Fenômeno Anitta: de Honório Gurgel para o mundo

Não é de hoje que Anitta chama a atenção para promover a carreira. Através da criatividade, ela desenvolve grandes estratégias de comunicação e marketing, e conquista a cada ano, pessoas com idades e gostos musicais diferentes.

No mês de setembro, a cantora foi assunto por participar de dois grandes eventos: a premiação do Video Music Awards, sendo a primeira brasileira a se apresentar no palco do VMA, e o baile anual do Metropolitan Museum of Art, mais conhecido por Met Gala.

Mas como ela começou?

Em 2011, a artista foi convidada por Renato Azevedo, produtor independente da Furacão 2000, para realizar alguns testes após ter visto alguns de seus vídeos. Depois de ser aprovada, assinou com a produtora, passando a ser conhecida no Rio de Janeiro. E a partir dos bailes funks, sua carreira foi crescendo.

No ano seguinte (2012), começou a ser empresariada por Kamilla Fialho, que investiu na gravação de Meiga e Abusada, a qual atualmente possui mais de 111 mil visualizações no YouTube. Por mais que não seja a composição de maior destaque, essa canção entrou no top 10 das músicas mais pedidas nas rádios brasileiras e abriu portas para que a cantora assinasse contrato com a Warner Music.

Um tempo depois, ganhou destaque por todo o Brasil através do lançamento de Show das Poderosas, principalmente devido ao novo estilo, indicando que seu foco seria mais voltado para o pop. Na época, se tornou o vídeo mais visto do YouTube Brasil, com mais de 10 milhões de streams.

Se tornou a primeira brasileira a ganhar o Europe Music Awards em 2015 da MTV, na categoria de Worldwide Act Latin America. Depois de algumas músicas de sucesso, como Menina Má e Fica Só Olhando, divulgou o terceiro disco Bang, onde a canção de mesmo nome, foi tão reconhecida quanto a de 2013. A partir disso, Anitta ganhou cada vez mais destaque na mídia, principalmente com estratégias para se manter presente no cotidiano do consumidor com redes sociais, parcerias musicais e novos lançamentos.

Anitta e a visão de mercado

Em 2017, a cantora passou a investir em colaborações, com cantores como Wesley Safadão e Nego do Borel. Também lançou o primeiro single em inglês com a rapper Iggy Azalea, Switch. Meados do mesmo ano, se reuniu ao grupo estadunidense Major Lazer e a cantora Pabllo Vittar para o lançamento da música Sua Cara, e assim conquistou mais um sucesso.

Depois disso, começou a focar em uma carreira internacional com o projeto CheckMate, xeque-mate em português. O trabalho possui duas músicas em inglês, Is That For Me, parceria com o DJ Alesso e outra com o produtor Poo Bear, Will I See You. Já Downtown, feat com o cantor J Balvin, é em espanhol, e não poderia faltar também o clássico funk, Vai Malandra. A série documental Vai Anitta, na plataforma de streaming Netflix, exibe um pouco desse trabalho, além de detalhar todo o início da carreira da artista.

Para promover o projeto, Anitta espalhou peças de xadrez pelas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Todas os itens traziam o nome da cantora e quem buscasse saber sobre, descobria sobre o CheckMate. Esse método é conhecido por live marketing – marketing ao vivo – e proporciona uma interação com o público, o que ocasiona diálogo entre marcas e pessoas, promove engajamento. É a compreensão completa e diferenciada de serviços, produtos e branding em uma só experiência. Além disso, outra estratégia usada foi o surgimento da artista em algumas lojas da C&A.

Anitta fortaleceu seu networking – rede de contatos – através de portais, como o Hugo Gloss, e influenciadores. Também, esteve presente em colaborações com outros cantores de diferentes gêneros, e por muito tempo, cobrou mais baratos nos shows para poder se apresentar em outros lugares do país, como exemplifica no documentário.

Em uma estratégia para alcançar o público infantil, a artista lançou o desenho Clube da Anittinha, e chegou até a apresentar uma versão colecionável da personagem. Também produziu o Show das Poderosinhas com cenários, figurinos, coreografias e repertórios desenvolvidos para os fãs mirins.

Com o tempo, passou a ser um ícone da cultura pop LGBTQIA+. Em 2018, se apresentou na Parada LGBT, onde até se vestiu estampada com as cores da bandeira do movimento.

[Imagem: Divulgação/AG News]

No mesmo ano, aconteciam as eleições para Presidente, e com isso, acabou sendo criticada após se recusar a se manifestar sobre Jair Bolsonaro. Praticamente dois anos depois, se uniu a Gabriela Prioli em uma live no Instagram para falar sobre política, mas demonstrou não entender muito sobre o assunto.

No último Rock In Rio (2019), Anitta levou o funk pela primeira vez ao Palco Mundo, rebolando em um cenário inspirado no Furacão 2000. “Se eu fosse contar tudo que passei até chegar aqui, talvez vocês não acreditassem. Por isso, hoje, quero agradecer a mim, porque eu não desisti” afirma a cantora em um dos momentos do show. Depois, recriou o espetáculo gratuitamente em Honório Gurgel, cidade onde cresceu, e mostrou os bastidores na série Anitta Made in Honório, na Netflix.

Em meio a tanto destaque, ficou em alta no mercado publicitário e fechou parceria com diversas marcas. Além da Anitta usar da influência para conectar seu público com a empresa parceira, ela não se prende apenas a grandes negócios, mas também, a influenciadores e celebridades. O exemplo mais recente é com a ex-BBB Juliette, que chegou a se hospedar na casa da cantora para trabalhar no primeiro álbum.

As duas grandes colaborações da artista são com as empresas Samsung e a Skol Beats. Foi anunciada head de criatividade da bebida alcóolica mista em meados de 2019 e desde então, ajuda com os lançamentos, como 150 BPM e Beats Zodiac. Também já esteve estampada em produtos como Rexona e Coca-Cola. Recentemente, fez presença em uma campanha da Magalu, onde lançou uma coreografia no TikTok e agora, é parte do time administrativo do banco digital Nubank.

É possível enxergar um movimento da cantora nos últimos tempos focado na indústria internacional. Além das colaborações musicais com artistas como Cardi B, Madonna e Saweetie, ela desenvolveu uma parceria com o Burger King para a criação do combo Larissa Machado, nome próprio da cantora. O intuito dessa estratégia é mostrar que os produtos da franquia são tão reais, que os famosos usam nomes de batismo, e não os artísticos.

Em decorrência dessa colaboração, Anitta foi convidada a se apresentar no Video Music Awards, sendo a primeira brasileira a conseguir esse marco em uma das maiores premiações norte-americana. No evento, performou Girl From Rio, um dos últimos sucessos nas paradas, porém o canal da MTV Brasil não exibiu a apresentação por ter ocorrido durante os comerciais.

A música com o sample de Garota de Ipanema, clássica bossa-nova, foi parar no Top 40 das rádios americanas. Durante entrevista ao Profissão Repórter, ela fala sobre a dificuldade de manter uma carreira internacional: “É uma coisa que é muito difícil, que você não vê assim. Só é possível até alguém conseguir”. Além disso, Anitta passou a investir em novos mercados, recentemente emplacou Mon Soleil, feat com o cantor francês Dadju, que permaneceu por quase três meses no Top 50 do Spotify França.

A artista também foi convidada a comparecer pela primeira vez no Met Gala, uma festa beneficente organizada pelo museu de arte Metropolitan de Nova York. A presença foi convite de Alexandre Birman, diretor executivo do grupo Arezzo & Co, que representa o Brasil no baile há três anos. O look de Anitta foi escolhido por Anna Wintour, editora-chefe da Vogue americana e diretora de conteúdo global da Condé Nast.

Se consolidar mundialmente e ser reconhecida pela revista Forbes como um dos maiores nomes da indústria fonográfica, é de fato uma grande conquista, principalmente por muitos artistas brasileiros que não conseguirem chegar até onde ‘Anira’ está. Ela é um ótimo exemplo de profissional, que possui muito foco para realizar os seus trabalhos e merece ser reconhecida.

A Influência da Bossa Nova no mundo

Desde versões em inglês de canções de sucesso como Garota de Ipanema de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes por Norman Gimbel, até influências diretas nos artistas mais famosos do momento como Billie Eilish em Billie Bossa Nova, a Bossa Nova é um dos estilos musicais brasileiros mais populares internacionalmente.

No começo, seu nome era um termo em relação a um modo diferente de tocar samba, mas com o passar do tempo, com grandes compositores e a mistura do jazz americano com o samba brasileiro, a Bossa Nova se desenvolveu e se tornou um dos maiores movimentos da música popular brasileira, além de referência mundial.

Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes [Foto: Reprodução]

Contexto Histórico

Esse gênero musical teve sua origem na zona sul do Rio de Janeiro, em reuniões de grupos de músicos da classe média carioca que se encontravam para experimentar e fazer música no final da década de 50.

Os artistas de Bossa Nova tinham a intenção de romper padrões e inovar a música brasileira, queriam um ritmo novo e mais moderno. Criaram um modo de cantar com a voz mais suave e baixa, letras mais intimistas e detalhadas sobre o dia a dia, mas com uma linguagem coloquial.

Com o lançamento dos discos Canção Do Amor Demais de Elizeth Cardoso e Chega de Saudade de João Gilberto, ambos com participações de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, 1958 é considerado o marco inicial desse novo ritmo.

Vinícius de Moraes, Elizeth Cardoso e Tom Jobim no disco “Canção De Amor Demais”
[Foto: Reprodução]

Desde o início o gênero fez sucesso, apesar das várias críticas devido à forte relação com estilos norte-americanos, foi um fenômeno comercial e levou a música brasileira a novos patamares, ao ser admirada por outros países.

Bossa Nova mundo afora

Em 1962, apenas alguns anos após o começo oficial da Bossa Nova no Brasil, foi sua estreia internacional em um festival no Carnegie Hall em Nova York. A partir daí, artistas brasileiros passaram a gravar parcerias com músicos estadunidenses, como por exemplo Stan Getz, que ganhou um Grammy em 1963 com a música Desafinado, escrita por Tom Jobim e Newton Mendonça, e também versões em inglês de músicas já existentes.

