A volta do fascínio pelos seios a mostra

A temporada de primavera-verão de 2022 trouxe para suas coleções apresentadas a tendência da transparência do corpo à mostra, que se mostra recorrente principalmente no busto, colocando seios à mostra ou evidenciados pela estrutura da roupa. Porém, não só a exposição literal dos seios femininos estavam presentes, mas também a exaltação dos mesmos em formato surrealistas. A Schiaparelli de Daniel Roseberry trouxe os mamilos grandes, dourados e triangulares, tal como a jaqueta jeans de Júlia Fox que é a parte central do look. Não só eles, mas também Simone Rocha, Loewe, Lanvin, Prada e Saint Laurent adotaram a tendência. 

A exaltação aos seios não aconteceu agora, ela vem de mais de uma década sendo apresentada em temporadas de desfiles. Jean Paul Galtier com seus seios surrealistas apontados para o futuro é a marca registrada de sua moda. E na música também, com Katy Perry com seus peito-bala no clipe California Gurls. A transparência sempre esteve presente. Nos anos 90 ela era infiltrada de forma que os looks evidenciaram a pele, mas com roupa íntima por baixo ou até mesmo a inserção de uma terceira peça para que nem tudo ficasse tão aparente.

Desde o início do Instagram e das redes sociais, os seios à mostra eram bloqueados pelas plataformas, então as peças eram vistas apenas em desfiles e aparições de eventos, como no full look de cristais transparente de Rihanna em 2014. A transparência aparece em 90 com looks ajustados nas cinturas que realçam a beleza do corpo feminino eram os grandes momentos – geraram diversos comentários tanto pela graciosidade quanto pela repercussão conservadora e moral da época. 

Alexander McQueen, considerado uma enfant terrible de sua época, sempre trouxe essas ‘grandes’ problematizações do período para seus shows. Ele não se importava sobre as opiniões a seu respeito e também sobre seus designs. Abusava e ousava da nudez feminina. As inovações de sua geração são tendências e referências aos dias de hoje.

O legado surreal de Jean Paul Gaultier começou na temporada de outono-inverno de 1984. Uma silhueta única com veludo laranja e rosa, no vestido Bombshell Breasts. Adiante, atraiu com seu visual grandes nomes como Madonna com seu corset usado na tour Blond Ambition de 1990. Contudo, eles têm origem de uma memória afetiva do designer, os espartilhos de sua avó, e que foram primeiramente desenvolvidos para Nana, seu urso de pelúcia.

Em 1992, Gaultier organizou um evento de solidariedade de Moda para a AmfAR (Fundação Americana para a Investigação da luta contra o HIV) no Shrine Auditorium de Los Angeles. O evento contou com uma série de celebridades presentes. Porém. Foi Madonna que marcou a noite para que se tornasse memorável por décadas. A cantora tirou a jaqueta quadrada para mostrar um saia de cintura alta e os seios nus emoldurados por um sutiã. 

Portanto, eles não só atraíram como também inspiraram. Elsa Schiaparelli usava de suas referências e isso vem até os dias de hoje. Daniel Roseberry, atual diretor da marca, insere em todas as suas coleções algum design que cubra de forma artística ou que represente os seios femininos. Na alta-costura de 2021, os seios eram cobertos por um colar dourado em forma de brânquias que faziam parte de um vestido longo preto. Já na última temporada de alta costura 2022, Roseberry assemelhou-os ao de Gaultier com peitos pontiagudos feitos com uma mistura de resina e vinil que vinha do corset e eram circulados com arcos dourados. Os seios de Gaultier são arquivados e guardados numa casa tradicional, mas que são inspirações de designs únicos e consequentemente, com o passar do tempo, são vistos sendo imortalizados. 

Contudo, de um período para cá, essa tendência repercutiu para além das passarelas. Glenn Martens em suas últimas coleções para a Y/Projects desenvolveu looks que apresentam seios desenhados. Desde então, celebridades – como Anitta, Bruna Marquezine – aderiram a esse trend. Também podemos notar a influência de Gaultier e seus peitos em forma de cone com as passarelas recentes de Daniel Roseberry para a Schiaparelli, com uma das fortes inspirações do designer sendo antigos estilistas que o ajudaram a nutrir seu amor por moda e desenhar.

A Loewe, dirigida por JW Anderson, na última coleção de outono-inverno 2022, enviou como parte dos convites para seu desfile um ‘lenço’ de látex quadrado, que foi usado por alguns jornalistas como cachecol no momento da apresentação. Mesmo que a casa espanhola seja tradicional com seus fundamentos como uma casa baseada em couro, dessa vez, além dele, utilizou do plástico líquido para desenvolver as peças de blusas firmes nos corpos que eram transparentes.  

Reprodução: Vogue Runway, Loewe FW 2022

Já Isabel Marant na sua coleção de outono-inverno 2022, aderiu à transparência com uma peça manga longa e gola alta feita de rede repleta de cristais, assim como no desfile da Ludovic de Saint Sernin. Os cristais e brilhos têm feito presença há algumas temporadas. Unir ambas tendências fez com que os telespectadores do desfile vibrassem com o looks que contemplava uma calça cargo que quase passou despercebida fazendo dupla com a blusa de cristais.

Pela história, vemos que essa exaltação pela transparência e a exposição dos seios vem de décadas. Esse impulso e ânsia sempre foram requisitados e abordados por designers e mulheres de todas as épocas. Ambos, têm a ver com o encantamento ao corpo feminino. Percorre muito além disso. Representa a autoestima, alívio, conforto e contentamento com o próprio corpo. Vislumbrar pessoas com estaturas reais, compreendendo e aderindo a tendência é o que incentiva as mulheres a se aceitarem genuinamente. 

Reprodução: Vogue Runway, Isabel Marant FW 2022

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O Comeback da Diesel

O estopim oficial do mais novo ’comeback’ da marca italiana Diesel foi, sem dúvidas a coleção apresentada durante a semana de moda de Milão referente a temporada de Outono Inverno 2022. A primeira coleção assinada pelo novo diretor criativo Glenn Martens fez com que todos os críticos e amantes de moda dessem uma nova chance para a marca. Uma coleção skin-baring, sexy, sublime, inovativa, cheia de jeans e couro. Desde o Y2K clubwear até o uniforme de motociclista, com códigos joviais, rebeldes, que conversam genuinamente com a nova geração de consumidores.

Entretanto, seu grande plano de reestruturação já vem acontecendo desde 2020. Mesmo em meio ao período caótico da pandemia, a Diesel já trilhava um futuro no qual voltaria a conversar com gerações mais novas, adaptando novas tendências e voltando ao fashion radar. Esse futuro é agora! Muito antes da Diesel ser “deixada de lado”, ela construiu um legado para si mesma, marcada pela estética dos anos 2000, provocativa e rebelde. Nos anos 90, ela era a marca mais ‘cool’ da cena da moda. 

Muito antes dos algoritmos tomarem nossas vidas e nos disserem o que gostamos ou não, a Diesel jeans já se estabelecia como marca do momento e queridinha das celebridades – Paris Hilton, Lindsay Lohan e Mariah Carey usavam Diesel dos pés à cabeça – Também instituída como marca ‘go-to’ dos clubbers da época que iam à loucura com os ‘distressed-jeans’ que viam numa infinidade de modelos. 

Campanha de publicidade da década de 90 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

Fundada em 1978 por Renzo Rosso, a Diesel já sustentava seu hype de melhor e mais ultrajante marca de jeans desde sua criação. Com suas lojas físicas de ponta e publicidade criativa e provocativa, a marca facilmente virou uniforme das ‘cool kids’ e em 1998 ganhou o título de ‘marca do momento – imprevisível, irreverente e rebelde’ pelo The Wall Street Journal. De Nova York a Berlim, a Diesel misturava o estilo ‘europeu chique’ com o jovem e cool americano, sendo high fashion e high street. Afinal, todos queriam poder usar a emblemática e ardente marca do momento. 

Campanha de publicidade da década de 2000 para a Diesel (Foto: Reprodução/Pinterest).

No entanto, apesar de toda sua fama, a Diesel perdeu sua relevância cultural e seu espírito revolucionário. Apesar de ter-se mantido consistente e ainda um negócio de sucesso, a marca viu-se perdendo para a rigorosa competição que agora tomavam os postos de queridinhas da juventude – a ascensão da londrina TopShop, o apelo de massificação da Abercrombie & Fitch e contemporâneas marcas de streetwear como Supreme e Palace. O apelo, o desejo e o símbolo de status que a marca proporciona era cada vez menor. 

As fashions trends e estratégias de marketing se desenvolveram e mudaram ao passar das décadas, era cada vez mais difícil para Diesel estabelecer uma comunicação com seu consumidor, sua missão (ou mensagem) se tornou pouco clara – até mesmo internamente. A marca perdeu sua oportunidade de participar do movimento de streetwear no seu ápice em meados de 2010, ou mesmo da volta da logomania na moda. 

Em 2020, contudo, com um novo duo de diretores executivo e criativo, a marca já almejava sua volta. O novo CEO da Diesel, Massimo Piombini – ex-CEO da Balmain, que passou também por grifes como: Valentino, Bulgari e Gucci – decidiu juntar-se a marca, que diferente de seus trabalhos prévios não se trata de uma marca high couture, pois a mesma foi uma das primeiras marcas globais a terem um grande impacto nele quando mais jovem, Piombini sentia que a história e narrativa da marca precisava ser restabelecida para os consumidores de hoje. 

Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Marca)

Para ele, o problema não estava no produto ou na comunicação, mas na cultura da marca. Piombini, agora quer focar em modelos de jeans mais impactantes, enquanto investe rigorosamente em sustentabilidade. 

Rosso, criador da marca, reafirma sua missão de recriar o antigo espírito da marca que a estabeleceu nos anos 80’ e 90’ ao contratar Massimo Piombini e Glenn Martens. “Essa é uma revolução cultural para a marca”, diz Massimo. Não só externamente como vimos em suas recentes coleções, desfiles e publicidade, mas também internamente, reestruturando os valores de base da marca entre seus funcionários e colaboradores. 

Em novembro de 2021, a contratação do autêntico, inovador e promissor designer belga, Glenn Martens, seria a chave de ouro para a estratégica revolução da Diesel. Dono de sua própria marca, Y/Project, e sua impressionante colaboração com Jean Paul Gaultier. Martens atingiu o ápice dos holofotes e da criatividade este ano e foi nomeado como “most intriguing designer,” pela revista i-D. Sua contratação no ano passado foi um dos mais excitantes da moda e em resposta ao porque aceitaria a proposta na marca, Martens revelou ter um apego emocional pela Diesel, já que a mesma foi a primeira marca para qual juntava dinheiro para poder comprar’. Não é à toa que Martens consegue capturar a essência da marca, ao mesmo tempo que a faz novamente queridinha das celebridades e do público. 

Vinte anos depois a gigante Diesel está de volta – e de forma literal, já que vimos sua grandiosidade representada por enormes bonecos infláveis, que por sinal vestiam Diesel, no seu mais recente desfile. A marca volta trazendo e protegendo seu DNA ao mesmo tempo em que o tenta melhorar ainda mais. O jeans volta a ser o centro das atenções e é apresentado das mais diversas formas – escultural, revelador e apertado à pele e largo, distressed, cintura alta e boyfriend. Além dos designs, a marca volta a entender que atualmente a relevância das marcas se baseia muito mais na ética do que na estética, mais do que somente os jeans, a marca era antigamente adorada pelas suas campanhas provocativas que abordavam política, sexualidade, raça e religião – a marca foi uma das primeiras a falar sobre minorias com suas campanhas que muitas vezes contavam com beijos gays, pessoas negras e a liberdade sexual da mulher. 

Martens também tem como seu objetivo se engajar com a sustentabilidade, tornando o jeans menos poluente e levando essa sustentabilidade e circularidade ao consumidor. O desejo é levar a Diesel além do que ela já é, a tornando uma marca ainda mais divertida, sexy, experimental, atraente, prazerosa e provocante.

Glenn Martens no final do desfile da Diesel FW 2022 (Foto: Reprodução/Vogue Runway)

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Frenezi nas Semanas de Moda de Outono Inverno de Paris

Finalizando as coleções da temporada de Outono/Inverno de 2022 entramos na semana de moda de Paris, cidade conhecida por ter o mais extenso e completo calendário. Com mais de oito dias e sendo um epicentro da moda internacional, Paris conta também com as maiores marcas contemporâneas, com os grandes conglomerados de luxo — principalmente LVMH e Kering — apresentando a maioria de suas marcas durante a semana.

O governo francês também não deixa a desejar, impulsionando a moda nacional com o próprio sindicato de Alta-Costura e Moda que monitora e organiza as semanas de moda no país. Paris funciona como um termômetro econômico da temporada, analisando desde dos clientes da moda de luxo até mesmo os eventos que acontecem na cidade durante os dias.

Durante a Paris Fashion Week, a geopolítica internacional se virou para o conflito em território ucraniano, e apesar dos grandes esforços de muitos da moda em tentar parecer sentimentais e contemplativos durante esse período, a semana não foi pausada e os eventos e festas continuaram regularmente. Acredito que das homenagens que aconteceram em Paris, a mais genuína e verdadeira veio de Demna Gvasalia na Balenciaga, falando de sua própria experiência como refugiado de guerra. Depois disso, aqui vamos com a cobertura completa da editoria de Moda da Frenezi com o final das apresentações da temporada de Outono:Inverno 2022.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Paris aqui.

Foto retirada do Instagram Oficial de Anthony Vaccarello, diretor criativo da Saint Laurent.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono Inverno em Paris:

DIA 1

Off-White, a marca que não reconhece limites criada em 2012 por Virgil Abloh, marcou o início da temporada de Outono/Inverno 22 em Paris. Pouco mais de um mês após a apresentação da última coleção de Abloh para Louis Vuitton, na qual era diretor-criativo, chegou a vez de sua upstart personal label, que agora já não é mais upstart e pode muito bem ser equiparada a gigantes da Couture.

A apresentação que ocorreu na segunda-feira, 28 de fevereiro, na Galeria Lafayette foi a primeira homenagem da marca ao seu criador desde sua repentina morte em novembro do ano passado. Essa também é a última coleção feita e supervisionada por Virgil.

Nomeada ‘Spaceship Earth, an imaginary experience’, a apresentação foi ao mesmo tempo um tributo ao designer, mas também um sneakpeak do que será a Off-White no futuro. A questão e o ar de dúvida surgiram quase que imediatamente após o público saber do trágico falecimento do estilista (nacionalidade). O que será agora? Agora que mais do que nunca marcas e designers precisam estar com os sentidos aguçados para todos e quaisquer acontecimentos, já que a indústria da moda é uma das efêmeras e populares indústrias da atualidade. Entretanto, o desespero e aflição não são sentimentos assim tão desconhecidos, o mesmo aconteceu seguindo a morte do lendário Karl Lagerfeld ou do icônico Alexander McQueen.

A resposta foi nada menos que sorte por Virgil Abloh ser de fato genioso e à frente de todos. A coleção foi desenhada por Abloh e completada pelo seu time criativo e colaboradores, que seguiram um de seus inúmeros inspiring quotes: “Question everything”.

O desfile foi apresentado em dois atos: ready-to-wear e ‘Couture’. O primeiro focado no que a Off-White foi tão famosa por nos seus primeiros passos como marca: o streetwear, mas desta vez com o tom mais ‘adulto’ que Virgil queria alcançar para a marca. O estilo invencível da marca foi combinado com uma alfaiataria elegante e até sóbria, nos padrões Off-White; E o segundo tema, o high fashion que a marca migrou (e ainda migra) para: couture ou streetwear couture.

Na coleção ready-to-wear pudemos ser testemunhas de um incrível jogo de proporções. Highs com lows. O clássico com o nada óbvio. Cargo gears acompanhadas por vestidos de cetim, volumosas saias de tule com camisetas estampadas, alfaiataria elegante, jaquetas de esqui com tons sóbrios, tênis com vestidos de festa…

Entre os modelos e convidados estavam diversas celebridades e amigos pessoais de Virgil: Pharrell Williams e sua família na primeira fileira, a tenista Serena Williams e a DJ Honey Dijon, para citar alguns exemplos. a

Já a segunda parte da coleção, que Virgil começou a desenhar meses após sua ‘aparição surpresa’ na semana de Alta Costura parisiense no ano passado, foi pensada para representar um ‘tipo de mulher’ a cada looks: a noiva (desfilada por Bella Hadid de tênis e saltos na mão); a empresária; a diva ou a skatista (vestindo uma varsity jacket com uma volumosa saia de tule). Misturando referências subculturais ou estampas (“no snitching”) nunca antes pensadas de serem usadas em Couture.

Couture é definitivamente o epítome da moda, mas Virgil parece trazer esse mesmo couture de forma mais descontraída ou até alcançável. Afinal, seu legado teve início quando começou a inspirar gerações e a dizer-lhes ‘tudo é possível’. 

“The ethos of Off-White is it’s not just clothes. My inspiration and motivation is more the humanity level”

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

O segundo dia da semana de moda de Paris começa com mais uma coleção da Dior sob a direção criativa de longa data de Maria Grazia Chiuri. Uma apresentação no Jardin de Tuileries em Paris com uma atmosfera assinada pela artista Mariella Bettineschi na grande instalação da coleção, com porta retratos em todo seu entorno com retratos femininos famosos na arte europeia datando do século XVI até XIX, removendo figuras dos seus contextos originais e todas em preto e branco.

A coleção foi batizada de ‘A próxima era’ com a inspiração bruta sendo como o mundo retrata e se envolve da condição moderna do papel da tecnologia em nossas vidas. Parece anos luz de distância da coleção de Primavera/Verão 2022, qual foi inspirada na Dior na década de 1960, assinada por Marc Bohan entre mini saias vibrantes e cortes retos, homenageando uma característica importante na história da marca.

Apesar do tema desta temporada parecer muito interessante e com diversas formas de ser estruturado, a próxima era parece muito com as antigas coleções de Chiuri para a marca, com um desenvolvimento confuso e até um pouco chulo do tema nas roupas em si. Rendas combinadas com tipos diferentes de armaduras, camisetas com slogans sobre o futuro feminista, apesar de ser uma visão diferente dos outros trabalhos da designer para a Christian Dior, acaba parecendo razo a interpretação do mesmo no desenvolvimento.

“Temos essa ideia de que a tecnologia é algo um pouco irreal”, disse Chiuri para a jornalista Sarah Mower. “Usamos mais a tecnologia para comunicação e pensamos menos em como ela pode nos ajudar a viver melhor. Estamos acostumados a esperá-lo em coisas muito práticas: máquinas de lavar, mas não moda.”

O desenvolvimento da Saint Laurent pela direção criativa de Anthony Vaccarello é uma experiência única de se acompanhar. O designer encontrou uma situação complicada na marca em sua estreia, uma clientela que era fiel demais a seu antecessor criativo, pois Slimane criou não só um cliente mas um estilo de vida para a Saint Laurent, sem contar com um conglomerado por trás com sede das vendas da marca.

Com paciência ele foi entendendo a mulher Saint Laurent aos poucos, trazendo para mesma a sua própria visão criativa para a marca, uma node um pouco mais sensual e uma alfaiataria mais fina e refinada ele foi conquistando seu lugar na marca, e hoje traz seus melhores trabalhos até então.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Se distanciando muito do que o Heidi Slimane apresentava, apreciando a história e os arquivos da própria marca, vemos o Outono/Inverno de 2022 assinado por Vaccarello como uma carta de amor à Alta-Costura de Yves Saint Laurent na década de 1980. Com ombros altos e estruturados e vestidos retos e longos, ele mostra a todos que ninguém faz o chic effortless como a Saint Laurent.

Ternos perfeitamente alinhados, formas de triângulos invertidos, cores sóbrias mas quentes, acessórios grande e prepotentes, tudo isso em conjunto com novas formas de texturas dentro da coleção, de um terno com detalhes em cetim até opulente peles durante toda a coleção — vale lembrar que o grupo Kering baniu as peles verdadeiras de animais — e longos vestidos de festas que inclui transparências segmentadas, assimetria e rouching em diversos pontos.

É uma nova era para a Saint Laurent de Vaccarello, uma que olha para o interior da marca como um todo e faz associações interessantes para o consumidor contemporâneo, ele consegue reviver a musa YSL em sua melhor e mais atual forma a cada temporada.

DIA 2

Intitulada Princípios da Nossa Geometria’, a coleção Outono/Inverno 2022 da Courrèges foi desenvolvida por Nicolas Di Felice (atual diretor criativo da casa) com base nos estudos de André Courrèges (fundador da marca e engenheiro civil) acerca da aerodinâmica. Capas, abas e trench coats unem formas orgânicas à silhuetas exageradas, em modelagens meticulosamente proporcionais. De forma menos literal, o estilo aviador foi explorado na coleção através de jaquetas em shearling, óculos esportivos e amarrações cruzadas, inspiradas em cintos de segurança.

Decotes e recortes geométricos foram os pontos-chave da coleção, que possuía uma sóbria cartela de cores, contrastando com metalizados prateados em acessórios, botas over the knee e pontuais peças de roupa.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Com inspirações — literalmente — nas alturas, Nicolas ‘manteve os pés no chão’, focado em peças usáveis; “fazer roupas para as pessoas é o meu trabalho, não pode ser apenas sobre minhas fantasias”, disse em entrevista concedida para a revista ‘i-D’. Criar peças “reais” também era a principal motivação de Courrèges, que revisitou os arquivos da marca.

O clubwear aparece como um símbolo de liberdade, os cut outs e comprimentos mini são perfeitamente equilibrados por materiais como tricô e alfaiataria, vestindo igualmente em termos de elegância e bom gosto, mulheres de 20 ou 60 anos.

A marca das irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen, que costuma apresentar apenas looks em tons sóbrios, trouxe para a temporada de Outono/Inverno uma cartela diversificada, repleta de cores saturadas em peças pontuais — mas ainda assim uma novidade para a The Row, que segue uma linha minimalista.

O mix entre sportswear e alfaiataria, em modelagens oversized e aparentemente despretensiosas, é pensado para a volta ao trabalho presencial, tornando este momento marcante (e de certo modo, angustiante) mais confortável e divertido.

Ao invés de um desfile, Dries Van Noten preencheu uma mansão particular com sua coleção Outono/Inverno; assim, seus convidados puderam apreciar melhor as diferentes texturas de suas peças. O retorno experiencial de Dries, despertou novamente, a sensualidade da marca, perdida durante a pandemia.

O surrealismo setentista dos trabalhos do arquiteto e fotógrafo italiano, Carlo Mollino, serviu de inspiração para as peças ora simples, ora extravagantes. A geometria das peças também atraiu a atenção do público, volumes e formas deram vida às fantasias do designer.

A primeira experiência de Jonny Johansson, designer e fundador da Acne Studios, com a costura, foi ao customizar peças em jeans de seu guarda-roupa, durante a adolescência; esta inspiração foi traduzida pelo patchwork e upcycling. Elementos que o incomodavam, como desfiados, desbotados, bordados florais — grandma style — e amarrações, agora o confortam, afinal, precisou lidar com eles por tempo suficiente para aprender a combiná-los de forma cool.

O futurismo se fez presente através dos tecidos metalizados e do styling distópico (couro + layering + modelagens oversized + aparência destroyed + peças manchadas) e extravagante, mas também, sensual, expressando a essência da marca, em um cenário totalmente branco.

Roupas com estruturas que lembram armaduras, podem ser consideradas a assinatura de Olivier Rousteing, diretor criativo da Balmain. O motivo? O designer sofreu um grave acidente, no ano de 2020, onde teve 80% do seu corpo queimado; Olivier passou por um longo processo de recuperação, necessitando do uso de curativos e equipamentos de proteção, que o mesmo enxergava como armaduras, para enfrentar a luta diária.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

As peças também são associadas à necessidade de sentir-se protegido e confortável diante do momento de fragilidade em que precisou esconder-se, por vergonha (das cicatrizes) e medo do body shaming e tantos outros discursos de ódio, que tomam conta das redes sociais.

