sua posição profissional e buscando aflorar seus instintos criativos, em 2006 Demna ingressou em um curso de mestrado em Design de Moda na Academia Real de Belas Artes de Antuérpia (Royal Academy of Fine Arts), na Bélgica.

Enquanto buscava o título de mestre em Design de Moda, Gvasalia colaborou com o também designer Walter Van Beirendonck 一 na época, professor da Academia 一 ainda em 2006 para suas coleções masculinas. Dali por diante o currículo de Gvasalia no universo da moda passou a tomar outro rumo. 

Três anos mais tarde, em 2009, o georgiano se juntou à Maison Martin Margiela, em que o artista era responsável pela criação das coleções femininas até 2013, ano este em que Demna foi indicado como designer sênior para as coleções femininas de ready-to-wear na Louis Vuitton 一 inicialmente comandada por Marc Jacobs e brevemente apresentada sob os cuidados de Nicholas Ghesquière.

O tempo que Demna passou na Margiela foi fundamental no processo de criação e descobrimento de sua identidade como um designer, além de moldar o estilo pessoal do artista. 

Sendo assim, um ano após deixar o cargo na grife, o artista optou por aclimar e expor o seu talento de outra forma: fundando sua própria marca, denominada Vetements.

Lookbook da coleção de Outono/Inverno 2015 (terceira coleção da marca). [Imagens: Vogue Runway]

VETEMENTS

Para expandir e explorar o seu lado artístico, em 2014 Demna lançou sua própria marca, a Vetements, ao lado de seu irmão Guram Gvasalia e em colaboração com um grupo pequeno de 7 amigos e colegas de classe na Academia Real de Belas Artes belga 一 inicialmente optando por atuarem de maneira anônima 一, que geralmente exibiam suas criações em pequenos clubes gays na cidade de Paris, na França. 

A primeira coleção feminina de ready-to-wear da marca foi lançada durante a Semana de Moda de Paris ainda em 2014 na Galerie Bernard Jordan, na capital francesa. 

Durante seu trabalho como co-fundador e especialmente diretor-criativo da Vetements, Demna explorou firmemente a força do streetwear na moda embalada a um mundo extremamente ‘cool’ que contrastava bastante com as outras marcas que uniam e buscavam excepcionalmente a sofisticação, luxo e riqueza de detalhes em suas apresentações durante a semana de moda. 

Além disso, durante sua estada frente à criação das peças, Demna ainda mergulhou no cenário cult juvenil 一 um dos elementos responsáveis pela explosão da marca entre os amantes desta faixa etária 一, unindo a praticidade do dia-a-dia ao mercado de estratégia e business, o que Gvasalia também conseguiu sempre fazer muito bem.

Outro ponto que reforça a genialidade de Demna como um líder na marca foi, sem dúvidas, a virada de chave quanto a identidade da Vetements.

Abrigando fortes referências ao seu passado na Geórgia soviética e suas heranças maternas 一 oriundas da Rússia 一, elementos como vestidos floridos, babushkas, moletons estampando o símbolo do Partido Comunista, dentre outros, sempre foram fundamentais na composição das peças da Vetements.

A estética do grupo abraçara o universo antifashion (antimoda em tradução livre), estética que contradiz a moda convencional e opta pelo simples substituindo a extravagância e o maximalismo. 

Ou seja, embora fosse ‘’contra’’ o que a maioria das marcas atendia durante as semanas de moda, os desenhos de peças oversizeds, espontâneos, portando silhuetas enormes além de tendências hardcores  e desconstrutivas do Leste Europeu conquistaram o público e a crítica aclamada da moda, responsáveis ainda por solidificarem a marca como representante fiel da realidade das roupas. 

Ademais, outro fator primordial no impulsionamento do espírito vanguardista, livre e vívido de Demna enquanto diretor-criativo foi a escolha de seu casting. Durante os anos que colaborou com a Vetements 一 seja como co-fundador ou diretor de criação 一, o estilista buscou por personagens não-modelos e menos convencionais para capturarem precisamente o objetivo buscado por Demna e sua marca: pessoas reais vestindo peças que condizem com o mundo real e com o seu modo de viver e aventurar-se no cotidiano.

Não é à toa, que a marca elevou o seu nível entre sua segunda e terceira coleções. Neste breve período a marca fora apontada como a semifinalista em 2015 do prêmio de ‘Novo Designer de Moda’ da LVMH, um dos principais conglomerados de luxo do mundo.

Apesar do reconhecimento, Demna não limitou sua genialidade e garantiu que na ilustre coleção de Outono/Inverno de 2015, a marca coletiva pudesse avançar um novo passo através do envio de modelos para o famoso clube gay de Paris, o ‘Le Depot’, em peças que reproduziam polos de bombeiros, além de moletons grandes e casacos oversized que atendiam precisamente os gostos dos telespectadores, tais quais Jared Leto e Kanye West.

A busca pela criação de uma moda subversiva ao lado de um talento revolucionário, real e genial foram aspectos fundamentais para que também em 2015 Demna Gvasalia chamasse a atenção da Balenciaga e, como o próprio presidente da Kering 一 conglomerado de luxo que engloba a Balenciaga 一, François-Henri Pinault destacou, Demna Gvasalia era uma ‘’força poderosa no mundo criativo de hoje’’ e, sendo assim, fora convidado para ocupar o cargo de diretor-criativo da casa. 

