Dor e medo do futuro: por que mulheres negras estão desistindo de ter filhos

“A gente vê hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros já me dói tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu?”, diz a designer de moda, Lorena Vitória, após ver os seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Polícia Militar. A entrevista foi dada para a Folha de S. Paulo.

O caso de Lorena não é isolado. Cada vez mais, as escolhas e necessidades das mulheres negras têm sido pautadas pela violência racial e, na maioria das vezes, abrem mão de um sonho por falta de opção e assistência do Estado. De acordo com o Atlas da Violência 2021, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a década de 80 o aumento de homicídios foi mais acentuado entre a população negra, especialmente os mais jovens.

O medo de ser mãe se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo FBSP com microdados do Anuário de Segurança Pública mostra que os negros são 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens. Isso significa que um homem negro tem 3,7 vezes mais chance de morrer do que um não negro.

O estudo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicada nos Cadernos de Saúde Pública em 2017, mostra que as mulheres pretas são mais propensas do que as brancas a terem um pré-natal inadequado, ausência de acompanhantes no parto e menos anestesia local quando praticada a episiotomia, que consiste num corte na região da vagina para facilitar a saída do bebê.

“Imagine a dor de uma mãe que precisa dar como conselhos de sobrevivência ao filho que tanto ama, frases como: ‘não corra pela rua, não faça gestos bruscos, não ande de boné, corte esse cabelo’, entre outros comportamentos que seriam normais para qualquer cidadão, mas que para negros se tornam motivos da desconfiança da sociedade, gerando violência e até a morte”, diz o colunista do UOL, André Santana, em matéria assinada por ele.

Mesmo com todos esses cuidados, a educadora e ativista norte-americana Mamie Till, enfrentou a dor de perder o seu único filho, Emmett Till, em um crime bárbaro nos anos 50, durante as férias na casa do tio e primos, em Mississipi. O garoto negro de 14 anos, sofreu acusações de que havia assobiado para uma mulher branca, chamada Carolyn Bryant. Emmett foi sequestrado e assassinado brutalmente pelo marido e cunhado da mulher. A dor de ver o corpo de seu filho irreconhecível, despertou a vontade de Mamie em deixar que todos observassem o que dois homens brancos fizeram com ele. O velório de Emmett teve o caixão aberto e despertou a visita de mais de 10 mil pessoas.

Apesar dos cuidados constantes das famílias negras, novos sentidos de urgência surgem com o maior conhecimento sobre a perigosa engrenagem que move e sedimenta o racismo estrutural. […] A maternidade ainda é concebida pela sociedade como ferramenta válida para o acirramento da opressão

e da violência contra mulheres, a partir da constatação sobre a existência do que Biroli (2014) chama de “treinamento social para o cuidado com os outros”, sejam estes os mais velhos ou os filhos. (Barbosa, 2017, p. 116).

Souza e Gallo (2002), a partir da obra de Foucault, também afirmam que […] o racismo é o mecanismo pelo qual o Estado justifica seu direito de matar, numa sociedade biopolítica, fundada na afirmação da vida. E o que é mais interessante: o direito de matar é justificado como uma afirmação da própria vida, uma vez que a eliminação do diferente, do menos dotado, do menos capaz, implica a purificação da raça, o melhoramento da população como um todo. A cada um que morre, o conjunto resultante é melhor que o anterior.

O racismo é motor de sofrimento psíquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília e autora da tese “Onde se esconde o racismo na psicologia clínica?”. Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de proteção à saúde mental. Não ter filhos é um deles, uma vez que não precisariam se preocupar com as violências que viriam a sofrer. Pode ser uma medida de autoproteção, no sentido de não ter que se preocupar com a criança, mas vai além disso. É também não trazer uma criança para esse mundo violento. Eu vou me poupar de não ter essa preocupação, mas também é um alívio não vivenciar essa criança sendo exposta a esse mundo.”

De acordo com a pesquisa “Justiça dos Homens” à “Justiça Divina”: Experiências públicas de familiares vítimas em Campos de Goytacazes coordenada por Jussara Freire, as mães entrevistadas tinham medo de algo de ruim acontecer com seus filhos e esse sentimento era recorrente, pois elas acreditavam “que a maldade dos ‘outros’ havia crescido nos últimos anos”. Apesar de não explicitarem inicial e nitidamente o motivo de seus medos, ao longo da entrevista, explicavam que era justamente pelo fato de temerem o que poderia acontecer com seus filhos negros. Estar fora de casa, para elas, é visto como uma exposição ao risco de ser vítima de violência e, portanto, de perigo. Neste sentido, as mães desdobravam uma série de cuidados constantes para a segurança e preservação da vida dos filhos.

A maternidade no contexto das mulheres negras, é um elemento que se relaciona à resistência, quando associada com a luta do gestar e do maternar desejado e/ou autorizado. Ela assim, configura-se como um elemento do (re) existir, significada como uma reivindicação histórica. Neste contexto, ressalta-se também que o racismo e sexismo atuam historicamente na perpetuação de uma representação da negra que serve e cuida dos outros, isto é, vistas como corpos sem mentes. Para ela, “(…) os corpos femininos negros são postos numa categoria, em termos culturais, tida como bastante distante da vida mental” (hooks, 1995, p. 469).