A ilusão de ótica criada através das estampas Trompe L’oeil aparece como alerta à dismorfia corporal — um transtorno psicológico que envolve o hiperfoco em uma característica física específica, onde a pessoa tenta a qualquer custo corrigir esse “defeito”, seja através de filtros, Photoshop, ou procedimentos estéticos. Também pode ser interpretada como uma crítica ao Metaverso, vidas ilusórias, que mascaram um descontentamento interno.

Ao longo do desfile, dividido em 3 atos, a estética distópica, com ar militar, finalmente deu lugar à leveza e fluidez dos vestidos de gala, que pareciam vestir verdadeiras deusas, simbolizando a esperança — vale ressaltar que qualquer semelhança com a situação geopolítica atual, é mera coincidência; ainda assim, o designer usou suas redes sociais para demonstrar repúdio a todas as formas de violência e fazer um apelo pela paz.

A estética sexy, poderosa e brilhante da marca foi adaptada ao estilo esportivo através de elementos do futebol americano e do motocrosssempre à la Balmain

O futurismo esteve presente nos mais de 100 looks da coleção, que apesar de extensa, foi bastante coesa; Olivier conseguiu, com maestria, equilibrar materiais delicados — como plumas e rendas — a um estilo pesado e desconstruído.

DIA 3

Com mais de 71.7 milhões de visualizações a trend ‘Euphoria High School’, no TikTok, brinca com os figurinos um tanto quanto ousados para ir à escola dos personagens da série. Vestidos com recortes, roupas curtas e maquiagem e cabelo impecáveis são alguns dos looks escolhidos por personagens como Maddy e Cassie — e que são reproduzidos de brincadeira pelos usuários após um corte no vídeo, que marca o momento de transição de um look “normal” para ir à escola para um look “euphorico”.

Mas e se essa brincadeira se tornasse realidade? Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer, dupla à frente da Coperni, parecem ter atingido este feito com a coleção de Inverno 2022, apresentada ontem em Paris. Em um cenário repleto de lockers escolares, a trilha sonora anunciava o início do desfile após um sinal de recreio: “o sol está brilhando no campus da Coperni High. Estamos prontos para começar agora, aumentem os volumes.”

Não demorou muito para que um casting de peso — composto por nomes como Bella Hadid, Gigi Hadid e Lila Moss — começasse a desfilar as peças da marca: maxi casacos de pêlo colorido e mini saias com fendas e aplicações de ilhós foram algumas delas.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A coleção tem como base uma alfaiataria desconstruída tanto a partir de recortes quanto na extensão da própria modelagem. Alguns blazers ganham capuz e criam um visual à la Aläia, enquanto outros fazem parte de conjuntinhos em que o cinto é na verdade utilizado na barra do top, e não na da saia. Já os trench coats recebem recortes laterais e são torcidos no centro-frente, criando um visual contemporâneo e casual ao mesmo tempo.

Mas o destaque mesmo fica por conta dos vestidos O look 30, um modelo azul bebê com recortes vestido por Lila Moss, poderia perfeitamente ter saído direto do armário de Maddy Perez. Já os cinco últimos do line up, confeccionados em tecidos fluidos e decorados com flores no mesmo material, traduzem com maestria o DNA parisian-easy-chic da marca. Em um jogo de texturas, decotes e drapeados mil, é assim que a garota Coperni decide ir à escola.

Em outubro do ano passado a Chloé foi a primeira marca de luxo a conquistar um selo B-corp de sustentabilidade, que garante que a empresa tem impacto socioambiental positivo. Sendo assim, à primeira vista, a quantidade de peças em couro do Inverno 2022 da marca podem assustar. Mas Gabriella Hearst, diretora criativa da marca, explica: “Para mim o couro é um subproduto da indústria da carne. Então, desde que você saiba de onde ele vem e como é tratado, você está utilizando lixo.”.

Vestidos com mangas bufantes, calças em corte de alfaiataria e trench coats são algumas das peças confeccionadas no material, que dessa vez aparece mais envelhecido que em outras estações. A apresentação é, no geral, mais limpa e bem editada, com looks formais e bastante alfaiataria tradicional. Os clássicos ponchos e suéteres coloridos da designer também marcaram presença, desta vez com estampas de paisagens formadas através do entrelaçamento dos fios.

Um mini vestido de couro em estampa de cobra com aberturas laterais: esse foi o modelo escolhido por Bruna Marquezine direto das passarelas de Outono 2022 de Ludovic de Saint Sernin para curtir uma noite de balada em Paris. A coleção foi talvez uma das mais básicas do estilista, que é conhecido por seus designs super sexys e repletos de cristais.

Ludovic quis reinterpretar e explorar os códigos do daywear nesta temporada, produzindo maxi suéteres de tricô, camisas oversized e saias longas em linho. Vestidos longos e fluidos e conjuntos de saia e blusa em malha também marcam a apresentação e reforçam o caráter menos experimental da coleção.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Rick Owens já é, naturalmente, um designer que falava sobre o fim do mundo e estéticas distópicas muito antes da pandemia e da popularização deste tema. Roupas rasgadas, paleta de cores mais sóbria e silhueta oversized já se tornaram clássicos do estilista, que geralmente apresenta suas coleções com efeitos especiais de luz e fumaça.

Mas, surpreendentemente, sua temporada foge dessa estética: vestidos longos em paetê, silhuetas mais justas ao corpo e o uso de cores mostra que Owens, nesta temporada, parecia estar mais otimista. “Durante tempos sombrios, a beleza pode ser uma das maneiras de manter a fé” declarou o estilista, explicando que a apresentação é sim um respiro em meio ao caos que o mundo e principalmente a Europa vem vivendo.

“Eu quis fazer algo super evidente e super confortável, fácil de vestir e sexy sem esforços. Ela é bem discreta e ao mesmo tempo super poderosa.” declarou Isabel Marant sobre o seu Inverno de 2022. As apresentações da designer são um ótimo momento para prestarmos atenção nas futuras tendências da temporada e em como o público irá incorporá-las, já que Isabel é conhecida por fazer uma moda mais para o dia-a-dia e focada no vestuário em si.

Sendo assim, as botas over-the-knee e maxi suéters serão com certeza peças-hit da temporada — assim como a brincadeira de misturar peças mais arrumadas com outras em linguagem esportiva. Em um lineup ultra colorido já clássico, a designer deixou claro que, acima de tudo, o conforto persiste como tendência em tempos pandêmicos.

DIA 4

No dia 4 de março, Issey Miyake apresentou uma coleção de Outono/Inverno 2022 em Paris que celebra e destaca a beleza da natureza, “Esta coleção é inspirada em plantas – e principalmente vegetais”, disse Satoshi Kondo. Nomeada de ‘Sow It and Let It Grow’, a paleta de cores foi inspirada em cores reais de frutas e legumes. Os looks da coleção são animados e exploram o crescimento de texturas em tecidos, cores fortes e silhuetas irregulares.

Nina Ricci é conhecida por seus famosos perfumes. Contudo, desde a saída dos diretores-criativos Lisi Herrebrugh e Rushemy Botter, Nana Baehr desenvolveu para essa coleção de outono-inverno 2022 looks para a nova mulher da marca. Resgataram arquivos e estéticas da marca com looks de peças ‘simples’ com muita extravagância. Estampas diversificadas, sem recorrer ao arquétipo floral, mas com flores em spray como camuflagem. A tradição de alfaiataria da casa foi desenvolvida com materiais tecnológicos, como nylon acolchoado. Um pequeno vestido preto tinha um tecido de tule no corpete que era pura extravagância. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Yohji Yamamoto desenvolveu para sua coleção de outono inverno 2022 looks que inicialmente começaram com jeans e foram levados até o fim do desfile como grande destaque, seja cortado, drapeados ou assimétricos. Os looks jeans fizeram parte de looks inteiros e também como peças únicas como terceira peça. Não é dessa temporada que as jaquetas puffers tem aparecido, dessa vez, eram jaquetas oversized com mangas grandes. Muitos looks tiveram a participação de camisas brancas de algodão, que de início eram destaque que depois foram apenas parte de outras composições. A alfaiataria de Yamamoto chegou de forma expressiva, desconstruída e todas diferentes. 

VTMNS é um projeto de Guram Gvasalia, irmão do diretor criativo da Balenciaga – Demna Gvasalia, ramificado da marca Vetements. O primeiro desfile da marca aconteceu nesta temporada de outono-inverno 2022. Gvasalia desenvolveu uma coleção streetwear com uma alfaiataria despojada e com um logo incomum, mas que reflete a personalidade do diretor criativo: um código de barras. Jaqueta, jeans, agasalhos puffers completavam a coleção do projeto. O streetwear é uma característica forte da família Gvasalia, Guram não apresentou indícios de que sairia longe deste caminho. 

Por mais que muitos da indústria da moda nessas últimas semanas não tenham reagido de maneira significativa a respeito dos recentes acontecimentos como a Guerra na Ucrânia, o desfile teve um minuto de silêncio a todas as vítimas afetadas pela guerra. Para essa coleção de outono- inverno 2022, Marine Serre, diretora-criativa da marca, desenvolveu uma coleção upcycling como de costume. Contudo, não apresentou a estética de logomania de meia lua como tem estado presente em todas as últimas coleções da marca. 

A coleção faz parte do projeto Hard Drive da marca, e fica em exibição nos dias 5 e 06/03 no centro de artes Lafayette Anticipations, em Paris. Na loja criada para a exibição, os visitantes podem trazer qualquer material de tecido e customizá-lo com o famoso logo clássico da marca, uma meia lua. Parte das vendas será destinada à ong Médicos Sem Fronteira para os refugiados da Ucrânia.

A diretora criativa optou por trazer diferentes estéticas na coleção. Uma delas, que tem estado muito presente nas semanas de moda, é a punk rock. O xadrez vermelho com preto esteve fortemente presente em looks como saias, casacos e em cachecóis azuis e pretos. Outra, foi o patchwork que é o upcycling que Marine sempre faz questão de inserir em suas coleções. Um trabalho manual e sustentável feito através de retalhos de tecido em diversos formatos e cores, foi desfilado com a inserção de diferentes cores, logos e frases, representada em um vestido longo com luvas em calças e casacos. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Trench coats e casacos de frio com pelos na gola e manga em couro azul com duas cores de azul, o marinho e um mais claro. Além de, recortes quadrados em tons de azul e marrom. O famoso hippie chic com toque refinado veio em tons terrosos e em estampas astrólogas, uma estética apurada e um ar romântico, mas não jovial. 

Marine sempre faz questão de reforçar a importância de seus discursos ambientais e comportamentais, como o uso de  tecidos reciclados ou técnicas de upcycling, destacando o compromisso com a sustentabilidade. Marine pensa em cenários apocalípticos para a construção das peças, como guerras climáticas, civilizações ameaçadoras e extinção em massa. 

A marca tem crescido e se destacado mostrando sua capacidade na indústria. Apesar de seu logo de meia lua não ter estado presente nesta coleção, outros já familiarizados foram vistos, como astrológicos. Marine tem conquistado fortemente fãs da moda e artistas da cultura pop. Ela faz seus designs com naturalidade e de forma orgânica, e sua trajetória parece estar bem encaminhada. 

J.W Anderson desenvolveu para a coleção de outono-inverno 2022 da Loewe formas de automóveis delineadas em bainhas de vestidos, sapatos de salto alto sob camadas transparentes de malha, além da tendência de tecidos transparentes. 

O designer apresentou uma estética surrealista, facilmente referencial a Salvador Dalí, René Magritte ou a própria estilista surrealista original, Elsa Schiaparelli, com looks de lábios em contorno dos braços e mãos e na frente dos vestidos. Anderson se concentrou em roupas mais simplistas. Continuou experimentando linhas e formas volumosas (ambas vistas em temporadas passadas na Loewe e em sua marca homônima, J.W. Anderson). Suéteres com golas circulares levantadas como travesseiros e cardigãs esvoaçantes com mangas acolchoadas estavam presentes nesta coleção. 

Anderson mencionou que ele também estava olhando para a arte feminista. Havia referências à surrealista Meret Oppenheim e Lynda Benglis. Uma série de squashes de Anthea Hamilton foi apresentada ao público no show. O escultor e o diretor criativo já se reuniram nas apresentações de arte de Hamilton na Tate. 

A paleta de cor dos looks eram mínimas. Tom sobre tom e tons terrosos, nada muito estampado e colorido. Como indica o comunicado de imprensa que acompanhou o desfile, esta coleção foi concebida para destacar uma ‘moda que provoca uma reação, despida de primitivismo cru com emoção e fantasia’. De fato, é difícil não ver a dimensão sensual na coleção do designer: como as leggings de látex, tweed, seda e malha foram combinados; às peças-chave foram vestidos de couro moldado, tops de látex que revelavam os seios das modelos, jaquetas enroladas no pescoço ou na cintura e outras peças reveladoras. 

Anderson sabe fazer looks ousados e que realçam o lado sexy e exuberante da mulher. Dessa vez não foi diferente. O toque surrealista incorporou suas criações gerando ainda mais desejo e valor.

DIA 5 

Desde a saída de Alber Elbaz, Lanvin enfrentou crises estruturais e financeiras no mercado de moda, e desde a nomeação de Bruno Sialelli, que tem se mantido no cargo há 3 anos, o destino aparenta estar sorrindo novamente para a maison francesa, fundada por Jeanne Lanvin.

A temática dos anos loucos de 1920 e do Art Deco parece ter sido o ponto de partida para um grande número de designers durante a temporada de Outono/Inverno 2022 e com Bruno Sialelli, diretor criativo da Lanvin, não foi diferente.

O designer francês revisitou os arquivos antigos da fundadora da marca, que viveu de fato nesse período, como fonte de estudos durante seu processo criativo. “Há algo nesses momentos entreguerras que parece preocupante, mas otimista ao mesmo tempo, mas são estes os momentos em que nossa criatividade e cultura devem levantar suas propostas de ideais como um ‘remédio’ para essas preocupações”, disse Sialelli.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A coleção foi apresentada em formato digital como um filme de art noir, justamente com o objetivo de ambientar os espectadores nessa temática dos anos de 1920. Sialelli teve uma atenção muito focada em traduzir as silhuetas da época para um consumidor contemporâneo. O designer focou nas silhuetas em linha ‘Í’ resgatando as roupas de formas secas tão características da época, “silhuetas do passado ao presente” de acordo com o próprio designer.

Peças em veludo molhado, rendas, vestidos bordados com miçangas, looks com muita transparência com telas de tule e a transição de uma silhueta mais seca para silhuetas mais volumosas ao final do desfile, mostraram bem a interpretação da moda do período entreguerras para uma linguagem mais contemporânea e não necessariamente literal.

A cartela de cores da coleção contou com tons de azul, rosa, vermelho, amarelo, nudes e preto; que circulavam entre os looks em peças lisas ou em estampas de motivos geométricos, motivos inspirados na fascinação de Jeanne Lanvin pelas formas do Egito Antigo, como as esfinges.

Logo próximo ao final do tempo de passarela, o francês introduziu looks que exploravam os babados e os tecidos telados, esmiuçando o potencial de textura e o efeito volumoso que estes causam nas formas finais das peças.

Com a direção criativa de Bruno Sialelli, a Lanvin gradualmente retorna aos seus tempos de glória sob os holofotes da moda de luxo. As impressões do designer combinadas com o histórico da marca com certeza dão motivos suficientes para acompanhar com maior atenção o trabalho da marca nas próximas temporadas de moda.

Andreas Kronthaler mergulhou sua criatividade no universo do teatro ao desenvolver a coleção de Outono/Inverno 2022 para Vivienne Westwood. O parceiro de vida e de trabalho de Vivienne Westwood deixou emergir sua ‘musa particular’ durante a apresentação e teve como maior objetivo ser fiel a si mesmo. “Sempre fiz as coisas com ela [Vivienne Westwood] em mente….. e isso sempre me colocou em crise e percebi que não, você deve achar a ‘musa’ de inspiração em você e ser verdadeiro consigo mesmo”, disse Kronthaler.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

A maior parte da coleção pode ser descrita por um só adjetivo: leveza. As formas de Kronthaler e os materiais escolhidos pelo designer austríaco denotam uma leveza que nada contra a correnteza de corpetes modeladores tão familiares à marca de Westwood. Tecidos acetinados, lamê, plumas, e malhas de moletom tiveram a responsabilidade de trabalhar essa sensação de suavidade das peças.

Inspirado pelo universo teatral, Kronthaler desenvolveu uma infinidade de estampas e toda essa mistura reflete esse mundo fantasioso e criativo dos palcos de teatro, além da estética nômade e multicultural imprimida nesses motivos, arriscando trabalhar vários signos ao longo da coleção.

O trabalho de alfaiataria continuou sendo o ponto forte de Andreas e esse esforço do designer é explorado ao longo da apresentação. A variedade de símbolos clássicos da marca em conjunto com a “nova” e livre estética de Kronthaler revela uma confiança mútua entre os designers que lideram a direção criativa de Westwood, em parceria. 

Ao contrário de outros públicos, o consumidor Hermès busca sempre por um produto impecavelmente bem feito em detrimento de um artigo ou peça que siga as tendências da temporada. É por isso que, desde que assumiu a direção criativa da marca em 2014, Nadège Vanhee-Cybulski entrega coleções cujo tema central são sempre as roupas e a qualidade dos produtos.

Seu Inverno 2022 então não poderia ser diferente: em uma cartela de cores minimalista (um clássico de Nadège) a estilista desfilou peças clássicas que exalam elegância e um luxo discreto que é a cara da Hermés. Saias plissadas em couro, macaquinhos e macacões em malha firme e casacos em cortes e aplicações impecáveis são alguns exemplos.

Nadège ainda, como de costume, traz referências do universo equestre para as passarelas em razão do histórico da marca: mini vestidos em matelassê com enchimento fino, fivelas clássicas e abas em formato de selaria são as mais visíveis. Para equilibrar e tornar a coleção contemporânea, ela adiciona toques de sexy nunca vistos antes em seu trabalho para a casa, como a transparência de algumas camisas e o encurtamento dos shorts e saias.

Dois anos após a mega explosão que assolou a população libanesa de Beirute em 2020, Elie Saab decide voltar às passarelas físicas e reviver sua marca para os olhares presenciais de seus consumidores e admiradores, mesmo ainda se recuperando da tragédia que afetou seu lar e seu ateliê. O inverno 2022 de Saab é direcionado inegavelmente para mulheres com força e autenticidade. “É sobre mulheres fortes, com um forte caráter e um pouco de rock n’ roll”, disse o designer libanês.  

Saab traduz toda sua expertise em vestidos de alta costura para uma temporada ready-to-wear. Vestidos de noite recheados de elegância e glamour, com acabamento em bordados de paetês, muita renda, bordados de cristais, plumas que por si só já requerem um olhar especial de observação. A alfaiataria de Saab também ganhou sem momento de destaque na passarela, em formato de blazers bem cortados com ombros avantajados e  calças cigarretes;  além disso as peças em veludo, couro e tules esvoaçantes terminaram por revelar o guarda-roupa dessa mulher forte de Saab

Vencedor do prêmio LVMH de 2018, o estilista coreano Rokh Hwang comanda sua marca própria desde 2019. Discípulo e ex-aluno de Louise Wilson, prestigiosa professora da CSM que guiou nomes como Mcqueen e Kane, Rokh possui um trabalho que mescla desconstrução e jogo de texturas.

Sua estética particular e talento o fazem um dos nomes mais interessantes de se acompanhar atualmente – e sua coleção de inverno de 2022 prova isso. De conjuntos de alfaiataria envoltos por cintos de couro até trench coats em vinil azul royal, Rok entrega uma coleção que mais uma vez reforça seu design disruptivo e elegante ao mesmo tempo. O grande diferencial das peças de Rokh parece ser justamente o equilíbrio entre experimentação e usabilidade, que rende assim peças fashionistas e formais na medida certa.

O Inverno de 2022 de Ann Demeulemeester se manteve fiel às suas origens e traz à tona na passarela a estação fria para os góticos, boêmios e melancólicos de plantão. Apresentada no Réfectoire des Cordeliers a coleção sob não estava tão distante de suas raízes e nem de sua criadora em termos de distância física, a própria Ann Demeulemeester garantiu sua presença na plateia do desfile, após sua saída da marca de nome homônimo em 2013.

Longas casacos, vestidos e coletes de uma alfaiataria bem cortada, foram se repetindo constantemente do início ao fim da passarela. Peças sóbrias e secas de gola V em diferentes materiais como o crepe e o couro, que ganhou destaque por reviver a identidade gótica de Demeulemeester. Pequenas aparições de bordados com miçangas pretas tiveram seu momento no vasto mar de looks pretos e cinzas, que surgiram no decorrer de uma discreta graduação ao passo que o desfile avançava. 

DIA 6

A mais recente apresentação de Demna Gvasalia para Balenciaga foi um tributo direto para o conflito que ainda continua entre Rússia e Ucrânia. Demna que já sentiu na pele o que é ter que sair de seu país natal e se tornar um ‘refugiado para sempre’, dedicou este show à bravura, resistência e a vitória da paz e do amor. 

Essa apresentação se mostra de longe a mais pessoal e tocante para o estilista. Nascido na Geórgia — um país na intersecção entre a Europa e a Ásia — Gvasalia fugiu de seu país durante uma guerra civil e lembrou que ‘um fashion week (nas condições atuais) parece uma absurdidade e em tempos como esse, a moda perde sua relevância’. Apesar de ter sido assombrado por espíritos e traumas passados, Gvasalia não cedeu e prosseguiu com seu show, que se mostrou afinal de conta extremamente necessário e relevante. 

Num palco 360° isolado por uma redoma de vidro, os modelos desfilavam contra uma tempestade de neve e vento. Fazendo críticas ao aquecimento global, a guerra na Ucrânia e também, ao desperdício e a negligência a bens materiais — vide os convites aos convocados para o show, era um velho iPhone 6s, quebrado, que não funcionava, esquecido e desprezado. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Também aos convidados, foram dadas no total 525 camisetas com as cores da bandeira da Ucrânia, posicionadas nos assentos juntamente com uma declaração pessoal escrita pelo próprio designer. 

A coleção seguia uma paleta de cores sóbrias: preto, cinza e marrom, com toques de branco, estampas florais e seguido pelas cores amarelo e azul. A silhueta arrojada e forte — uma marca já registrada de Demna — fez sua aparição, tracksuits, jaquetas bomber, macacões, moletons, couro e jeans. A coleção parece ter sido criada por ‘peças staples’, ou essências, acompanhadas das bolsas que lembravam sacos de lixo — seria mais uma crítica ao consumo e ao desperdício? — os vestidos que se fundiam com luvas e leggings e sapatos. 

Ao final, o show foi menos sobre as roupas em si, mas sim a poderosa alusão criada e a mensagem que era transmitida. “De algum modo, moda não importa agora nesse momento, para mim” declarou Gvasalia, “Pessoalmente, eu já sacrifiquei muito por guerras. Essa última semana tem trazido de volta todas as memórias que eu e minha mãe colocamos de lado numa caixa e nunca mais olhamos. Nós nunca superamos.” 

Think pink! Pierpaolo Piccioli tomou um gesto radical em sua última coleção para a maison Valentino, desfilada hoje, 6.  Apesar da íntima relação da grife com a cor vermelha — Red Valentino é inconfundivelmente a marca registrada da maison, Valentino Garavani tinha uma profunda afeição pela cor e a usou para distinguir a mulher normal da ‘mulher Valentino’. 

Agora, no entanto, testemunhamos a nova coleção intitulada Pink PP, inteiramente na cor rosa — acompanhada de algumas singelas interrupções de um preto profundo. 

Buscando as possibilidades envoltas na cor rosa, o mais recente show da Valentino não deixou nada que não fosse ‘Valentino pink’, desde a passarela, as paredes, até as roupas e as ‘Valentino muses’ — Zendaya usava um look cor de rosa dos pés a cabeça enquanto acompanhava o desfile da primeira fileira.  