Durante seu trabalho como diretor-criativo duplo 一 Demna era responsável pelas criações da Vetements e da Balenciaga 一, o estilista conquistou em março de 2017 o prêmio do CFDA (Council of Fashion Designers of America) por seus afazeres em ambas as marcas. Dois anos mais tarde, em 2019, o designer surpreendeu a todos com o anúncio de sua saída da direção-criativa da Vetements. 

Em suas próprias palavras, o estilista disse começar a Vetements por estar entediado com a moda e, contra todas as probabilidades, a moda mudou uma vez e para sempre desde que a Vetements apareceu e também abriu uma nova porta para muitos. 

‘’Então, sinto que cumpri minha missão de conceitualista e inovador de design nesta marca excepcional e a Vetements amadureceu em uma empresa que pode evoluir sua herança criativa para um novo capítulo por conta própria’’, concluiu Demna. 

Encerrando assim sua estadia na marca que fundara com seu irmão, Gvasalia, a partir deste momento, contribuiu para elevar a Balenciaga ao status imperioso que se encontra agora.

BALENCIAGA

Após sua nomeação como diretor-criativo da marca 一 logo após a saída de Alexander Wang 一, Demna Gvasalia deu início a um trabalho mais que extraordinário.

Ainda compromissado com suas heranças voltadas ao streetwear e um estilo mais casual, agora como responsável pela criação da Balenciaga o estilista buscou retomar as influências deixadas por Cristóbal Balenciaga, entretanto, de uma maneira que não fugisse de sua própria estética moderna e vanguardista. 

Em seu debut, mais precisamente marcado pela apresentação da coleção de Outono/Inverno de 2016 da maison, Demna explorou inicialmente peças que remontam a estética política-parlamentar, ou seja, unindo o poder feminino 一 que metaforicamente poderia ser associado ao poder no mundo político 一, de modo que pudesse ainda representar as características de Cristóbal e da casa de maneira excepcional e sucinta. 

Conforme a coleção era apresentada, o designer conseguiu expor o ápice e as características de seu DNA: peças que operam muito bem no streetwear costuradas entre sua estética e, de maneira totalmente especial, com os atributos de Balenciaga, incluindo ainda influências de sua juventude soviética na Geórgia em suas criações. 

Ainda que a coleção a seguir (Pré-Outono de 2016) não fosse totalmente assinada por Gvasalia devido ao momento de transição entre sua chegada e a partida de Wang, era possível detectar algumas de suas características 一 herdadas especialmente de seu tempo de trabalho com sua antiga marca, a Vetements.

Dentre elas: botas de salto agulha que seguiam até as coxas, o xadrez Vichy de arquivo em pequenos florais de preto, o moletom com capuz fotografado no modelo perfil para simular a silhueta específica da Balenciaga e as linhas fluidas de um vestido longo e volumoso estampado com flores, inegavelmente seguindo os estilos Vetements.

Na coleção seguinte – primavera/verão de 2017 masculina – Demna expõe de maneira única o quanto tem feito e estudado as lições de casa. Desde sua chegada na maison, o artista parece provar ser mais que possível tomar as rédeas de uma casa de modo metricamente perfeito sem perder suas origens ou, neste caso, sem perder as referências originais da marca.

E assim o fez. Em um perceptível mergulho aos arquivos da Balenciaga, Gvasalia finalizou um dos casacos iniciados 一 e nunca finalizados por Cristóbal durante sua gestão na maison 一 pelo fundador da casa, abrindo o desfile com a presença ilustre desta peça em um tributo altruísta com criações ainda assim tão únicas e sofisticadas. O resultado obviamente foi inesperado, resultando em uma coleção repleta de peças desenhadas em ombros largos, shorts justos e brogues pesados.

A coleção de Outono/Inverno 2017 também deu o que falar, assim como praticamente todas as coleções expostas por Gvasalia.

Para esta temporada, o estilista desfrutou de inspirações no candidato democrata Bernie Sanders, utilizando referências do estilo clássico e esportivo, bem como casual. Demna redesenhou o logo da campanha de Sanders de forma que combinasse com o logo da Balenciaga apresentado em seus shows. A apresentação foi recebida de forma bastante otimista e com um bom-humor por parte do ‘muso inspirador’ da coleção, que chegou inclusive a ser notícia em um canal jornalístico tradicional norte-americano, a CNN.

Nas coleções que seguiram, o uso de collants de spandex e saltos completamente provocantes fizeram parte do cenário de desenvolvimento e ousadia do designer. Criações como o sapato-meia (speed sock), o Triple S, crocs de plataforma (platform-sole Crocs), bolsas de couro da IKEA e ternos de baile de formatura satíricos conquistaram as massas ambientadas em diferentes posições, ainda expondo os clichês por trás do elitismo presente na moda. 

Em meio a este processo entre sua chegada e sua caminhada ao topo dos holofotes como diretor-criativo da casa, Demna conseguiu posicionar a Balenciaga como uma moda altamente corporativa além de colocá-la como a marca mais legal e bem-humorada do mundo através de seus designs extremamente revolucionários, precisos e criativos.