Capa do LP Bossa Nova at Carnegie Hall, Audio Fidelity, 1962. [Foto: Reprodução]

Norman Gimbel, o letrista norte-americano, traduziu para o inglês as letras das músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Garota de Ipanema, Insensatez e Meditação de Tom Jobim e Newton Mendonça. Desde então, muitas faixas foram regravadas, mas Garota de Impanema é uma das mais gravadas da história e sua lista conta com cantores renomados como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Amy Winehouse, Andrea Bocelli, Cher, Madonna e muitos outros. 

A música é um marco na indústria musical brasileira. Ganhou grammys, apareceu em diversos filmes, foi colocada no Hall da Fama do Grammy Latino, incluída no Registro Nacional de Gravações pela Biblioteca do Congresso dos EUA, ficou 96 semanas no Top 100 da Billboard e quase todas suas variações fizeram sucesso. Até hoje, serve de referência para artistas contemporâneos estrangeiros como Rosalía, Shakira e mais recentemente Alessia Cara.

Onde em seu terceiro álbum de estúdio In The Meantime leva claramente a influência do estilo, além da menção à canção de Jobim na letra de Find My Boy: “Skating down the block, down in Ipanema” (em portugues “Andando de skate no quarteirão em Ipanema”). E ainda revelou em entrevista ao G1 que a Bossa Nova é um dos seus gêneros musicais favoritos e só escutou isso durante o verão que compôs seu álbum.

No Brasil, um exemplo da continuação do legado de Garota de Ipanema é com Anitta, a artista brasileira com maior sucesso internacional atualmente. Seu single Girl From Rio é um sample, faz alusão a estética da época em seu clipe e traz à tona novamente esse ritmo para o público nacional e de fora.

A música Arrastão cantada por Elis Regina e composta por Vinícius de Moraes e Edu Lobo marca o fim do movimento da Bossa Nova e o início da Música Popular Brasileira. Após o golpe da ditadura militar, as músicas passaram a ser formas protestos e a junção da Bossa Nova com Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, foi parte da evolução e desenvolvimento da MPB. 

Apesar do movimento não ter durado muito oficialmente, artistas ainda criaram e fizeram Bossa e continuam até hoje. Sua contribuição para a cultura brasileira e mundial é atemporal. 

Taylor Swift para The Witch Collection do álbum Evermore (2020)

A música nas entrelinhas

“A arte existe porque a vida não basta”, disse o escritor brasileiro Ferreira Gullar. Sua reflexão leva ao sentido de que a vida sem arte é insustentável; um caminho à dormência. Talvez seja por isso que os artistas buscam fazer combinações delas entre si, a fim potencializar sua capacidade de transformar a realidade em um ambiente não apenas suportável, mas igualmente prazeroso.

As artes solitárias sustentam-se muito bem, mas unidas são mais poderosas. A música apenas como música, por si só, tem sua imensa influência, porém unida a outra expressão artística pode mudar absolutamente tudo, seja atada ao cinema, à fotografia, à dança ou à literatura. Juntas, todas elas são capazes de guiar uma pessoa ao imensurável e modificar completamente perspectivas e sentimentos.

Música e literatura, por exemplo, aparecem em diversas narrativas e composições entre elas. São parte de ambos os universos, ao transitar por suas entrelinhas como forma de intensificarem seus sentidos. Não se pode negar que possuem um objetivo em comum: alcançar o emocional do público. Emoções sensibilizadas e manipuladas, expostas ao toque do artista para te fazer sentir o que é necessário. Por terem tanto em comum, é importante reconhecer que uma influencia a outra de diversas maneiras… e ainda bem!

Influência mútua

Apesar da música e da literatura não serem artes pela metade, quando diretamente conectadas, complementam-se. A música, já apresenta muito da literatura em suas composições, além do fato de que diversos cantores são reconhecidos no meio literário.

Em 2016, o músico Bob Dylan recebeu o Nobel da Literatura. Popular no mundo da música, o recebimento do maior prêmio do meio literário exaltou esse elo e o fortificou. Já em 2019, Chico Buarque, patrimônio da música brasileira, foi homenageado com a maior honraria da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões. Para compreender a magnitude dessa atribuição, autores como José Saramago, Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, primeira mulher brasileira indicada ao Nobel da Literatura, são alguns dos nomes consagrados pelo prêmio.

Tais contemplações da literatura, ao premiarem personalidades da música, apenas reforçam o que é impossível negar: tudo é melhor quando as artes se mesclam. Porém, essa dupla já caminha de mãos dadas há um bom tempo. Desde a Grécia Antiga, a poesia lírica era aclamada. Caracterizada por apresentações de pessoas que recitavam poemas em forma de canto e acompanhadas por instrumentos em segundo plano, essa maneira de expressão persiste até os dias atuais. 

Seu casamento tomou novas formas de se difundir, seja através de livros ficcionais com temáticas musicais, seja com as influências da literatura ou nas canções de grandes artistas pelo mundo.

Música nos livros

Ao reconhecer como há intervenção significativa de ambos os lados, a literatura em muito tem explorado o cenário musical para desenvolver narrativas interessantes. A seguir, conheça alguns livros cuja trama se desenvolve em meio à música:

Daisy Jones & The Six (2019)

Da mesma autora do extraordinário Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (2018), Taylor Jenkins Reid, a obra Daisy Jones & The Six (2019) se tornou best-seller e está prestes a ganhar uma série pela Amazon Prime, já em produção.

A narrativa é desenrolada ao redor de uma famosa banda dos anos 70, aquela que dá nome ao livro. Todos queriam ser como eles: astros do rock. Queriam ter o sucesso, a personalidade e a sorte que eles tinham.. Isso até sua separação misteriosa em 1979. Por fim, quebram o silêncio sobre o fim súbito somente muitos anos depois, em uma série de entrevistas que constituem o decorrer da história.

Você irá mergulhar tão profundamente nas vidas de Daisy, Billy, Graham, Karen, Warren, Eddie e Pete, que irá acreditar que eles são reais.

Na Hora da Virada (2019)

O segundo livro de Angie Thomas, a mesma autora de O Ódio Que Você Semeia (2017), conta a história da jovem Brianna, apelidada de Bri. Seu pai era um astro do rap, cujo falecimento acarretou em um peso enorme à menina, que sonha em ser uma rapper grandiosa.

Contudo, a arte precisa ser deixada de lado por um tempo quando enfrenta situações financeiras comprometedoras e, para extravasar, deposita toda a frustração em uma música que viraliza e se torna um mártir à garota.

Não só com um forte elo com a música, que faz parte da vida de Bri e de suas aspirações para o futuro, Angie Thomas aborda, em Na Hora da Virada, questões indispensáveis sobre raça que precisam ser debatidas.

Gota D’Água (1975)

Essa obra é puramente composta por intertextualidades. A princípio, a peça escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes como um musical foi adaptada da criação de Eurípides, Medeia. Repleta de canções marcantes na carreira de Chico, foi transformada em um livro de mesmo título publicado ainda em 1975, no ano de estreia da peça.

Os autores contam com a musicalidade para a fluidez de sua narrativa para apresentar, a princípio, a angústia de Joana, moradora da Vila do Meio-Dia e mãe de duas crianças. A mulher é abandonada por Jasão, homem de origem humilde que faz fama ao emplacar seu samba Gota D’água em todas as rádios. O sambista se envolve em um noivado com Alma, filha de Creonte, o homem rico a quem pertence a vila repleta de pessoas humildes que lutam para pagar suas prestações injustas.

Gota D’água veio ao mundo durante a época do Regime Militar, momento histórico marcado por censura. O livro desenvolve críticas à economia do país, principalmente relacionado ao aumento considerável da desigualdade social que o Brasil enfrentava arduamente no período. Paulo Pontes e Chico Buarque entregam tudo isso ao unir o teatro, a literatura e a música em forma de protesto.

O Fantasma da Ópera (1909)

O Fantasma da Ópera (1909) é um clássico da literatura mundial, escrito pelo jornalista francês Gaston Leroux. É também conhecido por sua adaptação para Broadway por Andrew Lloyd Webber e Richard Stilgoe, em 1988, que foi premiada diversas vezes pelo Tony Awards, maior honraria do teatro.

Posteriormente, o romance voltou a ser adaptado em 2004, mas desta vez para as telas de cinema. O filme homônimo não passou despercebido e foi indicado a três categorias do Oscar de 2005.

O enredo do livro se destrincha diante de Christine Daaé, uma jovem que ocupa o lugar da prima-dona, Carlotta, após rumores de um fantasma que assombra a Ópera de Paris.

Em sua noite de estreia, um antigo amigo de Christine, Raoul, ouve-a cantar em uma apresentação e se recorda de todas as emoções vividas. Contudo, o envolvimento de Daaé e Raoul sofre um abalo quando o fantasma se mostra amargo e ciumento sobre a relação do casal.

Se Eu Ficar (2009)

Aqui os clichês também têm vez! Por isso, um queridinho do mundo do romance não pode ficar de fora. O livro Se Eu Ficar (2009), da autora best-seller Gayle Forman, recebeu uma adaptação cinematográfica cinco anos após sua publicação, em 2013.

A trama conta a história de Mia Hall, uma adolescente que sonha em entrar para Juilliard School para estudar violoncelo, sua paixão desde criança. Em meio à sua luta por seu sonho, a jovem conhece Adam, vocalista de uma banda com gênero musical distinto bastante divergente do de Hall, com quem inicia um namoro.

O ponto principal da narrativa é o estado de Mia que, após sofrer uma acidente de carro juntamente aos pais e ao irmão, permanece em coma. Durante esse período, mergulha em memórias sobre sua vida e as pessoas que ama, o que leva o leitor a conhecer um pouco da trajetória da violoncelista, seu amor pela música e sua batalha para permanecer viva.

Livros nas músicas

Assim como a música tem uma grande influência sobre a literatura, o oposto acontece com ainda mais frequência. Muitos artistas musicais buscam inspiração nas páginas de um bom livro para colocar suas obras no mundo.

A seguir, algumas canções associadas a livros ou escritores:

hope is a dangerous thing for a woman like me to have, Lana Del Rey

Em seu álbum Norman F****** Rockwell (2019), Lana Del Rey trouxe a faixa hope is a dangerous thing for a woman like me to have que, apesar de não fazer citação direta a uma obra, exalta a ilustre poetisa, cronista e romancista estadunidense, Sylvia Plath, autora de A Redoma de Vidro (1963).

