Por trás do DNA: Demna Gvasalia

Balenciaga não é o nome do momento à toa. A marca, que possui anos de história, tradição e sofisticação, agora conta com uma direção criativa e direção de marketing praticamente perfeitos. 

A presença de nomes como Kanye West & Kim Kardashian 一 agora o famigerado ex-casal ‘Kimye’ 一, Rihanna e Cardi B pode acabar por exercer um encargo fundamental para a promoção da marca. No entanto, outro nome pode ser fortemente associado ao sucesso e patamar esplêndidos nos quais a casa Balenciaga fora elevada e este é: Demna Gvasalia. 

Natural da cidade de Sucumi, capital da Abecásia (uma república independente dentro da Geórgia), o estilista de 41 anos agora reposiciona a maison em seu parâmetro de ousadia, ironia e duramente real e cru.

Com seus designs extremamente sólidos e inovadores, Gvasalia tem, de forma extremamente sucessiva, voltado os olhos do mundo da moda 一 quase que exclusivamente 一 à Balenciaga. 

[Imagem retirada do site da Vogue USl]

História

Demna Gvasalia nasceu em 26 de março de 1981 na cidade de Sucumi (ou Sukhumi), na república 一 naquela época 一 soviética da Geórgia em uma família inserida nos costumes ortodoxos georgianos. 

Diferentemente de outros designers que despertam sua paixão pelo universo da moda e desfrutam-na ainda na adolescência, Demna presenciou uma juventude até então conturbada. 

Apesar de adorar criar vestimentas desde os seus 8 anos, aos 12 ele fugiu de seu país em decorrência ao momento em que atravessava a Geórgia: uma árdua guerra civil consistida em conflitos inter-étnicos e intra-nacionais perante o violento Golpe de Estado por parte de militares (entre o final do ano de 1991 e início de janeiro de 1992) contra o primeiro Presidente democraticamente eleito, Zviad Gamsakhurdia. 

Dentro deste contexto de conflitos, de 2001 por diante o estilista e sua família se mudaram para a cidade de Düsseldorf, na Alemanha. Antes de ingressar no mundo da moda e do design, Demna Gvasalia cursou Economia Internacional durante 4 anos na Universidade Estadual de Tbilissi (Ivane Javakhishvili Tbilisi State University), na capital da Geórgia, com a intenção de trabalhar como banqueiro. Anos mais tarde, insatisfeito com sua posição profissional e buscando aflorar seus instintos criativos, em 2006 Demna ingressou em um curso de mestrado em Design de Moda na Academia Real de Belas Artes de Antuérpia (Royal Academy of Fine Arts), na Bélgica.

Enquanto buscava o título de mestre em Design de Moda, Gvasalia colaborou com o também designer Walter Van Beirendonck 一 na época, professor da Academia 一 ainda em 2006 para suas coleções masculinas. Dali por diante o currículo de Gvasalia no universo da moda passou a tomar outro rumo. 

Três anos mais tarde, em 2009, o georgiano se juntou à Maison Martin Margiela, em que o artista era responsável pela criação das coleções femininas até 2013, ano este em que Demna foi indicado como designer sênior para as coleções femininas de ready-to-wear na Louis Vuitton 一 inicialmente comandada por Marc Jacobs e brevemente apresentada sob os cuidados de Nicholas Ghesquière.

O tempo que Demna passou na Margiela foi fundamental no processo de criação e descobrimento de sua identidade como um designer, além de moldar o estilo pessoal do artista. 

Sendo assim, um ano após deixar o cargo na grife, o artista optou por aclimar e expor o seu talento de outra forma: fundando sua própria marca, denominada Vetements.

Lookbook da coleção de Outono/Inverno 2015 (terceira coleção da marca). [Imagens: Vogue Runway]

VETEMENTS

Para expandir e explorar o seu lado artístico, em 2014 Demna lançou sua própria marca, a Vetements, ao lado de seu irmão Guram Gvasalia e em colaboração com um grupo pequeno de 7 amigos e colegas de classe na Academia Real de Belas Artes belga 一 inicialmente optando por atuarem de maneira anônima 一, que geralmente exibiam suas criações em pequenos clubes gays na cidade de Paris, na França. 

A primeira coleção feminina de ready-to-wear da marca foi lançada durante a Semana de Moda de Paris ainda em 2014 na Galerie Bernard Jordan, na capital francesa. 

Durante seu trabalho como co-fundador e especialmente diretor-criativo da Vetements, Demna explorou firmemente a força do streetwear na moda embalada a um mundo extremamente ‘cool’ que contrastava bastante com as outras marcas que uniam e buscavam excepcionalmente a sofisticação, luxo e riqueza de detalhes em suas apresentações durante a semana de moda. 

Além disso, durante sua estada frente à criação das peças, Demna ainda mergulhou no cenário cult juvenil 一 um dos elementos responsáveis pela explosão da marca entre os amantes desta faixa etária 一, unindo a praticidade do dia-a-dia ao mercado de estratégia e business, o que Gvasalia também conseguiu sempre fazer muito bem.

Outro ponto que reforça a genialidade de Demna como um líder na marca foi, sem dúvidas, a virada de chave quanto a identidade da Vetements.

Abrigando fortes referências ao seu passado na Geórgia soviética e suas heranças maternas 一 oriundas da Rússia 一, elementos como vestidos floridos, babushkas, moletons estampando o símbolo do Partido Comunista, dentre outros, sempre foram fundamentais na composição das peças da Vetements.

A estética do grupo abraçara o universo antifashion (antimoda em tradução livre), estética que contradiz a moda convencional e opta pelo simples substituindo a extravagância e o maximalismo. 

Ou seja, embora fosse ‘’contra’’ o que a maioria das marcas atendia durante as semanas de moda, os desenhos de peças oversizeds, espontâneos, portando silhuetas enormes além de tendências hardcores  e desconstrutivas do Leste Europeu conquistaram o público e a crítica aclamada da moda, responsáveis ainda por solidificarem a marca como representante fiel da realidade das roupas. 

Ademais, outro fator primordial no impulsionamento do espírito vanguardista, livre e vívido de Demna enquanto diretor-criativo foi a escolha de seu casting. Durante os anos que colaborou com a Vetements 一 seja como co-fundador ou diretor de criação 一, o estilista buscou por personagens não-modelos e menos convencionais para capturarem precisamente o objetivo buscado por Demna e sua marca: pessoas reais vestindo peças que condizem com o mundo real e com o seu modo de viver e aventurar-se no cotidiano.

Não é à toa, que a marca elevou o seu nível entre sua segunda e terceira coleções. Neste breve período a marca fora apontada como a semifinalista em 2015 do prêmio de ‘Novo Designer de Moda’ da LVMH, um dos principais conglomerados de luxo do mundo.

Apesar do reconhecimento, Demna não limitou sua genialidade e garantiu que na ilustre coleção de Outono/Inverno de 2015, a marca coletiva pudesse avançar um novo passo através do envio de modelos para o famoso clube gay de Paris, o ‘Le Depot’, em peças que reproduziam polos de bombeiros, além de moletons grandes e casacos oversized que atendiam precisamente os gostos dos telespectadores, tais quais Jared Leto e Kanye West.

A busca pela criação de uma moda subversiva ao lado de um talento revolucionário, real e genial foram aspectos fundamentais para que também em 2015 Demna Gvasalia chamasse a atenção da Balenciaga e, como o próprio presidente da Kering 一 conglomerado de luxo que engloba a Balenciaga 一, François-Henri Pinault destacou, Demna Gvasalia era uma ‘’força poderosa no mundo criativo de hoje’’ e, sendo assim, fora convidado para ocupar o cargo de diretor-criativo da casa. 

Durante seu trabalho como diretor-criativo duplo 一 Demna era responsável pelas criações da Vetements e da Balenciaga 一, o estilista conquistou em março de 2017 o prêmio do CFDA (Council of Fashion Designers of America) por seus afazeres em ambas as marcas. Dois anos mais tarde, em 2019, o designer surpreendeu a todos com o anúncio de sua saída da direção-criativa da Vetements. 

Em suas próprias palavras, o estilista disse começar a Vetements por estar entediado com a moda e, contra todas as probabilidades, a moda mudou uma vez e para sempre desde que a Vetements apareceu e também abriu uma nova porta para muitos. 

‘’Então, sinto que cumpri minha missão de conceitualista e inovador de design nesta marca excepcional e a Vetements amadureceu em uma empresa que pode evoluir sua herança criativa para um novo capítulo por conta própria’’, concluiu Demna. 

Encerrando assim sua estadia na marca que fundara com seu irmão, Gvasalia, a partir deste momento, contribuiu para elevar a Balenciaga ao status imperioso que se encontra agora.

BALENCIAGA

Após sua nomeação como diretor-criativo da marca 一 logo após a saída de Alexander Wang 一, Demna Gvasalia deu início a um trabalho mais que extraordinário.

Ainda compromissado com suas heranças voltadas ao streetwear e um estilo mais casual, agora como responsável pela criação da Balenciaga o estilista buscou retomar as influências deixadas por Cristóbal Balenciaga, entretanto, de uma maneira que não fugisse de sua própria estética moderna e vanguardista. 

Em seu debut, mais precisamente marcado pela apresentação da coleção de Outono/Inverno de 2016 da maison, Demna explorou inicialmente peças que remontam a estética política-parlamentar, ou seja, unindo o poder feminino 一 que metaforicamente poderia ser associado ao poder no mundo político 一, de modo que pudesse ainda representar as características de Cristóbal e da casa de maneira excepcional e sucinta. 

Conforme a coleção era apresentada, o designer conseguiu expor o ápice e as características de seu DNA: peças que operam muito bem no streetwear costuradas entre sua estética e, de maneira totalmente especial, com os atributos de Balenciaga, incluindo ainda influências de sua juventude soviética na Geórgia em suas criações. 

Ainda que a coleção a seguir (Pré-Outono de 2016) não fosse totalmente assinada por Gvasalia devido ao momento de transição entre sua chegada e a partida de Wang, era possível detectar algumas de suas características 一 herdadas especialmente de seu tempo de trabalho com sua antiga marca, a Vetements.

Dentre elas: botas de salto agulha que seguiam até as coxas, o xadrez Vichy de arquivo em pequenos florais de preto, o moletom com capuz fotografado no modelo perfil para simular a silhueta específica da Balenciaga e as linhas fluidas de um vestido longo e volumoso estampado com flores, inegavelmente seguindo os estilos Vetements.

Na coleção seguinte – primavera/verão de 2017 masculina – Demna expõe de maneira única o quanto tem feito e estudado as lições de casa. Desde sua chegada na maison, o artista parece provar ser mais que possível tomar as rédeas de uma casa de modo metricamente perfeito sem perder suas origens ou, neste caso, sem perder as referências originais da marca.

E assim o fez. Em um perceptível mergulho aos arquivos da Balenciaga, Gvasalia finalizou um dos casacos iniciados 一 e nunca finalizados por Cristóbal durante sua gestão na maison 一 pelo fundador da casa, abrindo o desfile com a presença ilustre desta peça em um tributo altruísta com criações ainda assim tão únicas e sofisticadas. O resultado obviamente foi inesperado, resultando em uma coleção repleta de peças desenhadas em ombros largos, shorts justos e brogues pesados.

A coleção de Outono/Inverno 2017 também deu o que falar, assim como praticamente todas as coleções expostas por Gvasalia.

Para esta temporada, o estilista desfrutou de inspirações no candidato democrata Bernie Sanders, utilizando referências do estilo clássico e esportivo, bem como casual. Demna redesenhou o logo da campanha de Sanders de forma que combinasse com o logo da Balenciaga apresentado em seus shows. A apresentação foi recebida de forma bastante otimista e com um bom-humor por parte do ‘muso inspirador’ da coleção, que chegou inclusive a ser notícia em um canal jornalístico tradicional norte-americano, a CNN.

Nas coleções que seguiram, o uso de collants de spandex e saltos completamente provocantes fizeram parte do cenário de desenvolvimento e ousadia do designer. Criações como o sapato-meia (speed sock), o Triple S, crocs de plataforma (platform-sole Crocs), bolsas de couro da IKEA e ternos de baile de formatura satíricos conquistaram as massas ambientadas em diferentes posições, ainda expondo os clichês por trás do elitismo presente na moda. 

Em meio a este processo entre sua chegada e sua caminhada ao topo dos holofotes como diretor-criativo da casa, Demna conseguiu posicionar a Balenciaga como uma moda altamente corporativa além de colocá-la como a marca mais legal e bem-humorada do mundo através de seus designs extremamente revolucionários, precisos e criativos.

O universo de streetwear, apesar de predominar em praticamente todas as coleções de Demna para a Balenciaga 一 e embora este estilo pareça perpetuar entre criações mais simplistas 一, agora se expressa de uma maneira ainda mais sofisticada e compromissada com a entrega de um trabalho mais clássico e luxuoso entrelaçando as assinaturas de Gvasalia e Cristóbal, alinhadas à demanda da casa Balenciaga. 

E engana-se ainda quem imagina que a genialidade e criatividade de Demna são circundadas apenas nos limites das passarelas. Fora delas, a mente criativa do estilista aflora-se durante o modo de apresentação e exposição de suas coleções. Os cenários são escolhidos de maneira demasiadamente especial. 

As coleções de Pré-outono 2019, de Resort 2020 e Pré-outono 2020 mergulham entre a sofisticação de peças em streetwear 一 contempladas com criações overziseds e trench-coats mais clássicos 一 expostas de forma que se assimilassem com candids casuais de pessoas encontradas nas ruas ambientadas em diferentes atmosferas.

Enquanto isso, a coleção de Resort de 2021 nos fascina com o modo em que é exposta: a apresentação e fotografia das peças foi montada de maneira que captasse um pouco do mercado de e-commerce. 

O showroom da coleção consistiu em um sistema de informações virtuais que disponibilizavam algumas informações da composição da peça, os materiais das roupas e seus acessórios, além dos IDs que facilitariam na busca do produto.

O excentrismo de Demna ficou ainda mais evidente com a coleção Resort 2022. Nela o estilista entregou uma apresentação marcada por críticas pontuais à indústria da moda. ‘Os Clones’, assim intitulada a coleção da casa, em primeiro momento aparenta ser bastante comum e seguir com os padrões de inovações do conjunto Demna x Balenciaga. Entretanto, partindo de uma análise mais profunda é possível identificar qual o storytelling pretendido pelo diretor-criativo. 

A live de apresentação da coleção se inicia com um pequeno texto nos convidando a refletir o modo como vivemos, relacionado às ilusões criadas especialmente a partir da tecnologia, que não mais nos permite identificar o que é real ou ilusório. O uso proposital da tecnologia nos 45 looks apresentados, incrivelmente compostos pelo rosto de Eliza Douglas, uma amiga próxima de Demna, também nos permite fazer uma reflexão acerca do comportamento social.  

No aspecto estético, as assinaturas de Demna Gvasalia não ficaram de fora da coleção Resort 2022. Nela foram captadas fortes referências às mulheres russas, fazendo grande menção às suas raízes soviéticas através da aparição das botas grandes, peças oversized, lenços, babushkas e um visual mais pesado.

A mais recente coleção da casa, pré-Outono 2022, filmada pelo renomado Harmony Korine e exposta em formato de polaroides, assume uma das principais influências e características do design de Demna: os anos 90. 

Na apresentação desta temporada, Gvasalia rebobina o relógio para a época pré-bombardeio da internet e pós-grunge, minimalista, desconstruída e com forte marco da estética de guerrilha e em que a única cor permitida era a sua cor favorita 一 o preto. 

‘’Os anos 90 foram a década em que percebi que adorava a moda’’, declarou Demna Gvasalia em uma entrevista para a Vogue Runway. 

Lookbook acima com algumas das peças expostas na coleção Pé-outono 2022. [Imagens: Vogue France e Vogue Runway].

BALENCIAGA COUTURE

Apesar de inúmeros feitos e criações simbólicas para a casa, o triunfo à la Demna Gvasalia para a Balenciaga foi a coleção desenvolvida para a alta-costura. A exposição de Outono 2021 Couture foi a primeira exposição da marca para esta categoria desde 1967 一 quando Cristóbal Balenciaga deixou a marca. 

O que parecia ser um teste de alto risco para sua carreira, visto que a última coleção voltada à confecção de peças para alta-costura foi criada por Cristóbal, acabou sendo o apogeu do prestígio de seu trabalho perante a crítica renomada e entre o público do mundo da moda. 

A coleção criada e exposta por Demna provou que o artista sabe sim para o que veio e o quanto consegue unir as características originais de Cristóbal e Balenciaga com suas referências próprias. Enquanto homenageava o arquiteto da alta-costura, Demna expôs de maneira exemplar suas ideias revolucionárias sobre o século atual. 

Em uma coleção que reúne artigos de luxo, elegância, nobreza e muita sofisticação, os membros da moda 一 entre jornalistas e o público geral 一 pararam para testemunhar a história novamente sendo feita na Balenciaga na 10 Avenue Georges V naquele 7 de julho de 2021, mesmo após quase 54 anos desde a exposição da última coleção de Alta-Costura da maison. 

Em 63 peças reunidas majoritariamente na cor preta, Demna apresentou uma coleção de alta-costura sóbria, com a presença de uma alfaiataria rigorosa e potente, bordados floridos, vestimentas expansivas e um drama expresso por suas golas mais recuadas. Além disso, a assinatura de Gvasalia esteve mais que presente durante a apresentação de sua coleção, contendo camisas grandes 一 que acompanham Demna por praticamente toda a sua trajetória no mercado da moda 一, roupas de banho e jeans utilitários, o que também retoma as influências do streetwear na jornada de criação do estilista. 

Neste trabalho foi possível acompanhar e absorver toda a genialidade e curiosidade do artista, marcados exclusivamente por sua autenticidade quanto à criação de seu trabalho, o que, claro, levou-o a conquistar o cargo de diretor-criativo da Balenciaga.

Sua engenhosidade e determinação foram imprescindíveis na caminhada de Demna ao reconhecimento e patamar nos quais o designer encontra-se atualmente e a prova disto pode ser facilmente encontrada nos detalhes de suas criações e no talento e amor que Demna Gvasalia coloca em suas peças.  

PANDEMIA E ESTRATÉGIAS DE MARKETING

Daniel Lee, ex-diretor-criativo da Bottega Veneta, pode ter sido uma grande referência em rebranding e estratégias de marketing/business da marca italiana. Entretanto, também neste tópico, Demna Gvasalia não fica muito atrás. 

Apesar do período de inseguranças e inúmeras incertezas 一 sem exceção do mercado de moda e design 一 desencadeadas pela pandemia em decorrência ao surgimento do novo coronavírus (Covid-19), a instabilidade no comércio de vendas pode não ter sido uma preocupação para a equipe Balenciaga. 

Enquanto diversas marcas buscavam demasiadas opções de rebrandings e novas estratégias para alavancarem as vendas de suas marcas 一 especialmente após a implantação de restrições que impediam a ocorrência de desfiles presenciais 一, a Balenciaga comandada por Demna fazia o uso inteligente de memes e redes sociais para divulgarem a marca de forma que a atenção pudesse estar na maison. 

Além disso, o posicionamento de Demna quanto a não-alienação de tópicos sociais, políticos e especialmente ambientais também foram cruciais para que o faturamento da marca pudesse superar o marco de USD 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) de vendas anuais desde quando o designer assumiu a casa, em 2015.

Outro detalhe que pesa bastante na trajetória de Demna Gvasalia é estar rodeado de personalidades ‘certas’ em hora e lugar também certos. 

Cercado de artistas e personagens influentes na indústria, seja na moda e/ou musical, dentre outras, como Cardi B 一 que em algumas de suas músicas reverenciou a marca 一, Rihanna, Justin Bieber, Elliot Page e o agora ex-casal Kim Kardashian e Kanye West, as estratégias de marketing da marca parecem fluir de maneira totalmente espontânea e orgânica.

No cenário caótico marcado pela pandemia em que o mundo atravessava, Demna se reinventou novamente elevando a marca ao universo do metaverso e da tecnologia. Embarcando nesta nova experiência perante a ausência dos desfiles físicos, o estilista criou uma exposição totalmente voltada ao design de jogos. A coleção em questão é a de Outono de 2021, exposta no contexto de uma terceira-possível-quarta-onda da Covid no continente europeu. 

Desta forma, enquanto os outros designers buscavam por alternativas para se ajustarem aos novos padrões da realidade da moda virtual, Demna Gvasalia, junto à Balenciaga, juntou-se em uma parceria com a Epic Games 一 empresa responsável pelo desenvolvimento do jogo Fortnite 一, para criar um videogame que pudesse expor sua mais nova coleção de outono. 

Já em 2021, Demna conquistou mais uma nova parceria impecável. Em meio aos rumores de divórcio, o casal Kanye e Kim Kardashian foram fiéis à Balenciaga no último ano. 

Enquanto construía o seu novo projeto, intitulado ‘DONDA’, Kanye contou com a participação de um gênio para colaborar nas veias criativas deste novo trabalho. Sendo assim, Gvasalia dirigiu duas das listening parties do Donda, ocorridas no Mercedes-Benz Stadium 一 um estádio tradicional e multi-propósito localizado na cidade de Atlanta, cidade natal de Kanye. 

Em meio a esta colaboração, Demna estava prestes a lançar sua coleção de alta-costura, o que colocaria os holofotes em seu trabalho artesanal. 

O que surpreendeu a todos, de fato, foi a aparição de Kim Kardashian 一 agora ex-esposa de Kanye 一 em uma das audições do projeto do ex-marido, assegurada em Chicago no dia 26 de agosto de 2021, vestindo o notório vestido de noiva da grife Balenciaga. O vestido em questão faz parte da nova coleção de Alta-Costura da Balenciaga, assinada por Demna Gvasalia após 53 anos desde o último lançamento da marca nesta categoria. 

Esta não foi a única vez em que Kim utilizava um modelo Balenciaga. Durante o último ano foi praticamente impossível flagrar Kim Kardashian com uma peça que não fosse da Balenciaga ou assinada por seu amigo Demna Gvasalia. A relação entre os dois parece ter estreitado ainda mais após o anúncio da rainha do clã Kardashian-Jenner como new face da marca. 