O universo de streetwear, apesar de predominar em praticamente todas as coleções de Demna para a Balenciaga 一 e embora este estilo pareça perpetuar entre criações mais simplistas 一, agora se expressa de uma maneira ainda mais sofisticada e compromissada com a entrega de um trabalho mais clássico e luxuoso entrelaçando as assinaturas de Gvasalia e Cristóbal, alinhadas à demanda da casa Balenciaga. 

E engana-se ainda quem imagina que a genialidade e criatividade de Demna são circundadas apenas nos limites das passarelas. Fora delas, a mente criativa do estilista aflora-se durante o modo de apresentação e exposição de suas coleções. Os cenários são escolhidos de maneira demasiadamente especial. 

As coleções de Pré-outono 2019, de Resort 2020 e Pré-outono 2020 mergulham entre a sofisticação de peças em streetwear 一 contempladas com criações overziseds e trench-coats mais clássicos 一 expostas de forma que se assimilassem com candids casuais de pessoas encontradas nas ruas ambientadas em diferentes atmosferas.

Enquanto isso, a coleção de Resort de 2021 nos fascina com o modo em que é exposta: a apresentação e fotografia das peças foi montada de maneira que captasse um pouco do mercado de e-commerce. 

O showroom da coleção consistiu em um sistema de informações virtuais que disponibilizavam algumas informações da composição da peça, os materiais das roupas e seus acessórios, além dos IDs que facilitariam na busca do produto.

O excentrismo de Demna ficou ainda mais evidente com a coleção Resort 2022. Nela o estilista entregou uma apresentação marcada por críticas pontuais à indústria da moda. ‘Os Clones’, assim intitulada a coleção da casa, em primeiro momento aparenta ser bastante comum e seguir com os padrões de inovações do conjunto Demna x Balenciaga. Entretanto, partindo de uma análise mais profunda é possível identificar qual o storytelling pretendido pelo diretor-criativo. 

A live de apresentação da coleção se inicia com um pequeno texto nos convidando a refletir o modo como vivemos, relacionado às ilusões criadas especialmente a partir da tecnologia, que não mais nos permite identificar o que é real ou ilusório. O uso proposital da tecnologia nos 45 looks apresentados, incrivelmente compostos pelo rosto de Eliza Douglas, uma amiga próxima de Demna, também nos permite fazer uma reflexão acerca do comportamento social.  

No aspecto estético, as assinaturas de Demna Gvasalia não ficaram de fora da coleção Resort 2022. Nela foram captadas fortes referências às mulheres russas, fazendo grande menção às suas raízes soviéticas através da aparição das botas grandes, peças oversized, lenços, babushkas e um visual mais pesado.

A mais recente coleção da casa, pré-Outono 2022, filmada pelo renomado Harmony Korine e exposta em formato de polaroides, assume uma das principais influências e características do design de Demna: os anos 90. 

Na apresentação desta temporada, Gvasalia rebobina o relógio para a época pré-bombardeio da internet e pós-grunge, minimalista, desconstruída e com forte marco da estética de guerrilha e em que a única cor permitida era a sua cor favorita 一 o preto. 

‘’Os anos 90 foram a década em que percebi que adorava a moda’’, declarou Demna Gvasalia em uma entrevista para a Vogue Runway. 

Lookbook acima com algumas das peças expostas na coleção Pé-outono 2022. [Imagens: Vogue France e Vogue Runway].

BALENCIAGA COUTURE

Apesar de inúmeros feitos e criações simbólicas para a casa, o triunfo à la Demna Gvasalia para a Balenciaga foi a coleção desenvolvida para a alta-costura. A exposição de Outono 2021 Couture foi a primeira exposição da marca para esta categoria desde 1967 一 quando Cristóbal Balenciaga deixou a marca. 

O que parecia ser um teste de alto risco para sua carreira, visto que a última coleção voltada à confecção de peças para alta-costura foi criada por Cristóbal, acabou sendo o apogeu do prestígio de seu trabalho perante a crítica renomada e entre o público do mundo da moda. 

A coleção criada e exposta por Demna provou que o artista sabe sim para o que veio e o quanto consegue unir as características originais de Cristóbal e Balenciaga com suas referências próprias. Enquanto homenageava o arquiteto da alta-costura, Demna expôs de maneira exemplar suas ideias revolucionárias sobre o século atual. 

Em uma coleção que reúne artigos de luxo, elegância, nobreza e muita sofisticação, os membros da moda 一 entre jornalistas e o público geral 一 pararam para testemunhar a história novamente sendo feita na Balenciaga na 10 Avenue Georges V naquele 7 de julho de 2021, mesmo após quase 54 anos desde a exposição da última coleção de Alta-Costura da maison. 

Em 63 peças reunidas majoritariamente na cor preta, Demna apresentou uma coleção de alta-costura sóbria, com a presença de uma alfaiataria rigorosa e potente, bordados floridos, vestimentas expansivas e um drama expresso por suas golas mais recuadas. Além disso, a assinatura de Gvasalia esteve mais que presente durante a apresentação de sua coleção, contendo camisas grandes 一 que acompanham Demna por praticamente toda a sua trajetória no mercado da moda 一, roupas de banho e jeans utilitários, o que também retoma as influências do streetwear na jornada de criação do estilista. 