As capas e luvas sempre marcantes nas apresentações estavam presente, vestidos curtos e longos que brincavam com diferentes cortes ou aplicações, decotes em onda, transparência, alfaiataria (sempre) precisa, longos de festa, lantejoulas, casacos oversized…  Por trás dessa coleção quase monocromática, salvo os looks em preto, Piccioli declarou que desse modo ‘as atenções poderiam ser voltadas no seu trabalho com diferentes tipos de tecidos, aplicações e bordados, silhuetas, cortes estratégicos’. Ou seja, sem a ‘distração’ das cores somos forçados a perceber as texturas, os materiais e as superfícies. Um trabalho de reflexão que Pierpaolo propôs ao seu público e, mesmo fugindo do tradicional, conseguiu cativar a atenção e deixar a cor rosa ainda mais viva em nossas mentes.

Kenneth Ize definitivamente tem um novo look para chamar de seu: o aso oke. O tecido ‘aso oke’ usado pelo designer nigeriano, no qual Naomi Campbell fechou o desfile no debut do diretor criativo em Paris (antes da pandemia), agora é oficialmente o centro das atenções das coleções de Ize. 

Trata-se de um material tradicional da Nigéria no qual Ize usa e reusa cores mas mantém as inconfundíveis listras. Na sua passarela vimos inúmeras variações do asooke: terno com saia, jaquetas de zíper, tricô, blazer e calças. 

A coleção que foi desenhada em Nova York traz muitas referências da cidade como ‘Taxi Driver’ ou a ‘vibe 70′ s’ que a cidade um dia já carregou. E que também fez uso de tecidos e materiais reciclados. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

O designer vem cada vez mais se elevando e trazendo identidade para a marca. Com suas silhuetas elegantes, longínquas e, por vezes, alegre — vide a estampa aso oke. De uma forma eclética e despretensiosa, Kenneth Ize vem nos mostrando seu caminho de como ganhar os holofotes e as atenções.

Matthew Williams vem ainda pavimentando sua identidade e visão para a Givenchy— visão a qual torna a Givenchy mais para a frente, franca e honesta. O interesse de Williams em sua nova coleção para outono-inverno ready-to-wear era realmente ‘criar roupas que as pessoas fossem usar e a facilidade disso’. 

Focado, principalmente, numa pegada streetwear, Matthew usou suas cores predominantes: preto e verde escuro. As consequências dessa inspiração no streetwear foram: muita sobreposição, logos e moletom com estampas gráficas, tracksuits, peças ‘baggy’. 

Williams, que era anteriormente diretor criativo no ramo musical, trouxe essas ‘raízes’ para seus shows como head-designer. Desde a passarela e o trabalho de luzes LED à soundtrack do desfile. 

Matthew descreve seu trabalho na Givenchy como ‘muito instintivo e presente’. Espelhando a cultura do dia a dia num muito mais elevado nível na passarela. No entanto, sem esquecer as origens da marca: Williams, como inspiração, fez inúmeras menções para os ‘arquivos’ da grife francesa e trouxe isso na sua nova coleção.

DIA 7

Ao som de ‘Give Peace a Chance’ de John Lennon e Paul McCartney acompanhada do discurso pacifista ‘A Strategy for Peace’ de John F. Kennedy, a coleção de Outono/Inverno 2022 de Stella McCartney abre espaço para a conscientização e para se posicionar em prol da população ucraniana que vem sofrendo ataques de guerra do governo russo nos últimos dias.

Stella McCartney se reuniu em parceria com o artista plástico Frank Stella durante o planejamento da coleção. Stella e McCartney trabalharam lado a lado principalmente no que diz respeito às silhuetas e estampas desenvolvidas para a passarela. “Amo o maximalismo e o minimalismo dele [Frank Stella]. É um paralelo para nossa marca: o lado masculino simples em conjunto com um lado mais explosivo. Quando você observa o trabalho de Frank, ele realmente acompanha isso muito bem”, disse a estilista britânica.

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Como era de se esperar, McCartney continua a aumentar seu acervo com looks provenientes de materiais ‘eco-friendly’, que dialogam com seu discurso sustentável. Peças em algodão orgânico, nylon reciclado, lã regenerativa, lãs RWS de fontes rastreáveis foram alguns dos insumos usados pela estilista nesta temporada. Por outro lado, seu verdadeiro protagonista foram os restos de cascas de uvas transformadas em couro falso.

A parceria entre McCartney e Stella foi um harmonioso casamento de traçados e criações, onde os motivos e linhas de Frank Stella dançavam e pulavam de peça em peça, entre os conjuntos de alfaiataria, os vestidos de malha de elastano e os acessórios de Stella McCartney.

McCartney não se limitou somente em trabalhar com materiais novos para sua marca, mas também se aventurou com pares de jeans desbotados, camurça e pele falsa, tecidos acetinados em um cartela comum, mas forte na forma como a estilista a disponibilizou ao longo da passarela. Tons de roxo, laranjas e marrons terrosos, vermelho vinho, amarelo mostarda, tons azulados e muito preto fizeram parte do Inverno da designer.

Em mais uma coleção Stella McCartney não deixa de mostrar aos seus contemporâneos que é sim possível planejar e criar um raciocínio de moda ética baseado na clareza das suas fontes de materiais e em um produto final de sofisticação e qualidade.

Ao celebrar o seu retorno à Paris e às passarelas, Chitose Abe alavanca o patamar de sua marca nessa coleção e foca em entregar ao seu consumidor produtos que carregam sua assinatura mas com o máximo de sofisticação possível. As famosas combinações imprevisíveis de Sacai volta junto aos desfiles presenciais, mas com uma linguagem mais extravagante e festiva para essa temporada de Outono/Inverno 2022.

A silhueta oversized foi mais uma vez a palavra de ordem na mente da designer japonesa durante seu processo criativo. Saias volumosas com cós em acabamento de elastano, jaquetas esportivas de nylon encapuzadas, trench coats e blazers transformados em vestidos, casacos de pele e couro terminam por acentuar a imagem de poder e força dessa consumidora de Abe que necessita de novos looks para os eventos pós pandemia. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Mesmo com um cartela limitada, Abe soube explorar todas as possibilidades de combinações entre o vermelho vinho, o vermelho amaranto, preto, branco, os beges, além disso as estampas de risca de giz e de onça pintada souberam usar seu tempo de passarela com muita sabedoria para quebrar as sequências de peças lisas que dominaram a apresentação. 

Juventude foi a premissa do desfile de Outono/Inverno 2022 da Louis Vuitton nesta temporada. Com uma coleção inteiramente influenciada pelas manifestações juvenis atuais, não só o streetstyle mas também as redes sociais, Nicholas Ghesquière trabalha simultaneamente as estéticas da sua adolescência e os estilos de hoje. 

Movido pelas suas observações dos jovens de hoje e como eles se comunicam via TikTok, Instagram, seus ídolos, e estilos; Ghesquière aproveitou a volta da estética dos anos de 1990 e dos anos 2000 e reinterpreta esse estilo preppy escolar misturado com referências do grunge e dos skateboarders para uma nova leva de consumidores da moda de luxo.

O desfile da Louis Vuitton ocorreu no interior do Musée D’Orsay, tornando-se a primeira marca a conseguir permissão para desfilar sua coleção num dos museus mais respeitados do mundo em termos de arquivos de Belas Artes.

Focado em captar a fase transformadora da juventude, a passagem da vida infantil para a adulta, Nicholas Ghesquière compilou vários signos e estilos que um jovem em período de transição e liberdade estaria disposto a testar para se descobrir. “A coleção é uma verdadeira excursão a um momento perceptível, fugaz e decisivo em que tudo vem à tona, em toda sua inocência e perspicácia. A impermanência e a bela volatilidade da adolescencia”, disse o designer francês. 

O ápice dos designs de Ghesquière nessa temporada foi, sem sombra de dúvidas, o seu foco na alfaiataria. Calças estilo ‘Annie Hall’, camisas sociais, gravatas, blazers e casacos oversized ‘boyfriend’, e a androginia presente nas combinações foi extremamente forte nessa coleção. Além disso, as camisas esportivas de rugby, calças e botas de cano longo de couro e as camisas polo com a impressão gráfica de um retrato do fotógrafo de moda David Sims, dão o toque final nessa excursão de novas descobertas pelo seu próprio estilo que o jovem de Ghesquière passa. 

Ao sair um pouco dessa androginia, Ghesquière trabalha a feminilidade na coleção por meio de formas que lembram as silhuetas das crinolinas – armação que aumentava o quadril da mulher nos vestidos do século XIX – em vestidos de tweeds bordados. Nos suéteres, camisas e vestidos, com o intuito de se aproximar ainda mais da realidade jovem, o designer implementa uma mistura psicodélica de motivos localizados gráficos em padronagens também figurativas.

Na tentativa de se aproximar dessa nova leva de consumidores jovens, a Louis Vuitton sob a direção de Nicholas Ghesquière ao lado Virgil Abloh, que estava responsável pela linha masculina da marca até seu abrupto falecimento no ano passado, tem lançado coleções que sabe se comunicar comercialmente com esse novos consumidores e atingir esse objetivo. O mergulho de Ghesquière nas inconstâncias da juventude logo logo vai comprovar mais uma vez a maestria com que a Louis Vuitton sabe se comunicar com os fashionistas da Geração Z.

Inspirado pela moda dos anos 60, Giambattista Valli revela o lado mais ousado e rebelde de sua consumidora na coleção de Outono/Inverno 2022. Valli se deixou levar pela autoconfiança da mulher parisiense e isso transpareceu em seus looks. “As mulheres aqui são muito feministas, são muito complexas. Elas não se importam com nenhuma crítica. Elas só querem ser elas mesmas e é isso que eu amo sobre as mulheres francesas. Elas são muito livres, muito fiéis a si mesmas”, afirmou o designer italiano.

Logo de cara os espectadores do desfiles foram seduzidos pela silhueta de linha ‘trapézio’ e as mini saias clássicas dos anos de 1960, com peças em branco e grandes óculos redondos, também característicos da época, revivendo o período do Space Age. No decorrer da passarela, Valli aos poucos trabalhava em alternância os códigos tão característicos de sua assinatura com os ícones da Era dos Beatles; como os casacos de inverno de gola alta, botas de cano alto de couro, vestidos em tule e renda e recheados de babados, muitos laços e estampas florais. 

Além das referências florais, Valli trabalha com as estampas de motivos de ‘pois’ e o animal print em sobretudos longos, vestidos curtos e minissaias Os tons de branco e off white, o preto brilhante e o fosco, os azul Tiffany, os rosas e vermelhos conseguiram de maneira sucinta equilibrar a mensagem final do Inverno 2022 de Valli, a mensagem de que seu trabalho se destina e presta homenagem às mulheres autênticas e seguras de sua feminilidade acima de tudo. 

Assim como todos os profissionais da indústria da moda e do mundo, Olivier Theyskens foi profundamente influenciado pela pandemia da COVID-19 e sua coleção de Outono/Inverno 2022 é um honesto reflexo dessa influência. Além de uma mudança em seu olhar criativo, Theyskens parece ter reestruturado toda sua cadeia produtiva e seu raciocínio de negócios. “O que aconteceu no mundo é tão importante que eu realmente queria redimensionar o meu negócio”, afirma Theyskens. 

Theyskens decide abandonar todo o padrão de negócios de costume das marcas e segue em direção a uma reestruturação livres de pressões e regras corporativas por um crescimento sem precedentes que visa somente o lucro.  O designer belga orquestrou toda sua coleção ‘à moda antiga’, a partir de um trabalho minucioso da combinação de retalhos têxteis e patchwork, Theyskens teve como resultado uma coleção etérea, cheia de espírito e um convite ao passado. 

Looks cortados no viés, combinações e maquetes têxteis que misturavam vários tecidos ricos em motivos, como o crochê e as muitas rendas de diferentes padronagens cortadas no fio reto. O belga continuou a trabalhar com uma paleta reduzida e bem sombria com seus tons de preto, roxos, verdes, marrons e off white, ele aproveitou e trabalhou com o  envelhecimento dos tecidos e de suas cores, valorizando o ‘ar’ sublime e vintage que seus vestidos e inspiração pede. Theyskens soube aproveitar muito bem seu período de isolamento não só para ouvir seu tino criativo nesse momento de mudança mas perceber também que é necessário um giro de 180 graus  para reavaliar o que o mercado necessita nesse momento introspectivo. 

DIA 8

Na terça-feira (08), Virginie Viard 一 atual diretora-criativa da maison francesa 一 repetiu um ato icônico feito anteriormente por seu ex-chefe (e também diretor-criativo frente a Chanel) Karl Lagerfeld: apresentar uma coleção que fizesse diversas referências à Escócia, uma região bastante visitada e amada por Gabrielle Chanel, mais conhecida como Coco Chanel e fundadora da marca.

Em contrapartida, enquanto a coleção apresentada por Lagerfeld em 2012 (Pré-Outono 2013) comportava uma atmosfera mais melancólica e altamente ambientada às raízes escocesas, a coleção de Outono/Inverno 2022 一 dirigida por Virginie 一 busca referenciar uma das paixões de Coco Chanel de maneira mais otimista e vibrante, o que consequentemente contribui para que a marca consiga atrair os olhares de uma geração mais jovem, seguindo a pegada brilhante da nova coleção. 

Um outro detalhe que ainda capta bastante atenção nesta nova exposição da Chanel é a devoção aos clássicos tweeds 一 marca registrada da maison 一 em diversos tons, em destaque aos tons mais claros (pastéis) em rosa e azul, por exemplo, fazendo uma grande menção e homenagem ao guarda-roupa tradicional de Coco Chanel e às vestimentas populares durante a década de 1920, além da Londres de 1960. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Os shorts de tweed, também presentes nesta nova coleção da Chanel, ainda são componentes que aplicam ao desejo de Viard em apresentar peças que também pudessem reproduzir o conceito de roupas urbanas, além da própria inspiração no guarda-roupa inglês e escocês. 

A coleção como um conjunto é apresentada de maneira sóbria, apontando de maneira explícita toda a assinatura da Chanel, além de, claro, homenagear a fundadora da casa francesa com suas produções e peças mais clássicas. Apesar de ainda não corresponder ao anseio da comunidade e dos fãs da marca em sair da zona de conforto das criações da marca, como por exemplo o uso ‘’abusivo’’ do tweed 一 que apareceu na coleção não somente em ternos ou nos tradicionais conjuntinhos, mas também em vestidos, cardigãs, meia-calças, sobrepostos, entre outros 一, esta nova apresentação proposta por Virginie Viard na nova coleção da Chanel é um grande convite para que a nova geração possa conhecer um pouco da história da maison e deliciar as referências ao otimismo e brilho da juventude, além de comportar peças que reforçam e mencionam a feminilidade da mulher Chanel. 

Na temporada apresentada no dia 8, Miuccia Prada, diretora-criativa da Miu Miu deu a cartada e última palavra final para esta Semana de Moda de Paris. A coleção de Outono/Inverno 2022 apresentada para a Miu Miu comporta-se como um storytelling magnífico através da continuação da narrativa contada na última apresentação da casa.

Miuccia buscou contar um pouco de sua infância 一 traduzida em roupas 一 e de suas paixões em sua nova coleção. Em uma coletânea reunindo 53 looks, a garota Miu Miu assume uma postura menos workaholic e mais apaixonada por esportes e aventuras, e isso pode ser facilmente captado através da composição das vestimentas 一 através de casacos e blazers oversized, peças mais finas e composições sobrepondo lingeries, o que acaba por substituir a imagem ‘menininha’ por uma mulher mais feroz, determinada e sensual. 

Essa proposta ainda é reafirmada através da aparição de peças que utilizaram da técnica da transparência, além de, como já se era esperado, da presença de vestimentas que explorassem o ‘’uso’’ da pele, como as minissaias, por exemplo, que foram um grande marco e impactaram a coleção passada da Miu Miu. 

Foto para colagem retirada do Vogue Runway.

Os acessórios da nova coleção da casa ainda chamam a atenção por sua praticidade e cores mais convidativas. Além disso, à medida que a nova temporada Miu Miu continuasse a narrativa iniciada anteriormente, foi inevitável a presença de peças em couro, casacos em shearling, estampas de pele de cobra, dentre outros.  

Conforme outras marcas passaram a abordar questões como peças andróginas e genderless, não foi diferente com a Miu Miu nesta temporada de 2022. Os detalhes e conjuntos que tomaram conta desta nova coleção comportam-se como uma maneira de expressar a diversidade de gênero, a partir da silhueta mais acanhada que também funciona para demonstrar como esta funciona com não-binários. A tentativa proposta por Miuccia foi abordada de forma que os modelos masculinos também usassem a malha fina e jaquetas mais curtas. 

Deixando de lado a busca por produzir vestimentas arcaicas de escritório, a nova coleção inspirada nas quadras de tênis criada por Miuccia Prada e apresentada para esta temporada é extremamente acolhedora aos entusiastas de uma moda clássica, livre, moderna e altamente contemporânea. O impacto da coleção de Primavera/Verão 2022, apresentada em outubro, foi extremamente assombroso e parece querer ecoar por um longo tempo. 

Clássico e Gótico se Encontram na MFW

Sempre festiva, sofisticada e interessante, a Milão Fashion Week aconteceu de 23 a 28 de fevereiro e exibiu elementos de beleza já familiares, porém numa nova roupagem, mostrando ao público evoluções e novas interpretações do momento. 

Thomas de Kluyver, consultor global de maquiagem da Gucci, descreveu seu trabalho nessa temporada como brincalhão, divertido, irrestrito e não clássico. A grife, que lançou sua collab inédita com a Adidas, aproveitou elementos presentes em muitos outros desfiles da temporada, como olhos e boca marcados, e pele iluminada. Porém com vivacidade, brilhos, pedras, resultando em uma interpretação única às tendências.

O trabalho de Inge Grognard na Blumarine foi mais sombrio e ousado, com destaque total à boca vermelha e preta. Os penteados idealizados por Anthony Turner têm como proposta mesclar sensualidade, romantismo, e um certo ar de mistério com o véu.

Armani também usou cores, porém mais delicadas e combinadas a delineado gráficos pretos. A beleza idealizada por Linda Cantello veio do desejo de Giorgio Armani de apresentar um olhar alongado. Segundo a maquiadora, o batom líquido rosa, aplicado nos olhos como uma  sombra forte, aparece para dar um toque jovem e contemporâneo dentro do punk. Nos lábios, apenas um lápis com tom próximo ao natural.

Ainda na linha do gráfico, a Versace foi um dos grandes destaques de Beauty da MFW. Liderado pela dupla querida do mês da Moda, Pat McGrath e Guido Palau, o look Versace teve as sobrancelhas platinadas presentes nos produções mais alternativos dos anos 90, fazendo um interessante contraste com olhos super marcados, a la Julia Fox (que vale destacar, teve seu seu visual criado por Daniel Kolaric, maquiador da equipe de McGrath, e se utilizou de referências criadas e passadas pela própria Pat. Sem coincidências aqui). O cabelo é o super liso repartido já visto em outros shows da casa.

Na contramão, a Missioni apostou numa beleza fácil. Para o cabelo, a ideia de Mustafa Yanaz foi um look “imperfeito”, que se aproximou das texturas naturais dos modelos. Enquanto Jen Myles entregou uma maquiagem descomplicada, com tons terrosos e pontos de luz.

O cabelo molhado, já se tornou parte quase obrigatória dos looks de passarela e em Milão apareceu para levar um toque moderno e fresco aos desfiles. Este foi marcante no trabalho de Guido Palau para a Fendi de Kim Jones, que no caso também utilizou a técnica para dar um ar mais maduro à coleção. A maquiagem assinada por Peter Philips foi natural e iluminada, conversando com os fios.

Palau também levou o wet hair para a Prada numa proposta mais noventista, que misturou o coque clássico e o minimalismo pedido por Miuccia Prada e Raf Simons, com referências futuristas e arquitetônicas vistas no volume do penteado e acabamento. Tudo combinado com a proposta, também futurista, da maquiagem de Pat McGrath: iluminada, leve e muito natural.

O que podemos tirar é, que entre referência a décadas passadas e elementos futuristas, teremos uma beleza vanguardista e ainda assim chic e leve, para transmitir força e confiança. Uma ótima combinação para a Semana Italiana.

Frenezi na Semana de Moda de Outono/Inverno de Milão

Continuando com as coleções de Outono Inverno de 2022, passamos para a cidade de Milão, a qual tem impressionado com sua visão moderna e inovadora aplicada a silhuetas e formas dentro da alfaiataria clássica Italiana. Com a presença marcada de algumas das estreias mais aguardadas da temporada, Glenn Martens na Diesel por exemplo, qual pega o material mais conhecido da marca – o jeans – repensando-o para um olhar descolado e inovador, quase sem limites para a criatividade e sensualidade. 

Assim como o primeiro desfile da Bottega Veneta após a saída do então diretor criativo Daniel Lee, Matthieu Blazy foi o escolhido como sucessor da diretoria criativa a da marca, com características clássicas da história da marca intercaladas com uma influência da era Lee, Blazy encontra o perfeito equilíbrio entre os novos e velhos clientes, ao contrário de Versace e SportsMax que investem nesta temporada na irreverência do sensual ao extremo, com influências e reflexos do fetichismo e do sensual ao extremo, de pernas de vinil, plataformas cada vez maiores, corsets e decotes em roupas de couro, estamos vendo a reação sensual de Milão nesta temporada.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Milão aqui.

Foto dos detalhes do desfile da Fendi, retirada do Vogue Runway.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono Inverno em Milão:

DIA 1

O primeiro dia de Milão Fashion Week (23) foi, merecidamente, marcado pelo debut da Diesel por Glenn Martens. A marca italiana descreve uma inteira ‘all-gender runway collection’ pela primeira vez ao público numa das principais fashion weeks do mundo. 

Não coincidentemente, o responsável pelo mais novo burburinho é o – recente – diretor criativo da marca: Glenn Martens; o mesmo ainda é diretor criativo da marca ‘Paris based’ Y/Project, e foi, também, responsável pela mais nova colaboração de haute couture da grife francesa JPG. Essa foi a segunda coleção de passarela de Martens para Diesel e reafirma sua personalidade irônica, excêntrica, indiferente e ‘too cool’. Brincando com streetwear, silhuetas, futurismo, sensualidade e singularidade. 

A Diesel, que após um hiatus no ‘gosto popular’, já vem lentamente construindo sua volta e trabalhando numa evolução para a imagem da marca através de campanhas, colaborações e, claro, nas mídias sociais. No entanto, quem incorpora essa evolução para o mundo real é Glenn Martens. Seu affair com a manipulação de silhuetas está presente nos looks assimétricos, volumosos, exagerados e bem construídos. Glenn é, claramente, o próximo passo da evolução da Diesel. 

E agora, a nova cara da Diesel desfila seus looks com influência 2000’ (cintura-baixa e minis), astros e futurista (com direito a modelos pintados dos pés à cabeça), denim ‘all ways’ – exagerado, mini, ‘distressed’, super construído, quilted, vários tons, na parte de cima, de baixo e nos pés – as adoradas mini saias (mas dessa vez acompanhadas pelas botas denim de cano alto e bico fino) e o exagero no ‘outerwear’. 

Para manter o comprometimento da marca com a sustentabilidade, Martens aposta no ‘upcycle’. Provando sua fama pelo seus looks ‘reconstruídos’. E, também, paralelamente, muito bem construídos quando falamos do seu trabalho de denim e couro, e outros mais tecidos, na construção de silhuetas.  Este ano, Glenn Martens vai fazer todo mundo se apaixonar, vestir e falar novamente sobre a Diesel. Nos entregando um novo capítulo da marca. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

O sucessor de Karl Lagerfeld, Kim Jones, inicia seu segundo ano à frente da direção criativa da casa italiana Fendi. Após sua nomeação ao cargo a pressão, críticas e expectativas não têm sido fáceis. Entretanto, para esta coleção de outono 22’ Jones parece ter acertado o público da marca e vem arrancando críticas positivas ao ser comparado com Lagerfeld e levando o legado das mulheres Fendi em diante. 