Em uma publicação de seu instagram, Lana contou que o nome da música seria o mesmo da poetisa, porém, após o lançamento do álbum, a faixa contava com um título diferente.

Além disso, a musicalidade melancólica em muito se assemelha com tom da escrita de Sylvia, cujos escritos são reconhecidos pela linguagem estarrecedora que traduzia sua depressão. Em 1963, aos 30 anos, Sylvia Plath cometeu suicídio, e suas obras se tornaram um marco na literatura moderna que ecoam debates acerca da saúde mental e, inclusive, de papéis de gênero, até os dias atuais.

This Is Why We Can’t Have Nice Things e happines, Taylor Swift

É difícil elencar somente duas músicas de Taylor Swift quando o assunto é literatura, já que suas composições estão sempre repletas de referências literárias. New Romantics, do álbum 1989 (2014), faz referência ao livro A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, por exemplo. O livro Rebecca (1938), de Daphne du Maurier, inspirou a artista a compor duas canções: no body, no crime, em parceria com a irmãs Haim, e tolerate it, ambas do mesmo álbum, evermore (2020).

Em This Is Why We Can’t Have Nice Things, faixa do disco Reputation (2017), Taylor faz referência a Jay Gatsby, protagonista do livro O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Swift usa alusões ao relacionar o momento em sida vida, no qual vivia  em festas como as dadas por Gatsby, ao momento em que precisou trancar os portões, exatamente da mesma maneira que o protagonista faz durante o clímax do livro.

Por outro lado, na canção happiness, de seu já mencionado álbum evermore, há adaptações de trechos do mesmo livro. Taylor compõe ao usar algumas das citações de Daisy Buchanan, o par romântico de Jay Gatsby.

1984 e Big Brother, David Bowie

Com inspiração no romance distópico de George Orwell, 1984 (1949), David Bowie escreveu as canções 1984 e Big Brother para seu álbum Diamond Dogs (1974).

1984 faz referência direta ao título do livro de Orwell, e fala sobre uma sociedade ditatorial que vive sob vigilância contínua e transforma os seres humanos em robôs que reagem automaticamente a ordens, como no livro. Já Big Brother leva o nome de um dos personagens do romance. O Grande Irmão é como chamam o líder por detrás do Partido Interno, aquele que controla a sociedade criada por George.

Geni e o Zepelim, Chico Buarque

Novamente, Chico Buarque na lista da combinação entre música e literatura, coisa que faz muito bem. Dessa vez, com Geni e o Zepelim, canção escrita para a peça Ópera do Malandro (1978).

A faixa possui ligação com o conto Bola de sebo (1880), do escritor francês de Guy de Maupassant. Sua narrativa, apresentada por Chico, representa uma crítica à hipocrisia da sociedade e a maneira com a qual as pessoas tratam umas às outras com base nos seus interesses próprios. Além disso, se popularizou recentemente após a interpretação da atriz e cantora Letícia Sabatella em 2011.

Another Brick On The Wall, Pink Floyd

A memorável canção Another Brick On The Wall, da banda Pink Floyd, é uma crítica ao sistema educacional que permeia até a atualidade. Do disco The Wall (1979), ela expõe a maneira com a qual os alunos são tratados como itens materiais em uma linha de produção, a fim de censurá-los e padronizá-los.

A inspiração da composição veio do poema Mending Wall (1914), do poeta estadunidense Robert Frost. Ambos os escritos fundamentam suas mensagens em metáforas ao redor da construção de um muro e, ainda que com distintos objetivos, os recados são altamente intensos.

Além disso, em seu álbum Animals (1977), anterior ao The Wall, também se basearam na literatura com o livro A Revolução dos Bichos (1945), do já comentado autor, George Orwell. Ambas as obras contém críticas políticas claras, especialmente ao sistema socioeconômico capitalista. Para isso, concentram-se, mais uma vez, no uso de metáforas e comparações.

***Flawless, Beyoncé ft. Chimamanda Ngozi Adichie

Você se recorda da frase “Feminist: the person who believes in the social, olitical, and economic equality of the sexes“ (Em tradução: “feminista: a pessoa que acredita na vida social, igualdade política e econômica entre os sexos”)? Ela viralizou quando, na edição platina do marcante álbum Beyoncé (2013), a cantora uniu a música à literatura ao concretizar uma parceria extraordinária com a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Americanah (2013) e Hibisco Roxo (2003).

Essa versão de ***Flawless aborda a exaltação da feminilidade e da autoestima da mulher frente à sociedade patriarcal. Ngozi Adichie apresenta uma interpolação do discurso de Nós Deveríamos ser Todos Feministas, apresentado no TEDx Talks em 2012, e posteriormente deu origem ao livro Sejamos Todos Feministas (2014). As artistas exploram o conceito de feminismo e usam sua voz para, através da música e da literatura, difundirem a luta das mulheres em busca de igualdade e respeito.

A arte é o que basta

Sylvia Plath em Paris, 1956 [Imagem: Gordon Lameyer]

Há enorme conforto em se sentar em uma tarde e encontrar seu lugar no mundo dentro das páginas amareladas de um livro. Da mesma forma, a música é como uma consolação para dias difíceis. Colocar os fones de ouvido e emergir como se o mundo externo a si não tivesse mais sentido ou necessidade de existir. Juntas, são capazes de criar um ambiente que o faça encarar o fato de que a arte é o que basta. Ler livros sobre música ou ouvir músicas sobre livros, elas estão entrelaçadas como uma maneira de fazer a vida bastar. Isso é o suficiente.

#FreeBritney: entenda o movimento que auxiliou na liberdade de Britney Spears

“It’s Britney Bitch”… Quem não ama a rainha do pop mais polêmica de todos os tempos? Na última quarta-feira (29), Britney Spears conseguiu liberdade, grande parte em decorrência da força que o Movimento Free Britney conquistou nos últimos tempos.

Por 13 anos a cantora viveu sob tutela do pai Jamie Spears, ou seja, todas as suas finanças e outros aspectos de sua vida privada e pública eram administrados e controlados por ele, já que foi considerada incapaz de cuidar de si própria. Mas por que isso aconteceu?

Desde o lançamento de Baby One More Time, Britney foi um grande foco das mídias, o que fez com que fosse seguida por diversos fotógrafos. Entre 2007 e 2008, a cantora foi considerada em colapso devido a alguns momentos conturbados, como o fim do seu casamento com Kevin Federline, ter raspado o cabelo em um salão de beleza de Los Angeles, agredido um paparazzi que insistiu em segui-la depois dela pedir privacidade, a perda da custódia dos dois filhos, Sean Preston e Jayden James, e a internação em uma clínica psiquiátrica.

Em decorrência disso, o pai de Spears pediu ao Tribunal Superior do Condado de Los Angeles uma tutela temporária de emergência, que se estendeu por 13 anos. No final do mês de junho deste ano, Britney deu um depoimento sobre a tutoria de James e contou toda a verdade. Nele, ela afirma que mentiu em dizer que estava bem e feliz, já que na verdade se encontrava deprimida e chorava todos os dias. Além disso, conta que era uma tutela abusiva e demorou para encarar os fatos: “Eu estive em negação, estive em choque, estou traumatizada”.

Na declaração, ela pede o fim da tutoria, já que se passaram muitos anos sendo desmoralizada e que pretende seguir sua vida, se casar e ter mais um filho — apesar de usar o dispositivo intrauterino (DIU), que a impede de engravidar e não possuir autorização de seus tutores para retirá-lo. Também relata que foi forçada a realizar uma turnê em 2018, a mudar sua medicação e muitas outras coisas que a fizessem se sentir como uma escrava. 

“Eu mereço um intervalo de dois a três anos. Me sinto cercada, intimidada, deixada de lado e sozinha. Cansei de me sentir sozinha. Mereço ter os mesmos direitos, ter um filho

ou qualquer uma dessas coisas. “

Britney Spears

O jornal The New York Times divulgou que esse não foi o primeiro pedido de remoção da tutela. Na primeira, em 2014, os advogados listaram diversos motivos, como o consumo de bebida, para que Jamie não fosse mais o tutor. Para Britney, é um método de manipulação sobre ela, principalmente pelo pai controlar quem ela namorava e fazia amizade. Caso cometesse algum erro, era punida, como em 2019 que foi forçada a se internar em uma instituição psiquiátrica, ou quando foi obrigada a se apresentar mesmo com uma febre de 40 graus.

Desde setembro de 2019, Jamie Spears não é mais o responsável pelos assuntos pessoais da cantora, apenas pelo lado profissional da tutela, devido a complicações na saúde. Assim, Jody Montgomery, cuidadora de Britney, assumiu o cargo. 

Em 2020, os advogados da artista entraram com uma ação para que seu progenitor deixasse a tutela e de acordo com eles, ela sentia medo e não aceitava retornar a carreira enquanto James gerenciasse sua vida. Inicialmente, a juíza Brenda Penny negou o pedido e nomeou a empresa Bessemer Trust, que supervisiona famílias, como co-tutora junto ao pai. Além disso, a mãe da Britney, Lynne Spears, se sugeriu como parte interessada no cargo de tutora, afirmando que o relacionamento entre o pai e a filha era tóxico.

Imagem: Reprodução/Instagram

Em agosto deste ano, o pai de Spears desistiu da tutoria da cantora, ao alegar querer ajuda na transição para um novo tutor, mas defende que não existem motivos que o tenham levado a desistir da função. Entretanto, o advogado de Britney acredita que essa desistência comprova a veracidade do depoimento feito por ela em junho. Mathew S. Rosengart declara que: “Estamos satisfeitos que o senhor Spears e seu advogado tenham hoje concedido em um processo que ele deve ser removido. Prova que Britney estava certa”.

Na última quarta, a juíza Penny concedeu liberdade a artista e suspendeu definitivamente Jamie Spears da função de tutor. A magistrada nomeou o contador público John Zabel para supervisionar as finanças da cantora temporariamente, e os advogados acreditam que a juíza irá encerrar a tutela de Britney.