Durante o Met Gala 一 evento anual de angariação de fundos a benefício do Metropolitan Museum of Art 一 em setembro de 2021, a grife espanhola governou brilhantemente o tapete vermelho (red carpet) do Met. A maison vestiu diversas celebridades naquela noite como Rihanna e Kim Kardashian, em especial a socialite que roubou a cena ao aparecer no evento vestindo um modelo totalmente coberto assinado pela Balenciaga ao lado de Demna. Neste período, a marca ainda cimentou uma parceria com o Fortnite que possibilitava o uso de looks exclusivos em seus jogadores. 

Kim Kardashian ao lado de Demna Gvasalia no último Met Gala, em setembro de 2021. [Imagens: Vogue us]

A força e fidelidade deste trio 一 Demna, Kanye e Kim 一 icônico foram recompensadas em forma de número: neste intervalo, o Lyst Index apontou a marca como a mais procurada no primeiro trimestre de 2021. A maison, que antes ocupava a quinta posição no ranking, agora ocupa o primeiro lugar 一 substituindo a tradicional Gucci 一 com as buscas reportando um aumento de cerca de 505%. 

Já em outubro de 2021, a indústria da moda se surpreendeu novamente com outro feito inovador de Demna Gvasalia. Para divulgar a nova coleção de Primavera/Verão 2022, o estilista optou por utilizar como abertura de seu desfile um episódio de 10 minutos da animação ‘Os Simpsons’. Nele, os convidados vestiam os looks da nova coleção da marca, rompendo assim as barreiras virtuais e reais. A apresentação foi uma aposta do diretor-criativo em criar um momento de alto senso de humor e trazer uma de suas animações favoritas para uma de suas paixões, o design. 

A plateia do espetáculo apresentado pela família Simpsons contava com a famigerada diretora-chefe da Vogue Americana, Anna Wintour, Kanye e Kim Kardashian, Lewis Hamilton, Offset, Elliot Page, dentre outros nomes.

Outra cartada de Demna para a Balenciaga foi o anúncio de Kim Kardashian 一 uma grande amante da marca e influenciadora na indústria da moda 一 como o rosto da grife. O anúncio foi feito no início de fevereiro, 3, com Kim estrelando a nova campanha da marca fotografada em sua casa minimalista em Calabasas, na Califórnia. 

[Reprodução: Instagram]

O efeito deste anúncio foi mais que positivo: nas 24 horas desde o lançamento da campanha, a busca pela marca aumentou em cerca de 54%, enquanto a busca pela ‘Le Cagole’ 一 bolsa em que a Kardashian posa na campanha 一 reportou um crescimento de 22% nas buscas.

A parceria Demna x Kanye West também rendeu novos frutos. Também em fevereiro deste ano, 2022, Kanye e Balenciaga juntaram-se para a ‘Yeezy Gap Engineered by Balenciaga’. A coleção, exposta em um lookbook de 25 peças é apresentada paralelamente ao lançamento do ‘Donda 2’, novo álbum musical do artista. Os looks seguem a mesma pegada dos últimos outfits usados por Kanye em suas últimas aparições em público. A collab entre Kanye e Balenciaga foram acordadas com a validade prevista para expirar somente em 2032 e possibilita a compra de produtos Yeezy e Balenciaga nos valores de produto Gap.

No início de 2022 o mundo entrou em modo alerta em meio à possibilidade de uma guerra envolvendo a Rússia e a Ucrânia. Apesar da atmosfera extremamente tensa, os líderes globais e civis, especialmente das regiões envolvidas, anseiavam que a situação pudesse se destrinchar em esferas mais diplomáticas, o que infelizmente não aconteceu.

Em fevereiro a notícia que a Rússia estaria invadindo a Ucrânia estava circulando nos principais veículos de informação do mundo. Enquanto um lado da Europa buscava saídas de sobrevivência, o outro assistia os desfiles das Semanas de Moda acontecerem normalmente.

Alguns estilistas, diante do que se passava no continente europeu, buscaram levar a situação urgente aos seus desfiles e passarelas. Este foi o caso de Demna Gvasalia. O garoto que aos 12 anos teve que fugir de casa por conta da guerra instaurada em seu país natal, agora novamente vivenciava esta mesma situação, mesmo que a quilômetros de distância da Ucrânia e da Geórgia, seu país de origem.

Em uma exposição totalmente dramática e carregada de sentimentalismo, a coleção de Outono/Inverno 2022 da Balenciaga, mesmo que elaborada há meses de antecedência, consegue traduzir o momento sombrio vivenciado pela civilização ucraniana nos últimos dois meses.

”Pessoalmente, eu tenho sacrificado demais por conta da guerra. Essa última semana trouxe todas as memórias que eu e minha mãe colocamos em uma caixa e nunca mais olhamos. Nós nunca superamos isso”, essas foram as palavras de Demna a Vogue sobre o porquê de seguir adiante o desfile da Balenciaga.

”É o mesmo agressor, talvez até os mesmos aviões que eles usaram conosco. Quem sabe? E olhar para isso me fez pensar por um tempo: o que estamos fazendo aqui, com a moda? Devo cancelar? Mas não, eu decidi que devemos resistir”, acrescentou o designer.

Desde que se juntou à grife espanhola em 2015, o estilista georgiano demonstra a sua sensibilidade, o seu talento, criatividade, essências, dentre outros aspectos, de forma praticamente invejável. 

Ter um nome como o de Demna Gvasalia por trás da criação e em parte administração da marca é, sem dúvidas, um sinônimo super preciso de sucesso. 

Em um momento de inseguranças e dúvidas para a economia e indústria modista, o talento, criatividade e inovação de Gvasalia falaram mais alto, enquanto em momentos de ‘’estabilidade’’ 一 a exemplo de quando ele se juntou à marca e no contexto pré-pandemia 一 a genialidade e as raízes locais de Demna sobressaíram-se sobre aquilo considerado usual e levaram-no à ascensão, tornando-se um dos principais designers da década e da história da casa Balenciaga. 


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A volta do fascínio pelos seios a mostra

A temporada de primavera-verão de 2022 trouxe para suas coleções apresentadas a tendência da transparência do corpo à mostra, que se mostra recorrente principalmente no busto, colocando seios à mostra ou evidenciados pela estrutura da roupa. Porém, não só a exposição literal dos seios femininos estavam presentes, mas também a exaltação dos mesmos em formato surrealistas. A Schiaparelli de Daniel Roseberry trouxe os mamilos grandes, dourados e triangulares, tal como a jaqueta jeans de Júlia Fox que é a parte central do look. Não só eles, mas também Simone Rocha, Loewe, Lanvin, Prada e Saint Laurent adotaram a tendência. 

A exaltação aos seios não aconteceu agora, ela vem de mais de uma década sendo apresentada em temporadas de desfiles. Jean Paul Galtier com seus seios surrealistas apontados para o futuro é a marca registrada de sua moda. E na música também, com Katy Perry com seus peito-bala no clipe California Gurls. A transparência sempre esteve presente. Nos anos 90 ela era infiltrada de forma que os looks evidenciaram a pele, mas com roupa íntima por baixo ou até mesmo a inserção de uma terceira peça para que nem tudo ficasse tão aparente.

Desde o início do Instagram e das redes sociais, os seios à mostra eram bloqueados pelas plataformas, então as peças eram vistas apenas em desfiles e aparições de eventos, como no full look de cristais transparente de Rihanna em 2014. A transparência aparece em 90 com looks ajustados nas cinturas que realçam a beleza do corpo feminino eram os grandes momentos – geraram diversos comentários tanto pela graciosidade quanto pela repercussão conservadora e moral da época. 

Alexander McQueen, considerado uma enfant terrible de sua época, sempre trouxe essas ‘grandes’ problematizações do período para seus shows. Ele não se importava sobre as opiniões a seu respeito e também sobre seus designs. Abusava e ousava da nudez feminina. As inovações de sua geração são tendências e referências aos dias de hoje.

O legado surreal de Jean Paul Gaultier começou na temporada de outono-inverno de 1984. Uma silhueta única com veludo laranja e rosa, no vestido Bombshell Breasts. Adiante, atraiu com seu visual grandes nomes como Madonna com seu corset usado na tour Blond Ambition de 1990. Contudo, eles têm origem de uma memória afetiva do designer, os espartilhos de sua avó, e que foram primeiramente desenvolvidos para Nana, seu urso de pelúcia.

Em 1992, Gaultier organizou um evento de solidariedade de Moda para a AmfAR (Fundação Americana para a Investigação da luta contra o HIV) no Shrine Auditorium de Los Angeles. O evento contou com uma série de celebridades presentes. Porém. Foi Madonna que marcou a noite para que se tornasse memorável por décadas. A cantora tirou a jaqueta quadrada para mostrar um saia de cintura alta e os seios nus emoldurados por um sutiã. 

Portanto, eles não só atraíram como também inspiraram. Elsa Schiaparelli usava de suas referências e isso vem até os dias de hoje. Daniel Roseberry, atual diretor da marca, insere em todas as suas coleções algum design que cubra de forma artística ou que represente os seios femininos. Na alta-costura de 2021, os seios eram cobertos por um colar dourado em forma de brânquias que faziam parte de um vestido longo preto. Já na última temporada de alta costura 2022, Roseberry assemelhou-os ao de Gaultier com peitos pontiagudos feitos com uma mistura de resina e vinil que vinha do corset e eram circulados com arcos dourados. Os seios de Gaultier são arquivados e guardados numa casa tradicional, mas que são inspirações de designs únicos e consequentemente, com o passar do tempo, são vistos sendo imortalizados. 

Contudo, de um período para cá, essa tendência repercutiu para além das passarelas. Glenn Martens em suas últimas coleções para a Y/Projects desenvolveu looks que apresentam seios desenhados. Desde então, celebridades – como Anitta, Bruna Marquezine – aderiram a esse trend. Também podemos notar a influência de Gaultier e seus peitos em forma de cone com as passarelas recentes de Daniel Roseberry para a Schiaparelli, com uma das fortes inspirações do designer sendo antigos estilistas que o ajudaram a nutrir seu amor por moda e desenhar.

A Loewe, dirigida por JW Anderson, na última coleção de outono-inverno 2022, enviou como parte dos convites para seu desfile um ‘lenço’ de látex quadrado, que foi usado por alguns jornalistas como cachecol no momento da apresentação. Mesmo que a casa espanhola seja tradicional com seus fundamentos como uma casa baseada em couro, dessa vez, além dele, utilizou do plástico líquido para desenvolver as peças de blusas firmes nos corpos que eram transparentes.  

Reprodução: Vogue Runway, Loewe FW 2022

Já Isabel Marant na sua coleção de outono-inverno 2022, aderiu à transparência com uma peça manga longa e gola alta feita de rede repleta de cristais, assim como no desfile da Ludovic de Saint Sernin. Os cristais e brilhos têm feito presença há algumas temporadas. Unir ambas tendências fez com que os telespectadores do desfile vibrassem com o looks que contemplava uma calça cargo que quase passou despercebida fazendo dupla com a blusa de cristais.

Pela história, vemos que essa exaltação pela transparência e a exposição dos seios vem de décadas. Esse impulso e ânsia sempre foram requisitados e abordados por designers e mulheres de todas as épocas. Ambos, têm a ver com o encantamento ao corpo feminino. Percorre muito além disso. Representa a autoestima, alívio, conforto e contentamento com o próprio corpo. Vislumbrar pessoas com estaturas reais, compreendendo e aderindo a tendência é o que incentiva as mulheres a se aceitarem genuinamente. 

Reprodução: Vogue Runway, Isabel Marant FW 2022

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Decifrando Aläia de Azzedine à Pietter Mulier: os códigos, a história, o legado e o futuro

Uma das principais tendências que a Frenezi apontou para o Inverno 2022 foram os capuzes à la Aläia, desfilados por marcas como Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens. Fluido e alongado, o elemento fez parte dos códigos clássicos da maison comandada por Azzedine Aläia, estilista-ícone turco que deixou para trás um legado de peso em 2017, quando faleceu.

Mas não é à toa que esse elemento apareceu repetidas vezes nas passarelas: em julho do ano passado, a Aläia nomeou o seu primeiro diretor criativo desde a morte de Azzedine. Pieter Mulier foi o nome escolhido para o cargo, e a reativação da marca parece ter trazido de volta o legado de Azzedine para os moodboards dos mais variados estilistas — dentre eles, os três citados anteriormente.

Inverno 2022 de Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

Desde então, Mulier já apresentou duas coleções e vestiu celebridades como Zendaya e Liya Kebede, sendo a última para a recente premiação dos Oscars 2022. Ele também é marido de ninguém menos que Mathiew Blazy, nome escolhido recentemente pela Bottega Veneta para suceder Daniel Lee e sua era dourada na marca. Blazy fez sua estreia na Bottega mês passado, com uma coleção aclamada tanto pelo público quanto pela crítica e onde Mulier estava sentado na primeira fila.

E como na moda qualquer pequeno buzz e movimentação é motivo de atenção, esse talvez seja o momento certo de destrinchar a estética e o legado de Azzedine — os capuzes desfiados por Rick Owens, Dion Lee e Michael Kors podem ser apenas a ponta do icerberg de uma série de referências futuras ao estilista por outros designers e de uma possível re-estabilização da Aläia como uma das principais marcas da temporada parisiense.

Abaixo, entenda a história, o legado e o futuro da maison.

História

Azzedine nasceu na Tunísia entre o início e o final do nosso século — ele costumava não revelar sua idade, por mais que saibamos que o estilista veio ao mundo em 1935 — e foi criado por sua avó, que foi quem inscreveu o neto na academia de Belas-Artes logo cedo aos 16 anos. O sonho do estilista era ser escultor, o que de fato viria a ser a sua profissão dentro da moda mais tarde — Azzedine pode até ser considerado um estilista, mas o título de “escultor da carne humana”, como classifica o biógrafo François Baudot, parece lhe servir melhor.

Azzedine Aläia fotografado por Jean-Baptiste Mondino / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Isso porque Aläia manipulava os tecidos e as agulhas como ninguém, corrigindo “imperfeições” do corpo feminino e realçando suas belezas. De onde veio esta aptidão? Do mesmo lugar que lhe direcionou da Arte para a Moda: a clínica de Madame Pineau, a parteira de seu bairro.

Ela conservava em seu local de trabalho as revistas de moda que o designer apreciava, e Azzedine lhe servia de assistente: esquentava a água e carregava as toalhas. Foi durante os partos que Aläia aprendeu ainda jovem a cuidar do corpo das mulheres e respeitá-lo; e era durante os intervalos entre um e outro que o até então futuro escultor mergulhava nas revistas de Paris, admirando os belos vestidos e tendo a certeza de que era ao lado e para aquelas mulheres que ele gostaria de trabalhar.

Quando finalmente obteve a permissão de sua avó para ir a Paris, Azzedine se apresentou na maison Christian Dior, onde trabalhou por apenas 5 dias em decorrência de problemas com seus documentos legais — era época da Guerra da Argélia, a mesma que fez Saint Laurent sair da também mesma maison para servir ao exército.

Depois disso ele chegou a trabalhar duas estações para o estilista Guy Laroche, até se firmar em um endereço próprio na rua de Bellechasse. É lá que ele cultiva um clientela elegante e discreta e faz suas experimentações têxteis para enfim, em 1980, lançar suas primeiras coleções.

Códigos e filosofia

Entre infinitas assinaturas e códigos clássicos, talvez a principal característica do trabalho do designer não seja exatamente um modelo ou adereço em si — por mais que ele tenha vários — mas sim a impecabilidade de seus designs e a atemporalidade dos mesmos. Carlyne Cerf, stylist de carreira renomada conhecida por ter assinado a primeira capa de Anna Wintour para a Vogue Americana, foi quem melhor soube definir o estilo do estilista: “absolutamente nada dele sai de moda”.

Azzedine não estava interessado em tendências e muito menos no que seus colegas de profissão estavam fazendo. Ele era um perfeccionista nato, interessado em atingir o corte e a modelagem perfeitas e em desenvolver roupas pensadas no movimento dos corpos e na anatomia humana, com as costuras feitas de maneira a contornar o corpo. Tudo isso ele fazia se utilizando principalmente da cor preta e do couro, o que garantia sofisticação e atemporalidade aos looks.

Mesmo assim, alguns elementos são fortemente associados ao seu trabalho: os já mencionados capuzes fluidos e acoplados às peças, o body em lycra, o uso de tecidos elásticos, o zíper enquanto adorno, o drapeado em colmeia de abelha, o cinto-espartilho em couro recortado e a pele animal exótica são alguns exemplos.

Verão 1990, Verão 1992 e Inverno 1992 Aläia da esquerda para a direita / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

O inventor das supermodelos

Para Suzy Menkes, importante crítica e jornalista de moda, foi Aläia quem inventou as supermodelos antes de Gianni. É isso que ela diz em Aläia by Joe Mckenna’, documentário sobre o estilista produzido por um dos mais importantes e influentes stylists do mundo.

De fato, Aläia não só possuía todas as principais modelos da época em seus castings — dentre elas Linda Evangelista, Helena Christensen, Veronica Webb, Cindy Crawford e Naomi Campbell — como também mantinha uma relação de amizade e confiança com cada uma: saia para levá-las ao médico, cozinhava para elas e dava infinitos conselhos. Muito além de uma relação de musa e criador, Azzedine era como um pai para estas meninas.

Supermodelos posam vestidas de Aläia / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Para Naomi essa relação era ainda mais intensa: o estilista praticamente adotou a supermodelo como filha, sendo chamado de “papa” até hoje por ela. Naomi morou com Azzedine durante anos, tendo o estilista como única figura paterna ao longo da vida — ela só veio a conhecer seu pai biológico aos 41 anos de idade.

Azzedine e o sistema

O legado de Azzedine vai muito além de seu talento, processo criativo e design: o estilista foi um dos únicos de sua época a contestar o sistema da Moda. Azzedine apresentava suas coleções fora do calendário oficial e com poucos convidados. Seus desfiles podiam levar horas para começar em razão do seu perfeccionismo – Aläia só deixava a modelo adentrar a passarela se o traje que ela vestia estivesse perfeitamente ajustado ao seu corpo.

Grace Coddington, famosa editora de moda e ex-braço direito de Anna Wintour, ressalta que muitas vezes o seu perfeccionismo resultava em coleções atrasadas e entregues nas estações erradas para as lojas: “…ele trocava o Inverno pelo Verão ou o Verão pelo Inverno, colocava as roupas nas lojas na hora errada. Mas tudo isso provavelmente por uma boa razão: ele não estava nunca satisfeito com o jeito que uma peça era finalizada, ele era extremamente focado no que fazia.”

Com o tempo a espera para seus desfiles foram ficando cada vez mais demoradas, e talvez este tenha sido o motivo de sua desavença com Anna Wintour, que é internacionalmente conhecida por ser extremamente pontual. “Anna comanda os negócios da moda muito bem, mas não a parte criativa. Eu posso falar em voz alta! Ela nunca fotografou o meu trabalho em 10 anos, mesmo eu sendo um dos designers mais vendidos nos EUA. A mulher americana me ama, eu não preciso do suporte dela! De qualquer maneira, quem vai lembrar de Anna Wintour na história da moda? Ninguém.” foi o que ele declarou de maneira polêmica em 2011 para Vogue Inglesa.

Verdade ou não, o fato é que isto só comprova o quanto o estilista ia na contramão do sistema como um todo: ele apresentava suas coleções no momento em que queria e batia de frente com um dos principais nomes do mercado pois tinha certeza de seu talento e contribuição criativa para a indústria — e era, acima de tudo, um devoto ao seu ofício.

A era Mulier

Mesmo com apenas duas coleções apresentadas até então, Pieter Mulier parece ter sido a escolha certa para dar continuação ao legado de Azzedine e inseri-lo no mundo contemporâneo. Antes de Mulier e após a morte de Aläia a marca continuou entregando coleções desenvolvidas por um time interno, porém feitas de maneira enxuta e com pouca informação de moda.

Ex-braço direito de Raf Simons na Calvin Klein 205W39NYC, Mulier parece saber unir bem o lado comercial com os códigos clássicos da casa e consequentemente mirar em uma audiência mais nova. Nas suas mãos os tradicionais cintos em couro recortado se tornaram braceletes, os capuzes fluidos tomaram forma de balaclavas e os recortes e costuras estratégicas de Azzedine foram adaptados a modelagens atuais, como as proporções midi, e materiais do momento, como o jeans e a pele fake. Ao que tudo indica, este é apenas o início do comeback da marca e da re-estabilização do legado de um dos maiores estilistas de todos os tempos.

Verão e Inverno 2022 da Aläia por Pieter Mulier / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

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Frenezi no tapete vermelho do Oscar 2022

A temporada de premiações é sempre muito esperada em diferentes ramos da arte, de música à cinema, mas principalmente os tapetes vermelhos que roubam a cena — são muitos os rostos aproveitando o momento para colocarem seus melhores e mais opulentes vestidos para as cerimônias.

De Gwyneth Paltrow no vestido rosa pálido com uma grande saia de tafetá na cerimônia de 1999, Cher usando Bob Mackie com uma coroa de penas e saia brilhante em 1986 e Gillian Anderson com calcinha a mostra em 2001, o evento rendeu alguns momentos memoráveis para a moda.

Na edição de 2022, alguns deixaram a desejar com a escolhas de figurinos — uma onda um pouco mais básica inundou a cerimônia — enquanto são esperados grandes momentos na premiação ano, mas outros…

Confira as escolhas da editoria de moda da Frenezi para os melhores looks da noite:

Izabella Ricciardi – Editora de moda 

Deixando claro como o dia que o meu favorito de toda a noite foi, sem dúvida alguma, Jada Pinkett Smith de Jean Paul Gaultier Couture Spring Summer 2022 por Glenn Martens. Apesar disso, é perceptível no tapete vermelho como um todo uma mudança interessante no vestuário das premiações. Entre os últimos anos, se gostariam de ter um grande impacto na cerimônia, a presença era marcada com uma saia bufante e enorme de tulle assinada pela Giambattista Valli, ou um Valentino assinado por Pierpaolo Piccioli.