Os mais treinados olhos já tiram de cara quais foram as inspirações de Jones para sua nova coleção. A estampa italiana Memphis, utilizada por Lagerfeld na coleção de 1986, ou a delicadeza e fragilidade da coleção de primavera 2000, também por Karl. 

Apesar das referências, Jones trás a energia e os adorados clássicos dos anos 2000, como a cintura baixa ou as saias ¾, de uma maneira refrescante – não cansativa e repetitiva. Afinal, o espaço que a influência ‘y2k’ vem tomando não é pequeno. 

A estampa Memphis nessa coleção foi acompanhada pelo uso do chiffon e a alfaiataria imaginativa e inigualável de Jones. Blusas transparentes, calças e macacões, adornados com babados ondulados ou “alface”. 

Lingeries, corpetes e transparencias delicadas, muitas vezes sobrepostas por casacos numa cartela de cores suave, que brincava somente às vezes com o vermelho-sangue. Os acessórios, o ‘cabelo molhado’, a sobreposição, alfaiataria e as estampas geométricas trouxeram um toque moderno à coleção. 

Kim Jones, diretor artístico de costura e vestuário feminino, trabalha com a magnata e fundadora da marca, Silvia Venturini Fendi, responsável pelo vestuário masculino e acessórios da marca sediada em Roma. 

Foi observando Delfina Delettrez, que frequentemente usa as roupas da mãe Silvia, que teve sua grande epifania para sua coleção de outono. Delfina estava no escritório da Fendi em Roma usando uma blusa Fendi ‘archive’ que pertencia a sua mãe de uma coleção de 1986, quando Kim Jones a viu. 

A coleção ao mesmo tempo em que homenageia o legado de Karl Lagerfeld na casa, de mais de 50 anos, também honra as fundadoras da marca e a ‘mulher Fendi’. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Essa coleção revela uma sensibilidade feminina ao mesmo tempo que mostra que a mulher Fendi encara qualquer coisa: a coleção de outono teve mais pele à mostra do que outerwear. Enquanto que traz esse ‘renascimento cultural’ do y2k para a vida real com peças de roupas para uma vida no dia a dia. 

E ainda falando em renascimento e renovação, tivemos novas re-edições das incógnitas e comentadas baguettes na passarela. Com o sucesso das baguettes impulsionado pela geração Z é, nada mais, que o novo reboot de Sex and the City, este é o momento mais que ideal para Jones trazer esse acessório aos holofotes, mais do que já está. Nessa coleção contamos com re-editions feitas de cashmere, couro e ‘intarsia mink’. 

Nos anos 90, Roberto Cavalli foi ‘renascido’ como o designer estrela dos Red Carpets. Muitas vezes comparado com Gianni Versace, o afamado estilista é conhecido por suas estampas exóticas e seu estilo flamboyant e glamuroso. Responsável por vestir as celebridades mais sexys de décadas atrás, Cavalli ainda mantém sua reputação e notoriedade, principalmente, através de suas peças archive que são cada vez mais prestigiadas por celebridades de agora, Zendaya e Bella Hadid para citar algumas, que trazem de volta à sedução e o poder da mulher. 

E foi pensando nisso, em unir as gerações de mulheres Cavalli, que Fausto Puglisi apresentou sua primeira coleção como diretor criativo da marca. ‘Eu quero respeitar a herança de Roberto’, disse Puglisi em entrevista. O grande momento y2k e o desejo de voltar aos anos 2000 trabalham a favor de Puglisi e da marca Cavalli. Entretanto, ao mesmo tempo, nunca se quis tanto evolução e melhoramentos para o futuro. 

Sua primeira passarela para Roberto Cavalli tinha como inspiração os anos de ouro e os archives da marca, em especial entre 1998 e 2006. O dourado, obviamente, compôs muitos dos looks, o animal print não deixou de marcar presença (assim como não deveria, por ser uma das marcas registradas de Cavalli), profundos recortes eram segurados por pequenas argolas, vestidos de festas eram feitos de couro, leather straps eram usadas como cintos ou colares, e o xadrez invadiu o outerwear e as mini saias. 

Assim, o Cavalli de Puglisi traz o sexy na medida, traz a mulher confortável da atualidade (e do pós-pandemia), traz o nada óbvio xadrez — que por ora nunca tinha feito parte de uma coleção de Cavalli — e ainda traz o poder feminino tão intrínseco na marca. 

DIA 2

Inspirada nos trabalhos do escultor  Alberto Giacometti e do fotógrafo Peter Lindbergh, a coleção ‘Esculpindo o Tempo’ da Max Mara, contou com 12 casacos femininos, em diferentes formas e volumes, conectados por sua neutra cartela de cores e pelos designs atemporais. 

Produzidas a partir de fibras naturais,de forma artesanal, as peças apresentadas exalam bom gosto e sofisticação, com acabamentos impecáveis.

Por sua casualidade, os looks podem ser adaptados a diversos estilos, uma ótima estratégia para uma coleção comercial. Mais uma vez, a marca mostrou que o básico também pode ser surpreendente. 

Simbolizando o ritmo acelerado da moda, em uma crítica ao consumo desenfreado, modelos da Sunnei, corriam pela “passarela” da marca – uma calçada, num cenário cinematográfico industrial. O público podia acompanhar a apresentação em câmera lenta, através de seus smartphones, para que os detalhes pudessem ser observados; metaforicamente, os aparelhos eletrônicos “congelam o tempo”.

Seguindo o ar esportivo do desfile, a coleção foi desenvolvida a partir de tecidos tecnológicos, que acompanham os movimentos corporais, estendem e esticam, permitindo a construção de camadas, essenciais para o clima invernal.

Simone Rizzo e Loris Messina, designers da marca, mantiveram a proposta elegante e minimalista, mas apostaram em cores saturadas e um assertivo mix de texturas, assegurando, assim, o senso de humor da Sunnei. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

“O sexy está mais na cabeça do que na pele exposta. Esse é um ponto cardeal da filosofia da Prada.” escreveu Gian Luigi Paracchini em seu livro “A vida Prada”, que conta a história da marca e de sua fundadora através de uma extensa pesquisa e de inúmeras entrevistas com Miuccia e sua família.

A frase de Gian Luigi resume bem a silhueta central da apresentação de hoje: regatas brancas vestidas sem sutiã e saias midi em tecidos leves e transparentes foram a base para a coleção, que herda referências claras de uma Prada mais minimalista que bombou nos anos 2000. O que essas peças têm em comum com a mensagem do autor? São casualmente sexys, no maior estilo Prada possível.

Para aqueles que estavam sentindo falta dos traços de Miuccia nesta nova fase da marca, que conta com Raf Simons como co-diretor criativo, a apresentação de hoje foi um deleite. Miuccia fez o que sabe fazer melhor: celebrar a mulher e sua história – e de quebra brincar com texturas e detalhes excêntricos ao longo do line up.

Foto do desfile da Bottega Veneta, retirada do Vogue Runway.

O penteado do desfile – um coque banana volumoso e impregnado de laquê – e a bolsa principal da coleção – de couro, espaçosa e carregada na mão – nos revelam que a estilista tenta dialogar nesta temporada com uma mulher profissional, mas não exclusivamente a que trabalha em escritórios. Miuccia utiliza esses códigos apenas para delinear a sua narrativa e mostrar ao espectador que a apresentação se trata de uma celebração do viver, do casual, do dia a dia; do rotineiro.

Mas é claro que, se tratando de Miuccia Prada, o rotineiro não precisa ser necessariamente tão minimalista assim: maxi bordados de flores, penas tingidas em marrom e azul marinho e pele fake azul bebê são alguns dos motivos e detalhes excêntricos que a estilista adiciona em peças-chave que formam as camadas de sobreposição da coleção.

Peças essas que, no geral, são os únicos traços de Raf na coleção – como as maxi jaquetas bomber, os trench coats em couro e a abotoadura embutida da alfaiataria. Todas, sem exceção, são heranças do último desfile masculino da dupla.

Ao longo da semana a marca postou vídeos de nove das 54 modelos que desfilaram hoje – dentre elas Anok Yai, Kaia Gerber e Kendall Jenner – em seu Instagram. Neles, as modelos apareciam ainda crianças em vídeos caseiros de infância e, após um corte, em takes atuais recém gravados. Com a legenda “Uma saudação à profissão de modelo. Uma história de mulheres.” a marca já indicava a narrativa que seria contada através das roupas: a vida acontece e quando percebemos já não somos mais crianças; temos agora uma vida cuja experiência e rotina são moldadas pela profissão.

Coincidência ou não, Hunter Schafer, a modelo que teve sua vida e rotina viradas de cabeça para baixo após estrear como atriz na série mais comentada do momento, encerrou o desfile.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Nesta temporada, o time misterioso por trás da MM6 Maison Margiela deixou de lado a conceitualidade das peças e optou por apresentar uma coleção focada apenas em roupas. Os 37 looks desfilados apresentam modelagens e cortes super contemporâneos e que certamente serão um sucesso de vendas.

A marca passa ainda por uma reformulação na sua grade de tamanhos, extinguindo a clássica numeração europeia e a divisão entre masculino e feminino. Blazers de couro, luvas em estampa de cobra e conjuntos de alfaiataria acinturada são algumas das peças que certamente farão sucesso entre o público.  

Pela passarela da Emporio Armani, que remetia a um tabuleiro de xadrez, encontramos diversos elementos do militarismo, em alusão às peças do jogo. As roupas femininas apresentavam uma marcante cartela de cores, contrastando com os visuais masculinos, em sua maioria, monocromáticos e sóbrios.

 A coleção contou com mais de 100 looks, apresentando desde trajes formais, até roupas esportivas (em um mood invernal, claro!), passando por muita alfaiataria e, pelo estilo casual chic, característico da marca. 

Com comprimentos mini, midi e máxi, Armani passeou por diversas décadas, resultando em uma coleção coesa, mas que ainda assim, consegue agradar a seus diversos públicos. Xeque Mate! 

Nicola Brognamo, diretor criativo à frente da Blumarine, fez a marca voltar aos holofotes da imprensa e do público através da incorporação da estética Y2K em seus designs. A tática foi boa: ele aproveitou a tendência do momento e criou roupas que supriam a demanda daqueles mergulhados na #Y2Kfashion no TikTok e no Pinterest – conquistando assim centenas de clientes ao redor do mundo, dentre elas Dua Lipa e Bella Hadid.

Mas, depois de quatro coleções imersas no tema, seu trabalho começou a ficar cansativo. Isso porque Nicola não chegou a injetar uma linguagem própria na marca ou adaptar a tendência dos anos 2000 para o Zeitgeist – suas roupas, por vezes, pareciam fantasias.

A coleção apresentada ontem (24/02) marca talvez uma nova era de sua direção criativa: o designer deixa de lado a interpretação caricata do Y2K e passa a inserir designs e elementos de um processo criativo próprio pensado para o agora. Macacões justos, conjuntinhos de top e saia em tricot e vestidos drapeados são alguns deles, produzidos em uma cartela de cores mais sóbria do que o normal para o estilista.

A ruptura com o tema não foi também tão abrupta assim: tops de borboleta, mini saias de babados e jeans de cintura baixíssima são algumas das peças que seguem a estética dos anos 2000, tão adorada e explorada pelo estilista.

No geral, a coleção peca pelo impacto estético e pela inovação, mas certamente mira em um sucesso comercial. O que importa na verdade são os rumos que a marca irá tomar após o desfile: será que veremos mais de Nicola em futuras coleções?

A coleção apresentada ontem por Nicola Brognamo, diretor criativo à frente da Blumarine, marca talvez uma nova era para a marca: o designer abre um pouco a mão da estética Y2K e insere elementos e designs atuais em uma cartela de cores mais sóbria.

Conjuntinhos de tricot com busto à la JPG, macacões decotados justos e mini vestidos drapeados foram os destaques da coleção, que também herdou referências da Gucci de Tom Ford. Acompanhe no carrossel a review completa.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Jeremy Scott é um daqueles designers que você ama ou odeia. Isso porque o estilista é um dos únicos que tira sarro da moda de maneira caricata e direta, fazendo muitas vezes com que seus designs sejam vistos como cafonas e bregas. 

Mas Jeremy não tem medo das críticas e construiu uma identidade para a Moschino pautada essencialmente na estética camp. O inverno de 2022 apresentado pelo designer segue portanto no mesmo mood: Jeremy escolhe um tema central e a partir deste constrói peças puramente inspiradas neste. 

O clássico “Space odyssey”, de Stanley Kubrick, é a narrativa que permeia e inspira toda a coleção – desde o cenário até o look vestido pelo designer no final da apresentação. Jeremy apresentou looks que incorporaram traços, desenhos e motivos de móveis antigos em suas modelagens e finalizações, construindo verdadeiros objetos-vestíveis (um clássico do estilista). Vestidos-sofá, ombreiras-moldura e tops-gaveta foram alguns deles.

A ideia por trás da GDCS de Giuliano Calza é clara: o designer faz roupas para aqueles que gostam de se divertir e brincar com a moda. Dentre estes está ninguém menos que Dua Lipa, que já desfilou diversos dos modelos de roupas e acessórios do estilista por aí. 

Esse talvez seja o motivo pelo qual Lorenzo Posocco, stylist da cantora, estivesse sentado na primeira fila da apresentação de inverno de 2022 da marca. Em uma cartela de cores tão colorida quanto a das outras apresentações, Giuliano apresentou uma coleção que brinca com texturas e beira a estética DIY: casacos são construídas em material de esfregadores de pó, vestidos midi aparecem feitos a partir de cabelo sintético colorido e casacos em látex contrastam com mini macacões de renda.

No geral, a coleção é mais um exemplo de como Giuliano consegue produzir peças criativas e instagramáveis. Por mais que o designer não seja muito forte em acabamento e edição final dos looks, sua entrega final dialoga perfeitamente com o zeitgeist – em uma era na qual cada vez mais os looks são pensados para fotos do que para serem efetivamente usados.

DIA 3

“As formas mais essenciais e rigorosas”, descreve Walter Chiapponi sobre sua coleção de outono/inverno de 2022 para a Tod ‘s. Nomeada de “Italian Beauty”, a coleção é repleta de alfaiataria, trench coat longos inspirados em uniformes – looks femininos para a volta ao trabalho – e sobretudo alongados apertados na cintura. Uma coleção elegante com looks invernais alongados e soltos. Botas em cano alto femininas e masculinas, mocassim e tênis completavam os looks, além de bolsas e cintos. A paleta girava em torno de tons terrosos como marrom, preto, bege, verde militar, laranja e vermelho. 

O diretor-criativo da casa reduziu a coleção para 44 looks alguns dias antes da apresentação na passarela em Milão. “Decidi desnudar e reduzir a coleção, tornando-a mais essencial”, disse ele à imprensa. “Não é hora para frivolidade, realmente.” O desfile iniciou com Gigi Hadid em um terno preto, corte fino na perna, uma verdadeira homenagem aos anos 90. A alfaiataria de Chiapponi expressa uma estética moderna, mas com um toque clássico e silhuetas amigáveis. Ternos masculinos usados por modelos femininas vem sendo mostrada em toda temporada, com Tod´s não foi diferente, o designer abordou essa versão em diversos looks.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Após dois desfiles sob sua direção criativa, o designer Alberto Caliri está deixando a Missoni, marca onde trabalhou por mais de 20 anos como chefe de design de Angela Missoni. O diretor-criativo desenvolveu uma coleção que relembra passos da marca, simplista e descomplicada. “Os confrontos harmoniosos entre um espírito burguês, elegante e milanês, e uma atitude rock moderna e jovem”, descreve ele sobre sua coleção. Looks modernos e que levam a pegada punk rock – característica que tem se mostrado presente em grande parte dos looks dessa temporada. 

Alberto desenvolveu looks como uma jaqueta motociclista de couro preto que foi usada sob um blazer masculino listrado, além de um couro branco envernizado por baixo de um casaco chevron de tricô jogado sob os ombros, além de macacões de couro vermelho e calças de motoqueiro, bem como em jeans largos e calças extra largas de cintura baixa usadas com tops ou malhas, que chegaram em conjuntos aconchegantes. 

As roupas leves eram brilhantes, opacas, metálicas, luminosas e brilhantes, que à noite, os looks eram iluminados por vestidos de malha tricotados com fio de lurex brilhante, como o usado pela supermodelo Eva Herzigova que encerrou o desfile.

Para Veronica Etro, diretora criativa da marca, nesta temporada ela desenvolveu a coleção nomeada de ‘Etro Remix’, uma verdadeira viagem aos anos 1960-1980, revivendo a herança da marca e as raízes familiares na Itália durante sua infância.  

Foram apresentados 46 looks que para essa coleção mostram o desejo pelo verão europeu. Looks coloridos e estampados em vestidos, calças, tops e terceira peças como uma camisa manga curta ou jaquetas. Looks como malhas boho arty-crafty, alguns em tons escuros com a pele a mostra que expressam uma estética punk, mas moderna e diurna. Os tecidos são um destaque a parte que vale a pena considerar a grande relevância da Etro nisso. 

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Para essa coleção de outono/inverno, Gucci entra em mais uma collab, dessa vez com a Adidas – as últimas collabs contaram com The North Face, Disney, e a mais recente Balenciaga – abrangendo desde chapéus – boinas, bonés, cachecóis – até ternos, vestidos de noite, corset, vestidos e acessórios. Intitulada de ‘Exquisite Gucci’, Alessandro Michele, ainda apresenta uma clássica estética vintage fazendo referências a várias épocas da marca, com casacos de pelo e reedições de bolsas clássicas.

A alfaiataria reina na coleção. Apesar do look ser um totalmente clássico, Michele o insere de uma forma contemporânea, usado com óculos, toucas com listras da Adidas ou brincos verdes. Reprisando um dos maiores sucessos de Tom Ford, um smoking de veludo vermelho do outono de 1996, o diretor criativo o insere com novos ajustes e outro tecido, que incluem ombros mais modernos, detalhes em couro que contornam a frente do smoking em preto com placas arredondadas de metal, além da camisa azul e uma gravata preta fina em couro. O look acompanha um sapato social, mas com toque esportivo. 

Ele disse que as mulheres com que trabalha muitas vezes expressam afeição por roupas masculinas e adoram usar ternos masculinos. “A linha é tão reta e elegante em um terno masculino”. O traje de abertura é tecnicamente um traje masculino usado e mostrado por uma modelo. “Você não precisa de muito para adaptá-los a corpos masculinos ou femininos”, disse Michele sobre o terno. 

Looks de renda e lingerie são usados com casacos volumosos e botas. Uma moda sexy e ousada é apresentada em looks femininos e masculinos, tanto nos looks em si como em suas cores e estampas, seja quadriculada, listrada e estampa de cobra que tem surgido nas passarelas.  

O ponto de partida da coleção, foi uma foto da Madonna de 1993, onde ela aparece em um vestido da Adidas. A parceria com a marca esportiva além de ganhar um ar vintage, apresenta um ar ousado como peças de tricô em pontos abertos. Muitos looks são apresentados com uma enorme logomania, característica clássica da Gucci. 

As cinturas nesta coleção subiram, não estão mais abaixo do umbigo como tem aparecido nas passarelas. Os ombros e as bolsas estão maiores, o contrário também do que tem sido visto, como a tendência de mini bolsas. 

Alessandro honra o legado da marca, mas sem perder o timing do novo, da mudança necessária. Resgata os arquivos e os insere no hoje. Uma coleção comercial que não irá demorar para ser vista pelas ruas. 

Não é de hoje que Donatella Versace gera expectativas sobre seus desfiles e consegue surpreender em boa parte deles. Para essa coleção de outono/inverno 2022, Donatella cria looks modernos e sexys, o que melhor sabe fazer em sua direção criativa da marca. Cinturas marcadas, corset e mini saia cintura baixa são apresentadas na coleção. O uso de cores que são atraídas ao sexy como rosa, preto e vermelho se encontravam nos looks. 

Supermodelos como Gigi e Bella Hadid, Emily Ratajkowski e Lila Moss desfilaram para a marca. As maquiagens eram com os olhos contornados de preto e sobrancelhas apagadas, além do cabelo liso e dividido ao meio – tendência que tem se mostrado presente nas semanas de moda.

A versão Y2K é enrustida na coleção, mas de uma forma madura e punk, e não jovial como ela se apresenta normalmente. O uso de choker, botas tratoradas e calças em vinil contemplaram boa parte da coleção. Camisetas com frases como “I ‘love” – representado em forma de coração – you, but I’ve chosen Versace” usada como baby look e mini saias ganharam o centro das atenções, e no final Bella Hadid aparece usando com Donatella. 

A paleta de cores é apresentada em tons neon, preto, verde, vermelho, rosa, entre outras. Nas estampas as cores se encontram e formam casacos quadriculados, blazers e vestidos. Casacos alongados e conjuntos de blazers ganham destaque nessa coleção como nesta temporada de outono/inverno 2022. 

Não é de hoje o resgate dos arquivos da marca por Donatella, como a inserção do salto bloco que em toda coleção é apresentado e continua atraindo olhares. O caminho da diretora criativa tem mudado e surpreendido, mas uma coisa é certa: ela não tem dúvidas do seu trabalho e o que fazer para alterar o estilo da marca, mas mesmo assim deixar seu DNA claro e cada vez mais presente. 

DIA 4

Em seu primeiro desfile após quase dois anos longe das passarelas, o designer nigeriano-britânico Tokyo James buscou direcionar suas criações a mensagens extremamente positivas. ‘’Pelo menos não se parece com o que passamos’’, disse o estilista após sua apresentação. 

Sendo assim, ele buscou apresentar peças que pudessem fugir do sentimento de tensão pela qual o mundo tem passado nos últimos 18 meses por conta da pandemia em decorrência do novo coronavírus (Covid-19). 

Durante seu desfile suas peças fortes e justas foram grandes protagonistas de seu grande show 一 marcado pela resiliência. As mulheres de Tokyo James foram representadas de maneira altamente sexy e sensual. De maneira mais geral, a apresentação da nova coleção de Outono de James apresenta referências ao universo punk 一 representados pelos cabelos espetados e óculos cobertos de tecido 一 e ao upcycling, marcados pelo jeans reciclado e uso de materiais mortos da Nigéria.  

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Entretanto, a alfaiataria de Tokyo James foi a grande estrela do desfile. Confeccionada a partir de ternos feitos em mohair felpudo, em seda chartreuse abotoada na parte lateral e com bordados de sapos 一 toten escolhido por James 一 feitos de maneira caprichada.

Como forma de ressaltar a parceria da marca com a Nike e sua paixão pelo universo futebolístico, foi possível observar pregas de futebol em praticamente todos os modelos da coleção, além do reaproveitamento de alguns materiais como os cadarços dos sapatos como acabamento em um de seus vestidos e babados da Nike como remendos. 

Não é novidade alguma que o DNA de Jil Sander está diretamente ligado à construção de ternos clássicos em alfaiataria e toda a sua sutileza e elegância, e nesta temporada não foi diferente. Enquanto a maioria das marcas 一 inclusive as que passaram pela Semana de Moda de Milão 一 buscou mirar nas referências e gostos da Geração Z, Lucie & Luke Meier (responsáveis pela direção criativa da Jil Sander) optaram direcionar as criações da marca ao olhar adulto e mais maduro, pensando na comunidade desta determinada faixa etária que ocasionalmente possam se sentir abandonadas e deixadas de lado no quesito ‘’representatividade’’ ou, ainda, na quase ausência de vestimentas voltadas para si nas últimas temporadas das semanas de moda. 

Este sentimento de lealdade foi reproduzido através da produção das peças clássicas em alfaiataria escultural, construídas de modo que praticamente imitassem a produção em alta-costura, bem como pela adoção de silhuetas mais cortadas, representando toda a elegância que somente a Jil Sander tem.  

