Os novos Modernistas: seleção Frenezi de artistas que inovam no cenário artístico brasileiro, assim como na Semana de 22

Texto por Julio Cesar Ferreira

Em comemoração ao Centenário da Semana de Arte Moderna de 22, a editoria de Cultura da Frenezi separa aqui alguns artistas que, assim como naquela data, buscam romper com o conservadorismo e estruturas de poder e renovam o cenário artístico brasileiro atual.

Em meio aos debates sobre a influência da Semana de Arte Moderna, é muito discutido que embora buscassem renovar-se artisticamente, o grupo de criativos selecionados para participar dessa rebelião ainda fazia parte da elite paulistana — com seus privilégios de cor, monetários, entre outros. No entanto, 100 anos depois, ainda acontecem transformações nesse cenário artístico.

Em uma matéria concedida à Revista VEJA, a secretária municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, relembrou que o Modernismo atual concede mudança não somente às produções artísticas, mas também aos protagonistas. ‘’Se era uma parte da elite que realizou a Semana de 22, escreveu o seu manifesto e dava os rumos da cultura, hoje, é o inverso. É a periferia que está dando a direção da cena artística. São figuras negras, indígenas, LGBTQIA+, asiáticas e mulheres, que estão fomentando o debate”, concluiu.

Diante às mudanças constantes no mundo da arte, selecionamos 5 artistas que estão inovando e são os novos protagonistas nas manifestações artísticas brasileiras.

Ventura Profana

[Imagem: Igor Furtado]

Ventura é cantora, escritora, compositora, performer e artista visual. Nascida na Bahia, em sua arte trabalha questões da vivência negra e travesti. Foi doutrinada em templos batistas, e agora mergulha na crença para construir suas obras — sempre de forma crítica, desconstruindo os preceitos da igreja.

Você precisa conhecer… O álbum ‘Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor’ e a música ‘RESPLANDESCENTE – Ventura Profana – podeserdesligado’.

Instagram: @venturaprofana

Samuel de Saboia

[Imagem: Helena Cebrian]

Samuel é pintor e artista autodidata, e aos 15 anos passou a usar sua paixão também como carreira. Com a arte abstrata como maior foco, seu trabalho explora no imaginário pessoal a figura e protagonismo do jovem negro no Brasil.

Você precisa conhecer… As exposições ‘Samuel de Saboia | A Bird Called Innocence’ e ‘O Guia de Sobrevivência Para Adolescentes Incomuns – Por Samuel Saboia’.

Instagram: @samueldesaboia

Grace Passô

[Imagem: Ana Paula Mathias]

Atriz, diretora e dramaturga, em seu trabalho Grace mistura o cinema e o teatro para criar obras que trabalham as experiências de um grupo marginalizado. O ‘filme-teatro’ é como se fosse uma obra cinematográfica, mas mais dinâmica por acompanhar os personagens e as narrativas que são encenadas numa peça.

Você precisa conhecer… Os curtas ‘Vaga Carne’ e ‘República’.

Instagram: @gracepasso

Aun Helden

[Imagem: Arquivo pessoal]

Aun Helden é um espetáculo por si só: seu corpo é seu próprio objeto de trabalho, e a artista utiliza dele para se expressar com modificações — em sua maioria bem distantes da anatomia humana. Sem se apegar a gêneros, a performer usa da maquigem, efeitos especiais e jogos de luz para criar estudos sobre o pós-humano.

Você precisa conhecer… ‘AUN Helden #perfo’.

Instagram: @aunhelden

Ingrid Rizzieri

[Imagem: Arquivo pessoal]

Ingrid é designer e escultora, o que reflete muito bem em suas obras: as jóias não são meros acessórios aqui, mas sim obras de arte que questionam o comum. A ‘Entre Cubos’, sua marca autoral, produz peças para diversas partes do corpo, que tomam seu lugar e chamam a atenção — detalhe para o acessório de nariz na imagem acima.

Você precisa conhecer… Todo o Instagram profissional de Ingrid, o @entrecubos.

A semana de 22 em 2022

Vendo cada um dos criativos que mostramos aqui, fica claro que o movimento criado a 100 anos segue forte no país — temos muitos Modernistas, e agora com ainda mais rostos e vozes: cada vez mais, os grupos esquecidos pela história se levantam para mostrar sua potência. Que possamos valorizá-los.

Centenário da Semana de Arte Moderna: o que foi o evento e sua importância

‘Semana de 22’, o evento que buscou se opor ao conservadorismo artístico e cultural presente no país desde o século XIX e deu novos rumos às manifestações artísticas 

Não se sabe ao certo, até hoje, quem sugeriu a ideia de reunir um grupo de artistas e intelectuais paulistas e organizar uma semana de exposições de pinturas, recitais de poesia e apresentações musicais no Theatro Municipal de São Paulo. Porém, segundo alguns autores, o pintor carioca, Emiliano Di Cavalcanti, pode ter sido essa pessoa que, em 13 de fevereiro de 1922, iniciou a Semana de Arte Moderna e, durante 3 dias, mudou os rumos da arte no Brasil e no mundo, através da oposição à cultura e à arte conversadora presente desde o século XIX. 

Ocorrendo em um contexto de crises políticas, sociais, econômicas e culturais, o Brasil se chocou com as novas ‘’linguagens libertadoras’’ do fazer artístico — com inspiração das vanguardas europeias, como o Cubismo, Futurismo e o Expressionismo – e, consequentemente, o acontecimento recebeu muitas críticas e foi mal interpretado por diversos intelectuais da época. O país não estava preparado para a revolução artística. 

Participaram da Semana de Arte Moderna nomes consagrados do modernismo brasileiro como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tácito de Almeida, Di Cavalcanti, Agenor Fernandes Barbosa. Na ocasião, Tarsila do Amaral, considerada um dos grandes pilares do modernismo brasileiro, encontrava-se em Paris e não participou do evento.

Embora tenha se passado 100 anos, a Semana de 22 exerce, ainda hoje, influência nas discussões artísticas do país, que se estende para outras esferas, como sociológica e histórica. A sua grande importância se deu por trazer ao país uma atualização de linguagens artísticas que romperam com o passado e com as produções clássicas, para criar uma nova linguagem brasileira de arte. A partir daí, o modernismo brasileiro surge, embora antes houvesse já movimentações para essa renovação, como na ‘Exposição de Pintura Moderna’ de Anita Malfatti que foi alvo de julgamentos de Monteiro Lobato, em 1917. 

Por: Julio Cesar Ferreira | @estoujulio

Fontes: fonte 1 | fonte 2