Neste trabalho foi possível acompanhar e absorver toda a genialidade e curiosidade do artista, marcados exclusivamente por sua autenticidade quanto à criação de seu trabalho, o que, claro, levou-o a conquistar o cargo de diretor-criativo da Balenciaga.

Sua engenhosidade e determinação foram imprescindíveis na caminhada de Demna ao reconhecimento e patamar nos quais o designer encontra-se atualmente e a prova disto pode ser facilmente encontrada nos detalhes de suas criações e no talento e amor que Demna Gvasalia coloca em suas peças.  

PANDEMIA E ESTRATÉGIAS DE MARKETING

Daniel Lee, ex-diretor-criativo da Bottega Veneta, pode ter sido uma grande referência em rebranding e estratégias de marketing/business da marca italiana. Entretanto, também neste tópico, Demna Gvasalia não fica muito atrás. 

Apesar do período de inseguranças e inúmeras incertezas 一 sem exceção do mercado de moda e design 一 desencadeadas pela pandemia em decorrência ao surgimento do novo coronavírus (Covid-19), a instabilidade no comércio de vendas pode não ter sido uma preocupação para a equipe Balenciaga. 

Enquanto diversas marcas buscavam demasiadas opções de rebrandings e novas estratégias para alavancarem as vendas de suas marcas 一 especialmente após a implantação de restrições que impediam a ocorrência de desfiles presenciais 一, a Balenciaga comandada por Demna fazia o uso inteligente de memes e redes sociais para divulgarem a marca de forma que a atenção pudesse estar na maison. 

Além disso, o posicionamento de Demna quanto a não-alienação de tópicos sociais, políticos e especialmente ambientais também foram cruciais para que o faturamento da marca pudesse superar o marco de USD 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) de vendas anuais desde quando o designer assumiu a casa, em 2015.

Outro detalhe que pesa bastante na trajetória de Demna Gvasalia é estar rodeado de personalidades ‘certas’ em hora e lugar também certos. 

Cercado de artistas e personagens influentes na indústria, seja na moda e/ou musical, dentre outras, como Cardi B 一 que em algumas de suas músicas reverenciou a marca 一, Rihanna, Justin Bieber, Elliot Page e o agora ex-casal Kim Kardashian e Kanye West, as estratégias de marketing da marca parecem fluir de maneira totalmente espontânea e orgânica.

No cenário caótico marcado pela pandemia em que o mundo atravessava, Demna se reinventou novamente elevando a marca ao universo do metaverso e da tecnologia. Embarcando nesta nova experiência perante a ausência dos desfiles físicos, o estilista criou uma exposição totalmente voltada ao design de jogos. A coleção em questão é a de Outono de 2021, exposta no contexto de uma terceira-possível-quarta-onda da Covid no continente europeu. 

Desta forma, enquanto os outros designers buscavam por alternativas para se ajustarem aos novos padrões da realidade da moda virtual, Demna Gvasalia, junto à Balenciaga, juntou-se em uma parceria com a Epic Games 一 empresa responsável pelo desenvolvimento do jogo Fortnite 一, para criar um videogame que pudesse expor sua mais nova coleção de outono. 

Já em 2021, Demna conquistou mais uma nova parceria impecável. Em meio aos rumores de divórcio, o casal Kanye e Kim Kardashian foram fiéis à Balenciaga no último ano. 

Enquanto construía o seu novo projeto, intitulado ‘DONDA’, Kanye contou com a participação de um gênio para colaborar nas veias criativas deste novo trabalho. Sendo assim, Gvasalia dirigiu duas das listening parties do Donda, ocorridas no Mercedes-Benz Stadium 一 um estádio tradicional e multi-propósito localizado na cidade de Atlanta, cidade natal de Kanye. 

Em meio a esta colaboração, Demna estava prestes a lançar sua coleção de alta-costura, o que colocaria os holofotes em seu trabalho artesanal. 

O que surpreendeu a todos, de fato, foi a aparição de Kim Kardashian 一 agora ex-esposa de Kanye 一 em uma das audições do projeto do ex-marido, assegurada em Chicago no dia 26 de agosto de 2021, vestindo o notório vestido de noiva da grife Balenciaga. O vestido em questão faz parte da nova coleção de Alta-Costura da Balenciaga, assinada por Demna Gvasalia após 53 anos desde o último lançamento da marca nesta categoria. 

Esta não foi a única vez em que Kim utilizava um modelo Balenciaga. Durante o último ano foi praticamente impossível flagrar Kim Kardashian com uma peça que não fosse da Balenciaga ou assinada por seu amigo Demna Gvasalia. A relação entre os dois parece ter estreitado ainda mais após o anúncio da rainha do clã Kardashian-Jenner como new face da marca. 

Durante o Met Gala 一 evento anual de angariação de fundos a benefício do Metropolitan Museum of Art 一 em setembro de 2021, a grife espanhola governou brilhantemente o tapete vermelho (red carpet) do Met. A maison vestiu diversas celebridades naquela noite como Rihanna e Kim Kardashian, em especial a socialite que roubou a cena ao aparecer no evento vestindo um modelo totalmente coberto assinado pela Balenciaga ao lado de Demna. Neste período, a marca ainda cimentou uma parceria com o Fortnite que possibilitava o uso de looks exclusivos em seus jogadores. 