Contudo, as silhuetas na Alta-Costura ficaram mais limpas e retas na Valentino, o tule da Giambattista nunca se renovou: talvez a estética tenha oficialmente morrido por ter sido feita diversas vezes — ou talvez porquê o vestido de Ariana Grande no Grammy de 2020 ficou tão conhecido (e era por sua vez tão grande e volumoso) que seja quase impossível fazer algo maior.

Com a estreia de Demna Gvasalia na Alta-Costura da Balenciaga no ano passado — que teve uma boa influência nos vestidos de baile — ao que parece os tapetes vermelhos deram uma virada gótica. Com os momentos de grandes e volumosos vestidos sendo agora de tafetá — amassado ou em babados — o importante é ser grande, assim como o vestido de Kendall Jenner assinado pelo próprio Demna Gvasalia, Billie Eilish de babados Gucci por Alessandro Michele e finalizando com a versão mais comercial da nova estética que conserva o formato do corpo dentro do vestido, Laverne Cox de August Getty.

Luiz Fernando Neves – Repórter de Moda

Certamente o look mais polêmico da noite, Kristen Stewart cruzou o tapete vermelho do Oscar vestindo um conjuntinho de terno e shorts da Chanel, marca que a atriz mantém uma parceria há anos. O look pode até incomodar a primeira vista, mas o fato é que ninguém além de Kristen conseguiria segurar esse visual. A atriz, que declarou recentemente que “não liga a mínima” para a premiação, soube traduzir perfeitamente sua alma e estilo através da composição, sendo coerente com quem ela é — e, de quebra, ainda fez história: foi a primeira pessoa a vestir shorts na história do prêmio.

Kristen Stewart de Chanel (Foto: Reprodução / Vogue)

Julia Ferreira – Repórter de Moda

Dessa vez Hunter Schafer se afastou do seu guarda roupa à la Prada e apostou no universo gótico e pós apocalíptico de Rick Owens da coleção de Outono/Inverno 2022. A modelo/atriz se aventura em um vestido de gala de jeans manchado com costas à mostra e o cabelo molhado repartido ao meio, roubando assim os holofotes do tapete vermelho da after party da Vanity Fair.

Maria Fernanda Rocino – Repórter de Moda

Dakota Johnson de Gucci por Alessandro Michele foi um dos grandes momentos. Não só pelo look exuberante, mas pela escolha de usar no Oscar um look de uma coleção inteira dedicada à Hollywood.

Liz Bichara – Repórter de Moda

Timothée Chalamet surpreendeu, mais uma vez, ao usar Louis Vuitton para a premiação do Oscar. O astro de Duna — filme mais premiado da noite — apostou em um blazer cropped de renda, sem camisa, desfilado na coleção Primavera/Verão 2022 de womenswear.

Mirelle Carvalho – Repórter de Moda

Enquanto diversos artistas buscaram continuar em sua zona de conforto apostando em vestidos básicos convencionais e talvez nada dignos de um tapete vermelho do Oscar, Jada Pinkett Smith escolheu nada mais nada menos que um dos vestidos mais comentados da última coleção de Primavera/Verão Alta-Costura 22 da Jean Paul Gaultier, assinada por Glenn Martens. Acontece que, apesar de o vestido não ser sustentável para todos que possivelmente possam escolhê-lo, parece ter sido desenhado para Jada, que consequentemente sustentou lindamente o look escolhido e arrancou suspiros por onde passou, se consagrando como uma das possíveis personalidades mais bem vestidas da noite.

Jada Pinkett Smith de Jean Paul Gaultier (Foto: Reprodução/ Celeb Mafia)

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The Tumblr girl is coming back

Os dias se passavam ao som do álbum Ultraviolence da Lana Del Rey, que está na playlist junto com The Neighborhood, Arctic Monkeys, The 1975, Lorde, The xx, entre outras bandas alternativas que se juntam ao indie pop. As fotos eram guiadas de acordo com a roupa. Normalmente jeans skinny, ou meia arrastão – elas sempre rasgavam e isso que era deixado em evidência – com jaqueta de couro, cores escuras, silhuetas simples, gargantilhas no pescoço, às vezes camisa quadriculada e nos pés All Star ou coturno.

Foto reprodução: Pinterest 

Essa estética, marcada pelo ano de 2012 a 2014, é caracterizada à época do Tumblr, uma plataforma na qual era formado por comunidades que tinham pessoas de todos os lugares do mundo, com as mesmas estéticas e pensamentos, com um estilo acessível e não elitizado como o Old Money. 

O rock foi o fundador dos estilos. Seguido pelo grunge com o Nirvana de Kurt Cobain juntamente com as meninas do Bikini Kill. Ele não se importava em comprar roupas, e nem se elas rasgavam. Vivia sua melancolia e as levava em suas músicas. A partir deste estilo, nasce o indie, com The Neighbourhood e Arctic Monkeys. 

Foto reprodução: Pinterest 

Nas telas, a atriz Lucy Hale, que interpreta a Aria Montgomery na série “Pretty Little Liars”, e a personagem Effy Stonem de “Skins”, interpretada por Kaya Scodelario, se enquadra ao estilo desenvolvido da época, já que era o período em que a série estava sendo gravada. Muito se materializa através de séries e da música. Atualmente, vemos a cantora Olivia Rodrigo e a personagem Maeve Wiley de “Sex Education”, explorando todo o esteriótipo, mas com o toque do novo, sem se prender ou resgatar por completo algo que pode se reinventar com novas presenças que são disponibilizadas em todas as áreas de criação.

Os adolescentes de antes cresceram, hoje são os adultos e jovens que, com a memória afetiva da época, resgatam, exploram e, literalmente, compram essas tendências. O que antes era trazido de 30 em 30 anos, com a pandemia, isso tem se acelerado e diminuído para 10 anos. 

Essa estética tem voltado, mas o que antes era baseado nos anos 2000 e toda a característica trazida à tona, hoje ela retorna se embasando nos anos de glória – entre 2012 e 2016 – e tem se reinventado, se reintegrando às novas manifestações artísticas. Contudo, essa estética não vem apenas de uma estética visual, mas também de uma subcultura que trouxe à tona os problemas mentais, pessoas que se identificam com outras e viam que vivem a mesma situação. Isso então incluía falar abertamente sobre depressão, ansiedade e pensamentos suicidas.

As músicas alternativas da época retratavam sobre os problemas, como Lana Del Rey que transformava sua solidão e melancolia em música, e dizia o quanto gostava e aceitava aquilo. Isso fazia com que as meninas da época fizessem o mesmo. Até aquelas que não tinham depressão, induzia este tipo de melancolia para soarem interessantes e fazerem jus às outras pessoas. 

As comunidades, em sua maioria composta por meninas, se identificavam gerando valor e dependência naquilo. Compartilhavam seu diagnóstico, conversas com profissionais sobre o quadro, fotos com frases como “100% triste” escrito em rosa com brilhos, pílulas de remédio em cima da mesa, maquiagens escuras em forma de luto. Mesmo não tendo sido criado pelo Tumblr, a obsessão pelo trágico fez parte da cultura, exacerbaram esse fetiche. Notoriamente, o reconhecimento e a discussão desses assuntos facilitou o tratamento e reconhecimento dos sentimentos e das doenças até hoje, contudo, trouxe à tona a romantização de problemas mentais, de ter um coração partido, solidão, magreza extrema e da rebeldia. 

Com o lançamento de “13 Reasons Why”, reboot de “Gossip Girl” e “Euphoria”, é notável a presença de uma trama que abraça uma cultura de drogas e sexo, apresentando atores glamorizados e vidas mais sofisticadas e fáceis. Um pouco de toda a época do Tumblr está presente, mas com mudanças, gerando algum tipo de demérito e mais conscientização principalmente de quem esteve presente em todo aquele período.

Foto reprodução: Pinterest 

Hoje, o que volta, parte é substituído. Calças skinny que saíram de destaque são alteradas por mom jeans ou calças jeans de perna reta. O batom escuro chega em forma de gloss, maquiagens que antes eram escuras são influenciadas por séries trazendo brilho e com looks mais extravagantes em decotes e transparências. A época Tumblr marcou uma geração de pré-adolescentes e adolescentes ao redor do mundo.

Hoje, eles cresceram e se tornaram adultos com sentimento de pertencimento a esse período e uma memória de descobertas e reencontros que fazem parte de quem são hoje. São os que possuem o poder de compra e também de lançar e repercutir as tendências. Com o TikTok, novos grupos identitários e novos costumes e tendências têm surgido. 

Pode-se dizer que a era Tumblr foi um momento em que os jovens entraram no mundo da internet, esbarram e permaneceram com seu primeiro contato a um grupo digital de acolhimento sem barreiras – o que antes era vivido com barreiras físicas e sólidas, foram se integrando num novo mundo. Hoje, as barreiras se quebraram e todos têm acesso às outras culturas e pessoas, facilitando o encontro de sua identidade.

A grande comunidade do Tumblr retorna citando as consciências de uma identidade coletiva, mostrando às novas gerações – além das características físicas – o poder de um grupo semelhante frente ao auxílio da internet e da união de características iguais. É algo mais significativo que os momentos que estão sendo vividos nesses últimos anos. Foi uma época duradoura e que foi morada e conforto para muitos adolescentes.

Foto reprodução: Pinterest 

O começo da internet como rede de apoio e sem barreiras. Um lugar onde as pessoas encontravam grupos com os mesmos sentimentos e desejos. Eles não estavam sozinhos, nunca estiveram. Estavam apenas perdidos de seus grupos que iriam entender e acolher suas particularidades. 

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O Comeback da Diesel

O estopim oficial do mais novo ’comeback’ da marca italiana Diesel foi, sem dúvidas a coleção apresentada durante a semana de moda de Milão referente a temporada de Outono Inverno 2022. A primeira coleção assinada pelo novo diretor criativo Glenn Martens fez com que todos os críticos e amantes de moda dessem uma nova chance para a marca. Uma coleção skin-baring, sexy, sublime, inovativa, cheia de jeans e couro. Desde o Y2K clubwear até o uniforme de motociclista, com códigos joviais, rebeldes, que conversam genuinamente com a nova geração de consumidores.

Entretanto, seu grande plano de reestruturação já vem acontecendo desde 2020. Mesmo em meio ao período caótico da pandemia, a Diesel já trilhava um futuro no qual voltaria a conversar com gerações mais novas, adaptando novas tendências e voltando ao fashion radar. Esse futuro é agora! Muito antes da Diesel ser “deixada de lado”, ela construiu um legado para si mesma, marcada pela estética dos anos 2000, provocativa e rebelde. Nos anos 90, ela era a marca mais ‘cool’ da cena da moda. 

Muito antes dos algoritmos tomarem nossas vidas e nos disserem o que gostamos ou não, a Diesel jeans já se estabelecia como marca do momento e queridinha das celebridades – Paris Hilton, Lindsay Lohan e Mariah Carey usavam Diesel dos pés à cabeça – Também instituída como marca ‘go-to’ dos clubbers da época que iam à loucura com os ‘distressed-jeans’ que viam numa infinidade de modelos. 

Campanha de publicidade da década de 90 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

Fundada em 1978 por Renzo Rosso, a Diesel já sustentava seu hype de melhor e mais ultrajante marca de jeans desde sua criação. Com suas lojas físicas de ponta e publicidade criativa e provocativa, a marca facilmente virou uniforme das ‘cool kids’ e em 1998 ganhou o título de ‘marca do momento – imprevisível, irreverente e rebelde’ pelo The Wall Street Journal. De Nova York a Berlim, a Diesel misturava o estilo ‘europeu chique’ com o jovem e cool americano, sendo high fashion e high street. Afinal, todos queriam poder usar a emblemática e ardente marca do momento. 

Campanha de publicidade da década de 2000 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

No entanto, apesar de toda sua fama, a Diesel perdeu sua relevância cultural e seu espírito revolucionário. Apesar de ter-se mantido consistente e ainda um negócio de sucesso, a marca viu-se perdendo para a rigorosa competição que agora tomavam os postos de queridinhas da juventude – a ascensão da londrina TopShop, o apelo de massificação da Abercrombie & Fitch e contemporâneas marcas de streetwear como Supreme e Palace. O apelo, o desejo e o símbolo de status que a marca proporciona era cada vez menor. 

As fashions trends e estratégias de marketing se desenvolveram e mudaram ao passar das décadas, era cada vez mais difícil para Diesel estabelecer uma comunicação com seu consumidor, sua missão (ou mensagem) se tornou pouco clara – até mesmo internamente. A marca perdeu sua oportunidade de participar do movimento de streetwear no seu ápice em meados de 2010, ou mesmo da volta da logomania na moda. 

Em 2020, contudo, com um novo duo de diretores executivo e criativo, a marca já almejava sua volta. O novo CEO da Diesel, Massimo Piombini – ex-CEO da Balmain, que passou também por grifes como: Valentino, Bulgari e Gucci – decidiu juntar-se a marca, que diferente de seus trabalhos prévios não se trata de uma marca high couture, pois a mesma foi uma das primeiras marcas globais a terem um grande impacto nele quando mais jovem, Piombini sentia que a história e narrativa da marca precisava ser restabelecida para os consumidores de hoje. 

Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Marca)

Para ele, o problema não estava no produto ou na comunicação, mas na cultura da marca. Piombini, agora quer focar em modelos de jeans mais impactantes, enquanto investe rigorosamente em sustentabilidade. 

Rosso, criador da marca, reafirma sua missão de recriar o antigo espírito da marca que a estabeleceu nos anos 80’ e 90’ ao contratar Massimo Piombini e Glenn Martens. “Essa é uma revolução cultural para a marca”, diz Massimo. Não só externamente como vimos em suas recentes coleções, desfiles e publicidade, mas também internamente, reestruturando os valores de base da marca entre seus funcionários e colaboradores. 

Em novembro de 2021, a contratação do autêntico, inovador e promissor designer belga, Glenn Martens, seria a chave de ouro para a estratégica revolução da Diesel. Dono de sua própria marca, Y/Project, e sua impressionante colaboração com Jean Paul Gaultier. Martens atingiu o ápice dos holofotes e da criatividade este ano e foi nomeado como “most intriguing designer,” pela revista i-D. Sua contratação no ano passado foi um dos mais excitantes da moda e em resposta ao porque aceitaria a proposta na marca, Martens revelou ter um apego emocional pela Diesel, já que a mesma foi a primeira marca para qual juntava dinheiro para poder comprar’. Não é à toa que Martens consegue capturar a essência da marca, ao mesmo tempo que a faz novamente queridinha das celebridades e do público. 

Vinte anos depois a gigante Diesel está de volta – e de forma literal, já que vimos sua grandiosidade representada por enormes bonecos infláveis, que por sinal vestiam Diesel, no seu mais recente desfile. A marca volta trazendo e protegendo seu DNA ao mesmo tempo em que o tenta melhorar ainda mais. O jeans volta a ser o centro das atenções e é apresentado das mais diversas formas – escultural, revelador e apertado à pele e largo, distressed, cintura alta e boyfriend. Além dos designs, a marca volta a entender que atualmente a relevância das marcas se baseia muito mais na ética do que na estética, mais do que somente os jeans, a marca era antigamente adorada pelas suas campanhas provocativas que abordavam política, sexualidade, raça e religião – a marca foi uma das primeiras a falar sobre minorias com suas campanhas que muitas vezes contavam com beijos gays, pessoas negras e a liberdade sexual da mulher. 

Martens também tem como seu objetivo se engajar com a sustentabilidade, tornando o jeans menos poluente e levando essa sustentabilidade e circularidade ao consumidor. O desejo é levar a Diesel além do que ela já é, a tornando uma marca ainda mais divertida, sexy, experimental, atraente, prazerosa e provocante.

Glenn Martens no final do desfile da Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Vogue Runway)

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Styling: Uma explicação completa de quem é o stylist para a moda

A paixão de muitos fashionistas com a moda nasce do encantamento de ver looks impecáveis de tapetes vermelhos, figurinos de filmes e videoclipes, e nos estudos iniciais de moda entender que existe um profissional responsável pela escolha de cada detalhe desse look – o stylist, abre a visão limitada que muitos têm da moda. Esta profissão em questão, teve um reconhecimento ligeiramente recente, ela em si existe há tempos, mas sua fama vem ganhando força no mercado principalmente nos últimos dez anos.

Todo aquele que tem interesse em estudar mais a fundo o mercado de moda, precisa abrir o leque de informações para estudar, discutir e compreender as diversas subáreas que existem neste mercado, e com o styling não seria diferente. 

O primeiro questionamento que surge quando se discute as facetas dessa profissão é: Qual a diferença entre o stylist e o estilista? Na tentativa de traduzir estes termos, as pessoas podem cometer o erro de misturar a finalidade desses dois profissionais, e não eles não são a mesma coisa. Pode-se dizer que o stylist nasceu sim como uma extensão do estilista, mas é preciso compreender que o trabalho de um stylist vai muito além de uma criação física da confecção e especialização do vestuário, como no estilista.

Aqui estão as principais dúvidas que sempre aparecem quando falamos diretamente sobre o assunto, questões essenciais para procurar esclarecer o objetivo deste profissional de tamanha importância para a moda.

Anne Hathaway em ‘Diabo Veste Prada’. [FOTO: Reprodução/ 20th Century Studios]

O que é o styling?

De forma bem simplista, o stylist é encarregado da construção e curadoria de imagens, que têm uma história para contar, cada detalhe da imagem possui um significado dentro desse storytelling . Durante o processo de estruturação dessas imagens, o especialista precisa estar sensível às movimentações externas que o rodeiam. Infelizmente, as pessoas costumam se equivocar ao pensar que basta combinar a roupa com o sapato certo e, voilá … com certeza o mercado de moda para estes stylists seria muito mais simples se o processo fosse dessa maneira. 

Roland Barthes, em seu livro ‘Inéditos vol. 3: Imagem e Moda’, disse:“Estamos hoje numa civilização da imagem, que de alguma forma, sempre esteve presente na vida cotidiana das pessoas. Sua difusão pertence ao mundo moderno sendo produto de uma sociedade tecnológica”. 

Quando se entende que a imagem é uma forma de comunicação universal, algo imediato  e que por meio dela qualquer mensagem pode ser entregue, fica muito mais fácil de compreender a importância de saber moldá-la, a fim de expor qualquer ideia de estilo, tendência e produto que a moda deseja apresentar naquele momento da comunicação.

No decorrer deste exercício de construção, a palavra que pode melhor definir esse processo é a ‘edição’. O stylist deve saber editar a todo momento os elementos que devem fazer parte desse storytelling, para que cada elemento, cada detalhe possa estar em harmonia entre si e entregar com excelência a mensagem final. 

Registros do fashion designer Ronaldo Fraga, durante seu processo criativo. 
[FOTO: Reprodução/ Box Fashion]

Como funciona o processo criativo?

O processo criativo de cada um é sempre algo muito particular, que pode ser alterado completamente quando entendemos a importância do repertório individual nesse processo. Uns se apossam de suas experiências pessoais, outros têm como base principal as tendências de comportamento do consumidor no mercado, alguns buscam referências antigas que conversam com a proposta, entre outras inúmeras formas criativas…As possibilidades são realmente infinitas! 

A pesquisa de imagens, a troca de pontos de vista e olhar criativo com outros colegas da área; a absorção de conteúdos de outras áreas das artes, como: o cinema, a música, arquitetura, artes plásticas, a literatura, a dança, ou até mesmo a própria natureza. São todas as principais fontes de inspiração e referência durante o processo criativo, sem contar a busca pelos estudos  de atualidades dentro da própria moda. 

Cada stylist, como foi dito anteriormente, tem sua ‘receita’ a seguir durante esse desenvolvimento, uns começam pelo brainstorming – ‘tempestade cerebral’ – referindo-se ao ato de destrinchar ideias que se relacionam com o tópico para a resolução de alguma questão , outros já partem para a pesquisa de texturas e superfícies, além dos croquis e anotações.

O mais interessante é a forma como cada profissional deixa fluir seu olhar criativo de maneira orgânica de acordo com cada recurso que é escolhido por ele. É importante ressaltar o papel do ‘briefing’. Saber conciliar as exigências do “briefing” – documento instrucional e informativo sobre como o projeto ou tarefa deve ser executado – com os elementos que nasceram durante o processo criativo é o primeiro passo de qualquer projeto de styling. 

Mercado de trabalho

Trabalhar com moda nunca foi uma tarefa fácil, não importa o nicho em que o indivíduo decida atuar, ainda mais hoje em dia com as constantes e desenfreadas novidades que surgem no mercado a todo momento. Dentro da moda é comum a atuação de pessoas no mercado com trajetórias profissionais heterodoxas, pessoas que não são formadas em moda, que vêm de outras áreas ou simplesmente entraram nesse mundo sem nenhuma pretensão. 

Muitos estudantes de marketing, jornalismo, arquitetura, artes visuais ou até mesmo pessoas autodidatas e sem ensino superior  já se aventuraram no mundo da moda e tiveram sucesso na sua carreira. Vale lembrar que não é por que se trata de um mercado que possui uma maior liberdade na hora de contratar candidatos  que não necessariamente cursaram moda, que se trata de uma profissão onde os indivíduos não procuram se embasar em estudos. 

O mais importante ao adentrar o mercado de moda, independentemente do nicho que for o foco da pessoa, são os contatos dela. Ter uma vasta, ou pelo menos, uma específica rede de pessoas conhecidas para se apoiar e conquistar visibilidade entre elas é um diferencial para qualquer um dentro desse mercado, sobretudo se for levado em conta que se trata de  um mercado onde é normal um grande fluxo de trabalhadores ‘freelancers’.

Campanha publicitária de 2021 da marca Misci com styling assinado por Thiago Biagi. [FOTO: Reprodução/ FFW]
Sabrina Sato usando look de Chet Lo com o styling assinado por Pedro Sales. [FOTO: Reprodução/ Instagram]

Colaboração com outros profissionais da moda

No ramo da moda, possuir uma boa relação profissional com colegas da área pode se tornar uma ferramenta decisiva de trabalho.  Um bom stylist deve correr atrás de contatos entre as agências de marketing, modelos, profissionais de cabelo e maquiagem, fashion designers, fotógrafos e é claro outros stylists. 

