Artistas norte-americanos e o foco em projetos latinos

Não é novidade que o mercado de música latino vem crescendo nos últimos anos e vários artistas ascenderam para o topo das paradas musicais. Em 2019, de acordo com a revista Rolling Stones, a receita da música latina chegou a superar a indústria global de música dos Estados Unidos. 

Esse aumento é motivado principalmente pelo streaming, a maior aceitação de artistas latinos no mainstream e o crossover do mercado norte-americano com o da América Latina. Um exemplo disso, é a música Despacito lançada em 2017. O remix da faixa dos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee com o artista canadense Justin Bieber possibilitou um sucesso ainda maior da música e assim quebrou recordes, ficando 16 semanas no topo da Hot 100 da Billboard naquele ano.

Nesse cenário, a América Latina se torna um mercado muito atraente para ser explorado e alguns cantores norte-americanos que tem raízes nesse espaço aproveitam o momento para lançar projetos em espanhol. Um exemplo disso, é o caso da cantora estadunidense Selena Gomez, que possui ascendência mexicana.

Em março de 2021, a artista lançou o seu primeiro EP em língua espanhola chamado Revelacíon. Com 7 faixas, o projeto conta com colaborações de Rauw Alejandro, Myke Towers e DJ Snake. A obra recebeu nota 83 no Metacritic – site americano que reúne críticas – e se tornou o álbum musical melhor avaliado da cantora. Quatro faixas do projeto entraram nas paradas da Billboard Hot Latin Songs, incluindo os três singles de divulgação De Una Vez, Baila Conmigo e Selfish Love.

Capa do EP Revelacíon de Selena Gomez lançado em 12 de maio de 2021.
[Imagem: Amazon/Divulgação]

Sendo bem recebido pela crítica, Revelación garantiu a Selena Gomez sua primeira indicação ao Grammy Awards 2022 na categoria de Melhor Álbum Pop Latino e o videoclipe De Una Vez foi também sua primeira indicação no Grammy Latino 2021 na categoria de Melhor Vídeo Musical Curto.

Já no ano de 2000, Christina Aguilera surpreendeu lançando como seu segundo álbum, um projeto também totalmente em espanhol. Chamado de Mi Reflejo, o disco em homenagem a cultura do seu pai equatoriano, inclui cinco regravações do seu primeiro álbum, Christina Aguilera, e seis canções inéditas. 

O projeto estreou no topo da Billboard Top Latin Album, permanecendo 19 semanas na liderança da parada musical e foi certificado 6 vezes platina nos EUA pela Associação Americana da Indústria de Gravação, vendendo mais de 360 mil unidades. A recepção da crítica teve avaliações mistas, no Metacritic o álbum só alcançou nota 56 e teve como singles principais Ven Conmigo (Solamente Tú), Pero Me Acuerdo de Ti e Falsas Esperanzas

Apesar das críticas, o disco de Aguilera ganhou três indicações ao Grammy Latino de 2001 nas categorias de Gravação do Ano por Pero Me Acuerdo de Ti, Melhor Performance Pop Vocal por Genio Atrapado e Melhor Álbum Vocal Pop Feminino, sendo vencedora nesta última categoria. No 43ª Grammy Awards, Mi Reflejo também teve uma indicação como Melhor Álbum Pop Latino, mas infelizmente não levou o prêmio para casa.

Capa do álbum Mi Reflejo de Christina Aguilera lançado em 12 de Setembro de 2000. [Imagem: Amazon/Divulgação]

Vinte dois anos após o primeiro lançamento de Christina Aguilera se aventurando na língua espanhola, a artista liberou em janeiro desse ano o EP La Fuerza. Com 6 faixas e participações de Becky G, Nicki Nicole, Nathy Peluso e Ozuna, o projeto é a primeira de três partes que vão constituir o nono álbum da cantora e seu segundo totalmente em espanhol. O primeiro single da nova era, Pa Mis Muchachas, foi uma colaboração feminina que celebra o poder da mulher, inclusive o título do EP faz referência ao poder feminino da mulher latina.

Os dois últimos singles foram Somos Nada e Santo, em parceria com o porto-riquenho Ozuna, grande nome no cenário do reggaeton. O EP fez sua estréia no segundo lugar da parada latina da Billboard Latin Pop Albums e foi aclamado pela revista Rolling Stones destacando o esforço na versatilidade das músicas e os grandes vocais de Aguilera. 

Cenas do videoclipe de Santo, parceria com Ozuna.
[Imagem: Youtube/ Divulgação]

A maior crítica do público em relação a projetos para o mercado latino desenvolvidos por artistas norte-americanos, é a questão de não serem considerados “latinos o suficiente” por algumas pessoas, já que assim como Selena Gomez, Christina Aguilera não fala fluentemente espanhol. Inclusive Gomez teve que contratar um treinador de idiomas para a produção do EP, para que assim pudesse aprender vocabulário e melhorar o sotaque. 