Seguindo essa pegada, foi possível encontrar ternos de saia em lã, jaquetas com uma construção mais esculpida em volumes de ampulhetas e complementadas com a presença das famigeradas botas Chelsea 一 desta vez, com detalhes dourados, mais planas e resistentes. Além disso, o minimalismo dos anos 60 em junção ao propósito artesanal construíram – de maneira altamente sucessiva – a estética de Jil Sander para este Outono.  

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

A nova coleção da Bottega Veneta antes de seu lançamento poderia facilmente ser considerada como uma incógnita para a comunidade da moda, especialmente após a saída de seu então diretor-criativo, Daniel Lee, anunciada oficialmente em 10 de novembro de 2021. Desde o comunicado, muito se especulava quem assumiria e quais rumos a marca italiana iria tomar 一 uma vez que Lee foi considerado como o grande responsável pelo rebranding da marca, especialmente durante o início da pandemia, em 2020. 

A coleção de Outono/Inverno 2022 da Bottega Veneta legitima o debut de Matthieu Blazy na marca 一 designer belga que teve passagem pela Balenciaga, Raf Simons, Maison Margiela, Artisanal, Celine e Calvin Klein antes de se tornar o diretor do setor de prêt-à-porter da Bottega em 2020. Apesar das diversas especulações acerca de sua função como diretor-criativo da casa e de como ele daria continuidade ao trabalho excêntrico realizado por Lee, é possível afirmar que Blazy conseguiu entregar uma coleção íntegra e extremamente alinhada aos conceitos e identidade da Bottega Veneta. 

Pelas próprias palavras de Matthieu sobre suas criações, sua nova coleção para a marca simboliza as jornadas, e isso pode ser facilmente apreendido durante uma viagem pelos 69 looks apresentados por ele nesta temporada. Cada look contém uma história para contar e representa o conceito de diversas e distintas jornadas individuais. ‘’Há muitos personagens, todos eles têm lugares para ir, eles se sentem bastante livres’’, contou Blazy à Vogue. 

Em outras palavras, Matthieu Blazy pretende reconectar a marca com seu pedigree italiano através da inovação e criatividade 一 características bem marcantes da Bottega Veneta. O que pode ter sido considerada como uma coleção com componentes e detalhes ‘’demais’’, na verdade, representa de maneira excepcional a assinatura de Matthieu costurada à identidade da marca. 

Foto do desfile da Bottega Veneta, retirada do Vogue Runway.

Quanto aos detalhes, foi prazeroso poder assistir uma coleção tão sólida e extremamente precisa quanto à colocação dos componentes e o storytelling por trás de toda essa junção, como por exemplo a calça confeccionada de couro representada como jeans. 

Chama atenção ainda a importância do trabalho artesanal nesta coleção de Outono/Inverno da Bottega Veneta: a nova bolsa apresentada (Kalimero) foi confeccionada em uma peça única 一 sem costuras 一, assim como as botas de cano alto presentes na apresentação. Ademais, os ternos executados com precisão, malhas mais ecléticas e suéteres retalhados contribuíram para exaltar a produção à mão nas criações de Matthieu. 

Se por um lado a saída abrupta de Daniel Lee de seu cargo como diretor-criativo da Bottega Veneta deu margem a diversas lacunas quanto o futuro da marca na indústria da moda, a recém-chegada de Matthieu Blazy à maison foi crucial para fechá-las. Com uma proposta de criações mais confortáveis e destinadas a vestirem as denominadas ‘jornadas’, a coleção exposta por Blazy neste sábado (26) conseguiu conversar entre duas gerações contrastantes (passado-presente), além de posicionar a Bottega Veneta no status de moderna, atual e conectada 一 expressa pelas referências à tecnologia, propósito este também pretendido pelo novo diretor-criativo da marca. Sendo assim, a coleção que oficializa a estreia de Matthieu marca o início de uma nova era na casa italiana, sem deixar para trás a sutileza, leveza, requinte e alta qualidade característicos de Bottega Veneta. 

DIA 5

Massimo Giorgetti lança sua coleção de Outono/Inverno 2022 para a MSGM como um foguete que anseia desvendar os mistérios da imensa escuridão do espaço sideral. De acordo com as notas do designer, Giorgetti se viu observando o céu à procura de ‘um espaço mais amplo de esperança em algum lugar longe do familiar e assim fugir da realidade difícil’.

Toda atmosfera astronômica que envolve as constelações, galáxias, planetas, estrelas, buracos negro e cometas foi ponta pé de inspiração do designer italiano, que logo se viu imerso e totalmente preso na temática, segundo o prórpio Giorgetti. 

Brilho foi a palavra de ordem do início ao fim da passarela, fazendo alusão aos corpos celestes que iluminam a imensidão escura e misteriosa do cosmos. O glitter e a purpurina na estamparia de peças em tule, o vinil, bordados de cristais em forma de estrelas, paetês, o couro e o trabalho de bordado em telas transparentes; todos materiais que quando trabalhos em sequência, completam a energia luminosa que coleção aborda. Peças grandiosas de pele falsa como casacos, saias e botas “lunares” terminam por trazer essa silhueta volumosa já bem familiar dessa temática espacial.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Na estamparia, o designer trabalha de forma bem literal o seu tema. Motivos onde os desenhos figurativos de constelações estelares, cometas, meteoros e planetas juntam-se em uma só superfície criando as galáxias que habitam na imaginação de Giorgetti. Já nos bordados brilhantes presentes nos conjuntos de alfaiataria e no moletom e calça jeans (look 17), levam esses looks de cortes simples a se comunicarem com maior coerência com a extravagância do restante da coleção.

Diferentemente de suas coleções passadas, Giorgetti decide apostar em uma paleta bem mais discreta do que em seus tons rosados e alaranjados extremamente saturados da sua última coleção. Os tons metalizados, acinzentados, o branco e o preto dominaram a maior parte das peças da coleção. 

A literalidade do designer ao longo da apresentação pode ter facilitado o entendimento do tema por parte dos fãs de seu trabalho, mas talvez seguir por caminhos menos óbvios e mais orgânicos poderia ter levado sua coleção à galáxias bem mais excitantes.

A moda das pistas de corrida da Fórmula 1 retorna às passarelas na Semana de Moda de Milão através da coleção de Outono/Inverno 2022 da Ferrari, que continua a investir no mercado de moda de luxo desde junho de 2021.

Rocco Lanonne, designer italiano responsável pela direção criativa da Ferrari, partiu do ponto de partida do próprio DNA da quase centenária marca de carros de luxo. Inspirado no cotidiano dos pilotos da Ferrari, Lanonne faz estudo das inovações tecnológicas de materiais e traduz isso para um consumidor que tem interesse em consumir o produto fashion da grife. 

Ele buscou mergulhar mais fundo na cultura automotiva e não focar somente no lado superficial dessa modalidade esportiva, como nos elementos físicos, decorativos dos carros e nas roupas de pilotagem. 

Ao invés disso, procurou apostar nos fatores tecnológicos, exemplos disso foram os vários looks em Nylon, que por via de regra fazem parte do cotidiano dos uniformes dos profissionais das equipes; além de peças em fibras de carbono e fibras de plástico reciclado.

A paleta de cores escolhida por Lanonne descreve com clareza o espírito da marca, os tons de vermelho amarelo e verde estão presentes do início ao fim da coleção em diversas tonalidades diferentes; além dos azuis, preto e das estampas gráficas que remetem à circuitos de softwares, a logo de cavalo da marca foi repetida diversas vezes em alguns looks gerando estampas abstratas.

Peças em couro, lamê e borracha, casacos de cashmere e golas felpudas tiveram seu momento de destaque durante o desfile. Ianonne também aproveitou para trabalhar em luvas de pilotagem de couro e balaclavas de tricô, muito tem se discutido sobre o uso da balaclava e o significado cultural que ela carrega. No caso de uma marca de carros de corrida como a Ferrari, a balaclava é um elemento de segurança obrigatório nos uniformes dos pilotos e sua inserção na coleção faz total sentido para um consumidor que está habituado neste ambiente automotivo.

Lanonne ainda percorre pistas desconhecidas ao assumir a direção criativa de uma marca de carros em um território tão desconhecido para a Ferrari, como a moda; seus primeiros trabalhos na marca já mostraram agradar o consumidor já habituado com a marca e atrair nosso fãs para a Ferrari e para o mundo automotivo que têm crescido muito em popularidade nos últimos meses. 

Só resta saber se a marca vai saber lidar com o público do mundo fashion da mesma forma que sabe lidar com os apaixonados por carros ou se é só mais uma febre que recaiu sob o gosto popular com Fórmula 1 que voltou a estar em voga.

Fotos para a montagem retiradas do Vogue Runway.

Inspirado pela era do jazz e pelo movimento artístico Art Déco, Giorgio Armani lança sua coleção de Outono/Inverno 2022 seguindo a tendência cintilante que tem tomado conta das passarelas nessas últimas semanas de moda.

Movido pela extravagância dos anos de 1920, Armani levou a sério o trabalho eufórico de materiais brilhantes ao longo da coleção.

A extensa coleção de 90 looks desfilados na passarela contou com uma seleção de peças com silhuetas frequentes na marca de Giorgio Armani mas com um apreço pelo glamour elevado nessa temporada de Outono/Inverno.

Desde vestidos, calças, passando por blazers, casacos, cardigans e acessórios, o designer italiano trabalha a estética festiva em um paleta de cores concentrada nos acinzentados, pretos e azulados. 

Mesmo com um público masculino de perfil mais conservador e clássico, Armani conseguiu introduzir a aplicação de materiais não tão discretos sem sair exageradamente da zona de conforto da sua clientela, que já está familiarizada com a alfaiataria impecável Italiana.

As inúmeras peças de veludo molhado, jaquetas de lã, casacos estampados e brilhantes, jaquetas com abotoamento marinheiro e com bolsos utilitários, cardigãs e calças amarrotadas descrevem o guarda-roupa desse novo consumidor de Armani que passa a experimentar com certo cuidado o glamour trabalhado na coleção. Para a moda feminina, a Armani pode extravasar com maior liberdade os brilhos de um tempo passado regado a festas e holofotes. Os looks femininos foram recheados de brilho desde a linha dos ombros até aos calçados e acessórios.

Veludo molhado, brocados texturizados, estampas geométricas cintilantes, e o trabalho minucioso de bordado de miçangas em vestidos que revisitam a silhueta de linha “I” das melindrosas da era do Jazz captam toda o comportamento excêntrico das mulheres daquela época mas nos tempos de hoje.

Armani se junta ao grupo de designers que passam a olhar a moda como uma válvula de escape que viaja para tempos mais fáceis, e que ficam à espera de clientes que queiram entrar nessa fuga temporal.

London Fashion Week: beauty eclética e experimental

A semana de moda de Londres, que teve início na sexta-feira (18 de fevereiro) e fim na terça (22), apresentou ao público as novas apostas e interpretações de diversos designers para a temporada de Outono/Inverno de 2022. Conhecida como a mais experimental das semanas de moda e favorita dos novos estilistas como porta de entrada para a apresentação de suas coleções, a mais recente LFW provou que todo o caráter eclético atribuído a ela vale não somente para as peças desfiladas, mas para as belezas que as complementam também.

Se tratando das makeups exibidas, observamos marcas insistentes da estética limpa e leve que tem imperado nas últimas temporadas na beleza de desfiles como Halpern e Erdem, que optaram por uma imagem limpa, básica, prezando pela naturalidade, sem contornos forçados ou iluminadores exagerados; parece que até o blush tão associado à famosa “carinha de saúde” foi deixado de lado, demonstrando de certa forma, uma mensagem de valorização de uma beleza voltada à praticidade.

No entanto, alguns traços de criatividade e disrupção puderam ser observados por meio de makes que trouxeram cor, luz, brilho e força em pontos estratégicos como forma de criar uma beleza sinestésica e envolvente, que representasse a forma como cada marca deseja se comunicar com o futuro. Matty Bovan nos apresentou olhares fortes, sublinhados por traços marcantes e pesados – trazendo uma vaga lembrança das marcações nos olhos feitas por guerreiros em filmes de ação – demonstrando uma visão focada, firme e determinada do por vir. Já em Simone Rocha, o mesmo olhar forte veio em forma de luz; em uma estética inegavelmente Euphoria like, os delineados que envolveram os olhos por completo eram feitos à base de muito brilho e pedrarias, demonstrando claramente uma visão de dias vindouros ricos, promissores e radiantes – uma verdadeira visão de milhões.

Já quando o assunto são os hairstyles, acende-se o alerta para os adereços capilares e penteados que nos levam a revisitar as épocas passadas, como os altíssimos “rabos-de-cavalo”, em uma vibe anos 80, vistos na passarela de Molly Goddard, ou os lenços brilhosos que cobriam toda a cabeça desfilados pela grife Erdem nos remetendo à estética hippie dos anos 70 – porém, dessa vez, confeccionados em muito brilho e paetês, o que pode ser interpretado como uma forma de ter pensamentos brilhantes em relação ao que nos aguarda – e até mesmo criando uma sutil lembrança dos casquetes da década de 1920, que foi marcada por uma imensa disrupção com padrões anteriormente vistos, o que também pode ser entendido como uma forma de romper com o cinzento e enlutado passado recente. Além disso, adereços, antes tão “desprezados” e vistos como comuns, receberam um novo status de “peças desejo”, como as – polêmicas – balaclavas que marcaram presença na passarela de Simone Rocha. Além disso, o famoso wet hair voltou a dar as caras como aposta de Nensi Dojaka, trazendo um ar de frescor para contrastar com as coleções voltadas para as estações mais frias.

Por fim, a semana de moda londrina seguiu mantendo sua característica de ser um ambiente experimental para o mundo da moda e da beleza, apresentando aos críticos, consumidores e todos os outros espectadores novas formas de revisitar o passado, associá-lo a tendências presentes, sem deixar de expressar desejos para o futuro.

Frenezi na Semana de Moda de Outono/Inverno de Nova Iorque

Para inaugurar a temporada de Outono/Inverno 2022, que acontece durante os meses de fevereiro e março entre as principais cidades das semanas de moda internacionais — Nova Iorque, Londres, Milão e Paris — começamos a semana de moda de Nova Iorque com um respiro gelado da cidade, ainda se recuperando do inverno.

De corsets de couro em Dion Lee até as saias exuberantes em Carolina Herrera, abordaremos um pouco neste texto sobre a maioria dos desfiles da semana de Nova Iorque, com seus designers independentes e marcas jovens que já roubaram o coração da indústria e seus amantes.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Nova Iorque aqui.

Foto retirada da conta no Instagram da marca Christian Siriano.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono/Inverno em Nova Iorque:

DIA 1

Começando por uma das primeiras apresentações do primeiro dia da NYFW com a coleção de Outono/inverno 2022 apresentada por Christian Juul Nielsen para a Herve Leger, o designer entrega peças que conversam perfeitamente com o agora e que certamente serão um sucesso de vendas. É uma coleção pouco criativa em termos de design, porém às vezes as marcas precisam apostar em peças mais comerciais por razões óbvias.

Todos os 24 looks são monocromáticos e em conjuntinho, feitos em cores que variam entre rosa pink, preto, verde ácido e marrom arroxeado. A modelagem das peças é toda mais justa em decorrência da bandagem, técnica pela qual Hervé Leger ficou internacionalmente conhecido.

Saias lápis fazem conjunto com tops com recortes e são estilizadas com luvas, assim como todos os outros looks da coleção, que recebem o acessório na mesma cor do conjuntinho. Destaque também para os vestidos longos e blusas justas com recortes e franjas, que com certeza serão os hits de venda desta coleção. É uma apresentação extremamente assertiva, mas que peca apenas em um aspecto: das 21 modelos fotografadas para o lookbook, apenas 1 é negra.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

O Outono/Inverno de Proenza Schouler vem na contramão de outras marcas: enquanto todos buscam  as roupas pós-pandêmicas, para curtir a vida; ou o conforto do ‘loungewear’; a coleção criada pela marca é para  o “agora”.

O corpo quase totalmente coberto na maioria dos looks nos recorda dos dias de lockdown, mas de forma sofisticada. Conjuntos de blazer e calça, casacos e saias somadas a blusas de manga infinita e gola alta, sempre com silhuetas amplas são reconstruídos pelo corset, marca registrada de Proenza, mas que surge de forma revisitada para evitar a redundância que vimos em tantas outras casas. Nessa coleção, o item aparece em forma de tecidos grossos amarrados por todo o abdômen e quadris.

Além da alfaiataria pesada e dos tecidos articulados quase como armaduras para enfrentar o atual momento, houve espaço para a fluidez. Vestidos em cores vibrantes  — em contraste com os tons básicos mostrados no resto dos looks — marcaram ponto, sempre em materiais leves. 

É interessante pensar em como os estilistas utilizaram, em cada uma das peças, diferentes técnicas para alcançar a silhueta marcada: alguns vestidos tiveram suas cinturas acentuadas por meio de “falhas” no tingimento das estampas; outros, com cintos e corsets feitos de tecido. O look 28 (ao lado) fez uso de amarrações e franzidos.

A repetição de técnicas ou de cores não é um problema aqui — a coleção passa longe de ser entediante e sabe buscar com maestria as tendências do momento sem perder a essência original. 

A persona de Proenza Schouler por Lazaro Hernandez e Jack McCollough (diretores criativos da marca) se  mostra novamente elegante, antenada e independente de opiniões e comportamentos alheios. 

Foto retirada do Vogue Runway do desfile de Proenza Schouler.

Miley Cyrus, Lady Gaga, Lil Nas X e Lizzo: estas são apenas algumas das celebridades que amam Christian Cowan e já desfilaram alguns de seus modelos por aí. O estilista britânico de 25 anos é o favorito de famosos que buscam um visual glam e festivo sem erros, fazendo sempre o uso de muita cor, brilho e aplicações.

Sua estreia na NYFW em 2018 dividiu opiniões entre a crítica: muitos acharam o trabalho do jovem designer extremamente carregado, enquanto outros defenderam a sua estética opulente e a compararam ao trabalho de Jeremy Scott.

De fato as primeiras coleções de Cowan pecavam na edição final dos looks e no equilíbrio certo das aplicações e cores utilizadas pelo estilista. Mas, com o tempo, seu trabalho foi sendo refinado e atingiu o ápice na temporada passada, quando Cowan apresentou um dos melhores desfiles da NYFW.

Mas, infelizmente, o designer parece ter andado algumas casinhas para trás com seu Outono/Inverno 2022 apresentado ontem (12/11) em Nova Iorque. A coleção, que tem como inspiração trajes clássicos de gala, insiste nos mesmos erros do início da carreira do designer: a edição final dos looks é bagunçada, as aplicações de brilhos e paetês ultrapassam o limite e o line up final é dividido por seções em que os looks não conversam entre si.

Um dos looks apresentados pelo estilista combina um vestido drapeado com cauda em cetim lilás e uma jaqueta puffer rosa chiclete com aplicações em cristais e recorte nos braços. Já outro é composto por um vestido confeccionado em veludo preto com busto e alça em paetê roxo, em uma modelagem que claramente não valoriza e nem se adapta ao busto feminino. 

Foto retirada do Vogue Runway do desfile de Christian Cowan.

Entre looks ultra carregados e extravagantes como estes, Cowan apresentou vestidos e peças em corte de alfaiataria, produzidas em tecidos fluidos com estampas abstratas que fogem completamente da narrativa da coleção e causam certo estranhamento no line up final. 

O destaque ficou por conta de apenas um look: o final. Um vestido preto em tafetá com saia volumosa, recorte na barriga e aplicações em cristais exala a energia party girl meets old hollywood e nos faz lembrar exatamente o que amamos no trabalho do designer e desejamos ver daqui pra frente. Maddy Perez, certamente, escolheria este modelo para seu baile de formatura.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

A dosagem errada de glam e fantasia, a má distribuição dos looks e da paleta de cores no line up e a presença de peças que fogem da narrativa da apresentação são alguns deles. Acompanhe no carrossel o review completo.

A coleção construída por Mark Thomas e Thomas Cawson para a Helmut Lang dialoga perfeitamente com uma audiência mais jovem que busca peças minimalistas e fáceis de usar.

Os códigos de Lang aparecem na paleta de cores, composta majoritariamente por preto, e nas texturas – que vão desde a renda, passando pela seda e chegando à pele de carneiro colorido. A coleção apresenta uma boa leva de peças de alfaiataria, que são desconstruídas através de recortes e faixas no maior estilo Lang possível.

No geral a coleção é puramente comercial, assim como a maioria das já apresentadas pela dupla. A verdade é que, desde o desligamento de Helmut da moda há 15 anos atrás, a marca tem produzido coleções pouco importantes e significativas.

O legado de Lang parece ainda permanecer vivo nas mãos de Thomas Cawson, diretor criativo à frente da marca. A prova disso vai para além da cartela de cores minimalista da coleção apresentada ontem (11/02) : Cawson parece utilizar a alfaiataria como base, e desconstruí-la para a contemporaneidade, fazendo uso de texturas como pele de carneiro tingida e criando assim desejo para o consumidor mais jovem.

DIA 2

Começando o segundo dia com uma marca brasileira, a PatBo, a qual ao homenagear a terra natal, Patrícia Bonaldi em seu segundo desfile físico para NYFW se aventura profundamente no mundo do trabalho manual. A coleção toda foi confeccionada por profissionais que fazem parte da escola de bordadeiras da designer mineira em Uberlândia, sua cidade natal.

Bonaldi teve seu foco centrado muito mais nas texturas das superfícies dos tecidos, do que em estampas corridas como em coleções passadas. Ela se manteve fiel ao DNA da sua marca apresentando, mais uma vez, as franjas e os bordados que deram fama ao seu nome. 

Foto retirada do Instagram da marca PatBo.

Um elemento novo para a marca mineira na passarela, em comparação com o último desfile,  foi o foco em materiais brilhantes, como strass, pedrarias em geral e até mesmo tecidos brilhantes, como o veludo molhado. 

Logo no início do desfile a temática da juventude e da sensualidade é apresentado como um guia para compreender todo o resto da coleção. O primeiro look apresenta um maiô inteiro bordado de strass coberto por um longo sobretudo branco de inverno, já no segundo look jeans ornamento por strass revela ter sido uma mistura condizente entre o jovial e o sensual. 

A passarela foi marcada pela sensualidade dos looks, tanto nas silhuetas como nos tantos recortes nas modelagens dos maiôs, vestidos, saias e top croppeds. Além disso, a presença de materiais e peças mais quentes como casacos, croppeds de manga longa em veludo e blazers foi discutido pontualmente pela própria designer para desmistificar a crença de que “brasileiros não sabem pensar na moda invernal”.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

A brasileira em pouco tempo soube cativar a atenção da moda internacional e é possível enxergar a influência disso em sua assinatura, principalmente nesta última coleção. Ainda é preciso que a marca se desprenda de certos elementos, mas tendo em vista todo o seu caminho percorrido até aqui, é inegável a grande promessa que PatBo é para a moda brasileira no cenário internacional.

Se Jason Wu tinha o objetivo de explorar ao máximo a feminilidade com todas as suas facetas, ele certamente conseguiu na sua mais recente coleção de Outono/Inverno 2022 apresentada fisicamente na NYFW neste sábado (12).

Segundo notas do próprio designer, toda a atmosfera do desfile teve o intuito de resgatar o glamour dos anos 50 e homenagear aspectos da alta-costura estadunidense, além disso toda a coleção também foi uma homenagem ao companheiro de rotina de Wu, seu gatinho Jinxy, que veio a falecer recentemente.

Wu mostra ser possível explorar de diversas maneiras a temática floral, que já é familiar para os fãs de seu trabalho. Os motivos florais foram apresentados ao longo dos looks com certa discrição, sua presença se fez em estampas abstratas que remetem a silhuetas das flores e em bordados e rendas. 

O flerte com o uso de diferentes silhuetas do designer taiwanês foi equilibrado, explorando de tudo um pouco. Vestidos de bainhas curtas, outras longas, saias bolha e saias midi; casacos puffer de superfície acolchoada, enquanto houveram vestidos de cetim e chiffon que exploravam a cintura marcada ou não. 