Ao colaborar com outras pessoas, o stylist aumenta seu repertório criativo durante seus projetos, até porque se sua função refere-se a criação de imagens, cada nova visão criativa durante o processo pode contribuir para enriquecer o produto final. 

Em campanhas publicitárias ou coleções, por exemplo, a parceria entre fashion designers e stylists se torna fundamental, à medida em  que a construção da marca depende da harmonia entre a visão criativa de ambos e a mensagem que desejam passar para o público-alvo.

Durante a formação de sua equipe de styling, um cargo essencial dentro da equipe é o produtor, não é raro haver uma certa confusão sobre a diferença entre as duas funções. O stylist fica encarregado do planejamento criativo da imagem como mercadoria final dentro do que foi pedido pelo cliente, seja ele uma editora de revista, um diretor de arte, um fashion designer, uma agência de marketing; enquanto que o produtor de moda é responsável por buscar as peças, que devem compor a ideia imagética do stylist.

A busca do produtor sempre deve ter como base a pesquisa e o processo criativo do stylist, sem sair do briefing é claro; em lojas e marcas, assessorias de imprensa. Durante as negociações, o produtor pode alugar ou comprar os acessórios e roupas, ou por vezes, pode haver a ‘famosa’ permuta, onde o produtor negocia o empréstimo das peças em troca de créditos e visibilidade para a marca ou assessoria que permitiu o uso destas para o projeto.

Depois de obtidos os looks, o produtor deve organizar as peças no acervo em ordem de modelos e assim o stylist começa a construção física do look dentro das opções montadas pelo produtor. Uma mesma pessoa pode exercer as duas funções, tanto a de stylist como a de produtor, mas ter a opção de ter mais de uma visão artística com certeza alavanca o nível de qualidade do projeto final em todos os sentidos. 

Piloto Lewis Hamilton, styling assinado por Law Roach. [FOTO: Reprodução/WSJ]

Styling comercial X Styling pessoal

Muitas pessoas se confundem acerca da diferença entre estilista e stylist, mas também há um equívoco  na hora de discernir as diferentes funções de um stylist e um personal stylist. Basicamente, sua diferença se manifesta em relação ao público-alvo que desejam atingir e a forma como a imagem a ser criada será de fato construída. 

O styling comercial atua ao lado de estilistas na construção da imagem da coleção em questão, seja nas passarelas, seja em campanhas publicitárias. Juntos eles devem pensar em cada detalhe do look, cada sapato, corte de cabelo, cor das unhas, maquiagem, acessórios que se comuniquem com a roupa em questão e assim transparecer a identidade da marca, a mensagem que esta quer passar, se aproximando do consumidor. 

Além do styling para fins comerciais, existe o personal styling que refere-se a criação de uma imagem personalizada para alguém. O papel do personal stylist é justamente saber trabalhar a imagem do seu cliente com o objetivo de passar a mensagem que este quer passar, tal processo é responsável por auxiliar o estilo pessoal do cliente em torno do seu físico e da sua personalidade.

Zendaya usando Roberto Cavalli Outono/Inverno 2000 no tapete vermelho do Ballon d’Or 
[FOTO: Marc Piaseck/Getty Images]
Alfred Molina como Doutor Octopus em ‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’. 
[FOTO: Reprodução/Marvel Studios]

O uso da semiótica

Durante os estudos iniciais de moda todo estudante  se depara com a ‘Semiótica’ – conjunto de estudos sobre a importância de se entender as simbologias, signos e significados por trás da mensagem, que neste caso a moda deseja passar. Em seu livro “A Linguagem das Roupas” , Alison Lurie inicia o debate sobre como durante a história da humanidade as roupas foram usadas como ferramentas de comunicação, como elas têm o poder de expressar seu sexo, idade e estilo de vida, por exemplo.

A semiótica se faz presente no styling desde o primeiro brainstorming de ideias, até o projeto final. O profissional encarregado deve levar em consideração a presença de cada elemento dentro do look e a sinergia entre eles na imagem que será construída.

 O cabelo solto de um lado, ou preso do outro, uma unha pintada de uma certa cor que se comunique com a paleta das vestes e da maquiagem, o tipo de sapato, os acessórios, todos quando pensados como elementos complementares de um mesmo ‘ecossistema’, como signos e símbolos que compõem uma mesma mensagem, tem o poder de expressar o recado com maior clareza.

Law Roach, conhecido por ter trabalhado na imagem de celebridades como Zendaya, Anya-Taylor Joy, Lewis Hamilton; em diversos momentos utilizou dos recursos da semiótica em suas criações imagéticas, justamente para facilitar a mensagem que ele queria passar. 

Um bom exemplo disso foram as aparições de Zendaya em tapetes vermelhos e reuniões de imprensa relacionadas ao ‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’, dir. John Watts (2021). Roach soube fazer diversas referências ao filme nos look da atriz, como quando apostou no vestido personalizado de teia de aranha de alta-costura da Valentino; e no vestido da coleção de Outono/Inverno de 2000 de Roberto Cavalli, decotado nas costas  com uma “coluna metalizada”  fazendo uma alusão aos tentáculos de metal do Dr. Octopus, um dos vilões de Homem-Aranha.

Bruna Marquezine usando Alexandre Vauthier, styling assinado pela Rita Lazzarotti.
[FOTO: Reprodução/Instagram]

STYLING ATUALMENTE 

A popularidade dessa profissão vem crescendo exponencialmente nos últimos anos entre celebridades, grandes veículos de comunicação e até mesmo entre pessoas que não fazem parte do mundo da moda mas que querem reconstruir sua imagem com o auxílio de um personal styling.

Grandes nomes do ramo, como: Mimi Cutrell, Law Roach, Maeve Reilly, Rita Lazarotti, Pedro Sales, Suyane Ynaya, Thiago Biagi e Carol Roquete; foram capazes de mostrar como um styling bem pensado e planejado é capaz de transformar a imagem e até mesmo carreira de personalidades dentro e fora do mundo da moda.

O reconhecimento desse tipo trabalhador pode trilhar os caminhos da moda para horizontes jamais alcançados antes, levantando grandes debates de cunho sócio-políticos e por vezes até ambiental, e abrindo os olhos de muitas pessoas que não enxergavam a importância da moda em todas as facetas que ela exerce influência. Afinal, a moda como forma de expressão foi capaz de comunicar ideias, status, crenças, culturas e política durante todo o percurso da história humana.  

Estudar moda não deve ser pela simples busca pelo glamour, é um processo de muita leitura e busca por novidades, e entender as várias subáreas nela existentes é o primeiro passo para evolução de seus amantes. Durante esse processo, entender a moda como uma linguagem transformadora, como um agente ativo no mundo, facilita muito mais a compreensão de toda a extensão de seu poder na vida das pessoas. “O que você veste é como se apresenta, especialmente hoje, quando os contatos humanos são tão rápidos. Moda é uma linguagem instantânea”, disse Miuccia Prada.

Em entrevista com a Frenezi, o stylist Victor Miranda compartilhou um pouco da sua trajetória profissional, seu processo criativo, referências e seu ponto de vista sobre essa profissão que teve uma ascensão tão meteórica no mercado nos últimos 10 anos, e ainda compartilhou alguns conselhos para os que aspiram adentrar nesse mundo da moda seguindo pelo caminho do styling.

Stylist Victor Miranda ao lado de Pabllo Vittar. [FOTO: Reprodução/ Instagram]

COMO INICIOU NA PROFISSÃO? E COMO FOI A SUA ENTRADA NO MERCADO DE MODA?

Victor Miranda: Entrei na moda lá atrás com o jornalismo de moda, enquanto eu estava na faculdade, eu fiz publicidade. Porque eu sou de Brasília, e eu fazia faculdade de publicidade e propaganda em Brasília e no meio da faculdade eu percebi que não era publicidade o que eu queria, eu queria trabalhar com imagem, e eu pensava que eu queria muito ir para moda, mas em Brasília o mercado é escasso e eu não sabia para onde ir. Um amigo meu trabalhava num blog de moda, e ele me falou que havia uma vaga de estagiário no site e eu fui, conversamos e foi incrível, comecei escrevendo como estagiário. E percebi que queria mesmo trabalhar com imagem, então vim para São Paulo morar com um amigo. Lá atrás eu já mexia com produção para os meus amigos da banda Uó de Goiânia, mas nada muito grande, era por amizade mesmo, continuei vestindo eles em SP, isso há 8 anos atrás. Um amigo meu conheceu o Krisna, maquiador, que hoje é um grande meu, e o Krisna comentou com esse amigo que havia uma vaga para assistente de produção na Vogue e mandei um email com o meu CV e tive um retorno deles me chamando para uma entrevista. Fui assistente da Vogue por 2 anos, nesse meio tempo produzi também para outras stylist como a Renata Corrêa, mas sempre vestindo meus amigos da banda Uó em paralelo. Então o Mateus, da banda Uó, foi fazer um clipe com a Pabllo Vittar, e nesse dia conheci a Pabllo e um tempo depois ela me chamou para vestir ela e foi o momento que eu deixei de ser assistente depois de 6 anos e percebi que era minha virada de carreira. Foi então que comecei a assinar as minhas coisas e ganhei mais visibilidade.

COMO VOCÊ DEFINIRIA ESSE SEU PROCESSO CRIATIVO E A SUA ASSINATURA?

Victor Miranda: Acho que estou sempre em processo de tentar procurar o ‘novo’ né? Estou tentando sempre trazer algo que as pessoas ou não esperaram ou não foi visto “ainda”, entre aspas porque é muito difícil né. Tipo a gente acaba sendo refém de muitas coisas e enfim, mas acho que estou sempre ligada ao Pop mesmo, tipo o que é popular, o que é novidade. Linguagens novas, desse lado do pop mesmo, não só da música pop, mas Pop do popular mesmo e fazer essa irreverência e trazer um toque subversivo em alguma coisa nos meus trabalhos, que não necessariamente você esperaria ver ali.

COMO VOCÊ CONCILIA O BRIEFING DE UM JOB COM A SUA VISÃO CRIATIVA?

Victor Miranda: Depende muito da pessoa que me chama, por exemplo, com a Luísa é um processo muito tranquilo, nossa ligação e conversa é muito fácil. Primeiro eu recebo a idéia, o roteiro, enquanto estamos em reunião já vou montando meu moodboard, fazendo a decupagem e depois apresento para ela, junto com o artista ou com a pessoa, a gente chega num lugar em comum, é sempre uma troca. 

Cantora Luísa Sonza. [FOTO: Reprodução/Instagram]

COMO É FAZER PARTE DA EQUIPE DE ESTILO DE CANTORAS DA MÚSICA POP BRASILEIRA COMO A LUÍSA SONZA E PABLLO VITTAR? 

Victor Miranda: Cara, se eu te falar que eu não tenho muita noção, você vai falar que eu estou mentindo. Não tenho muita noção do trabalho, assim óbvio que eu tenho. Quando eu comecei a trabalhar com a Luísa, a gente cresceu juntos, porque eu comecei a trabalhar com ela antes da pandemia, tipo em novembro de 2019 que eu entrei na equipe. Então assim, eu tenho noção das coisas que eu faço, tenho plena noção das coisas que eu atingi até hoje mas se eu te falar 100% o tamanho, eu não sei dizer e eu fico muito feliz das mensagens, de ver as pessoas reproduzirem as roupas. É muito louco mas é muito divertido, mas eu não deixo virar um grande assunto na minha cabeça senão eu dou uma pirada.

Victor Miranda e Pabllo Vittar. [FOTO: Reprodução/Metrópoles]

O processo de se profissionalizar em qualquer área já não é fácil, e iniciar esse processo em um mercado que busca pela novidade e pela diversidade em um ritmo tão acelerado como o mercado de moda se torna um desafio ainda pior para aqueles que sonham em assinar o styling de algum projeto. 

Para Victor Miranda, o maior desafio da profissão são os prazos de entrega. “É o clipe da Luisa que foi feito em uma semana, são coisas do tipo ‘amanhã ela vai num programa de Tv’ e temos que tirar uma roupa do nada.  O mercado todo também é tipo, por exemplo, você faz uma publicidade e para 50 pessoas daqui duas semanas, preciso pensar no processo e enfim. Os prazos os que matam”. 

Em contrapartida, poder estar presente por trás, no backstage, de todas as fases de um projeto é o que dá sentido e é a melhor parte de se trabalhar com styling, de acordo com Miranda.

Com esse crescimento desenfreado da indústria fashion, estar constantemente à procura de informação de estudos, sejam eles numa instituição acadêmica ou de forma autodidata, é o primeiro passo para os iniciantes no mercado. O ponto chave, na visão de Miranda, para qualquer um que sonha em trabalhar com a moda é acima de tudo estabelecer conexões, falar com as pessoas e realmente formar a sua rede de network.

“As coisas só vão dando certo quando as pessoas te veem. Então assim, manda mensagem, fala com as pessoas, esteja nos lugares onde as pessoas da área estão. Meu, por exemplo, você conseguiu entrar num desfile, eu ficava na porta da São Paulo Fashion Week esperando sobrar convite, sabe? E eu me arrependo muito de não ter ido falar com alguém, tipo ‘Oi, fulano. Eu sou o Victor, queria trabalhar com isso, o que eu faço? Você precisa de assistente?’Acho que é conexão, estar ligado no mundo, em ‘quem está fazendo tudo’, ‘quem está fazendo o que’, saber do mercado de fato”.

Frenezi nas Semanas de Moda de Outono Inverno de Paris

Finalizando as coleções da temporada de Outono/Inverno de 2022 entramos na semana de moda de Paris, cidade conhecida por ter o mais extenso e completo calendário. Com mais de oito dias e sendo um epicentro da moda internacional, Paris conta também com as maiores marcas contemporâneas, com os grandes conglomerados de luxo — principalmente LVMH e Kering — apresentando a maioria de suas marcas durante a semana.

O governo francês também não deixa a desejar, impulsionando a moda nacional com o próprio sindicato de Alta-Costura e Moda que monitora e organiza as semanas de moda no país. Paris funciona como um termômetro econômico da temporada, analisando desde dos clientes da moda de luxo até mesmo os eventos que acontecem na cidade durante os dias.

Durante a Paris Fashion Week, a geopolítica internacional se virou para o conflito em território ucraniano, e apesar dos grandes esforços de muitos da moda em tentar parecer sentimentais e contemplativos durante esse período, a semana não foi pausada e os eventos e festas continuaram regularmente. Acredito que das homenagens que aconteceram em Paris, a mais genuína e verdadeira veio de Demna Gvasalia na Balenciaga, falando de sua própria experiência como refugiado de guerra. Depois disso, aqui vamos com a cobertura completa da editoria de Moda da Frenezi com o final das apresentações da temporada de Outono:Inverno 2022.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Paris aqui.

Foto retirada do Instagram Oficial de Anthony Vaccarello, diretor criativo da Saint Laurent.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono Inverno em Paris:

DIA 1

Off-White, a marca que não reconhece limites criada em 2012 por Virgil Abloh, marcou o início da temporada de Outono/Inverno 22 em Paris. Pouco mais de um mês após a apresentação da última coleção de Abloh para Louis Vuitton, na qual era diretor-criativo, chegou a vez de sua upstart personal label, que agora já não é mais upstart e pode muito bem ser equiparada a gigantes da Couture.

A apresentação que ocorreu na segunda-feira, 28 de fevereiro, na Galeria Lafayette foi a primeira homenagem da marca ao seu criador desde sua repentina morte em novembro do ano passado. Essa também é a última coleção feita e supervisionada por Virgil.

Nomeada ‘Spaceship Earth, an imaginary experience’, a apresentação foi ao mesmo tempo um tributo ao designer, mas também um sneakpeak do que será a Off-White no futuro. A questão e o ar de dúvida surgiram quase que imediatamente após o público saber do trágico falecimento do estilista (nacionalidade). O que será agora? Agora que mais do que nunca marcas e designers precisam estar com os sentidos aguçados para todos e quaisquer acontecimentos, já que a indústria da moda é uma das efêmeras e populares indústrias da atualidade. Entretanto, o desespero e aflição não são sentimentos assim tão desconhecidos, o mesmo aconteceu seguindo a morte do lendário Karl Lagerfeld ou do icônico Alexander McQueen.

A resposta foi nada menos que sorte por Virgil Abloh ser de fato genioso e à frente de todos. A coleção foi desenhada por Abloh e completada pelo seu time criativo e colaboradores, que seguiram um de seus inúmeros inspiring quotes: “Question everything”.

O desfile foi apresentado em dois atos: ready-to-wear e ‘Couture’. O primeiro focado no que a Off-White foi tão famosa por nos seus primeiros passos como marca: o streetwear, mas desta vez com o tom mais ‘adulto’ que Virgil queria alcançar para a marca. O estilo invencível da marca foi combinado com uma alfaiataria elegante e até sóbria, nos padrões Off-White; E o segundo tema, o high fashion que a marca migrou (e ainda migra) para: couture ou streetwear couture.

Na coleção ready-to-wear pudemos ser testemunhas de um incrível jogo de proporções. Highs com lows. O clássico com o nada óbvio. Cargo gears acompanhadas por vestidos de cetim, volumosas saias de tule com camisetas estampadas, alfaiataria elegante, jaquetas de esqui com tons sóbrios, tênis com vestidos de festa…

Entre os modelos e convidados estavam diversas celebridades e amigos pessoais de Virgil: Pharrell Williams e sua família na primeira fileira, a tenista Serena Williams e a DJ Honey Dijon, para citar alguns exemplos. a

Já a segunda parte da coleção, que Virgil começou a desenhar meses após sua ‘aparição surpresa’ na semana de Alta Costura parisiense no ano passado, foi pensada para representar um ‘tipo de mulher’ a cada looks: a noiva (desfilada por Bella Hadid de tênis e saltos na mão); a empresária; a diva ou a skatista (vestindo uma varsity jacket com uma volumosa saia de tule). Misturando referências subculturais ou estampas (“no snitching”) nunca antes pensadas de serem usadas em Couture.

Couture é definitivamente o epítome da moda, mas Virgil parece trazer esse mesmo couture de forma mais descontraída ou até alcançável. Afinal, seu legado teve início quando começou a inspirar gerações e a dizer-lhes ‘tudo é possível’. 

“The ethos of Off-White is it’s not just clothes. My inspiration and motivation is more the humanity level”

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

O segundo dia da semana de moda de Paris começa com mais uma coleção da Dior sob a direção criativa de longa data de Maria Grazia Chiuri. Uma apresentação no Jardin de Tuileries em Paris com uma atmosfera assinada pela artista Mariella Bettineschi na grande instalação da coleção, com porta retratos em todo seu entorno com retratos femininos famosos na arte europeia datando do século XVI até XIX, removendo figuras dos seus contextos originais e todas em preto e branco.

A coleção foi batizada de ‘A próxima era’ com a inspiração bruta sendo como o mundo retrata e se envolve da condição moderna do papel da tecnologia em nossas vidas. Parece anos luz de distância da coleção de Primavera/Verão 2022, qual foi inspirada na Dior na década de 1960, assinada por Marc Bohan entre mini saias vibrantes e cortes retos, homenageando uma característica importante na história da marca.

Apesar do tema desta temporada parecer muito interessante e com diversas formas de ser estruturado, a próxima era parece muito com as antigas coleções de Chiuri para a marca, com um desenvolvimento confuso e até um pouco chulo do tema nas roupas em si. Rendas combinadas com tipos diferentes de armaduras, camisetas com slogans sobre o futuro feminista, apesar de ser uma visão diferente dos outros trabalhos da designer para a Christian Dior, acaba parecendo razo a interpretação do mesmo no desenvolvimento.

“Temos essa ideia de que a tecnologia é algo um pouco irreal”, disse Chiuri para a jornalista Sarah Mower. “Usamos mais a tecnologia para comunicação e pensamos menos em como ela pode nos ajudar a viver melhor. Estamos acostumados a esperá-lo em coisas muito práticas: máquinas de lavar, mas não moda.”

O desenvolvimento da Saint Laurent pela direção criativa de Anthony Vaccarello é uma experiência única de se acompanhar. O designer encontrou uma situação complicada na marca em sua estreia, uma clientela que era fiel demais a seu antecessor criativo, pois Slimane criou não só um cliente mas um estilo de vida para a Saint Laurent, sem contar com um conglomerado por trás com sede das vendas da marca.

Com paciência ele foi entendendo a mulher Saint Laurent aos poucos, trazendo para mesma a sua própria visão criativa para a marca, uma node um pouco mais sensual e uma alfaiataria mais fina e refinada ele foi conquistando seu lugar na marca, e hoje traz seus melhores trabalhos até então.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Se distanciando muito do que o Heidi Slimane apresentava, apreciando a história e os arquivos da própria marca, vemos o Outono/Inverno de 2022 assinado por Vaccarello como uma carta de amor à Alta-Costura de Yves Saint Laurent na década de 1980. Com ombros altos e estruturados e vestidos retos e longos, ele mostra a todos que ninguém faz o chic effortless como a Saint Laurent.

Ternos perfeitamente alinhados, formas de triângulos invertidos, cores sóbrias mas quentes, acessórios grande e prepotentes, tudo isso em conjunto com novas formas de texturas dentro da coleção, de um terno com detalhes em cetim até opulente peles durante toda a coleção — vale lembrar que o grupo Kering baniu as peles verdadeiras de animais — e longos vestidos de festas que inclui transparências segmentadas, assimetria e rouching em diversos pontos.

É uma nova era para a Saint Laurent de Vaccarello, uma que olha para o interior da marca como um todo e faz associações interessantes para o consumidor contemporâneo, ele consegue reviver a musa YSL em sua melhor e mais atual forma a cada temporada.