Kim Kardashian ao lado de Demna Gvasalia no último Met Gala, em setembro de 2021. [Imagens: Vogue us]

A força e fidelidade deste trio 一 Demna, Kanye e Kim 一 icônico foram recompensadas em forma de número: neste intervalo, o Lyst Index apontou a marca como a mais procurada no primeiro trimestre de 2021. A maison, que antes ocupava a quinta posição no ranking, agora ocupa o primeiro lugar 一 substituindo a tradicional Gucci 一 com as buscas reportando um aumento de cerca de 505%. 

Já em outubro de 2021, a indústria da moda se surpreendeu novamente com outro feito inovador de Demna Gvasalia. Para divulgar a nova coleção de Primavera/Verão 2022, o estilista optou por utilizar como abertura de seu desfile um episódio de 10 minutos da animação ‘Os Simpsons’. Nele, os convidados vestiam os looks da nova coleção da marca, rompendo assim as barreiras virtuais e reais. A apresentação foi uma aposta do diretor-criativo em criar um momento de alto senso de humor e trazer uma de suas animações favoritas para uma de suas paixões, o design. 

A plateia do espetáculo apresentado pela família Simpsons contava com a famigerada diretora-chefe da Vogue Americana, Anna Wintour, Kanye e Kim Kardashian, Lewis Hamilton, Offset, Elliot Page, dentre outros nomes.

Outra cartada de Demna para a Balenciaga foi o anúncio de Kim Kardashian 一 uma grande amante da marca e influenciadora na indústria da moda 一 como o rosto da grife. O anúncio foi feito no início de fevereiro, 3, com Kim estrelando a nova campanha da marca fotografada em sua casa minimalista em Calabasas, na Califórnia. 

[Reprodução: Instagram]

O efeito deste anúncio foi mais que positivo: nas 24 horas desde o lançamento da campanha, a busca pela marca aumentou em cerca de 54%, enquanto a busca pela ‘Le Cagole’ 一 bolsa em que a Kardashian posa na campanha 一 reportou um crescimento de 22% nas buscas.

A parceria Demna x Kanye West também rendeu novos frutos. Também em fevereiro deste ano, 2022, Kanye e Balenciaga juntaram-se para a ‘Yeezy Gap Engineered by Balenciaga’. A coleção, exposta em um lookbook de 25 peças é apresentada paralelamente ao lançamento do ‘Donda 2’, novo álbum musical do artista. Os looks seguem a mesma pegada dos últimos outfits usados por Kanye em suas últimas aparições em público. A collab entre Kanye e Balenciaga foram acordadas com a validade prevista para expirar somente em 2032 e possibilita a compra de produtos Yeezy e Balenciaga nos valores de produto Gap.

No início de 2022 o mundo entrou em modo alerta em meio à possibilidade de uma guerra envolvendo a Rússia e a Ucrânia. Apesar da atmosfera extremamente tensa, os líderes globais e civis, especialmente das regiões envolvidas, anseiavam que a situação pudesse se destrinchar em esferas mais diplomáticas, o que infelizmente não aconteceu.

Em fevereiro a notícia que a Rússia estaria invadindo a Ucrânia estava circulando nos principais veículos de informação do mundo. Enquanto um lado da Europa buscava saídas de sobrevivência, o outro assistia os desfiles das Semanas de Moda acontecerem normalmente.

Alguns estilistas, diante do que se passava no continente europeu, buscaram levar a situação urgente aos seus desfiles e passarelas. Este foi o caso de Demna Gvasalia. O garoto que aos 12 anos teve que fugir de casa por conta da guerra instaurada em seu país natal, agora novamente vivenciava esta mesma situação, mesmo que a quilômetros de distância da Ucrânia e da Geórgia, seu país de origem.

Em uma exposição totalmente dramática e carregada de sentimentalismo, a coleção de Outono/Inverno 2022 da Balenciaga, mesmo que elaborada há meses de antecedência, consegue traduzir o momento sombrio vivenciado pela civilização ucraniana nos últimos dois meses.

”Pessoalmente, eu tenho sacrificado demais por conta da guerra. Essa última semana trouxe todas as memórias que eu e minha mãe colocamos em uma caixa e nunca mais olhamos. Nós nunca superamos isso”, essas foram as palavras de Demna a Vogue sobre o porquê de seguir adiante o desfile da Balenciaga.

”É o mesmo agressor, talvez até os mesmos aviões que eles usaram conosco. Quem sabe? E olhar para isso me fez pensar por um tempo: o que estamos fazendo aqui, com a moda? Devo cancelar? Mas não, eu decidi que devemos resistir”, acrescentou o designer.

Desde que se juntou à grife espanhola em 2015, o estilista georgiano demonstra a sua sensibilidade, o seu talento, criatividade, essências, dentre outros aspectos, de forma praticamente invejável. 

Ter um nome como o de Demna Gvasalia por trás da criação e em parte administração da marca é, sem dúvidas, um sinônimo super preciso de sucesso. 