Numa tentativa de se aventurar em novos matizes. Que se afasta dos verdes e amarelos vividos apresentados na sua coleção de Primavera/Verão 2022 e explora a feminilidade encontrada no rosa pink, vermelho e roxo; e a sensualidade embutida no preto, branco e marrom hickory.

O desfile se encerra com o vestido preto de número 37, em camadas e com uma cintura bem marcada, uma tentativa de fechar a passarela com a sensualidade discreta que o vestido passa. Mesmo assim sua finalização passou aquele desejo “por mais”, por querer ver mais trabalhos seguindo a temática explorada. 

O desfile de Outono/Inverno da Elena Velez, é uma celebração às diferentes formas de feminilidade; traz a força, o desejo por liberdade, a confiança e a sensualidade, que, sob a perspectiva da estilista, sintetizam o feminino.

Velez trouxe também, referências a questões impostas, pela sociedade, às mulheres, como a maternidade e a pressão estética. A simbologia maternal, abre espaço para homenagear a mãe da designer, que inspirou a coleção – capitã de navio e mãe solo, sua realidade fugia do que é descrito como adequado e feminino.

O embate entre o discreto e o extravagante descreve bem a apresentação da coleção de Outono/Inverno 2022 de Christian Siriano.

A apresentação física ocorreu no coração de Nova Iorque, no andar do Concourse do Empire State Building na noite de ontem (12). Os convidados da primeira fileira contaram com confidentes fiéis de Siriano, como a atriz Dre Barrymore, a famosa drag queen Aquaria, além da sua clientela habitual.

Nomeada de “Matrix Vitoriana”, segundo notas do desfile, Siriano – como qualquer outro designer contemporâneo a ele – teve como objetivo exprimir a angústia de tempos tão tensos como os de hoje.

Durante o curso na passarela, é muito ‘pontual’ essas referências do designer estadunidense. Peças em látex que remetem à rigidez de tempos futurísticos e distantes como o mundo de Matrix e o tule resgatando a delicadeza de vestidos de gala de tempos passados, tempos Vitorianos.

O designer logo de cara apresenta uma cartela de cores bem limitada, os azuis e pretos tiveram o maior destaque durante o desfile.

Foi interessante observar o trabalho de silhuetas do designer nos diferentes tecidos. Formas simples nos vestidos com silhueta de linha “I” no veludo molhado, e figuras mais experimentais em um dos tecidos mais norte-americano que se pode pensar, o Jeans.

Após anos sendo admirado por suas formas extravagantes, dessa vez os looks que rou-

baram a cena são justamente os mais discretos da coleção.

As estampas tiveram uma aparição um tanto desconexa ao longo da apresentação. Ter uma comunicação coerente entre as peças de uma passarela é de extrema importância, justamente para exprimir, sem sombra de dúvidas, a mensagem do estilista.

Estampas xadrez, florais, rendas bordadas, tules e chiffon com aplicações de lantejoulas e os veludos tiveram sua parcela de destaque na passarela.

Christian Siriano capta várias das diversas tendências de consumo dos últimos anos, como: os espartilhos, blazers de silhuetas rígidas, luvas, brilhos e rendas – que se acentuaram muito nessa última temporada de moda. Tal jogo de marketing pode se tornar proveitoso pelo ponto de vista comercial, mas ao final do desfile, a mistura de tantas informações como essas pode resultar num trabalho um tanto confuso.

Dessa vez, numa tentativa de querer explorar duas temáticas tão distintas – Matrix e a era vitoriana – em combinações não tão óbvias, a coleção final de Siriano precisou harmonizar com mais eficácia as ideias que o inspiraram.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Com um desfile um pouco mais íntimo do que de costume, Brandon Maxwell sendo o penúltimo designer da noite de ontem (12), apresentou sua coleção de Outono/Inverno 2022 na NYFW.

Brandon Maxwell leva consigo os admiradores de seu trabalho de volta ao tempo de sua juventude, ao nascimento de seu amor pela moda tendo como mentora sua avó, que sofre de Alzheimer. Do início ao fim, o desfile transparece uma nova faceta de Maxwell, uma versão do estilista mais delicada e até angelical.

Diferente de suas coleções passadas, o designer estadunidense faz uso da simplicidade para explorar materiais já familiares aos norte-americanos, como o jeans, as rendas e a camurça – muito presente nos acessórios da coleção. A dança entre tecidos pesados e leves durante a apresentação soube equilibrar os looks de inverno, que não necessariamente precisam descrever uma estação rigorosa.

O jovem Maxwell durante sua infância costumava brincar com os xales e joias da avó e sua irmã era seu manequim preferido para explorar sua criatividade; seus looks refletem essa brincadeira infantil com um tom agora mais adulto do designer. Peças em cetim, chenille, renda, tecidos acolchoados, tricô, couro trabalham essas nuances entre o reto e o volumoso.

Toda a coleção é um retrato da vida de Brandon Maxwell, desde sua infância e a forma como a sua avó o influenciou até a abertura da sua própria boutique no Texas.

“Quando decidimos fazer um show, eu queria fazer algo que, se fosse meu último, fosse um suporte de livros do qual eu me orgulhasse”, disse o designer de 37 anos.

Uma coleção tão pessoal como a de Maxwell, revela o potencial criativo do estilista, um designer capaz de entregar looks glamourosos, como sempre fez, mas também que enxerga em sua trajetória pessoal aspectos da simplicidade que podem encantar igualmente o seu consumidor. 

O desfile foi iniciado e encerrado pela modelo Karlie Kloss. No look final, o vestido de gala com estampas florais estabelece a conexão íntima entre um neto e sua avó, as flores foram reproduzidas de uma pintura feita pelo avô de Maxwell em homenagem à esposa. Tendo como um toque final, uma echarpe acolchoada e ornamentada por plumas, que resgatam perfeitamente o primeiro contato do estilista com a moda e o olhar amoroso de um neto.

DIA 3

Atualizando as definições de ‘boho chic’, Ulla Johnson resgatou o estilo hippie e setentista, dando a ele uma nova roupagem, através de silhuetas e tecidos que marcaram os anos 90. As esculturas do artista Alma Allen – que fizeram parte da composição do cenário – foram fonte de inspiração para os tons acobreados e para as peças metalizadas. 

A produção artesanal é característica de Johnson, a coleção foi 100% feita à mão, em Miami, com processos de lavagem e acabamentos sustentáveis. O crochê e a camurça, vieram em propostas femininas, contudo imponentes; por meio da estamparia, Ulla homenageou o continente americano, unindo tradição e modernidade. 

Através de suas coleções temáticas, Piotrek Panszczyk, diretor criativo da AREA, já nos transportou para diversos cenários, mas curiosamente, o mais característico da marca, ainda não tinha sido abordado. Focada em peças com aplicação de pedrarias, bordados e recortes sensuais, a Area é sempre associada à festas, boates e, à vida noturna em geral. Apresentar o óbvio poderia soar cliché, mas Panszczyk sempre nos surpreende.

Inspirada pelo universo das showgirls, a coleção homenageou Zizi Jeanmarie e Josephine Baker, ícones dos anos 20, que marcaram o glamour Deco, trouxe também, o brilho das dançarinas de Las Vegas e, o ar divertido e misterioso do carnaval brasileiro – que inclusive, esteve presente na trilha sonora.

Mais do que apenas rostos bonitos, a coleção Spring 2022 da Area exalta a determinação feminina – Panszczyc reforça que abre espaço para uma discussão política, ao analisar o retrato social das showgirls e suas manifestações artísticas.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Os bordados foram desenvolvidos em conjunto com artesãos indianos, enquanto headpieces e outros acessórios faciais, foram criados em Roma. Mais uma vez, a marca deu um show de criatividade e irreverência, através de peças extravagantes e perfeitamente executadas.

A coleção contou com looks mais conceituais, em relação à anterior, o que marca uma nova fase para a Area, com uma imagem mais estabelecida, possibilitando assim, uma maior afinidade com a alta-costura.

A marca fundada em 2016, por Catherine Holstein, mantém sua essência, repleta de peças em couro, jeans, alfaiataria e cashmere, em produções ousadas, com toque refinado e acabamentos impecáveis. 

Na coleção Outono-inverno, abusou desta ousadia característica, numa proposta industrial, jovem e sexy – surpreendentemente, sem saltos altos, um grande diferencial. 

Mais uma vez, a estética futurista é apresentada na fashion week, marcada pelos tecidos metalizados, transparências, aparência molhada e, até mesmo, pelas franjas, que acompanham uma padronagem de linhas desconstruídas; já as modelagens oversized, foram substituídas por peças que, propositalmente, parecem ajustadas. 

A coleção de Outono/Inverno 2022 de Eckhaus Latta encerrou a noite e comemorou o marco de uma década da grife no mercado. Com um dos desfiles mais marcantes até o momento, Mike Eckhaus e Zoe Latta se mantêm firmes em suas assinaturas que transformou a marca em uma das marcas independentes mais potentes da NYFW.

Do início ao fim do desfile, os recortes e as modelagens “desconstruídas” das roupas foram o alicerce de toda apresentação. A dupla de designers reafirma mais uma vez sua criatividade em torno da escolha de materiais, em conjunto, com o recorte e a forma que estes são trabalhados, resultando em silhuetas singulares da marca.

“Não queríamos ser nostálgicos ou retrospectivos, mas queríamos trazer de volta as coisas que amamos das nossas primeiras coleções, especialmente o trabalho manual”, disse Eckhaus e Latta. 

Peças de malhas e couro recortadas e construídas de maneira instintiva, calças jeans desfiadas de cima a baixo, os tules; todos trabalhados de maneira que refletissem integralmente a assinatura dos fundadores da marca. A atenção às texturas das superfícies de cada peça foi provavelmente o ponto alto da coleção. O brilho também teve sua parcela de presença durante o desfile, em peças de lantejoulas, strass, fios brilhantes que entrelaçam as malhas e no brilho natural das peças de couro à luz do ambiente.

Toda a coleção da marca prova que é possível reproduzir constantemente a estética indie alternativa da dupla com qualquer cartela de cor, e dessa vez não foi diferente, o uso do rosa pink, em conjunto com os tons terrosos, cinzas e pretos não deixa de revelar a alma indie da coleção.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

O desfile soube tomar a responsabilidade de deixar os espectadores da NYFW encantados, ao mesmo tempo que reafirma as características da própria marca, que as fizeram se tornar uma potência na moda independente nova-iorquina.

Inspirado por sua recente viagem à Escócia, Joseph Altuzarra trouxe o estilo navy às passarelas, fazendo referência à uma lenda local – na narrativa, um marinheiro é seduzido por sereias e, transformado em uma criatura marinha; os estágios desta mutação podem ser percebidos ao longo da coleção: composições mais pesadas e estruturadas, com ar militar, são apresentadas no início; em seguida, as peças tie dye em malha, simbolizam a sedução; por fim, lantejoulas que lembram escamas, aparecem gradualmente, até que tomam conta dos looks por completo, marcando o fim da transformação.

A coleção de Outono/Inverno resgatou tópicos da temporada passada, com releituras nada óbvias; o tie dye, que marcou a Primavera da marca, apareceu com novos padrões e em diferentes tecidos, como malhas e cashmeres. Já o estilo militar, foi retomado de coleções apresentadas há mais de uma década; Altuzarra conta que o reconhecimento destas modelagens, por antigos clientes, traz uma sensação nostálgica, como se pudesse observar o passado da marca.

Para o futuro, Joseph investe também numa nova linha, denominada “Altu”, onde traz um abrangente olhar genderful – não confundir com genderless, como ele costuma frizar.

DIA 4 

A temporada de Outono/Inverno da marca, apresentada por Wes Gordon (diretor-criativo), reflete a sensibilidade, leveza e sutileza, que são registros da Carolina Herrera em seus 40 anos de existência. A coleção simboliza o romantismo 一 carregado por seus vestidos fluidos e clássicos 一 unido ao poder feminino e exuberância, contemplados com um toque de alfaiataria clássica fabricada em ondas ondulantes. A energia da imagem feminina proposta por Gordon reúne a energia, o drama e o jogo de cores, que fazem da coleção um show de sofisticação e linearidade. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Haoran Lin e Siying Qu 一 co-fundadores e responsáveis pela direção criativa da Private Policy 一 embarcaram nas influências do estilo urbano e esportivo para a coleção de Outono/Inverno 2022 da marca. Para esta temporada, a dupla confeccionou peças indispensáveis no guarda-roupa nova-iorquino: trench coats, moletons, alfaiataria e vestidos em seda. Além disso, embalados pela necessidade e seu compromisso com os tópicos social e sustentável, as vestimentas da coleção contaram com um tecido oriundo dos jornais bem como a reutilização de tique-taques (utilizados em diferentes formas) para adicionar personalidade à maioria dos looks expostos pela marca.

Fascinada pelo universo noturno e seu ‘glam’, Alexandra O’Neill fez da mais nova coleção de Outono/Inverno 2022 da Markarian uma exposição típica de uma noite de gala. Inspirada nas capitais cosmopolitas e sua vida noturna 一 fazendo jus inclusive à capital nova-iorquina 一, Alexandra não poupou a adição de brilhos e plumas à suas criações. A exposição ainda conta com peças em seda e renda e acessórios inspirados nas famigeradas e clássicas décadas de 1910 e 1920.

O streetswear é, sem sombra de dúvidas, a assinatura da Coach. Para esta temporada, Stuart Vevers 一 atual diretor-criativo da casa 一 explanou uma proposta ainda mais inspirada no estilo urbano. Ambientada em um cenário de rua, a coleção é inteiramente apresentada em uma atmosfera cotidiana, inserida nos arredores de ‘Coachville’ (cidade imaginária onde se narra a história urbana da marca). A apresentação ainda conta com a participação de peças tradicionais da casa: T-shirts com grafites lúdicos, casaco clássico de shearling, peças em couro reaproveitado 一 com cortes que referenciam os anos 1970 一  e vestidos em renda e crochês, evidenciando a influência do dia-a-dia nas veias da Coach.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Apesar de ser considerado novo na indústria da moda, Connor Mcknight aparentemente tem feito um ótimo trabalho autoral para sua marca homônima. Para a sua coleção de Outono/Inverno 2022, o estilista tem buscado mergulhar em sua própria originalidade para confeccionar suas peças, produzindo suéteres de lã feitos à mão e algumas produções em malha 一 como vestidos, por exemplos 一, que são assinatura e clássicas de Connor. Além disso, a coleção ainda assina uma pegada sutil composta de muita elegância dos anos 1950 sem perder sua atemporalidade e atualidade.  

Diferentemente da última coleção de Outono/Inverno, para esta temporada de 2022 de sua marca homônima, Tory Burch reúne uma apresentação altamente nova-iorquina, embalada pelo próprio cenário 一 que faz referência ao título ‘Nova Yorker’ 一, e expressa, especialmente através da diferença na composição dos looks, que variam desde silhuetas mais acentuadas e passam por terninhos mais fluídos, composições com pegadas mais esportivas, vestidos longos e justinhos, suéteres em lã, cardigans e criações portando linhas horizontais, a caracterização da diversidade, originalidade e liberdade nos quais os nova-iorquinos expressam em seu modo de se vestir.

Apesar de parecer convencional, o streetwear proposto por Maryam foge do habitual quando a mesma propõe a junção de cores e recortes nas peças de uma maneira única, assim como aconteceu em sua mais nova coleção de Outono/inverno, apresentada nesta segunda-feira (14). Para esta temporada, Zadeh recorreu ao estilo moderno e atual reunindo-o em uma coleção majoritariamente em tons de creme e contendo peças em estampa xadrez, forro em anágua, jaquetas de couro, ternos em alfaiataria, transparência e saias sobrepondo calças.

Após dois anos longe das passarelas, Dion Lee retorna à Semana de Moda de Nova York com sua marca homônima honrando de maneira exemplar aquilo que ele sabe fazer muito bem: roupas andróginas. Conhecido por vestir personalidades como Lil Nas X e Troye Sivan, o estilista traz para sua nova coleção de Outono/Inverno peças que reúnem o olhar único de Lee para transformar suas criações em vestimentas sexys (sem serem vulgares) 一 expressas pelas peças criadas a partir do ‘sex appeal’ ou exposição da pele. Uma outra assinatura de Dion que marca presença nesta temporada são os corsets (espartilhos) recortados e suas silhuetas esculpidas, além de peças e acessórios em couro que adicionam ainda mais personalidade à sensualidade de sua marca e coleção.

A figura feminina de Laquan Smith é sensual, exuberante, moderna, livre e empoderada. Em outras palavras, a forma como Smith desenha e expõe suas peças traduz o espírito feminino em sua representação mais literal. Para esta temporada, a sua representação é mais vívida como nunca: os 37 looks apresentados por LaQuan nesta segunda-feira (14), abrigam uma coleção repleta de cores, festividades e muita jovialidade. O desfile foi dedicado ao jornalista André Leon Talley e reuniu looks de pele, calças cargo de couro, minissaias, lantejoulas em diferentes cores e jaquetas de motoqueiros.

DIA 5

Inspiradas e criadas a partir das formas e silhuetas masculinas, a nova coleção de Outono/Inverno da uruguaia Gabriela Hearst embarca na proposta de peças andróginas 一 vestimentas que possuem traços de ambos os sexos, se diferindo da proposta ‘genderless’ (sem gênero). Segundo a estilista, em uma entrevista concedida à Vogue um dia anterior à apresentação de sua nova coleção, a androginia surge nos mesmos períodos em que novos pensamentos ocorrem. O tema proposto é claramente refletido nas criações para esta exposição, que se alinham muito bem aos ideais da casa. 

Embora seja fortemente influenciada pelo conceito minimalista 一 o que é expresso principalmente através da ausência de detalhes exacerbados por toda a coleção 一, as vestimentas apresentadas por Hearst nesta temporada brincam com o uso de cores ao longo de toda a coleção. É possível observar um jogo de cores entre o amarelo, vermelho, rosa e preto 一 em sintonia com a passarela, inclusive 一 simbolizando o otimismo sugerido por Gabriela aos novos tempos, que marcam a transição entre a pandemia e seu eventual momento ‘pós’. 

Este sentimento de otimismo comporta-se praticamente como uma assinatura da estilista. No entanto, nesta temporada fica ainda mais evidente através da forte presença de tons brilhantes em amarelo (que para muitos atribuem ao significado de luz, otimismo e prosperidade, por exemplo) e laranja 一 ligada ao significado de vitalidade, alegria e sucesso. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Um outro ponto que também sempre esteve alinhado às propostas de Gabriela Hearst para sua marca homônima tem sido a preocupação da designer com tópicos sociais e ecológicos. A pauta entrou oficialmente em vigor na casa a partir do ano de 2017. 

Desde então, a estilista tem sempre buscado abordar essa temática, seja através de suas coleções ou do cenário de seus desfiles. Este ano não foi diferente: cerca de metade da coleção é oriunda de materiais reciclados 一 valor este que Hearst pretende dobrar até o final do ano, apesar de ser um compromisso árduo a ser cumprido 一 e as cores utilizadas nas peças (como os tons de amarelo, laranja, dentre outros) são originais de corantes orgânicos, que alinham-se perfeitamente à abordagem da casa. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Outro fator que é bastante aparente nas inspirações de Gabriela para esta coleção compreende as suas raízes uruguaias. Nesta coleção é possível observar peças em crochês, ponchos fabricados artesanalmente 一 bastante utilizados no país de origem da estilista 一, botas em cano mais longo, vestidos plissados e em estampas, criações em couro, cintos que lembram o guaiaca (bastante presente na cultura uruguaia), uso do tricô, além do uso da alfaiataria 一 que finca a presença da marca no mundo moderno, sofisticado e clássico 一 e da beleza (maquiagem e acessórios) da coleção, que relembram os nativos da região provinciana na qual Hearst morava. 

Outro detalhe que chama a atenção na marca Gabriela Hearst é a recorrente presença de aspectos naturais em suas coleções. Para a temporada de Outono/Inverno de 2022, Gabriela buscou demonstrar sua conexão com o tópico ‘natureza’ através da colaboração com o artista Amo que, segundo as próprias palavras da designer, costuma pintar a alma das árvores e da natureza. Além disso, as filhas da estilista também colaboraram na construção das estampas florais presentes na coleção. 

Para o âmbito social, Gabriela voltou a trabalhar com projetos bastante atuantes quando o assunto é o impacto social. A designer colaborou com artesãos independentes de seu país, Uruguai, e também com artistas bolivianos. O cenário de apresentação da coleção foi criado pela Groundswell, uma fundação sem fins lucrativos da cidade de Nova York que apoia o trabalho de jovens. Além disso, colaborou também com o Centro Ali Forney, que oferece ajuda aos jovens LGBTQIA+ que lutam para encontrar um lar para viverem. 

Ademais, a coleção apresentada por Gabriela Hearst nesta terça-feira (15) foi extremamente cativante e altamente alinhada aos propósitos e ideais da diretora-criativa enquanto pessoa e marca. Com um show repleto de boas vibrações, otimismo e alegria, a casa de Hearst conseguiu, mais uma vez, confirmar sua responsabilidade e maneira criativa, além de reafirmar seus princípios. 

Em uma pegada aparentemente um pouco mais melancólica, Peter Do apresenta uma coleção de alta qualidade nesta terça-feira (15). Após uma pausa de duas coleções voltadas à temporada de Outono/Inverno 一 visto que a última exposição para este período foi lançada em 2019 一, o designer retorna às passarelas e à estação mais potente do que nunca. 

Para esta temporada o estilista apresenta ao público aquilo que ele sabe fazer de melhor e em qualidade aparentemente inquestionável: a alfaiataria fina. Um outro detalhe que volta 一 e ainda mais forte 一 nesta nova série apresentada por Do é a sua paleta de cores simplista e sua silhueta atemporal, que contrasta muito bom com o agito da capital nova-iorquina e atribui à cidade das grandes luzes uma calmaria revestida em sofisticação e classe. 

Intitulada ‘Fundação’, a nova exposição de Peter Do revisita o passado e as coleções inaugurais da casa, de forma que estabeleça as bases para a ‘casa’ que eles buscam construir, concentrando-se de maneira mais precisa na inovação acima daquilo que é ‘’novo’’. 

A paleta de cores presente nesta galeria representa uma coleção linear, cimentada, mas escolhida categoricamente e de um modo altamente criterioso adiciona um toque especial de sobriedade na coleção que comporta-se de maneira tão elegante. As 36 peças expostas nesta coleção, segundo o próprio Peter Do, simbolizam uma conversa inteiramente íntegra e resiliente, além de encenarem um encontro entre passado e presente, o que indica ser sua exposição mais interpessoal até o momento. 

A figura feminina de Peter Do é símbolo de poder, elegância, classe, categoria e, acima de tudo, atemporal. E estes adjetivos são todos reproduzidos em forma de vestimentas. 

Enquanto algumas marcas preocupam-se com a entrega de trabalhos resumidos ao exagero na adoção de detalhes, Peter Do com seu trabalho simplista, casual e minimalista entregam peças que resultam em um ótimo trabalho 一 seja no que se diz respeito à sua costura no momento de confecção ou pelo desenho em si.  A nova coleção de sua marca homônima comporta-se como um presente aos amantes de uma boa alfaiataria e com um apreço pela praticidade do cotidiano. Apesar de parecerem simples, as peças desenhadas por Peter são impactantes e resultam em um trabalho praticamente impecável. 

Ainda chama a atenção a presença de peças que, em sua própria composição, contrastam nas cores entre si. Blazers em alfaiataria e oversized também foram componentes marcantes nesta temporada de Peter Do, bem como os cintos triplos, a sobreposição de roupas e peças apresentando pontilhados 一 simbolizando o rascunho 一 deixados ali propositalmente. A sensualidade na coleção aparece de forma não-óbvia (à la Peter Do) e fica por conta de fendas, decotes profundos e recortes laterais, sem abrir mão do requinte de sua assinatura. 