DIA 2

Intitulada Princípios da Nossa Geometria’, a coleção Outono/Inverno 2022 da Courrèges foi desenvolvida por Nicolas Di Felice (atual diretor criativo da casa) com base nos estudos de André Courrèges (fundador da marca e engenheiro civil) acerca da aerodinâmica. Capas, abas e trench coats unem formas orgânicas à silhuetas exageradas, em modelagens meticulosamente proporcionais. De forma menos literal, o estilo aviador foi explorado na coleção através de jaquetas em shearling, óculos esportivos e amarrações cruzadas, inspiradas em cintos de segurança.

Decotes e recortes geométricos foram os pontos-chave da coleção, que possuía uma sóbria cartela de cores, contrastando com metalizados prateados em acessórios, botas over the knee e pontuais peças de roupa.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Com inspirações — literalmente — nas alturas, Nicolas ‘manteve os pés no chão’, focado em peças usáveis; “fazer roupas para as pessoas é o meu trabalho, não pode ser apenas sobre minhas fantasias”, disse em entrevista concedida para a revista ‘i-D’. Criar peças “reais” também era a principal motivação de Courrèges, que revisitou os arquivos da marca.

O clubwear aparece como um símbolo de liberdade, os cut outs e comprimentos mini são perfeitamente equilibrados por materiais como tricô e alfaiataria, vestindo igualmente em termos de elegância e bom gosto, mulheres de 20 ou 60 anos.

A marca das irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen, que costuma apresentar apenas looks em tons sóbrios, trouxe para a temporada de Outono/Inverno uma cartela diversificada, repleta de cores saturadas em peças pontuais — mas ainda assim uma novidade para a The Row, que segue uma linha minimalista.

O mix entre sportswear e alfaiataria, em modelagens oversized e aparentemente despretensiosas, é pensado para a volta ao trabalho presencial, tornando este momento marcante (e de certo modo, angustiante) mais confortável e divertido.

Ao invés de um desfile, Dries Van Noten preencheu uma mansão particular com sua coleção Outono/Inverno; assim, seus convidados puderam apreciar melhor as diferentes texturas de suas peças. O retorno experiencial de Dries, despertou novamente, a sensualidade da marca, perdida durante a pandemia.

O surrealismo setentista dos trabalhos do arquiteto e fotógrafo italiano, Carlo Mollino, serviu de inspiração para as peças ora simples, ora extravagantes. A geometria das peças também atraiu a atenção do público, volumes e formas deram vida às fantasias do designer.

A primeira experiência de Jonny Johansson, designer e fundador da Acne Studios, com a costura, foi ao customizar peças em jeans de seu guarda-roupa, durante a adolescência; esta inspiração foi traduzida pelo patchwork e upcycling. Elementos que o incomodavam, como desfiados, desbotados, bordados florais — grandma style — e amarrações, agora o confortam, afinal, precisou lidar com eles por tempo suficiente para aprender a combiná-los de forma cool.

O futurismo se fez presente através dos tecidos metalizados e do styling distópico (couro + layering + modelagens oversized + aparência destroyed + peças manchadas) e extravagante, mas também, sensual, expressando a essência da marca, em um cenário totalmente branco.

Roupas com estruturas que lembram armaduras, podem ser consideradas a assinatura de Olivier Rousteing, diretor criativo da Balmain. O motivo? O designer sofreu um grave acidente, no ano de 2020, onde teve 80% do seu corpo queimado; Olivier passou por um longo processo de recuperação, necessitando do uso de curativos e equipamentos de proteção, que o mesmo enxergava como armaduras, para enfrentar a luta diária.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

As peças também são associadas à necessidade de sentir-se protegido e confortável diante do momento de fragilidade em que precisou esconder-se, por vergonha (das cicatrizes) e medo do body shaming e tantos outros discursos de ódio, que tomam conta das redes sociais.

A ilusão de ótica criada através das estampas Trompe L’oeil aparece como alerta à dismorfia corporal — um transtorno psicológico que envolve o hiperfoco em uma característica física específica, onde a pessoa tenta a qualquer custo corrigir esse “defeito”, seja através de filtros, Photoshop, ou procedimentos estéticos. Também pode ser interpretada como uma crítica ao Metaverso, vidas ilusórias, que mascaram um descontentamento interno.

Ao longo do desfile, dividido em 3 atos, a estética distópica, com ar militar, finalmente deu lugar à leveza e fluidez dos vestidos de gala, que pareciam vestir verdadeiras deusas, simbolizando a esperança — vale ressaltar que qualquer semelhança com a situação geopolítica atual, é mera coincidência; ainda assim, o designer usou suas redes sociais para demonstrar repúdio a todas as formas de violência e fazer um apelo pela paz.

A estética sexy, poderosa e brilhante da marca foi adaptada ao estilo esportivo através de elementos do futebol americano e do motocrosssempre à la Balmain

O futurismo esteve presente nos mais de 100 looks da coleção, que apesar de extensa, foi bastante coesa; Olivier conseguiu, com maestria, equilibrar materiais delicados — como plumas e rendas — a um estilo pesado e desconstruído.

DIA 3

Com mais de 71.7 milhões de visualizações a trend ‘Euphoria High School’, no TikTok, brinca com os figurinos um tanto quanto ousados para ir à escola dos personagens da série. Vestidos com recortes, roupas curtas e maquiagem e cabelo impecáveis são alguns dos looks escolhidos por personagens como Maddy e Cassie — e que são reproduzidos de brincadeira pelos usuários após um corte no vídeo, que marca o momento de transição de um look “normal” para ir à escola para um look “euphorico”.

Mas e se essa brincadeira se tornasse realidade? Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer, dupla à frente da Coperni, parecem ter atingido este feito com a coleção de Inverno 2022, apresentada ontem em Paris. Em um cenário repleto de lockers escolares, a trilha sonora anunciava o início do desfile após um sinal de recreio: “o sol está brilhando no campus da Coperni High. Estamos prontos para começar agora, aumentem os volumes.”

Não demorou muito para que um casting de peso — composto por nomes como Bella Hadid, Gigi Hadid e Lila Moss — começasse a desfilar as peças da marca: maxi casacos de pêlo colorido e mini saias com fendas e aplicações de ilhós foram algumas delas.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A coleção tem como base uma alfaiataria desconstruída tanto a partir de recortes quanto na extensão da própria modelagem. Alguns blazers ganham capuz e criam um visual à la Aläia, enquanto outros fazem parte de conjuntinhos em que o cinto é na verdade utilizado na barra do top, e não na da saia. Já os trench coats recebem recortes laterais e são torcidos no centro-frente, criando um visual contemporâneo e casual ao mesmo tempo.

Mas o destaque mesmo fica por conta dos vestidos O look 30, um modelo azul bebê com recortes vestido por Lila Moss, poderia perfeitamente ter saído direto do armário de Maddy Perez. Já os cinco últimos do line up, confeccionados em tecidos fluidos e decorados com flores no mesmo material, traduzem com maestria o DNA parisian-easy-chic da marca. Em um jogo de texturas, decotes e drapeados mil, é assim que a garota Coperni decide ir à escola.

Em outubro do ano passado a Chloé foi a primeira marca de luxo a conquistar um selo B-corp de sustentabilidade, que garante que a empresa tem impacto socioambiental positivo. Sendo assim, à primeira vista, a quantidade de peças em couro do Inverno 2022 da marca podem assustar. Mas Gabriella Hearst, diretora criativa da marca, explica: “Para mim o couro é um subproduto da indústria da carne. Então, desde que você saiba de onde ele vem e como é tratado, você está utilizando lixo.”.

Vestidos com mangas bufantes, calças em corte de alfaiataria e trench coats são algumas das peças confeccionadas no material, que dessa vez aparece mais envelhecido que em outras estações. A apresentação é, no geral, mais limpa e bem editada, com looks formais e bastante alfaiataria tradicional. Os clássicos ponchos e suéteres coloridos da designer também marcaram presença, desta vez com estampas de paisagens formadas através do entrelaçamento dos fios.

Um mini vestido de couro em estampa de cobra com aberturas laterais: esse foi o modelo escolhido por Bruna Marquezine direto das passarelas de Outono 2022 de Ludovic de Saint Sernin para curtir uma noite de balada em Paris. A coleção foi talvez uma das mais básicas do estilista, que é conhecido por seus designs super sexys e repletos de cristais.

Ludovic quis reinterpretar e explorar os códigos do daywear nesta temporada, produzindo maxi suéteres de tricô, camisas oversized e saias longas em linho. Vestidos longos e fluidos e conjuntos de saia e blusa em malha também marcam a apresentação e reforçam o caráter menos experimental da coleção.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Rick Owens já é, naturalmente, um designer que falava sobre o fim do mundo e estéticas distópicas muito antes da pandemia e da popularização deste tema. Roupas rasgadas, paleta de cores mais sóbria e silhueta oversized já se tornaram clássicos do estilista, que geralmente apresenta suas coleções com efeitos especiais de luz e fumaça.

Mas, surpreendentemente, sua temporada foge dessa estética: vestidos longos em paetê, silhuetas mais justas ao corpo e o uso de cores mostra que Owens, nesta temporada, parecia estar mais otimista. “Durante tempos sombrios, a beleza pode ser uma das maneiras de manter a fé” declarou o estilista, explicando que a apresentação é sim um respiro em meio ao caos que o mundo e principalmente a Europa vem vivendo.

“Eu quis fazer algo super evidente e super confortável, fácil de vestir e sexy sem esforços. Ela é bem discreta e ao mesmo tempo super poderosa.” declarou Isabel Marant sobre o seu Inverno de 2022. As apresentações da designer são um ótimo momento para prestarmos atenção nas futuras tendências da temporada e em como o público irá incorporá-las, já que Isabel é conhecida por fazer uma moda mais para o dia-a-dia e focada no vestuário em si.

Sendo assim, as botas over-the-knee e maxi suéters serão com certeza peças-hit da temporada — assim como a brincadeira de misturar peças mais arrumadas com outras em linguagem esportiva. Em um lineup ultra colorido já clássico, a designer deixou claro que, acima de tudo, o conforto persiste como tendência em tempos pandêmicos.

DIA 4

No dia 4 de março, Issey Miyake apresentou uma coleção de Outono/Inverno 2022 em Paris que celebra e destaca a beleza da natureza, “Esta coleção é inspirada em plantas – e principalmente vegetais”, disse Satoshi Kondo. Nomeada de ‘Sow It and Let It Grow’, a paleta de cores foi inspirada em cores reais de frutas e legumes. Os looks da coleção são animados e exploram o crescimento de texturas em tecidos, cores fortes e silhuetas irregulares.

Nina Ricci é conhecida por seus famosos perfumes. Contudo, desde a saída dos diretores-criativos Lisi Herrebrugh e Rushemy Botter, Nana Baehr desenvolveu para essa coleção de outono-inverno 2022 looks para a nova mulher da marca. Resgataram arquivos e estéticas da marca com looks de peças ‘simples’ com muita extravagância. Estampas diversificadas, sem recorrer ao arquétipo floral, mas com flores em spray como camuflagem. A tradição de alfaiataria da casa foi desenvolvida com materiais tecnológicos, como nylon acolchoado. Um pequeno vestido preto tinha um tecido de tule no corpete que era pura extravagância. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Yohji Yamamoto desenvolveu para sua coleção de outono inverno 2022 looks que inicialmente começaram com jeans e foram levados até o fim do desfile como grande destaque, seja cortado, drapeados ou assimétricos. Os looks jeans fizeram parte de looks inteiros e também como peças únicas como terceira peça. Não é dessa temporada que as jaquetas puffers tem aparecido, dessa vez, eram jaquetas oversized com mangas grandes. Muitos looks tiveram a participação de camisas brancas de algodão, que de início eram destaque que depois foram apenas parte de outras composições. A alfaiataria de Yamamoto chegou de forma expressiva, desconstruída e todas diferentes. 

VTMNS é um projeto de Guram Gvasalia, irmão do diretor criativo da Balenciaga – Demna Gvasalia, ramificado da marca Vetements. O primeiro desfile da marca aconteceu nesta temporada de outono-inverno 2022. Gvasalia desenvolveu uma coleção streetwear com uma alfaiataria despojada e com um logo incomum, mas que reflete a personalidade do diretor criativo: um código de barras. Jaqueta, jeans, agasalhos puffers completavam a coleção do projeto. O streetwear é uma característica forte da família Gvasalia, Guram não apresentou indícios de que sairia longe deste caminho. 

Por mais que muitos da indústria da moda nessas últimas semanas não tenham reagido de maneira significativa a respeito dos recentes acontecimentos como a Guerra na Ucrânia, o desfile teve um minuto de silêncio a todas as vítimas afetadas pela guerra. Para essa coleção de outono- inverno 2022, Marine Serre, diretora-criativa da marca, desenvolveu uma coleção upcycling como de costume. Contudo, não apresentou a estética de logomania de meia lua como tem estado presente em todas as últimas coleções da marca. 

A coleção faz parte do projeto Hard Drive da marca, e fica em exibição nos dias 5 e 06/03 no centro de artes Lafayette Anticipations, em Paris. Na loja criada para a exibição, os visitantes podem trazer qualquer material de tecido e customizá-lo com o famoso logo clássico da marca, uma meia lua. Parte das vendas será destinada à ong Médicos Sem Fronteira para os refugiados da Ucrânia.

A diretora criativa optou por trazer diferentes estéticas na coleção. Uma delas, que tem estado muito presente nas semanas de moda, é a punk rock. O xadrez vermelho com preto esteve fortemente presente em looks como saias, casacos e em cachecóis azuis e pretos. Outra, foi o patchwork que é o upcycling que Marine sempre faz questão de inserir em suas coleções. Um trabalho manual e sustentável feito através de retalhos de tecido em diversos formatos e cores, foi desfilado com a inserção de diferentes cores, logos e frases, representada em um vestido longo com luvas em calças e casacos. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Trench coats e casacos de frio com pelos na gola e manga em couro azul com duas cores de azul, o marinho e um mais claro. Além de, recortes quadrados em tons de azul e marrom. O famoso hippie chic com toque refinado veio em tons terrosos e em estampas astrólogas, uma estética apurada e um ar romântico, mas não jovial. 

Marine sempre faz questão de reforçar a importância de seus discursos ambientais e comportamentais, como o uso de  tecidos reciclados ou técnicas de upcycling, destacando o compromisso com a sustentabilidade. Marine pensa em cenários apocalípticos para a construção das peças, como guerras climáticas, civilizações ameaçadoras e extinção em massa. 

A marca tem crescido e se destacado mostrando sua capacidade na indústria. Apesar de seu logo de meia lua não ter estado presente nesta coleção, outros já familiarizados foram vistos, como astrológicos. Marine tem conquistado fortemente fãs da moda e artistas da cultura pop. Ela faz seus designs com naturalidade e de forma orgânica, e sua trajetória parece estar bem encaminhada. 

J.W Anderson desenvolveu para a coleção de outono-inverno 2022 da Loewe formas de automóveis delineadas em bainhas de vestidos, sapatos de salto alto sob camadas transparentes de malha, além da tendência de tecidos transparentes. 

O designer apresentou uma estética surrealista, facilmente referencial a Salvador Dalí, René Magritte ou a própria estilista surrealista original, Elsa Schiaparelli, com looks de lábios em contorno dos braços e mãos e na frente dos vestidos. Anderson se concentrou em roupas mais simplistas. Continuou experimentando linhas e formas volumosas (ambas vistas em temporadas passadas na Loewe e em sua marca homônima, J.W. Anderson). Suéteres com golas circulares levantadas como travesseiros e cardigãs esvoaçantes com mangas acolchoadas estavam presentes nesta coleção. 

Anderson mencionou que ele também estava olhando para a arte feminista. Havia referências à surrealista Meret Oppenheim e Lynda Benglis. Uma série de squashes de Anthea Hamilton foi apresentada ao público no show. O escultor e o diretor criativo já se reuniram nas apresentações de arte de Hamilton na Tate. 

A paleta de cor dos looks eram mínimas. Tom sobre tom e tons terrosos, nada muito estampado e colorido. Como indica o comunicado de imprensa que acompanhou o desfile, esta coleção foi concebida para destacar uma ‘moda que provoca uma reação, despida de primitivismo cru com emoção e fantasia’. De fato, é difícil não ver a dimensão sensual na coleção do designer: como as leggings de látex, tweed, seda e malha foram combinados; às peças-chave foram vestidos de couro moldado, tops de látex que revelavam os seios das modelos, jaquetas enroladas no pescoço ou na cintura e outras peças reveladoras. 

Anderson sabe fazer looks ousados e que realçam o lado sexy e exuberante da mulher. Dessa vez não foi diferente. O toque surrealista incorporou suas criações gerando ainda mais desejo e valor.

DIA 5 

Desde a saída de Alber Elbaz, Lanvin enfrentou crises estruturais e financeiras no mercado de moda, e desde a nomeação de Bruno Sialelli, que tem se mantido no cargo há 3 anos, o destino aparenta estar sorrindo novamente para a maison francesa, fundada por Jeanne Lanvin.

A temática dos anos loucos de 1920 e do Art Deco parece ter sido o ponto de partida para um grande número de designers durante a temporada de Outono/Inverno 2022 e com Bruno Sialelli, diretor criativo da Lanvin, não foi diferente.

O designer francês revisitou os arquivos antigos da fundadora da marca, que viveu de fato nesse período, como fonte de estudos durante seu processo criativo. “Há algo nesses momentos entreguerras que parece preocupante, mas otimista ao mesmo tempo, mas são estes os momentos em que nossa criatividade e cultura devem levantar suas propostas de ideais como um ‘remédio’ para essas preocupações”, disse Sialelli.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A coleção foi apresentada em formato digital como um filme de art noir, justamente com o objetivo de ambientar os espectadores nessa temática dos anos de 1920. Sialelli teve uma atenção muito focada em traduzir as silhuetas da época para um consumidor contemporâneo. O designer focou nas silhuetas em linha ‘Í’ resgatando as roupas de formas secas tão características da época, “silhuetas do passado ao presente” de acordo com o próprio designer.

Peças em veludo molhado, rendas, vestidos bordados com miçangas, looks com muita transparência com telas de tule e a transição de uma silhueta mais seca para silhuetas mais volumosas ao final do desfile, mostraram bem a interpretação da moda do período entreguerras para uma linguagem mais contemporânea e não necessariamente literal.

A cartela de cores da coleção contou com tons de azul, rosa, vermelho, amarelo, nudes e preto; que circulavam entre os looks em peças lisas ou em estampas de motivos geométricos, motivos inspirados na fascinação de Jeanne Lanvin pelas formas do Egito Antigo, como as esfinges.

Logo próximo ao final do tempo de passarela, o francês introduziu looks que exploravam os babados e os tecidos telados, esmiuçando o potencial de textura e o efeito volumoso que estes causam nas formas finais das peças.

Com a direção criativa de Bruno Sialelli, a Lanvin gradualmente retorna aos seus tempos de glória sob os holofotes da moda de luxo. As impressões do designer combinadas com o histórico da marca com certeza dão motivos suficientes para acompanhar com maior atenção o trabalho da marca nas próximas temporadas de moda.

Andreas Kronthaler mergulhou sua criatividade no universo do teatro ao desenvolver a coleção de Outono/Inverno 2022 para Vivienne Westwood. O parceiro de vida e de trabalho de Vivienne Westwood deixou emergir sua ‘musa particular’ durante a apresentação e teve como maior objetivo ser fiel a si mesmo. “Sempre fiz as coisas com ela [Vivienne Westwood] em mente….. e isso sempre me colocou em crise e percebi que não, você deve achar a ‘musa’ de inspiração em você e ser verdadeiro consigo mesmo”, disse Kronthaler.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A maior parte da coleção pode ser descrita por um só adjetivo: leveza. As formas de Kronthaler e os materiais escolhidos pelo designer austríaco denotam uma leveza que nada contra a correnteza de corpetes modeladores tão familiares à marca de Westwood. Tecidos acetinados, lamê, plumas, e malhas de moletom tiveram a responsabilidade de trabalhar essa sensação de suavidade das peças.

Inspirado pelo universo teatral, Kronthaler desenvolveu uma infinidade de estampas e toda essa mistura reflete esse mundo fantasioso e criativo dos palcos de teatro, além da estética nômade e multicultural imprimida nesses motivos, arriscando trabalhar vários signos ao longo da coleção.

O trabalho de alfaiataria continuou sendo o ponto forte de Andreas e esse esforço do designer é explorado ao longo da apresentação. A variedade de símbolos clássicos da marca em conjunto com a “nova” e livre estética de Kronthaler revela uma confiança mútua entre os designers que lideram a direção criativa de Westwood, em parceria. 

Ao contrário de outros públicos, o consumidor Hermès busca sempre por um produto impecavelmente bem feito em detrimento de um artigo ou peça que siga as tendências da temporada. É por isso que, desde que assumiu a direção criativa da marca em 2014, Nadège Vanhee-Cybulski entrega coleções cujo tema central são sempre as roupas e a qualidade dos produtos.

Seu Inverno 2022 então não poderia ser diferente: em uma cartela de cores minimalista (um clássico de Nadège) a estilista desfilou peças clássicas que exalam elegância e um luxo discreto que é a cara da Hermés. Saias plissadas em couro, macaquinhos e macacões em malha firme e casacos em cortes e aplicações impecáveis são alguns exemplos.

Nadège ainda, como de costume, traz referências do universo equestre para as passarelas em razão do histórico da marca: mini vestidos em matelassê com enchimento fino, fivelas clássicas e abas em formato de selaria são as mais visíveis. Para equilibrar e tornar a coleção contemporânea, ela adiciona toques de sexy nunca vistos antes em seu trabalho para a casa, como a transparência de algumas camisas e o encurtamento dos shorts e saias.

Dois anos após a mega explosão que assolou a população libanesa de Beirute em 2020, Elie Saab decide voltar às passarelas físicas e reviver sua marca para os olhares presenciais de seus consumidores e admiradores, mesmo ainda se recuperando da tragédia que afetou seu lar e seu ateliê. O inverno 2022 de Saab é direcionado inegavelmente para mulheres com força e autenticidade. “É sobre mulheres fortes, com um forte caráter e um pouco de rock n’ roll”, disse o designer libanês.  

Saab traduz toda sua expertise em vestidos de alta costura para uma temporada ready-to-wear. Vestidos de noite recheados de elegância e glamour, com acabamento em bordados de paetês, muita renda, bordados de cristais, plumas que por si só já requerem um olhar especial de observação. A alfaiataria de Saab também ganhou sem momento de destaque na passarela, em formato de blazers bem cortados com ombros avantajados e  calças cigarretes;  além disso as peças em veludo, couro e tules esvoaçantes terminaram por revelar o guarda-roupa dessa mulher forte de Saab

Vencedor do prêmio LVMH de 2018, o estilista coreano Rokh Hwang comanda sua marca própria desde 2019. Discípulo e ex-aluno de Louise Wilson, prestigiosa professora da CSM que guiou nomes como Mcqueen e Kane, Rokh possui um trabalho que mescla desconstrução e jogo de texturas.

Sua estética particular e talento o fazem um dos nomes mais interessantes de se acompanhar atualmente – e sua coleção de inverno de 2022 prova isso. De conjuntos de alfaiataria envoltos por cintos de couro até trench coats em vinil azul royal, Rok entrega uma coleção que mais uma vez reforça seu design disruptivo e elegante ao mesmo tempo. O grande diferencial das peças de Rokh parece ser justamente o equilíbrio entre experimentação e usabilidade, que rende assim peças fashionistas e formais na medida certa.

O Inverno de 2022 de Ann Demeulemeester se manteve fiel às suas origens e traz à tona na passarela a estação fria para os góticos, boêmios e melancólicos de plantão. Apresentada no Réfectoire des Cordeliers a coleção sob não estava tão distante de suas raízes e nem de sua criadora em termos de distância física, a própria Ann Demeulemeester garantiu sua presença na plateia do desfile, após sua saída da marca de nome homônimo em 2013.

Longas casacos, vestidos e coletes de uma alfaiataria bem cortada, foram se repetindo constantemente do início ao fim da passarela. Peças sóbrias e secas de gola V em diferentes materiais como o crepe e o couro, que ganhou destaque por reviver a identidade gótica de Demeulemeester. Pequenas aparições de bordados com miçangas pretas tiveram seu momento no vasto mar de looks pretos e cinzas, que surgiram no decorrer de uma discreta graduação ao passo que o desfile avançava. 

DIA 6

A mais recente apresentação de Demna Gvasalia para Balenciaga foi um tributo direto para o conflito que ainda continua entre Rússia e Ucrânia. Demna que já sentiu na pele o que é ter que sair de seu país natal e se tornar um ‘refugiado para sempre’, dedicou este show à bravura, resistência e a vitória da paz e do amor. 

Essa apresentação se mostra de longe a mais pessoal e tocante para o estilista. Nascido na Geórgia — um país na intersecção entre a Europa e a Ásia — Gvasalia fugiu de seu país durante uma guerra civil e lembrou que ‘um fashion week (nas condições atuais) parece uma absurdidade e em tempos como esse, a moda perde sua relevância’. Apesar de ter sido assombrado por espíritos e traumas passados, Gvasalia não cedeu e prosseguiu com seu show, que se mostrou afinal de conta extremamente necessário e relevante. 

Num palco 360° isolado por uma redoma de vidro, os modelos desfilavam contra uma tempestade de neve e vento. Fazendo críticas ao aquecimento global, a guerra na Ucrânia e também, ao desperdício e a negligência a bens materiais — vide os convites aos convocados para o show, era um velho iPhone 6s, quebrado, que não funcionava, esquecido e desprezado. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Também aos convidados, foram dadas no total 525 camisetas com as cores da bandeira da Ucrânia, posicionadas nos assentos juntamente com uma declaração pessoal escrita pelo próprio designer. 

A coleção seguia uma paleta de cores sóbrias: preto, cinza e marrom, com toques de branco, estampas florais e seguido pelas cores amarelo e azul. A silhueta arrojada e forte — uma marca já registrada de Demna — fez sua aparição, tracksuits, jaquetas bomber, macacões, moletons, couro e jeans. A coleção parece ter sido criada por ‘peças staples’, ou essências, acompanhadas das bolsas que lembravam sacos de lixo — seria mais uma crítica ao consumo e ao desperdício? — os vestidos que se fundiam com luvas e leggings e sapatos. 

Ao final, o show foi menos sobre as roupas em si, mas sim a poderosa alusão criada e a mensagem que era transmitida. “De algum modo, moda não importa agora nesse momento, para mim” declarou Gvasalia, “Pessoalmente, eu já sacrifiquei muito por guerras. Essa última semana tem trazido de volta todas as memórias que eu e minha mãe colocamos de lado numa caixa e nunca mais olhamos. Nós nunca superamos.” 

Think pink! Pierpaolo Piccioli tomou um gesto radical em sua última coleção para a maison Valentino, desfilada hoje, 6.  Apesar da íntima relação da grife com a cor vermelha — Red Valentino é inconfundivelmente a marca registrada da maison, Valentino Garavani tinha uma profunda afeição pela cor e a usou para distinguir a mulher normal da ‘mulher Valentino’. 

Agora, no entanto, testemunhamos a nova coleção intitulada Pink PP, inteiramente na cor rosa — acompanhada de algumas singelas interrupções de um preto profundo. 

Buscando as possibilidades envoltas na cor rosa, o mais recente show da Valentino não deixou nada que não fosse ‘Valentino pink’, desde a passarela, as paredes, até as roupas e as ‘Valentino muses’ — Zendaya usava um look cor de rosa dos pés a cabeça enquanto acompanhava o desfile da primeira fileira.  

As capas e luvas sempre marcantes nas apresentações estavam presente, vestidos curtos e longos que brincavam com diferentes cortes ou aplicações, decotes em onda, transparência, alfaiataria (sempre) precisa, longos de festa, lantejoulas, casacos oversized…  Por trás dessa coleção quase monocromática, salvo os looks em preto, Piccioli declarou que desse modo ‘as atenções poderiam ser voltadas no seu trabalho com diferentes tipos de tecidos, aplicações e bordados, silhuetas, cortes estratégicos’. Ou seja, sem a ‘distração’ das cores somos forçados a perceber as texturas, os materiais e as superfícies. Um trabalho de reflexão que Pierpaolo propôs ao seu público e, mesmo fugindo do tradicional, conseguiu cativar a atenção e deixar a cor rosa ainda mais viva em nossas mentes.

Kenneth Ize definitivamente tem um novo look para chamar de seu: o aso oke. O tecido ‘aso oke’ usado pelo designer nigeriano, no qual Naomi Campbell fechou o desfile no debut do diretor criativo em Paris (antes da pandemia), agora é oficialmente o centro das atenções das coleções de Ize. 

Trata-se de um material tradicional da Nigéria no qual Ize usa e reusa cores mas mantém as inconfundíveis listras. Na sua passarela vimos inúmeras variações do asooke: terno com saia, jaquetas de zíper, tricô, blazer e calças. 

A coleção que foi desenhada em Nova York traz muitas referências da cidade como ‘Taxi Driver’ ou a ‘vibe 70′ s’ que a cidade um dia já carregou. E que também fez uso de tecidos e materiais reciclados. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

O designer vem cada vez mais se elevando e trazendo identidade para a marca. Com suas silhuetas elegantes, longínquas e, por vezes, alegre — vide a estampa aso oke. De uma forma eclética e despretensiosa, Kenneth Ize vem nos mostrando seu caminho de como ganhar os holofotes e as atenções.

Matthew Williams vem ainda pavimentando sua identidade e visão para a Givenchy— visão a qual torna a Givenchy mais para a frente, franca e honesta. O interesse de Williams em sua nova coleção para outono-inverno ready-to-wear era realmente ‘criar roupas que as pessoas fossem usar e a facilidade disso’. 

Focado, principalmente, numa pegada streetwear, Matthew usou suas cores predominantes: preto e verde escuro. As consequências dessa inspiração no streetwear foram: muita sobreposição, logos e moletom com estampas gráficas, tracksuits, peças ‘baggy’. 

Williams, que era anteriormente diretor criativo no ramo musical, trouxe essas ‘raízes’ para seus shows como head-designer. Desde a passarela e o trabalho de luzes LED à soundtrack do desfile. 

Matthew descreve seu trabalho na Givenchy como ‘muito instintivo e presente’. Espelhando a cultura do dia a dia num muito mais elevado nível na passarela. No entanto, sem esquecer as origens da marca: Williams, como inspiração, fez inúmeras menções para os ‘arquivos’ da grife francesa e trouxe isso na sua nova coleção.

DIA 7

Ao som de ‘Give Peace a Chance’ de John Lennon e Paul McCartney acompanhada do discurso pacifista ‘A Strategy for Peace’ de John F. Kennedy, a coleção de Outono/Inverno 2022 de Stella McCartney abre espaço para a conscientização e para se posicionar em prol da população ucraniana que vem sofrendo ataques de guerra do governo russo nos últimos dias.

Stella McCartney se reuniu em parceria com o artista plástico Frank Stella durante o planejamento da coleção. Stella e McCartney trabalharam lado a lado principalmente no que diz respeito às silhuetas e estampas desenvolvidas para a passarela. “Amo o maximalismo e o minimalismo dele [Frank Stella]. É um paralelo para nossa marca: o lado masculino simples em conjunto com um lado mais explosivo. Quando você observa o trabalho de Frank, ele realmente acompanha isso muito bem”, disse a estilista britânica.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Como era de se esperar, McCartney continua a aumentar seu acervo com looks provenientes de materiais ‘eco-friendly’, que dialogam com seu discurso sustentável. Peças em algodão orgânico, nylon reciclado, lã regenerativa, lãs RWS de fontes rastreáveis foram alguns dos insumos usados pela estilista nesta temporada. Por outro lado, seu verdadeiro protagonista foram os restos de cascas de uvas transformadas em couro falso.

A parceria entre McCartney e Stella foi um harmonioso casamento de traçados e criações, onde os motivos e linhas de Frank Stella dançavam e pulavam de peça em peça, entre os conjuntos de alfaiataria, os vestidos de malha de elastano e os acessórios de Stella McCartney.

McCartney não se limitou somente em trabalhar com materiais novos para sua marca, mas também se aventurou com pares de jeans desbotados, camurça e pele falsa, tecidos acetinados em um cartela comum, mas forte na forma como a estilista a disponibilizou ao longo da passarela. Tons de roxo, laranjas e marrons terrosos, vermelho vinho, amarelo mostarda, tons azulados e muito preto fizeram parte do Inverno da designer.

Em mais uma coleção Stella McCartney não deixa de mostrar aos seus contemporâneos que é sim possível planejar e criar um raciocínio de moda ética baseado na clareza das suas fontes de materiais e em um produto final de sofisticação e qualidade.

Ao celebrar o seu retorno à Paris e às passarelas, Chitose Abe alavanca o patamar de sua marca nessa coleção e foca em entregar ao seu consumidor produtos que carregam sua assinatura mas com o máximo de sofisticação possível. As famosas combinações imprevisíveis de Sacai volta junto aos desfiles presenciais, mas com uma linguagem mais extravagante e festiva para essa temporada de Outono/Inverno 2022.

A silhueta oversized foi mais uma vez a palavra de ordem na mente da designer japonesa durante seu processo criativo. Saias volumosas com cós em acabamento de elastano, jaquetas esportivas de nylon encapuzadas, trench coats e blazers transformados em vestidos, casacos de pele e couro terminam por acentuar a imagem de poder e força dessa consumidora de Abe que necessita de novos looks para os eventos pós pandemia. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Mesmo com um cartela limitada, Abe soube explorar todas as possibilidades de combinações entre o vermelho vinho, o vermelho amaranto, preto, branco, os beges, além disso as estampas de risca de giz e de onça pintada souberam usar seu tempo de passarela com muita sabedoria para quebrar as sequências de peças lisas que dominaram a apresentação. 

Juventude foi a premissa do desfile de Outono/Inverno 2022 da Louis Vuitton nesta temporada. Com uma coleção inteiramente influenciada pelas manifestações juvenis atuais, não só o streetstyle mas também as redes sociais, Nicholas Ghesquière trabalha simultaneamente as estéticas da sua adolescência e os estilos de hoje. 

Movido pelas suas observações dos jovens de hoje e como eles se comunicam via TikTok, Instagram, seus ídolos, e estilos; Ghesquière aproveitou a volta da estética dos anos de 1990 e dos anos 2000 e reinterpreta esse estilo preppy escolar misturado com referências do grunge e dos skateboarders para uma nova leva de consumidores da moda de luxo.

O desfile da Louis Vuitton ocorreu no interior do Musée D’Orsay, tornando-se a primeira marca a conseguir permissão para desfilar sua coleção num dos museus mais respeitados do mundo em termos de arquivos de Belas Artes.

Focado em captar a fase transformadora da juventude, a passagem da vida infantil para a adulta, Nicholas Ghesquière compilou vários signos e estilos que um jovem em período de transição e liberdade estaria disposto a testar para se descobrir. “A coleção é uma verdadeira excursão a um momento perceptível, fugaz e decisivo em que tudo vem à tona, em toda sua inocência e perspicácia. A impermanência e a bela volatilidade da adolescencia”, disse o designer francês. 

O ápice dos designs de Ghesquière nessa temporada foi, sem sombra de dúvidas, o seu foco na alfaiataria. Calças estilo ‘Annie Hall’, camisas sociais, gravatas, blazers e casacos oversized ‘boyfriend’, e a androginia presente nas combinações foi extremamente forte nessa coleção. Além disso, as camisas esportivas de rugby, calças e botas de cano longo de couro e as camisas polo com a impressão gráfica de um retrato do fotógrafo de moda David Sims, dão o toque final nessa excursão de novas descobertas pelo seu próprio estilo que o jovem de Ghesquière passa. 

Ao sair um pouco dessa androginia, Ghesquière trabalha a feminilidade na coleção por meio de formas que lembram as silhuetas das crinolinas – armação que aumentava o quadril da mulher nos vestidos do século XIX – em vestidos de tweeds bordados. Nos suéteres, camisas e vestidos, com o intuito de se aproximar ainda mais da realidade jovem, o designer implementa uma mistura psicodélica de motivos localizados gráficos em padronagens também figurativas.

Na tentativa de se aproximar dessa nova leva de consumidores jovens, a Louis Vuitton sob a direção de Nicholas Ghesquière ao lado Virgil Abloh, que estava responsável pela linha masculina da marca até seu abrupto falecimento no ano passado, tem lançado coleções que sabe se comunicar comercialmente com esse novos consumidores e atingir esse objetivo. O mergulho de Ghesquière nas inconstâncias da juventude logo logo vai comprovar mais uma vez a maestria com que a Louis Vuitton sabe se comunicar com os fashionistas da Geração Z.

Inspirado pela moda dos anos 60, Giambattista Valli revela o lado mais ousado e rebelde de sua consumidora na coleção de Outono/Inverno 2022. Valli se deixou levar pela autoconfiança da mulher parisiense e isso transpareceu em seus looks. “As mulheres aqui são muito feministas, são muito complexas. Elas não se importam com nenhuma crítica. Elas só querem ser elas mesmas e é isso que eu amo sobre as mulheres francesas. Elas são muito livres, muito fiéis a si mesmas”, afirmou o designer italiano.

Logo de cara os espectadores do desfiles foram seduzidos pela silhueta de linha ‘trapézio’ e as mini saias clássicas dos anos de 1960, com peças em branco e grandes óculos redondos, também característicos da época, revivendo o período do Space Age. No decorrer da passarela, Valli aos poucos trabalhava em alternância os códigos tão característicos de sua assinatura com os ícones da Era dos Beatles; como os casacos de inverno de gola alta, botas de cano alto de couro, vestidos em tule e renda e recheados de babados, muitos laços e estampas florais. 

Além das referências florais, Valli trabalha com as estampas de motivos de ‘pois’ e o animal print em sobretudos longos, vestidos curtos e minissaias Os tons de branco e off white, o preto brilhante e o fosco, os azul Tiffany, os rosas e vermelhos conseguiram de maneira sucinta equilibrar a mensagem final do Inverno 2022 de Valli, a mensagem de que seu trabalho se destina e presta homenagem às mulheres autênticas e seguras de sua feminilidade acima de tudo. 

Assim como todos os profissionais da indústria da moda e do mundo, Olivier Theyskens foi profundamente influenciado pela pandemia da COVID-19 e sua coleção de Outono/Inverno 2022 é um honesto reflexo dessa influência. Além de uma mudança em seu olhar criativo, Theyskens parece ter reestruturado toda sua cadeia produtiva e seu raciocínio de negócios. “O que aconteceu no mundo é tão importante que eu realmente queria redimensionar o meu negócio”, afirma Theyskens. 

Theyskens decide abandonar todo o padrão de negócios de costume das marcas e segue em direção a uma reestruturação livres de pressões e regras corporativas por um crescimento sem precedentes que visa somente o lucro.  O designer belga orquestrou toda sua coleção ‘à moda antiga’, a partir de um trabalho minucioso da combinação de retalhos têxteis e patchwork, Theyskens teve como resultado uma coleção etérea, cheia de espírito e um convite ao passado. 

Looks cortados no viés, combinações e maquetes têxteis que misturavam vários tecidos ricos em motivos, como o crochê e as muitas rendas de diferentes padronagens cortadas no fio reto. O belga continuou a trabalhar com uma paleta reduzida e bem sombria com seus tons de preto, roxos, verdes, marrons e off white, ele aproveitou e trabalhou com o  envelhecimento dos tecidos e de suas cores, valorizando o ‘ar’ sublime e vintage que seus vestidos e inspiração pede. Theyskens soube aproveitar muito bem seu período de isolamento não só para ouvir seu tino criativo nesse momento de mudança mas perceber também que é necessário um giro de 180 graus  para reavaliar o que o mercado necessita nesse momento introspectivo. 

DIA 8

Na terça-feira (08), Virginie Viard 一 atual diretora-criativa da maison francesa 一 repetiu um ato icônico feito anteriormente por seu ex-chefe (e também diretor-criativo frente a Chanel) Karl Lagerfeld: apresentar uma coleção que fizesse diversas referências à Escócia, uma região bastante visitada e amada por Gabrielle Chanel, mais conhecida como Coco Chanel e fundadora da marca.

Em contrapartida, enquanto a coleção apresentada por Lagerfeld em 2012 (Pré-Outono 2013) comportava uma atmosfera mais melancólica e altamente ambientada às raízes escocesas, a coleção de Outono/Inverno 2022 一 dirigida por Virginie 一 busca referenciar uma das paixões de Coco Chanel de maneira mais otimista e vibrante, o que consequentemente contribui para que a marca consiga atrair os olhares de uma geração mais jovem, seguindo a pegada brilhante da nova coleção. 

Um outro detalhe que ainda capta bastante atenção nesta nova exposição da Chanel é a devoção aos clássicos tweeds 一 marca registrada da maison 一 em diversos tons, em destaque aos tons mais claros (pastéis) em rosa e azul, por exemplo, fazendo uma grande menção e homenagem ao guarda-roupa tradicional de Coco Chanel e às vestimentas populares durante a década de 1920, além da Londres de 1960. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Os shorts de tweed, também presentes nesta nova coleção da Chanel, ainda são componentes que aplicam ao desejo de Viard em apresentar peças que também pudessem reproduzir o conceito de roupas urbanas, além da própria inspiração no guarda-roupa inglês e escocês. 

A coleção como um conjunto é apresentada de maneira sóbria, apontando de maneira explícita toda a assinatura da Chanel, além de, claro, homenagear a fundadora da casa francesa com suas produções e peças mais clássicas. Apesar de ainda não corresponder ao anseio da comunidade e dos fãs da marca em sair da zona de conforto das criações da marca, como por exemplo o uso ‘’abusivo’’ do tweed 一 que apareceu na coleção não somente em ternos ou nos tradicionais conjuntinhos, mas também em vestidos, cardigãs, meia-calças, sobrepostos, entre outros 一, esta nova apresentação proposta por Virginie Viard na nova coleção da Chanel é um grande convite para que a nova geração possa conhecer um pouco da história da maison e deliciar as referências ao otimismo e brilho da juventude, além de comportar peças que reforçam e mencionam a feminilidade da mulher Chanel. 

Na temporada apresentada no dia 8, Miuccia Prada, diretora-criativa da Miu Miu deu a cartada e última palavra final para esta Semana de Moda de Paris. A coleção de Outono/Inverno 2022 apresentada para a Miu Miu comporta-se como um storytelling magnífico através da continuação da narrativa contada na última apresentação da casa.

Miuccia buscou contar um pouco de sua infância 一 traduzida em roupas 一 e de suas paixões em sua nova coleção. Em uma coletânea reunindo 53 looks, a garota Miu Miu assume uma postura menos workaholic e mais apaixonada por esportes e aventuras, e isso pode ser facilmente captado através da composição das vestimentas 一 através de casacos e blazers oversized, peças mais finas e composições sobrepondo lingeries, o que acaba por substituir a imagem ‘menininha’ por uma mulher mais feroz, determinada e sensual. 

Essa proposta ainda é reafirmada através da aparição de peças que utilizaram da técnica da transparência, além de, como já se era esperado, da presença de vestimentas que explorassem o ‘’uso’’ da pele, como as minissaias, por exemplo, que foram um grande marco e impactaram a coleção passada da Miu Miu. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Os acessórios da nova coleção da casa ainda chamam a atenção por sua praticidade e cores mais convidativas. Além disso, à medida que a nova temporada Miu Miu continuasse a narrativa iniciada anteriormente, foi inevitável a presença de peças em couro, casacos em shearling, estampas de pele de cobra, dentre outros.  

Conforme outras marcas passaram a abordar questões como peças andróginas e genderless, não foi diferente com a Miu Miu nesta temporada de 2022. Os detalhes e conjuntos que tomaram conta desta nova coleção comportam-se como uma maneira de expressar a diversidade de gênero, a partir da silhueta mais acanhada que também funciona para demonstrar como esta funciona com não-binários. A tentativa proposta por Miuccia foi abordada de forma que os modelos masculinos também usassem a malha fina e jaquetas mais curtas. 