A preocupação surge de uma possível exploração da cultura latina e também da diferença de tratamento de artistas que dedicam inteiramente seu trabalho a América Latina e são ignorados pelas premiações e público, para aqueles que são americanos e só estão se aventurando em um novo mercado.

Apesar disso, muitos cantores continuam se arriscando no idioma, nem que seja apenas com colaborações ou regravações de hits para alcançar o mercado mais desejado da indústria musical. The Weekend, por exemplo, colaborou recentemente com Maluma no remix da faixa Hawái e com Rosalía em La Fama. E por incrível que pareça, até a Beyoncé já lançou em 2007 um EP de regravações em espanhol do seu segundo álbum B’Day

Assim, a tendência é que nos próximos anos essa mistura no pop americano-latino seja ainda mais frequente, principalmente, na era dos streamings que são o maior crescimento do setor na música latina.

[Resenha] O retorno de Selena Gomez para a televisão com Only Murders in the Building

Tomates frescos para Only Murders in the Building (2021). A nova série da Hulu e disponibilizada pelo Star + no Brasil, atingiu 100% de aprovação baseada em 70 críticas pelo Rotten Tomatoes Update. Criada por Steve Martin, Doze é Demais (2003) e A Pantera Cor de Rosa (2006), e John Hoffman, Grace and Franklin (2015), a produção com seu ar cômico difere das demais séries de investigação criminal.

Ao invés de chamar a polícia para resolver o assassinato que aconteceu no prédio ou mudar de apartamento, os três vizinhos: Mabel Mora (Selena Gomez), Oliver Putnam (Martin Short) e Charles Savage (Steve Martin) — que viram amigos pela paixão em comum do podcast criminal All is Not OK in Oklahoma, de Cinda Canning —, decidem criar um Podcast e investigar quem matou Tim Kono (Julian Cihi).

A trama tem uma história instigante e que envolve o passar dos episódios, sendo a 1ª temporada composta por 10 episódios com a média de 30 minutos. Mesmo em busca de um assassino, a narrativa da série continua leve com uma comédia peculiar. 

Steve Martin, Martin Short e Selena Gomez em cena de OMITB / Foto via Hulu

O elenco de peso funciona bem e, apesar da diferença de idade, a química do trio cativa os espectadores. A série marca a volta de Selena Gomez para a televisão, que prova sua evolução desde Os Feiticeiros de Waverly Place (2007). Sua personagem tem um humor ácido e personalidade singular, além de ter seus mistérios sendo descobertos junto com o público.

A dupla, Steve Martin e Martin Short, é veterana na comédia americana e garante o humor na dose certa. Antes de Only Murders, os amigos de longa data já colaboraram juntos em diversos projetos, dentre eles: Três Amigos (1986) e o próprio show Steve Martin and Martin Short: An Evening You Will Forget for the Rest of Your Life (2018). 

Oliver, interpretado por Short, é a alma da série. Sua personalidade única, um tanto mentiroso e sempre preparado para gravar o podcast, seja o momento apropriado ou não, o que garante a graça genuína dos episódios. Charles, o personagem de Steve, é um ator que fez sucesso no passado e atualmente está aposentado. Ele tem aquele típico humor de fazer graça com a própria dor ou até mesmo piadas inteligentes que só é hilário para si mesmo, é isso que deixa os episódios engraçados.

Não basta ter um assassino morando no Arconia (nome do prédio onde se passa a história), eles também são vizinhos do Sting, vocalista do grupo The Police. O cantor fez participação especial sendo um dos moradores e chegou a ser uma das opções de quem cometeu o crime. A comediante Tina Fey também aparece como Cida Canning, host do podcast true crime All is Not OK in Oklahoma, e ainda dá o furo com o plot twist na cena final.

Steve Martin, Martin Short, Selena Gomez e Tina Fey em cena de OMITB / Foto via Hulu

A série surpreende em outros aspectos além dos plot twists sobre a investigação da morte de Tim Kono. O sétimo episódio O Garoto do Apartamento 6B tem a narração  sob o ponto de vista de Theo, um personagem surdo. Quase inteiro sem falas, as cenas guiam a história pelas imagens junto dos efeitos sonoros, os poucos diálogos são propostos através de legendas. Além de ser um capítulo emocionante, ter um personagem importante e a história ser mostrada na sua visão é totalmente inclusivo, isso pode servir de inspiração para futuras produções.

As movimentações das câmeras fluem suavemente, os enquadramentos revelam a cidade de Nova York como a verdadeira protagonista do enredo, como é possível ver logo no primeiro episódio onde o trio é apresentado e o telespectador já está inserido no caos novaiorquino.

O desfecho é um tanto surpreendente e quando retoma a primeira cena do primeiro episódio há uma reviravolta chocante. A série prova que nem tudo é o que parece ser. Para quem gosta de mistério, comédia e investigação criminal, Only Murders In The Building é perfeita e garante um bom entretenimento. A segunda temporada já está confirmada e os fãs garantem o pézinho no Emmy.