A coleção como um todo, ao mesmo tempo em que demonstra revisitar a história e estar intrinsecamente ligada aos aspectos passado-presente, comporta-se de modo eminentemente moderno e atual, contribuindo ainda para reafirmar o grande potencial de Peter Do como designer e o seu poder em se sobressair como um grande estilista.   

Backstage de Michael Kors Collection, retirada do Instagram da marca.

Determinado a deixar a pandemia para trás, Michael Kors trouxe uma certa ‘simplicidade’ para sua coleção. Descomplicar as coisas para Kors significa looks monocromáticos dos pés a cabeça — vimos coral, rosa e amarelo em tons neutros, assim como chocantes neons. A aposta de Kors ficou para o outerwear: “em Nova York é seu cartão de visita”.

DIA 6: 

Hillary Taymour, criadora e designer criativa da Collina Strada, em todas as coleções faz roupas que lisonjeiam todos os corpos e todos os modos de vida, além de apresentações e looks que fujam do normal. Nesta temporada de outono- inverno 2022, Taymour apresenta sua coleção de forma diferente e divertida (como costuma fazer). Com “The Collinas”, um filme com tema de reality show estrelado por Tommy Dorfman, apresentado no cinema Angelika. Muito da estética e formato se compara ao icônico reality show “The Hills” dos anos 2000, que coincidentemente – ou não – “Hills” significa “Colinas”, e ao Keeping Up With The Kardashians. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Tommy sai de Los Angeles e vai à Nova York para uma oportunidade de estágio na Collina Strada. Nos bastidores é possível ver as roupas da coleção, depois apresentadas em estilo passarela durante os créditos, onde aparecem os nomes de mais de 30 modelos. 

A coleção remete muito aos anos 2000, com saias e calças em cintura baixa com detalhes no cinto, estampas e cores vibrantes em vestidos de babados em camadas sobre calças largas, moletons psicodélicos e tie-dye. Algumas ideias da primavera/verão de 2022 estão presentes, como a camiseta com estampa de anjo e peças de camadas de malha. Hillary também inclui na coleção jaquetas de veludo amassado com enchimento de penugem de flores, feitas com listras de zebra ou costura em estrela.

As dobras das calças são combinadas com tops e capas de tons brilhantes, do rosa ao verde e azul, com mangas bufantes. Calças são apresentadas em couro, nylon e outros tecidos, com os cintos brilhantes ou tênis de várias silhuetas e modelos. 

Quando se fala em sustentabilidade na moda, a marca tem se tornado referência e um dos nomes mais importantes nesse quesito. No outono/inverno de 2021, Hillary utilizou de sobras de matérias-primas e ressignificou peças antigas de estações passadas, além de se unir à plataforma americana de resale The Real Real, transformando peças impróprias para venda em novos tops, calças e vestidos.

Nessa temporada, a designer usa de seu questionamento sustentável na apresentação em quase todo o filme desta coleção. A nova estagiária é zombada e questionada pelos colegas do estúdio ao comer um sanduíche à base de carne enquanto todas da mesa se alimentam de legumes e frutas. Além de, beber café em um copo descartável quando as outras meninas usam seus próprios squeezes, e também de tirar muitas selfies. 

Por mais que muitas das coleções da marca apresentando uma estética Y2K,  “mais é mais”, muitas cores presentes, e até um excesso de material, as roupas de Collina Strada são feitas conscientemente. Hillary faz questão de sempre trazer diversidade à frente da marca, como os modelos sempre diversos, com idade, etnia, gênero e capacidade física. A mãe de 70 anos de seu colaborador, Charlie Engman, é apresentada no The Collinas, assim como Aaron Philip, o modelo negro, transgênero e deficiente. Ambos apareceram  junto com modelos. 

Hillary pretende expandir os negócios para calçados, oque custaria US$250.000 para iniciar a produção do design usando práticas sustentáveis. E, admite que o desafio é este, crescer um negócio se mantendo fiel a sua consciência ambiental. 

Quando a pandemia começou, instituições de moda estavam procurando maneiras de apoiar pequenas marcas, o que resultou a levar avanços para a Collina Strada. A marca foi incluída no programa Vaul da Gucci para jovens designers.  

Ademais, a coleção apresentada por Hillary Taymour nesta quarta-feira (16) seguiu as ideias da marca. Divertida, alinhada aos propósitos e ideais conscientes de Taymour para sua marca. Apresentada de forma diferente e leve, reforçou ser possível passar uma mensagem transparente sobre consciência ambiental, o que a marca deseja seguir daqui para frente.

Designer nascido em Singapura, mas criado no Nepal, Prabal Gurung sempre fez referência às  suas origens e passado em suas coleções. Devido à pandemia, não pode retornar sempre a sua terra natal como fazia de costume. Para esta coleção de outono/inverno 2022, Gurung relata que “é um conto de duas cidades”, se referindo à Nova Iorque e ao Nepal. Ele traz referências e cores que fazem referência aos dois lugares. 

Para essa coleção, Prabal mergulha na sensibilidade do espírito nova-iorquino.  Apresenta tops de seda, botas cano alto e vestidos compridos. As cores vão do preto, rosa, amarelo, verde e vermelho. Estampas florais que remetem a sua herança do Nepal, um enorme apego emocional aos rododendros. Nessa temporada, o designer admitiu que quis inspirar o desejo de viajar, ainda mais após dois anos de pandemia. “Sempre ando na linha tênue entre esperança e pragmatismo”, relata. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Prabal relata que faz a celebração das mulheres “aqui e ali”, com cores e silhuetas, contando a história visual das mulheres que definem a nação. Em sua coleção de primavera/verão 2022, o designer também fala sobre as referências e celebração às mulheres, propondo uma grande reflexão sobre todas as forças por trás da chamada vulnerabilidades femininas. 

Dessa vez, optou por não abordar temas sociais ou políticos como havia feito anteriormente. Nesta coleção, ele não faz uso de grandes construções ou formas elaboradas, mas busca looks confortáveis para a silhueta feminina. 

Prabal não exagera em seus designs, opta por algo que entregue sua mensagem desenvolvida e que não faça grandes reflexões para compreender o que foi apresentado. 

Mesmo assim, seus looks chamam a atenção pela beleza e cor. Vestidos com lantejoulas, recortes, tamanhos diversos. Indo desde algo mais despojado e largo, ao mais justo e festeiro. Pragal continua seguindo sua linha de desenvolvimento com looks de cores chamativas, mas que mantém sua elegância. 

As 12 principais tendências da NYFW segundo a Frenezi

A temporada de Outono/Inverno 2022 da semana de moda de Nova Iorque terminou nesta quinta-feira (17). Mesmo com a falta de nomes importantes para a moda americana no calendário, como Marc Jacobs e Tom Ford, a temporada foi marcada por boas apresentações de marcas veteranas e grandes desfiles de talentos emergentes.

Proenza Schouler, Coach e Michael Kors fizeram apresentações coesas que refletem com maestria o equilíbrio entre comercialidade, formalidade e sportswear associado à moda americana. Já Laquan Smith e Elena Velez foram os principais nomes da nova geração a desfilarem coleções aclamadas pela crítica – sendo, no caso de Elena, a sua estreia na NYFW.

Conhecida por ser a semana de moda mais comercial dentre as maiores do mundo, a NYFW serve de bússola para entender como o varejo internacional vai incorporar as tendências da estação nas peças. Pensando nisso, listamos as 12 principais desta temporada:

SEXY SEM SER VULGAR

Depois da transparência, agora é a vez dela. A renda é, definitivamente, a maior tendência da temporada. Presença marcante na maioria dos desfiles, o seu uso é versátil e entrega visuais que vão do sexy ao romântico — Christian Cowan e Dion Lee ficam com o primeiro, apresentando peças sensuais e contemporâneas na medida certa, já Brandon Maxwell e Frederick Anderson se agarram à segunda, desfilando modelos mais “menininha” que são a cara do material.

Da esquerda para a direita: Christian Cowan, Brandon Maxwell, Dion Lee e Frederick Anderson – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

“QUEM É ESSA MENINA DE VERMELHO?”

Gloria Groove e a NYFW mandaram avisar: vermelho é a cor da temporada. O lilás “Very Peri” pode até ter sido eleito a cor do ano pela Pantone, mas as passarelas de Outono/Inverno de Nova Iorque mostraram que é o vermelho vivo o tom marcante da estação. Presente em desfiles cuja cartela tinha base neutra — como Proenza Schouler, Jason Wu e Laquan Smith — a cor é aplicada em peças inteiras ou em looks “conjuntinho” de destaque no lineup, entregando um um visualpotente e acertivo. Para Carolina Herrera, que já desfila há décadas peças no seu clássicio vermelho “Carolina”, o momento não poderia ser menos favorável.

Da esquerda para a direita: Proenza Schouler, Jason Wu, Laquan Smith e Carolina Herrera – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

BALACLAVA MANIA

A tendência que já havia sido apontada pela Frenezi durante a temporada de Outono/Inverno 2022 de Copanhegem, segue em alta na NYFW. Originalmente pensada como um gorro que protege partes da face e orelhas contra o frio, o acessório foi repensado pelas fashionistas gringas de maneira a torná-lo mais funcional: na nova versão a face fica toda à mostra, cobrindo apenas orelhas e couro cabeludo. Se na temporada passada foi a vez das Balaclavas coloridas e texturizaras, nesta o acessório aparece em cores mais sóbrias e de maneira mais ajustada à cabeça, em tecidos elásticos ou acompladas à partes de cima. Proenza Schouler, Altuzarra, Puppets & Puppets e Dion Lee foram algumas das marcas que desfilaram o acessório.

Da esquerda para a direita: Proenza Schouler, Altuzarra, Puppets e Peppets e Dion Lee – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

PELÚCIA EVERYWHERE

A pelúcia invadiu mais uma vez as passarelas — e dessa vez ela é utilizada nas mais diversas peças e acessórios. Laquan Smith aplica o material à um conjuntinho de jaqueta e mini saia, já Dion Lee o incorpora em corsets e luvas, enquanto Helmut Lang e Altuzarra permanecem mais clássicos e utilizam o elemento em casacos e golas avulsas. Seja pelo conforto ou pela textura diferenciada, o material é certamente um dos favoritos dos designers nesta temporada e promete ser um dos hits da estação.

Da esquerda para a direita: Helmut Lang, Altuzarra, Dion Lee  e Laquan Smith  – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

ALÄIA-LIKE

A recente troca de direção criativa da Maison Aläia parece ter feito o legado de seu criador marcar presença nos moodboards de diversos designers nesta estação. A prova disso são os capuzes em versão alongada e fluida presentes em casacos ou acoplados em partes de cima nas peças de nomes como Michael Kors, Dion Lee e Badgley Misshka (que também se utiliza da pelúcia, tendência apresentada anteriormente). Os capuzes com caimento fluido são um clássico de ALäia, e foram eternizados por Grace Jones em 1985, quando a estrela vestiu um vestido magenta do estilista que possuia o elemeneto acoplado.

Da esquerda para a direita: Michael Kors, Dion Lee,Badgley Misshka e Dion Lee – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

A PELE QUE HABITO

Mangas longas e tecido rente à pele na parte de cima é definitivamente a silhueta-tendência da temporada. Quase como uma segunda pele, ela é complementada por partes de baixo bem volumosas compostas majoritariamente por saias. Carolina Herrera e Ulla Johnson apresentaram modelos de blusa e saia separados, enquanto Christian Siriano e Proenza Schouler apostaram em vestidos que unem as duas peças em uma só. Talvez uma herança da tendência de proteção ligada à pandemia, o elemento traz uma certa modernidade chic e casual ao look.

Da esquerda para a direita: Proenza Schouler, Christian Siriano, Ulla Johnson e Carolina Herrera – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

NOVA FORMALIDADE

São duas as principais características da alfaiataria apresentada nesta temporada: o blazer possui apenas um botão e a cintura é levemente marcada. A nova formalidade une o sexy — tão explorado na temporada passada — à volta aos escritórios, de maneira equilibrada e elegante. Marcas como Proenza Schouler, Elena Velez e PatBo deslocaram o botão para o lado de forma a acinturar a peça, enquanto Sergio Hudson permaneceu com o elemento no centro-frente e a acinturou através da modelagem.

Da esquerda para a direita: Elena Velez, Sergio Hudson, Patbo e Proenza Schouler – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

DE BARRIGA VAZIA

Os recortes estratégicos nas laterais e no torso migraram nesta temporada para a barriga. Marcas como PatBo, Altuzarra, Elena Velez e Christian Cowan foram algumas que decidiram exlorar a área, cada uma da sua maneira. Elena Velez se utilizou de um recorte mais fino, que chega até o umbigo e parece não imprimir tanta sensualidade quanto Cowan, que localiza a abertura logo abaixo do busto e a contorna com cristais. Já PatBo e Altuzarra costuram o recorte mais abaixo, acima da linha do umbigo.

Da esquerda para a direita: Christian Cowan, Elena Velez, Patbo e Altuzarra – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

MONOCROMÁTICO TEXTURIZADO

O look monocromático é definitivamente uma das maiores tendências da temporada. Uma herança do conjuntinho total, tendência popularizada por Daniel Lee durante seu mandato na Bottega Veneta, o monocromático desta temporada brinca com texturas opostas: pêlo com camurça, látex com seda e transparência com malha bordada são alguns exemplos – explorados por marcas como Dion Lee, Hervé leger, Peter Do e Michael Kors.

Da esquerda para a direita: Dion Lee, Michael Kors, Patbo e Peter Do   – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

MANTO SAGRADO

Maryam Nassir Zadeh, Gabriela Hearst e Brandon Maxwell foram alguns dos nomes que desfilaram looks com mantos nesta temporada. Talvez uma das tendências mais inusitadas da estação, o manto vem na maioria das vezes carregado na mão e remete à um cobertor. Seria pela influência do loungewear e da cultura pós-pandêmica de conforto? Não sabemos, mas o fato é que ele ganha as mais diversas texturas e aplicações – desde tricots coloridos em Gabriela Hearst até plumas bordadas em Brandon Maxwell — e se torna um dos acessórios-desejo da temporada.

Da esquerda para a direita: Maryam Nassir Zadeh, Gabriela Hearst, Brandon Maxwell e Maryam Nassir Zadeh – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

PLUMAS E PENAS

Usadas como adorno nas barras e nas laterais das peças, as plumas e penas seguem como tendência forte nessa temporada. Por mais que marcas como Area e Christian Cowan já tenham o material intrínseco no DNA da marca, o seu uso coincide com o de outras que não exploram tanto assim o material — como Brandon Maxwell e Tia Adeola. O grande ponto é a combinação desses motivos com a mesma cor da peça onde são aplicados, seguindo a tendência do monocromático tão presente nesta temporada.

Da esquerda para a direita: Tia Adeola, Christian Cowan, Brandon Maxwell e Area – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

SHEARLING OBSESSION

Com forro de pele de carneiro, a jaqueta shearling é a peça da temporada. Presença marcante nos desfiles da Coach e de Dion Lee, ela aparece repensada de diversas maneiras: a pele do forro passa a decorar por fora também, a cor do pelo é tingida e a aplicação é feita apenas na gola. Helmut Lang e Altuzarra também apresentaram a peça, confirmando que este será um dos hits de venda da estação.

Da esquerda para a direita: Coach, Dion Lee, Helmut Lang e Altuzarra  – Foto[Reprodução/Vogue Runaway]

Frenezi na semana de Alta-Costura

A semana de Alta-Costura, personificação da maior forma de apreciação de moda possível, teve o início para sua temporada de Primavera/Verão 2022 na segunda-feira (24) — e marca também a volta oficial da semana de moda mais opulenta e escapista para as passarelas presenciais.

Começando pelo começo, o que é Alta Costura? Quais as diferenças desta para as outras semanas de moda?

Existia-se um tempo no qual as roupas da aristocracia local eram produzidas como peças individuais dentro do estilo popularizado entre a classe social, peças extremamente caras e de difícil acesso, feitas manualmente.

O primeiro designer a realmente apresentar coleções sazonais como conhecemos hoje foi Charles Frederick Worth — um homem inglês que se tornou o pai da Alta Costyra francesa. Aos treze, Worth foi aprendiz na firma londrina de comerciantes de tecidos Swan & Edgar, mas o verdadeiro começo de seu sucesso foi quando um vestido de corte desenhado por ele para a companhia de sedas de alta qualidade Gagelin- Opigez, foi premiado na exposição universal de 1855, logo depois deixou a carreira em tecidos para se estabelecer como estilista sob seu próprio nome em Paris. E com a ajuda se sua persistente esposa em mostrar os desenhos do Marido Charles Frederick Worth conquista sua maior e mais leal cliente, a Imperatriz Eugênia:

Pintura de Franz Winterhalter de Imperatriz Eugênia e suas Damas e companhia.

“Tal apoio garantiu a Worth uma posição única como costureiro de uma imperatriz, que podia decretar o comprimento de uma bainha segundo seus caprichos.” 

Cronologia da Moda de N.J Stevenson.

A Maison Worth foi o primeiro estabelecimento de alta-costura, ao invés de ter uma costureira que ia nas casas das mulheres, suas clientes visitavam seu prestigioso salão e os vestidos eram feitos sob medida, mediante a uma série de provas, também tornou-se o primeiro costureiro a produzir coleções sazonais que eram depois mostradas as clientes.

O negócio florencia, mas Charles Frederick Worth teve sua morte em 1895, a Maison Worth expandiu-se para Londres e os filhos Gaston e Jean-Philippe se asseguraram que a companhia continuasse crescendo e conservasse a influência do nome da marca na moda de luxo, e em 1910 Gaston Worth fundou la Chambre Syndicale de la Haute Couture, para proteger os direitos de autor e os padrões de qualidade da indústria.

A questão que o Sindicato acabou aumentando de tamanho, abrangendo para um grupo seleto de marcas, essas que foram divididas em três grupos: Membros fixos – que contém nomes como Chanel, Christian Dior, Schiaparelli e Givenchy – Membros Correspondentes – Giorgio Armani Privé, Elie Saab, Fendi Couture e Valentino – e os Membros convidados – Azzaro Couture, Zuhair Murad e Guo Pei. Os membros devem seguir uma série de normas e qualificações organizacionais como da qualidade material e artesanal da produção de suas coleções, para se apresentarem na semana de alta-costura de Paris.

Atualmente a alta-costura representa muito mais que uma apresentação de vestidos de festa para algumas senhoras burguesas, é a maior forma de apreciação de moda como forma de arte uma forma escapista de fazer e desenhar modas, com recursos e alcance que só realmente a alta-costura pode ter.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Confira a cobertura completa da Semana de Alta-Costura de Primavera-Verão:

DIA 1

Começamos o primeiro dia de alta-costura desta temporada com o desfile assinado por Daniel Roseberry para a marca, Schiaparelli, os que não estão familiarizados com a visão do designer para a casa centenária. Roseberry entrou na Schiaparelli com uma grande liberdade criativa, essa ele criou uma própria identidade estética para a marca.  

Historicamente Elsa Schiaparelli é um dos nomes mais reconhecidos na história da moda desde beber com Jean Cocteau e colaborar com Salvador Dalí, a designer foi uma grande bonvivant dos anos boêmios em Paris na década de 1930. Existia um amor e fascinação de Elsa pela arte surrealista, o legado da moda Schiaparelli aparecem cheios de códigos que borram as linhas entre o real e o estético. Nesse cenário Daniel Roseberry olha para a história tão rica da marca e sua fundadora e consegue trazê-la para a atualidade, com seus vestidos de alfaiataria extremamente bem estruturados com placas de acessórios em dourado que conseguem seguir o amor surrealista que existe no DNA da marca e arrecadar a atenção dos amantes de moda.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A coleção marca a volta da Schiaparelli para as passarelas parisienses depois de um hiato que começou em conjunto com a pandemia, em 2020, a grande inspiração da coleção em si, Roseberry como um grande fã de surrealismo começa a flertar com a outra face da mesma moeda, o existencialismo. A coleção conversa diretamente com o que seria o vazio e qual a relação do mesmo com os cosmos. 

Montagem feita com os desfiles do dia 1, imagens retiradas do Vogue Runway.

Daniel Roseberry conversou sobre com o jornalista Anders Christian Madsen “Existe essa palavra em francês para quando você está dirigindo em um penhasco e sente uma vontade repentina de sair da estrada.  É chamado de ‘o chamado do vazio”’, disse ele durante uma prévia no dia anterior.  “Acho que foi assim que senti o espaço”, explicou ele cercado por vestidos orbitais e bolsas planetárias em seus salões Place Vendôme.  “O vazio é a ausência dessa realidade.”

A inspiração voltada para o escapismo de filmes de ficção científica e galáxias distantes   (Os citados para inspiração da coleção foram: Dune, Prometheus, Interstellar e A chegada), ele se recolhe pensando em outro plano justamente pq alta-costura talvez é a forma com maior escapismo dentro da moda.

“Continuamos dizendo ‘Planeta Schiaparelli’: eu queria fazer algo que parecesse totalmente diferente de qualquer outra pessoa.  Nada mais deveria ser assim.”

Em conjunto pela apreciação recorrente do designer com os arquivos de Schiaparelli, semelhanças como uma capa de 1938 inspirada na fonte do Palácio de Versalhes “Apollo”, e da coleção de Elsa Schiaparelli Zodiac e Cosmique de 1938 também, que entra no tema da coleção atual e seus cosmos.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022 e as inspirações originais de 1938.

Seguindo para o segundo desfile do dia aconteceu no Museu de Rodin em Paris para a apresentação de Maria Grazia Chiuri na Christian Dior. A designer faz referência ao artesanato nessa coleção de alta-costura, uma paixão provinda de suas raízes italianas. Utilizou de uma paleta simples girando em torno do preto, branco e cinza, com roupas básicas expressadas em alfaiataria, vestidos longos, macacões e capas com costuras simples. 

Atmosfera desfile da Dior no Museu De Rodin.

Uma releitura do minimalismo aos olhos de Chiuri, a frente de uma das marcas com um dos maiores legados dentro da alta-costura, a sede dos amantes de moda por esplendor e exuberância cresce cada vez mais principalmente na Dior, o minimalismo pode não ser o que é esperado para a marca, mas temos que admitir que ainda existe uma qualidade manual e maestria no artesanato que acontece na Dior.

Christian Dior coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Terminamos o dia com Azzaro Couture, após dois anos de isolamento Oliver Theyskens faz sua previsão para as festas e a vida pós-pandemia, vale relevar que o designer que hoje assina a coleção para a casa não era um grande fã de lantejoulas e grandes momentos ligados a festas, durante essa temporada ele explica como é libertador a confiança que se tem em um ateliê de alta-costura para a jornalista Ellie Pithers:

Fotos de todos os desfiles do dia 1: Schiaparelli, Azzaro e Christian Dior. Retiradas do Vogue Runway.

Adoro a possibilidade de brincar com coisas que antes era mais tímido: paillettes, cristais, lantejoulas, disse ele, em prévia na sede da casa no oitavo arrondissement. Isso é uma coisa típica da Azzaro, e estou descobrindo  como pode ser bonito.  Parte disso se deve ao bom relacionamento de trabalho com a equipe do ateliê.  Quando você entende a cultura, o que [o atelier] sabe fazer, você pode ter certeza que quando você faz um design, ele será feito corretamente.”

De uma alfaiataria envolvendo texturas e bordados diversos, com conjuntos de mangas longas e calças que poderiam ter saído do guarda-roupa de Jane Birkin nos anos 70, recebemos uma coleção bem interessante no quesito de roupas agênero dentro da alta-costura, ternos coloridos em um metálico líquido, de veludo e com cristais fazem parte da coleção. Vestidos com caimentos estratégicos e bordados bem posicionados também fazem parte da coleção de Theyskens, afinal ainda é alta-costura.