Em um momento de inseguranças e dúvidas para a economia e indústria modista, o talento, criatividade e inovação de Gvasalia falaram mais alto, enquanto em momentos de ‘’estabilidade’’ 一 a exemplo de quando ele se juntou à marca e no contexto pré-pandemia 一 a genialidade e as raízes locais de Demna sobressaíram-se sobre aquilo considerado usual e levaram-no à ascensão, tornando-se um dos principais designers da década e da história da casa Balenciaga. 


Leia também:

A volta do fascínio pelos seios a mostra

A temporada de primavera-verão de 2022 trouxe para suas coleções apresentadas a tendência da transparência do corpo à mostra, que se mostra recorrente principalmente no busto, colocando seios à mostra ou evidenciados pela estrutura da roupa. Porém, não só a exposição literal dos seios femininos estavam presentes, mas também a exaltação dos mesmos em formato surrealistas. A Schiaparelli de Daniel Roseberry trouxe os mamilos grandes, dourados e triangulares, tal como a jaqueta jeans de Júlia Fox que é a parte central do look. Não só eles, mas também Simone Rocha, Loewe, Lanvin, Prada e Saint Laurent adotaram a tendência. 

A exaltação aos seios não aconteceu agora, ela vem de mais de uma década sendo apresentada em temporadas de desfiles. Jean Paul Galtier com seus seios surrealistas apontados para o futuro é a marca registrada de sua moda. E na música também, com Katy Perry com seus peito-bala no clipe California Gurls. A transparência sempre esteve presente. Nos anos 90 ela era infiltrada de forma que os looks evidenciaram a pele, mas com roupa íntima por baixo ou até mesmo a inserção de uma terceira peça para que nem tudo ficasse tão aparente.

Desde o início do Instagram e das redes sociais, os seios à mostra eram bloqueados pelas plataformas, então as peças eram vistas apenas em desfiles e aparições de eventos, como no full look de cristais transparente de Rihanna em 2014. A transparência aparece em 90 com looks ajustados nas cinturas que realçam a beleza do corpo feminino eram os grandes momentos – geraram diversos comentários tanto pela graciosidade quanto pela repercussão conservadora e moral da época. 

Alexander McQueen, considerado uma enfant terrible de sua época, sempre trouxe essas ‘grandes’ problematizações do período para seus shows. Ele não se importava sobre as opiniões a seu respeito e também sobre seus designs. Abusava e ousava da nudez feminina. As inovações de sua geração são tendências e referências aos dias de hoje.

O legado surreal de Jean Paul Gaultier começou na temporada de outono-inverno de 1984. Uma silhueta única com veludo laranja e rosa, no vestido Bombshell Breasts. Adiante, atraiu com seu visual grandes nomes como Madonna com seu corset usado na tour Blond Ambition de 1990. Contudo, eles têm origem de uma memória afetiva do designer, os espartilhos de sua avó, e que foram primeiramente desenvolvidos para Nana, seu urso de pelúcia.

Em 1992, Gaultier organizou um evento de solidariedade de Moda para a AmfAR (Fundação Americana para a Investigação da luta contra o HIV) no Shrine Auditorium de Los Angeles. O evento contou com uma série de celebridades presentes. Porém. Foi Madonna que marcou a noite para que se tornasse memorável por décadas. A cantora tirou a jaqueta quadrada para mostrar um saia de cintura alta e os seios nus emoldurados por um sutiã. 

Portanto, eles não só atraíram como também inspiraram. Elsa Schiaparelli usava de suas referências e isso vem até os dias de hoje. Daniel Roseberry, atual diretor da marca, insere em todas as suas coleções algum design que cubra de forma artística ou que represente os seios femininos. Na alta-costura de 2021, os seios eram cobertos por um colar dourado em forma de brânquias que faziam parte de um vestido longo preto. Já na última temporada de alta costura 2022, Roseberry assemelhou-os ao de Gaultier com peitos pontiagudos feitos com uma mistura de resina e vinil que vinha do corset e eram circulados com arcos dourados. Os seios de Gaultier são arquivados e guardados numa casa tradicional, mas que são inspirações de designs únicos e consequentemente, com o passar do tempo, são vistos sendo imortalizados. 

Contudo, de um período para cá, essa tendência repercutiu para além das passarelas. Glenn Martens em suas últimas coleções para a Y/Projects desenvolveu looks que apresentam seios desenhados. Desde então, celebridades – como Anitta, Bruna Marquezine – aderiram a esse trend. Também podemos notar a influência de Gaultier e seus peitos em forma de cone com as passarelas recentes de Daniel Roseberry para a Schiaparelli, com uma das fortes inspirações do designer sendo antigos estilistas que o ajudaram a nutrir seu amor por moda e desenhar.

A Loewe, dirigida por JW Anderson, na última coleção de outono-inverno 2022, enviou como parte dos convites para seu desfile um ‘lenço’ de látex quadrado, que foi usado por alguns jornalistas como cachecol no momento da apresentação. Mesmo que a casa espanhola seja tradicional com seus fundamentos como uma casa baseada em couro, dessa vez, além dele, utilizou do plástico líquido para desenvolver as peças de blusas firmes nos corpos que eram transparentes.  