Como começou o #FreeBritney

Breathe Heavy, um site de fãs da Britney Spears, iniciou a campanha #FreeBritney em 2009 para criticar as restrições da tutela. O criador do site, Jordan Miller, afirmou em entrevista ao The New York Times, que recebeu uma chamada de Jamie Spears com ameaças para que o movimento fosse retirado do ar. Além disso, em 2016, Miller declarou que entendia a família da cantora: “Era uma situação realmente volátil e eles estavam a tentar protegê-la”.

Os rumores sobre a tutela retornaram em janeiro de 2019, quando ocorreu o cancelamento da segunda residência em Las Vegas, Britney: Domination, devido às complicações de saúde do pai. No Instagram, a cantora expõe que decidiu colocar todo seu foco e energia na sua família, e que é um alívio ele ter saído vivo, mas que ainda tem muito caminho pela frente.

Logo após isso, foi possível acompanhar um hiatus (intervalo) nas redes sociais de Britney, seguidas de vídeos de dança e selfies. Em abril de 2019, publicou um post enigmático no Instagram sobre tirar um tempo de si, e o TMZ noticiou que a cantora se internou em uma clínica de saúde mental por estar transtornada pela saúde do pai. O podcast Britney’s Gram, é dedicado à análise das publicações da artista, e divulgou no episódio #FREEBRITNEY, uma mensagem de voz de uma fonte anônima que alegava ser um paralegal com conhecimentos da tutela. Em decorrência disso, diversas preocupações foram colocadas em pauta, principalmente o bem-estar de Spears e a sua capacidade em tomar as próprias decisões.

No final do mesmo mês, vários fãs se reuniram em frente ao City Hall de West Hollywood para protestar contra a tutela. Britney por sua vez, foi ao Instagram dizer que estava tudo bem, e que não era para as pessoas acreditarem em tudo que lessem. De acordo com a The Rolling Stones, a mãe Lynne Spears, “gostou” de algumas publicações e comentários no Instagram que se referiam ao Movimento Free Britney.

Durante a quarentena, realizada por conta da pandemia do Coronavírus, a cantora compartilhou nas redes sociais coreografias, selfies e cartões com citações intrigantes. Alguns fãs acreditavam que isso era um meio de pedir socorro, o que gerou um grande debate na internet. A teoria ganhou mais força quando solicitaram que ela usasse amarelo se precisasse de ajuda e postasse fotos de pombas, e a mesma fez o que foi pedido. Uma petição online exigiu que Britney ganhasse mais autonomia, e conseguiu mais de 200 mil assinaturas. Como resultado, ocorreram ao longo do tempo diversas manifestações em prol da liberdade da artista. E na última quarta-feira, assim que a juíza Brenda Penny informou sua decisão, foi motivo suficiente para comemorações.

O documentário Framing Britney Spears: A vida de uma Estrela, disponível na Globoplay, mostra toda a carreira dela e a luta contra o pai no tribunal. Além disso, conta detalhadamente sobre o Movimento Free Britney. Recentemente, a Netflix também lançou um documentário sobre a vida da cantora, Britney X Spears, onde a jornalista Jenny Eliscou e a documentarista Erin Lee Car, exibem toda a história já conhecida pelo público, porém mais aprofundado com entrevistas exclusivas e documentos confidenciais. Britney comentou em seu Instagram que tenta se dissociar do drama e que isso já é um passado na sua vida.

Estar livre de uma tutela que controlava todos os passos de sua vida é uma grande conquista para todos os fãs, organizações de pessoas vulneráveis e defensores dos direitos cívicos que apoiavam a cantora, e principalmente para própria Britney Spears. O Movimento Free Britney foi de extrema importância para esse feito e é explícito na conta do Instagram da cantora em como ela se encontra feliz nessa nova etapa da sua vida e profissão.

Resta esperar o que será da carreira da cantora agora após o fim da tutela, se irá lançar músicas novas e até sair em turnê. Mas uma coisa é certa: todos querem um retorno triunfal da princesa do pop!

Nicole Kidman e Ewan McGregor em Moulin Rouge (20010 [Imagem: Divulgação/Prime Video]

Trilha Sonora: A narrativa da música no cinema

Lá está você, na sala escura do cinema, rodeado por burburinhos de pessoas se acomodando para a exibição. A primeira coisa que provoca o silêncio dos murmúrios é o som de abertura do filme, que capta a atenção de todos em um aviso de que já vai começar. É naquele instante que se percebe que o clima de início é uma total atribuição da musicalidade.

Se você assistia animações musicais da Disney como O Rei Leão (1994) ou Toy Story (1994) na infância, sabe como suas canções fizeram esses filmes se tornarem atemporais. Até hoje, You’ve Got a Friend In Me e Hakuna Matata ecoam nas memórias e vivem em todos que assistiram os filmes enquanto crianças.

Eles são exemplos do poder que as trilhas sonoras têm de transformar totalmente as relações com o universo cinematográfico. Possuem responsabilidade por grande parte daquela sensação de proximidade que o espectador tem em relação ao filme e aos seus personagens. Assim, as soundtracks são selecionados ou até mesmo compostos para que sua experiência seja completa e, independentemente de em qual espaço você esteja assistindo, nada interfira no momento único que está presenciando.

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Uma breve história da música no cinema

Filmes são produções audiovisuais, o que significa que surgem da combinação entre áudio. Há mais de um século, quando o cinema ainda não era tão grande quanto hoje, não existia vínculo entre esses dois pontos.

Apresentado inicialmente em feiras abertas, as reproduções estavam expostas em meio a festivais multiculturais, ou seja, ninguém realmente estava absorto na narrativa como hoje, cuja realidade é de estarmos habituados a adentrar em salas totalmente preparadas, com o objetivo de assistir ao filme com atenção. Inclusive, as reproduções nem mesmo chegavam a possuir uma narrativa propriamente dita, o que, de fato, não exigia certo nível de concentração. Além disso, as obras eram completamente mudas.

Assim, com o desenvolvimento e crescimento da indústria cinematográfica, houve a necessidade de tornar o espectador imerso em um conceito narrativo posteriormente inserido no contexto da história do cinema. Como uma das táticas utilizadas para dar sentido àquela novidade, nasceu a ideia de fazer isso com o apoio da música.

Antes mesmo de sua exibição em salas de cinema, pianistas tocavam durante o desenrolar dos filmes, sendo eles os responsáveis por guiar a narrativa juntamente às imagens. Com os espaços específicos, a presença dos pianista se intensificou e desempenhou um papel essencial. Contudo, com o fim do cinema mudo no fim dos anos de 1920, diante de revoluções tecnológicas permitindo a sincronização de som e imagem, consequentemente a participação dos músicos deixou de ser requerida.

Mais a frente, com tal inovação na indústria, os cinemas gradativamente encontraram seus meios de transformar as narrativas no desejado. Dentro dessa ideia, não só diálogos audíveis foram inseridos, mas a música se consolidou como parte integral e indispensável.

O que há hoje em dia vem de um progresso significativo e da necessidade irremediável de se utilizar da banda musical como uma colaboradora que direciona o espectador ao objetivo daquela narrativa de distintas maneiras: acentua emoções, promove intensidade e age na submersão das pessoas dentro daquele contexto.

Uma melodia com tom misterioso oferece à cena a sensação de suspeita, bem como uma sonoridade que se apresenta com o intuito de causar medo e termina por provocar arrepios nervosos.

Para buscar exemplificar a marcação do tom inferido servindo para trazer enquadramento e pertinência, é cabível apresentar o longa Três Homens em Conflito (1966). A trilha composta por Ennio Morricone, consagrado compositor de Hollywood, é precisa ao delinear a entonação dos famosos filmes de “velho oeste”.

O impacto deixado por Morricone foi tão significativo, que até mesmo quem nunca chegou a assistir uma obra carregando a assinatura do compositor em sua trilha tem conhecimento de seu trabalho como um exemplo de canção memorável por conta, em principal, da canção The Good, The Bad and The Ugly.

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E se as trilhas sonoras não existissem?

Não está convencido de que a trilha sonora é um dos pontos mais importantes da construção de um filme? Então acredito que nunca tenha parado para pensar em como seria assistir uma produção cinematográfica sem música alguma.

A seguir, é possível compreender de que maneira uma das cenas mais célebres do cinema mundial, que fez e faz parte da infância de muitos ao redor do mundo, seria sem a canção tema. Assista a cena de The Circle Of Life sem a canção:

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Indo por uma outra vertente, também há a comparação de um filme que não é uma animação musical. Confira como certas cenas de Homem-Aranha (2002) seriam em a ausência de sua trilha:

Diferente, não? É inegável que, sem música, as cenas perdem a aderência do espectador. Além de, é claro, uma das coisas mais importantes: a magia. Há um sentido único em se sentar para assistir um filme, e a magia transmitida por eles faz parte do porquê de existir imensa paixão por esse universo.

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Nos bastidores das trilhas sonoras

Christine Baranski, Meryl Streep e Julie Walters, respectivamente, em Mamma Mia! (2008) [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

O filme como arte audiovisual é consideravelmente comum no dia a dia de muitos. Por isso, talvez alguns nunca tenham parado para pensar em quem seriam os responsáveis por selecionar cada música para cada momento. Essa responsabilidade usualmente é do chamado Supervisor Musical (também conhecido como Music Supervisor), cujo objetivo é unificar o contexto do filme ao objetivo da comunicação. Nas palavras do The Guild of Music Supervisors, o supervisor musical é “um profissional qualificado que analisa todos os aspectos musicais relacionados a filmes, televisão, publicidade, vídeo games e outras plataformas de mídias visuais emergentes, conforme necessário”.

O processo de seleção pode variar de diversas maneiras: No caso de musicais, as músicas podem ser originais, com todas ou a maioria das canções sendo compostas diretamente para o filme, como em La La Land (2017), o que viria a incluir outros profissionais como os compositores e produtores musicais, que exercem grandes papéis.

Quando no caso de musicais com canções não originais da obra, mas já existentes na indústria, como Mamma Mia (2008) da qual as faixas são sucessos da banda Abba, ou até mesmo Moulin Rouge (2001), de diversos artistas — apesar do longa apresentar, igualmente, uma canção original —, a seleção seria fruto da atuação quase que completa do supervisor musical, considerando intervenções do diretor da produção.