DIA 2

O segundo dia da semana de alta-costura começa com uma atmosfera imersiva na Chanel de Virginie Viard, para o cenário de apresentação a marca colaborou com o artista Xavier Veilhan para transformar a sala de desfiles. A coleção de Viard tem como sua maior inspiração a década de 1920, o que foi o bastante para inspirar o artista plástico na produção, se baseando nas Wold Fairs da década de 20 e em artistas como Sonia e Robert Delaunay: “Acho que na moda há sempre essa ideia de relação com a história, mas também de sempre renovar constantemente.  Como artista, senti que poderia fornecer outra relação com o tempo.” Ele explica para o jornalista Hamish Bowles.

Atmosfera desfile da Dior no Museu De Rodin.

Apesar de uma atmosfera que realmente tem a grandiosidade e o peso de uma marca de décadas na alta-costura como a Chanel, mesmo com a Princesa Charlotte de Mônaco literalmente galopando em um cavalo na passarela com um terninho de tweed chanel – a coleção é confusa.

Talvez sejam suas precursoras, durante o ano de 2021 foi possível observar uma grande mudança na Chanel de Virginie Viard, ao invés de olhar para o legado do falecido Karl Lagerfeld, a designer se encontrou mesmo retratando e tirando inspirações de movimentos jovens e mulheres fortes – Pre-Fall, Resort e Primavera Verão 2022 – esse afastamento permitiu o amadurecimento das ideias e a direção clara para a marca, que estavam sendo coleções interessantes e que lhe deixavam animada para ver qual seria a próxima. Infelizmente esse sentimento não é muito perceptível nas coleções de alta-costura.

Montagem feita com os desfiles do dia 2, imagens retiradas do Vogue Runway.

Inspirado na estética dos anos 20, na menina interior e na modalidade esportiva de hipismo. A presença de looks de chiffon, organza, com penas e os clássicos tweeds de Coco Chanel foram indispensáveis neste universo criado por Virginie Viard, em parceria com Xavier Veilhan – o maior problema dessa coleção talvez fosse exatamente que as principais fontes de inspiração para a coleção não são um conceito claro, com alguns looks com diversas características diferentes perdendo um pouco a coesão e fluidez.

Chanel coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Contudo, seguimos em um ano que esperamos ser forte para Viard em sua trajetória na Chanel, com suas inspirações em mulheres fortes e honrando o atelier de gerações da marca.

O designer Alexis Mabille explicou no backstage para a jornalista Tina Isaac-Goizé que sua coleção de 25 looks poderia ser delicada a primeira vista mas sua primeira inspiração para a confecção da coleção foi o desejo “It’s all about desire”, com tons neutros, formas que se assemelham a lingeries e rendas, mas ainda não consegue se desprender das amarras delicadas de sua marca, sendo o look final uma capa com um laço estruturado bem na cabeça.

Alexis Mabille soube encontrar a feminilidade e graça para navegar entre os tons de rosa, bege, preto e dourado. Sua mistura de drapeados, vestidos sanfonados, laços de cetim, rendas e paetês descreveu bem o tom que a coleção foi capaz de passar.

Alexis Mabille coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

O dia termina com a coleção de Alexandre Vauthier, a marca é membro recorrente da semana de alta-costura desde 2014 – quando entrou para o Sindicato Francês de alta-costura e moda – com seu DNA amarrado no evening wear, em roupas de festas com uma alfaiataria forte e complexa, Vauthier é ombros altos, mini comprimentos, fendas, metálicos e lantejoulas.

Nesta coleção não foi diferente, com o designer falando ao WWD sobre sua inspiração nas histórias e narrativas que retratam as festas e a liberdade dos anos 20 em Paris, com decotes em triângulo, cinturas baixas, camadas de chiffon nas bainhas e bordados, como por exemplo no primeiro look da coleção já conseguimos entender exatamente onde a inspiração foi.

Alexandre Vauthier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Além de um olhar moderno e muito bem executado sobre o visual de festas para agora em diante, um sexy velado, com recortes estratégicos, plumas, capas e vestidos turquesa cobertos de cristais. A  marca trás um diálogo sobre a mulher moderna, que usaria um terno ou plumas para trabalhar até a noite de festa, e ninguém sabe vestir para uma noite em claro como Alexandre Vauthier.

Fotos de todos os desfiles do dia 2: Chanel, Alexis Mabille, RDK e Alexandre Vauthier. Retiradas do Vogue Runway.

Elevando o patamar da palavra “vanguarda”, Ronald Van Der Kemp explora as inúmeras possibilidades de formas, silhuetas, cores e materiais com sua admirável criatividade. O holandês se destacou mais uma vez pela sinergia de ideias em sua coleção. O designer já foi reconhecido pela comunidade da alta-costura como sendo exatamente a vanguarda dentro do Sindicato, diferente das casas made-to-order tradicionais, a marca utiliza de diferentes materiais e tecidos para suas coleções de alta-costura, até mesmo materiais que já haviam sido utilizados antes.

O holandês ao mesmo tempo traz um respiro necessário para a semana, cheia de vestidos limpos e minimalistas de chiffon, em contraste com seus grandes e coloridos momentos. Alguns exemplos de roupas como, um vestido pintado à mão com ombros esculturais no Look 2,  um macacão de pássaro disco assimétrico de perna única com asas de organza de seda no Look 5, uma jaqueta combinando e jeans feitos de jeans descartados emendados e moldados em um motivo de escama de jacaré no Look 11,  e para fechar um vestido de festa feito de fatias geométricas entrelaçadas de feltro ecológico no Look 34.

Quem mais conseguiria uma clientela base para esses looks sem ser Ronald Van Der Kemp? Mas apesar disso há certa admiração pela harmonia improvável entre a coleção, cada peça de roupa é pensada individualmente e duramente trabalhada e construída individualmente mas, é possível entender a linha de pensamento do designer olhando para a coleção como um grupo, uma linha de raciocínio de um cliente específico e fechado mas com uma identidade visual clara.

Alexandre Vauthier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

DIA 3

Uma coisa podemos confirmar com certeza no coração, Zuhair Murad é um romântico de mão cheia, os anos de pandemia não foram os mais fáceis para a marca, de problemas financeiros que a pandemia afeta especificamente a clientela de Murad – os clientes para vestidos de gala e festas – em conjunto com o ateliê na cidade natal do designer Beirute no Líbano ter sido destruído na explosão no porto da cidade em agosto de 2020.

Montagem feita com os desfiles do dia 3, imagens retiradas do Vogue Runway.

Mesmo com problemas parece que o coração e esperança continuam no mesmo lugar, tomando inspiração em histórias aventureiras e românticas de piratas no século XVIII, deixando sua inspiração clara no começo da coleção com o primeiro look exibindo um grande chapéu de pirata preto e um terno de alfaiataria desconstruído sendo seus ombros e bainha cobertos por correntes douradas e pedrarias.

Zuhair Murad coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Murad não é reconhecido como um grande vanguardista ou um estilista de conceito, ele faz vestidos de festas que são campeões de vendas e extremamente bem executados, o que acontece retirando o primeiro look, o número 4 e 5. A inspiração se detém a chapeus de pirata e faixas de cabelo atravessadas que combinam com as cores dos vestidos, como qualquer outra coleção do designer o romantismo, os vestidos esvoaçantes de pedrarias e cores sólidas e limpas tomam conta de grande parte da coleção.

Isso não é exatamente uma dura crítica Zuhair Murad sempre deixou claro a estética da sua marca, mesmo que variando os “temas” entre coleções, apesar de uma temporada atordoada para o designer ele mantém suas esperanças e deixa claro que essa coleção é para sua clientela com saudades de uma grande festa e amor no coração: .  “Precisamos viajar com nossa imaginação, esquecer um pouco de nós mesmos e das dificuldades que nossa realidade está nos colocando”. E como todo bom romântico ele escolhe um tema de uma história grandiosa e extravagante, assim como seu vestido de noiva no final da coleção, perfeito para uma noiva princesa de Dubai.

Zuhair Murad coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

As apresentações da  Valentino são sempre ansiosamente aguardadas, especialmente quando falamos de alta-costura. O responsável por essa comoção tem sido, há mais de 5 anos, Pierpaolo Piccioli. Em seus anos na maison, o mesmo vem construindo um forte legado para si, marcado pelo seu audacioso uso de cores e suas arrojadas silhuetas. Entretanto, Piccioli não virou queridinho do tapete vermelho apenas por isso em sua visão progressista e sua vontade de ‘mudar os valores’ são o que fazem dele um dos mais inovadores designers dos últimos tempos.

Valentino coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Em sua apresentação (26) com apenas 65 convidados, que respeitavam o distanciamento social e vestiam preto dos pés à cabeça, Pierpaolo demonstrou como a alta-costura consegue construir estonteantes silhuetas em qualquer tipo físico. ‘Keep the codes, but change the values’ uma referência clara em manter a qualidade no trabalho artístico e manual da alta-costura sem as amarras culturais dos valores do termo.

Seu talento de capturar beleza independente do formato do corpo ficou ainda mais evidente nesta coleção. O vestido de tule chocolate coberto por dois quilos de miçangas de vidro Veneziano que abraça e faz jus ao formato de corpo tão ‘fora dos padrões’ da alta-costura. O grande diferencial da visão de Piccioli para a Valentino, é justamente o fato de realmente celebrar corpos reais na passarela, os dando espaço, voz e sensualidade. Piccioli disse, em entrevista, tem usado 10 ‘modelos da casa’ para a criação de sua coleção e não apenas uma – como é tradicionalmente. Desta maneira, ele pode trabalhar em diferentes proporções e lisonjear suas diferentes silhuetas.

Além da grande – e magnífica – diversidade entres modelos femininas. Piccioli deu aos homens espaço na alta-costura com direito a transparência, brilho, luvas de ópera, silhueta marcada e impecável alfaiataria. Seu trabalho em ‘capturar as modificações do corpo’ vem sendo feito com maestria, especialmente ao convidar modelos mais velhas do que o ‘padrão’ na alta-costura. Kristen McMenamy, Marie Sophie Wilson, Lara Stone, Violetta Sanchez, Lynn Koster e Jon Kortajarena levaram confiança aos seus looks e se fundiram perfeitamente com o cast. Afirmando a narrativa de Pierpaolo: alta-costura é para todos.

Valentino coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Em setembro de 2021 foi anunciado que Glenn Martens, diretor criativo da Y/Project, seria o próximo designer convidado para comandar a coleção de alta-costura em 2022 – depois de uma colaboração não tão impressionante com a designer japonesa Chitose Abe, criadora da marca Sacai.

O que não esperávamos é que essa seria umas das melhores e mais certeiras colaborações dos últimos tempos. Além de umas das coleções mais marcantes dessa temporada de alta-costura. Glenn Martens deixou todos fascinados e de queixos caídos com sua coleção, que contou com 36 looks – desde exagerados vestidos de baile à exaltação de uma silhueta com torso marcado, (muito) tule drapeado e quadris em movimento.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Logo após seu recente sucesso com sua coleção de menswear do Y/Project, Martens volta aos holofotes e nos entrega um delicioso gosto nostálgico misturado com inovação e um manual de como a alta-costura e marcas tão celebrados no passado, como JPG, podem se adaptar aos dias de hoje.

Com menções a coleções passadas, Glenn trouxe para as passarelas a força dos corsets – que além de serem marca registrada de JPG, vêm também marcados presenças como um trend recente. Trabalhos impecáveis com tules que envolvem e abraçam a silhueta, também esconde a face e traz volume dramático. Transparência nos lugares e dos jeitos certos.

Referências de arquivo nos desfiles de alta-costura Primavera Verão 2022: Em ordem Valentino e Jean Paul Gaultier.

Entretanto, além de trazer referências do passado – 1991, 1997, 2002 – ele também traz sua assinatura, que pudemos testemunhar através de seu trabalho com Y/Project, como as saias que parecem se movimentar por conta própria, estampas hipnóticas e flores de metal em 3d.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

O designer belga recrutado pela primeira vez por Gaultier em 2008, hoje (26) nos trouxe um show de exuberância em cada um de seus looks. Sensualidade, silhuetas anatômicas, tridimensionalidade, tudo isso acompanhado por uma passarelas com modelos que se mantinham sérias e andavam vagarosamente nos dando o tempo necessário para ‘digestão’ de cada modelito.

‘Tem somente uma vez na minha vida que posso fazer um vestido com uma cauda de 15 metros’, diz Glenn Martens.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Falando em histórias grandiosas, vamos para a dupla Viktor & Rolf, que assim como RDVK são reconhecidos entre a área mais vanguardista dentro da alta-costura, e ao contrário do último desfile as roupas da dupla holandesa não são construídas visando vendas e números, elas apresentam sempre um conceito e a apresentação de um tema forte, qual é levado sempre aos extremos. Misturando silhuetas e cores que podem torcer o nariz mas a dupla sempre consegue surpreender o público.

Ao pensar em alta-costura dificilmente associamos com o terror e uma imagética exótica do gênero, mas na verdade, como provamos no texto especial de halloween entre moda e horror, os filmes do gênero já foram utilizados inúmeras vezes como fonte primária de inspiração dentro da moda de luxo. Para seu desfile de Primavera Verão 2022, os fundadores e diretores criativos da marca Viktor Horsting and Rolf Snoeren se voltaram para o vampiresco, com ombros altos e costas largas, uma imagem não só lembrada pelo Tio Fester em Família Addams como uma referência  a forma dos filmes da antiga Hollywood de retratar o vampiro mais famoso do cinema – Conde Drácula – a inspiração em todos os elementos dessa estética ficam bem claros ao decorrer da coleção, principalmente entre os looks de ternos com os ombros exagerados nos looks 1 e 13.

Viktor & Rolf coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A estética da marca como um todo sempre brinca com as linhas do real e do imaginário, quase sempre entre do estilo camp em conjunto com a qualidade da confecção de alta-costura, entre o vestido de Wednesday Addams, com colar Peter Pan e trancinhas duplas – look 5 – e os vestidos em tons pastéis a coleção pode ter ficado perdida no meio, mesmo com uma oportunidade muito boa de um tema tão genioso e uma marca que emerge o espectador em seu conceito. Entre família Addams e Drácula era possível ter entregado uma grande coleção de alta-costura com essas referências, não apenas ombros altos e algumas golas.

Viktor & Rolf coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

O libanês Elie Saab retornou com seu primeiro desfile em dois anos da melhor maneira possível: reforçou a sua estética e entregou exatamente o que a sua clientela espera e consome. Internacionalmente conhecido pelo maximalismo, a coleção  não foge à ideia: mangas bufantes, volumes escandalosos e bordados executados com maestria são os destaques do desfile, que se utilizou de cores solares para recriar um verão no Mediterrâneo como inspiração primordial do desfile.

Assim como Murad, a Elie Saab é reconhecida internacionalmente por seus vestidos de festa e gala, suas roupas não necessariamente tem um storytelling claro ou forte, mas são lindos vestidos feitos com a atenção artesanal quase impecável. Esses vestidos de festa são destinados a um público maior de vendas, mesmo que ainda estamos falando de um dos ramos mais caros da alta-costura, continua sendo mais fácil vender para um evento um vestido de brilhos com silhueta marcada e sensual de Saab, ao invés dos ombros nas alturas de Viktor & Rolf. 

Elie Saab coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A grande característica desse desfile talvez tenha sido a liberdade criativa do designer ao criar essa coleção, mesmo que não seja o gosto pessoal de todos um vestido com uma cauda enorme de flores rosa-choque como no primeiro look, ainda apresenta as características dominantes da marca, como corpetes, cristais e fendas. É uma coleção que conquista a sua clientela de longa data, e ao mesmo tempo pode conquistar novos clientes que estão ansiosos por algo novo ou diferente. E até mesmo algo quase tão escapista da realidade geral que se torna romântico.

Um dos nomes mais novos na Alta Costura, o designer Charles de Vilmorin possui uma estética única que vem conquistando admiradores ao redor do mundo — e que recentemente lhe garantiu o posto de diretor criativo da Rochas. Seus já clássicos desenhos e proporções teatrais marcaram presença na temporada (inspirada por alegorias de vida e morte; e sua própria jornada criativa) reforçando a sua estética que mescla fantasia e obscuridade.

Charles De Vilmorin coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

DIA 4

Para a mais nova coleção de alta-costura de sua marca homônima, Julie de Libran reuniu vestidos que expressam a feminilidade com um toque único de sutileza. Com um acabamento preciso e uma produção rica em detalhes 一 o que remonta à uma das características mais precisas e fiéis às criações de Libran 一, a coleção ainda conta com a presença de overcoats, vestidos em cores vibrantes e plumas mais simplistas. 

Julie de Libran apresenta para sua coleção de Primavera Verão uma clara demonstração de lealdade ao seu cliente base, com roupas pensadas para o consumo que honram as características claras da marca, rica em detalhes e ainda com uma surpresa de algumas das grandes tendências para 2022 em vestidos de festas. Uma coleção organizada, com detalhes bem pensados e bem comercial.

Montagem feita com os desfiles do dia 4, imagens retiradas do Vogue Runway.

A terceira coleção de Alta Costura de Kim Jones para a Fendi segue a mesma estética das anteriores: roupas  com forte apelo ao clássico e em modelagens e silhuetas já vistas antes. De fato este é um novo território para o designer, mas devemos levar em consideração que fazer Alta Costura é a epítome dos estilistas — justamente pelas inúmeras possibilidades de criação e a capacidade manual de uma grande equipe especializada em moda como arte — e Kim parece não estar aproveitando muito bem seu novo cargo.

A coleção tem como inspiração Roma, cidade que também deu os trilhos da última apresentação de Couture e onde a marca foi fundada, e traz elementos da antiguidade em estampas e motivos — como as estátuas do Palazzo della Civiltà Italiana, que foram estampadas em veludo nas peças; e os bordados que lembram colunas e estruturas arquitetônicas romanas. Para trazer as referências para a atualidade Jones mesclou elementos sci-fi e celestiais, que estavam presentes tanto nos arranjos luminosos do cenário quanto na paleta da coleção, composta majoritariamente por preto, marinho e vermelho.

Fendi coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A paleta é mais um dos elementos questionáveis do design de Kim para a Fendi: se por um lado a escolha de cores da sua Dior masculina é tida como certeira e perfeita, na Fendi o estilista parece não se arriscar ao optar por tons e composições “fáceis”, que no final entregam um resultado pouco comovente. Levando em consideração os diferentes tons que estavam tão presentes no trabalho de Silvia Venturini e Karl Lagerfeld — e obviamente considerando as diferenças entre o imaginário dos três diretores —, o produto final de Jones é bem desanimador.

Montagem feita com os desfiles do dia 4, imagens retiradas do Vogue Runway.

O fato da marca ser ainda “novata” na Alta Costura (Karl desfilou apenas quatro coleções Couture e Silvia uma) em comparação a outras maisons deveria servir de motivação para o designer, já que dá carta branca para que Kim possa desenvolver uma estética própria livre de códigos clássicos. A alfaiataria aclamada pela crítica em suas coleções, por exemplo, dialoga perfeitamente com a mulher contemporânea — ao contrário dos vestidos em silhuetas monásticas e corte reto que ele vem apresentando — mas não passa nem perto da temporada apresentada hoje.

Encerrando a semana de alta-costura e fazendo sua estréia oficialmente no calendário como membro da comunidade, a marca da russa Yulia Yanina apostou em uma paleta de cores totalmente colorida 一 paleta na qual faz uma referência às cores do arco-íris 一 variando entre tons vibrantes e mais pastéis, além do uso preciso da transparência e leveza na maioria de suas peças. Apesar dos esforços de Yanina em encerrar a semana num espírito animador e vibrante, a única vontade verdadeira quando se olha para os enormes vestidos de tule em cores vibrantes – quase neons- de arco-íris é de fechar os olhos.

Yanina Couture coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A leve excentricidade da beleza da Alta-Costura

Paris Couture Week: a mais trabalhosa, mas ao mesmo tempo, livre para os designers; a mais aguardada pelos críticos; dotadas dos desfiles mais desejados pelas influencers e, sem dúvidas, uma potência inigualável quando o assunto é lançamento de tendências seja na moda ou na beleza. Ao longo da última semana, mais especificamente dos dias 24 a 27 de janeiro, a cidade das luzes voltou a ser palco de mais um de seus grandes espetáculos anuais: a semana de moda de Alta-Costura que nos apresentou as coleções de Primavera/Verão 2022 das seletas casas que fazem parte da Chambre Syndicale de la Haute Couture

É indiscutível que nos desfiles desse segmento da moda, a atenção é sempre voltada à suntuosidade das criações, porém, como molduras de um quadro valioso para o autor, a beleza de cada apresentação é também criteriosamente pensada, de forma a contribuir para a grandiosidade que se espera do resultado. Sendo assim, pudemos ver que algumas casas buscaram por uma estética que nos trazia à memória a delicadeza que remete aos trabalhos manuais tão valorizados pela alta-costura, enquanto outras optaram pela excentricidade que exala das criações finalizadas. 

Na beleza da Fendi, assinada por Guido Palau e Peter Philips (hairstylist e makeup artist, respectivamente), recebemos uma extensão do que Kim Jones propôs ao criar a coleção: uma mistura entre passado, presente e futuro. Uma pele quase isenta de maquiagem, rememorando as estéticas de pureza associadas aos antigos tempos romanos, associada à dramaticidade e irreverência muito observadas hoje em dia e que, cada dia mais, se consolidam como apostas futuras, expressas por meio da aplicação de pontos de strass por todo o rosto das modelos. O cabelo vem limpo, sem grandes elaborações, deixando que o foco principal seja o mistério apresentado pelas criações e a excentricidade delicada da maquiagem. Em uma análise um pouco mais fantasiosa, pode-se dizer que essa junção estratégica de leveza e brilho criam justamente uma imagem de algo celeste, radiante e puro, associadas aos elementos espirituais de Roma e à esperança de um futuro mais leve que virá após o caos. Descrição essa que poderia ser facilmente aplicada a Antonio Grimaldi (por Maurizio Caruso Morale, Anna Maria Negri Brida e Maurizio Calabró) e Alexandre Vauthier (por Lisa Butler & Sam McKnight) também – ambas casas que também optaram pela beleza do “menos é mais”. 

Já no espetáculo de Giambattista Valli, com make por Helena Vasnier e cabelo por Lewis Ghewy, notamos um contraste da sutileza com a dramaticidade. Algumas modelos cruzaram a passarela de rosto praticamente limpo, isento, enquanto outras carregavam olhares marcados por delineados gráficos, vazados e extravagantes, criando um olhar desafiador e marcante. Essa fusão de estéticas gera uma dualidade, uma sensação de pré-liberdade e co-participação em quem vê: há a ideia de uma tela em branco, na qual a criatividade pode ser exercida e cada um, ao observar a produção, tem a chance de ser responsável por criar em sua própria imaginação a beleza ideal. Ademais, também existe a estética já previamente pensada e exposta, deixando claro que tudo foi inspirado por drama e deve ser combinado ao drama. Os cabelos seguem a mesma linha, alguns transmitem leveza, romantismo e são arrematados por laços, com um ar clássico, enquanto outros são volumosos e compridos, em uma estética que nos leva de volta aos penteados semi-presos da década de 1970. 

Na mesma linha de imagem de força e extravagância, não poderíamos deixar de comentar a beleza criativa, irreverente, e provocativa de Schiaparelli, com claras referências ao surrealismo característico da casa e perfeitamente transmitido pelas mãos de Pat McGrath na idealização da make e Guido Palau nos cabelos – que acendem um alerta para a crescente presença do uso de acessórios para os fios. Um flerte com o “extra” também acenou em Valentino (assinada por Pat McGrath & Guido Palau) que, por meio da aposta em olhares marcantes – resultantes de delineados mais espessos e até mesmo com a aplicação de penas (alguém mais se lembrou da coleção de couture de 2019?) em alguns looks – trouxe uma ousada elegância, complementadas por fios unidos em coques baixos e polidos – como perfeito arremate à coleção.

Por fim, em linhas gerais, vimos nas passarelas uma miscelânea de estéticas que passeiam com naturalidade entre o sutil e o excêntrico, o clássico e o dramático, o básico e o exagerado, mas sem jamais perder a inseparável sofisticação que, desde sempre, faz parte da história da alta-costura.