Masculinismo: o que eles têm a dizer?

“Força”, “coragem” e “agressividade” são palavras que compõem o léxico do que muitas gerações entendem por masculinidade. Do outro lado, ideias como “cuidado”, “sensibilidade” e “emoção” são associadas ao gênero feminino. Gerações como as de nossos pais e avós, provavelmente passaram a vida ouvindo que, na dinâmica de um lar, o homem deve ser o provedor e a mulher responsável pela harmonia doméstica. A ascensão de mulheres a cargos de poder é relativamente recente e ainda somos minoria em altos postos, bem como em profissões que não são consideradas “femininas”. 

Graças às ondas feministas iniciadas no século passado, as mulheres conquistaram o direito ao voto, à educação formal, direitos trabalhistas, participação política e equidade dentro das empresas. Por mais que, na prática, essas conquistas ainda não estejam ocorrendo amplamente e ainda tenhamos muito o que reivindicar, a consciência da sociedade, de forma geral, tem caminhado de forma a não aceitar mais a discriminação por gênero. Em outras palavras, discursos que tratam a mulher com inferioridade se tornaram inadmissíveis entre líderes políticos, executivos, na mídia, no meio acadêmico e nos comerciais. 

Através de muita luta, o feminismo tem conseguido promover esse debate e cada vez mais mulheres não abrem mão de estar onde bem entenderem. Mas, como ficam os homens nessa equação? 

Vítimas ou culpados? Os efeitos do patriarcado na vida dos homens.

Enquanto muitos homens sabem da posição de privilégio que ainda ocupam na sociedade e lutam para tentar mudar isso, sendo aliados das mulheres e trabalhando para conscientizar outros homens; existe um grande grupo de homens que se ressentem das conquistas que as mulheres obtiveram nas últimas décadas. Para eles, os homens atualmente estão em posição desfavorável na sociedade e as mulheres, por essência manipuladoras e sentimentais, são responsáveis por responsabiliza-los de todos os problemas do mundo. 

A existência dos chamados grupos “masculinistas” vem sendo muito debatida nas redes sociais recentemente desde que um vídeo viralizou na internet brasileira no último mês. No corte, retirado de um videocast, o coach Thiago Schutz ensina homens a não serem manipulados pelas mulheres. Ele reforça que os homens devem se impôr e não ceder às vontades das mulheres.

Thiago é dono de uma página no Instagram chamada “Manual Redpill”. Os redpills são um nicho específico dentro do termo guarda-chuva das teorias masculinistas (ver anexo). Em resumo, o termo é uma referência a uma cena do filme “Matrix”, onde o protagonista Neo tem de escolher entre tomar uma pílula azul ou vermelha. A pílula azul faz com que ele permaneça “cego” às estruturas que fazem a sociedade funcionar. Já a vermelha o permite enxergar a realidade como ela é, e ver o mecanismo que nos controla. 

Os redpills, portanto, seriam aquele grupo que “acordou” para a realidade, e a realidade é que mulheres estão o tempo todo manipulando os homens para que consigam o que querem. O homem redpill não cai nesse tipo de manipulação. Ele se vê como parte de um grupo marginalizado na sociedade.

Por mais esdrúxulo que esse pensamento possa parecer aos setores mais progressistas da sociedade, o ressentimento de muitos homens com os tempos em que vivemos é algo que já chama a atenção há bastante tempo. Uma matéria da BBC de 2012 traz à tona o “masculinismo” e quais as principais reivindicações dos ativistas que lutam pelo Movimento dos Direitos dos Homens

O objetivo deste artigo não é explicar com detalhes o que cada vertente do masculinismo prega. Tampouco pretendo trazer aqui um perfil do “Calvo do Campari” -apelido que Tiago Schultz recebeu na internet após o vídeo viralizado. A ideia aqui é entender as raízes desse profundo ressentimento que move o masculinismo como um todo. E trazer a questão: é possível validar esses sentimentos sem cair na misoginia?

Um dos materiais mais completos -e surpreendentes- a respeito deste tema é o documentário “The Red Pill”, produzido e dirigido pela cineasta norte-americana Cassie Jaye. No longa lançado no ano de 2017, Cassie, uma feminista convicta, assume a missão de conversar com ativistas de grupos pelos direitos dos homens. O que Cassie não esperava é que, ao fim das gravações, ela mesma estaria questionando o seu feminismo e concordando com diversos pensamentos desse grupo. 

Isso acontece porque as histórias contadas por essas pessoas são… verdadeiras. O filme traz diversas cenas onde ativistas pró-direitos dos homens tentam discursar, abafados por gritos de militantes feministas e LGBT’s. Enquanto são chamados de fascistas, esses homens (e mulheres!) trazem dados indiscutíveis. Entre eles, que os homens representam 99,9% dos mortos em combates, 94% dos mortos em acidentes de trabalho, 76% das vítimas de homicídio e 75% dos suicídios são de homens. Esses dados dizem respeito aos Estados Unidos. 

Junto às estatísticas, o documentário traz as principais bandeiras defendidas pelos MDH. Entre as principais bandeiras, está a alienação parental. O filme traz relatos comoventes de pais que foram afastados de seus filhos pelas mães que, com o devido aparato jurídico, sempre têm a preferência quando o assunto é o cuidado da prole. 

Outra reivindicação é que os homens também são vítimas de violência doméstica. Embora o número de homens e mulheres vítimas de agressão por parte de seus parceiros seja relativamente equilibrado, os EUA contam apenas com UM centro de acolhimento destinado a homens. Isso seria, na visão dos ativistas, discriminação de gênero. 

O próximo aspecto diz respeito à descartabilidade de corpos masculinos. Ilustrada pela famosa frase “mulheres e crianças primeiro!” entoada durante acidentes e catástrofes naturais – quem lembra da cena de Titanic onde os homens são os últimos a entrar nos botes salva-vidas?- é um exemplo da maneira como naturalizamos a morte de homens. 

Por fim, a maneira como os homens historicamente tiveram a obrigação de prover para o lar e a família tirou deles a opção de deixar empregos dos quais não gostavam e viver a vida que gostariam. Além, é claro, da enorme pressão psicológica por trás desta demanda. 

O argumento, portanto, é o de que os homens também são vítimas do patriarcado. As delimitações de gênero existentes na sociedade prejudicam tanto mulheres quanto homens, mas apenas o primeiro grupo tem sua luta legitimada. 

E aí? Não faz sentido? 

Quando a miopia convém

Embora a narrativa seja muito sedutora, ela ignora que todos os problemas citados foram causados por homens. Vamos voltar ao início do texto, onde citamos que a maior parte dos tomadores de decisão e líderes mundiais ainda são homens. Os homens são a imensa maioria das vítimas de homicídio, mas também são a maioria dos homicidas. A manutenção dos valores patriarcais que levam ao adoecimento mental e ao suicídio de homens, é feita, em grande medida, por homens. As leis que tornam o serviço militar obrigatório nos Estados Unidos foram desenvolvidas por homens.  A quantidade massiva de homens em trabalhos precarizados e de risco é algo questionado, mas não questionamos por que esses trabalhos ainda existem em pleno século XXI. 

O documentário cai diversas vezes na retórica das feministas raivosas versus. homens ponderados reforçando a ideia de que mulheres são seres mais emocionais. Mas apesar das falhas lógicas no raciocínio defendido pelas teorias masculinistas, elas têm uma grande capacidade de cooptar adeptos porque, no fim das contas, elas fazem sentido. E são explicadas com mágoa e paciência por “vítimas” deste sistema, enquanto sofrem tentativas de silenciamento por progressistas enfurecidos. 

E nesse ponto, voltamos à pergunta inicial: como validar os sentimentos deste grupo sem subverter a lógica e culpabilizar as mulheres? 

No Brasil, os movimentos masculinistas que mais se destacam na internet são aqueles que se afastam do véu da razoabilidade e promovem ódio explícito às mulheres. Enquanto os ativistas entrevistados pela Cassie Jeye legitimam seu discurso ao se preocupar com a saúde e o bem-estar das próximas gerações masculinas, as páginas brasileiras se resumem a ensinar homens a não serem “enganados” por mulheres no âmbito amoroso. Enquanto isso, o país registra recordes seguidos nos índices de feminicídio. 

Podemos dizer, então, que aqui o buraco é mais embaixo. O masculinismo à brasileira não tenta sequer parecer ponderado. É um verdadeiro campo de batalha onde os homens se veem no direito de ocupar a posição que ocupam e precisam se munir de ferramentas para não perder esse domínio. 

O fato de os ativistas masculinistas estarem mais preocupados com possíveis traições no campo amoroso do que com os problemas que os homens realmente enfrentam, diz tudo sobre a visão de masculinidade que têm. E adivinhem só qual grupo está realmente preocupado em combater visões de masculinidade que são prejudiciais aos homens? Ele mesmo, o feminismo

Outras masculinidades possíveis

Diferentemente do que pregam os conservadores sobre o movimento, as feministas não estão preocupadas em fazer os homens pagarem pelos anos de dominação sobre as vidas e corpos das mulheres. O feminismo busca combater certas visões de masculinidade por entender que essas visões são cruéis com todos os envolvidos. 

A verdadeira “pílula vermelha” é aquela que revela aos homens quem são os verdadeiros culpados pela estrutura que os aprisiona: eles próprios. Toda vez que um homem reforça um ideal de masculinidade tóxica, isso se volta contra eles na forma de discursos que os impedem de lidar com as emoções, de se expressarem como desejam, de ter o ofício que querem e, em última instância, os compelem a agir com violência. As mulheres serão sempre as maiores vítimas deste sistema, mas os homens também se prejudicam. Quando você soca o rosto de alguém, a pessoa pode perder os dentes mas o seu punho também fica machucado. Lidar com a causa da ira por trás do soco não é a saída mais fácil, mas é a única que não fere ninguém. 

Embora a sociedade brasileira esteja entre as mais machistas do Ocidente, há luz no fim do túnel. Na contramão dos grupos masculinistas, vem crescendo o número de homens dispostos a romper com o ciclo da masculinidade tóxica. Eles entendem que “força” e “cuidado”; “coragem” e “sensibilidade”; “agressividade” e “emoção” não se anulam, mas coexistem dentro de todos nós, independentemente do gênero. Para entender melhor como esses grupos de homens se organizam, em 2020 foi lançado o documentário “O Silêncio dos Homens”. No filme, homens e mulheres falam sobre como a reprodução do machismo moldou suas trajetórias de vida. Muitas vezes, esses comportamentos não são intencionais, mas são reproduzidos pois são entendidos como uma única masculinidade possível. 

O documentário está disponível no YouTube, na página “Papo de Homem”. O site é organizado por homens que olharam para o mundo e para si mesmos. Eles decidiram romper estruturas que os faziam mal, às custas de conversas difíceis e escutas atentas. 

A pílula vermelha é amarga, mas libertadora.

‘Quem mandou matar Marielle?’ Assassinato da vereadora completa 5 anos

Apesar de repercussão mundial, caso segue sem respostas e não há previsão para resolução

Na noite de 14 de março de 2018, há exatos 5 anos atrás, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e o seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados a tiros no Rio de Janeiro. Ambos estavam em um carro, no bairro Estácio, no Rio de Janeiro, quando o veículo foi atingido por 13 disparos. Marielle, ao lado de seu motorista, estava retornando de um encontro de mulheres pretas, na Lapa, quando o crime aconteceu.

Criada no complexo da Maré, Marielle Franco tinha 38 anos e estava empossada como vereadora pela cidade do Rio de Janeiro há pouco mais de um ano. Nas eleições de outubro de 2016, Marielle foi a quinta vereadora mais votada pela cidade, se elegendo com pouco mais de 46 mil votos válidos no que marcou a sua primeira disputa por um cargo eleitoral. Marielle, com seus anos de ativismo e militância, era considerada um dos principais modelos e exemplos da política carioca. A trajetória de Marielle, ao longo de sua vida e através da política, foi marcada pela luta em defesa dos Direitos Humanos 一 com destaque à defesa pelos direitos femininos 一, e também pela crítica à violência policial nas favelas cariocas. 

Marielle se graduou em Sociologia pela PUC-Rio e era mestre em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em sua tese de mestrado, Franco dissertou sobre o tema ‘’UPP: a redução da favela em três letras’’. Sua militância e ativismo tiveram início enquanto ainda era estudante e frequentava o cursinho pré-vestibular comunitário e após perder uma amiga, vítima de bala perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes no Complexo da Maré, onde ambas residiam.

Além do ativismo, Marielle também presidiu a Comissão da Mulher da Câmara. Ela atuou em organizações voltadas à sociedade civil, como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Marielle também foi coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). 

Apesar de toda repercussão do assassinato da vereadora, o crime, mesmo após 5 anos de espera, continua sem respostas e as mesmas perguntas de 14 de março de 2018 seguem no ar: Quem mandou matar Marielle? E por quê? 

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL 

Poucas horas após ocorrido, o caso Marielle já estava estampado nos principais veículos midiáticos internacionais, com destaque nos jornais dos Estados Unidos e Reino Unido. O que parecia, até o momento, silenciar a voz da militante, deu espaço para que milhares de sementes 一 inspiradas em Marielle 一 se levantassem e ecoassem a voz de Marielle. 

Após o anúncio de sua morte, que logo tornou-se uma manchete mundial, entidades, grupos e partidos políticos no exterior passaram a condenar a morte violenta sofrida pela vereadora e também a cobrar respostas sobre o caso. Depois de 24 horas da morte de Marielle e Anderson Gomes, a Organização das Nações Unidas (ONU), em um exemplo de quebra de postura tradicional, emitiu uma nota exigindo ao Brasil que houvessem investigações sobre o assassinato da vereadora e seu motorista, bem como garantias de que os responsáveis pelo crime seriam cobrados pela Justiça brasileira. 

Na Europa, uma junção de partidos da esquerda composta por cerca de 52 parlamentares enviou uma carta para a chefe do Parlamento Europeu pedindo que as negociações entre o Mercosul (bloco que o Brasil integra ao lado de outros 3 países sul-americanos) e a Europa até que o Brasil desse uma resposta efetiva acerca da proteção aos defensores de Direitos Humanos do país.

RUMO DAS INVESTIGAÇÕES: O QUE SE SABE ATÉ AGORA?

Ao longo desses 1.826 dias, as investigações sobre os assassinatos de Marielle e Anderson tiveram algumas reviravoltas, entretanto, continua sem previsão de conclusão. São 5 anos em que a família de Marielle e Anderson aguardam as respostas sobre o desfecho e os mandantes do crime. 

Nas investigações, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) chegou a denunciar Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz como os assassinos de Marielle e Anderson, mas o mandante do crime não foi localizado. Ambos os denunciados irão a júri popular, porém, sem data marcada ou prevista. Nesses 1.826 dias, a apuração do caso Marielle seguiu diferentes linhas e as principais dúvidas levantadas ao longo da averiguação continuaram presentes.

O Ministério Público do Rio de Janeiro acredita que a principal linha de investigação parte de um crime cometido por motivação política, uma vez que Marielle era vereadora, ativista e também obteve uma votação expressiva na cidade, mas que outras hipóteses não devem ser descartadas.

A arma do crime, que também confere um dos questionamentos acerca do caso, também não foi localizada. A principal suspeita entre os investigadores do assassinato é que ela tenha sido jogada no mar após a prisão de Ronnie Lessa. No entanto, segundo apuração da Delegacia de Homicídios e do Ministério Público, trata-se de uma submetralhadora MP-5 contendo munição UZZ-18

Além da pressão de entidades e ativistas dos Direitos Humanos, diversas figuras políticas também vieram à público cobrar as autoridades para que a apuração do caso Marielle e Anderson fosse realizada com mais rapidez 一 apesar da longa espera. Dentre os nomes, podem ser citados, por exemplo, Ciro Gomes, Manuela D’Ávila, Fernando Haddad e o agora presidente Lula. Além deles, Marcelo Freixo, ex-companheiro de partido de Marielle, também se manifestou: “O assassinato de Marielle é o atestado de óbito do Rio de Janeiro. Quem morre não é a Marielle, quem morre é uma perspectiva de cidade”, disse Freixo durante uma live do Carta nas Eleições.

NOVOS DESFECHOS 

Desde que o crime aconteceu, na noite de 14 de março de 2018, o comando das investigações foi modificado 5 vezes e até foi cogitada a sua transferência para o comando federal. Entretanto, apesar da cogitação, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de transferência da Procuradoria-Geral da República, a PGR, em maio de 2020, com a justificativa de que não havia inércia dos comandos estaduais para haver tal transferência. Na época em que houve o pedido, a família de Marielle Franco também foi contra a federalização da investigação. 

Prestes a completar 5 anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, a Polícia Federal, a pedido do novo ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, abriu um inquérito para que fossem apuradas ‘todas as circunstâncias’ do assassinato da vereadora e de seu motorista. O pedido foi divulgado na manhã do dia 22 de fevereiro. Em suas redes sociais, Dino também se manifestou a respeito do pedido. 

https://twitter.com/FlavioDino/status/1628346489993822209?s=20

O documento publicado destaca a atribuição da Polícia Federal em ‘’apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme’’. Apesar de demonstrar ser uma ação atrasada a comando de um órgão ou representante federal, o pedido encaminhado pelo ministro surge como um sopro de esperança aos familiares, amigos e defensores dos Direitos Humanos e Sociais, uma vez que a resolução do assassinato 一 e localizar o mandante do crime 一 pode proporcionar um ar de alívio e suspiro, ao menos por enquanto, aos familiares e àqueles que optam pela humanidade e em defender os direitos do seu próximo. 

Marielle. Presente!

As informações para a construção dessa matéria foram retiradas do G1, do jornal ‘O Globo’, da Veja, da CNN Brasil, do Correio Braziliense, do ‘Estado de S. Paulo’ e do site Politize. 

Tragédia anunciada: tempestade no Litoral Norte de São Paulo mata 49 pessoas

  • O presidente Lula interrompeu sua folga na Bahia e sobrevoou as áreas afetadas;: ao visitar São Sebastião, anunciou ajuda;
  • Maior temporal da história deixou 40 mortos (39 em São Sebastião e 1um em Ubatuba);
  • Foi decretado estado de calamidade em 6 cidades e luto oficial de 3 dias. “Trechos da Rio-Santos podem não existir mais”, disse governador de SP;
  • Equipes seguem as buscas em São Sebastião;
  • Em todo estado são 1.730 desalojados e 766 desabrigados; ainda há previsão de chuva para a região.

Fonte: g1

O solo liquefado, que o deixou ainda mais saturado, trazendo muita lama, é apenas parte da destruição causada por 600mm de chuva que caiu entre sexta e sábado (18 e 19) no Litoral Norte de São Paulo. Pessoas desabrigadas, deslizamentos de encostas, rodovias bloqueadas e trechos de asfaltos que foram arrastados pela chuva, quedas de árvores, pessoas soterradas e desaparecidas, casas completamente destruídas, este é o cenário após a tempestade que arrasou o litoral paulista.

Em Ubatuba, uma criança de 7 anos morreu em um deslizamento. Em Caraguatatuba, a cidade se encontra alagada, sem luz e sem água. Na cidade de Ilhabela, água e transporte público foram interrompidos. A cidade mais atingida foi São Sebastião, onde ocorreuram a maioria das mortes e dos desaparecimentos. Em Juquehy, 2 pessoas ainda estão desaparecidas, além das ocorrências dee desabamentos e deslizamentos na cidade. Em Camburi, 1 pessoa está desaparecida e veículos foram submersos pela enxurrada., Em Boiçucanga, 1 pessoa também está desaparecida e a cidade está sem luz após os alagamentos. Em Toque-Toque Pequeno, carros foram destruídos e a cidade foi devastada pela força das águas. Em Topolândia, duas casas desabaram e outras estão em risco de desabamento. Em Bertioga, Santos, São Vicente e Itanhaém, a situação é de alagamentos, queda de luz, um naufrágio de uma escuna, e até a Rio-Santos chegou a ser interditada.

A alta da maré tem dificultado o acesso às áreas próximas à praias e, com isso, tem atrapalhado o resgate de pessoas desabrigadas. Barcos e lanchas têm sido utilizados nos trabalhos de busca, a fim de resistir à correnteza e à alta da maré. Até agora, crianças foram resgatadas por voluntários com a ajuda do Exército, uma corrente humana feita por voluntários para resgatar um bebê na lama e uma mulher em trabalho de parto conseguiu dar à luz em segurança. São muitos os relatos emocionantes de pessoas que perderam tudo, procuram por familiares e tiveram perdas na família. Turistas que se reuniam para o Carnaval nessas regiões relataram momentos de medo durante as inundações de pousadas e hotéis que estão hospedados.

Um repórter da Globo chorou ao vivo, ao anunciar que um litro de água estaria sendo vendido por 93 reais. A busca por mantimentos também tem gerado grandes filas nos estabelecimentos. Gerentes de supermercados avisam que alguns itens básicos já estão em falta. Mas com as mobilizações de voluntários, ao longo da semana, comida e água têm sido distribuídas de graça para quem deixou a própria casa só com a roupa do corpo. O PROCON tem fiscalizado os abusos de preços pelos comerciantes. Remédios e produtos de higiene, também são alguns dos exemplos de produtos que estão com preços superfaturados.

Quem tenta voltar para casa de ônibus, também pode ter que pagar mais. Por causa do bloqueio na rodovia Mogi-Bertioga, o trajeto entre Bertioga e Mogi das Cruzes ficou 100 quilômetros maior e o preço da passagem mais que dobrou.

O Instituto Verdescola, na Vila do Sahy, tem recebido as famílias resgatadas. Até agora, mais de 81 pessoas estão abrigadas na unidade escolar. Além disso, corpos também estão sendo reconhecidos e um hospital de campanha foi montado na organização. A situação é de calamidade pública.

As vítimas fatais do desastre, apuradas também pelo g1 — já que o Estado não providenciou a relação dos nomes das vítimas, são, Adrian José da Conceição Costa, de 11 anos, que morreu junto com os pais. Ana Vitória Cordeiro, de 7 anos, que foi ao litoral para conhecer a praia pela primeira vez, e morreu com a irmã de 16. Ângela Benício, que morreu com a filha, de 28 anos, e a neta, de 8 anos. Ariosvaldo Paes Landim, que foi soterrado com parentes, que ainda estão desaparecidos. Cristiano Olivares, de 9 anos, que faleceu com o pai, num desabamento. Dandara Vida Cazé, de 10 anos, que estava passando o final de semana com a família, morreu junto ao primo, Eduardo Lionel, de 11 anos. Donaria Santos, que passava o Carnaval com o marido Robério Lima Saldanha, e a cunhada, Rosângela Saldanha da Silva, todos morreram. Ednaldo Santos da Silva, que curtia o final de semana com a namorada e a enteada, também morreu.. Eliton Prado da Silva, de 32 anos, que passava o final de semana com amigos. Ellyza Nayanne Celestino de Lima, de 9 anos, faleceu depois da devastação da Vila do Sahy. Fabiane Freitas de Sá, funcionária pública da Prefeitura de São Sebastião, faleceu após uma árvore de grande porte atingi-la. Felipe Rocha, de 9 anos, morreu junto com a irmã Joina, os pais, e outro irmão, que continuam desaparecidos. Além de muitos outros nomes, que estão na triste lista de 49 falecidos.

Na noite da última terça (21), começaram os primeiros velórios das vítimas. Depois, todos os corpos foram levados ao cemitério municipal, onde foram sepultados. O governador de São Paulo afirma, que o número de vítimas pode aumentar bem mais.

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB), visitou um dos centros de acolhimento montados pela Prefeitura de Guarujá. O local recebe e dá suporte a 190 pessoas desalojadas. Ela garantiu todos os recursos necessários às vítimas:. “Não podemos deixar que pessoas e famílias fiquem em situação de risco. Agora temos que acomodar essas pessoas e, junto com a Caixa, ver o levantamento de verbas, agilizar e proteger da melhor forma cada um deles”, declarou.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nas redes sociais que a Receita Federal vai enviar mercadorias que foram apreendidas para as vítimas das enchentes: “Determinei que a Receita Federal identifique mercadorias apreendidas, que possam ser enviadas às vítimas das chuvas no Litoral Paulista. São mais de R$: 11 milhões em roupas, calçados, itens de cama, mesa e banho, higiene pessoal, material de limpeza e utensílios de cozinha.”

O Governador de SP, Tarcísio de Freitas, em coletiva, definiu a cena como assustadora, referindo-se à situação após as chuvas. Ele ainda diz que trechos da Rio-Santos podem não existir mais: “’a gente não sabe o que sobrou da rodovia”. E expõe: “A gente contabilizou mais de 10 pontos de bloqueio, alguns de grande extensão, em alguns pontos a gente não sabe exatamente o que sobrou da rodovia, porque é um volume de terra tão grande que se deslocou em uma extensão tão grande que a gente até levanta a hipótese de a rodovia ter sido arrastada junto, de a rodovia não existir mais”.

Lula e Tarcísio falam em união e trabalho compartilhado para recuperar o litoral paulista. Equipes já estão lançando cabos de fibra óptica para restabelecer internet e comunicação nas áreas atingidas por chuvas, disse ele à GloboNews. Segundo ele, também estão tentando retomar a energia elétrica nas áreas afetadas.

O Bolsa Família será antecipado para atingidos por chuvas no litoral de SP, disse o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias. O pagamento será unificado para o dia 30 de março e vale para todas as famílias dos municípios atingidos e com decreto de emergência e calamidade. A Caixa também vai liberar o saque calamidade do FGTS em municípios do litoral de SP atingidos pelas chuvas. O valor para retirada é de até R$: 6.220,00.

Segundo a BBC, a catástrofe atual ocorreu 56 anos após a maior tragédia ligada às chuvas na história de São Paulo, acontecida em 18 de março de 1967 no município de Caraguatatuba, quando as águas causaram o desmoronamento de encostas e centenas de casas foram soterradas.

Segundo a contagem feita na época, 487 pessoas morreram, mas estima-se que o número de óbitos tenha sido muito maior, já que muitos desaparecidos nunca foram encontrados.

A jornalista Adriana Carranca desabafou em sua página no Twitter. “Fiz há 20 anos reportagem sobre a exploração imobiliária predatória no litoral norte de SP que destruíra a vegetação costeira e empurrava caiçaras e trabalhadores migrantes morro acima, condenando-os a viver em habitações precárias. É onde estava a maioria dos mortos das chuvas.”

Fiscais da prefeitura de São Sebastião flagraram as novas construções — que são proibidas na área desde 2009. Em 2020, o Ministério Público Estadual já havia identificado o risco de deslizamentos de terra na comunidade. Em março de 2021, então, o Ministério Público entrou com uma ação civil pública para exigir a intervenção no local – –o que inclui ligação oficial de água, luz, urbanização e liberação das áreas de risco. Na época, já eram 650 imóveis na comunidade e ao menos 596 famílias.

Segundo a moradora de São Sebastião, advogada da ONG Instituto Verdescola, localizada na Barra do Sahy, “a “tragédia poderia ser evitada”. Em entrevista para o UOL, Fernanda disse: “Ver cenas como essas é algo muito triste, saber que existem pessoas soterradas e não poder fazer nada. A gente avisou tanto os órgãos responsáveis que ali era uma área de risco e nada foi feito. Foram muitos anos de omissão.”

O diretor do órgão nacional de monitoramento, o CEMADEN, disse que o Governo de SP e a Prefeitura de São Sebastião foram avisados do risco de desastre 2 dias antes. Moradores relatam, porém, que não foram alertados sobre o perigo de deslizamento. O Ministro da Integração e o governador de São Paulo reconhecem falhas no sistema; apenas a prefeitura ainda não se manifestou.

Para o colunista do UOL, Leonardo Sakamoto, a tragédia no litoral é fruto da desigualdade social com a mudança do clima. “Esse processo decorre da especulação imobiliária, que garante as melhores e mais seguras áreas do litoral a quem tem dinheiro, fazendo com que moradores tradicionais e trabalhadores migrantes se virem em outros locais. Processo que conta com o apoio do poder público. Em São Sebastião, por exemplo, há ocupações ilegais em áreas de risco que foram regularizadas sem a realização de mudanças estruturais. Isso gera voto, mas pode tirar vidas.

Tragédias causadas por fatores imprevisíveis chocam, mas deixam um gosto menos amargo do que aquelas que poderiam ser evitadas ou mitigadas pela ação do poder público municipal, estadual e federal. Afinal de contas, todo mundo sabe que o combo ‘chuva, especulação imobiliária e falta de políticas públicas’ vai matar anualmente. Menos as autoridades”, disse ele em sua coluna.

O jornal Esquerda Diário pontuou em sua reportagem: “Esse é mais um triste capítulo da barbárie capitalista que assola nossas cidades litorâneas. É preciso atacar os problemas desde a raiz, acabando com a especulação imobiliária e operando uma reforma urbana radical que garanta moradias com segurança para a população e saneamento básico para todos. Daí a importância de se ter independência política dos governos de plantão, que estão profundamente comprometidos com os interesses das grandes construtoras e dos tubarões do mercado imobiliário”.

Governo Lula: Entenda a relação com as forças armadas

Desde que foi anunciado o resultado das eleições presidenciais de 2022, que deram vitória a Luiz Inácio Lula da Silva contra o então presidente Jair Bolsonaro, levantam-se expectativas sobre em que termos se daria a relação do novo chefe do executivo com as forças armadas. De um lado, os apoiadores de Lula mais à esquerda esperavam que o presidente adotasse uma postura incisiva em relação à participação de militares no poder, relembrando a simpatia de muitos integrantes das forças armadas com Jair Bolsonaro.

Do outro, se viam quarteis ocupados por civis pedindo por intervenção militar. Nos grupos de WhatsApp, pipocavam mensagens de tom quase apocalíptico sobre os riscos que o Brasil estaria correndo diante de um novo governo do PT.

No meio deste tabuleiro, um presidente recém eleito movimenta as peças para conciliar setores antagônicos de seu governo.

O recado foi dado no dia 9 de Dezembro de 2022, quando Lula anunciou os primeiros nomes que viriam a compor a Esplanada dos Ministérios. A pasta da defesa ficou com José Múcio Monteiro, político experiente que já trabalhou com Lula e possui bom trânsito entre bolsonaristas. O anúncio chamou atenção por colocar a liderança da Defesa nas mãos de um civil, diferente do que foi feito por seus antecessores Michel Temer e Jair Bolsonaro. O recado de Lula, como já se esperava, foi o da conciliação. Buscou-se apaziguar os ânimos e as desconfianças de militares, ao se escolher um nome bem relacionado entre eles.

Múcio, porém, desagradou apoiadores do presidente e analistas políticos ao afirmar que os acampamentos organizados frente aos quarteis pedindo intervenção militar seriam uma “manifestação democrática”. O ano virou e especialistas já alertavam sobre a possibilidade de as manifestações escalarem para uma ação violenta aos moldes da invasão ao Capitólio em 2021, nos Estados Unidos.

Não causou surpresa, portanto, quando na tarde de 8 de Janeiro, os noticiários começaram a transmitir cenas de cidadãos comuns trajados de verde e amarelo invadindo o Congresso Nacional. Porém, diferente do que ocorreu nos Estados Unidos, por aqui não houve nenhuma repressão aos terroristas por parte do Exército ou da Polícia Militar. As imagens apuradas apontam que há um alto grau de conivência entre as Forças Armadas e os movimentos golpistas.

Desde então, o presidente subiu o tom e iniciou um processo de “desbolsonarização” da máquina estatal, atingindo cargos de alta e baixa patente. Temendo novos casos de insubordinação, Lula deve escolher a dedo aqueles que deverão compor os cargos comissionados de seu governo. Em declaração feita no dia 23 de Janeiro, o presidente disse não sentir confiança na sua equipe de segurança

“Agora, por exemplo, eu não tenho ajudante de ordens. Meus ajudantes de ordens são meus companheiros que trabalharam comigo antes. Por que eu não tenho? Eu pego o jornal está o motorista do Heleno dizendo que vai me matar e que eu não vou subir a rampa. O outro diz que vai me dar um tiro na cabeça e que eu não vou subir a rampa. Como é que eu vou ter uma pessoa na porta da minha sala que pode me dar um tiro? Então eu coloquei como meus ajudantes de ordem os companheiros que trabalham comigo desde 2010, todos militares.”…

Na última segunda-feira (30/01), Lula concluiu o processo de substituição do quadro de funcionários do Gabinete de Segurança Institucional, nomeando 121 militares após ter dispensado mais de 70 militares nas últimas semanas. O presidente também transferiu a Agência Brasileira de Inteligência para a alçada da Casa Civil. Esse movimento faz parte de uma estratégia para trazer nomes de confiança para o entorno do presidente e, assim, se blindar do golpismo. Esses esforços também incluem a nomeação de mais civis para cargos comissionados, ao contrário do que fez Bolsonaro.

Um relatório feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) apontou que a participação de militares em cargos de natureza civil aumentou em cerca de 70% no governo Bolsonaro em relação ao governo Temer. Muitos desses cargos foram ocupados de maneira irregular e a maioria das irregularidades se refere a militares que ocupam cargos civis sem autorização para tal.

Essa situação, somada aos ataques de 8 de Janeiro, indica que os próximos anos serão um período de desmilitarização da máquina estatal. Lula deve fazer o cálculo correto para manter uma boa relação com o setor e, ao mesmo tempo, impedir novos episódios de insubordinação. No Brasil, onde historicamente há um alto nível de participação de militares na política, essa não será uma tarefa simples.

Fontes: G1 e BBC

Escrito por: Rubia Alpino

Créditos imagem destacada: Reuters

Reportagem especial chamada “Segredos do Alvorada” revela denúncias e assuntos exclusivos envolvendo a família Bolsonaro

Michelle e Jair Bolsonaro | Imagem: Evaristo Sa

Em recente reportagem de sua coluna no Metrópoles, o jornalista Rodrigo Rangel, em parceria com a jornalista Sarah Teófilo, apresenta sua série de denúncias envolvendo Michele Bolsonaro e aliados, chamada “Segredos do Alvorada”. A página inicial é tomada por uma imagem em preto e branco do Palácio do Alvorada – fazendo jus ao nome, que vai se dissipando no espelho d’água à medida que rolamos a tela. Logo abaixo, um resumo feito em caixa alta na longa reportagem, aponta as principais denúncias feitas pelo jornalista.

AS PROVAS QUE LIGAM MICHELLE BOLSONARO AO CAIXA 2 DA PRESIDÊNCIA

Cerca de 2 semanas atrás, Rodrigo Rangel também revelou um esquema de caixa 2 no antigo governo, que envolve a participação de Michelle Bolsonaro. “O personagem em questão é o tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Barbosa Cid, o ‘coronel Cid’, ajudante de ordens de Jair Bolsonaro até os derradeiros dias do governo que acabou em 31 de dezembro.

O militar compartilhava da intimidade do então presidente. Além de acompanhá-lo em tempo quase integral, dentro e fora dos palácios, Cid era o guardião do telefone celular de Bolsonaro. Atendia ligações e respondia mensagens em nome dele. Também cuidava de tarefas comezinhas do dia a dia da família. Pagar as contas era uma delas – e esse é um dos pontos mais sensíveis do caso.

Entre os achados dos policiais escalados para trabalhar com Alexandre de Moraes estão pagamentos, com dinheiro do tal caixa informal gerenciado pelo tenente-coronel, de faturas de um cartão de crédito emitido em nome de uma amiga do peito de Michelle Bolsonaro que era usado para custear despesas da ex-primeira-dama”, aponta o jornalista.

A quebra do sigilo permitiu que a investigação, sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, revelasse ainda mais do que fora divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, no ano passado. Mensagens de texto, imagens e áudios encontrados no celular do oficial do Exército levaram os investigadores a suspeitar das transações financeiras realizadas por ele. Muitas destas transações envolveram dinheiro em espécie, na boca do caixa de um banco localizado no Palácio do Planalto.

“As primeiras análises do material já apontavam que Cid centralizava recursos que eram sacados de cartões corporativos do governo ao mesmo tempo que tinha a incumbência de cuidar do pagamento, também com dinheiro vivo, de diversas despesas do clã presidencial, incluindo contas pessoais de familiares da então primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Para além do montante sacado a partir de cartões corporativos que eram usados pelo próprio staff da Presidência, apareceram indícios de que valores provenientes de saques feitos por outros militares ligados a Cid e lotados em quartéis – sim, quartéis – de fora de Brasília eram repassados ao tenente-coronel. Os detalhes dessas transações ainda estão sendo mantidos sob absoluto sigilo, trafegando entre o gabinete de Moraes e o restrito núcleo de policiais federais que o auxilia nas apurações”, aponta o colunista do Metrópoles.

Entre os pagamentos, destacavam-se faturas de um cartão de crédito adicional emitido por uma funcionária do Senado Federal de nome Rosimary Cardoso Cordeiro. Lotada no gabinete do senador Roberto Rocha, do PTB do Maranhão, Rosimary é amiga íntima de Michelle Bolsonaro desde os tempos em que as duas trabalhavam na Câmara assessorando deputados.

Rosi, como os mais próximos a chamam, é apontada como a pessoa que aproximou Jair Bolsonaro e Michelle quando o ex-presidente ainda era um deputado do baixo clero que nem sonhava um dia chegar ao Palácio do Planalto. Moradora de Riacho Fundo, cidade-satélite de Brasília distante pouco mais de 20 quilômetros do centro do Plano Piloto, até hoje ela mantém laços estreitos com o casal.

Na última reportagem da coluna, Rodrigo reúne relatos de quem viveu o cotidiano do Palácio nos últimos anos, documentos e outros registros inéditos, como gravações e mensagens de WhatsApp, que revelam segredos do período em que a residência oficial foi ocupada pelos Bolsonaro e escancaram a diferença abissal entre o discurso público do ex-casal presidencial e o comportamento adotado longe dos holofotes, por detrás das vidraças do Alvorada. Ele ainda reitera que ao longo das últimas semanas entrevistou vários funcionários do Palácio, incluindo militares. “Alguns aceitaram gravar depoimentos, desde que não tivessem suas identidades reveladas. Outros concordaram apenas em contar o que viram, sem registro em vídeo”, destaca.

AS CONFUSÕES QUE FIZERAM FILHOS DE BOLSONARO SEREM EXPULSOS DO PALÁCIO

Em sequência, os trechos revelam ser ainda mais chocantes do que o esperado. Começando por histórias como as do pastor evangélico amigo de Michelle presenteado com o cargo de administrador do palácio que esculhambava os subordinados e ameaçava até suspender o lanche de quem ousasse questioná-lo — tudo, segundo ele próprio disse em uma reunião gravada às escondidas, com aval da então primeira-dama.

Mas o principal destaque é que, Michelle, com alguma frequência, protagonizava brigas colossais com Carlos e Jair Renan, os filhos 02 e 04 de Jair Bolsonaro. Numa dessas confusões, na frente dos empregados, o 04 precisou ser contido pelo pescoço por um segurança. Bolsonaro, em um dia de fúria, arrombou a adega do palácio – sim, o então presidente da República pôs abaixo, com o pé, a porta do cômodo onde fica guardado o estoque de vinhos da residência oficial.

Jair Bolsonaro recebia um visitante no Alvorada quando teve a ideia de presenteá-lo com uma garrafa de vinho. Os dois foram, então, até a adega, instalada em um dos cômodos do subsolo do palácio, perto da cozinha.

Ao chegar lá, o então presidente encontrou a porta trancada e pediu aos empregados de plantão que lhe trouxessem a chave. Foi avisado de que havia uma ordem expressa de Michelle para que a adega não fosse aberta para absolutamente ninguém – nem mesmo para ele.

Entre os funcionários, o motivo da ordem era sabido, embora não fosse pronunciado com todas as letras em razão da sensibilidade do assunto: Michelle estava enfurecida porque Jair Renan, filho 04 de Bolsonaro, andava visitando o Alvorada fora de hora – longe dos olhos dela, mas com o aval do pai – e levando consigo garrafas de bebidas.

Para frear a farra do garoto, seu desafeto, a saída foi mandar trancar a adega e baixar a determinação, que passou a ser cumprida a ferro e fogo.

Os funcionários tinham mais medo da primeira-dama do que do próprio Bolsonaro. Muitas vezes, dentro do palácio, aquele personagem autoritário e machista que era conhecido à larga pelos brasileiros assumia outra versão, a de um marido obediente e resignado. Era quase sempre assim. Mas havia exceções, e o capitão mandão e abrutalhado voltava à cena.

Até chegar na adega, Bolsonaro não sabia da ordem de Michelle. Descobriu quando passou pelo constrangimento de, na frente do convidado, ouvir dos funcionários que a porta simplesmente não poderia ser aberta. Enfurecido, diante da visita e dos serviçais, arrombou a adega e pegou a garrafa de vinho que queria dar de presente. Não sem antes se queixar da situação. A porta passou dias quebrada.

A relação de Michelle Bolsonaro com os filhos dos casamentos anteriores de Jair Bolsonaro nunca foi das melhores. As rusgas eram comuns. Flávio e Eduardo Bolsonaro, o 01 e o 03, ainda se esforçavam para manter alguma proximidade. Com Carlos Bolsonaro e Jair Renan, o 02 e o 04, porém, era uma guerra quase permanente. No período em que Bolsonaro e Michelle ocuparam o Alvorada, o palácio foi palco de várias brigas estrepitosas da dupla com a então primeira-dama. Uma delas se deu na semana do debate presidencial em que Bolsonaro e Lula se enfrentaram pela última vez antes do segundo turno da eleição.

Os funcionários contam que Carlos chegou ao palácio acompanhado dos seguranças de sua escolta e foi impedido de entrar. Ordens de Michelle. Seguiu-se um barulhento bate-boca entre ele e o administrador da residência, o pastor Francisco Castelo Branco, encarregado pela então primeira-dama de fazer valer a proibição. Carluxo ainda

tentou insistir, mas não houve jeito. Chorando e gritando pelo estacionamento do palácio, ele foi obrigado a ir embora.

EX-PRIMEIRA-DAMA É SUSPEITA DE SE BENEFICIAR DE “RACHADINHA”

Já nos estertores do governo, funcionários da confiança de Bolsonaro e de Michelle levaram embora caixas e mais caixas de picanha, camarão e bacalhau comprados com dinheiro público que estavam armazenadas na câmara frigorífica anexa à cozinha. Ainda nos últimos dias de 2022, moedas jogadas por turistas no espelho d’água que enfeita a entrada do Alvorada foram “pescadas” e carregadas pelo “síndico” do palácio, também com autorização de Michelle – supostamente para serem doadas a uma igreja.

Com regularidade, várias vezes por mês, a equipe encarregada de auxiliar Michelle recebia a incumbência de passar no Planalto para pegar os recursos, em espécie, na sala do tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Cid, o agora notório ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

Cid, que após a reportagem publicada aqui no último dia 20 tornou-se o pivô da queda do comandante do Exército, é investigado, entre outras coisas, pela suspeita de gerenciar o caixa 2 palaciano com verbas que tinham como origem, inclusive, saques feitos na boca do caixa com cartões corporativos do governo.

Mensagens obtidas com exclusividade pela coluna de Rodrigo, mostram que bastava um pedido de Michelle para que Cid autorizasse os assessores da primeira-dama a retirarem o dinheiro, no Planalto, com algum dos militares que integravam seu time na ajuda de ordens do então presidente da República. Também era ele quem providenciava depósitos, igualmente em dinheiro vivo, na conta pessoal da mulher de Jair Bolsonaro.

Há evidências, ainda, de que Michelle, primeira-dama do Brasil até 31 de dezembro passado, recebia com regularidade, no Alvorada, envelopes de dinheiro enviados por Rosimary Cardoso Cordeiro, amiga íntima que no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro viu seu salário de assessora no gabinete de um senador governista ser quase triplicado.

Os indícios, que poderão ser esquadrinhados minuciosamente na investigação em curso no STF, apontam para mais uma “rachadinha” no ex-clã presidencial. Áudios e outros registros aos quais a coluna teve acesso comprovam que assessores de Michelle no Palácio da Alvorada tinham por tarefa pegar com Rosi – seja no prédio dela, no Riacho Fundo, região administrativa do DF, seja em um ponto de encontro entre o Planalto e o Congresso Nacional — os envelopes recheados de notas de reais.

FUNCIONÁRIOS DENUNCIAM ASSÉDIO E PERSEGUIÇÃO COM AVAL DOS BOLSONARO

Descrita como uma pessoa temperamental, de humores que mudavam de supetão, Michelle costumava destratar a equipe de funcionários escalada para auxiliá-la. Algumas assessoras chegaram a pedir para deixar o trabalho, queixando-se da maneira como eram tratadas. Pelo menos uma delas cogitou processar a então primeira-dama por assédio. Acabou desistindo do plano por entender que não teria força para levar adiante uma querela judicial contra alguém que, àquela altura, estava no topo do poder. Outra assessora foi embora sem ouvir nem sequer um obrigado.

O relacionamento difícil de Michelle com o staff que a atendia mais proximamente se refletia nas demais relações de trabalho dentro do palácio, inclusive naquelas que envolviam pessoas simples, como jardineiros e funcionários da limpeza. O Alvorada está num terreno que equivale a 50 campos de futebol, à beira do Lago Paranoá. De área construída, o edifício inaugurado em 1958 tem 7 mil metros quadrados, distribuídos em três pavimentos. Para funcionar, a megaestrutura palaciana conta com uma tropa de empregados, civis e militares. São cerca de duas centenas de pessoas, que cuidam do atendimento mais direto aos inquilinos de momento – há maître, garçons, cozinheiros, camareiros, motoristas – e dos serviços de manutenção predial e dos jardins.

Em fevereiro de 2021, a tarefa de comandar a máquina do Alvorada foi confiada por Michelle ao pastor Francisco de Assis Castelo Branco (foto acima), próximo da família desde os tempos em que ela e Bolsonaro moravam no Rio. Francisco, ou Chico, como era chamado na intimidade do clã, é marido de Elizângela Castelo Branco, intérprete de Libras que, de tão íntima da ex-primeira-dama, chegou a acompanhá-la na viagem de fim de ano à Flórida. Ainda no Rio, Michelle, Elizângela e Francisco integravam um núcleo da Igreja Batista Atitude voltado à comunidade surda.

No ano passado, o pastor convocou uma reunião com os empregados da empreiteira contratada pelo governo para cuidar da jardinagem do Alvorada. O motivo: ele queria chamar a atenção de funcionários que haviam se queixado porque estavam sendo obrigados a limpar um banheiro de serviço – como eram contratados para cuidar do jardim, alguns alegavam que estavam em desvio de função. Sobrou para todos. Em 25 minutos de monólogo, Francisco desfilou a arrogância que lhe rendeu o apelido indesejado. “Quem não pode limpar o banheiro não pode nem cagar. Caga no mato, então, caga em casa. Entendeu? Usa aquela bolsa. Porque é sacanagem isso”, estrilou. Ele ameaçou cortar o lanche que era oferecido diariamente ao grupo. O pastor ainda explicou, do seu modo, sem papas na língua, por que empregados da Novacap, a companhia urbanizadora de Brasília, haviam sido cortados do Alvorada: além de “velhos”, disse, eram “preguiçosos”. O tom de

ameaça era explícito (ouça a seguir os principais trechos da reunião). O áudio pode ser escutado aqui, no canal do Metrópoles no Youtube.

A decisão de proibir os funcionários de escalão mais baixo de entrar na área do palácio portando telefones celulares gerou situações desagradáveis. Uma senhora passou o dia sem saber que um parente havia morrido, relata um ex-empregado. Ela só recebeu a notícia no fim do expediente porque o administrador não havia sequer deixado um telefone por meio do qual os funcionários poderiam ser acionados por familiares em caso de emergência. “Ele destratava os empregados, especialmente os mais humildes”, diz um militar que lidava com frequência com o pastor.

A coluna de Rodrigo Rangel ainda revela que o pastor Francisco também é personagem de dois episódios ocorridos no Alvorada já nos derradeiros dias do governo Bolsonaro e que, até agora, eram conhecidos apenas por quem vive os bastidores do palácio.

Na primeira visita que fez à residência após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, a atual primeira-dama do país, Janja da Silva, e os seus auxiliares disseram que não teriam interesse nos mantimentos perecíveis – comprados com dinheiro público – que os Bolsonaro deixariam na despensa. Janja, então, autorizou os funcionários a dividirem o farnel entre si. Ocorre que foram poucos, ou pouquíssimos, os que se beneficiaram.

Funcionários relatam que os itens de maior valor, como carnes nobres – peças de picanha e filé mignon, por exemplo – e fardos de camarão e bacalhau, simplesmente desapareceram. Testemunhas dizem que um grupo restrito de funcionários ligados à administração fez a limpa na despensa, sem compartilhar com os demais.

O MISTERIOSO SUMIÇO DAS PICANHAS E DAS “MOEDAS DA SORTE” DA RESIDÊNCIA OFICIAL

Numa adaptação para os trópicos de um costume típico de atrações como a Fontana di Trevi, em Roma, turistas que visitam o Alvorada jogam moedas no espelho d’água que decora a frente do palácio presidencial. É um gesto que, diz a crença popular, traz sorte. Pouco antes de os Bolsonaro deixarem o palácio, funcionários receberam uma ordem para esvaziar o fosso e juntar as milhares de moedas acumuladas ali. Pastor Francisco – de novo ele – foi quem tomou a frente. Disse que o pedido havia sido feito por Michelle Bolsonaro. As carpas foram presenteadas pelo imperador japonês Hirohito ao ex-presidente Fernando Collor e achava que elas davam sorte. A morte delas poderia trazer mau agouro.

A “pescaria” rendeu um balde cheio – não se sabe exatamente quanto havia. Funcionários dizem que Francisco levou as moedas embora, dizendo que as doaria para uma igreja. “Se ele doou ou não, não sei, mas ele falou que era a mando da Michelle”, relata um empregado do palácio. O pastor Francisco, a despeito da amizade íntima com o

casal Bolsonaro, até se movimentou para ficar no Alvorada de Lula. Não conseguiu. Foi exonerado no último dia 5 de janeiro.

O Metrópoles tentou contato com Jair e Michelle Bolsonaro, além do ex-administrador do Palácio, Francisco Castelo Branco, e não obteve respostas em relação às denúncias. “A interlocutores o tenente-coronel Mauro Cid negou que houvesse qualquer irregularidade no manejo do dinheiro. Rosimary Cordeiro, a amiga de Michelle empregada no Senado, negou que enviasse envelopes com dinheiro para a então primeira-dama e que encontrasse funcionários do palácio para entregar as ‘encomendas’.”

Em resposta, o senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou no último sábado (4) que vai entrar com representações no Ministério Público Federal (MPF) e na Polícia Federal (PF) pedindo a investigação de Michelle Bolsonaro, após as denúncias da coluna. Até o final desta reportagem, não houveram atualizações no caso.

Para ler a reportagem completa feita pelo Metrópoles, acesse o link.

Crise humanitária Yanomami: entenda o cenário e saiba como doar

Na segunda-feira (16) da semana passada, uma força tarefa foi montada pelo Ministério da Saúde com o objetivo de realizar um diagnóstico sobre a saúde dos indígenas Yanomami e traçar ações futuras para manter a saúde e segurança deles. Após verificarem a absurda situação de desnutrição, o Ministério da Saúde declarou neste sábado (21) estado de emergência na saúde indígena do território.

Nos últimos dias, mais de mil indígenas foram resgatados em estado grave. Em fotos que circulam pelas redes sociais, indígenas em situações de extrema vulnerabilidade, sendo a maioria dos registros de idosos e crianças.

Os indígenas estão sendo resgatados e levados ao posto de Surucucu, uma unidade considerada de referência na região, também de estrutura precária. Os quadros gravíssimos são encaminhados para Boa Vista.

“É uma operação que envolve uma complexidade muito grande, uma estrutura, uma logística e nós precisamos cobrir todo o território, principalmente aquelas comunidades que estão muitas vezes refém das ações dos garimpeiros”, diz o secretário, definindo o cenário como de guerra.

Em 2022, 99 crianças, entre um e 4 anos morreram, sendo a maioria por desnutrição, pneumonia e diarreia. Além disso, foram registrados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami. O destaque foi para os casos na faixa etária de maiores de 50 anos, seguida pela dos 18 a 49 anos, e a dos cinco aos 11 anos de idade, como aponta o Ministério dos Povos Indígenas.

A Ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara ainda afirmou que pelo menos 570 crianças morreram de desnutrição nos últimos quatro anos.

No último sábado (21), o presidente Lula esteve presente em Roraima e discutiu sobre a crise humanitária no território, que possui 370 aldeias e 10 milhões de hectares, além de cerca de 28 mil indígenas isolados em áreas de difícil acesso — quase todas atingidas pelo garimpo. Ele também decretou a criação de um comitê para discutir medidas que devem ser tomadas. As ações do comitê durarão 90 dias e há chances de prorrogação do prazo.

O GARIMPO NA REGIÃO

O território Yanomami é localizado entre os estados de Roraima e Amazonas e tem sido alvo principal do garimpo, que trouxe conflitos e consequências severas para os indígenas da região.

Garimpo é o nome que se dá à exploração, mineração ou extração, manual ou mecanizada, de substâncias minerais. Na região Norte do Brasil, a prática é comum e acontece de forma ilegal, dentro de territórios indígenas.

O mercúrio, usado para a extração do ouro, possui o poder de poluir rios, contaminar peixes e foi responsável por impactar a principal fonte de água e alimento dos indígenas.

“O garimpo é parte constituinte do processo de colonização do Brasil e da Amazônia também”, pontua a pesquisadora France Rodrigues, professora da UFRR.

A garimpagem do ouro, do diamante, da borracha e todo o processo de exploração desses recursos naturais, tem uma carga transformadora da natureza. “Existem trabalhos que provam que o mercúrio derramado afeta diretamente o solo, os rios, e causa danos aos seres humanos, aos peixes, à vida marinha. Esse cenário também é extremamente danoso quando a gente pensa nos animais, na vegetação”.

“O mercúrio também pode causar cânceres e doenças irreversíveis ao ser humano. Aqui ou em qualquer lugar que você tenha garimpagem, você vai encontrar esses impactos direto na natureza e consequentemente na vida das pessoas que estão próximas”, continua ela, para o Brasil de Fato.

“A presença dos garimpeiros espalha malárias, Covid e outras doenças”, explica a ativista da Survival International, Priscilla Oliveira.

Acampamento de garimpeiros Créditos: Bruno Kelly/Relatório Yanomami Sob Ataque

A Hutukara estima que atualmente mais de 20 mil invasores estejam no território revirando o fundo dos rios e florestas em busca de ouro. Esse levantamento feito era tratado como “exagerado” pelo governo Bolsonaro, como afirmou o então vice-presidente, Hamilton Mourão.

SITUAÇÃO DURANTE O GOVERNO BOLSONARO

Numa carta enviada ao presidente Lula em dezembro de 2022, mulheres yanomami contam que, quando buscam ajuda médica nos postos de saúde, recebem como resposta lamentos sobre a falta de remédios que nunca chegavam, mesmo com a insistência junto às autoridades.

“Essa malária é muito forte e não tem medicamentos para tratá-la. O governo de Bolsonaro acabou com o estoque de cloroquina do Brasil e agora nós sofremos pela sua má gestão. Não queremos ficar chorando porque as pessoas morrem, não queremos ficar chorando até a madrugada. Já temos muitas cinzas mortuárias”, relata o documento redigido por elas.

Além de atos violentos, como o de um posto de saúde incendiado por garimpeiros, estupros de mulheres e meninas yanomamis eram constantes. “Garimpeiros assediam as meninas e outros querem pagar serviços maritais. Eles querem fazer assim, mas nós mulheres não queremos que nossas filhas e netas sejam entregues e abusadas por essas pessoas. Os garimpeiros aliciam os jovens e suas esposas. Esses jovens são atraídos e ficam dependentes dos poucos alimentos industrializados que recebem como pagamento.”

Em 2021, o G1 e o Fantástico registraram um editorial com cenas inéditas e exclusivas de crianças extremamente magras, com quadros aparentes de desnutrição e de verminose, além de dezenas de indígenas doentes com sintomas de malária nas três comunidades visitadas: Xaruna, Heweteu I e II.

Ainda de acordo com o portal, em novembro de 2022, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram a operação Yoasi, contra a fraude na compra de remédios destinados ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), em Boa Vista.

O esquema criminoso deixou pelo menos 10 mil crianças indígenas sem medicamentos, de acordo com as investigações. Elas também indicam que dois coordenadores de suas respectivas gestões firmaram o contrato com uma empresa para o fornecimento de 90 tipos de medicamentos. Entretanto, a companhia entregou menos de 30% do previsto.

Todos os fatos que levaram à crise humanitária foram denunciados há anos por lideranças indígenas, mas ignoradas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Em recente pronunciamento no Telegram, Jair negou descaso de seu governo com os povos indígenas e destacou tal acusação como “uma farsa da esquerda”.

Entretanto, durante a pandemia de Covid-19, o ex-presidente acatou um pedido da ex-ministra Damares Alves, que solicitava o veto de medidas protetivas para os indígenas como o fornecimento de itens como água potável; materiais de limpeza, higiene e desinfecção; leitos de UTI; ventiladores pulmonares; e materiais informativos sobre a covid-19. O veto de Bolsonaro, no entanto, foi derrubado pelo Congresso Nacional.

A justificativa de Damares para o pedido era de que os povos não haviam sido “diretamente consultados pelo Congresso Nacional.”

Uma pesquisa divulgada pela Folha de S. Paulo em junho de 2022, mostrou que 43% dos brasileiros pensam que o governo Bolsonaro mais estimulou o desmatamento na região e a ação de caçadores e pescadores ilegais do que combateu as ilegalidades.

A DESNUTRIÇÃO É UM PROBLEMA ESTRUTURAL: SAIBA COMO AJUDAR

A antropóloga e sanitarista Fabiane Vinente faz um alerta: ela aponta que a desnutrição dos indígenas é um problema crônico de vários povos, não apenas dos Yanomami, portanto é uma questão estrutural. A desnutrição está relacionada a processos de desestruturação do modo de vida daquele povo, da forma como eles habitam o mundo.

“A invasão dos territórios por garimpos, madeireiros e outros (inclusive missões religiosas) alteram a forma de gestão territorial desses povos. Vi gente que passou a ser proibida de circular em determinados pontos do seu território para evitar os garimpeiros.

As alterações territoriais dos garimpos também envolvem perda de contingente de caça e pesca, além do risco de violência sexual contra meninas e mulheres. Alcoolização também entra nesse pacote.

Não é só a questão nutricional. As taxas de suicídio entre os indígenas são imensamente maiores que entre os não indígenas: (15,2 óbitos/100 mil habitantes), quando comparados com brancos (5,9/100 mil habitantes) e negros (4,7/100 mil habitantes).

Não apenas em saúde, mas em saúde indígena, que é algo específico. Por exemplo: o acompanhamento de grávidas, puérperas e crianças de 0 a 5 anos só é possível com insumos, equipes de saúde bem treinadas, com deslocamento e presença constante nos territórios.

Não é só empurrar comida, entendem? E que comida, né? Os Yanomami são um povo de contato relativamente recente. Possuem uma forma de ver o mundo muito própria. A pandemia deixou cicatrizes fortes por lá.

É preciso política pública, é preciso ação do Estado. Campanha de “cestas” vai render lindas fotos, mas pode ser só mais uma forma de tumultuar. E não, não vai resolver. Então eu acho que não é por aí.

Querem ajudar os Yanomami?

Colaborem com as organizações do movimento indígena que vêem denunciando esses problemas há anos: hutukara.org A Hutukara é de Roraima, gestada por Yanomami e têm campanhas abertas.

A Secoya, embora seja coordenada por não indígenas, têm um trabalho de mais de 30 anos com os Yanomami do Marauiá e Demini.

O CIR (Conselho Indígena de Roraima) é uma das primeiras organizações indígenas do Brasil cir.org.br/site/ Apoiem! Eles também representam os Yanomami de Roraima. E pressionem. Não deixem isso cair no esquecimento.

É como eu sempre digo: perguntem aos indígenas. Sempre perguntem aos indígenas como podem ajudar. Não caiam no conto do “branco bonzinho” que sabem o que é melhor para eles, eles já estão cansados disso.

No território Yanomami as aldeias podem ter dias de distância de uma para outra. A única forma de comunicação externa em alguns lugares é a radiofonia, que pode ser a diferença entre a vida e a morte em uma comunidade. Ajudem aí a ampliar a rede: hutukara.org/index.php/proj…

E SE as organizações indígenas acharem por bem distribuir comida, ok. Mas ELES SABEM que comida e onde distribuir. Então apoiem eles, gente. Muito mais garantido fortalecer o movimento indígena, que luta pela soberania dos territórios, do que ONGs externas (com todo respeito)”, finaliza ela, no Twitter.

Para acrescentar, um mutirão organizado pela CUFA e a FNA arrecada alimentos e doações para os indígenas Yanomami. Também estão sendo aceitas doações de todos os tipos de produtos de higiene, além de dinheiro. Existem cerca de 3 pontos para a arrecadação das doações: Parque Santo Antônio, na Zona Sul de São Paulo; e Paraisópolis e Heliópolis, também na Zona Sul da capital. A chave PIX para ajuda monetária é doacoes@cufa.org.br. Você também pode doar por meio do site ParaQuemDoar.

Fontes: Correio Braziliense, DW, g1

8/1 e o ataque terrorista bolsonarista aos Congresso

Neste final de semana, cerca de 4 mil pessoas chegaram em Brasília, para protestar contra a eleição do atual presidente Lula. Em um momento inicial, o ato golpista, que se iniciou pacífico, foi escoltado pela Polícia Militar até a Esplanada dos Ministérios. Após tentarem furar o bloqueio, a PM, com poucas equipes na Esplanada, tentou conter os golpistas, que estavam com pedaços de pau e pedra, apenas com o uso de spray de pimenta e bombas de efeito moral. Alguns policiais foram agredidos e até mesmo um cavalo da equipe da polícia teve de ser socorrido. Com o caos instaurado, os golpistas se direcionaram para os prédios dos três poderes e começaram os atos terroristas. Os golpistas depredaram o patrimônio público, quebraram móveis, vidraças e destruíram documentos e obras de arte.

Imagem: [Reprodução Twitter | @do_prisco]

Por volta das 15h da tarde, terroristas subiram na parte de cima do Congresso para alcançar a área interna da Câmara e Senado. Cadeiras foram jogadas para fora, o chão foi inundado por mangueiras de incêndio, salas de gabinetes destruídas e terroristas de extrema-direita flagrados evacuando. Os prédios já foram esvaziados, porém muitos golpistas ainda se reunem na parte exterior e estão sendo lentamente dispersados pela Tropa de Choque.

A Polícia Militar do DF foi alvo de críticas por não ter evitado os ataques. O jornal Brasil de Fato apontou motivos de que Ibaneis Rocha, governador do DF, possui responsabilidade nos atos golpistas. Um deles, é que durante o governo Bolsonaro, Ibaneis escalou um ministro da Justiça como secretário de segurança do DF, Anderson Torres, que foi autorizado a viajar à Orlando de férias, onde também está Bolsonaro. Além de que, a polícia escoltou os terroristas durante todo o trajeto — falta de resistência, que foi extremamente criticada por toda a imprensa.

O G1 mostrou com exclusividade um grupo de dez policiais militares do DF que foi filmado conversando com bolsonaristas e registrando imagens da invasão ao Congresso Nacional. Agora há pouco, Torres foi exonerado por Ibaneis, e fez um pedido de desculpas público, diretamente para os Três Poderes. A AGU reinvindicou prisão em flagrante de todos os envolvidos e de Anderson Torres, além de comunicar às plataformas, para que todo e qualquer conteúdo que incita atos golpistas, seja removido. O congresso americano questiona a permanência de Bolsonaro no país. Até a imprensa mundial se manifestou sobre o ato golpista.

Até o momento, o governo do DF afirma que cerca de 400 pessoas foram presas em flagrante, por depredação do patrimônio público.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que todas as pessoas serão encontradas e punidas. “Vamos descobrir quem são os financiadores”, comentou. “Se houve omissão de alguém do governo federal que facilitou isso, também será punido.” Lula disse que houve “incompetência, má-fé ou maldade” das forças de segurança do Distrito Federal.

O presidente decretou intervenção federal na segurança do Distrito Federal e nomeou Ricardo Garcia Cappelli como responsável pela segurança pública na capital. Cappelli é secretário-executivo do Ministério da Justiça, braço direito do ministro Flávio Dino.

Segundo o G1, a intervenção está prevista para durar até o dia 31 de janeiro. Com ela, os órgãos de segurança pública do Distrito Federal ficam sob responsabilidade de Cappelli, com subordinação a Lula. “O objetivo da intervenção é pôr termo a grave comprometimento da ordem pública no Estado no Distrito Federal, marcada por atos de violência e invasão a prédios públicos”, diz o decreto.

Dentre inúmeros políticos, grandes personalidades e especialistas, a antropóloga Lilia Schwarz comentou sobre a tentativa de golpe: “O silêncio de Bolsonaro é muito eloquente. O silêncio do procurador geral da república, Augusto Aras, também é revelador. Ele que passou 4 anos passando pano por sobre os atos bárbaros de Jair Bolsonaro.”

O diretor de redação da Revista Piauí, André Petry, também disse em nota: “É fato que boa parte deles passou dois meses penando sob sol e chuva em defesa de um golpe na frente do quartel- general do Exército, em Brasília. Mas sempre foram tratados com aquele carinho desabrido pelos militares e pelas demais forças de segurança. Nunca se viu um aparato de segurança tão gentil, tão respeitoso. Os golpistas eram gente amiga, aliados do peito. Por isso, puderam se organizar com tranquilidade, escolher a data adequada para agir e transformar Brasília num vexame internacional.”

Dor e medo do futuro: por que mulheres negras estão desistindo de ter filhos

“A gente vê hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros já me dói tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu?”, diz a designer de moda, Lorena Vitória, após ver os seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Polícia Militar. A entrevista foi dada para a Folha de S. Paulo.

O caso de Lorena não é isolado. Cada vez mais, as escolhas e necessidades das mulheres negras têm sido pautadas pela violência racial e, na maioria das vezes, abrem mão de um sonho por falta de opção e assistência do Estado. De acordo com o Atlas da Violência 2021, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a década de 80 o aumento de homicídios foi mais acentuado entre a população negra, especialmente os mais jovens.

O medo de ser mãe se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo FBSP com microdados do Anuário de Segurança Pública mostra que os negros são 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens. Isso significa que um homem negro tem 3,7 vezes mais chance de morrer do que um não negro.

O estudo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicada nos Cadernos de Saúde Pública em 2017, mostra que as mulheres pretas são mais propensas do que as brancas a terem um pré-natal inadequado, ausência de acompanhantes no parto e menos anestesia local quando praticada a episiotomia, que consiste num corte na região da vagina para facilitar a saída do bebê.

“Imagine a dor de uma mãe que precisa dar como conselhos de sobrevivência ao filho que tanto ama, frases como: ‘não corra pela rua, não faça gestos bruscos, não ande de boné, corte esse cabelo’, entre outros comportamentos que seriam normais para qualquer cidadão, mas que para negros se tornam motivos da desconfiança da sociedade, gerando violência e até a morte”, diz o colunista do UOL, André Santana, em matéria assinada por ele.

Mesmo com todos esses cuidados, a educadora e ativista norte-americana Mamie Till, enfrentou a dor de perder o seu único filho, Emmett Till, em um crime bárbaro nos anos 50, durante as férias na casa do tio e primos, em Mississipi. O garoto negro de 14 anos, sofreu acusações de que havia assobiado para uma mulher branca, chamada Carolyn Bryant. Emmett foi sequestrado e assassinado brutalmente pelo marido e cunhado da mulher. A dor de ver o corpo de seu filho irreconhecível, despertou a vontade de Mamie em deixar que todos observassem o que dois homens brancos fizeram com ele. O velório de Emmett teve o caixão aberto e despertou a visita de mais de 10 mil pessoas.

Apesar dos cuidados constantes das famílias negras, novos sentidos de urgência surgem com o maior conhecimento sobre a perigosa engrenagem que move e sedimenta o racismo estrutural. […] A maternidade ainda é concebida pela sociedade como ferramenta válida para o acirramento da opressão

e da violência contra mulheres, a partir da constatação sobre a existência do que Biroli (2014) chama de “treinamento social para o cuidado com os outros”, sejam estes os mais velhos ou os filhos. (Barbosa, 2017, p. 116).

Souza e Gallo (2002), a partir da obra de Foucault, também afirmam que […] o racismo é o mecanismo pelo qual o Estado justifica seu direito de matar, numa sociedade biopolítica, fundada na afirmação da vida. E o que é mais interessante: o direito de matar é justificado como uma afirmação da própria vida, uma vez que a eliminação do diferente, do menos dotado, do menos capaz, implica a purificação da raça, o melhoramento da população como um todo. A cada um que morre, o conjunto resultante é melhor que o anterior.

O racismo é motor de sofrimento psíquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília e autora da tese “Onde se esconde o racismo na psicologia clínica?”. Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de proteção à saúde mental. Não ter filhos é um deles, uma vez que não precisariam se preocupar com as violências que viriam a sofrer. Pode ser uma medida de autoproteção, no sentido de não ter que se preocupar com a criança, mas vai além disso. É também não trazer uma criança para esse mundo violento. Eu vou me poupar de não ter essa preocupação, mas também é um alívio não vivenciar essa criança sendo exposta a esse mundo.”

De acordo com a pesquisa “Justiça dos Homens” à “Justiça Divina”: Experiências públicas de familiares vítimas em Campos de Goytacazes coordenada por Jussara Freire, as mães entrevistadas tinham medo de algo de ruim acontecer com seus filhos e esse sentimento era recorrente, pois elas acreditavam “que a maldade dos ‘outros’ havia crescido nos últimos anos”. Apesar de não explicitarem inicial e nitidamente o motivo de seus medos, ao longo da entrevista, explicavam que era justamente pelo fato de temerem o que poderia acontecer com seus filhos negros. Estar fora de casa, para elas, é visto como uma exposição ao risco de ser vítima de violência e, portanto, de perigo. Neste sentido, as mães desdobravam uma série de cuidados constantes para a segurança e preservação da vida dos filhos.

A maternidade no contexto das mulheres negras, é um elemento que se relaciona à resistência, quando associada com a luta do gestar e do maternar desejado e/ou autorizado. Ela assim, configura-se como um elemento do (re) existir, significada como uma reivindicação histórica. Neste contexto, ressalta-se também que o racismo e sexismo atuam historicamente na perpetuação de uma representação da negra que serve e cuida dos outros, isto é, vistas como corpos sem mentes. Para ela, “(…) os corpos femininos negros são postos numa categoria, em termos culturais, tida como bastante distante da vida mental” (hooks, 1995, p. 469).

E esses aspectos também abrangem os filhos, como a demarcação da infância construída historicamente, que são as concepções de “criminalização”, “delinquência”, “problema social”, sendo que essa definição se refere, em especial, às crianças pobres e negras. Esta visão surgiu no Brasil, tendo como referência o modelo francês, fazendo com que as crianças fossem recolhidas da sociedade, mascarando assim a Questão Social e a existência da pobreza (BENEVIDES, et al, 2014).

Um exemplo disso, foram os casos no Parque da Vila Sésamo, onde o personagem abraça crianças brancas e não as negras; e de Titi e Bless, filhos de Gio Ewbank e Bruno Gagliasso, que junto com crianças angolanas em um hotel, foram xingados de “pretos imundos”.

Vale-se questionar além dos fatores exemplificados que, o Estado vem colaborando para um plano de eliminação do povo negro, desde a violência policial à evolução biológica. Enquanto políticas cabíveis não forem executadas, mais mulheres terão medo da próxima geração, abrirão mão de seus sonhos, perderão seus filhos para cruel mortandade que assola as periferias e serão estatísticas num extermínio cuidadosamente planejado. O higienismo e branqueamento racial não são parte do passado, eles estão sendo executados aqui e agora.

REFERÊNCIAS

“MATERNIDADE NEGRA E A VALORAÇÃO DA VIDA DE JOVENS NEGROS

FRENTE AO HORIZONTE DE VIOLÊNCIA” por Carolina Nascimento de Melo; NA ENCRUZILHADA DA MATERNIDADE NEGRA por Jade Alcântara Lôbo e Izabela Fernandes de Souza; RACISMO E A IDENTIDADE DAS CRIANÇAS NEGRAS: UM LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO SOBRE AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS EM CONTEXTO ESCOLARES por Cássio Manuel Baêta Mendes e Gisely Pereira Botega; CUIDADO, MATERNIDADE E RACISMO: REFLEXÕES ENTRE PSICOLOGIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL por Thais Gomes de Oliveira, Bruna Moraes Battistelli e Lílian Rodrigues da Cruz.

Hitlerismo esotérico: entenda o que é o movimento seguido peloautor de atentado contra Cristina Kirchner


Na última semana, o mundo assistiu as imagens do atentado contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. As cenas mostravam um homem se aproximando da vice com uma arma apontada diretamente para seu rosto. Ele tentou atirar duas vezes, mas a arma falhou. Ao fugir, foi pego por apoiadores de Cristina que estavam em frente à sua casa protestando contra o pedido de prisão feito pelo Ministério Público argentino, acusando-a de desviar dinheiro público. A namorada do atirador também foi presa, por suspeita de envolvimento no atentado.


A imprensa argentina não demorou para divulgar o nome do responsável pelo atentado: Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos. Cidadão brasileiro, filho de pai chileno e mãe argentina, Fernando mora na Argentina desde 1993. Na primeira imagem do atirador divulgada pela imprensa, um detalhe chamou a atenção: uma tatuagem no cotovelo de um sol negro, símbolo nazista conhecido mundialmente por ter sido usado pelo Batalhão Azov, agrupamento neonazista da Ucrânia. Grupos neonazistas de caráter contracultura como o Misatropic Division já utilizavam o símbolo há anos em diversos países europeus.


Segundo a Revista Fórum, a jornalista Letícia Oliveira, que pesquisa justamente o crescimento de grupos de extrema direita no Brasil, encontrou os perfis de Sabag Montiel nas redes sociais. No Facebook e Instagram as contas não mostraram qualquer interesse na política brasileira, mas as suas fotos e curtidas revelaram que ele se alinha ideologicamente com o que pesquisadores da extrema-direita conhecem como “hitlerismo esotérico”. Tatuagens, símbolos e referências que ligam o autor do atentado frustrado a grupos neonazistas ativos no país vizinho, foram encontrados nas redes sociais pela jornalista.

Tudo indica que Fernando está ligado a uma linha do hitlerismo esotérico criada pelo esotérico e escritor argentino Luis Felipe Cires Moyano Roca.

Letícia explicou que esse tipo de hitlerismo ocultista não está atrelado ao nazismo histórico (que envolve a ascensão e a duração regime nazista e fascista), mas que foi resgatado por neonazistas do pós-guerra uma vez que, ao mesmo tempo que funciona como resgate de um suposto “passado idílico”, também se apropria e dialoga com interesses típicos da cultura Pop com o intuito de se propagar entre fãs. Basta olhar para o quanto esses temas vêm sendo explorados nos últimos anos, sobretudo em séries de grandes plataformas ou em pequenos canais do Youtube: fantasmas, alienígenas e portais interdimensionais.


É comum o uso da simbologia por grupos neonazistas que se aproximam de visões místicas e esotéricas inspiradas na mitologia hindu – sobretudo nas histórias que tratam das origens da suposta “raça ariana”. Há uma aproximação com o famoso Tradicionalismo de Julius Evola que serviu de base filosófica para o nazifascismo no século XX e hoje alenta pensadores como o russo Aleksander Dugin e o ex-trumpista Steve Bannon, além, é claro, de apresentar semelhanças e aproximações com o falecido brasileiro Olavo de Carvalho.


Nazismo crescente


Na América Latina, criaram-se condições políticas favoráveis para o surgimento de movimentos fascistas no período compreendido entre as duas Guerras Mundiais na maioria dos países. Conforme Hélgio Trindade, a principal questão não diz respeito à existência da presença fascista na América Latina, mas sim à extensão de suas manifestações. Em outras palavras, o problema seria distinguir as imitações, dos movimentos autênticos.

Resultado de uma longa história de atuação da extrema-direita, a Argentina é atualmente o país latino-americano com a maior quantidade de sites neofascistas na internet. Com o crescimento desses grupos nos países vizinhos, o Brasil não fica para trás. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as
regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição.


A pesquisadora afirma que, no ano de 2022 existem 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10
mil pessoas. Para especialistas e estudiosos que se dedicam a investigar o discurso de ódio no Brasil, a falta de leis claras contra práticas abomináveis, como a apologia ao nazismo e outras intolerâncias, é o principal obstáculo para que estes crimes deixem de acontecer no país.


Queima de arquivo


O celular do autor de atentado contra a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pode se tornar uma prova inútil. Segundo o jornal Clarín, ao desbloquear o aparelho, especialistas encontraram a mensagem
“redefinição de fábrica” – o que indica que o telefone voltou a ter as configurações originais e perdeu os dados armazenados. Com isso, a Justiça da Argentina está analisando se o aparelho pode ser enviado aos Estados Unidos para ser submetido a uma tecnologia superior e, assim, recuperar as informações.


Segundo o jornal, a Polícia Federal argentina tentou desbloquear o celular com um software, mas
não conseguiu. Então, encaminharam o telefone para a PSA (Polícia de Segurança
Aeroportuária). Até ser entregue, o aparelho da marca Samsung, teria ficado em um cofre, em
modo avião. Na PSA, o telefone foi conectado mais uma vez a um computador, mas com um
sistema mais moderno do que os usados até então. Foi quando apareceu a mensagem de
“redefinição de fábrica”.


Fontes consultadas pelo portal argentino Infobae disseram que o telefone foi recebido pela PSA
“dentro de um envelope aberto” e o aparelho não estava mais em modo avião.


O suspeito tem antecedentes


Em março de 2021, Fernando Andrés Sabag Montiel, de 35 anos, foi processado por contravenção. Ele foi preso por portar uma faca de 35 centímetros. Na ocasião, ele teria sido abordado pela polícia da cidade de La Paternal, na região metropolitana de Buenos Aires, por dirigir um carro sem placa.


O suspeito disse ser o dono do veículo e afirmou ter perdido a placa em uma batida de trânsito dias antes. Durante a revista, os policiais pediram que Sabag Montiel abrisse a porta do passageiro. Ao cumprir a determinação, a arma branca caiu. O brasileiro afirmou que o objeto era para sua defesa pessoal. A infração foi registrada e ele foi liberado.

O suspeito trabalha como motorista de aplicativo e tem um Chevrolet Prisma registrado em seu nome (o mesmo modelo que consta no processo). O brasileiro vive na Argentina desde 1993.

As informações são do Clarín, citando como fonte o ministro da Segurança, Aníbal Fernández.


FONTE: Ponte Jornalismo, Revista Fórum, UOL, G1, Poder360.


REFERÊNCIAS: A Serpente na rede: extrema-direita, neofascismo e internet na Argentina por
Fábio Chang de Almeida.

Glamourização da Violência no Jornalismo

Nesta semana, Olena Zelenska, esposa do presidente da Ucrânica, recebeu uma enxurrada de críticas após fazer um ensaio para a Vogue, ao lado do marido, em um cenário de guerra. Na publicação da revista intitulada “Retrato de bravura: a primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska”, o principal líder da Ucrânia posa com sua esposa em diferentes locais, incluindo as ruínas do aeroporto de Kiev e a residência oficial dos principais governantes do país. A fotógrafa do editorial foi a Annie Leibovitz, ex-esposa de Susan Sontag – que é autora do livro “Diante da dor dos outros”, que discute a reprodução de imagens de dor e guerra na mídia. O texto da publicação, de Rachel Donadio, revela detalhes sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, destaca a atuação das mulheres na guerra, a vida em tempo de guerra, seu casamento e história compartilhada e sonhos para o futuro do país.

O jornal Firstpost fez questão de discutir sobre o assunto: “A Ucrânia, comandada por um ex-comediante, infelizmente se tornou o alvo de uma sessão fotográfica bastante cruel e auto-estima que pertence à imaginação de um adolescente ou a um filme escrito por Tom Cruise. Zelensky já ganhou aplausos por sua bravura, por seu dom de falar e praticamente cair em eventos de elite como Cannes com a provável esperança de ganhar uma cinebiografia dele. Mas, ei, isso é guerra, morte, destruição e colapso econômico global que pode levar o mundo a um passado do qual trabalhou duro para superar. […] A banalização pode ser sua aliada quando você está na defensiva, mas o uso da mídia como uma vela reluzente de jantar no meio da guerra é, como diriam na moda, estupidez sob medida.”

Não é a primeira vez que a revista se apropria de um cenário caótico para um editorial. Anos atrás, durante a guerra na Síria, uma reportagem de Asma Assad, primeira-dama da Síria, foi divulgada – num momento em que os crimes de Bashar al-Assad estavam vindo à tona. Apesar das críticas, a publicação não foi apagada.

Segundo Sepulveda (2016), a história da imprensa sensacionalista tem dois momentos marcantes. De acordo com o jornalista Danilo Angrimani, em seu livro “Espreme que sai sangue” (1995), um deles ocorreu na França, entre 1560 e 1631, com o surgimento dos primeiros jornais impressos franceses, o Nouvelles Ordinaires e o Gazette de France. Os dois periódicos exploravam em suas páginas notícias trágicas e principalmente histórias sobre crimes ou pessoas defeituosas. Antes disso, era possível encontrar brochuras de aproximadamente 16 páginas, chamadas de “occasionnel”, em que já se relatavam notícias desse tipo.

Com a popularização da imprensa, aliada à criação da máquina ao vapor que permitiu um aumento na tiragem, foram criados jornais populares, destinados a atrair as massas. Um desses jornais era chamado de “canards”, que em francês significa pato, mas também pode ser usada para designar algo falso. Logo a fotografia foi utilizada como registro, para ser armazenada e consultada por profissionais de diversas áreas, e por volta de 1990, o sensacionalismo se aproveitou da tecnologia para fazer a transição entre os diferentes tipos de veículos de comunicação. Segundo Linfield, a fotografia, – tanto quanto a mídia em si (acrescento), tem ‘contribuído muito para o espetáculo, para a excitação retinal, para o voyeurismo, para o terror, inveja e nostalgia, e só um pouco para o entendimento crítico do mundo social.’ […].

O meio de comunicação sensacionalista se assemelha a um neurótico obsessivo, um ego que deseja dar vazão a múltiplas ações transgressoras […] É nesse pêndulo (transgressão-punição) que o sensacionalismo se apoia (ANGRIMANI, 1995, p. 17).Já Arbex Jr. (2001, p.103) escreve que, a mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta aos telespectadores – ou aos leitores – como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os fatos, transformados em notícia, são descritos como eventos autônomos, completos de si mesmos. Os telespectadores, embalados pelo ‘espaço hipnótico’ diante da tela da televisão, acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado ‘natural’, é ‘o’ próprio mundo.

A primeira-dama reagiu às críticas após o ocorrido. “Milhões leem a Vogue e falar diretamente para eles era o meu dever. E essa foi uma experiência interessante […] As primeiras-damas não têm oportunidades de influenciar politicamente, mas nós temos uma influência emocional. Nós entendemo-nos e sentimos o mesmo”, disse em declarações à ‘BBC’.

Para o jornalista Gabriel Fusari, o jornalismo – tanto de moda ou em geral, tem atuado como conteúdo publicitário fantasiado de jornalismo. “Quando não, ele descarta seu papel noticioso e de relevância pública para fortalecer as estruturas do capital, mesmo que sendo hipócrita ao trazer um dito conteúdo político, que na verdade é só uma ferramenta na manutenção de greenwashing ou de uma falta inclusão social. […] Será que esse editorial faz sentido num conflito como esse? Será que essa tentativa de glamourizar a figura da Ucrânia faz bem?”, ele questiona.