Leonardo DiCaprio em O Grande Gatsby (2013) [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Para trilhas sonoras de filmes que não do gênero musical, o mesmo esquema pode ocorrer. É mais comum que uma obra contenha canções já existentes e sejam selecionadas dependendo da ambientação das cenas, como em As Vantagens de Ser Invisível (2012) com Heroes, do David Bowie.

Por outro lado, múltiplas produções possuem uma música tema composta especialmente para ela. A popular trilha de Crepúsculo (2008) tem Decode, da banda Paramore, como canção tema da abertura da franquia, que chegou a ser indicada ao Grammy de Melhor Canção Escrita Para Filme em 2010. Enquanto isso, O Grande Gatsby (2013) conta com Young and Beautiful, da cantora Lana Del Rey, igualmente indicada ao prêmio supracitado, já no Grammy de 2014.

Se você tem interesse em saber um pouco mais sobre o que ocorre por detrás dos bastidores da escolha de trilhas sonoras, o documentário Into the Unknown: Making Frozen II, da Disney+, apresenta, em alguns de seus episódios, a demonstração do passo a passo do processo criativo e técnico da construção de uma trilha sonora.

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Trilhas sonoras marcantes do cinema

É claro que nós não poderíamos deixar de te levar a um passeio por algumas das trilhas mais marcantes da história do cinema. Pronto para uma dose de nostalgia?

Psicose (1960)

Assim que se ouve menção à produção, não há escapatória, senão seguir um caminho direto à cena do chuveiro em Psicose. As ricas composições de Bernard Herrmann não só marcaram a história do horror eternamente, mas colocaram sua criação entre as mais icônicas da trajetória do cinema mundial.

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O Poderoso Chefão (1972)

O Poderoso Chefão é uma obra aclamada pela crítica e sua trilha sonora não podia ser diferente. Constituída por doze faixas, as composições foram de atribuição do italiano Nino Rota, o responsável por transportar qualquer espectador de volta às cenas poderosas desse clássico.

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Star Wars (1977)

É inegável que a trilha sonora da franquia Star Wars ultrapassa a existência do filme para a qual foi criada, estando viva na memória até mesmo daqueles que nunca assistiram a nenhum dos filmes. Composta pelo ilustre John Williams — o mesmo que trouxe os soundtracks de Indiana Jones (1981), A Lista de Schindler (1993) e Harry Potter (2001) ao mundo —, ela foi vencedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1978 e esteve na décima posição da Hot 100 da Billboard dos Estados Unidos.

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O Guarda-Costas (1992)

Originalmente escrita por Dolly Parton, mas interpretada por Whitney Houston para o o longa O Guarda-Costas, I Will Always Love You faz igualmente parte do grupo de canções emocionantes e inesquecíveis.

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Titanic (1997)

Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original em 1998, Titanic apresentou uma das trilhas sonoras mais memoráveis da trajetória cinematográfica mundial. Só de pensar na cena de Jack e Rose na proa do navio ao som de Celine Dion cantando My Heart Will Go On, somos levados a lugares profundos de nossa própria história com o cinema.

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Lisbela e o Prisioneiro (2003)

Se você achou que deixaríamos o cinema nacional de fora, aqui está uma das maiores produções do audiovisual brasileiro: Lisbela e o Prisioneiro. Essa trilha conta com canções ilustres como Espumas ao Vento, de Elza Soares, e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, de Caetano Veloso.

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Afinal, qual o objetivo de tudo isso?

A arte em si tem como objetivo tornar a vida menos densa e mais suportável. Assim, a ideia do cinema, como uma arte que une a escrita, a fotografia, a música e muitas outras esferas, é de te fazer mergulhar em novas perspectivas. Para isso, se utiliza de todos os sentidos que podem despertar o espectador. Essa união oferece um refúgio que, para garantir efetivação, precisa do mínimo de interferência possível. O recanto, quando concede a sensação de conforto e até mesmo um espaço lúdico, se utiliza da musicalidade para trazer algumas dessas características, que garantem a imersão.

O objetivo da música no cinema é não só promover seu mergulho intenso, mas também guiar seus sentidos e sentimentos ao objetivo principal. É nortear sua emoção a vacilar quando, por exemplo, ouvir Anne Hathaway cantando I Dreamed a Dream em Os Miseráveis (2012), ou entregar felicidade com as canções animadas de momentos célebres de comédias românticas populares. O ponto principal é te levar em uma viagem, geralmente inesperada, ao desconhecido; que você encare a face do velho e do novo de diversas formas.

Agora que você já sabe tanto sobre música nos filmes, não deixe de conferir a nossa playlist repleta de soundtracks incríveis! E se essa leitura te deixou curioso sobre o universo cinematográfico, tenho certeza de que vale a pena dar uma olhada no Manual do Cinéfilo.

[Resenha] Lil Nas X: A desconstrução do Hip-Hop

O mainstream não esperava que um homem negro assumidamente gay no hip-hop roubaria a cena e seria um grande sucesso entre o público!

MONTERO, primeiro álbum de estúdio do Lil Nas X, acredite se quiser, chegou em todas as plataformas de streaming ontem, sexta-feira (17), e já pode ser considerado um fenômeno. Com 15 músicas muito bem produzidas e executadas, o disco vai do rap ao pop abordando questões importantes de sua vida, como a solidão de crescer gay, sua aceitação e também sobre o amor. 

Instagram Lil Nas X

A obra contém grandes participações como Doja Cat, Miley Cyrus, Megan Thee Stallion, Elton John e Jack Harlow. E além disso, todas as faixas ganharam um visualizer no Youtube.  A aclamação pelo público foi tanta que, debutou com uma média de 90 no Metacritic e em veículos especializados, como o The Gardian e The Independent, ganhou nota máxima.

Mas o que faz de Lil Nas tão especial?

O rapper vem chamando atenção desde que lançou o remix de Old Town Road, com Billy Ray Cyrus, pai da Miley. A canção disparou em todas as paradas, e ficou como número 1 na Billboard por muito tempo e também conquistando o marco de música com mais certificados de platina na história dos Estados Unidos, sendo 14 milhões de certificações de acordo com a Associação Americana da Indústria de Gravação. Além disso, em 2019, a dupla levou o Grammy de Melhor Duo Pop/Performance de Grupo e Melhor Vídeo Musical.

Logo depois, lançou o EP 7, que além de OTR, emplacou os hits Rodeo, feat com Cardi B, e Panini, que garantiu o segundo top 10 na principal parada americana. Os videoclipes também chamaram a atenção, o primeiro faz referência a Michael Jackson, com Thriller, e aos filmes Matrix e Um Vampiro no Brooklyn. Já o outro, possui uma pegada futurista, e isso se torna uma grande característica de Nas, com muito reconhecimento e expectativas em cima dele.

O primeiro single do álbum, MONTERO (Call Me By Your Name), foi um grande destaque, que além de retratar abertamente sobre sua orientação sexual, trouxe um marco de conquistas para o rapper. LNX ganhou as estatuetas de Vídeo do Ano, Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais na última edição do Video Music Awards, em 2021. Esses feitos com certeza só foram possíveis devido a constância nas primeiras posições nos charts.

Sun Goes Down, segundo single do disco, que já vem com uma pegada mais R&B, pode ser considerada uma das faixas mais vulneráveis, com um Lil Nas meditativo que reflete sobre sua vida e ascensão. O artista adulto revisita o passado, uma versão de si adolescente, que enfrentava problemas de aceitação devido ao racismo e à homofobia, e ele adulto mostra uma luz de esperança no fim do túnel.

O mais polêmico e terceiro single, Industry Baby, feat com Jack Harlow, aborda a temática do encarceramento racista. No clipe ele é preso por ser gay e responde aos críticos que esperavam sua carreira acabar com Old Town Road. Com direção de Kanye West, retrata o empoderamento dentro da cadeia, e até dança nu no vestiário. Também faz referências ao beijo famoso em que protagoniza com um bailarino durante sua apresentação no BET Awards de 2021; os Grammys que recebeu; e uma provocação ao 50 Cent, já que Lil Nas aparece de cabeça para baixo igual ao clipe In Da Club, e o próprio 50 Cent já fez comentários homofóbicos, até mesmo sobre o LNX.

No Video Music Awards em 2021, fez uma performance impecável de Industry Baby e Call Me By Your Name. Abriu sua apresentação guiando uma banda marcial, e em seguida, recriou a prisão do clipe, mas dessa vez utilizando uma sunga rosa cintilante!

O artista elaborou o The Montero Show, onde é um entrevistado grávido, plateia entusiasmada e entrevistador sem filtro. De modo cômico, Nas passou por todas as suas obras, como uma meio de retrospectiva para introduzir a nova era. Ainda dentro do quadro, ele foi para o “hospital dar luz ao seu filho”, vulgo álbum.

Após o talk show, lançou mais um videoclipe, Thats What I Want, com uma mistura de futebol americano e Brokeback Mountain. Lil Nas X representa um jogador que se envolve com um outro atleta, mas tudo termina quando ele descobre que o pretendente possui mulher e filho. Essa situação caracteriza cenas comuns vividas pela comunidade gay, que infelizmente não são representadas no mainstream. Com 24 horas de estreia, o clipe acumula mais de 11 milhões de visualizações no YouTube e permanece em #6 nos vídeos em alta da plataforma.

Sexualidade e moda como forma de expressão

Junho é conhecido pelo Mês do Orgulho LGBTQIA+, e LNX em 2019, aproveitou o último dia do mês, 30, para assumir sua sexualidade no Twitter. Talvez, fosse óbvio para muitas pessoas, até pela indireta do arco-íris na capa do seu EP, mas o público do rap e do country ainda é preconceituoso, e poderia ser decretado o fim de sua carreira.

Em entrevista ao programa CBS This Morning, o rapper revelou que já tinha conhecimento sobre sua orientação sexual desde a infância, mas que ter revelado ao mundo foi para inspirar outras pessoas a se assumirem: “Para mim, agora é fácil mas, para alguns meninos que moram bem longe daqui, isso vai ser bom pra eles”.

Desde então, Nas utilizou sua visibilidade para se expressar através das músicas, e isso fica explícito quando ouvimos algumas canções de MONTERO, como Call Me By Your Name e Thats What I Want. A moda também é uma forma de comunicação por parte do artista, por mostrar de fato quem é, e isso se torna significativo para a comunidade LGBTQIA+. Ele sempre comparece aos tapetes vermelhos das premiações usando trajes que chamam atenção de todos, como no Video Music Awards e Met Gala, que usou criações da Versace e foi destaque por ser “extravagante”.