Reprodução: Vogue Runway, Loewe FW 2022

Já Isabel Marant na sua coleção de outono-inverno 2022, aderiu à transparência com uma peça manga longa e gola alta feita de rede repleta de cristais, assim como no desfile da Ludovic de Saint Sernin. Os cristais e brilhos têm feito presença há algumas temporadas. Unir ambas tendências fez com que os telespectadores do desfile vibrassem com o looks que contemplava uma calça cargo que quase passou despercebida fazendo dupla com a blusa de cristais.

Pela história, vemos que essa exaltação pela transparência e a exposição dos seios vem de décadas. Esse impulso e ânsia sempre foram requisitados e abordados por designers e mulheres de todas as épocas. Ambos, têm a ver com o encantamento ao corpo feminino. Percorre muito além disso. Representa a autoestima, alívio, conforto e contentamento com o próprio corpo. Vislumbrar pessoas com estaturas reais, compreendendo e aderindo a tendência é o que incentiva as mulheres a se aceitarem genuinamente. 

Reprodução: Vogue Runway, Isabel Marant FW 2022

Leia também:

Decifrando Aläia de Azzedine à Pietter Mulier: os códigos, a história, o legado e o futuro

Uma das principais tendências que a Frenezi apontou para o Inverno 2022 foram os capuzes à la Aläia, desfilados por marcas como Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens. Fluido e alongado, o elemento fez parte dos códigos clássicos da maison comandada por Azzedine Aläia, estilista-ícone turco que deixou para trás um legado de peso em 2017, quando faleceu.

Mas não é à toa que esse elemento apareceu repetidas vezes nas passarelas: em julho do ano passado, a Aläia nomeou o seu primeiro diretor criativo desde a morte de Azzedine. Pieter Mulier foi o nome escolhido para o cargo, e a reativação da marca parece ter trazido de volta o legado de Azzedine para os moodboards dos mais variados estilistas — dentre eles, os três citados anteriormente.

Inverno 2022 de Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

Desde então, Mulier já apresentou duas coleções e vestiu celebridades como Zendaya e Liya Kebede, sendo a última para a recente premiação dos Oscars 2022. Ele também é marido de ninguém menos que Mathiew Blazy, nome escolhido recentemente pela Bottega Veneta para suceder Daniel Lee e sua era dourada na marca. Blazy fez sua estreia na Bottega mês passado, com uma coleção aclamada tanto pelo público quanto pela crítica e onde Mulier estava sentado na primeira fila.

E como na moda qualquer pequeno buzz e movimentação é motivo de atenção, esse talvez seja o momento certo de destrinchar a estética e o legado de Azzedine — os capuzes desfiados por Rick Owens, Dion Lee e Michael Kors podem ser apenas a ponta do icerberg de uma série de referências futuras ao estilista por outros designers e de uma possível re-estabilização da Aläia como uma das principais marcas da temporada parisiense.

Abaixo, entenda a história, o legado e o futuro da maison.

História

Azzedine nasceu na Tunísia entre o início e o final do nosso século — ele costumava não revelar sua idade, por mais que saibamos que o estilista veio ao mundo em 1935 — e foi criado por sua avó, que foi quem inscreveu o neto na academia de Belas-Artes logo cedo aos 16 anos. O sonho do estilista era ser escultor, o que de fato viria a ser a sua profissão dentro da moda mais tarde — Azzedine pode até ser considerado um estilista, mas o título de “escultor da carne humana”, como classifica o biógrafo François Baudot, parece lhe servir melhor.

Azzedine Aläia fotografado por Jean-Baptiste Mondino / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Isso porque Aläia manipulava os tecidos e as agulhas como ninguém, corrigindo “imperfeições” do corpo feminino e realçando suas belezas. De onde veio esta aptidão? Do mesmo lugar que lhe direcionou da Arte para a Moda: a clínica de Madame Pineau, a parteira de seu bairro.

Ela conservava em seu local de trabalho as revistas de moda que o designer apreciava, e Azzedine lhe servia de assistente: esquentava a água e carregava as toalhas. Foi durante os partos que Aläia aprendeu ainda jovem a cuidar do corpo das mulheres e respeitá-lo; e era durante os intervalos entre um e outro que o até então futuro escultor mergulhava nas revistas de Paris, admirando os belos vestidos e tendo a certeza de que era ao lado e para aquelas mulheres que ele gostaria de trabalhar.

Quando finalmente obteve a permissão de sua avó para ir a Paris, Azzedine se apresentou na maison Christian Dior, onde trabalhou por apenas 5 dias em decorrência de problemas com seus documentos legais — era época da Guerra da Argélia, a mesma que fez Saint Laurent sair da também mesma maison para servir ao exército.

Depois disso ele chegou a trabalhar duas estações para o estilista Guy Laroche, até se firmar em um endereço próprio na rua de Bellechasse. É lá que ele cultiva um clientela elegante e discreta e faz suas experimentações têxteis para enfim, em 1980, lançar suas primeiras coleções.

Códigos e filosofia

Entre infinitas assinaturas e códigos clássicos, talvez a principal característica do trabalho do designer não seja exatamente um modelo ou adereço em si — por mais que ele tenha vários — mas sim a impecabilidade de seus designs e a atemporalidade dos mesmos. Carlyne Cerf, stylist de carreira renomada conhecida por ter assinado a primeira capa de Anna Wintour para a Vogue Americana, foi quem melhor soube definir o estilo do estilista: “absolutamente nada dele sai de moda”.