Deixando de lado a busca por produzir vestimentas arcaicas de escritório, a nova coleção inspirada nas quadras de tênis criada por Miuccia Prada e apresentada para esta temporada é extremamente acolhedora aos entusiastas de uma moda clássica, livre, moderna e altamente contemporânea. O impacto da coleção de Primavera/Verão 2022, apresentada em outubro, foi extremamente assombroso e parece querer ecoar por um longo tempo. 

Quem foi Edith Head?

Edith Head, nascida em 28 de outubro de 1897, foi uma das mais ilustres e influentes estilistas na história do cinema , ajudando a definir o estilo de uma Hollywood na sua Era de Ouro. Em  seu repertório, que se estende por cinco décadas e mais de 1000 filmes, dentre diversas conquistas, reúne o recorde de oito estatuetas no Oscar por Melhor Figurino.

Pré-Hollywood

Edith nasceu em São Bernardino, Califórnia, filha de pais judeus Max Posener e Anna E. Levy. O casamento de seus pais não sobreviveu e quando Anna voltou a se casar, dessa vez com o católico engenheiro de minas Frank Spare, Edith tornou-se adepta do catolicismo. Durante a infância, sua a família mudava-se frequentemente, à medida que os trabalhos de seu padrasto mudavam e por conta disso, mais tarde, Head só conseguia se recordar de um dos lugares onde viveu quando jovem, Searchlight, Nevada.

Apesar de ter se formado com honras em Letras na Universidade da Califórnia em 1919 e no ano seguinte conquistado um mestrado em Línguas Românticas da Universidade de Stanford, Edith sempre foi muito interessada em design.

Procurando aumentar o seu salário como professora na Bishop’s School, ela se ofereceu como professora de artes, mesmo sem ter domínio completo de suas capacidades artísticas. Para compensar por essa falta, Head frequentou a Otis Art Institute e a Chouinard Art College no período noturno.

[Imagem: Getty Images]

“You can have anything in life if you dress for it”

Incrivelmente, pouco tempo depois Edith Head foi contratada como sketch artist, a trabalhar sob Howard Greer, figurinista principal na Paramount Pictures, lá ela permaneceu durante 43 anos. Mais tarde ela admitiu ter pegado “emprestado” alguns dos desenhos dos seus colegas para sua entrevista de emprego.

No início ela produziu trajes para filmes mudos, mas já na década de 1930 ela era considerada uma das mais importantes figurinistas em Hollywood. A princípio Head foi ofuscada pelos estilistas principais do estúdio, Howard Greer e depois Travis Banton, entretanto Edith foi instrumental na conspiração contra Banton que por conta do seu alcoolismo foi demitido, assim ela foi de assistente para Designer Principal.

Durante o tempo em que trabalhou para a Paramount Studios, Edith Head chamou a atenção do público com um vestido de pele de visom para a Ginger Rogers em A Mulher Que Não Sabia Amar (1944), estimado em 35 milhões de dólares, que é considerado um dos figurinos mais caros já feitos.

[Imagem: Shutterstock]

Já em 1949, com a criação da categoria de Melhor Figurino no Oscar seu nome ficou ainda mais conhecido, a estilista alcançou mais de 30 indicações e ganhou oito delas, a começar por A Valsa do Imperador (1948).

Head era a favorita de muitas estrelas femininas da época como Tippie Hedren, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, entre outros. Ela se destacava por manter ótimas relações com os atores que vestia, além de consultá-los extensivamente. Grace Kelly foi uma de suas parcerias favoritas, vestindo-a em quatro filmes diferentes, um dos seus looks icônicos é, por exemplo, o vestido azul em Ladrão de Casaca (1955) de Alfred Hitchcock.

[Imagem: Academy Film Archive]

Tornou-se uma personalidade reconhecível, por conta d seu estilo pessoal diferenciado e por sua personalidade sincera que inspirou a personagem Edna Moda de Os Incríveis (2004) e Os Incríveis 2 (2018). O visual de Edith era sempre simples e icônico. A estilista tinha uma preferência por óculos de armação grossa, tons neutros e peças conservadoras não apenas por se sentir bem, mas também para não tirar o foco de suas estrelas durante as provas de roupa.

[Gif: Tenor/Pixar]

Além de seus trabalhos principais, Edith ainda encontrou tempo em 1959 e 1967 para reaplicar o seu conhecimento em letras escrevendo os livros The Dress Doctor e How to Dress for Success, respectivamente.

Da Paramount para a Universal

Em 1967, possivelmente por influência de Alfred Hitchcock com já havia assinado as peças de 11 filmes, Edith Head iniciou um novo contrato com a Universal Studios trabalhou até seus últimos dias em 1981. 

Apesar de ainda ser muito admirada, a Hollywood dos anos 1940-50 já não era a mesma na década de 1970, Edith então passou a dar mais atenção a TV onde fez, por exemplo, o guarda roupa de Endora da série A Feiticeira.

Em 1974 a figurinista foi reconhecida por Hollywood e ganhou a sua estrela na calçada da fama. No mesmo ano ela recebeu seu último Oscar por seu trabalho em Golpe de Mestre (1973).

[Imagem: Everett]

Edith Head, não teve filhos e foi casada primeiramente com Charles Head, de 1925 até 1936, depois de se divorciar manteve o nome pelo qual ficou conhecida e só casou-se novamente em 1940 com Wiard Ihnen. Seu segundo casamento duraria até a morte dele em 1979. Até que quatro dias antes de seu aniversário e 24 de outubro de 1981 ela faleceu, vítima de uma doença na medula óssea.

[Imagem: Academy Film Archive]

Ainda que muito associada hoje em dia à personagem Edna Moda, Edith Head foi conhecida pela versatilidade de seus designs, entregando desde simplicidade e elegância até trajes excêntricos e chamativos, todos memoráveis na sua própria maneira. 

A queridinha das queridinhas de Hollywood é capaz de trabalhar até com os atores mais temperamentais. A “rainha dos figurinos” segue sendo um exemplo até os dias de hoje, não apenas por sua visão artística, mas por sua total determinação pelo sucesso e uma capacidade empática que permitia simultaneamente a expressividade nos seus designs, segurança aos seus atores e confiança dos seus diretores.

Frenezi na Semana de Moda de Outono/Inverno de Milão

Continuando com as coleções de Outono Inverno de 2022, passamos para a cidade de Milão, a qual tem impressionado com sua visão moderna e inovadora aplicada a silhuetas e formas dentro da alfaiataria clássica Italiana. Com a presença marcada de algumas das estreias mais aguardadas da temporada, Glenn Martens na Diesel por exemplo, qual pega o material mais conhecido da marca – o jeans – repensando-o para um olhar descolado e inovador, quase sem limites para a criatividade e sensualidade. 

Assim como o primeiro desfile da Bottega Veneta após a saída do então diretor criativo Daniel Lee, Matthieu Blazy foi o escolhido como sucessor da diretoria criativa a da marca, com características clássicas da história da marca intercaladas com uma influência da era Lee, Blazy encontra o perfeito equilíbrio entre os novos e velhos clientes, ao contrário de Versace e SportsMax que investem nesta temporada na irreverência do sensual ao extremo, com influências e reflexos do fetichismo e do sensual ao extremo, de pernas de vinil, plataformas cada vez maiores, corsets e decotes em roupas de couro, estamos vendo a reação sensual de Milão nesta temporada.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Milão aqui.

Foto dos detalhes do desfile da Fendi, retirada do Vogue Runway.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono Inverno em Milão:

DIA 1

O primeiro dia de Milão Fashion Week (23) foi, merecidamente, marcado pelo debut da Diesel por Glenn Martens. A marca italiana descreve uma inteira ‘all-gender runway collection’ pela primeira vez ao público numa das principais fashion weeks do mundo. 

Não coincidentemente, o responsável pelo mais novo burburinho é o – recente – diretor criativo da marca: Glenn Martens; o mesmo ainda é diretor criativo da marca ‘Paris based’ Y/Project, e foi, também, responsável pela mais nova colaboração de haute couture da grife francesa JPG. Essa foi a segunda coleção de passarela de Martens para Diesel e reafirma sua personalidade irônica, excêntrica, indiferente e ‘too cool’. Brincando com streetwear, silhuetas, futurismo, sensualidade e singularidade. 

A Diesel, que após um hiatus no ‘gosto popular’, já vem lentamente construindo sua volta e trabalhando numa evolução para a imagem da marca através de campanhas, colaborações e, claro, nas mídias sociais. No entanto, quem incorpora essa evolução para o mundo real é Glenn Martens. Seu affair com a manipulação de silhuetas está presente nos looks assimétricos, volumosos, exagerados e bem construídos. Glenn é, claramente, o próximo passo da evolução da Diesel. 

E agora, a nova cara da Diesel desfila seus looks com influência 2000’ (cintura-baixa e minis), astros e futurista (com direito a modelos pintados dos pés à cabeça), denim ‘all ways’ – exagerado, mini, ‘distressed’, super construído, quilted, vários tons, na parte de cima, de baixo e nos pés – as adoradas mini saias (mas dessa vez acompanhadas pelas botas denim de cano alto e bico fino) e o exagero no ‘outerwear’. 

Para manter o comprometimento da marca com a sustentabilidade, Martens aposta no ‘upcycle’. Provando sua fama pelo seus looks ‘reconstruídos’. E, também, paralelamente, muito bem construídos quando falamos do seu trabalho de denim e couro, e outros mais tecidos, na construção de silhuetas.  Este ano, Glenn Martens vai fazer todo mundo se apaixonar, vestir e falar novamente sobre a Diesel. Nos entregando um novo capítulo da marca. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

O sucessor de Karl Lagerfeld, Kim Jones, inicia seu segundo ano à frente da direção criativa da casa italiana Fendi. Após sua nomeação ao cargo a pressão, críticas e expectativas não têm sido fáceis. Entretanto, para esta coleção de outono 22’ Jones parece ter acertado o público da marca e vem arrancando críticas positivas ao ser comparado com Lagerfeld e levando o legado das mulheres Fendi em diante. 

Os mais treinados olhos já tiram de cara quais foram as inspirações de Jones para sua nova coleção. A estampa italiana Memphis, utilizada por Lagerfeld na coleção de 1986, ou a delicadeza e fragilidade da coleção de primavera 2000, também por Karl. 

Apesar das referências, Jones trás a energia e os adorados clássicos dos anos 2000, como a cintura baixa ou as saias ¾, de uma maneira refrescante – não cansativa e repetitiva. Afinal, o espaço que a influência ‘y2k’ vem tomando não é pequeno. 

A estampa Memphis nessa coleção foi acompanhada pelo uso do chiffon e a alfaiataria imaginativa e inigualável de Jones. Blusas transparentes, calças e macacões, adornados com babados ondulados ou “alface”. 

Lingeries, corpetes e transparencias delicadas, muitas vezes sobrepostas por casacos numa cartela de cores suave, que brincava somente às vezes com o vermelho-sangue. Os acessórios, o ‘cabelo molhado’, a sobreposição, alfaiataria e as estampas geométricas trouxeram um toque moderno à coleção. 

Kim Jones, diretor artístico de costura e vestuário feminino, trabalha com a magnata e fundadora da marca, Silvia Venturini Fendi, responsável pelo vestuário masculino e acessórios da marca sediada em Roma. 

Foi observando Delfina Delettrez, que frequentemente usa as roupas da mãe Silvia, que teve sua grande epifania para sua coleção de outono. Delfina estava no escritório da Fendi em Roma usando uma blusa Fendi ‘archive’ que pertencia a sua mãe de uma coleção de 1986, quando Kim Jones a viu. 

A coleção ao mesmo tempo em que homenageia o legado de Karl Lagerfeld na casa, de mais de 50 anos, também honra as fundadoras da marca e a ‘mulher Fendi’. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Essa coleção revela uma sensibilidade feminina ao mesmo tempo que mostra que a mulher Fendi encara qualquer coisa: a coleção de outono teve mais pele à mostra do que outerwear. Enquanto que traz esse ‘renascimento cultural’ do y2k para a vida real com peças de roupas para uma vida no dia a dia. 

E ainda falando em renascimento e renovação, tivemos novas re-edições das incógnitas e comentadas baguettes na passarela. Com o sucesso das baguettes impulsionado pela geração Z é, nada mais, que o novo reboot de Sex and the City, este é o momento mais que ideal para Jones trazer esse acessório aos holofotes, mais do que já está. Nessa coleção contamos com re-editions feitas de cashmere, couro e ‘intarsia mink’. 

Nos anos 90, Roberto Cavalli foi ‘renascido’ como o designer estrela dos Red Carpets. Muitas vezes comparado com Gianni Versace, o afamado estilista é conhecido por suas estampas exóticas e seu estilo flamboyant e glamuroso. Responsável por vestir as celebridades mais sexys de décadas atrás, Cavalli ainda mantém sua reputação e notoriedade, principalmente, através de suas peças archive que são cada vez mais prestigiadas por celebridades de agora, Zendaya e Bella Hadid para citar algumas, que trazem de volta à sedução e o poder da mulher. 

E foi pensando nisso, em unir as gerações de mulheres Cavalli, que Fausto Puglisi apresentou sua primeira coleção como diretor criativo da marca. ‘Eu quero respeitar a herança de Roberto’, disse Puglisi em entrevista. O grande momento y2k e o desejo de voltar aos anos 2000 trabalham a favor de Puglisi e da marca Cavalli. Entretanto, ao mesmo tempo, nunca se quis tanto evolução e melhoramentos para o futuro. 

Sua primeira passarela para Roberto Cavalli tinha como inspiração os anos de ouro e os archives da marca, em especial entre 1998 e 2006. O dourado, obviamente, compôs muitos dos looks, o animal print não deixou de marcar presença (assim como não deveria, por ser uma das marcas registradas de Cavalli), profundos recortes eram segurados por pequenas argolas, vestidos de festas eram feitos de couro, leather straps eram usadas como cintos ou colares, e o xadrez invadiu o outerwear e as mini saias. 

Assim, o Cavalli de Puglisi traz o sexy na medida, traz a mulher confortável da atualidade (e do pós-pandemia), traz o nada óbvio xadrez — que por ora nunca tinha feito parte de uma coleção de Cavalli — e ainda traz o poder feminino tão intrínseco na marca. 

DIA 2

Inspirada nos trabalhos do escultor  Alberto Giacometti e do fotógrafo Peter Lindbergh, a coleção ‘Esculpindo o Tempo’ da Max Mara, contou com 12 casacos femininos, em diferentes formas e volumes, conectados por sua neutra cartela de cores e pelos designs atemporais. 

Produzidas a partir de fibras naturais,de forma artesanal, as peças apresentadas exalam bom gosto e sofisticação, com acabamentos impecáveis.

Por sua casualidade, os looks podem ser adaptados a diversos estilos, uma ótima estratégia para uma coleção comercial. Mais uma vez, a marca mostrou que o básico também pode ser surpreendente. 

Simbolizando o ritmo acelerado da moda, em uma crítica ao consumo desenfreado, modelos da Sunnei, corriam pela “passarela” da marca – uma calçada, num cenário cinematográfico industrial. O público podia acompanhar a apresentação em câmera lenta, através de seus smartphones, para que os detalhes pudessem ser observados; metaforicamente, os aparelhos eletrônicos “congelam o tempo”.

Seguindo o ar esportivo do desfile, a coleção foi desenvolvida a partir de tecidos tecnológicos, que acompanham os movimentos corporais, estendem e esticam, permitindo a construção de camadas, essenciais para o clima invernal.

Simone Rizzo e Loris Messina, designers da marca, mantiveram a proposta elegante e minimalista, mas apostaram em cores saturadas e um assertivo mix de texturas, assegurando, assim, o senso de humor da Sunnei. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

“O sexy está mais na cabeça do que na pele exposta. Esse é um ponto cardeal da filosofia da Prada.” escreveu Gian Luigi Paracchini em seu livro “A vida Prada”, que conta a história da marca e de sua fundadora através de uma extensa pesquisa e de inúmeras entrevistas com Miuccia e sua família.

A frase de Gian Luigi resume bem a silhueta central da apresentação de hoje: regatas brancas vestidas sem sutiã e saias midi em tecidos leves e transparentes foram a base para a coleção, que herda referências claras de uma Prada mais minimalista que bombou nos anos 2000. O que essas peças têm em comum com a mensagem do autor? São casualmente sexys, no maior estilo Prada possível.

Para aqueles que estavam sentindo falta dos traços de Miuccia nesta nova fase da marca, que conta com Raf Simons como co-diretor criativo, a apresentação de hoje foi um deleite. Miuccia fez o que sabe fazer melhor: celebrar a mulher e sua história – e de quebra brincar com texturas e detalhes excêntricos ao longo do line up.

Foto do desfile da Bottega Veneta, retirada do Vogue Runway.

O penteado do desfile – um coque banana volumoso e impregnado de laquê – e a bolsa principal da coleção – de couro, espaçosa e carregada na mão – nos revelam que a estilista tenta dialogar nesta temporada com uma mulher profissional, mas não exclusivamente a que trabalha em escritórios. Miuccia utiliza esses códigos apenas para delinear a sua narrativa e mostrar ao espectador que a apresentação se trata de uma celebração do viver, do casual, do dia a dia; do rotineiro.

Mas é claro que, se tratando de Miuccia Prada, o rotineiro não precisa ser necessariamente tão minimalista assim: maxi bordados de flores, penas tingidas em marrom e azul marinho e pele fake azul bebê são alguns dos motivos e detalhes excêntricos que a estilista adiciona em peças-chave que formam as camadas de sobreposição da coleção.

Peças essas que, no geral, são os únicos traços de Raf na coleção – como as maxi jaquetas bomber, os trench coats em couro e a abotoadura embutida da alfaiataria. Todas, sem exceção, são heranças do último desfile masculino da dupla.

Ao longo da semana a marca postou vídeos de nove das 54 modelos que desfilaram hoje – dentre elas Anok Yai, Kaia Gerber e Kendall Jenner – em seu Instagram. Neles, as modelos apareciam ainda crianças em vídeos caseiros de infância e, após um corte, em takes atuais recém gravados. Com a legenda “Uma saudação à profissão de modelo. Uma história de mulheres.” a marca já indicava a narrativa que seria contada através das roupas: a vida acontece e quando percebemos já não somos mais crianças; temos agora uma vida cuja experiência e rotina são moldadas pela profissão.

Coincidência ou não, Hunter Schafer, a modelo que teve sua vida e rotina viradas de cabeça para baixo após estrear como atriz na série mais comentada do momento, encerrou o desfile.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Nesta temporada, o time misterioso por trás da MM6 Maison Margiela deixou de lado a conceitualidade das peças e optou por apresentar uma coleção focada apenas em roupas. Os 37 looks desfilados apresentam modelagens e cortes super contemporâneos e que certamente serão um sucesso de vendas.

A marca passa ainda por uma reformulação na sua grade de tamanhos, extinguindo a clássica numeração europeia e a divisão entre masculino e feminino. Blazers de couro, luvas em estampa de cobra e conjuntos de alfaiataria acinturada são algumas das peças que certamente farão sucesso entre o público.  

Pela passarela da Emporio Armani, que remetia a um tabuleiro de xadrez, encontramos diversos elementos do militarismo, em alusão às peças do jogo. As roupas femininas apresentavam uma marcante cartela de cores, contrastando com os visuais masculinos, em sua maioria, monocromáticos e sóbrios.

 A coleção contou com mais de 100 looks, apresentando desde trajes formais, até roupas esportivas (em um mood invernal, claro!), passando por muita alfaiataria e, pelo estilo casual chic, característico da marca. 

Com comprimentos mini, midi e máxi, Armani passeou por diversas décadas, resultando em uma coleção coesa, mas que ainda assim, consegue agradar a seus diversos públicos. Xeque Mate! 

Nicola Brognamo, diretor criativo à frente da Blumarine, fez a marca voltar aos holofotes da imprensa e do público através da incorporação da estética Y2K em seus designs. A tática foi boa: ele aproveitou a tendência do momento e criou roupas que supriam a demanda daqueles mergulhados na #Y2Kfashion no TikTok e no Pinterest – conquistando assim centenas de clientes ao redor do mundo, dentre elas Dua Lipa e Bella Hadid.

Mas, depois de quatro coleções imersas no tema, seu trabalho começou a ficar cansativo. Isso porque Nicola não chegou a injetar uma linguagem própria na marca ou adaptar a tendência dos anos 2000 para o Zeitgeist – suas roupas, por vezes, pareciam fantasias.

A coleção apresentada ontem (24/02) marca talvez uma nova era de sua direção criativa: o designer deixa de lado a interpretação caricata do Y2K e passa a inserir designs e elementos de um processo criativo próprio pensado para o agora. Macacões justos, conjuntinhos de top e saia em tricot e vestidos drapeados são alguns deles, produzidos em uma cartela de cores mais sóbria do que o normal para o estilista.

A ruptura com o tema não foi também tão abrupta assim: tops de borboleta, mini saias de babados e jeans de cintura baixíssima são algumas das peças que seguem a estética dos anos 2000, tão adorada e explorada pelo estilista.

No geral, a coleção peca pelo impacto estético e pela inovação, mas certamente mira em um sucesso comercial. O que importa na verdade são os rumos que a marca irá tomar após o desfile: será que veremos mais de Nicola em futuras coleções?

A coleção apresentada ontem por Nicola Brognamo, diretor criativo à frente da Blumarine, marca talvez uma nova era para a marca: o designer abre um pouco a mão da estética Y2K e insere elementos e designs atuais em uma cartela de cores mais sóbria.

Conjuntinhos de tricot com busto à la JPG, macacões decotados justos e mini vestidos drapeados foram os destaques da coleção, que também herdou referências da Gucci de Tom Ford. Acompanhe no carrossel a review completa.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Jeremy Scott é um daqueles designers que você ama ou odeia. Isso porque o estilista é um dos únicos que tira sarro da moda de maneira caricata e direta, fazendo muitas vezes com que seus designs sejam vistos como cafonas e bregas. 

Mas Jeremy não tem medo das críticas e construiu uma identidade para a Moschino pautada essencialmente na estética camp. O inverno de 2022 apresentado pelo designer segue portanto no mesmo mood: Jeremy escolhe um tema central e a partir deste constrói peças puramente inspiradas neste. 

O clássico “Space odyssey”, de Stanley Kubrick, é a narrativa que permeia e inspira toda a coleção – desde o cenário até o look vestido pelo designer no final da apresentação. Jeremy apresentou looks que incorporaram traços, desenhos e motivos de móveis antigos em suas modelagens e finalizações, construindo verdadeiros objetos-vestíveis (um clássico do estilista). Vestidos-sofá, ombreiras-moldura e tops-gaveta foram alguns deles.

A ideia por trás da GDCS de Giuliano Calza é clara: o designer faz roupas para aqueles que gostam de se divertir e brincar com a moda. Dentre estes está ninguém menos que Dua Lipa, que já desfilou diversos dos modelos de roupas e acessórios do estilista por aí. 

Esse talvez seja o motivo pelo qual Lorenzo Posocco, stylist da cantora, estivesse sentado na primeira fila da apresentação de inverno de 2022 da marca. Em uma cartela de cores tão colorida quanto a das outras apresentações, Giuliano apresentou uma coleção que brinca com texturas e beira a estética DIY: casacos são construídas em material de esfregadores de pó, vestidos midi aparecem feitos a partir de cabelo sintético colorido e casacos em látex contrastam com mini macacões de renda.

No geral, a coleção é mais um exemplo de como Giuliano consegue produzir peças criativas e instagramáveis. Por mais que o designer não seja muito forte em acabamento e edição final dos looks, sua entrega final dialoga perfeitamente com o zeitgeist – em uma era na qual cada vez mais os looks são pensados para fotos do que para serem efetivamente usados.

DIA 3

“As formas mais essenciais e rigorosas”, descreve Walter Chiapponi sobre sua coleção de outono/inverno de 2022 para a Tod ‘s. Nomeada de “Italian Beauty”, a coleção é repleta de alfaiataria, trench coat longos inspirados em uniformes – looks femininos para a volta ao trabalho – e sobretudo alongados apertados na cintura. Uma coleção elegante com looks invernais alongados e soltos. Botas em cano alto femininas e masculinas, mocassim e tênis completavam os looks, além de bolsas e cintos. A paleta girava em torno de tons terrosos como marrom, preto, bege, verde militar, laranja e vermelho. 

O diretor-criativo da casa reduziu a coleção para 44 looks alguns dias antes da apresentação na passarela em Milão. “Decidi desnudar e reduzir a coleção, tornando-a mais essencial”, disse ele à imprensa. “Não é hora para frivolidade, realmente.” O desfile iniciou com Gigi Hadid em um terno preto, corte fino na perna, uma verdadeira homenagem aos anos 90. A alfaiataria de Chiapponi expressa uma estética moderna, mas com um toque clássico e silhuetas amigáveis. Ternos masculinos usados por modelos femininas vem sendo mostrada em toda temporada, com Tod´s não foi diferente, o designer abordou essa versão em diversos looks.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Após dois desfiles sob sua direção criativa, o designer Alberto Caliri está deixando a Missoni, marca onde trabalhou por mais de 20 anos como chefe de design de Angela Missoni. O diretor-criativo desenvolveu uma coleção que relembra passos da marca, simplista e descomplicada. “Os confrontos harmoniosos entre um espírito burguês, elegante e milanês, e uma atitude rock moderna e jovem”, descreve ele sobre sua coleção. Looks modernos e que levam a pegada punk rock – característica que tem se mostrado presente em grande parte dos looks dessa temporada. 

Alberto desenvolveu looks como uma jaqueta motociclista de couro preto que foi usada sob um blazer masculino listrado, além de um couro branco envernizado por baixo de um casaco chevron de tricô jogado sob os ombros, além de macacões de couro vermelho e calças de motoqueiro, bem como em jeans largos e calças extra largas de cintura baixa usadas com tops ou malhas, que chegaram em conjuntos aconchegantes. 

As roupas leves eram brilhantes, opacas, metálicas, luminosas e brilhantes, que à noite, os looks eram iluminados por vestidos de malha tricotados com fio de lurex brilhante, como o usado pela supermodelo Eva Herzigova que encerrou o desfile.

Para Veronica Etro, diretora criativa da marca, nesta temporada ela desenvolveu a coleção nomeada de ‘Etro Remix’, uma verdadeira viagem aos anos 1960-1980, revivendo a herança da marca e as raízes familiares na Itália durante sua infância.  

Foram apresentados 46 looks que para essa coleção mostram o desejo pelo verão europeu. Looks coloridos e estampados em vestidos, calças, tops e terceira peças como uma camisa manga curta ou jaquetas. Looks como malhas boho arty-crafty, alguns em tons escuros com a pele a mostra que expressam uma estética punk, mas moderna e diurna. Os tecidos são um destaque a parte que vale a pena considerar a grande relevância da Etro nisso. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Para essa coleção de outono/inverno, Gucci entra em mais uma collab, dessa vez com a Adidas – as últimas collabs contaram com The North Face, Disney, e a mais recente Balenciaga – abrangendo desde chapéus – boinas, bonés, cachecóis – até ternos, vestidos de noite, corset, vestidos e acessórios. Intitulada de ‘Exquisite Gucci’, Alessandro Michele, ainda apresenta uma clássica estética vintage fazendo referências a várias épocas da marca, com casacos de pelo e reedições de bolsas clássicas.

A alfaiataria reina na coleção. Apesar do look ser um totalmente clássico, Michele o insere de uma forma contemporânea, usado com óculos, toucas com listras da Adidas ou brincos verdes. Reprisando um dos maiores sucessos de Tom Ford, um smoking de veludo vermelho do outono de 1996, o diretor criativo o insere com novos ajustes e outro tecido, que incluem ombros mais modernos, detalhes em couro que contornam a frente do smoking em preto com placas arredondadas de metal, além da camisa azul e uma gravata preta fina em couro. O look acompanha um sapato social, mas com toque esportivo. 

Ele disse que as mulheres com que trabalha muitas vezes expressam afeição por roupas masculinas e adoram usar ternos masculinos. “A linha é tão reta e elegante em um terno masculino”. O traje de abertura é tecnicamente um traje masculino usado e mostrado por uma modelo. “Você não precisa de muito para adaptá-los a corpos masculinos ou femininos”, disse Michele sobre o terno. 

Looks de renda e lingerie são usados com casacos volumosos e botas. Uma moda sexy e ousada é apresentada em looks femininos e masculinos, tanto nos looks em si como em suas cores e estampas, seja quadriculada, listrada e estampa de cobra que tem surgido nas passarelas.  

O ponto de partida da coleção, foi uma foto da Madonna de 1993, onde ela aparece em um vestido da Adidas. A parceria com a marca esportiva além de ganhar um ar vintage, apresenta um ar ousado como peças de tricô em pontos abertos. Muitos looks são apresentados com uma enorme logomania, característica clássica da Gucci. 

As cinturas nesta coleção subiram, não estão mais abaixo do umbigo como tem aparecido nas passarelas. Os ombros e as bolsas estão maiores, o contrário também do que tem sido visto, como a tendência de mini bolsas. 

Alessandro honra o legado da marca, mas sem perder o timing do novo, da mudança necessária. Resgata os arquivos e os insere no hoje. Uma coleção comercial que não irá demorar para ser vista pelas ruas. 

Não é de hoje que Donatella Versace gera expectativas sobre seus desfiles e consegue surpreender em boa parte deles. Para essa coleção de outono/inverno 2022, Donatella cria looks modernos e sexys, o que melhor sabe fazer em sua direção criativa da marca. Cinturas marcadas, corset e mini saia cintura baixa são apresentadas na coleção. O uso de cores que são atraídas ao sexy como rosa, preto e vermelho se encontravam nos looks. 

Supermodelos como Gigi e Bella Hadid, Emily Ratajkowski e Lila Moss desfilaram para a marca. As maquiagens eram com os olhos contornados de preto e sobrancelhas apagadas, além do cabelo liso e dividido ao meio – tendência que tem se mostrado presente nas semanas de moda.

A versão Y2K é enrustida na coleção, mas de uma forma madura e punk, e não jovial como ela se apresenta normalmente. O uso de choker, botas tratoradas e calças em vinil contemplaram boa parte da coleção. Camisetas com frases como “I ‘love” – representado em forma de coração – you, but I’ve chosen Versace” usada como baby look e mini saias ganharam o centro das atenções, e no final Bella Hadid aparece usando com Donatella. 

A paleta de cores é apresentada em tons neon, preto, verde, vermelho, rosa, entre outras. Nas estampas as cores se encontram e formam casacos quadriculados, blazers e vestidos. Casacos alongados e conjuntos de blazers ganham destaque nessa coleção como nesta temporada de outono/inverno 2022. 

Não é de hoje o resgate dos arquivos da marca por Donatella, como a inserção do salto bloco que em toda coleção é apresentado e continua atraindo olhares. O caminho da diretora criativa tem mudado e surpreendido, mas uma coisa é certa: ela não tem dúvidas do seu trabalho e o que fazer para alterar o estilo da marca, mas mesmo assim deixar seu DNA claro e cada vez mais presente. 

DIA 4

Em seu primeiro desfile após quase dois anos longe das passarelas, o designer nigeriano-britânico Tokyo James buscou direcionar suas criações a mensagens extremamente positivas. ‘’Pelo menos não se parece com o que passamos’’, disse o estilista após sua apresentação. 

Sendo assim, ele buscou apresentar peças que pudessem fugir do sentimento de tensão pela qual o mundo tem passado nos últimos 18 meses por conta da pandemia em decorrência do novo coronavírus (Covid-19). 

Durante seu desfile suas peças fortes e justas foram grandes protagonistas de seu grande show 一 marcado pela resiliência. As mulheres de Tokyo James foram representadas de maneira altamente sexy e sensual. De maneira mais geral, a apresentação da nova coleção de Outono de James apresenta referências ao universo punk 一 representados pelos cabelos espetados e óculos cobertos de tecido 一 e ao upcycling, marcados pelo jeans reciclado e uso de materiais mortos da Nigéria.  

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Entretanto, a alfaiataria de Tokyo James foi a grande estrela do desfile. Confeccionada a partir de ternos feitos em mohair felpudo, em seda chartreuse abotoada na parte lateral e com bordados de sapos 一 toten escolhido por James 一 feitos de maneira caprichada.

Como forma de ressaltar a parceria da marca com a Nike e sua paixão pelo universo futebolístico, foi possível observar pregas de futebol em praticamente todos os modelos da coleção, além do reaproveitamento de alguns materiais como os cadarços dos sapatos como acabamento em um de seus vestidos e babados da Nike como remendos. 

Não é novidade alguma que o DNA de Jil Sander está diretamente ligado à construção de ternos clássicos em alfaiataria e toda a sua sutileza e elegância, e nesta temporada não foi diferente. Enquanto a maioria das marcas 一 inclusive as que passaram pela Semana de Moda de Milão 一 buscou mirar nas referências e gostos da Geração Z, Lucie & Luke Meier (responsáveis pela direção criativa da Jil Sander) optaram direcionar as criações da marca ao olhar adulto e mais maduro, pensando na comunidade desta determinada faixa etária que ocasionalmente possam se sentir abandonadas e deixadas de lado no quesito ‘’representatividade’’ ou, ainda, na quase ausência de vestimentas voltadas para si nas últimas temporadas das semanas de moda. 

Este sentimento de lealdade foi reproduzido através da produção das peças clássicas em alfaiataria escultural, construídas de modo que praticamente imitassem a produção em alta-costura, bem como pela adoção de silhuetas mais cortadas, representando toda a elegância que somente a Jil Sander tem.  

Seguindo essa pegada, foi possível encontrar ternos de saia em lã, jaquetas com uma construção mais esculpida em volumes de ampulhetas e complementadas com a presença das famigeradas botas Chelsea 一 desta vez, com detalhes dourados, mais planas e resistentes. Além disso, o minimalismo dos anos 60 em junção ao propósito artesanal construíram – de maneira altamente sucessiva – a estética de Jil Sander para este Outono.  

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

A nova coleção da Bottega Veneta antes de seu lançamento poderia facilmente ser considerada como uma incógnita para a comunidade da moda, especialmente após a saída de seu então diretor-criativo, Daniel Lee, anunciada oficialmente em 10 de novembro de 2021. Desde o comunicado, muito se especulava quem assumiria e quais rumos a marca italiana iria tomar 一 uma vez que Lee foi considerado como o grande responsável pelo rebranding da marca, especialmente durante o início da pandemia, em 2020. 

A coleção de Outono/Inverno 2022 da Bottega Veneta legitima o debut de Matthieu Blazy na marca 一 designer belga que teve passagem pela Balenciaga, Raf Simons, Maison Margiela, Artisanal, Celine e Calvin Klein antes de se tornar o diretor do setor de prêt-à-porter da Bottega em 2020. Apesar das diversas especulações acerca de sua função como diretor-criativo da casa e de como ele daria continuidade ao trabalho excêntrico realizado por Lee, é possível afirmar que Blazy conseguiu entregar uma coleção íntegra e extremamente alinhada aos conceitos e identidade da Bottega Veneta. 

Pelas próprias palavras de Matthieu sobre suas criações, sua nova coleção para a marca simboliza as jornadas, e isso pode ser facilmente apreendido durante uma viagem pelos 69 looks apresentados por ele nesta temporada. Cada look contém uma história para contar e representa o conceito de diversas e distintas jornadas individuais. ‘’Há muitos personagens, todos eles têm lugares para ir, eles se sentem bastante livres’’, contou Blazy à Vogue. 

Em outras palavras, Matthieu Blazy pretende reconectar a marca com seu pedigree italiano através da inovação e criatividade 一 características bem marcantes da Bottega Veneta. O que pode ter sido considerada como uma coleção com componentes e detalhes ‘’demais’’, na verdade, representa de maneira excepcional a assinatura de Matthieu costurada à identidade da marca. 

Foto do desfile da Bottega Veneta, retirada do Vogue Runway.

Quanto aos detalhes, foi prazeroso poder assistir uma coleção tão sólida e extremamente precisa quanto à colocação dos componentes e o storytelling por trás de toda essa junção, como por exemplo a calça confeccionada de couro representada como jeans. 

Chama atenção ainda a importância do trabalho artesanal nesta coleção de Outono/Inverno da Bottega Veneta: a nova bolsa apresentada (Kalimero) foi confeccionada em uma peça única 一 sem costuras 一, assim como as botas de cano alto presentes na apresentação. Ademais, os ternos executados com precisão, malhas mais ecléticas e suéteres retalhados contribuíram para exaltar a produção à mão nas criações de Matthieu. 

Se por um lado a saída abrupta de Daniel Lee de seu cargo como diretor-criativo da Bottega Veneta deu margem a diversas lacunas quanto o futuro da marca na indústria da moda, a recém-chegada de Matthieu Blazy à maison foi crucial para fechá-las. Com uma proposta de criações mais confortáveis e destinadas a vestirem as denominadas ‘jornadas’, a coleção exposta por Blazy neste sábado (26) conseguiu conversar entre duas gerações contrastantes (passado-presente), além de posicionar a Bottega Veneta no status de moderna, atual e conectada 一 expressa pelas referências à tecnologia, propósito este também pretendido pelo novo diretor-criativo da marca. Sendo assim, a coleção que oficializa a estreia de Matthieu marca o início de uma nova era na casa italiana, sem deixar para trás a sutileza, leveza, requinte e alta qualidade característicos de Bottega Veneta. 

DIA 5

Massimo Giorgetti lança sua coleção de Outono/Inverno 2022 para a MSGM como um foguete que anseia desvendar os mistérios da imensa escuridão do espaço sideral. De acordo com as notas do designer, Giorgetti se viu observando o céu à procura de ‘um espaço mais amplo de esperança em algum lugar longe do familiar e assim fugir da realidade difícil’.

Toda atmosfera astronômica que envolve as constelações, galáxias, planetas, estrelas, buracos negro e cometas foi ponta pé de inspiração do designer italiano, que logo se viu imerso e totalmente preso na temática, segundo o prórpio Giorgetti. 

Brilho foi a palavra de ordem do início ao fim da passarela, fazendo alusão aos corpos celestes que iluminam a imensidão escura e misteriosa do cosmos. O glitter e a purpurina na estamparia de peças em tule, o vinil, bordados de cristais em forma de estrelas, paetês, o couro e o trabalho de bordado em telas transparentes; todos materiais que quando trabalhos em sequência, completam a energia luminosa que coleção aborda. Peças grandiosas de pele falsa como casacos, saias e botas “lunares” terminam por trazer essa silhueta volumosa já bem familiar dessa temática espacial.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Na estamparia, o designer trabalha de forma bem literal o seu tema. Motivos onde os desenhos figurativos de constelações estelares, cometas, meteoros e planetas juntam-se em uma só superfície criando as galáxias que habitam na imaginação de Giorgetti. Já nos bordados brilhantes presentes nos conjuntos de alfaiataria e no moletom e calça jeans (look 17), levam esses looks de cortes simples a se comunicarem com maior coerência com a extravagância do restante da coleção.

Diferentemente de suas coleções passadas, Giorgetti decide apostar em uma paleta bem mais discreta do que em seus tons rosados e alaranjados extremamente saturados da sua última coleção. Os tons metalizados, acinzentados, o branco e o preto dominaram a maior parte das peças da coleção. 

A literalidade do designer ao longo da apresentação pode ter facilitado o entendimento do tema por parte dos fãs de seu trabalho, mas talvez seguir por caminhos menos óbvios e mais orgânicos poderia ter levado sua coleção à galáxias bem mais excitantes.

A moda das pistas de corrida da Fórmula 1 retorna às passarelas na Semana de Moda de Milão através da coleção de Outono/Inverno 2022 da Ferrari, que continua a investir no mercado de moda de luxo desde junho de 2021.

Rocco Lanonne, designer italiano responsável pela direção criativa da Ferrari, partiu do ponto de partida do próprio DNA da quase centenária marca de carros de luxo. Inspirado no cotidiano dos pilotos da Ferrari, Lanonne faz estudo das inovações tecnológicas de materiais e traduz isso para um consumidor que tem interesse em consumir o produto fashion da grife. 

Ele buscou mergulhar mais fundo na cultura automotiva e não focar somente no lado superficial dessa modalidade esportiva, como nos elementos físicos, decorativos dos carros e nas roupas de pilotagem. 

Ao invés disso, procurou apostar nos fatores tecnológicos, exemplos disso foram os vários looks em Nylon, que por via de regra fazem parte do cotidiano dos uniformes dos profissionais das equipes; além de peças em fibras de carbono e fibras de plástico reciclado.

A paleta de cores escolhida por Lanonne descreve com clareza o espírito da marca, os tons de vermelho amarelo e verde estão presentes do início ao fim da coleção em diversas tonalidades diferentes; além dos azuis, preto e das estampas gráficas que remetem à circuitos de softwares, a logo de cavalo da marca foi repetida diversas vezes em alguns looks gerando estampas abstratas.

Peças em couro, lamê e borracha, casacos de cashmere e golas felpudas tiveram seu momento de destaque durante o desfile. Ianonne também aproveitou para trabalhar em luvas de pilotagem de couro e balaclavas de tricô, muito tem se discutido sobre o uso da balaclava e o significado cultural que ela carrega. No caso de uma marca de carros de corrida como a Ferrari, a balaclava é um elemento de segurança obrigatório nos uniformes dos pilotos e sua inserção na coleção faz total sentido para um consumidor que está habituado neste ambiente automotivo.

Lanonne ainda percorre pistas desconhecidas ao assumir a direção criativa de uma marca de carros em um território tão desconhecido para a Ferrari, como a moda; seus primeiros trabalhos na marca já mostraram agradar o consumidor já habituado com a marca e atrair nosso fãs para a Ferrari e para o mundo automotivo que têm crescido muito em popularidade nos últimos meses. 

Só resta saber se a marca vai saber lidar com o público do mundo fashion da mesma forma que sabe lidar com os apaixonados por carros ou se é só mais uma febre que recaiu sob o gosto popular com Fórmula 1 que voltou a estar em voga.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Inspirado pela era do jazz e pelo movimento artístico Art Déco, Giorgio Armani lança sua coleção de Outono/Inverno 2022 seguindo a tendência cintilante que tem tomado conta das passarelas nessas últimas semanas de moda.

Movido pela extravagância dos anos de 1920, Armani levou a sério o trabalho eufórico de materiais brilhantes ao longo da coleção.

A extensa coleção de 90 looks desfilados na passarela contou com uma seleção de peças com silhuetas frequentes na marca de Giorgio Armani mas com um apreço pelo glamour elevado nessa temporada de Outono/Inverno.

Desde vestidos, calças, passando por blazers, casacos, cardigans e acessórios, o designer italiano trabalha a estética festiva em um paleta de cores concentrada nos acinzentados, pretos e azulados. 

Mesmo com um público masculino de perfil mais conservador e clássico, Armani conseguiu introduzir a aplicação de materiais não tão discretos sem sair exageradamente da zona de conforto da sua clientela, que já está familiarizada com a alfaiataria impecável Italiana.

As inúmeras peças de veludo molhado, jaquetas de lã, casacos estampados e brilhantes, jaquetas com abotoamento marinheiro e com bolsos utilitários, cardigãs e calças amarrotadas descrevem o guarda-roupa desse novo consumidor de Armani que passa a experimentar com certo cuidado o glamour trabalhado na coleção. Para a moda feminina, a Armani pode extravasar com maior liberdade os brilhos de um tempo passado regado a festas e holofotes. Os looks femininos foram recheados de brilho desde a linha dos ombros até aos calçados e acessórios.

Veludo molhado, brocados texturizados, estampas geométricas cintilantes, e o trabalho minucioso de bordado de miçangas em vestidos que revisitam a silhueta de linha “I” das melindrosas da era do Jazz captam toda o comportamento excêntrico das mulheres daquela época mas nos tempos de hoje.

Armani se junta ao grupo de designers que passam a olhar a moda como uma válvula de escape que viaja para tempos mais fáceis, e que ficam à espera de clientes que queiram entrar nessa fuga temporal.