Marketing em cima de polêmicas

Além de toda a construção do álbum, Lil Nas gerou um bom buzz marketing em cima das polêmicas envolvendo o seu nome. Começa pelo lançamento do clipe MONTERO (Call Me By Your Name), em que explora sua orientação sexual, ao criar um storytelling através de passagens bíblicas, como o Jardim do Éden, e as antiguidades gregas e romanas, como Zeus e Ganimedes.

Fazer pole dance até o inferno e um lap dance no colo do diabo foi mais que o suficiente para os conservadores reclamarem e até atacarem o rapper. A grande verdade por trás do videoclipe, é a história do preconceito que homens gays enfrentam: ter ódio de si mesmo e se esconder de todos. Mas pasmem, estamos em 2021 e isso não vai mais acontecer

Ainda sobre Call Me By Your Name, o coletivo de arte MSCHF, especializado em produtos de coleção limitada, em parceria com o Lil Nas X, fizeram o “Sapato do Satanás”. Foram lançados 666 (número da besta) pares customizados do Nike Air Max 97 com símbolos que fazem referência ao Diabo, como uma estrela de cinco pontas invertida, e também gotas de sangue humano na sola. 

No clipe da música, Montero Hill escorrega por um poste de stripper do céu ao inferno usando o par de tênis. Essa cena faz referência ao versículo bíblico Lucas 10:18 – que também vem gravado no sapato – em que diz “Então ele lhes disse: ‘Vi Satanás cair do céu como um raio’ ”.

A Nike processou a MSCHF alegando violação da marca registrada, já que não autorizou e nem aprovou o tênis, podendo gerar uma imagem negativa sobre a empresa de calçados. Algumas pessoas, incluindo a Governadora da Dakota do Sul, reclamaram do design nas redes sociais.

O meio do hip-hop é majoritariamente um ambiente machista e homofóbico, e o próprio Nas já sentiu isso vindo de outros rappers, como o T.I. e o 6ix9ine. Em entrevista à Revista Variety, ele revelou que só anda com seguranças devido ao preconceito, e assim que foi liberado a tracklist do seu novo álbum, no dia 01 de setembro, o público levantou a falta de colaborações com homens negros, mas o rapper respondeu um usuário afirmando que alguns músicos não gostariam de trabalhar com ele.

Lil Nas também foi acusado pela Antra Brasil de transfobia por fazer uma alusão à gravidez ao promover o lançamento de MONTERO. O rapper fez toda a propaganda do álbum como se estivesse “grávido” do seu primeiro disco, usando até uma barriga de gravidez falsa, compartilhando fotos e vídeos, com direito a chá de bebê e o momento do nascimento.

Através do Twitter, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais afirmou que ele não teve responsabilidade em torno dos problemas da gestação que atingem mulheres, homens trans e pessoas não binárias. Mas outras pessoas, acreditam que essa “gravidez” é uma forma de quebrar padrões de gênero, principalmente por ser um homem cis, e até por ter desenvolvido um link com doações para organizações LGBTQIA+, em que cada faixa representa uma instituição.

Lil Nas X é a verdadeira revolução de uma indústria fonográfica misógina, machista, patriarcal e racista! Apenas com três anos de carreira, se mostra um verdadeiro artista que veio para transformar o modo de fazer música, sendo o pacote completo de ‘diva pop’: entregando looks icônicos, passagens marcantes nos tapetes vermelhos, apresentações de altíssimo nível e novos modos de promoção musical através da internet. É impressionante e até emocionante pensar em como a geração atual pode se inspirar e se conectar com o trabalho dele.

A volta do rock ao mainstream da música

Se você é uma pessoa que ama música e acompanha essa indústria, então sabe que ela tem fases, e que gêneros musicais vão e voltam da moda o tempo todo. E desde 2020 é possível notar a nova tendência: o rock. Um estilo clássico, com muitas vertentes, mas que infelizmente desde os anos 2000, perdeu força. E ritmos como pop e rap têm ocupado seu lugar, contagiado o grande público e liderado as paradas desde então.

Contexto Histórico

O rock, originalmente chamado de Rock n’ Roll, foi criado nos Estados Unidos no final da década de 40, por afro-americanos a partir do desenvolvimento da fusão de gêneros musicais americanos como o Blues, Jazz, Country, Gospel, R&B e a influência de ritmos europeus.

Ainda que criado por artistas negros, o estilo foi bem recebido pelo público jovem branco e também incorporado por artistas brancos. Em meados de 1950, o estilo começa a ganhar força e destaque nacional. Little Richard; Fats Domino; Bo Didley; Jerry Lee Lewis; Buddy Holly; Gene Vincent; Johnny Cash; Chuck Berry, que introduziu e consolidou o uso da guitarra no rock; e Elvis Presley, um dos cantores mais conhecidos até hoje, que se tornou um fenômeno com a variante Rockabilly; são apenas alguns dos nomes dos pioneiros desse ritmo que definiram o padrão do que ainda estava por vir.

Apesar do rock ter sido um grande sucesso comercial, essa cultura incluía diferentes grupos sociais e raciais, o que gerava desconforto e preocupação por parte dos conservadores. Além de que as músicas falavam sobre temas considerados tabus, como sexo, drogas, questões raciais e revoltas no geral. Ao longo do tempo, o rock, mesmo com diferentes problemas e crises, manteve essa característica de ousadia e rebeldia ao falar sobre assuntos difíceis e controversos.

Entretanto, como sabemos, a partir dos anos 60 até o final dos anos 90, início dos anos 2000, o rock continuou a crescer e se ramificar em subgêneros como pop rock, que utiliza os mesmos instrumentos do rock, mas com o padrão de refrão do pop; punk, tem letras mais fortes, sons, toda uma estética e estilo de vida mais intenso; new wave, vem do punk, mas é mais eletrônica e pop e menos agressivo; grunge, possui letras mais introspectivas e também deriva do punk; alternativo, tem a estrutura do rock, mas influências diversas, dependendo do artista; e muitos outros. Assim dominaram por décadas e revolucionaram a indústria musical e o mundo todo.

O Revival

Os padrões de música mainstream estão em constante mudança. O que resulta em artistas e gêneros musicais perderem relevância eventualmente. Mas como toda tendência, o rock voltou. E existem várias razões para o porquê de isso ter acontecido.

O rock desde o começo, passou mensagens de rebeldia, refletiu mudanças sociais e culturais, influenciou comportamentos, a moda, lifestyle, linguagens, danças e aprimorou a ideia de ídolos, principalmente entre jovens adolescentes. Tudo isso, se conecta às razões desse revival. O fato de estarmos em um período muito difícil em relação à política, saúde, clima e economia, também contribui. Pois, não só incita sentimentos de revolta, como também provoca a volta de hábitos conhecidos e “seguros”, no caso, o rock.

Assim, cada vez mais artistas têm explorado o ritmo. Um dos grandes nomes que contribuiu para essa recente popularização, é Travis Barker. O ex-baterista da banda Blink-182, atualmente, além das próprias músicas, possui uma gravadora chamada DTA Records, onde já assinou com muitos novos artistas e faz diversas parcerias, produz e toca com quem deseja trazer o elemento do rock em suas músicas.

Sua discografia é composta por álbuns e faixas que migram do rock ao rap, trap, emo e pop-punk. Alguns de seus sucessos incluem: Machine Gun Kelly, com o álbum de 2020 Tickets to my downfall e seguintes trabalhos; mais recentemente, Willow Smith, com as faixas t r a n s p a r e n t s o u l, Gaslight e Grow (que conta também com a participação da “Rainha Pop-Punk” dos anos 2000, Avril Lavigne); e outros artistas como Yungblud, Maggie Lindemann, Lil Nas X, KennyHoopla, Halsey, Jxdn e muitos mais.

Willow, Travis Barker e Avril Lavigne
[Imagem: Reprodução/ Twitter]

Além deles, há cantores também, na maioria das vezes do pop ou indie, que experimentaram desse estilo, fizeram valer a pena. Como foi com Miley Cyrus, Post Malone e Olivia Rodrigo. Miley, em seu último álbum Plastic Hearts, conta com covers de clássicos, participações de lendas do rock como Stevie Nicks, Joan Jett e Billy Idol, vocais que combinaram perfeitamente com o estilo e músicas originais de qualidade. Dessa maneira, ela consegue fazer essa retomada da melhor forma possível.

No entanto, nos últimos anos, houve também um comeback de bandas antigas como Mötley Crüe e My Chemical Romance e um aumento da ascensão de novas bandas e artistas como Meet me @ the Altar, Dirty Honey, Blind Channel, Sueco, Spyres, entre outros. Mas, um dos mais populares no momento é Måneskin.

A banda Italiana que ganhou o Eurovision Song Contest 2021, viralizou no Tiktok com seu cover de Beggin’ de Frankie Valli & The Four Seasons e surpreendeu o mundo com seu talento. Eles passam a essência do rock, desde músicas com vocais fortes, muita guitarra, baixo e bateria; até o jeito que se comportam e vestem. E têm chamado atenção de grandes artistas do rock clássico como Iggy Pop, que recentemente fez uma parceria com a banda para uma nova versão do hit I WANNA BE YOUR SLAVE.

Måneskin e Iggy Pop
[Imagem: Reprodução/ Instagram]

O Que Esperar Para o Futuro

Um dos pontos positivos desse revival é que o rock hoje está mais diverso do que nunca, em todos os aspectos. O mundo mudou e com ele fatores que uma vez foram considerados exigências e barreiras já não funcionam mais. Fato que favorece a conquista das gerações mais jovens, que dominam a indústria e definem o que está na moda ou não.

Há uma onda de interesse crescente no rock clássico ao mesmo tempo em que há em bandas emergentes. O Tiktok contibui para isso, pois ele tem grande influência sobre a indústria musical, e como músicas de rock e suas vertentes tem feito cada vez mais sucesso na plataforma, com artistas novos e bandas mais antigas como Paramore, Simple Plan, Aerosmith, Nirvana, Green Day e Mother Mother, é possível dizer que esse ritmo está bem consolidado e não vai mais embora tão rápido.

BTS e a xenofobia da indústria ocidental

Há anos o grupo que liderou a popularização do K-Pop no mundo, o BTS, tem tomado proporções absurdas nas redes sociais e na mídia. É quase impossível  nunca ter visto nenhum produto dos artistas, uma hashtag no Twitter nos últimos tempos ou ouvido alguma música do grupo por aí. Porém, apesar de seu talento e do esforço dos fãs de darem boa visibilidade aos ídolos, com uma simples pesquisa por seu nome no Google você será recebido por uma enxurrada de notícias sobre o racismo e a xenofobia que a banda têm sofrido.

Composta por RM, Suga, J-Hope, V, Jin, Jimin e Jungkook, BTS apresenta atualmente o estilo de música Korean Pop. Ainda que o grupo seja oriundo de uma pequena gravadora, se tornou precursor da fama global do K-Pop, sendo o primeiro a receber diversos prêmios pelo globo (além de, aos poucos, garantir seu espaço no cenário ocidental).

O grupo se apresentou ao mundo em 2010, mas seu debut definitivo foi apenas em 2013 com o lançamento do clipe de No More Dream, que juntamente a outras canções garantiu o início do seu sucesso no continente asiático. Mas foi em 2016 que o início do seu sucesso internacional se deu, quando o segundo álbum de estúdio, Wings, começou a receber o destaque que lhe rendeu uma posição na Billboard 200.

Dispondo de um repertório de faixas que exaltam a autoestima de seus fãs e garantindo que a música seja um espaço de conforto, o septeto conquistou o coração de uma legião de todas as idades. Seu esforço os rendeu quebras incontáveis de recordes, uma discografia muito bem avaliada e reconhecimento mundial. A marca deixada por eles é incontestável, mas a indústria ocidental já conhecida por diversos preconceitos não deixou de atingir os jovens.

Por que o BTS é um alvo?

Photo of BTS.
[Imagem; Big Hit Music]

Sabe-se que tudo o que é diferente causa estranhamento, o que, em si, não é um problema, mas sim a forma como se reage a ele. A indústria da música é marcada por padronizações, e  ao representar na mídia apenas um tipo de figura, muitos crescem não vendo espaço para si em lugares como a música.

Como temos visto, aos poucos a inclusão de artistas anteriormente fugindo daquele padrão têm se mostrado felizmente presente. Porém, por mais que haja essa certa inserção, os preconceitos que mantinham essas pessoas fora dos holofotes, hoje as oprime publicamente. A surpresa causada por ver pessoas que sempre existiram sendo elas mesmas, mas não eram retratados na grande mídia mundial, quando não resulta em aceitação, resulta em ódio.

Nativos da Coreia do Sul, um país asiático, os integrantes do BTS têm sido submetidos a diversos ataques. Asiáticos foram, por muito tempo, apresentados sob perspectivas pejorativas repletas de estereótipos reproduzidos até hoje. O contexto histórico envolvendo o continente asiático marcou infinitamente a trajetória de uma representação midiática racista e xenofóbica que, agora, em muito atinge aos grupos de K-Pop. Infelizmente, esse cenário  preconceituoso não ficou para trás e essas questões ainda estão presentes absurdamente nessa  indústria musical.

Xenofobia e racismo na mídia

Sabemos como os canais midiáticos têm uma importância absurda na opinião pública e sua influência, ainda mais dos meios de comunicação comum como rádio e TV, alcança milhões de pessoas. Externar preconceitos em um espaço de grande alcance é colaborar com ele e normalizá-lo, por isso, figuras públicas devem assumir responsabilidade por comentários e ações criminosas. Contudo, a responsabilidade atribuída não impede infinitas situações assim.

Em março desse ano, Matthias Matuschik, um locutor alemão disse ao vivo em seu programa: “Esses idiotas se gabam por terem feito cover de Fix You, do Coldplay, que eu respondo: isso é uma blasfêmia, e olha que sou ateu! Isso é ofensivo. Por isso, vocês passarão suas férias na Coreia do Norte pelos próximos 20 anos!”, enquanto emitia sons de vômito ao falar sobre o cover. Além de associar os componentes e sua música a um vírus que seria ‘eliminado’ em breve. O motivo da indignação do locutor foi o cover feito pelo grupo no MTV Unplugged, onde artistas apresentam canções em versão acústica. A cantora Halsey, amiga dos integrantes, se manifestou deixando clara sua indignação e demonstrando apoio aos amigos.

Outro caso marcante foi em abril, no programa chileno Mi Barrio, um mês após o ocorrido na rádio alemã. Uma paródia considerada racista e repleta de estereótipos foi ao ar na TV aberta do país sob a justificativa de ser apenas comédia. Tendo em vista a reação de repulsa, fizeram um post no instagram no qual não se desculparam pela ação e só agradeceram pelas críticas e comentários positivos, logo, não houve atribuição de responsabilidade.

Preconceito e segregação nas premiações ocidentais

BTS no VMA 2019 [Reprodução/Twitter]

O BTS já faz barulho há um bom tempo, mas considerando que os mais notáveis e populares prêmios da música são estadunidenses, eles não foram incluídos nas premiações antes de 2019, quando indicados a 4 categorias no VMA (Video Music Awards). Na mesma edição, houve o anúncio de uma nova categoria: Melhor K-pop. Os fãs, em contrapartida, não gostaram nada da ideia, pois limitaria a competição com artistas ocidentais. É importante lembrar que a crítica tem como base a premiação contar com o voto público e que o BTS é bastante conhecido por sua extensa fanbase.

A criação de categorias como Melhor Latino e Melhor K-pop tem como justificativa a inclusão, mas isolar essas pessoas em categorias que se baseiam em de onde vieram não dá visibilidade, mas segrega. As principais categorias seguem com nomes, em maioria, do eixo EUA x Canadá x Reino Unido.

BTS no Grammy 2020 [Imagem: Getty Images]

Outra polêmica com premiações ocidentais é envolvendo o Grammy, considerado o mais importante prêmio da música.

Ainda que o sucesso mundial do BTS não seja recente, algo que se destaca no primeiro momento em que o Grammy abre espaço para o septeto.  Em 2020, foi  lançada a  primeira música inteiramente em inglês do grupo, Dynamite. Marcado por não ser muito inclusivo, a participação dos integrantes apenas com essa faixa levanta questões como a exaltação de canções na língua nativa do Grammy e uma integração não muito satisfatória de diversidade de idiomas.

Na mesma edição, receberam a indicação de Best Pop/Duo, apresentada na pré-cerimônia, cujas ganhadoras foram Lady Gaga e Ariana Grande por Rain On Me. As críticas de fãs sobre o anúncio da categoria não ter sido ao vivo, também se estendem ao fato de que eles foram os penúltimos a se apresentarem. A questão da perda de audiência das edições ao longo dos anos foi associada à decisão de colocar a performance mais aguardada da noite para o fim da cerimônia como uma forma de manter a grande audiência gerada por um grupo global.

Como os integrantes reagem a tudo isso?

Ainda que submetidos a situações desagradáveis e serem destratados pela indústria nociva, apresentam uma visão consideravelmente positivista. Em entrevista à revista estadunidense Rolling Stone, RM disse: “Agora, claro, não há utopia. Existe um lado iluminado; sempre haverá um lado obscuro. A forma como nós pensamos é que tudo o que fazemos, e nossa própria existência, estão contribuindo para a esperança de deixar essa xenofobia, essas coisas negativas, para trás. Também temos esperança que as pessoas das minorias irão tirar alguma energia e força da nossa existência. Sim, há xenofobia, mas também existem pessoas muito receptivas… O fato de que nós alcançamos sucesso nos Estados Unidos é bastante significativo por si só.”

Demonstrando uma visão de resistência na sua fala ao representar os parceiros, RM reitera que a ascensão do grupo colabora com a esperança e a fé de minorias. Além de considerar o avanço à indústria estadunidense um progresso nos passos para conquistar visibilidade mundial e espaço para não tão somente fazer música, mas que esse ato tenha uma significância ainda maior.

Donda e o retorno de Kanye West

Depois de muita espera, finalmente temos o 10º álbum solo do rapper Kanye West. Lançado no último domingo de agosto, Donda é o maior trabalho do artista até hoje: ao todo são 27 músicas, dando a obra praticamente 2 horas de duração.

O nome é em homenagem a Donda West, mãe de Kanye, que faleceu em 2007. Além do título, algumas faixas trazem a voz dela. O rapper também retrata temas como a ex-esposa, Kim Kardashian, a constante ideia de ser perseguido, e claro, Deus. É válido ressaltar as influências dos trabalhos passados, desde 808s & Heartbreak até The Life of Pablo, já que possuía alguns traps. Outras faixas apresentam uma temática mais gospel, relembrando os dois últimos álbuns de West, Jesus Is King e Jesus Is Born. O novo disco também é um destaque por contar com participações especiais como Jay-Z, com o qual possui um álbum colaborativo, Watch The Throne; Stalone; Travis Scott; The Weeknd; Roddy Ricch e muitos outros.

6 das 27 faixas de Donda obtiveram um maior destaque por parte do público, consagrando-as aos primeiros lugares do Top 10 no Spotify Global. Jail ficou em segundo lugar e pode ser considerada o início da narrativa. Nela, West se encontra no meio de uma crise, ficando fora de controle enquanto seu casamento se desintegra e sua imagem pública desmorona mais uma vez. Além disso, Jay-Z e Francis and the Lights fazem parte da canção.

Em seguida estão as músicas Hurricane, Off The Grid e Ok Ok pt 2, com as participações (respectivamente) de The Weeknd e Lil Baby; Fivio Foreing e Playboi Carti; e Rooga e Shenseea. No quinto lugar, God Breathed, feat com o Vory, Kanye implora aos ouvintes para que depositem sua confiança em Deus, e seu título possivelmente faz referência a passagem da bíblia 2 Timóteo 3:16 – 17 em que diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, repreender, corrigir e treinar na justiça”.

A última canção, Praise God, ficou em sexto lugar e foi criada em colaboração com Travis Scott e Baby Keem. O disco também dominou o Top 10 do Spotify USA, e de acordo com o Chart Data, em apenas 24 horas de lançamento obteve 100 milhões de streams, sendo considerado a segunda maior estreia de um álbum no Spotify, ficando atrás apenas de Drake com Scorpion.