Azzedine não estava interessado em tendências e muito menos no que seus colegas de profissão estavam fazendo. Ele era um perfeccionista nato, interessado em atingir o corte e a modelagem perfeitas e em desenvolver roupas pensadas no movimento dos corpos e na anatomia humana, com as costuras feitas de maneira a contornar o corpo. Tudo isso ele fazia se utilizando principalmente da cor preta e do couro, o que garantia sofisticação e atemporalidade aos looks.

Mesmo assim, alguns elementos são fortemente associados ao seu trabalho: os já mencionados capuzes fluidos e acoplados às peças, o body em lycra, o uso de tecidos elásticos, o zíper enquanto adorno, o drapeado em colmeia de abelha, o cinto-espartilho em couro recortado e a pele animal exótica são alguns exemplos.

Verão 1990, Verão 1992 e Inverno 1992 Aläia da esquerda para a direita / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

O inventor das supermodelos

Para Suzy Menkes, importante crítica e jornalista de moda, foi Aläia quem inventou as supermodelos antes de Gianni. É isso que ela diz em Aläia by Joe Mckenna’, documentário sobre o estilista produzido por um dos mais importantes e influentes stylists do mundo.

De fato, Aläia não só possuía todas as principais modelos da época em seus castings — dentre elas Linda Evangelista, Helena Christensen, Veronica Webb, Cindy Crawford e Naomi Campbell — como também mantinha uma relação de amizade e confiança com cada uma: saia para levá-las ao médico, cozinhava para elas e dava infinitos conselhos. Muito além de uma relação de musa e criador, Azzedine era como um pai para estas meninas.

Supermodelos posam vestidas de Aläia / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Para Naomi essa relação era ainda mais intensa: o estilista praticamente adotou a supermodelo como filha, sendo chamado de “papa” até hoje por ela. Naomi morou com Azzedine durante anos, tendo o estilista como única figura paterna ao longo da vida — ela só veio a conhecer seu pai biológico aos 41 anos de idade.

Azzedine e o sistema

O legado de Azzedine vai muito além de seu talento, processo criativo e design: o estilista foi um dos únicos de sua época a contestar o sistema da Moda. Azzedine apresentava suas coleções fora do calendário oficial e com poucos convidados. Seus desfiles podiam levar horas para começar em razão do seu perfeccionismo – Aläia só deixava a modelo adentrar a passarela se o traje que ela vestia estivesse perfeitamente ajustado ao seu corpo.

Grace Coddington, famosa editora de moda e ex-braço direito de Anna Wintour, ressalta que muitas vezes o seu perfeccionismo resultava em coleções atrasadas e entregues nas estações erradas para as lojas: “…ele trocava o Inverno pelo Verão ou o Verão pelo Inverno, colocava as roupas nas lojas na hora errada. Mas tudo isso provavelmente por uma boa razão: ele não estava nunca satisfeito com o jeito que uma peça era finalizada, ele era extremamente focado no que fazia.”

Com o tempo a espera para seus desfiles foram ficando cada vez mais demoradas, e talvez este tenha sido o motivo de sua desavença com Anna Wintour, que é internacionalmente conhecida por ser extremamente pontual. “Anna comanda os negócios da moda muito bem, mas não a parte criativa. Eu posso falar em voz alta! Ela nunca fotografou o meu trabalho em 10 anos, mesmo eu sendo um dos designers mais vendidos nos EUA. A mulher americana me ama, eu não preciso do suporte dela! De qualquer maneira, quem vai lembrar de Anna Wintour na história da moda? Ninguém.” foi o que ele declarou de maneira polêmica em 2011 para Vogue Inglesa.

Verdade ou não, o fato é que isto só comprova o quanto o estilista ia na contramão do sistema como um todo: ele apresentava suas coleções no momento em que queria e batia de frente com um dos principais nomes do mercado pois tinha certeza de seu talento e contribuição criativa para a indústria — e era, acima de tudo, um devoto ao seu ofício.

A era Mulier

Mesmo com apenas duas coleções apresentadas até então, Pieter Mulier parece ter sido a escolha certa para dar continuação ao legado de Azzedine e inseri-lo no mundo contemporâneo. Antes de Mulier e após a morte de Aläia a marca continuou entregando coleções desenvolvidas por um time interno, porém feitas de maneira enxuta e com pouca informação de moda.

Ex-braço direito de Raf Simons na Calvin Klein 205W39NYC, Mulier parece saber unir bem o lado comercial com os códigos clássicos da casa e consequentemente mirar em uma audiência mais nova. Nas suas mãos os tradicionais cintos em couro recortado se tornaram braceletes, os capuzes fluidos tomaram forma de balaclavas e os recortes e costuras estratégicas de Azzedine foram adaptados a modelagens atuais, como as proporções midi, e materiais do momento, como o jeans e a pele fake. Ao que tudo indica, este é apenas o início do comeback da marca e da re-estabilização do legado de um dos maiores estilistas de todos os tempos.

Verão e Inverno 2022 da Aläia por Pieter Mulier / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

Leia também: