Frenezi nas Semanas de Moda Masculina Milão e Paris

Para inaugurar o novo ano no mundo da moda, a indústria apresenta a temporada de Moda Masculina Outono/Inverno 2022.

Com o avanço dos casos de Covid-19 no hemisfério norte, algumas marcas como Armani e JW Anderson, cancelaram seus desfiles presenciais ou até mesmo a apresentação como um todo — o que foi o caso da decisão de Giorgio Armani. Mesmo assim o show continuou e a Semana de Moda Masculina de Milão começou dia 14 de janeiro com encerramento no dia 18; a Semana de Moda Masculina de Paris começa na quarta-feira (19) e termina no dia 23.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda Masculina de Milão aqui e o calendário oficial da Semana de Moda Masculina de Paris aqui.

Imagem retirada do site da Fendi.

Confira a cobertura completa da Semana de Moda Masculina de Milão

DIA 1

A Zegna, sob o comando de Alessandro Sartori, deu o start na temporada masculina da melhor forma possível: apresentou uma coleção que marca o início de uma nova era para a label. Além da mudança no título, que agora surge sem ‘Ermenegildo’, as roupas parecem romper com a tradicional alfaiataria masculina italiana da marca.

A mudança de nome da Zegna parece refletir também nas roupas e nos leva a pensar que essa é uma nova fase para a marca. A coleção apresentada através de um espetacular fashion film eleva agora a marca italiana de tradicional à contemporânea.

Sem fazer uso da já cansativa “alfaiataria desconstruída” para atualizar o terno, Alessandro adota códigos do loungewear e do streetstyle para construir peças atuais sem abrir mão da elegância e do refinamento atrelados à marca já centenária.

O resultado são looks que equilibram formalidade e informalidade através de shapes mais volumosos e matéria prima e cartela de cores de excelência: suéteres em tricô com detalhes em corda, parkas em lã de carneiro e calças-baggy em seda acolchoada são alguns exemplos. O destaque no entanto ficou por conta dos pullovers em alfaiataria com recortes retos e acabamento em zíper, que quando abertos criavam um visual estético-escultural super potente.

Uma capela italiana praticamente em deterioração foi o cenário escolhido por Matthew Williams, estilista norte-americano que recentemente assumiu o cargo de diretor criativo da Givenchy, para apresentar a coleção de Inverno 2022 de sua marca própria, a ALYX Studios.

Conhecida pelo streetwear elegante e o trabalho excepcional com couro e acessórios em metal — apelidados de “hardwear” pelo estilista —, a marca fez a sua primeira apresentação em solo italiano desde sua fundação em 2015. Levando em consideração que as fábricas da label sempre estiveram localizadas em Milão, apresentar o desfile na cidade foi como “voltar para casa” segundo o estilista.

A coleção foge da cartela de cores tradicional da label, composta essencialmente por preto e branco, e adiciona tons coloridos de vermelho, lilás e verde musgo em modelagens oversized de jaquetas puffer e sobretudo. As camadas mais justas ao corpo ficaram por conta de vestidos de manga comprida em malha para as mulheres e leggings e pullovers para os homens – tudo isso, é claro, na linguagem sportwear-chic clássica da label. Texturas como vinil, tela em rede e plumas deram o arremate final para os looks, substituindo assim o famoso “hardwear” da marca, o qual Williams parece estar focado em transferir para a sua Givenchy.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 2

Em sua terceira temporada à frente apenas do masculino da marca que leva o seu sobrenome, Silvia Venturini Fendi provou mais uma vez que é mestre em criar peças e acessórios que são desejo absoluto.

Com uma cartela de cores mais sóbria do que a que estamos acostumados, Silvia apresentou uma coleção que reafirma o arquétipo do homem-Fendi que ela vem criando há algumas temporadas: elegante e contemporâneo, com uma inclinação para o feminino e que não costuma beber muito das fontes do streetwear.

Imagem retirada do site da Fendi.

Suéteres com recortes no peitoral, golas de alfaiataria removidas e adaptadas em novos shapes e blazers-capa à la batman são as peças do line up que mais chamam a atenção e reforçam o talento e o olhar de Silvia. Destaque também para a nova estampa ‘O’ Clock’ da marca, inspirada no desenho da alta joalheria da label que é feita por ninguém menos que Delfina Delettrez Fendi, filha de Silvia.

Os já clássicos modelos de bolsa ‘Baguette’ e ‘Peekaboo’ também reaparecem em motivos e cores que combinam com as peças, como de costume. No geral, a coleção é mais uma bola dentro de uma estilista que sabe perfeitamente como despertar desejo em clientes do mercado de luxo.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 3

A brincadeira entre os fashionistas tem sido a mesma desde o primeiro desfile da Prada sob direção criativa conjunta de Miuccia Prada e Raf Simons: “dissecar” look por look e encontrar referências do trabalho de cada estilista em uma peça ou composição. 

De fato essa é uma atividade divertida para aqueles que amam Prada e buscam com olhares atentos os resquícios do trabalho de Miuccia ali, com medo de que a estética de Raf sobressaia a da fundadora — mas a coleção apresentada pela dupla na última semana em Milão mostra que essa não é uma preocupação para a estilista, e que Miuccia está disposta a ceder sem hesitar para o companheiro.

A prova disso são as barras das calças “por fazer” que acompanham todos os looks da apresentação, em um comprimento que ultrapassa em muito os poucos centímetros excedentes de coleções prévias — como Outono 2014 e Primavera 2019. Como Raf conseguiu convencer uma italiana patriota de abrir mão da tradicional alfaiataria do seu país? Essa é uma resposta que todos gostariam de ter.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

Mas isso não quer dizer que a coleção abra mão de certa formalidade. Roupas “que fazem as pessoas se sentirem importantes” foram o mood da apresentação, segundo a própria estilista, em um line-up composto majoritariamente por sobretudos em alfaiataria com botões embutidos e trench coats em couro colorido.

As tradicionais bomber jackets de Raf também marcaram presença, dessa vez em versões mais compridas e com toques à la Miuccia — como cintos e peles de carneiro, uma referência à Primavera de 2017 da marca.

Já as camadas mais próximas à pele foram compostas por macacões de seda em estilo espacial, em uma clara evolução dos long johns apresentados em temporadas passadas pela dupla, e as estampas e grafismos de Raf apareceram em peças em couro que remetem à sua terceira coleção para a já extinta Calvin Klein 205W39NYC.

Acostumada em referenciar coleções passadas através de silhuetas e motivos, Miuccia inovou e trouxe um casting composto por astros de Hollywood, assim como fez há 10 anos no Outono de 2012. Jeff Goldblum, astro de ‘O Grande Hotel Budapeste’, brilhou na passarela ao encerrar a apresentação com um catwalk potente.

A verdade é que o trabalho de Miuccia ainda está muito presente nessa nova fase da marca, e cada vez mais os dois estilistas nos mostram que o objetivo final é entregar roupas impecavelmente bem feitas e não um equilíbrio exato de assinaturas.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

Confira a cobertura completa da Semana de Moda Masculina de Paris

DIA 1:

Egonlab é uma marca francesa que desfilou pela primeira vez na semana de menswear. Florentin Glémarec e Kévin Nompeix, fundadores da marca, fizeram simultaneamente versões de seus produtos para o mundo real e virtual. A casa nasceu há 2 anos com diversas apresentações visuais.

A marca apresentou sua coleção no Oratório do Louvre, em Paris. A coleção é constituída por 37 looks compostos em grande parte pela alfaiataria, jaquetas, trench coat e a então tendência de calças mais alongadas na barra. Suéters, camisas de manga curta e gola alta também estão presentes. Apesar de a coleção em sua maioria ser composta por tons escuros, os looks com cores fortes como vermelho, verde, pink e looks quadriculados atraem olhares. 

Não apenas Balenciaga inseriu as Crocs em suas coleções e passarelas. Egonlab os confeccionou com cristais Swarovski e relata que a ideia veio para homenagear os profissionais da saúde. Cinco modelos virtuais serão leiloados no Metaverso e parte dos lucros irá para associações que auxiliam e facilitam o acesso ao digital para populações desfavorecidas.

Antes de coordenar a atual casa, o nova iorquino Anthony Alvarez, designer da Bluemarble, lançou e dirigiu a marca de streetwear ‘One Culture’. Com um pai filipino, em sua mais nova coleção apresenta inspirações vindas de velas de barcos da ilha filipina de Mindanao. “Tento voltar às minhas memórias para cada coleção”, relata ele ao Vogue Runaway. As jaquetas oversized da coleção apresentam tons de amarelo, roxo e rosa, padrões geométricos das velas. Anthony insere na coleção roupas esportivas inspiradas em seu gosto pelo esporte, mais especificamente o surf e skate. Malhas de crochê, jeans alongados na barra, camisas com cristais Swarovski, trench coats e jaquetas fazem parte da coleção.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 2:

A britânica Bianca Saunders se tornou um dos nomes para se prestar atenção depois de ter vencido no ano passado o ANDAN Prize, um dos principais prêmios internacionais para designers de moda em ascensão. Formada pela Royal Academy Of Arts, a designer desenvolve peças apenas para o vestuário masculino e possui um trabalho que é mais pautado no estudo do que na experimentação.

Bianca busca analisar a fundo os códigos, cortes e trajes clássicos do guarda-roupa masculino e adaptá-los ao presente, sem abrir mão da elegância e da formalidade das peças. O resultado são roupas com corte preciso e modelagem que valoriza o corpo de maneira exemplar. As peças de Bianca são um acerto para aqueles que querem um visual fácil e seguro — com estética chic sem muito esforço.

Alfaiataria exemplar e um bom equilíbrio de cores foram os pontos fortes da apresentação, que foi a primeira da estilista na PFW. Destaque também para as peças em estampa xadrez distorcida, que cria uma ilusão de ótica e nos faz questionar as curvas do corpo.

A Lemaire trouxe para a passarela uma mensagem de esperança, nos convidando a acreditar num futuro melhor e a reconher nossa responsabilidade nesta caminhada. A coleção Outono/Inverno apresentada exala positividade com seus tons outonais suaves e jogo de proporções.

Os designers, Christopher Lemaire e Sarah-Linh Tran, inovaram com um mix entre visuais das décadas de 20, 30 e 70, através das silhuetas amplas, casacos de modelagem oversized e, sandálias e botas com salto em bloco, respectivamente, retratando a atemporalidade, característica da marca francesa.

A Acne Studios completa 25 anos em 2022 e, apresentou virtualmente, uma coleção nostálgica, influenciada pela infância do designer sueco e fundador da marca, Johnny Johansson, que, impedido de viajar a Paris, onde planejava desenvolver a coleção, por conta do agravamento da pandemia, buscou inspiração em suas vivências na cidade de Estocolmo, momentos em família e na natureza local.

As peças de lã remetem às tapeçarias bordadas pela mãe do estilista; já os típicos sapatos pontudos, foram o pesadelo de Johansson quando criança, mas afirma que, atualmente, ganharam sua admiração. O clima local é representado pela modelagem oversized e pelo layering, que aparecem na maioria das composições.

Amassadas e desconstruídas propositalmente, as peças traziam a sensação de algo vivido, remetem a um sentimento nostálgico, como um lembrete para aproveitar o momento presente, mas visitar o passado, sempre que necessário.

Talvez um dos nomes mais quentes da moda atual, Glenn Martens apresentou ontem em Paris o que pode ter sido a sua melhor coleção para a Y/ Project — marca que ele comanda desde 2013, quando o fundador da label faleceu.

Internacionalmente conhecido por suas modelagens que desafiam o olhar para a funcionalidade das roupas através do uso de uma multiplicidade de golas, mangas e sobreposições, Glenn foi capaz de unir suas clássicas assinaturas com a estética de outro criador: Jean-Paul Gaultier.

Isso porque a label se prepara para apresentar uma coleção de alta-costura como parte do novo projeto da maison JPG, que convida diferentes estilistas para assinarem coleções em parceria com a marca. Glenn parece ter mergulhado fundo nos arquivos do criador, trazendo para as passarelas de ontem estampas inspiradas na icônica coleção de Verão 1996 da marca.

Mesmo que o resultado final tenha lembrado o trabalho de Pierre-Louis Auvray – aluno da prestigiosa Central Saint Martins que já vestiu Kylie Jenner e Cardi B com seus designs high-tech – a estampa é com certeza o grande destaque da coleção.

Camisas polo com gola-dupla, cachecóis construídos a partir de jaquetas de camurça e pele e calças de alfaiataria com recorte arredondado e cós em cinto de couro são também peças que chamam a atenção e afirmam o caráter experimental e disruptivo de Glenn – assim como a brincadeira de adicionar torções e curvas em peças como jaquetas e calças de moletom, criando um visual único que já faz parte do DNA da marca.

Peças em jeans também marcaram presença na apresentação, desta vez em lavagens mais ousadas como a “dirty jeans”. À frente da Diesel desde Abril deste ano, o Denin parece ser um material que o criador manipula com maestria, criando modelagens e proporções nunca vistas antes – como as calças-bota em jeans, que já se tornaram peça-hit do estilista e conquistaram até Julia Fox, a it-girl do momento.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 3:

Um dos pioneiros na estética gótica vanguardista, Rick Owens deixou mais uma vez os fashionistas “de plantão” boquiabertos com a sua recente coleção de moda masculina Outono/Inverno 2022, durante a Paris Fashion Week. Intitulada de “Strobe”, a coleção iluminou todo o ambiente gótico do designer.

Inspirado pelas formas do Egito Antigo e pela luminosidade das obras de arte de Dan Flavin, Owens não se limitou em explorar somente suas referências, mas soube trabalhar muito bem com silhuetas extravagantes já conhecidas pelos seus admiradores. Materiais como o couro e a lã entraram no desfile, como peças opostas de um mesmo quebra-cabeça, construindo as silhuetas soltas de um lado e mais rígidas de outro.

A coleção ganhou novas interpretações das botas Kiss, Beatle Bozo e Tractor, além das peças acolchoadas de nylon, que caracterizam também a assinatura do designer. O preto fez-se presente do início ao fim na passarela, como de costume, mas cores como o laranja, o rosa, os cinzas e prateados souberam comunicar a ideia das formas lindas do Egito Antigo, que tanto maravilharam Owens. 

Capuzes acolchoados com zíperes até o topo da face, malhas rasgadas e cheias de cortes, blazers construídos de maneira “não-convencional” e os moletons com escritas gráficas como “URINAL”, terminam por reafirmar a identidade singular de Owens, um profissional da moda que não pretende ser convencional.

Em destaque, um dos looks finais (look 44), conseguiu reunir toda a mensagem da “Strobe” em um só momento. O modelo usava uma espécie de capacete, que sustentava duas lâmpadas bulbo monumentais, iluminando o look e o resto do ambiente. Além disso, uma jaqueta de pelo de cabra alongada e botas de cano alto clássicas da marca Rick Owens.

Alguns desfiles nos marcam para sempre. O Outono 2022 masculino da Louis Vuitton é um deles. Apresentado ontem em Paris, a coleção é a última que Virgil Abloh deixou pronta antes de falecer em novembro do ano passado.

Se o clima de “Virgil was here”, apresentação realizada pela Louis Vuitton durante a Art Basel deste ano em homenagem ao estilista, era de luto e despedida, o de ontem foi de celebração e firmamento de um legado.

Isso porque a apresentação parece ter sido uma junção de todos os códigos, assinaturas e silhuetas que Virgil criou ao longo de 8 coleções à frente da marca – além, é claro, de referências a cenários e trilhas sonoras também de coleções passadas do estilista. Para quem se lembra do icônico desfile de despedida de Marc Jacobs da Louis Vuitton feminina, em 2014, o clima parecia o mesmo.

O cenário, intitulado “Louis Dreamhouse”, recriou uma casa surrealista a qual uma parte estava submersa, a outra possuía um chão com cama e cadeira acopladas e uma terceira formava uma grande mesa de jantar, preenchida por uma orquestra. Um tom de azul claro dava cor a praticamente todos os componentes do cenário, exceto o telhado, em uma clara referência a um dos mais icônicos desfiles de Virgil: o de outono 2020.

Em meio a este cenário, artistas performáticos cantavam e dançavam ao mesmo tempo que os modelos desfilavam no mesmo espaço. A atmosfera era bem parecida com o também último desfile de Virgil para a Off-White, sua marca própria, que contou com música ao vivo e um mood de celebração ao final da apresentação, quando o estilista e as modelos se juntaram ao lado da cantora MIA no palco.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

As roupas escancaram mais uma vez o talento e legado de Abloh: alfaiataria precisa e contemporânea (desta vez com cinturas bem marcadas), bomber jackets em estilo colegial adornadas com patches mil e looks conjuntinho-total que variavam o material – de paetês à tapeçaria – são alguns exemplos. Os clássicos gorros e bonés com orelhas de animais também apareceram, assim como as saias rodadas, as body-bags e os inúmeros acessórios-desejo que o designer era mestre em produzir: como as bolsas em formato de lata de tinta, as maletas monogramadas distorcidas e as malas com arranjos florais em tecido acoplados.

Mas o destaque ficou por conta de três dos últimos looks do line up: os de número 60, 62 e 68. O que eles têm em comum? Possuem asas de anjo monumentais. Confeccionadas em renda e com pontas pontiagudas, elas compõem o que certamente é uma das imagens de moda mais potentes da temporada – e talvez também do legado de Virgil.

Foi nesta atmosfera angelical que a equipe da Louis Vuitton entrou em conjunto para receber os aplausos de pé dos convidados – ao som de Tyler the creator, que era amigo pessoal de Virgil. Por uma janela no alto do imóvel que sediava a apresentação, estudantes de moda da École Duperre Paris assistiam a tudo que acontecia e marcavam o fim de um ciclo que se iniciou da mesma maneira: no primeiro desfile de Virgil para a LV, parte da plateia eram também alunos de graduação em Moda, só que convidados por ele. Que momento.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 4:

Em mais uma de suas coleções para a Maison Dior, Kim Jones viajou no tempo e retornou com sua própria interpretação dos maneirismos do fundador da casa, Christian Dior. A coleção de moda masculina Outono/Inverno 2022, contou com 50 looks e sua passarela simulou, em tamanho real, a balaustrada da famosa ponte parisiense, Alexandre III.

O estilista britânico reinterpretou vários ícones do Monsieur Dior para a realidade do homem contemporâneo, como por exemplo a jaqueta Bar feminina de 1947, no look de número 21. Além da reinterpretação de cortes e silhuetas familiares para a casa de alta-costura, Jones explorou também estampas, como: a estampa de leopardo, referindo-se aos looks da coleção de Primavera/Verão de 1947.

A paleta de cores da coleção se concentrou em equilibrar os tons frios e os tons terrosos, mas o preto manteve-se presente também nessa balança. Jones resgata não somente a assinatura de Christian Dior como também diz enxergar um resgate da sua própria assinatura do início dos anos 2000, principalmente, com o uso dos tons acinzentados.

Peças de tule bordado sobre camisas formais, blazers caracterizados com faixas frontais retorcidas, lantejoulas bordadas em suéteres, as clássicas boinas francesas, peças de couro e calças estilo Jogger dominaram toda a coleção. O resgate de arquivos da própria  casa é sempre uma ótima homenagem ao fundador, e dessa vez não foi diferente. 

Ao explorar o universo andrógeno em sua coleção, o designer belga Dries Van Noten trouxe em sua coleção apresentada no formato digital de um fashion film com o fotógrafo dinamarquês Casper Sejersen, a liberdade dos jovens, que tem sido negada nestes últimos tempos devido à COVID-19.

Calças de lurex brilhantes, peças de lã falsa, casacos e blazers trespassados, camisas transparentes e uma fusão riquíssima de cores vibrantes e estampas clichês como: estampas de hibisco e estampas de leopardo; definem bem o tom de toda a atmosfera festiva que o fashion film foi capaz de passar.

Na alfaiataria, Van Noten fundiu os ombros napolitanos com mangas bufantes frisando, mais uma vez, a presença da androginia em seus designs ao som de “Dream Baby Dream” (1979) da banda Suicide. 

O envolvimentos dos modelos entre beijos, carícias e diversão reflete os pensamentos do designer sobre a juventude perdida dos jovens em meio à pandemia. Van Noten afirma: “Eu realmente penso nos jovens que não podem sair, não podem conhecer outras pessoas….Todas essas coisas com a situação do Covid”. 

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

DIA 5:

Vivemos num período em que há pessoas mais preocupadas em criar um Metaverso, do que em melhorar as questões do mundo real, daí partiu o questionamento feito por J. W. Anderson na coleção de outono 2022 da Loewe, que criticou a forma que estamos lidando com a tecnologia, através de uma abordagem surrealista.

O que seria mais comum, nessa época de valorização às aparências, do que fotos altamente editadas? Inclusive, é muito comum encontrar erros de edição, onde corpos e cenários se deformam; esse foi um dos principais pontos abordados na coleção, para criar essa ilusão, as composições apresentavam camisas com a bainha arqueada, em direção oposta à do cós das bermudas.

A crítica ao Photoshop e outros aplicativos semelhantes, também é evidenciada nas peças de estampa listrada (com linhas tortas, brincando com volume e proporção) e, nas camisas e macacões, que traziam rostos e corpos deformados, dos próprios modelos, como estampa, satirizando a busca pelos tamanhos “ideais”.

A utilização constante de filtros e molduras não podia ser ignorada, foram representados pelas balaclavas, tendência da temporada, que vieram com recorte em formato de coração. A febre dos gifs foi simbolizada pelas palavras “Hello” e “Smile”, presas às calças; faziam alusão à necessidade de sempre parecer feliz e comunicativo nas redes, em busca do engajamento.

Tudo que está nas telas é iluminado, a luz é essencial para a tecnologia, por isso, Anderson apresentou este elemento em diferentes leituras. Diversas peças contaram com luzes de fibra óptica, trazendo o brilho dos dispositivos para a passarela, mas as capas de chuva feitas de couro, roubaram todos os holofotes; com um tratamento especial, o material ficou com aspecto translúcido, de forma que as underwears de cores claras ressaltavam, fazendo alusão às luzes de fundo dos aparelhos; esta técnica também foi utilizada nos sapatos, que pareciam feitos de plástico.

Quem nunca postou fotos ou memes de pet nas redes sociais? Ou de algum prato? Inclusive, são as que recebem o maior número de views e dominam o feed, por isso, viraram estampa para regatas, sungas e túnicas. Essa atenção ao que vem da natureza, surge como um pedido de socorro em meio ao caos que estamos enfrentando, ao bombardeamento de informações e surgimento de novas tecnologias, estas, cada vez mais bizarras e sem sentido. J.W. acredita que a era digital contribui para um comportamento psicótico, onde o real e o irreal se confundem, passamos a duvidar de todos, inclusive de nós mesmos.

Imagens dos desfiles comentados retiradas do Vogue Runway.

O Dandismo foi um estilo popularizado entre a aristocracia do século XVIII, principalmente entre os homens, com valores de bom gosto e senso estético impecável, um homem que escolhe viver a vida de maneira intensa e linda, essa é a inspiração de Véronique Nichanian, em sua nova coleção para a marca Hermès.

Ela descreve como o estilo ainda estaria vivo nos tempos modernos, só passou por algumas alterações chaves, mas o verdadeiro núcleo de um Dândi é os ares de amor á vida, e torna-lá o mais esteticamente apresentável possível. Mas vemos nessa coleção da Hermès desde elegantes casacos de inverno e calças de alfaiataria, como jaquetas de couro, coletes puff e suéteres de cashmere , as silhuetas , cortes e detalhes dignos da marca reconhecida internacionalmente por sua qualidade e exclusividade.

Imagem retirada dos arquivos da ALYX.

Tudo o que você precisa saber sobre a SPFW N52 

Francamente esse texto não foi um dos mais fáceis que já escrevi. Na verdade, acredito que foi um dos que mais me deixou em um limbo criativo. Levá-lo para o espectro de textos críticos impessoais, quais costumo escrever a cada temporada de moda para a Frenezi não faria sentido, afinal esta foi a minha primeira semana de moda cobrindo de perto — foi extremamente pessoal.

Voltando um pouco ao passado, minha relação com meu trabalho de jornalista de moda era complicada e mesmo sempre estudando muito e fazendo pesquisas, ainda tinha internamente uma grande síndrome de impostora. Na realidade, tirei o Instagram do privado e comecei a discutir sobre moda na plataforma em 2020, no começo da quarentena, o que eu não imaginava era que com a crescente popularidade do tiktok e as semanas de moda se adaptando para o digital que eu encontrei muitas pessoas que também estavam começando a falar sobre uma moda diferente, uma que eu acreditava.

É uma experiência meio irreal ver essas pessoas se juntando para um evento em função da moda nacional, fica bem claro quem realmente ama e se dedica a moda é uma das melhores experiências disso tudo foi poder sentir isso de perto. No começo de tudo tive medo de ter a mesma decepção que tive com as semanas de moda internacionais, aquele sentimento na moda de ‘voltar ao normal’ como se nada tivesse acontecido, como se os últimos anos de eventos traumáticos e aprendizados que trouxeram com eles não tivessem significado muita coisa, que a verdadeira ansiedade pós-pandêmica era diminuída apenas a voltar a sair e se divertir.

E até os primeiros desfiles do Projeto Sankofa esse era um medo que quase se tornou realidade, durante os anos presentes o SPFW foi denunciado por diversas práticas questionáveis, felizmente o pós-pandemia apresenta uma nova fase do evento e da moda nacional, uma fase que ouve e respeita jovens criativos, e principalmente da espaço para narrativas diferentes pois reconhece que são elas que constroem uma moda para se acreditar. Em outras palavras, estamos em um momento essencial da moda nacional contemporânea e estou ansiosa por ter o privilégio de acompanhar esse momento de perto.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 1 – 16 de Novembro:

 Abrimos a semana de moda de São Paulo com a ansiosamente esperada estreia no evento – Pedro Andrade, que contou com o cenário da Pinacoteca de São Paulo, em seu primeiro desfile presencial desde o lançamento oficial da marca em 2020. A marca é assinada pelos diretores criativos Pedro Andrade e Laura Kim, a dupla traz um novo significado para uma alfaiataria moderna, misturando elementos do streetwear e uma inspiração profunda em grandes artistas nacionais como Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer.

De regatas vazadas combinadas com calças de alfaiataria temos uma coleção concisa e muito bem executada, tanto no plano de qualidade material e precisão quanto na construção das roupas em si. Como na forma que a coleção foi estruturada passando de diversas inspirações e referências importantes que ajudaram ao desenvolvimento da mesma, da versão brasileira das famosas botas Tabi até uma apreciação pela arte e folclore nacional de uma forma nada óbvia e até versátil para seus consumidores, foi um dos melhores começos que poderia pedir iniciamos a semana com uma das melhores coleções da temporada.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 2 – 17 de Novembro:

No segundo dia já estávamos presencialmente acompanhando o evento, mas não vou mentir que meus sentimentos são divididos em torno desse dia específico. Começamos o segundo dia num passo um pouco mais lento do que o primeiro, e como dito anteriormente além de Pedro Andrade ter colocado as expectativas altas para os próximos também existia um medo da decepção eminente da ‘volta ao normal’ sem significar muita coisa, e como foi o primeiro dia presencial com muitos desfiles no evento em si alguns deixaram a desejar. A primeira coisa do evento foi a apresentação do projeto cria costura, a segunda foi o desfile da Torinno para a estreia de seu primeiro desfile feminino Luis Fiod traz para sua passarela um verdadeiro esquadrão de estrelas que incluíam Marlon Teixeira e Lais Ribeiro. A coleção apresenta uma visão clássica do streetwear com silhuetas mais estruturadas que abraçam o sangue esportivo da marca, com diferença de alguns tons neons e vibrantes que trouxeram nossa atenção.

Depois de Torinno as próximas apresentações até a noite eram majoritariamente digitais começando com Ronaldo Fraga, o estilista conta sua história através dos tecidos e cria arte com seus acessórios, com um ar esperançoso e positivo. Fraga apresenta momentos que fizeram parte da história brasileira, com uma coleção feita 100% de bases de jacquard em fios de algodão, seda, linho e viscose. E em um fashion film emocionante ele conta um pouco da história da indústria têxtil no Brasil. Um tema que deveria ser mais explorado tanto por sua riqueza histórica quanto pela importância do mesmo para nosso estado atual da moda nacional, mas parece que além das inspirações básicas nas riquezas naturais Ronaldo Fraga leva a um passo à frente em pensar nas ramificações sociais e no contexto histórico disso tudo.

Fábio Souza e Alexandre Herchcovitch trazem uma inspiração que já discutimos muito aqui na Frenezi, principalmente no texto especial de Halloween que conversamos sobre como os estilistas conseguem tirar suas inspirações do que não é tradicionalmente belo. A marca À La Garçonne Traz filmes de terror como inspiração bruta da coleção, mas fogem do óbvio e do gore, misturando elementos românticos com o sinistro, estampas de fotos dos filmes em camisetas brancas em conjunto com florais e jogos de texturas, os designers exploraram uma nova visão para o workwear com o upcycling.

Chegamos em uma das minhas coleções favoritas do dia, com um fashion film impecavelmente produzido a coleção ‘Uma noite e meia’ da marca Anacê apresenta peças com recortes e silhuetas sensuais em tricôs, é um clima de festa e provocação muito bem executado que vai além de saias mini e vestidos bordados, é uma exibição de desejo e vontades da nova geração, a sensualidade sendo repensada a forma que ‘voltamos ao normal’.

A Mnisis é a mais nova marca estreante na SPFW, ela trás em  sua coleção de forma nostálgica e brincalhona sem comprometimentos ou desejo de seriedade — uma visão romântica da infância.  Seu fashion film que apresenta a coleção é uma confirmação de que a visão aqui é uma carta de amor às lembranças de infância e a criança interior que vive em cada um de nós. Composta por camisas e  vestidos com plumas, peças em cores vibrantes e texturas interessantes, a despretensão é entregue em peso. 

Agora voltando para os desfiles presenciais tivemos uma das colaborações mais interessantes da semana, o SPFW N’GAME uma colaboração entre o evento e o jogo Free Fire borrou as linhas entre o real e o virtual, ao que parece os recentes diálogos sobre o metaverso nunca estiveram tão em pauta como agora. A edição marca a volta dos desfiles presenciais no Brasil e a parceria entre o SPFW e o jogo, como muitas marcas internacionais como Balenciaga e Gucci já se aventuraram, mostram como uma representação visual pode incluir o real e o virtual. Na passarela foram observados 20 das ‘skins’ que o jogador pode trocar e destrocar mais populares do jogo, trazendo a vida real para um universo exclusivamente virtual e uma apresentação muito bem organizada e bem feita.

Terminando o dia com o desfile da marca Lilly Sarti, as estilistas mesclam o passado com o presente e o futuro com estampas de pinturas rupestres e figuras de animais em tons terrosos mesclados com brilhos, silhuetas dramáticas e ousadas que carregam o desejo e vontade de festa após dois anos em uma pandemia global. As peças de alfaiataria em conjunto com o conforto com a festa são, sem dúvidas, vibrantes o suficiente para roubar os holofotes.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 3 – 18 de Novembro:

Depois de um ano conturbado para o evento, com denúncias de racismo e a adaptação para o meio digital, os primeiros desfiles do dia que pertenciam ao Projeto Sankofa deram o respiro necessário para os dias a diante. Aquele sentimento claustrofóbico de ansiedade pós-pandemia de voltar tudo ‘ao normal’ sem mesmo se questionar se esse normal funcionava foi destruído assim que o primeiro modelo de Meninos Rei apareceu na passarela.

E claro, ainda tivemos desfiles tradicionais e com o mesmo sentimento durante o evento, mas a mudança e impacto que os dois primeiros deste dia Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe provocaram foi emocionante, dando outros olhos para o evento em si.

A Primavera-Verão de Meninos Rei pode ser traduzida como uma carta de amor. Para quem? Para a Bahia, a África, as raízes familiares dos fundadores e a ideia de uma moda cada vez mais diversa e inclusiva, apresentando o casting mais diverso da temporada com modelos dos mais variados corpos possíveis, é um sentimento de inclusão, de amor e de inclusão que deram esse respiro necessário. Em modelagens oversized e cortes imaginados para criar peças únicas, com tecidos em cores gritantes vindos diretamente da África, a Meninos Rei de Céu e Junior Rocha entrega mais do que “apenas” roupas — a coleção é uma aula sobre respeito à própria ancestralidade.

No segundo desfile do Projeto Sankofa, Ateliê Mão de Mãe apresentou a coleção ‘Profundo’, inspirada pelo mar e motivos tropicais para a temporada que está por vir. Provando mais uma vez sua excelência, a dupla de diretores Vini e Patrick Fortuna criou peças trabalhadas em  crochê e técnicas artesanais numa paleta praiana, é uma demonstração clara de respeito pela qualidade do trabalho manual brasileiro, que lembram os perfumes do verão e da boa qualidade.

Um dos designers brasileiros mais reconhecidos, João Pimenta apresentou uma coleção que completa um ciclo de sua narrativa, durante a pandemia após duas coleções que refletiam sobre a pandemia o sufocamento e o escapismo que vieram com ela, ele apresenta uma contramão a sua estética base da marca. Com uma coleção de alfaiataria estruturada e muito bem ajustada, com uma paleta de cores em tons terrosos e monocromáticos. Porém ele não abre mão de seu próprio twist nas peças com mangas volumosas, lapelas desconstruídas mini saias masculinas com volumes estratégicos, é uma visão clássica do estilista em uma coleção um pouco mais adaptada ao dia-a-dia indicando o fechamento de uma fase conturbada, uma estratégia genial de atrair consumidores mais minimalistas a uma marca reconhecida por seu maximalismo, ainda é João Pimenta isso fica claro nas maquiagens com próteses para parecerem aliens ou nas mini bolsas de isqueiros de contas, mas é num novo contexto pós pandemia marcado pela preferência de peças coringa pelo consumidor em decorrência da crise econômica.

Não muito diferente do próximo desfile do dia Weider Silverio, desenvolve sua coleção com ângulos precisos e alfaiataria digna de livros de arquitetura se misturam ao bom humor e leveza, ele cria uma coleção fresca, que nos transmite tudo o que passamos meses esperando, looks versáteis e que testam o tempo com algumas tendências jovens incluídas como a cor rosa chiclete e o corset aparecem de uma forma mais sóbria mas bem executada para trazer nova vida a uma coleção cheia de sofisticação.

Terminamos o dia com Walério Araújo fazendo uma celebração de seus 30 anos de carreira, ele recorreu a fonte base da marca, que deram nome a seu legado no mercado, as baladas, sair a noite, toda a estética de grandes festas. Entre bordados e aplicações exercidas com maestria e uma alfaiataria bem editada com customizações inteligentes a coleção intitulada “Noite Ilustrada” foi uma homenagem à coluna de mesmo nome escrita pela jornalista Érika Palotina entre os anos 90 e 00, e foi a mesma a responsável por trazer ao mainstream nomes da cena noturna paulistana, entre eles, Walério. 

Com Drag Queens tomando a passarela, couros, vinyls e vestidos bordados de pérolas, Walério Araújo mostra claramente sua precisão em sua área favorita, as roupas de festa prontas para o próximo clube.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 4 – 19 de Novembro:

Começando o dia com Ponto firme em sua coleção intitulada ‘Um Bando’ e que inaugura o ateliê-escola-estúdio (para atender e capacitar mais pessoas), Gustavo Silveira, estilista frente à criação das peças da marca, se aventura em técnicas que o projeto conhece e trabalha muito bem: a tricotagem e o crochê, criando rendados belíssimos. A apresentação ainda conta com bonés feitos também a partir da técnica do crochê, casacos e camisas feitos a partir de materiais descartáveis e tons que remetem à brasilidade e seu tropicalismo.

A nova coleção apresentada por Fernanda Yamamoto em colaboração com membros da comunidade Yuba 一 grupo criado por imigrantes japoneses 一 nesta edição da SPFW carrega consigo as origens de Fernanda e de sua família, bem como suas relíquias. Tendo como base uma peça chave e fortemente tradicional no Japão, os quimonos são os grandes protagonistas da nova cápsula da marca de Yamamoto junto com vestidos antigos bordados em aplicação de seda e morin, que ainda englobam um toque de leveza, suavidade, sofisticação e muita elegância em toda a coleção. Como um todo, a série apresentada por Yamamoto comporta-se como uma viagem cultural em minutos aos telespectadores.

Voltando para o evento principal os desfiles começam com mais dois do Projeto Sankofa Naya Violeta e Santa Resistência, marcas que apesar de seu desenvolvimento jovem tem uma grande apreciação pelo trabalho manual. Começando por Naya Violeta que foi marcada principalmente pela celebração à ancestralidade, a coleção exposta pela estilista comemora as diferentes raízes que existem no país, uma celebração animada com cores vibrantes marcando um otimismo e uma esperança por dias melhores.

No segundo desfile do Sankofa o Santa Resistência  sua coleção intitulada ‘Jóias do Recôncavo’, a coleção liderada por Mônica Sampaio busca abordar a pluralidade da moda afro em suas peças, de forma a representar o espaço interiorano brasileiro. A coleção, que é traduzida em peças com uma diversidade de cores vibrantes, contemplada especialmente pela bagagem cultural brasileira em cada estampa e tom apresentados, bem como pelos modelos que dão atitude às peças confeccionadas pela marca. Um outro ponto muito marcante na coleção da Santa Resistência é a forte presença das memórias afetivas da estilista pelo Recôncavo Baiano local de origem de sua família, firmada pela apresentação ilustre do Olodum, um grupo musical de muita tradição na Bahia, na trilha sonora do desfile.

Agora passando para um das principais coleções da temporada com Misci em sua história de amor e paixão pela cultura nacional, o diretor criativo Airon Martin relembrou um marco na cultura popular brasileira – o Boteco de Rua – juntando a estética popular brasileira com a qualidade a alfaiataria de sua marca mesclando a tradição com um marco nacional, um show de brasilidade elevado à máxima potência.

A Misci pode ser uma das novas grandes marcas estabelecidas brasileiras, com uma alfaiataria bem construída, acessórios pontuais que já se provaram ser um sucesso de vendas entre um grande público o que pode estabelecer bem uma marca em conjunto com uma sincera paixão pela cultura brasileira e suas várias diversidades, um storytelling necessário. Misci pode ser descrita como uma alfaiataria mais comercial, com produtos e acessórios que claramente tem o objetivo de atingir um grande público, 

Com sua nova coleção intitulada ‘De Volta para a Casa’ e apresentada de forma digital, a LED celebra a abertura de sua loja física, a Casa Led, em Belo Horizonte. Reunida em peças vívidas e alegres, a coleção exposta por Celio Dias, o responsável pela parte criativa da marca, conversa de forma eficaz com o momento vivido pela LED de celebração. As peças foram desenvolvidas especialmente em tecidos de algodão, seda e viscose, alinhando-se com o tecido tecnológico, contando também com a presença do crochê.

Igor Dadona mergulhou de cabeça nos reflexos da pandemia à humanidade. Em sua nova coleção ‘House Couture’ de Outono/Inverno para a marca, ele busca reproduzir de maneira singular como o período pandêmico tem afetado a vivência social e o quê ela tem representado. Contrastando entre o universo sombrio e o otimismo, Igor simboliza o passado, reproduzido pela atmosfera sombria e caótica herdadas pelo coronavírus e o presente, caminhando pelo futuro expresso pelos tons mais alegres e otimistas, que buscam sinalizar a chegada de dias e momentos melhores.

O ano de 2020 foi marcado por incertezas e medo para os designers independentes, tendo sua primeira loja física inaugurada a pouco menos de um mês parece que Rafaella Caniello, a diretora criativa da marca Neriage, conseguiu atravessar águas turbulentas com sucesso. Esse comportamento fica visível mesmo quando analisamos sua mais recente coleção para a marca intitulada “Argos”. A coleção carrega todos os traços reconhecíveis da marca como plissados, drapeados e silhuetas flutuantes, ao contrário de seu trabalho prévio, parece que a designer encontrou seu equilíbrio perfeito entre suas grandes ideias e expectativas criativas e o comercial. Em uma coleção quase monocromática em branco, preto e vermelho promovendo a atenção principalmente as diferentes texturas, recortes e modelagens em suas roupas somando tudo isso com um conceito ligado à libertação de paradigmas e ideais instaurados na forma do ‘saber-conhecer humano’.

O recifense André Namitala é o diretor criativo e fundador da Handred, que sempre foi uma marca muito mais ligada à moda comercial do que moda de passarela conceitual, por isso que foi uma grande surpresa quando vimos a coleção de estreia para a SPFW desta temporada. A primeira vez que ele se aprofunda de verdade no significado da moda como arte e com um mini documentário exibido antes do desfile fica claro o paralelo entre artista e a marca, e sua nova fase na moda. 

As roupas podemos observar uma apreciação e homenagem a suas raízes pernambucanas com estampas de aju, rendas, tecidos e bordados em linho e em organza de seda, tirando as coleção completamente branca, o que foi outra surpresa vindo da Handred, tudo ficou completo com o show de Lia de Itamaracá durante a apresentação. 

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 5 – 20 de Novembro.

Começamos o dia com uma apresentação um tanto agridoce, a estreia da marca do humorista brasileiro Carlinhos Maia na SPFW, tirando os designs sem inspiração, esforço ou aquele sentimento prévio de já te vi antes, parece que máscaras são uma coisa do passado principalmente para os convidados da marca. Com o susto da cena, o fundador e organizador do SPFW, Paulo Borges, pegou o microfone e fez um apelo para que colocassem suas máscaras para a apresentação começar.

Agora em ares completamente diferentes e voltando aos desfiles no evento principal, começamos a tarde com mais uma apresentação do Projeto Sankofa, com Silvério e sua alfaiataria precisa e criativa, e AZ Marias com uma apresentação que faz reverência ao trabalho manual. Mas foi Milie Lab que conta com a direção criativa de Milena Nascimento, não fez um desfile, fez um verdadeiro show e manifesto.

Dia 20 de Novembro é comemorada o dia da consciência negra, com poesias e um discurso de arrepiar Milena deixa bem claro para cada um ali presente que valoriza o funk e a cultura periférica, ela representa de forma clara as dores e dificuldades de ocupar espaços como uma marca preta e periférica.

É sempre emocionante quando um designer apresenta uma coleção que faz uma ligação direta com sua trajetória pessoal, também foi possível observar essa sensibilidade em Angela brito que em seus seis meses que voltou sua casa de infância no Cabo Verde devido às restrições da quarentena, se viu revisitando álbuns e fotos de família, se ligando fortemente a essas fotos tiradas por seu pai um amante da fotografia.

As mesmas fotos estampam sua coleção para esta edição do evento, com uma alfaiataria leve, com sobreposições que remetiam a algo leve e natural com roupas de cores leves e mutadas, é uma lapidação de seu trabalho em qualidade de vestuário e emoções primárias que nos invadiram durante esse período.

A Apartamento 03 por Luiz Cláudio Silva é reconhecida por sua alfaiataria impecável e suas roupas precisas, com uma atenção a detalhes, cores e técnicas que têm. Sua mais nova coleção embarca no sentimento de Cura, pensando assim como Angela Brito no período da pandemia com respeito e consideração, uma luz no final do túnel após tempos de breu em que vivemos, segundo o estilista. Flores, folhas, estampas de escritas e poesias caracterizaram o uso das técnicas medicinais naturais, uma apreciação pelas técnicas manuais de confecção e tecidos preciosos, como as sedas plissadas, alfaiataria em linhos e acetato e cores iluminadas.

Acredite no seu axé! A coleção “Cores da Bahia” de Isaac Silva, em parceria com a Havaianas encerrou o quinto dia de SPFW numa apresentação multissensorial na qual a música, as roupas e a energia dos modelos transmitiam a celebração, a vida que Isaac queria transpassar. Com inspiração no Sol que marcou sua presença na estamparia, e claro nas vibrantes cores da Bahia.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 6 – 21 de Novembro

Fomos transportados para Niterói, no Rio de Janeiro, para encerrar essa São Paulo Fashion Week edição 52, Lenny Niemeyer toma o famoso caminho Niemeyer para o cenário de sua coleção, essa que celebra 30 anos da fundação da marca em grande estilo. Uma coleção fluida cheia de estampas e segundo a estilista, os prints foram inspirados em feixes de luz que atingem o fundo dos oceanos, referências ao futurismo corpos celestes e a botânica em modelagens pensadas para vestir diferentes tipos de corpos.

Parece que quase todos os planos foram cobertos por Niemeyer durante a coleção o terrestre, os oceanos e o espacial, todos se unindo em uma coleção harmônica e fluída com uma construção das roupas em si muito bem pensada, é a junção da natureza e do ciclo da vida com uma moda que pensa no mesmo.

Em suma, foi um privilégio enorme poder ver a maioria de todas as coleções de perto, sentir a atmosfera, a ansiedade, ouvir as conversas de canto e a frenesi de não saber sobre o próximo desfile foi uma experiência única que sempre vou levar comigo. Algumas marcas principalmente as presentes no Projeto Sankofa e as novas marcas independentes trouxeram diálogos importantes demais que espero que durem por muitas outras coleções, ouvir novos criativos talvez seja a saída do período sombrio do evento e renascer como um aliado, com uma perspectiva da moda que faz a diferença e se liga diretamente com a arte, posso afirmar que no mínimo é um tempo extremamente interessante para a moda nacional.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

Tudo o que você precisa saber sobre a PFW

Existe uma ligação simbólica entre a cidade da luz e a indústria da moda, um pacto velado entre duas instituições para o benefício financeiro de ambas. Não só meramente simbólico mas historicamente, a história de amor entre as duas partes tem um começo claro na corte real francesa de Louis XIV. Os franceses sempre tiveram uma habilidade na indumentária aristocrática, mas nesse período específico foi quando a vestimenta saiu de apenas um status quo social para representar verdadeiro poder bruto.

Jogos de superioridade envolvendo produtos de luxo como jóias e vestidos como uma moeda de troca que mostrava sua posição social e financeira, foi quando entenderam principalmente que os costureiros sob-medida de Paris conseguiam ganhar muito mais do que outro com mesma habilidade artística, desde então os franceses não são só conhecidos unicamente pela arte indumentária ou tendências da época, foi um dos primeiros lugares que viu a possibilidade de lucro real como commodity.

É possível colocar que a moda prosperou tanto em Paris pois lá foi o primeiro lugar que viu a prática como uma indústria completa com um potencial de lucro enorme reinando nas casas de luxo. Desde Charles Frederick Worth criando a prática completa da alta-costura, que logo depois teve a criação de seu próprio sindicato a fim de fiscalizar a prática. Até o presente com o empresário Bernard Arnault tornando essas grandes casas de luxo em um dos maiores conglomerados modernos, sendo a LVMH a segunda empresa que mais transita dinheiro na Europa segundo o “The State of Fashion 2020: Coronavirus Update” realizado e apurado pelo site Business of Fashion.

Paris reina clamando ser o epicentro da moda: uma cidade de alta-costura e bom gosto, com a reputação histórica de suas marcas, em seu livro Capital da moda Valerie Steele qual ela explica o significado da cidade para os amantes de moda pelo globo “A história da moda de Paris se confunde inexplicavelmente em mito e lenda.”

Apesar da prática de grandes maisons de moda convidarem uma condição seleta de clientes para a apresentação de suas coleções, como Paul Poiret ou até o grande precursor de alta-costura Charles Worth, assim como Coco Chanel e Elsa Schiaparelli nos anos 30, até nas grandes visões das coleções o opulentas de Christian Dior.

Mas depois dos anos 60, com grandes designers como Yves Saint Laurent e Pierre Cardin abrindo suas versões de prêt-à-porter, a moda de luxo tinha que se estruturar como diferente das suas concorrentes em lojas de departamentos da época.

O primeiro grande evento da moda como um todo na indústria na cidade e oficialmente a primeira Semana de Moda de Paris, foi a infame Batalha de Versalhes que aconteceu em 1973 organizada pela Fédération Française de la Couture. O evento oficialmente era para arrecadar fundos para restaurar o Palácio de Versalhes, uma batalha dramática entre designers tradicionais franceses e os novos e modernos designers americanos, contou com designers como Yves Saint Laurent, Emanuel Ungaro, Christian Dior (então desenhado por Marc Bohan), Pierre Cardin e Hubert de Givenchy no lado francês, contra Anne Klein, Halston, Oscar  de la Renta, Bill Blass e Stephen Burrows representando a América.

Hoje, a Paris Fashion Week segue com suas teatralidades dramáticas, e conta com os desfiles mais importantes da temporada — já que a maioria dos grandes conglomerados ainda estão situados em Paris, assim como a alta-costura. A cidade respira a moda durante essa semana com ruas engarrafadas, atrações turísticas sendo fechadas para desfiles e bolhas nos pés de correr e andar pela cidade, pelo menos é assim que reza a lenda.

Depois de um mês caótico e animado terminamos nossa jornada de cobertura das coleções na temporada de Primavera Verão 2022, no Instagram da Frenezi vocês ainda conseguem encontrar nossa cobertura por inteiro com resumos de todos os desfiles nos posts de overviews diários, até guias explicativos das coleções mais importantes de cada semana do Big Four — Nova Iorque, Londres, Milão e Paris — além dos textos em nosso site cobrindo a beleza e com resumos de cada dia específico.

Imagens dos desfiles comentados da PFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

Dia 1 – 24 de Setembro

Começamos o primeiro dia com a jovem e apocalíptica Marine Serre que conquistou celebridades por todo o globo com sua estampa de meia lua colorida. A designer optou novamente por um grande e bem produzido fashion film, em colaboração com seus aliados de longa data Sacha Barbin e Ryan Doubiago. Desde do advento da pandemia do Covid 19, Serre diminuiu um pouco a inspiração distópica tão característica de sua marca para um trabalho um pouco mais familiar e confortável. 

Nesta coleção intitulada de Ostal 24, é possível observar um pouco dos dois mundos familiares de Serre, ainda com peças que serão sem dúvidas sucessos de vendas, afinal toda marca precisa pensar também no lado financeiro. O filme é perfeitamente desconfortável, constrói uma coleção da marca muito bem com a harmonia perfeita entre o trabalho conceitual e comercial da designer, com ares de filho pródigo do apocalipse que vai em raves dos anos 90.

A marca ainda consegue surpreendentemente criar peças originais que revitalizam o look familiar que dá nome a sua marca a cada temporada. Sem comentar seus esforços de utilizar a maior quantidade de material reciclado possível: 45% eram materiais regenerados e 45% reciclados para esta coleção de Primavera Verão, a  maior porcentagem já usada pela designer.

Terminando o primeiro dia com Kenneth Ize, uma dos times das marcas jovens e independentes que conseguiram sobreviver a Pandemia do Covid 19, Ize conseguiu não só isso como prosperou em um momento crítico na moda mundial. É um dos designers para olhar com atenção nas próximas temporadas — não apenas pelo fato dele ter a benção da supermodelo Naomi Campbell ou ter colaborado com a marca autoral de Karl Lagerfeld, mas da precisão de seu trabalho e seu olhar crítico para materiais de qualidade.

Vimos também, como uma projeção da pandemia no mercado, que cada vez mais compradores de luxo preferem um material verdadeiramente de qualidade — como o de Ize, que construiu uma fábrica na Nigéria onde as peças são tradicionalmente feitas de linho produzido à mão tomando 80% de todos os tecidos da coleção, os toques finais do tecido são produzidos na Itália. Isso é um luxo velado produzido com propriedade e precisão local, uma virtude que coloca o designer em outro patamar entre seus contemporâneos.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Marine Serre e Kenneth IZE, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 2 – 25 de Setembro

Começamos o dia com uma das marcas mais importantes da história, com sua diretora criativa que faz sucesso nas vendas mas não tanto nas críticas. A mulher da Christian Dior pensada por Maria Grazia Chiuiri é versátil, com roupas descomplicadas para o dia-a-dia feminino moderno e, segundo muitos clientes, é uma das poucas grandes marcas que também se preocupa com o conforto dentro de suas roupas – esses são alguns fatores do sucesso de vendas que a diretora trouxe para a marca desde sua entrada.

Ao mesmo tempo, os designs de Chiuri são descritos como não originais, sem muita mudança aparente entre coleções. Desta vez, ela olha para um passado rico da trajetória da marca e traz de volta os anos de 1960 às passarelas da Dior, com olhar para o legado do diretor criativo na época, Marc Bohan. Com uma atmosfera inspirada em jogos de tabuleiro, a marca apresentou uma coleção que revisita sua própria história buscando por elementos lançados na época por Bohan como silhuetas retas e tons fortes e vibrantes.

A inspiração da coleção é muito bem pensada, afinal a década de 60 é marcada como um dos maiores avanços no guarda-roupa feminino e uma década decisiva para a marca historicamente. Não foi nada fácil para Marc Bohan homenagear o falecido Christian Dior que era justamente o epicentro da moda de cinquenta com suas crinolinas, corpetes e com as novas formas de vestimenta mais utilitárias da década, mas prosperou na Dior durante o tempo. 

É possível ver uma linha clara entre o trabalho de Bohan e Chiuri em alguns looks que, principalmente, fazem menção a alfaiataria da época — mas a execução da coleção em geral é fraca mesmo com um conteúdo de moda tão grande por trás. As segundas peles aterrorizantes por baixo de quase todos os looks também não ajudaram na boa execução da coleção.

Passamos logo depois para uma das coleções que expressam todas as grandes tendências que são possíveis de observar no mundo pós-pandemia: as transparências, recortes bem posicionados e cores vibrantes. A marca Ottolinger sob a direção criativa de Christa Bösch e Cosima Gadient, com características jovens que conta com alças assimétricas e modelos quase nuas são traduzidos para a geração Z com excelência. Apesar de uma coleção ligada ao corpo e sua forma, ao contrário de outros que tomaram a mesma inspiração durante essa temporada, Ottolinger se preocupa em deixar claro que existem mais de um tipo de corpo e que todos merecem ser sensuais e aproveitarem ao máximo as festas depois do tempo caótico.

Thebe Magugu faz uma homenagem emocional a mulheres que inspiraram sua trajetória criativa, como sua avó e sua mãe. O otimismo é uma das maiores características da indústria da moda no movimento pós-pandemia e Magugu prova exatamente isso com uma coleção divertida, alfaiataria feminina, silhuetas elegantes e volumes esculpidos na vestimenta e no corpo. 

A atmosfera do desfile deu lugar á uma instalação onde é possível encontrar referências da homenagem a famílias do designer, como vestidos usados por sua tia e cartas de sua mãe que dão um sentimentalismo e uma sensibilidade para a coleção emocionantes. Ver um designer honrar suas raízes e homenagear algo tão pessoal e sentimental é sempre um momento único.

Terminamos o segundo dia em uma localização simbólica de Paris: a Torre Eiffel. A Saint Laurent volta para sua atmosfera clássica com uma iluminação digna de um verdadeiro show — e a chuva descendo calmamente durante o desfile provam como Anthony Vaccarello ainda consegue entregar um grande momento para a marca. Escolher voltar para o ponto turístico é muito mais que uma decisão meramente simbólica, ela representa um novo rumo para a Saint Laurent.

O diretor criativo finalmente encontrou seu passo entre a harmonia ideal da estética característica criada por Heidi Slimane na marca anos antes e os ricos arquivos do trabalho de Yves Saint Laurent, toma como inspiração principalmente o desfile Outono/Inverno 2001 Couture.

Se desprender um pouco da estética criada por Slimane e criar seu próprio mundo em homenagem a uma história tão rica de um dos maiores criativos da indústria se mostrou uma ótima estratégia, alcançada com blazers de alfaiataria precisa e luvas de cores vibrantes, ele apresenta uma coleção polida, sensual e com uma costura rígida e precisa.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Christian Dior, Ottolinger, Thebe Magugu, Saint Laurent, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 3 – 26 de Setembro.

Começando o dia com uma releitura do passado, Nicolas Di Felice mantém a herança da Courrèges viva com seus cortes retos em linha-A que remetem aos tempos de glória da marca nos anos de 1960. Assim como na última temporada, o designer revisita elementos do passado com a integração de itens e releituras atuais. É possível descrever o trabalho de André Courrèges entre o filho perfeito de Mary Quant e Paco Rabanne, o precursor da moda futurista da época, mas ainda com elementos claramente ligados à moda de rua e aos movimentos sociais que aconteciam.

Em uma coleção trabalhada em couro — e em sua maior parte coberta de tons neutros —, Di Felice entrega itens bem estruturados e similares a peças tanto de coleções atuais como arquivos da marca. A marca também pode se tornar uma das principais do atual fascínio entre as décadas de 1960 e 1970 que está presente na indústria contemporânea, e de quebra manter a importante herança da marca, revigorando seu logo.

Em uma das poucas estreias da temporada, Charles De Vilmorin faz seu primeiro desfile presencia  para a marca Rochas como seu diretor criativo atual. Ele é um jovem designer recém graduado da Escola do Sindicato da Alta-Costura Parisiense e sua coleção de graduação fez tamanho sucesso durante o verão passado que ele foi um dos membros convidados para a semana de alta-costura em janeiro e julho de 2021. 

As características claras do trabalho De Vilmorin são barulhentas, ousadas e chamativas, trabalha com silhuetas volumosas que são elevadas ao extremo com a escolha de estampas e tecidos igualmente dramáticos e bem parecidos com sua primeira coleção na alta-costura. A estreia foi no mínimo memorável com designs que tendem até para um gótico romântico e uma abordagem jovial e chamativa. Um nome e proposta que prometem grandiosidade para o diretor criativo.

Acne Studios é uma marca que ganhou notoriedade pelo streetwear e apreço do público jovem, era de se esperar que o diretor criativo Jonny Johansson apresentasse uma coleção recheada de tendências e referências modernas e realmente, foi o que aconteceu. A coleção é o sonho da geração Z na passarela com calças de cintura baixa de couro, sapatos plataformas, corsets e blusas fluídas com transparência direto dos anos 1970 até peças de crochê e detalhes bordados, a coleção de Primavera/Verão é pelos jovens. 

Com leves elementos e inspirações na moda dos anos 2000, Johansson apresenta a nova visão do sensual e faz a própria interpretação do papel que a moda tem hoje para as novas gerações. 

Patou apresenta uma coleção repleta de alfaiataria moderna que grita o estilo parisiense de um jeitinho especial. Guillaume Henry — diretor criativo da marca — cria uma fantasia acerca da mulher independente. Com elementos extremamente femininos, desde golas até rendas e laços, Patou apresenta a visão da mulher romântica moderna que ama golas exageradas e mangas bufantes. O drama está presente nas silhuetas — como nas coleções passada s—, mas desta vez de forma mais controlada e acompanhada de logos. 

O desfile final do terceiro dia foi emocionante, a coleção marca o aniversário de 10 anos do diretor criativo da Balmain na marca. Olivier Rousteing reviveu a marca, trouxe  seus maiores sucessos de vendas e campanhas publicitárias memoráveis com seu time de celebridades. A coleção toda teve 116 looks entre womenswear e menswear. Na primeira parte da coleção é possível olhar uma homenagem clara à trajetória criativa de Rousteing, com cortes assimétricos e sensuais, silhuetas oversized, acessórios pesados e jogos de texturas entre tecidos que mantêm as vestimentas interessantes.

Na segunda parte o estilista resolveu apresentar 16 looks que são recriações de coleções passados, as peças foram desfiladas por algumas das musas do designer como Naomi Campbell, Mila Jovovich, Carla Bruni e Imaan Hammam, foi nessa parte da coleção que é lembrado o incrível artesão que Olivier Rousteing é, consegue juntar bordados e estampas maximalistas com uma precisão perfeita e sempre pensando na qualidade e amor pelo seu trabalho.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Courrèges, Rochas, Patou, Acne Studios, Balmain, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 4 – 27 De Setembro

Começamos o dia com um dos desfiles que se destaca na multidão, durante essa temporada vimos inúmeras referências ao otimismo pós-pandemia, alguns desses feitos com uma mentalidade bem desligada da atualidade onde muitas pessoas ainda não se recuperaram do ocorrido para pensar em sair e se divertir.

Rick Owens fala exatamente sobre isto em sua nova coleção de Primavera Verão 2022: passamos por algo traumático juntos, algo que deveria ter ensinado diversas lições a sociedade moderna. “Esse desfile deveria ser sobre humildade e uma lição aprendida ou carpe diem?”, questionou o designer em seu primeiro desfile presencial após meses apresentando coleções em seu próprio quintal. Owens sempre dá uma lição no quesito de sensibilidade com eventos atuais, e ainda leva grandes características de sua marca para a coleção com um toque gótico, beleza andrógina, peças que repensam o que é a sensualidade hoje e até uma mistura de tecidos e silhuetas que conseguem transpassar uma ambiguidade de fluidez e rigidez ao mesmo tempo. O trabalho de Rick Owens questiona, e principalmente nos faz questionar.

Falar sobre o que significa sensualidade hoje não é um assunto novo, durante esse ano vimos tendências que estudavam e se despedem da Male Gaze e começavam a se vestir para expressão pessoal e diversão criativa, não exatamente para agradar o olhar masculino. Dá pra sentir esse espírito nas coleções da Coperni, com comprimentos mini, transparência, calcinha de strass e decotes profundos Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer definitivamente mostram toda a ousadia da mulher Coperni.

Entre os blazers quase nus e a atmosfera do desfile ser construída entre 70,000 caules de hemp, qual é uma iniciativa sustentável para tecidos que os designers estão envolvidos. A coleção tem um ar futurista característico da marca, tanto que foi nomeada como Spring Summer 2033 é uma utopia festeira e sensual para fugir da realidade que vivemos, assim como toda coleção da marca.

Gabriela Hearst tem pouco tempo como diretora criativa da Chloé mas já deixa sua visão para a marca bem clara: é uma versão mais feminina e romântica da sua marca autoral, ainda com apreço pelos mesmos valores como alfaiataria bem feita e produção de qualidade, mas ainda é possível sentir um sabor Boho característico da história da Chloé com o uso de franjas, miçangas e macramê. A coleção de Hearst investe em cores sóbrias e foco nos detalhes para uma conjunção elegante sem perder a jovialidade. Comprimentos longos marcam as peças, seja em vestidos que vestem das praias às festas, saias ou maxi casacos. É a Afrodite de sua Atena — até mesmo as coleções passadas de Outono/Inverno foram intituladas assim.

Raf Simons tem uma queda por referências não tradicionalmente belas, inspirado pelos movimentos gótico e do rock, a marca autoral do designer trouxe novamente as mãos de esqueletos ao lado das roupas, estampas gráficas que parecem merchandise de bandas de rock e uma paleta de cores escuras. As silhuetas amplas revisitam uma atitude de roupas unissex que vemos pontualmente em trabalhos do designer, e com uma inspiração em movimentos que não ligam para as regras tradicionais de gênero ou vestimenta.

Terminando o dia no museu do Louvre com Isabel Marant, que assim como muitos outros designers se inspiraram durante essa temporada, a designer resgata novamente o boho chic em busca de inspiração. O resultado são peças com silhuetas e estruturas modernas, aliadas às cores, estampas e acessórios que remetem ao estilo hippie sem perder a classe.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Rick Owens, Chloé, Coperni, Raf Simmons, Isabel Marant, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 5 – 28 de Setembro 

Começamos um dia ensolarado com Loewe de Jonathan Anderson trazendo uma luz necessária para a temporada de Primavera Verão, o designer se inspira em se divertir com a moda novamente e apresenta desta vez uma coleção fora da caixa com silhuetas, tecidos e texturas diferentes do que já apresentadas anteriormente.

O poder financeiro tem sido uma das grandes discussões entre as grandes marcas modernas (infelizmente ainda não é possível pagar as contas com uma coleção meramente conceitual), Anderson consegue executar uma harmonia perfeita entre o experimental e o utilitário. Na coleção o designer apresenta sua visão para uma nova Loewe divertida e alegre, com um discurso experimental desde looks com placas de peito de plástico à la Barbarella, vestidos de paetês e saias com volumes estruturais.

Falando de formas experimentais e cores vibrantes, quase impossível de não lembrar de Issey Miyake que apresenta uma coleção cheia de formas experimentais, em tecidos e texturas variadas brincando com as formas e variantes dos corpos diferentes que apresenta, em conjunto com toques de cores vibrantes quase neon em sua coleção que aparecem principalmente para enfatizar seus detalhes inusitados na vestimenta.

Esta temporada marca muitos aniversários especiais, entre eles o aniversário de 40 anos da marca autoral de Yohji Yamamoto, designer reconhecido internacionalmente como um dos precursores do anti-fashion e do minimalismo japonês de qualidade, pela sobriedade em roupas que valorizam a qualidade dos tecidos e a precisão entre a construção da vestimenta são características claras de seu trabalho.

A coleção foi toda monocromática em preto, o que deixa claro que a atenção deve ser voltada para a construção de suas silhuetas, com os últimos looks exuberantes com a creolina à mostra, consegue-se observar o vestido por dentro e fora. É uma coleção que homenageia seu passado entendendo e honrando sua trajetória e repensando-a de uma forma interessante.

Entre um dos desfiles mais esperados dessa temporada, temos Pierpaolo Piccioli em sua diretoria criativa na Valentino que conquistou os corações dos amantes de moda por suas coleções opulentas e glamourosas de alta-costura. Durante a pandemia do COVID 19, o designer viu que não era o momento certo para coleções como símbolo de riquezas como eram anteriormente e mudou sua visão criativa para se encaixar em um novo contexto social que vivemos hoje – ainda com menção honrosa de características clássicas típicas da marca mas com um tom um pouco mais prático.

Suas criações não tem uma grande linha de storytelling clássica dentro de uma coleção, mas o designer tem uma grande sensibilidade em entender o estado do mundo atual e que talvez aquelas coleções não sejam mais o adequado para o momento.

Em sua conta pessoal do Instagram ele conta como olhou para os arquivos da marca e seu passado como uma forma de força interna a fim de entender a trajetória como um todo. O primeiro vestido da coleção é uma cópia e homenagem a um vestido feito por Valentino para Marissa Berenson em 1968. O resto da coleção segue entre a linha nostálgica de antigos modelos da marca e características claras do trabalho de Piccioli atualmente na marca — uma ótima representação de respeito pela história até juntando-a com o contexto moderno. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Loewe, Valentino, Issey Miyake,Yohji Yamamoto, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 6 – 29 De Setembro

Quem mais conseguiria um hangar de um aeroporto perto de Paris fechado para a apresentação de um desfile se não a Hermès? A diretora criativa da marca, Nadège Vanhee-Cybulsk, faz uma homenagem à história ligada a uma tradição no esportivo de luxo e repensa sua mulher moderna, ela vê a moda ideal para sua cliente hoje não sendo subversiva do conforto. 

É tudo sobre poder se movimentar livremente mas ainda fazendo esforço para estar elegante. A harmonia entre o conforto, a sensualidade feminina e a praticidade de uma forma muito sofisticada, com uma paleta em tons refinados terrosos entre laranjas, amarelos fechados e caramelos estão trabalhados em altíssima qualidade em couro — marca registrada da marca.

Alexandre Vauthier apresenta uma coleção com peças em que definitivamente é possível observar a qualidade de seu ateliê, meticulosamente e precisamente esculpidas, como um dos seus sucesso de vendas: o blazer ampulheta. 

A alfaiataria sofisticada e suas linhas fortes marcantes eram nítidas durante toda a coleção, o próprio designer declarou que sua coleção de Primavera/Verão foi “intensa em termos de trabalho, mas sincera e para frente criativamente falando”. Também reconhecido por seu vestuário noturno, looks de festas não foram deixados de lado, com bordados brilhantes bem posicionados.

E provavelmente uma das apresentações mais importantes da temporada: Balenciaga sob a direção criativa de Demna Gvasalia — que desde sua coleção de alta-costura mostra um trabalho genuíno entre a história da casa e a essência criativa do próprio designer. 

Já é uma das características claras de Gvasalia romper barreiras entre o digital e o real, como sua coleção de Outono/Inverno 2021 em que fez uma espécie de realidade digital entre clonagem de modelos.

Nesta temporada, o designer optou por fazer uma sátira divertida em colaboração com um amado desenho norte-americano Os Simpsons com um episódio especial do desenho animado como um desfile da Balenciaga, com direito a Anna Wintour na primeira fila foi uma diversão cômica necessária o episódio foi exibido logo antes do desfile. 

Os convidados se instalaram dentro do Le Théâtre du Châtelet enquanto assistiam as modelos, que desfilavam os looks oversized da coleção, no tapete vermelho. E após as modelos se juntarem aos convidados na plateia, já não se sabia quem era quem, mas agora já não importava por que o show iria começar. 

Depois de um ano traumático e com a indústria da moda tendo que se reinventar para adentrar as temporadas digitais, muito se especulou sobre como seriam as apresentações pós-pandemia, e muitas marcas decidiram lidar com a situação como “business as usual” — com desfiles presenciais quase sem conteúdos digitais —, mas não a Balenciaga que trouxe uma experiência imersiva entre o digital e o real.

A coleção em si foi composta por modelagens claras da identidade visual atual da marca, principalmente com referência a coleção de alta-costura com vestidos com cintura marcadas em tecidos bordado e, assim como Yohji Yamamoto, Gvasalia preferiu por apresentar looks majoritariamente monocromáticos, principalmente em preto, o que ajuda a perceber detalhes suntuosos da construção e qualidade dos mesmos. Foi um bom respiro de novidade cômica em meio a uma semana de moda tão tradicional como Paris.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Hermés, Balenciaga, Alexandre Vauthier, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 7 – 30 de Setembro

Bruno Sialelli sempre deixou claro quem era a sua musa moderna para sua visão criativa sobre a marca francesa Lanvin: uma pessoa festeira e glamourosa. Deixou essa identidade visual da marca clara com sua criatividade em campanhas e apresentações digitais, do fashion film da coleção de Outono/Inverno ter sido ao som de Rich Girl de Gwen Stefani em uma festa privada em um opulento hotel parisiense e também uma campanha publicitária com o rosto que é a carteirinha oficial das garotas ricas e festeiras desde 2000, Paris Hilton. 

O designer afirmou sobre a nova clientela da marca: “A maioria dos clientes que estão nos procurando procuram por produtos glamourosos e fabulosos. Procuram por uma versão mais elevada e confiantes deles mesmos. Partindo dessa, ele cria uma coleção exatamente para esses clientes com enfeites dourados, tecidos e caimento que lembram um robe e vestidos de cocktail, noite e festa. Além de trazer silhuetas que abusam dos trench coats e tinhas linhas mais nítidas e pesadas – vide o look final desfilado por Naomi Campbell: movimento, alfaiataria, brilho e muito tecido. 

Em sua primeira coleção para a Givenchy no ano passado, Matthew Williams deixou a indústria ansiosa para o que mais ele poderia fazer, mas a linha de alfaiataria limpa e sensual com alguns elementos fortes de seu streetwear futurista em alguns acessórios foi deixada de lado. 

Nessa coleção ele apresenta um trabalho sem nenhum apreço pela qualidade da história do ateliê da marca. Pontua na apresentação do desfile que gostaria de destacar a elegância Givenchy de uma forma jovial e atraente para compradores da geração Z, mas infelizmente não consegue traduzir o conceito criado por ele mesmo. Com um problema desde a escolha dos tecidos até silhuetas confusas e repetidas, tudo tem um ar que poderia ter saído de um desfile em 2011 — não num bom sentido de nostalgia.

Terminando um dia de altos e baixos com Ludovic De Saint Sernin, durante essa temporada inteira ouvimos os discursos de otimismo pós-pandemia e sensualidade pronta para as novas festas, Saint Sernin é o próprio rei dessa estética. A marca sempre foi extremamente ligada a seus brilhos em vestidos de proporções mínimas porém, em uma temporada que podemos observar isto como uma das maiores tendências atuais a vir, era quase necessário ver a coleção do designer.

E ele deixa isso claro em todos os looks. Não importa se são masculinos ou femininos, estão irreverentemente sexys e chamativos, como um look inteiro de strass num vestido mini com recortes por ele todo deixa claro como o dia para quem a coleção foi pensada. Como Blumarine, é bem difícil criticar a utopia criativa de Saint Sernin porque queremos essa ousadia e diversão com brilhos depois de quase dois anos de isolamento — fantasia até meio necessária em períodos caóticos.

Mas o culto ao corpo da marca é meio preocupante, não é apenas um sexy indiferente, é uma atitude quase ligada ao pornografico, bem parecido com o que Tom Ford fazia em seu tempo para a Gucci. Conseguimos hoje ter a mesma atitude ousada sem nenhuma diversidade de corpos?

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Lanvin, Ginvenchy, Ludovic De Saint Sernin, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 8 – 1 De Outubro

Começamos o dia com uma volta de aquecer o coração, Stella McCartney retorna às passarelas e coloca em prática uma ideia de transição. A estilista é notavelmente conhecida por suas criações que abordam a sustentabilidade e a fusão entre a moda de luxo e a saúde do planeta para os próximos anos, tem também uma das maiores pesquisas de couro e outros materiais veganos sem o uso de plástico e toxinas. 

Sua marca está diretamente ligada a questionamentos sobre o futuro, essa coleção marca o retorno de uma identidade mais sensual da mulher de McCartney com recortes bem posicionados em silhuetas bodycon, em conjunto a uma atmosfera esportiva e de conforto dá a ideia de ambiguidade e transição da coleção em conjunto com peças festivas de bordados. 

Um outro ponto marcante foi a quantidade de peças feitas a partir de materiais ecológicos: quase 63% — como poliéster e elastano reciclados, náilon regenerado, viscose e um corante inovador feito a partir de elementos reciclados.

Passando para uma dos designers mais aclamados da semana de moda de Paris hoje: Daniel Roseberry na Schiaparelli, isso deve-se ao fato de como o designer consegue homenagear a fundadora excêntrica da casa juntando moda e arte surrealista em roupas intrinsecamente bem produzidas e acessórios mais que atraentes para novos consumidores.

Detalhes definitivamente não são um problema para a Schiaparelli de Roseberry, Nesta temporada exalta a forma humana na apresentação de sua nova coleção e mantém a ousadia, luxo e surrealismo da fundadora da casa, Elsa Schiaparelli. 

Com um toque mais pessoal, Roseberry reúne peças de joalheria e acessórios, como óculos e bolsas, totalmente imagináveis, estampando as partes do corpo — orelhas, lábios, olhos, nariz, etc —, ainda com referências a Salvador Dalí com o bolero inflável de couro preto que relembra o artista, e referencia também uma das criações da marca: o vestido ‘esqueleto’. Além de um designer que foi uma das suas grandes inspirações artísticas para sua trajetória na moda, Jean Paul Gaultier com o couro e as sedas dispostas em redemoinhos formando pétalas de uma flor, além da aparição dos jeans com bordados suntuosos em dourado.

A visão da Schiaparelli de Roseberry é clara e concisa, é possível vê-la de longe mas seu verdadeiro trunfo é conseguir conciliar diferentes áreas cruciais em uma coleção como a história rica da casa, a sua própria trajetória e uma harmonia ideal entre o conceito exuberante e peças individuais e acessórios individuais que conseguem ser traduzidos para o lucro financeiro, coisa que a Schiaparelli estava necessitada antes da entrada do designer.

Para o desfile da temporada, Giambattista revelou uma coleção imensamente floral e com um mix de cores — em tons de vermelho, sorbet, etc — seguido de estampas. Com a busca de seguir fielmente a proposta para a coleção de Primavera/Verão 2022, Valli destacou-se pela presença de peças em conjuntos que referenciam o verão europeu — principalmente o italiano e o francês em questão — e vestidinhos mais justos, que casam perfeitamente com a temporada. Um outro ponto marcante foi a aparição de lábios coloridos — em diversos tons distintos de gloss —, além de acessórios que remetem à época do verão. 

Em sua coleção Co-Ed, John Galliano enfatizou, mais uma vez, o quão inspirado ele é nos ”sonhos do futuro que os jovens estão tendo, e tornando-os realidade’’ — a principal temática da coleção. 

O trabalho experimental de Galliano para a Margiela flui em uma coleção inventiva com texturas românticas e utilitárias, silhuetas novas, casacos gigantes e arrebatadores, além da ilustre presença de botas de pesca que vão até a coxa e que geralmente são uma grande sensação nas lojas da maison, e a própria tabi boots

Tudo sem deixar o toque misterioso, sensível e erótico que são características fundamentais de Galliano, mas que casam muito bem com a assinatura da Margiela, com características semidestruídas e reconfiguradas em suas peças. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Stella McCartney, Schiaparelli, Giambattista Valli, Maison Margiela, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 9 – 2 De Outubro

E finalmente, o último nascer do sol acontece em Paris. O primeiro desfile que é de uma casa reconhecida por ser francesa, famosa por ser quase obrigatória para as elegantes e despretensiosas parisienses. Ela mesma: a Chanel.

Para a Primavera/Verão 2022, Virginie Viard decide atender às preces dos amantes de moda e apreciadores da casa e trazer um pedacinho das passarelas cheias de atitude e confiança dos anos de 1990 de volta. A designer é notavelmente muito ligada a seu mentor, sempre referenciando-o quando consegue. Decidir homenagear uma era especial na história da Chanel, uma das épocas de ouro de Karl Lagerfeld recheada de modelos andando na passarela com charme e sensualidade, Viard apresenta uma coleção nostálgica, jovem e ousada ao mesmo tempo.

Com peças que remetem aos tempos de glória da marca, como swimwear cheios de acessórios, blazer estruturados de tweed, silhuetas mais justas ao corpo em conjunto com brilhos e bordados pontuados mas não em excesso — uma elegância típica da Chanel em conjunto com acessórios que tem potencial de serem os mais vendidos da temporada.

Para fechar com chave de ouro, os fotógrafos foram posicionados no final da passarela, modelos puderam mostrar seu carisma com poses, sorrisos e desfiles diferentes, tudo para acentuar as roupas divertidas e vibrantes que parecem encaminhar Viard para um novo caminho, talvez, para melhor.

Se em Prada é possível observar uma elegância jovial e o sexy repensado de uma forma única e feminina por Raf Simons e Miuccia Prada, em sua irmã mais nova, Miu Miu — que tem apenas Miuccia como diretora criativa —, sempre há uma diversão jovial e até ousada dos designs.

A “irmã mais nova” da Prada, que desde o seu princípio foi baseada nas garotas da escola que Miuccia Prada sonhava em ser, agora tomou sua forma final e madura em uma coleção que junta o preppy com o sexy. Miuccia Prada é reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho com dicotomias criativas — uma das características únicas e reconhecíveis de seu trabalho — e nesta coleção não é diferente. Se na anterior ela juntou uma montanha de neve e botas de pelos com vestidos slip com strass, nessa ela faz um workwear reconhecível mas cortado no meio sem acabamento parecendo rasgado de propósito e tudo toma uma proporção mínima.

É interessante ver também como sua colaboração tão densa e sincera com Raf Simons tem influenciado o trabalho de ambos. Nesta coleção tem algumas camisas e momentos um pouco menos ousados da coleção que remetem bastante ao trabalho de Simons na Lanvin. 

Ainda é uma coleção extremamente fiel às características claras da Miu Miu, com bordados em vestidos justos, jaquetas e acessórios que são exatamente tudo aquilo que sua cliente é: jovem, preppy, chique, divertida e ousada. Uma direção que repensa sobre os desejos de uma nova geração do que é ser sexy e como se vestir na nova década.

Lacoste mais uma vez une o estilo preppy com o atlético, com uma pitada de streetwear nas veias. A coleção de Primavera/Verão é uma constante na marca. Carrega um pouco dos elementos de streetwear que com os anos acabaram se misturando com a visão clássica da Lacoste sem deixar de lado a estética do típico “country club”, um pouco da história clássica da marca direcionada para um público novo. 

Louise Trotter se preocupa em mesclar a herança da casa com o contemporâneo em busca de uma coleção que remete ao movimento e a necessidade de ir e vir em um mundo que fica cada vez mais rápido.

Como previamente estabelecido, a temporada de Primavera/Verão 2022 marca diferentes datas importantes em várias marcas, em uma delas a joia da coroa do grande conglomerado de luxo LVMH, recebe um aniversário que foi comemorado a sua altura.

No ano que o fundador da maison, Louis Vuitton completaria 200 anos, o diretor criativo Nicholas Ghesquière toma como grande inspiração elementos da moda na época, as peças são uma junção do trabalho prévio do designer na marca e esses elementos, vestidos com bainhas de creolina e movimento fluidos são uma das ambiguidades bagunçadas que são impossíveis de ignorar na coleção.

Mas o verdadeiro momento que é lembrado do desfile é que ele foi brevemente interrompido por ativistas que traziam faixas com os escritos Overconsumption = Extinction, os ativistas foram retirados da passarela rapidamente mas não é uma escolha meramente simbólica fazer isso no desfile da Louis Vuitton, uma das marcas mais lucrativas e que leva o nome das primeiras siglas do maior conglomerado de luxo moderno — a LVMH.

Terminamos a temporada com um dos momentos mais sentimentais, um incrível fechamento para o mês da moda e mostra uma colaboração de toda indústria por alguém especial, essas que são bem difíceis de acontecer por questões financeiras e contratuais mas quando acontecem são um momento único a ser lembrado.

A coleção da AZ Factory foi um tributo ao fundador e diretor criativo Alber Elbaz, que faleceu em abril deste ano. Para o desfile, 45 designers se uniram para criar peças únicas em homenagem à carreira e trajetória criativa do designer, referenciando desde de seu estilo pessoal até algumas referências dos seus 14 anos na Lanvin.

Por que a indústria toda parou para homenagear Alber Elbaz? Algumas pessoas nos tocam, mesmo que elas não tenham a intenção inicial disso, Elbaz era um espírito alegre que se alimentava da sua paixão sincera por seu trabalho, a moda é a indústria dos sonhos e ele sempre nos lembrava que para ele tudo isso ainda era um sonho realizado, se referenciando a própria indústria da moda como sua família disfuncional que mesmo com problemas se amava e se acolhia.

Essa paixão e amor honesto pelo o que fazia tocou inúmeras pessoas diferentes do ramo, que se juntaram para homenageá-lo como o criativo brilhante que era. Uma infelicidade que apenas foi visto uma coleção da sua marca autoral, a AZ Factory tinha acabado de ser lançada, mesmo nessa coleção ficou clara a diversão que teve ao desenhar para sua própria marca.

Com um final extremamente sentimental é onde finalmente terminamos o mês da moda, com altos e baixos e marcado pela volta dos desfiles presenciais, ele deixa um gosto amargo na boca. 

Tanto se foi falado sobre a democratização da moda durante a pandemia e como a criatividade de se reinventar deu um propósito diferente para as tradicionais fashion weeks, e trouxe  até a tona pequenos designer que entregaram isso com excelência no digital. Ao voltar para o presencial, parece que as rachaduras na indústria não foram o bastante para perceberem o senso de mudança que afeta inúmeras camadas sociais pós-pandemia, o lado da moda de sempre voltar como business as usual não é mais realista no presente como tentam parecer.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Chanel, Miu Miu, Lacoste, Louis Vuitton e AZ Factory, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

O easy-chic com flertes criativos da beleza da PFW

Chegou ao fim nesta terça-feira (05) a temporada SS/2022 parisiense, que trouxe consigo momentos emocionantes e referências que refletem as expectativas e interpretações que a indústria tem para o futuro. Fechando o chamado “mês da moda” com chave de ouro, a semana de moda de Paris foi marcada por momentos paralelos: uma beleza básica, marcada pela leveza, sem perder a elegância inseparável que acompanha os ares franceses; com momentos de ousadia, affair com as cores e emoção. Talvez possamos arriscar dizer que foi uma miscelânea entre o “no make-up make-up” apresentado em Milão com relances das belezas “escapistas” de Nova York.

Seguindo, majoritariamente, uma linha com características easy-chic, o que mais se viu na fashion week parisiense foi uma beleza leve que parece ser fácil, despretensiosa e sem muito esforço para ser elaborada. Essa beleza é bem visível passarela da Loewe, assinada pela requisitadíssima dupla Pat McGrath e Guido Palau. A delicadeza e quase ausência de maquiagem e o cabelo moderno, desconectado, mas adornados pela cor representou o tributo da marca à sua expectativa para o cenário pós-pandêmico, livre de ansiedades e preocupações excessivas, deixando que nós sejamos nossa própria casa, nosso próprio padrão e nossa própria referência de beleza e conforto.

Loewe SS22 RTW.
[Imagem: Alessandro Viero]

Em meio a uma mensagem que parece trazer nuances de uma volta ao básico, houveram picos de ousadia que nos remeteram um pouco à estética colorida, alegre e disruptiva vista em NY. Os delineados, antes tão simétricos e quase milimetricamente calculados, apareceram em novos formatos, posições e um pouco menos próximos dos ideais de perfeição. Ao menos, foi isso o que vimos nas belezas propostas por Courréges e Rick Owens (de autoria de Anthony Preel & Joseph Pujalte e Daniel Sallstrom & Duffy, respectivamente) que levaram às passarelas a mistura perfeita entre a sutileza e força, quase como (re)apresentando tendências antigas de maneira reinventada. Bem parisiense, não? 

Este mesmo delineado ligado aos novos ideais de despretensão, trouxe junto uma nova provocação por meio do trabalho de Lucia Pieroni & Anthony Turner na grife Rochas, que ao nos incitar a traçar as famosas linhas abaixo dos olhos, também nos inspira a tentar enxergar o mundo de forma diferente e virar nossos planos de cabeça pra baixo, depois de sermos surpreendidos com uma pausa forçada e levados a refletir sobre a fugacidade da vida. Nesse mesmo sentido seguiram Kenneth Ize, embelezado por Fara Homidi & Yann Turch, responsável por iluminar os olhares com traços dourados que, filosoficamente, podem representar um olhar ambicioso e reluzente para o futuro, e Chloé – pelas mãos de Hannah Murray & James Pecis, que, em meio à onda de “no make-up make-up” looks, apresentou alguns olhares enfeitados com delineados extensos e coloridos, nos fazendo pensar em um futuro divertido e multifacetado. 

Pelo universo das cores e do drama também passaram Weinsanto e Dries Van Noten. A primeira casa – Weinsanto – de forma muito mais artística por meio do trabalho de Axelle Jérina & Kevin Jacotot, ilustrou um discurso que mostra que ainda existe espaço para um escapismo dramático em um futuro com ares etéreos. Já a segunda, – Dries – produzida por Lucy Bridge & Sam McKnight, instigou uma explosão à primeira vista; com tons vivos, olhos que carregam uma intensidade eletrizante, lábios pintados com as cores que irradiam alegria e cabelos que combinam assimetria e degradê, fazendo um paralelo aos tempos incertos há pouco vivenciados por todos nós. 

Na contramão das belezas que focaram no olhar dramático, se apresentaram as maisons que colocaram na boca toda sua emoção. A mesma pele leve e fresh foi combinada à rastros de cores em batons mais vivos, que ornamentaram os visuais propostos por Karin Westerlund & Duffy e vistos nas passarelas de Saint Laurent, que fez do batom vermelho a marca de força e sofisticação do desejo de imagem idealizado por Vaccarello; e a estética criada por Pat McGrath e Guido Palau para a Valentino que, assim como Chloé fez ao trazer destaque aos olhos, mesclou lábios contrastantes à beleza despojada.

Sendo assim, como dito no início desse texto, Paris refletiu a junção das visões de futuro apresentadas em Nova York e em Milão em uma bela e instigante miscelânea que demonstram as interpretações do futuro externadas na beleza, sem, contudo, deixar de lado sua distinção e requinte que, ao longo dos anos, tornaram-se sua marca registrada e fizeram da cidade das luzes a responsável pelo apagar das luzes do mês da moda. 

A beleza de Milão e o domínio da ‘no-makeup-makeup’.

Segunda-feira (27) chegou ao fim a temporada Primavera-Verão 2022 da semana de moda de Milão. As coleções apresentadas foram uma representação da leveza e do glamour tão esperados para a vida pós-pandêmica. Enquanto algumas marcas apresentaram belezas mais carregadas e teatrais em contraponto aos tecidos leves e fluídos das peças, outras optaram por maquiagens quase imperceptíveis para contribuir com o frescor das coleções.

A dupla Path McGrath e Guido Palau foi responsável pela beleza do desfile da Versace e de sua collab com a Fendi, que também teve Guido Palau como hairstylist, acompanhado de Peter Philips na maquiagem. Em todas as passarelas é possível ver maquiagens teatrais, com abundância de cores nas maçãs do rosto das modelos e olhos dramáticos. Para a Fendi, essa produção foi feita com tons mais apagados, que conversam com a seriedade dos looks, enquanto na Versace a produção conta com cores vivas combinando com as peças. Já para o desfile de “Fendance”, a beleza foi caracterizada pelo glamour composto por sombras metalizadas, iluminador marcado e lábios glossy.

Na coleção apresentada por Del Core, a beleza foi responsável por aumentar o fator dramático e quase camp presente na passarela. A maquiagem de Diane Kendal consistiu em sombras coloridas e gliterizadas esfumadas para além das áreas dos olhos, trazendo o efeito de uma aquarela. Para os fios, o hairstylist Anthony Turner optou pelo queridinho das passarelas — o wet hair, para impulsionar a dramaticidade do visual.

Evitando brigar com as estampas dominantes da passarela da Etro, a maquiadora Lisa Butler optou por apresentar uma produção bem clean and fresh. Entretanto, adicionou pedras brilhantes ao rosto de algumas modelos para ainda deixar sua marca na beleza do desfile. Essa estratégia também foi utilizada por Hiromi Ueda, que assinou uma produção que consistia somente em delineados nos olhos de algumas das modelos que desfilaram para a grife Missoni, assim, o hairstylist Holli Smith direcionasse os olhos dos convidados à dramaticidade do wet hair.

No desfile de Alberta Ferretti, a beleza foi caracterizada pela simplicidade e frescor. As modelos foram apresentadas com o que aparentou ser uma pele intocada e com os fios naturais, alguns até mesmo presos. Diferente das citadas acima, a beleza assinada por Petros Petrohilos e Benjamin Muller não foi minimizada para não desfocar as peças, e sim para casar com a leveza e fluidez dos modelos desfilados.

Alberta Ferretti SS22RTW.
[Imagem: Reprodução Vogue Runway]

Nas passarelas das marcas Blumarine e Prada — queridinhas do HF Twitter (comunidade de moda no twitter) — a ‘no-makeup-makeup‘ também foi utilizada. As belezas assinadas por Inge Grognard e Anthony Turner, e Path McGrath e Guido Palau, respectivamente, consistiram em modelos com suas peles e fios naturais desfilando na passarela. Entretanto, essa leveza quase entediante é justificada através do uso de acessórios como lenços e óculos — pontos fortes de venda — que ocupam o espaço de uma maquiagem ou um hairstyle mais carregado.

Tudo o que você precisa saber sobre a MFW

A semana de moda de Milão é uma das quatro grandes semanas de moda internacionais, mas também é reconhecida por ser uma das mais internacionais entre suas colegas — uma reverência à qualidade do trabalho manual e artesanal de fazer roupas. Apenas perde para sua outra concorrente europeia (a PFW) quando o assunto é opulência e glamour. Milão é uma das cidades que não só respira cultura mas também a moda — que é um dos núcleos que fazem a cidade se mover.

Para a volta dos desfiles presenciais não era esperado nada menos que um grande evento, com desfiles e momentos memoráveis — porém lembrando que ainda não estamos ”de volta ao normal“: para entrar nos desfiles presenciais é necessário o comprovante de vacinação completa e o uso de máscaras é obrigatório.

Mesmo assim, com a ansiedade de ver os desfiles ao vivo novamente, o momento parece único. No último ano houve um grande movimento de democratização da moda, editores e convidados especiais ainda recebiam alguns presentes exclusivos como amostras de tecidos ou uma caixa inteira para explicar o conceito da coleção — sim, Loewe, isso é sobre você — porém praticamente o conteúdo que essas pessoas tão importantes viam era o mesmo que os pequenos amantes de moda que acompanhavam de casa. 

Muitos se apaixonaram ainda mais pela indústria dos sonhos, mas fica o pensamento de como isso vai se desenrolar nas próximas temporadas. As grandes marcas realmente vão esquecer do enorme público digital e deixá-los sem fotos até que um certo app consiga colocá-las, horas depois da apresentação? A prática de manter a moda como uma atividade velada a que poucos têm acesso ainda é uma estratégia (notavelmente utilizada por Daniel Lee na Bottega Veneta), mas isso tem algum lugar claro no mundo globalizado de hoje?

Imagens dos desfiles comentados da MFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway ou dos sites oficiais das marcas.

Dia 1 – 22 De Setembro 

Começamos o primeiro dia da Semana de Moda de Milão com o primeiro desfile presencial de Kim Jones. Desde sua estreia na Fendi em janeiro de 2021, existia um problema claro na visão da marca pelo diretor criativo: apesar de apresentar roupas femininas agradáveis ao olhar, o acabamento e qualidade de seu trabalho não traduzia o verdadeiro histórico da marca, com silhuetas interessantes mas que ao sair do papel pareciam tão rígidas quanto blocos de mármore italiano — já que a Fendi é uma casa tradicionalmente romana.

A inspiração e homenagem ao trabalho do famoso ilustrador dos anos 60, Antonio Lopez, não foi uma decisão meramente simbólica da história do artista com a marca, e sim um movimento calculado que trouxe um novo espectro do trabalho de Kim Jones para a coleção. 

Ele precisava de leveza, suavidade e diversão em suas roupas, e quem é melhor para isso que um artista com o trabalho ligado diretamente a formas repensadas e cores vibrantes? É uma colaboração de referências. Muito depois de seu falecimento, o trabalho de Lopez ainda tem o poder de inspirar e fazer mudanças estéticas no trabalho de um grande designer.

A jornalista Cathy Horyn fala com Jones para seu artigo sobre a coleção. O designer admite que ainda está se adaptando ao trabalho que não é mais sobre ele e sim sobre uma marca com uma enorme história por trás, e cita como o trabalho que admira de Antonio Lopez o ajudou a encontrar a harmonia necessária para execução da coleção.

É possível dividir em três partes a coleção da Fendi: a primeira sendo de momentos monocromáticos em branco, com uma ótima alfaiataria (que é uma das melhores qualidades confortáveis do trabalho de Jones) é uma mistura de cores naturais como marrons e estampas em peles, em que já conseguimos detectar o trabalho de Antonio Lopez; então chegando aos alegres e vibrantes vestidos fluidos que parecem algo diretamente do armário da Bianca Jagger nos anos de 1970, com estampas diretamente do arquivo do artista na época; a última parte é completa por looks que possuem uma renda preta com o próprio padrão do tecido sendo uma obra do artista, semelhantes a beijos de batom vermelho no papel.

Fomos do branco que é representativamente a junção de todas as cores com uma apresentação do bom trabalho de Jones em produzir alfaiataria, para uma ótimo momento colorido e vibrante com vestidos fluidos e divertidos, alguns momentos em cetim e peles que são texturas famosas dentro da Fendi, terminando a coleção com preto que é justamente a ausência de cor mas em harmonia com looks de renda delicada. Em geral, é a melhor coleção que foi vista de Kim Jones em sua trajetória para a Fendi até hoje, com momentos que fazem jus a história e trajetória da marca, uma inspiração forte e emocionante de arte dentro da moda e uma mudança bem-vinda nas silhuetas e modelagens de seus designs.

Ainda com inspirações fortes da década de 60, Vivetta Ponti entrega uma incrível apresentação de patinadores de gelo vestindo as peças para uma produção dentro do esporte, uma demonstração de energia, suavidade e movimento da vestimenta que Ponti pretendia transpassar.

Com uma enorme inspiração do filme Barbarella (1968), um ícone da onda futurista na moda da época com Jane Fonda como protagonista e Paco Rabanne fazendo parte da produção de figurino, o filme é um clássico dos amantes de moda. Apesar da referência clara à moda de 1960, Ponti teve um espaço para uma versão mais experimental, futurista e sensual do que a que Barbarella representa. Um espaço que não foi tão bem executado durante a pesquisa de referência…

A coleção de Primavera/Verão 2022 de Alberta Ferretti deixa claro um jogo entre ambiguidades que podem trabalhar juntas em uma coleção. É uma temporada definitivamente feminina, com uma sensualidade que se aproxima muito mais do imaginário feminino de sexy — ela explicou na apresentação que percebeu uma grande ansiedade de voltar a se vestir para sair novamente. 

As roupas variam entre modelos mais casuais e boêmios com texturas, macramê e crochê em tons terrosos e neutros como duas chaves principais desta parte da coleção. Depois, passamos por vestidos em tons de joias vibrantes, com bordados em pedrarias e técnicas diferentes para a marca. Uma característica mantida por toda a coleção que trouxe a harmonia entre esses dois estilos foi que todas as escolhas de modelagens e tecidos são leves e fluídos, perfeitos para o verão europeu.

Segundo as entrevistas de Alessandro Dell’Acqua sobre sua coleção na diretoria criativa da NO.21, o designer deixa claro que tem uma paixão ardente por positividade corporal e que sempre acreditou no poder da expressiva e sensualidade na quase nudez — mas ainda sem glamourizar ou ostentar o corpo em si. Ele disse no backstage para a jornalista Tiziana Cardini: “Não gosto do que é abertamente provocativo”.

Realmente, Dell’Acqua apresentou uma coleção com muita alusão a pele à mostra, desde os tons utilizados nas roupas até a forma que foram desenhadas (alguns looks com adoção de tecidos quase transparentes e com recortes marcantes). 

É indiscutivelmente complicado falar de uma coleção ligada à positividade de corpos sem diversidade dos mesmos. Apesar de Dell’Acqua ter feito um bom trabalho nessa versão de sensualidade despretensiosa, essa falta de diversidade em conjunto ao culto ao corpo deixa um amargor na boca. Os designs mais simples que fecham a coleção são os melhores executados, e as vestimentas mais trabalhadas ficam perdidas no meio da coleção.

A nova coleção de Jil Sander assinada pelos diretores criativos Lucie e Luke Meier é um desenvolvimento aberto da história e trajetória da marca em uma nova direção. 

Uma reorganização do próprio conceito minimalista, com decisões expressivas durante a coleção — como cores mais vibrantes, adoção pelo estilo oversized como referência de silhueta, crochês e até algumas estampas florais mais fluídas entre os designs. Em geral, pode ser denominada como um grande sinônimo de classe, elegância e talvez o mais importante: inovação dentro da estética minimalista.

Fausto Puglisi apostou — mais uma vez — na sensualidade e no mundo exótico em sua coleção de Primavera/Verão 2022. Suas novas criações contam com peças portando estampas de animais (onças, tigres e zebras) e cores que remetem ao mundo selvagem. Ítens em cores vívidas, luminosas, com brilho e silhuetas bem marcadas também marcam presença — dão um toque de exuberância à sensualidade que está sempre presente na história e no imaginário da Cavalli. 

É uma coleção que olha claramente para o período de ouro da marca nos anos 2000. Com silhuetas familiares de recortes na barriga e costas, com bordados, strass e suas formas provocantes. A Cavalli de Puglisi parece pronta para reviver grandes momentos sensuais da casa.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Fendi, Vivetta, Alberta Ferrareti, No.21, Jil Sander, Roberto Cavalli, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 2 – 23 de Setembro

Começamos o segundo dia com uma coleção concisa e confortável da Max Mara, uma visão contemporânea da consumidora da casa. Aos passos que voltamos lentamente ao “novo normal”, marcas se posicionam ou para a opulente faceta de anseio festeiro; ou como o diretor criativo Ian Griffiths da Max Mara estabeleceu, “uma ligação a uma nova forma de vestuário de trabalho”.

Com elementos da alfaiataria clássica e precisa que a marca é reconhecida mas com silhuetas retas que se preocupam com o conforto e uma paleta de tons neutros, relembra uma sofisticada musa da marca que ainda gosta de se sentir confortável e jovial.

Veronica Etro trás sua visão de Primavera/Verão farta em estampas, cores e peças de crochê. Em um cenário hippie, as roupas trazem elementos que remetem ao movimento do início dos anos de 1970, mas claro, com toques e releituras modernas. A diretora criativa conta para o jornalista Luke Leitch que encontrou um período de felicidade e reencontro espiritual através das práticas de yoga e meditação durante a quarentena que também encontra com o movimento hippie da década de setenta.

Como esperado de Etro, os adornos e styling da coleção são, como um todo, o perfeito balanço entre uma estética despojada e a marca de alta moda com clientes boêmios que ainda precisam do meio termo entre o frugal e o sofisticado.

A coleção da Emporio Armani marca o aniversário de 40 anos da casa. Em um desfile que junta a moda feminina e masculina, Giorgio Armani apresentou um trabalho extremamente familiar: looks de alfaiataria clássica em cores neutras e silhuetas sóbrias, com uma junção de uma estética Italiana estilosa mas datado como antiga, looks que podem ser facilmente encontrados em suas coleções mais velhas no Armani Silos. Em 122 looks, a casa mantém a tradição de apresentar mais do mesmo com inúmeras referências a criações anteriores do designer.

Partindo para uma coleção que se destaca como diferente de todas as outras do dia, Blumarine de Nicola Brognano segue com suas referências e inspirações dos anos 2000 e transforma a sua musa em algo ainda mais sensual, com modelos com glitter pelos corpos, transparências e tops de borboletas. 

É fácil se apaixonar pela utopia Blumarine dos anos 2000 – o brilho e sua atmosfera rosa-Barbie transportam a maioria da geração Z à uma época feliz, sem preocupações (e comparando com o mundo sociopolítico, atual às vezes roupas podem ser o escapismo que precisamos).

Porém, o conceito dessa estética específica parece estar cada vez mais perdendo força nas mídias sociais – onde a tendência teve seu renascimento. Fica a pergunta: quantas vezes o mesmo conceito e modelagens conseguem ser reciclados por Brognano? Uma luz no final do túnel é que, com uma leve reorganização, é possível produzir a estética de maneiras e com referências diferentes.

Na MM6 Maison Margiela o clima foi de celebração às pequenas coisas: André Breton, Leonora Carrington e Claude Cahun buscaram transmitir a essência de peças simples mas com grande importância, como um aperitivo dividido entre amigos em um bar. A  comemoração vem para o retorno da vida gastronômica em Milão, a possibilidade de visitar bares e restaurantes depois de tanto tempo em pandemia. Uma clara referência a filmes de terror também, com balão na mão e roupa xadrez – quase uma reimaginação do personagem Pennywise, do clássico de terror ‘It’ de Stephen King.

Falando em celebrações em uma das inclinações da moda pós-pandemia, a GCDS traz a sensualidade e irreverência para a passarela. Com sapatos super plataformas, peças em crochê e tricô, e inspiração na praia e no mar, muitos dos elementos do desfile são os já conhecidos da temporada, mas com toques de ousadia e sensualidade. De bolsas com designs super futuristas até bucket hats de crochê, a coleção reafirma o presente e o que o futuro pode ser. Tudo isso, claro, sem perder a aura sexy da marca.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Max Mara, Etro, Emporio Armani, Blumarine, Margiela, GCDS, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 3 – 24 de Setembro

Walter Chiapponi parece ter encontrado uma visão clara para sua Tod’s. Fazendo menção a trajetória da marca como uma grande potência em couro e alfaiataria, ele mistura os dois para uma coleção bem trabalhada. Uma temporada mais ligada ao comercial e ser atraente para o consumidor fiel a qualidade da marca, e ao mesmo tempo em trazer novos clientes que querem diferentes silhuetas e texturas.

O designer também tirou uma grande inspiração da moda na década de 1960, principalmente do movimento Mod’s, silhuetas retas, vestidos minis são exatamente a mistura entre o sportswear e sofisticação com uma inspiração clara do filme O Vale das Bonecas de 1967, ele admite que tudo na marca é ligado diretamente ao sportswear mas em conjunto com uma decoração técnica que trás outro espectro da vestimenta.

O desfile da Missoni de Primavera/Verão marca a primeira coleção do novo diretor criativo – Alberto Caliri – ele apresentou uma sensualidade entre características claras da marca, como suas estampas de chevron em tricô, saídas quase de praia e muito glitter entre as tramas de tecido.

É uma coleção segura e apropriada, principalmente que remete aquele otimismo pós-pandêmico com ansiedade de voltar a grandes festas, a coleção é uma homenagem à vida noturna com um toque de adoração e apreciação pela marca.

Uma coisa é clara sobre as coleções da Sunnei – Simone Rizzo e Loris Messina gostam de um grande gesto – a coleção teve a atmosfera de uma enorme armazém, os dois brincam com diferentes formas de apresentação de uma coleção, foram conhecidos pelas modelos CGI e outros tipos de realidades virtuais para seus shows digitais.

Em sua apresentação física não passa muito longe, um show de luzes e sons e os convidados de pé, a coleção apresentou composições, texturas e brincadeiras com volumes e proporções diferentes que parece ser uma das maiores características da marca.

Eles trouxeram uma nova ornamentação dentro do minimalismo contemporâneo da Sunnei fez a diferença na coleção com franjas e bordados, que deram um movimento necessário a modelagens quase estáticas e duras. Um dos exemplos de como um bom adorno e styling podem mudar o sentimento da coleção.

Entramos em mais um capítulo entre a história colaboração entre Miuccia Prada e Raf Simons, a coleção teve uma dupla apresentação em Milão e Shanghai. A ideia de apresentação vem em conjunto com o otimismo pós-pandêmico que tanto é visível nessa temporada por inteiro, aqui os dois designers se juntam para explorar todas as possibilidades possíveis que o novo mundo aguarda – novos talentos, ideias, valores – é uma experiência global, assim como nosso mundo ficará cada vez mais globalizado através do tempo.

Entre as roupas polidas e bem ajustadas, uma das características mais intrigantes da colaboração é como conseguimos ver momentos importantes da trajetória criativa de ambos designer em um mesmo look, referências claras do trabalho de Miuccia Prada nos anos 90 – principalmente da coleção “Ugly chic” de Spring Summer 1996 em conjunto a jaquetas gastas de motocicleta que lembram uma grande coleção de Raf Simons de Fall 2001 a “Riot Riot Riot”.

Ainda é Prada, tudo isso é unido em um equilíbrio clássico entre roupas sofisticadas e femininas, com uma sensualidade velada não abertamente exposta, Miuccia escreveu nas notas do desfile: “Nós pensamos em palavras como elegante – mas isso parece tão antiquado.  Na verdade, trata-se de uma linguagem de sedução que sempre leva de volta ao corpo.  Usando essas ideias, essas referências a peças históricas, a coleção é uma investigação do que elas significam hoje.”

Em geral, mais uma boa coleção de ambos e ver e acompanhar a parceria dos dois têm sido uma experiência única de entendimento e concordância entre dois grandes designers contemporâneos.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Tods, Missoni, Prada, Sunnei, Versace, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 4 – 25 de Setembro

Massimo Giorgetti presta homenagem à cidade de Milão em sua coleção de Primavera/Verão, não é a primeira vez que é possível tirar inspiração da cidade nas coleções da marca. Mas nessa é um pouco mais específica ele olha para o espectro da metrópole italiana na década de 1980, um tempo energizado por criatividade e possibilidade de renovação nas comunidades culturais e artísticas.

É uma versão bem editada da MSGM com peças animadas, cores vibrantes de verão e entrando também a previsão do sexy e da pele à mostra que foi vista durante toda a temporada.

Alicia Keys abriu o show virtual da Moncler. Mostrando a criatividade de não um, mas onze estilistas parceiros da marca como JW Anderson e Veronica Leoni. O show é transicional entre New York, Seoul, Tokyo e Shanghai. Com displays imaginativos e interagem com formas de arte diferentes – dança, filme, música, moda – muitos com oportunidade interativa.

Desde a saída do diretor criativo Paul Andrew em Janeiro deste ano, a Salvatore Ferragamo se encontrou em uma mudança de cadeiras durante esse meio tempo.  A transição do novo CEO da marca Marco Gobbetti é esperada para começar durante esse mês, e o designer Guillaume Meilland, que tem sido o designer de Menswear da marca e se aventurou na temporada principal.

É difícil comparar com o último desfile de Andrew, com referências da história da marca como a plataforma arco-íris produzida para Judy Garland com uma apresentação digna de um filme Sci-Fi. Mas deu um ar de juventude necessário para a marca, a estreia de Meilland foi exatamente ao contrário, olha para uma tradição sofisticada e antiquada de pensar da marca com silhuetas quadradas, esportivas e cores neutras.

Essa coleção foi um pouco mais emocional para a Giorgio Armani, foi o aniversário de 40 anos da marca e voltamos às suas origens em um desfile intimista com trilha sonora marítima vimos o azzurro (azul-claro) da marca e  modelos sorrindo como se estivessem na praia. De uma progressão de peças brancas e marinhas à acinzentadas, azuladas e cada vez mais leves.

E vestidos de festas em tule e cristais azuis, rosas e roxos pastéis quase etéreos, com uma execução digna da celebração da marca, com silhuetas extremamente familiares, de coletes com saias de tule, até blazers com lenços nos pescoços tudo gritava Giorgio Armani no coração de seu trabalho.

Apesar de existirem tendências que já são possíveis de compreender desta temporada como a sensualidade, o culto ao corpo e o anseio pela abertura da vida novamente, uma também é bem clara: muitas marcas tiraram um período introspectivo para olharem suas trajetórias e histórias e referenciarem isso de alguma forma em suas coleções. 

Bem, aconteceu exatamente ao contrário na Philosophy di Lorenzo Serafini: em uma completa reviravolta da sua coleção de Outono/Inverno de 2021 (que tinha como centro o estilo preppy em uma homenagem a alunos escolares que perderam parte de sua experiência acadêmica), sua Primavera/Verão decide olhar para uma linha quase de lingeries. O designer explicou nas notas do desfile que era sobre o poder do movimento, querer mostrar mais pele e um renascimento da vida. É meio difícil se concentrar nisso quando estamos olhando para designs que são uma mistura entre toureiros espanhóis, o grunge de Los Angeles e florais diretamente saídos da Urban Outfitters.

Foi uma coleção confusa, muito menos refinada e sofisticada dentro do tema de escolha do que sua predecessora. Marcas estão focando em referenciar a própria história como um toque poderoso de reafirmar sua identidade visual. O que leva as perguntas: quem é a mulher Philosophy? Ela mudará com a marca a cada temporada? 

Em sua apresentação da coleção de Primavera/Verão 2022, Francesco Risso deu um verdadeiro espetáculo: nos dias que antecipavam a coleção da Marni, o designer organizou mais de 400 provas de roupas. Não recebemos uma coleção de 400 peças, mas sim uma prova que voltar para a prática dos desfiles presenciais é um privilégio que deve ser aproveitado ao máximo – todos os convidados vestiram roupas feitas pela Marni.

Além disso, foi o primeiro designer da temporada a falar sobre as injustiças sociopolíticas que tanto foram conversadas nos protestos do Black Lives Matter em maio de 2020. A indústria da moda disse querer mudar e virar uma aliada ativa do movimento, mas é a primeira vez que falamos disso no mês da moda – na penúltima semana. 

Risso teve um time incrível de apoiadores para ajudá-lo com o conceito e execução de toda a coleção: “Dev Hynes foi o responsável pela música, o poeta Mykki Blanco fez uma performance de palavra falada, e a cantora Zsela foi acompanhada por um coro celestial.  Nas notas do programa, Babak Radboy, que é conhecido por seu trabalho com Telfar Clemens, compartilhou a direção criativa.  O elenco tinha a diversidade racial, a inclusão corporal e a fluidez de gênero que se tornaram a norma na Nova York de Telfar.  “Finalmente, Milan acordou”, disse um colega no caminho para a porta.”. São roupas utilitárias, versáteis e esteticamente alinhadas com a marca que carregam um significado simbólico. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: MSGM, Moncler, Salvatorre Ferragamo, Philosophy di Lorenzo Serafini, Giorgio Armani, Marni, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 5 – 25 de Setembro

Começamos o último dia com uma apresentação digital em meio a um armazém abandonado e pichado, com Dean e Dan Caten como anfitriões da nova era grunge chic da Dsquared2 que eles apresentaram em sua coleção de Primavera/Verão 2022.

A atmosfera ajudou a dar o tom principal da coleção, sendo citada pelos designers como sua versão de grunge vindo diretamente de Milão. Estéticas opostas se atraindo pela construção dos looks em si, desde jeans desbotados e peças que parecem quase inacabadas até momentos claros de noites opulentes são ambiguidades apresentadas durante toda a temporada da marca.

Segundo o relatório de vendas da LVMH do primeiro semestre de 2021, parece que a Emilio Pucci conquistou os corações das gerações mais novas… Com suas estampas psicodélicas  e vibrantes em seda pura até seus looks minimalistas e sensuais como apresentado nesta última coleção pela nova diretora criativa Camille Miceli, a marca entende a demanda de uma aproximação dos designs com uma estética mais da vida noturna jovem, harmonizando o ideal moderno com a história e características claras de cada.

Mas a cereja de toda a semana foi o evento que prosseguiu com o encerramento, um dos segredos mais bem guardados de Milão que começou a virar um rumor no meio do evento: a colaboração de designers entre Versace e Fendi. Donatella Versace, como diretora criativa da marca, pegou a tarefa de reinterpretar elementos da Fendi; e Kim Jones, o diretor criativo, da Fendi assumiu o trabalho de dar sua reinterpretação a Versace.

Um evento recheado de celebridades (nos assentos e na passarela), Fendace realmente fechou Milão com chave de ouro com uma verdadeira mistura de logos. Porém, essa não é a primeira vez que vemos a colaboração de dois grandes designers de marcas diferentes juntos: tivemos no meio do ano a “Gucci Area” caracterizada por um hacking da Balenciaga de Demna Gvasalia.

Em Gucci, conseguimos ver uma harmonia na história e logos das duas casas. Foi uma experiência para trazer um público adorador da logomania? Sim, mas foi possível ver claramente o que era referência à Gucci e o que era Balenciaga. O que não aconteceu em Fendace, qual parecia apenas que o brasão da Fendi havia sido adicionado a alguns designs da Versace. Os acessórios, que são o maior caminho de consumo de luxo, foram muito melhor pensados.

Na pós-modernidade, com tantos meios de comunicação e tanta informação sendo bombardeada a cada minuto, não é muito longe se fazer o questionamento do porquê essas colaborações aconteceram; se estamos todos virando reféns de momentos virais e qual a verdadeira consequência disso refletida na qualidade do trabalho.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Emilio Pucci, DSQUARED 2 e Fendace , retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Tudo o que você precisa saber sobre a LFW

Como parte do Big Four — as quatro grandes fashion weeks internacionais — Londres têm uma grande importância para o mercado internacional, mas é principalmente reconhecida por suas inovações criativas e designers fora da curva.

The British Fashion Council, uma organização sem fins lucrativos com a intenção de impulsionar a moda britânica, foi criado em 1983 e a London Fashion Week oficialmente abriu suas portas em 1984.

A cidade é o berço das revoluções contracultura: Mary Quant levantou as bainhas das saias em seus vestidos coloridos e retos para vestir os Mods em 1960; já na década de 1970 a BIBA se tornou um ícone entre lojas de departamento do mundo inteiro; no primeiro ano de LFW, em 1984, um jovem e recém-formado John Galliano faz seu desfile de inauguração; Alexander McQueen faz sua estreia em 1992 e segue em ser um dos estilistas mais importantes na história da moda moderna.

O impacto cultural que a moda da cidade tem é indiscutível. Existem duas Londres dependendo do seu ponto de vista: a Londres fechada e com títulos, que leva extremamente a sério seu legado em uma alfaiataria precisa, com cortes e silhuetas praticados a perfeição; e a Londres experimental e artística, a qual abraça os seus recém formados alunos de moda e impulsiona as tentativas e ideias diferentes. Apesar de grandes perdas devido a pandemia na cidade, um dos maiores valores do evento são justamente os novos jovens criativos, que fizeram parte desta temporada.

A semana começa com um dia cheio de comemorações — afinal, estamos no tão esperado pós-pandemia no hemisfério norte — como a festa de Onitsuka Tiger com a revista Dazed e o evento de graduação da Condé Nast College. A maioria dos eventos foi privado para convidados e por isso começamos a cobertura da Frenezi, a qual você também pode acompanhar em tempo real em nosso Instagram, com o segundo dia onde tiveram início de fato a apresentação de coleções.

Imagens dos desfiles comentados da LFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

DIA 2 – 17 De Setembro

Começamos o primeiro dia de coleções com uma emocionante apresentação em Halpern, onde o designer Michael Halpern relembra momentos emocionantes de sua infância quando conseguia observar de perto os ensaios do Centro de Artes de sua cidade. Ele conta para o jornalista Anders Christian Madsen uma memória de sua mãe vendo ele entrar por baixo dos tutus ainda pequeno para entender como eram feitos.

A apresentação da coleção foi feita por meio de um emocionante e belo número de ballet filmado no Royal Opera House com bailarinos-estrelas da companhia como Fumi Kaneko, Sumina Sasaki, Sae Maeda e Leticia Dias, para citar alguns nomes. Uma rara colaboração entre o ballet e a moda elaborada da melhor forma possível, apesar de algumas silhuetas opulentas que é costume por parte da Halpern, como o vestido globo e o macacão de paetês que fizeram sucesso nas últimas temporadas. 

Talvez o verdadeiro triunfo desta coleção sejam as roupas que parecem ser feitas para serem apreciadas em movimento, de vestidos em seda com cores e padronagens pensadas para a apresentação, franjas bem posicionadas, fendas que acompanham os corpos das dançarinas, saias rodadas e tecidos que parecem quase flutuantes… É uma coleção que definitivamente desafiou o ateliê da marca, a confecção da vestimenta em si foi muito bem executada.

Quando se fala do legado de Londres como uma das semanas que apoia jovens criativos, experimentais e irreverentes, o nome que vem à mente é Matty Bovan. Essa coleção leva o título de Hypercraft e começou com arquivos de imagens da família do designer nos anos de 1970. De crochês da vovó a papel de parede retrô, até uma inspiração clara do cenário usado no filme O iluminado (1980). 

Entre silhuetas desconexas e tecidos diferentes, até a forma que a coleção é filmada e fotografada realmente faz uma imersão total do trabalho de Bovan, e talvez por isso ele ainda prefira os meios digitais para apresentar suas coleções — uma aproximação maior entre o público e o conceito da coleção.

Falar de LFW sem Vivienne Westwood é quase imoral. Durante os últimos anos houve uma redescoberta da trajetória de Westwood pelo público jovem, principalmente pelos amantes de peças vintage. Durante suas últimas coleções, ela também percebeu essa nova preferência nascente do seu próprio público e tornou sua linha principal uma forma de reviver essas coleções, se ajustando a iniciativas sustentáveis para sua marca.

Nesta coleção há, principalmente, referência a sua temporada histórica de Primavera/Verão de 1998 Tied to the Mast (Amarrados ao Mastro, em português), uma coleção quase de fantasia que olha para a história dos piratas ingleses no século XIX e todos os contos e conceitos entre essa estética marinha punk, a qual foi traduzida para um consumidor contemporâneo com modelagens famosas principalmente entre a nova geração: plataformas, jeans largos, corsets repensados, os famosos colares de pérolas e bolsas mini.

Nensi Dojaka é uma nova e emergente designer que na temporada passada estava nas plataformas da LFW em intermediação com o coletivo do Fashion East. Com a sua iminente vitória no prêmio da LVMH — um dos mais ansiados por novos designers na indústria hoje — ela escolheu uma coleção segura, e mostrou exatamente o ponto forte de seu trabalho, afinal é sua primeira semana do evento com seu nome, de fato.

O look de Dojaka já conquistou celebridades e amantes durante a última temporada, com sua silhueta sexy, transparências e recortes que modelam o corpo em formas e sentidos diferentes do comum. Porém, após o lançamento de sua coleção, muitos críticos e comentaristas de moda em geral se perguntaram se as roupas da designer seriam bem traduzidas para pessoas com corpos diferentes do padrão de modelos — essa é uma dúvida que entra na questão do próprio potencial de comercialização da nova marca.

David Koma teve uma ascensão grande durante o último ano também, vestiu celebridades como Beyoncé, Jennifer Lopez, Cardi B e em eventos mais recentes Madison Beer. Suas roupas party-friendly com fendas sexys, aplicações em glitter e proporções mini conquistaram uma boa base de clientes, fazendo seu negócio crescer exponencialmente.

Mas essa coleção é no mínimo uma confusão dentro de estéticas e modelagens trabalhadas pela marca anteriormente. Koma disse em sua apresentação que era como casar a moda praia e o Old Hollywood glamour e, sinceramente, seria um conceito mais claro e conciso entregar glamour Hollywoodiano de uma forma que se aproximasse da sua estética própria dentro do conceito por inteiro.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Halpern, Matty Bovan, Vivienne Westwood, Nensi Dojaka e David Koma retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 3 – 18 De Setembro

O caso de Sarah Everard foi um momento decisivo para discussões de feminicídio e direitos da mulher no Reino Unido. No mesmo mês do assassinato, num evento na House Of Commons, o ministro britânico do trabalho Jess Phillips leu uma lista surpreendentemente longa de casos ocorridos no último ano e o nome de Sarah apareceu como um símbolo de luta.

A designer Yuhan Wang sentiu uma forte ligação com os movimentos da causa sociopolítica, que a inspiraram na criação de sua coleção de Primavera/Verão a tomar o termo “feminilidade” como sinônimo de força misturando vestidos que são o espelho do feminino ideal em seus babados, tecidos fluidos e estampas florais com cores pastéis com o peso dos acessórios de couro, passados por cima das peças parecendo um boldrié. A coleção da designer é uma carta aberta para uma discussão sobre a força feminina.

Palmer Harding também fez sua aparição na data, apresentou sua temporada de Primavera/Verão por meio de uma sessão de fotos disponibilizadas online. É uma coleção segura e atraente para seus clientes, o que não é possível criticar depois de um ano conturbado para pequenas marcas. 

A qualidade de sua alfaiataria nunca fica velha, a valorização do corpo por meio de modelagens precisas. É o que ele deixa claro para quem está desenhando suas roupas, apesar de que as vestimentas em tecido metálico são uma boa nova adição para uma coleção clássica e minimalista.

Charlotte Knowles e Alexander Arsenault agora assinam juntos a direção criativa da KNWLS, e nesta coleção decidem explorar o termo “adrenalina” com a ansiedade e felicidade dos desfiles presenciais estarem voltando para a cidade de Londres. O desfile foi descrito como uma experiência amplificada ao vivo, com luzes, som alto e um parque de carros perto da estação de metrô Oxford Circus como uma atmosfera industrial e longa para o desfile.

Grandes marcas registradas da casa — como bustiers que marcam a cintura, calças de tecido quase transparente com recortes e a mistura de roupas de baixo com roupas de sair — seguem como tradições, mas o verdadeiro triunfo acontece na harmonia de diferentes referências e inspirações dentro de uma coleção.

Molly Goddard passou por uma grande mudança desde sua última coleção, agora é mãe e isso é claramente uma nova inspiração em seu trabalho criativo. Sempre foi possível perceber uma apreciação por símbolos denominadamente infantis no trabalho de Goddard (seu vestido assinatura é uma versão de um que tinha quando era pequena). Agora é possível ver referências principalmente a roupas de bebês, em tons brancos e rosas pálidos, em conjunto com um apelo mais utilitário e versátil que não é possível enxergar nas últimas coleções.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Yuhan Wang, Palmer Harding, KNWLS, Molly Goddard retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 4 – 19 de Setembro

Rejina Pyo é também do time de novas mães da London Fashion Week, mas ao contrário de Goddard, a designer se encontra confortável em silhuetas mais sensuais e descoladas. Pyo citou para a jornalista Sarah Harris: Não acho que as mulheres precisam fingir que são fisicamente tão fortes quanto os homens;  tudo bem ser gentil às vezes e aceitar isso. Eu não sei… talvez seja porque eu vou ter uma menina.”

Algo memorável do trabalho de Pyo é como ela compreende tendências fortes de hoje, mas seu trabalho não depende delas. Consegue captar a essência mas ainda assim entende como a mesma pode morrer a qualquer minuto. É quase como uma balança, difícil de utilizar: um pouco é bom para aproveitar o momento, mas não exageradamente para não ser dada como uma coleção datada. Normalmente o trabalho da designer é reconhecido por tecidos, estruturas e silhuetas mais rígidas, nessa coleção vemos uma suavidade — muito bem-vinda.

Erdem é uma das marcas londrinas que reverencia seu legado e trajetória em qualidade dos processos manuais de vestimenta e alfaiataria clássica por associações claras de tradições da casa, como a estamparia floral e maxi vestidos. A coleção também pontua o aniversário de 15 anos da casa. Erdem Moralioglu agora olha para a história da marca para mais do que os bordados de flores: é uma mulher que vive e trabalha além de seu tempo presente, misturando a história do vestuário inglês para ressignificá-lo.

Richard Malone entrega uma incrível e criativa coleção nesta temporada, com diferentes formas, silhuetas e trabalhos com tecidos bordados e plissados por toda a coleção. Deixa claro o esforço em conjunto do trabalho manual de seu time com o uso de diferentes materiais, como restos de couro providenciados em colaboração com a Mulberry. 

O desfile foi uma verdadeira obra de arte, em conjunto com sua atmosfera geral, apresentado no museu Victoria e Albert — reconhecido pelo seu instituto de figurinos — as formas circulares em formas de rosas no meio das roupas é homenagem a sua avó, que fazia essa técnica com tecidos para comemorar as vitórias da Associação da Atlética Gaélica.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Rejina Pyo, Erdem, Richard Malone, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 5 – 20 de Setembro

Simone Rocha é um dos nomes mais esperados da LFW atualmente. Ela conquistou um público fiel com seus vestidos volumosos de tule entre jaquetas de alfaiataria reconstruídas. Na última temporada, foi possível ver um pouco do aspecto romântico e a suavidade feminina de Rocha se mesclando com o peso de peças de couro e acessórios em tons fortes. Esse inteligente balanço se mantém firme durante a coleção, somado a outro novo estímulo: o início de sua maternidade.

Não é de hoje que designers usam movimentos em suas vidas como inspiração. Num trabalho majoritariamente criativo, as referências e inspirações pessoais de cada artista sempre aparecem. Vestidos de tule, jaquetas de couro, bolsas de pérola, sutiãs de maternidade bordados em cristais e pendentes surgem para homenagear tarefas diárias de novas mães.

É uma homenagem à sua nova perspectiva, o olhar por outros olhos enquanto ainda entende a essência principal de seus designs anteriores que fizeram o nome da marca crescer e se tornar indispensável para a semana de moda londrina.

Supriya Lele é a última da semana que nos promete uma releitura do que é sexy, com tecidos quase transparentes em conjunto com um tipo de trama em rede e strass por cima de maiôs e tops.

E falando em previsões que nasceram nessa semana, Roksanda — assim como Richard Malone — se aventura em diferentes formas e tecidos para criar roupas que se assemelham a verdadeiras obras de arte. Similar a Halpern, suas roupas foram apresentadas numa imersão entre vestimenta e movimento, utiliza formas criativas e cores vibrantes para amplificar a experiência como um todo.

O Fashion East sempre apresenta incríveis novos designers para a LFW. Nensi Dojaka foi participante do projeto até uma temporada atrás, antes de ganhar o prêmio LVMH. Outro grande designer independente da plataforma é Maximilian, com criações que já foram utilizadas por personalidades importantes na indústria como a modelo Naomi Campbell. 

Ele realmente se inspirou em aproveitar o verão da melhor forma possível, com roupas que lembram a água e o oceano — muitos tecidos molhados cintilantes e macacões que se assemelham a maiôs. Maximiliam também entende a necessidade comercial, mistura técnicas de alfaiataria clássica em vestidos com recortes precisos, tecidos semi-transparentes e blazers bem cortados como terceira peça em vários looks. Deixa claro que não há limitações para os seus talentos e que consegue transitar entre uma vasta categoria de consumidores.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Simone Rocha, Supriya Lele, Roksanda, Fashion east, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 6 – 21 de Setembro

Quando os desfiles digitais começaram durante o ano passado, muitas questões foram levantadas sobre as apresentações digitais por meio de fotos. Lookbooks parados em fundos brancos se tornaram um técnica batida e com ajuda da estética da marca em conjunto com um bom time criativo, há inúmeras versões de diferentes fotografias de coleções hoje.

No último dia do evento, Ashlyn foi uma das marcas a apresentar uma coleção que junta em perfeito balanço as formas geométricas e o estudo da costura contemporânea e moderna, pensada para uma mulher minimalista que também gosta de tomar riscos, tudo fotografado de uma forma criativa e inteligente para apresentar. 

Richard Quinn apresentou há pouco o que foi possivelmente o melhor fashion film que a indústria viu em muito tempo, com um ritmo musical, figuras de látex e uma construção de atmosfera sem precedentes. Essa coleção parece a irmã conservadora comparada à apresentada no filme de trinta minutos.

O designer se emocionou ao voltar a apresentar seus desfiles presencialmente na cidade de Londres. Não só seu otimismo com o futuro é notável entre a coleção, mas também um esforço de voltar às raízes de sua marca. Das estampas florais às silhuetas quase que de estátuas góticas, a coleção emana o nome de Richard Quinn.

Não tivemos a rigidez de suas segundas peles de látex preto ou muitas menções a seu estilo beirando o dominatrix, que deram lugar a looks cobertos da cabeça aos pés em enormes vestidos florais e sobretudos de spikes e couro. Essa coleção é a sua volta ao formato presencial de uma maneira quase reconfortante.

Por mais que não se pense na palavra conforto para explicar os designs de Quinn, há algo de aconchegante em ver um designer em sua cidade de origem depois de tempos conturbados, com estilos que são claramente assinaturas breves de sua marca e trajetória.

Desde os bordados maximalistas as silhuetas que não fazem muito sentido para um olho despreparado é, possível fazer uma observação sobre a temporada na capital britânica como um todo: todos estão emocionados e animados, com teorias transbordando de otimismo por estarem de volta aos desfiles presenciais, quase um grito de “não voltamos os mesmos dessa experiência traumática, mas estamos aqui e ainda fazendo roupas incríveis”.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Richard Quinn, Ashlyn, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

A nova Blumarine é uma carta de amor para os anos 2000

Ontem (23), Blumarine apresentou sua coleção de primavera/verão 2022 e definitivamente não é destinada aos amantes do minimalismo clássico.

Mais uma vez, Nicola Brognano busca inspiração na moda dos anos 2000 e faz referência a ícones da moda da época: o vestido jeans usado por Britney Spears, o estilo de Paris Hilton, Victoria Beckham, Beyoncé, Fergie e outras grandes estrelas da década.

O maximalismo, drama, exagero e sensualidade são apenas alguns dos adjetivos cabíveis para a fantasia colorida Blumarine.

Blumarine X moda dos anos 2000.

Desde bandanas amarradas na cabeça até modelos cobertas de glitter, sapatos de bicos extra finos e peças carregadas de transparência; Brognano traz elementos chaves que fizeram o estilo Y2K. Desde sua estreia na marca, o designer se preocupa com a relação com as novas gerações, em representar não só o ontem como também o agora.

Desde o início da pandemia, o estilo foi adotado por jovens ao redor do mundo e popularizado por meio de redes sociais — principalmente pelo TikTok. A nostalgia pelos anos de infância e a volta de tendências de décadas passadas não é novidade, na década de 2010, com as crianças da década de 1990 chegando à idade adulta, pôde-se observar a volta de muitos elementos da década — desde séries e filmes até elementos no vestuário.

O padrão cíclico da moda é esperado e previsto, no entanto, as tendências devem se adaptar tendo em mente o contexto atual e o público do momento. Nicola Brognano e sua principal colaboradora, a stylist Lotta Volkova — fazem isso com maestria, fato que se comprova com a grande popularidade de suas coleções nas redes sociais. 

Para esta coleção, o designer apostou em peças em jeans, cintura baixa, vestidos com transparência e borboletas. Broganano reuniu uma paleta colorida e vibrante que abre portas para o mundo pós-pandemia e as esperanças de um futuro melhor e mais vivo. Blumarine representa a mulher jovial e ousada, o mini é extremamente mini e o maxi ainda é sexy por decotes ou transparência.

E, de acordo com as palavras de Lotta Volkova para Vogue, a nova Blumarine é sobre “Fadas militares. Garotas borboletas sensuais. Frívolo e divertido mood Y2K quando as redes sociais não estavam no horizonte. Rainhas de patchwork em jeans. Garotas trippy, psicodélicas e neons. Estampas jeans no tapete vermelho, bandanas no tapete vermelho. Sereias de cintura baixa.”

No momento, Brognano se preocupa em definir a identidade da marca, reutiliza algumas das cores da coleção Resort e silhuetas similares. No momento, as peças Blumarine sob o comando do estilista são facilmente identificáveis. Prova que o seu objetivo está sendo alcançado.

A borboleta — em cintos acessórios ou estampas — segue como mascote da marca, ícone prometido e protegido pelo diretor criativo da marca.

Confira os looks favoritos:

Assista o desfile (começa em 15:20):

A beleza londrina e sua obsessão por wet hair e lábios pintados.

A semana de moda de Londres de Primavera-Verão 2022 se encerrou nesta terça-feira (21), e trouxe ao público um perfeito equilíbrio entre as peças de vestuário e as técnicas beleza. Conhecida por suas alfaiatarias bem estruturadas e um acabamento impecável, a LFW sempre teve como principal característica a elegância básica de uma businesswoman. Entretanto, seguindo o modelo internacional de uma representação do que espera-se de um momento pós-pandemia, essa temporada veio repleta de looks mais ousados — muitos expressando essa essência através da beleza.

Assim como ocorreu em Nova York, muitos dos artistas que assinaram a beleza das coleções apresentadas na última semana trouxeram inspiração de tendências atuais na cultura pop. Com a volta do rock ao mainstream da música, muitos maquiadores apresentaram maquiagens com olhos carregados em cores escuras. Rebecca Wordingham, que assina a beleza do desfile de Eftychia, junto com Shunsuke Meguro — responsável pelo hairstyling — traz um contraste impressionante com a última temporada da marca, que foi caracterizada pela simplicidade de beleza. A dupla trouxe o elemento Rock ‘n Roll com uma enorme força, apresentando modelos com olhos inteiramente pintados de preto, wet hair e até mesmo cabelos extremamente desfiados.

Eftychia SS 22 RTW. Beleza por: Rebecca Wordingham e Shunsuke Meguro.
[Imagem: Beth Morrison/ Dazed]

As modelos do desfile de Supriya Lele também cruzaram a passarela com maquiagens ousadas, e a tendência do preto se repetiu. Lábios pintados de um vermelho quase-preto eram visíveis em diversas modelos, enquanto algumas continham a cor esfumada nos olhos. A beleza composta pela artista Hiromi Ueda trouxe um excelente equilíbrio entre as tendências de rock gótico na maquiagem e do wet hair produzido por Cyndia Harvey, com os recortes e as cores vivas das peças desfiladas.

Supriya Lele SS 22 RTW. Beleza por Hiromi Ueda e Cyndia Harvey.
[Imagem: Getty Images]

David Gillers e Ryon Arushima, que assinaram a beleza de Osman Yousefzada, também apostaram na técnica de wet hair e na maquiagem rock-grounge-gótica, optando por tons escuros metalizados nos olhos das modelos. Já no desfile de David Koma, o maquiador Pablo Rodriguez optou por manter uma maquiagem clean e deixar o hairstylist Cos Sakkas responsável por apresentar um wet hair (sim, de novo) que fosse o suficiente para completar a coleção. Já para a coleção de Simone Rocha, Cyndia Harvey utilizou o wet hair ornamentado com coroas e acessórios de brilho, como uma maneira de balancear os babados góticos das roupas apresentadas.

Seguindo a pegada dark das belezas apresentadas na semana de moda londrina, Thomas de Kluyver e Soichi Inagaki tomaram um caminho Western para complementar a coleção de KNWLS. Mesmo com aspectos mais apagados e peles nudes, os artistas ainda souberam como utilizar maquiagens de cores metalizadas em tons vivos e estilizaram os fios das modelos utilizando acessórios e penteados. Assim como algumas das coleções citadas acima, a dupla também optou por colorir inteiramente o lábio de algumas modelos com cores diferentes e metálicas.

KNWLS SS22 RTW. Beleza por Thomas de Kluyver e Soichi Inagaki.
[Imagem: Gabriel Gayle]

Seguindo o lado oposto da tendência Rock ‘n Roll vista em algumas coleções, Georgina Graham e Neil Moodie souberam mesclar elementos que poderiam ter saído da sociedade londrina no século XIV, de um hippie indo para Woodstock ou da personagem Jules, da série Euphoria. A coleção de Paul & Joe, apesar de repleta de diversos babados e estampas floridas, escapou de parecer um desfile de festa junina graças aos elementos de beleza que trouxeram pontos opostos aos looks. De maquiagens geométricas à chapéus estilo bonnet e óculos redondos do londrino mais famoso do mundo do rock — John Lennon — com fios soltos e naturais, a dupla responsável por essas escolhas soube destacar a beleza nesta semana.

Paul & Joe SS22 RTW. Beleza por Georgina Graham e Neil Moodie.
[Imagem: Reprodução Vogue Runway e Elle AU]
Yuhan Wang SS22 RTW. Beleza por Miranda Joyce e Teiji.
[Imagem: Reprodução Vogue Runway]

A beleza de Miranda Joyce e Teiji para a coleção de Yuhan Wang é outra que parece ter saído diretamente da temporada social de Londres – ou das telas de Bridgerton. Os cabelos presos em cachos feitos com o bom e velho grampo são ornamentados com acessórios claros e delicados, em contraponto com a maquiagem rebelde marcada por lábios vermelhos e delineados sombreados marcantes. Até mesmo as modelos parecem estar assustadas com o que está acontecendo, portanto vamos fingir que o intuito por trás dessa beleza foi expressar uma rebeldia com um conjunto de elementos que falharam em fazer sentindo quando combinados.

Diferente de quase todas as coleções apresentadas na Semana de Moda de Londres, a beleza no desfile de Richard Quinn foi extremamente clean, porém longe de ser básica. As escolhas feitas por Miranda Joyce e Sam McKnight consistiram em uma pele extremamente opaca, com sobrancelhas descoloridas e o mínimo de cor natural no rosto. Para enfatizar ainda mais essa escolha, os fios foram presos com (muito) gel para trás, e uma mecha central puxada separadamente serviu para trazer ainda mais foco ao rosto quase bizarramente nú. Essa escolha foi uma válvula de fuga para os exageros presentes nos designs apresentados, mas ainda sem perder a sua própria atenção.

Richard Quinn SS22 RTW. Beleza por Miranda Joyce e Sam MicKinght.
[Imagem: Reprodução Instagram @hairbysammcknight]

Tudo o que você precisa saber sobre a NYFW

Recordando da ilustre frase do editor de moda Candy Pratts Price no documentário The September Issue de 2009, “September is the January of fashion” (“setembro é o janeiro da moda”, em português). O documentário acompanha a redação da Vogue estadunidense durante o fechamento da edição do mês de Setembro, também conhecida por ser a edição mais importante do ano.

Durante esse mês, amantes, comentaristas e jornalistas de moda são bombardeados por novidades e coleções. As temporadas de Primavera-Verão acontecem em sequência durante todo o mês, começando pela NYFW – que este ano teve início no dia 7 de Setembro e terminou no dia 12. Neste artigo serão examinadas as coleções que ocorreram durante o evento, seguindo por ordem cronológica dos acontecimentos.

Imagens dos desfiles comentados da NYFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

 DIA 1 – 07 de Setembro;

Se o começo da temporada estabelece o tom das próximas semanas, apesar das poucas coleções, o primeiro dia da NYFW fez seu impacto inicial esperado. Desde Collina Strada e suas cores vibrantes, volumes contraditórios e o mais importante de toda a coleção – um dos castings mais inclusivos em algum tempo. A mensagem é clara: inclusão e diversidade são a base a moda de Nova Iorque. São relíquias não reconhecidas oficialmente, mas sabemos que sempre estiveram lá – do streetwear que foi para as passarelas, até a vitória na famosa Batalha de Versalhes – mesmo que por algumas (muitas) vezes esquecidas entre coleções.

Nada impede absolutamente ninguém de desfilar para a Strada – impedimentos físicos e estéticos não são o problema, as roupas são mostradas em corpos reais em situações reais. Temos modelos a vista, mas conseguimos perceber a versatilidade do casting bem apurado. Christian Siriano não passa muito longe num casting diversificado, mas em inovação em design e construção de coleção? Talvez.

Infelizmente foram apuradas diversas ‘semelhanças’ entre a coleção de Siriano e trabalhos prévios de outros designers. Mesmo assim não salvam a coleção: parece que se é desejado um grande momento de Siriano, o conceito das coleções é bom mas a junção da vestimenta em si é que normalmente não consegue traduzir o mesmo. São alguns vestidos individualmente bons, juntos numa coleção que não parece uniforme ou nem mesmo conversa entre si… Os próprios tecidos e técnicas do designer lembram um projeto de competição de reality show, não um grande momento de vestidos de baile na NYFW.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Collina Strada e Christian Siriano fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial das marcas.

DIA 2 – 08 de Setembro;

O dia começa com a coleção de Ulla Johnson, um ar fresco, leve e boêmio no meio de Manhattan graças a elementos claros do design de Johnson – como florais, babados volumosos, bordados, tecidos fluídos em tons alegres e neutros. Já é uma característica visual da marca procurar apresentar coleções que refletem sua calma e a busca por um estado de paz.

Completamente diferente da coleção que a antecede, Willy Chavarria leva o conceito de ‘Maxi’ um pouco ao pé da letra com calças de cinturas altíssimas e camisas oversized. O importante de se analisar essa coleção é como o streetstyle de subculturas latinas – principalmente da cidade de Nova Iorque – que normalmente são associadas a falta de estilo ou refinamento foram uma das maiores inspirações para o designer que criou bombers acetinadas, jaquetas estilo motociclista, cintos com maxi fivelas e cores vibrantes.

Proenza Schouler tem um histórico de roupas descomplicadas e versáteis desde sua fundação em 2002 por Jack McCollough e Lazaro Hernandez, mas nesta temporada os maiores traços da coleção são “roupas alegres para voltar a sair para o mundo”, como disseram os designers para a jornalista Nicole Phelps. São roupas utilitárias facilmente vistas em armários do consumidor contemporâneo como blazers, trench coats, ternos e vestidos fluídos em cores vibrantes – afinal, ainda é uma coleção de primavera-verão – porém a habilidade desses elementos tão comuns de se destacarem de uma forma única é o verdadeiro e principal atributo da coleção.

Não muito diferente de um dos favoritos da semana, Peter Do apresenta uma coleção honrando a identidade criativa de sua marca, atribuindo silhuetas de alfaiataria tão fortes e reconhecidas de seu trabalho em conjunto com tecidos e texturas surpreendentes que trazem uma leveza e fluidez necessárias para sua coleção, além de valorizar suas raízes vietnamitas com uma releitura do tradicional ÁO DÀI.

Terminamos o forte dia com Prabal Gurung, que na temporada passada foi um dos poucos designers a embarcar completamente no tema de otimismo e uma saudades de glamour para o próximo ano. Nesta coleção, ele diminui um pouco esses elementos e olha novamente para a “garota americana”, pensando em como trazer um ar cosmopolita e de poder para a roupa em si, explorando silhuetas bem marcadas mas com uma ambiguidade de escolher cores majoritariamente vibrantes para a coleção.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Ulla Johnson,Willy Chavarria, Peter Do, Proenza Schouler, Prabal Gurung fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.desfiles

DIA 3 – 09 de Setembro;

Gabriela Hearst é um novo grande nome de Nova Iorque. A uruguaia foi apontada como diretora criativa da Chloé e teve sua estreia durante a temporada passada. Existe uma linha clara entre o trabalho de sua marca autoral e na grife francesa. O jornalista Anders Christian Madsen fez um ponto claro em sua crítica: é como ver duas crianças diferentes de pais que você conhece crescerem diante de seus olhos – e uma analogia: Hearst nomeou sua coleção de estreia na grife de “Afrodite”, para complementar de uma forma diferente a coleção da marca autoral que chamou de “Atena”. Pode ser uma boa previsão para Paris daqui a algumas semanas…

Agora falando sobre a coleção desta temporada, elementos de alfaiataria clássica e cortes precisos ainda marcaram presença, mas o surpreendente foram os looks em crochet de tons vivos e formas diferenciadas produzidos em colaboração com as comunidades Navajo pelo Uruguai. Destoam das características sóbrias do trabalho de Hearst da melhor forma possível, trazendo um novo elemento e dimensão para a coleção.

Seguindo para o desfile mais oposto de todos: Moschino assinada por Jeremy Scott. Desde sua primeira coleção para a marca em 2014 é possível afirmar uma coisa: Ele ama um tema. Todas as coleções têm uma forte ideia central e são trabalhadas ironicamente ou não – já que ironia é uma das bases fundadoras da Moschino. Nesta temporada o tema são brinquedos e símbolos infantis com uma dicotomia de silhuetas ligadas a alfaiataria clássica, é uma ambiguidade quase engraçada que talvez seja uma dos maiores legados de Scott na marca.

Carolina Herrera celebra 40 anos e seu diretor criativo Wes Gordon não faz passar batido com uma homenagem emocionante a desfiles que fazem parte da história da marca, principalmente os da década de 80 quando a designer venezuelana começava sua carreira na moda. São referências claras mas traduzidas de uma forma despretensiosa sendo atraente para os consumidores jovens.

E terminamos o dia em um marco turístico de Nova Iorque, subindo alto para onde nenhum outro designer foi antes. LaQuan Smith é o primeiro designer a desfilar no Empire State Building, em live com o NYT Fashion o designer explica sua atitude de “Go Big or Go Home” e as roupas refletem este exato pensamento. A mulher de Smith é sensual e de personalidade forte, ela é quem veste as roupas – e não o contrário. De vestidos transparentes a plumas e cristais, nada passa em branco. É uma mistura cosmopolita e sensual de roupas para sair.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Gabriela Hearst, Moschino, Carolina Herrera, LaQuan Smith fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 4 – 10 de Setembro;

Michael Kors sabe exatamente para quem são suas coleções e entende como ninguém que identidade visual das roupas não é necessariamente sobre logos ou características visuais – são roupas bem feitas, com especialidade em conseguir incluir em apenas uma coleção ótimos momentos para o dia-a-dia da mulher contemporânea do designer e acompanhá-la até o traje de noite.

Stuart Vevers está provando cada vez mais seu valor com sua visão para a Coach. O sucesso de vendas das bolsas e suas campanhas de marketing são os maiores medidores disso e durante essa temporada ele decidiu homenagear uma das principais designers a participar da trajetória da marca – Bonnie Cashin, uma pioneira no sportswear norte-americano que fazia roupas descomplicadas, utilitárias e modernas para as mulheres independentes no pós-guerra. Com o legado de Cashin em mente, Vevers faz uma coleção marcada por influências diretas do sportswear, especialmente sobre a cena skatista dos anos 90, e referências claras da subcultura grunge da época são possíveis de observar.

Helmut Lang é uma marca com uma história tão forte que acaba impactando suas coleções recentes. Mesmo que Lang não tenha envolvimento com a marca desde 2005, o atual diretor criativo Thomas Cawson entende seus clientes – mas ainda não consegue traduzir para um grande momento da marca hoje e se situa muito no legado do designer na década de 90. Por mais que as roupas sejam bem feitas e estruturadas já faz algum tempo, até mesmo como a coleção foi fotografada lembra a marca em seu ápice.

Liberdade é a palavra que define a coleção de Eckhaus Latta, desde cortes estratégicos que deixam do torso aos mamilos a mostra até roupas que pareciam visualmente confortáveis nas modelos. É a liberdade de vestir o que quiser e ser quem quiser sem preocupar-se com reações externas, uma coleção ligada a discussões entre os conceitos de gênero discutidos principalmente entre a geração Z. Mike Eckhaus e Zoe Latta conseguiram entender o ponto central da conversa e ascender transformando isso em uma boa coleção.

Christian Cowan adora transformar seus desfiles em verdadeiras experiências – de Teddy Quinlivan jogando o casaco de forma bruta em cima da plateia em um conjunto roxo até grandes chapéus de plumas com mini vestidos colados, é tudo sobre comemorar, sobre reconectar-se com uma grande festa depois de tanto tempo. Mas se falarmos sobre as roupas em si, talvez fiquem um ou dois pontos faltando: Quinlivan é um designer experimental e com uma queda pelo erótico, e às vezes peca na construção de uma coleção estável. Tem muitos looks bons e muitos ruins na mesma leva, o que faz duvidar-se da intuição sobre gostar ou não da temporada.

Brandon Maxwell é um dos ‘tradicionais’ designers no evento, uma aparição indispensável para a volta presencial da NYFW. Contudo, enquanto as previsões ansiavam por uma coleção com modelos famosas e vestidos longos, lisos e bem ajustados, foi apresentado algo bem diferente. Em seus cinco anos de passarelas, Maxwell ainda não havia produzido um momento de estamparia. Agora, onde o designer se encontrou na posição criativa de stylist e criador, foi possível sentir a diferença entre suas roupas, entre texturas metálicas e vestidos fluídos com estampas psicodélicas. É uma faceta diferente de Brandon que até agora não era possível ver – mas é sempre revigorante um designer se aventurar em experimentações (mesmo que algumas delas não sejam sempre certeiras).

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Michael Kors, Coach, Helmut Lang, Eckhaus Latta, Christian Cowan e Brandon Maxwell fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 5 – 11 De Setembro:

Começamos o dia com uma experiência física e espiritual em Rodarte – uma mistura de sentimentos, uma declaração das irmãs Kate e Laura Mulleavy sobre se encontrar espiritualmente e se aproximar da natureza, e também declararam a liberdade de seu espaço criativo confortável para impulsos diferentes de criação. Isso explica a coleção que tinha um pouco de tudo um pouco – dos vestidos de noite femininos pelos quais a marca é conhecida com rendas e franjas, um pouco de alfaiataria, estampas de cogumelos e terminando com uma série de vestidos leves de cores claras e modelos descalços. Realmente foi uma mistura de experiências.

O legado de Anna Sui gira em torno de ser uma das poucas designers que entende o balanço necessário entre a moda experimental e a moda de luxo utilitária. Se divertir e se expressar pela vestimenta parece ser um tema recorrente do evento por inteiro mas Anna Sui carrega esse patrimônio há anos, entregando agora uma coleção que consegue facilmente dialogar com gerações mais novas que procuram novas marcas para abraçarem e continuar uma conversa fixa com o seu próprio consumidor de anos, já que esses atributos sempre estiveram ligados a marca.

Falando em experiências, Thom Browne sempre entrega muito mais que um desfile: faz um show completo até mesmo quando estava limitado ao digital seu fashion film na Fall 2021 RTW – um dos mais interessantes e bem produzidos de toda a temporada. De repensar o que significam ternos e alfaiataria hoje, mas ainda mantendo uma precisão impecável em seus cortes e ajustes, pinturas de rosto que combinavam com enormes vestidos florais, vestidos com um relance de abdômen definido pintado, Browne não decepciona em entregar grandes experiências que unem a moda e a arte.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Rodarte, Anna Sui, Thom Browne fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 6 – 12 De Setembro;

Com a data do Met Gala se aproximando e a exibição do Costume Institute tomando forma, é uma decisão inteligente criar uma coleção com forte conexão e inspiração na história de uma das grandes designers americanas como Claire McCardell – principal inspiração de Tory Burch para sua coleção.

McCardell foi uma das pioneiras do sportswear, pensando na utilidade e versatilidade de suas roupas no cenário pós-guerra. A visão de Burch para a coleção foi justamente encontrar o equilíbrio de sua mulher cosmopolita e moderna (que nunca largou mão do seu charme boêmio) e a trajetória de McCardell. Das silhuetas precisas às estampas surpreendentes, a coleção foi bem executada em todos os sentidos da palavra.

Joseph Altuzarra volta para sua marca autoral depois de um hiatus desde 2017, quando embarcou em uma experiência transicional de designers mais estabelecidos que procuravam novas oportunidades no mercado internacional de Paris. Sua primeira coleção de volta para a marca foi um momento muito esperado.

A coleção foi descrita por ele como eclética com um toque de escapismo, uma ótima colocação – temos características claras do trabalho prévio do designer na silhueta e construção da roupa em si, mas os detalhes de styling, texturas e até estampas de tie-dye são adicionados às produções a fim de criar algo novo. É uma coleção jovem, boêmia e chique, de uma forma ambígua da palavra.

No pôr-do-sol final da NYFW com coleções que deixaram mais do que claro a ansiedade pela vontade de viver e se divertir com as roupas, a Staud fez literalmente uma enorme bola de Disco em seu desfile. Parecia uma grande festa: a designer Sarah Staudinger explicou para a jornalista Sarah Spellings que a Staud não se caracteriza como uma marca que deixa claro, no preto e no branco, suas tendências e referências da coleção. O mais importante para Staudinger seriam os momentos envolvidos no processo criativo, sentimentos que florescem desde na hora do rascunho da coleção até o animado desfile.

Com o tema da exibição do Costume Institute, os esforços do CFDA, uma NYFW cheia de novos talentos e nomes, fica bem claro que tem algum estímulo fiscal ou até mesmo sentimental para o revival da moda Americana – mas estamos prontos para isso? Apesar de alguns ótimos momentos, o evento foi morno, sem quebras de barreiras ou situações inesperados. Como fazer o revival da moda americana se mais da metade dos designers tem que se concentrar em pagar as contas no final do mês depois de um tempo conturbado é uma decisão complicada.

Mas fechamos a NYFW com um dos maiores nomes da cidade, o co-chair do CFDA: Tom Ford, que faz agora sua volta para às passarelas de Nova Iorque. Se a moda americana tem um rosto, é discutível que Tom Ford talvez seja ele. Ford mostra o otimismo máximo da melhora do cenário atual da melhor forma que pode; desenhando roupas prontas para festa.

Lantejoulas, lamê, cores vibrantes e silhuetas confortáveis se compararmos com o repertório antigo do designer, são peças para realmente serem tiradas da passarela e irem direto para algum clube exclusivo na cidade. É uma enorme representação de ansiedade em voltar a sair, se divertir e talvez o mais importante: retomar o fluxo de vendas.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Tory Burch, Altuzarra, Staud e Tom Ford fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.