Mas o que está fazendo de Donda um sucesso para além de um ótimo disco?

Imagem da primeira Listening Party de Donda.
Reprodução/Instagram

Para divulgar o álbum, Kanye organizou três eventos – as chamadas “listening parties” (shows para divulgar as faixas do álbum) que movimentaram a internet desde o fim de julho. O primeiro show ocorreu em Atlanta, Georgia, e deu o que falar: assim que Kanye entrou no campo vazio – de balaclava e vestido de vermelho da cabeça aos pés – os fãs notaram que o rapper não performaria as músicas da forma tradicional. Todas as canções apresentadas (o álbum não foi tocado na íntegra na data) foram emitidas por caixas de som, não cantadas, com Kanye sendo também um espectador do show que dançava e se emocionava no meio do estádio. Para muitos, o primeiro evento seria uma metáfora para partes difíceis de sua vida, a quebra de sua reputação e os momentos baixos e solitários de sua carreira.

Na segunda apresentação, os temas foram as frustrações, a raiva e o medo. Seus problemas com a política, os paparazzis e o público foram colocados por meio da moda – coletes a prova de balas com recortes semelhantes a espinhos, mais balaclavas e um comportamento que por vezes parecia paranóico. A estética se assemelhava muito a uma prisão, trazendo a ideia do confinamento mental pelo qual West passou durante um longo período. Por isso, o cantor se mostra mais próximo de Deus e da religião, sendo carregado ao céu no fim do show.

Para o terceiro e último show, Ye concentrou seu foco no que parece ser seu norte de vida: sua família, Deus e o amor, colocando-os acima de seu ego. Sendo considerada a listening party mais importante, o evento tinha como cenário uma casa semelhante a uma igreja (e também a sua casa de infância) no centro do palco. Ao longo da apresentação e com o passar das músicas, novos elementos foram surgindo: os polêmicos artistas DaBaby e Marilyn Manson, colocados como pecadores assim como Kanye; um incêndio que mata o rapper e queima a casa, fazendo-o se desprender de sua infância, de sua mãe e de seu passado de pecado; e seu renascimento como um novo homem, no qual West retira a balaclava que usou durante todos os momentos e se encontra com sua ex-esposa Kim Kardashian – vestida de noiva da última alta costura da Balenciaga, a tão misteriosa noiva fantasma – para simbolizar uma nova vida.

O encontro entre Kim e Kanye ao fim do show
Reprodução/Apple Music

Para muitos, a trajetória se assemelha a famosa Divina Comédia de Dante Alighieri, passando pelo Inferno e pelo Purgatório para finalmente chegar ao Paraíso. A primeira fase nos entregou um álbum não finalizado e um Kanye West solitário, perdido e escondido por trás de sua máscara. A segunda nos apresentava um purgatório mental, com músicas mais pesadas e o rapper batalhando contra seu ego, ódio e a paranóia que o perseguiu durante anos para no fim ascender ao Paraíso, no qual renasce como um novo homem sem pecados, retira sua máscara social e encontra Deus, representado por sua ex-exposa.

A participação polêmica de DaBaby e Marilyn Manson

Além de um longo storytelling, a atmosfera que envolve o álbum também tem gerado polêmica pelo envolvimento de Kanye com alguns artistas já fortemente criticados pelo público como Marilyn Manson, cantor acusado por diversas mulheres por agressões sexuais e abuso e o rapper DaBaby, que recentemente teve falas homofóbicas. Além deles, há no álbum participações como a do rapper Chris Brown, condenado por agredir a cantora e sua ex-namorada Rihanna em 2009 e acusado de violência contra diversas outras mulheres.

Kanye, DaBaby e Marilyn Manson
Reprodução/Twitter

Ainda na questão das polêmicas, West teve um desentendimento com sua gravadora, que lançou o álbum sem sua autorização na madrugada do dia 29. O cantor utilizou sua conta no Instagram para se pronunciar, com uma mensagem que dizia “A Universal soltou meu álbum sem a minha aprovação e eles bloquearam Jail pt 2 de estar no álbum”. A música referida seria uma parceria com DaBaby e Manson e mesmo sem ser lançada, recebeu críticas do público. “Um predador sexual e um homofóbico? Por que ele está se associando com essas pessoas ?! A única razão que posso pensar é que Kanye é um lixo absoluto também”, diziam algumas das mensagens dos seguidores.

Não bastasse os eventos e as polêmicas envolvidas, Kanye também desenvolveu através da sua empresa Yeezy Tech em parceria com a Kano, empresa britânica de eletrônicos, o Donda Stem Player, um dispositivo que custa 200 dólares (aproximadamente R$1.050,00). O aparelho possibilita que os fãs personalizem as músicas do rapper em tempo real, ou seja: você pode controlar os vocais, a bateria, o baixo e os samples, isolar as peças, adicionar efeitos e dividir as músicas em partes. Além disso, mesmo que seja um artefato promocional lançado em paralelo ao álbum Donda, o Stem Player pode receber e remixar outras músicas já que possui 8GB de armazenamento.

São diversas as opiniões sobre Donda. Para alguns, o lançamento já tem o posto de melhor trabalho da carreira de Kanye West, enquanto para outros é mais um dos que deveriam acabar no limbo das obras anunciadas mas não publicadas do artista. Ainda assim, é inegável e quase consenso geral que o álbum vai além de seu papel como homenagem fúnebre – é também uma profunda análise do imaginário e da mente de um homem excêntrico. Gostando ou não, Kanye permanece no hall de gênios da indústria musical. 

Olivia Rodrigo: O futuro da indústria?

“God, it’s brutal out here”… É pouco provável que você nunca tenha escutado esse verso. Menos provável ainda que não haja pelo menos uma música da nova princesa do pop na sua playlist.

Na última segunda-feira, 23 de agosto, a cantora Olivia Rodrigo lançou o clipe da música brutal, que faz parte de seu álbum de estreia SOUR. Em menos de 24 horas de lançamento, o vídeo obteve mais de 6 milhões de visualizações no YouTube, mas esse é só mais um dos grandes marcos na carreira da artista. 

Com apenas 18 anos, o primeiro hit de Rodrigo foi lançado no início do ano. Drivers license relata uma decepção amorosa e rapidamente alcançou o primeiro lugar nas paradas, se destacando como uma das principais músicas do ano. Já nos meses seguintes, os singles deja vu e good 4 u (também pertencentes ao primeiro álbum) foram um grande sucesso, virando até trend no TikTok. Além disso, Olivia foi a primeira cantora a alcançar o Top 10 da Billboard Global 200 com quatro lançamentos simultâneos. Para além de suas conquistas no charts, a artista tem demonstrado grande potencial de estrela: diversas capas de revistas, assunto quente diariamente nas redes sociais, queridinha das celebridades, ditadora de tendências e, principalmente, amada pelo público infantojuvenil. É quase impossível encontrar um jovem entre 11 e 19 anos que nunca tenha escutado uma de suas músicas. Olivia é um fenômeno.

A fórmula do sucesso

Olivia vem arrematando uma legião de fãs nos últimos meses e não é difícil analisar o motivo: o combo “estilo descolado + músicas cativantes + uma boa fofoca” é praticamente infalível. A comunicação da cantora com o público é clara e objetiva, passando por meio de sua música experiências muito comuns da adolescência – a identificação e empatia também são pontos cruciais para seu sucesso. Sua paixão pelos anos 90 (década que nem chegou a viver) fica clara por seus visuais dentro e fora dos tapetes vermelhos e também pela estética de seu trabalho: ainda no fim de junho, Olivia apresentou Sour Prom, uma live onde cantava todas as canções de seu álbum de estreia. Como o próprio nome já anuncia, a apresentação era inspirada em um baile de formatura e as fotos promocionais do evento nos remetem a década de 1990 e ao álbum Live Through This, lançado na mesma época pela banda americana de rock alternativo Hole.

O grande buzz da carreira da estrela – que já trabalhava em séries da Disney como Bizaardvark desde 2016 – veio com o lançamento de drivers license e o polêmico término com seu companheiro de série Joshua Bassett que, segundo boatos, teria traído Olivia com a atriz Sabrina Carpenter. As redes sociais foram tomadas pelo debate durante semanas e desde então Rodrigo tem utilizado de uma boa equipe de marketing para manter seu nome como um dos mais quentes da indústria: é queridinha de celebridades como Taylor Swift, amiga de it girls como Devon Lee Carlson e até rosto da campanha de vacinação dos jovens contra a Covid-19 nos Estados Unidos.

Princesa da Disney

Olivia Rodrigo faz parte do reboot da franquia de High School Musical e o destaque da cantora remete a um dos grandes sucessos da Disney: Miley Cyrus, a eterna Hannah Montana, com sua sitcom homônima que durou 5 anos e para muitos é uma memória muito boa com gostinho de infância. Mesmo tendo alavancado a carreira de Cyrus, nem tudo eram flores: a atriz era pressionada pela emissora a manter uma imagem de garota inocente e delicada.

Em 2013, Miley mudou completamente seu estilo, desde as roupas, aos shows e comportamentos, e na época até declarou que a Hannah foi assassinada. Em decorrência disso, a cantora foi duramente criticada pela mídia e pelo público, mas seguiu externalizando o que realmente era.

Diferentemente de Cyrus, Olivia foi recebida com muito mais facilidade e abertura por parte dos tabloides, ouvintes e pela própria Disney. Para o público que acompanhava a época de Demi Lovato, Selena Gomez, Jonas Brothers e tantos outros, ainda é chocante escutar um “shit” (“merda”, em português) em músicas como deja vu, ver no Instagram fotos que há 15 anos seriam estritamente proibidas e entrevistas reveladoras. A nova geração da gigante do entretenimento vem sendo liderada por artistas com muito mais liberdade de expressão e artística, que têm o direito de se apresentarem do jeito que realmente são.

Reprodução/Instagram

E então a pergunta: Olivia Rodrigo é ou não é o futuro da indústria? Não temos como afirmar, mas apostamos fortemente que sim. Há tempos não surgia com tanta força um ícone que unisse gerações e com uma vocação tão grande para estrela. Se estamos certos ou não, o tempo dirá… Por enquanto seguimos com o SOUR em loop em nossos fones de ouvido.

E aí, vai se render a Olivia?