E esses aspectos também abrangem os filhos, como a demarcação da infância construída historicamente, que são as concepções de “criminalização”, “delinquência”, “problema social”, sendo que essa definição se refere, em especial, às crianças pobres e negras. Esta visão surgiu no Brasil, tendo como referência o modelo francês, fazendo com que as crianças fossem recolhidas da sociedade, mascarando assim a Questão Social e a existência da pobreza (BENEVIDES, et al, 2014).

Um exemplo disso, foram os casos no Parque da Vila Sésamo, onde o personagem abraça crianças brancas e não as negras; e de Titi e Bless, filhos de Gio Ewbank e Bruno Gagliasso, que junto com crianças angolanas em um hotel, foram xingados de “pretos imundos”.

Vale-se questionar além dos fatores exemplificados que, o Estado vem colaborando para um plano de eliminação do povo negro, desde a violência policial à evolução biológica. Enquanto políticas cabíveis não forem executadas, mais mulheres terão medo da próxima geração, abrirão mão de seus sonhos, perderão seus filhos para cruel mortandade que assola as periferias e serão estatísticas num extermínio cuidadosamente planejado. O higienismo e branqueamento racial não são parte do passado, eles estão sendo executados aqui e agora.

REFERÊNCIAS

“MATERNIDADE NEGRA E A VALORAÇÃO DA VIDA DE JOVENS NEGROS

FRENTE AO HORIZONTE DE VIOLÊNCIA” por Carolina Nascimento de Melo; NA ENCRUZILHADA DA MATERNIDADE NEGRA por Jade Alcântara Lôbo e Izabela Fernandes de Souza; RACISMO E A IDENTIDADE DAS CRIANÇAS NEGRAS: UM LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO SOBRE AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS EM CONTEXTO ESCOLARES por Cássio Manuel Baêta Mendes e Gisely Pereira Botega; CUIDADO, MATERNIDADE E RACISMO: REFLEXÕES ENTRE PSICOLOGIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL por Thais Gomes de Oliveira, Bruna Moraes Battistelli e Lílian Rodrigues da Cruz.

Hitlerismo esotérico: entenda o que é o movimento seguido peloautor de atentado contra Cristina Kirchner


Na última semana, o mundo assistiu as imagens do atentado contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. As cenas mostravam um homem se aproximando da vice com uma arma apontada diretamente para seu rosto. Ele tentou atirar duas vezes, mas a arma falhou. Ao fugir, foi pego por apoiadores de Cristina que estavam em frente à sua casa protestando contra o pedido de prisão feito pelo Ministério Público argentino, acusando-a de desviar dinheiro público. A namorada do atirador também foi presa, por suspeita de envolvimento no atentado.


A imprensa argentina não demorou para divulgar o nome do responsável pelo atentado: Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos. Cidadão brasileiro, filho de pai chileno e mãe argentina, Fernando mora na Argentina desde 1993. Na primeira imagem do atirador divulgada pela imprensa, um detalhe chamou a atenção: uma tatuagem no cotovelo de um sol negro, símbolo nazista conhecido mundialmente por ter sido usado pelo Batalhão Azov, agrupamento neonazista da Ucrânia. Grupos neonazistas de caráter contracultura como o Misatropic Division já utilizavam o símbolo há anos em diversos países europeus.


Segundo a Revista Fórum, a jornalista Letícia Oliveira, que pesquisa justamente o crescimento de grupos de extrema direita no Brasil, encontrou os perfis de Sabag Montiel nas redes sociais. No Facebook e Instagram as contas não mostraram qualquer interesse na política brasileira, mas as suas fotos e curtidas revelaram que ele se alinha ideologicamente com o que pesquisadores da extrema-direita conhecem como “hitlerismo esotérico”. Tatuagens, símbolos e referências que ligam o autor do atentado frustrado a grupos neonazistas ativos no país vizinho, foram encontrados nas redes sociais pela jornalista.

Tudo indica que Fernando está ligado a uma linha do hitlerismo esotérico criada pelo esotérico e escritor argentino Luis Felipe Cires Moyano Roca.

Letícia explicou que esse tipo de hitlerismo ocultista não está atrelado ao nazismo histórico (que envolve a ascensão e a duração regime nazista e fascista), mas que foi resgatado por neonazistas do pós-guerra uma vez que, ao mesmo tempo que funciona como resgate de um suposto “passado idílico”, também se apropria e dialoga com interesses típicos da cultura Pop com o intuito de se propagar entre fãs. Basta olhar para o quanto esses temas vêm sendo explorados nos últimos anos, sobretudo em séries de grandes plataformas ou em pequenos canais do Youtube: fantasmas, alienígenas e portais interdimensionais.


É comum o uso da simbologia por grupos neonazistas que se aproximam de visões místicas e esotéricas inspiradas na mitologia hindu – sobretudo nas histórias que tratam das origens da suposta “raça ariana”. Há uma aproximação com o famoso Tradicionalismo de Julius Evola que serviu de base filosófica para o nazifascismo no século XX e hoje alenta pensadores como o russo Aleksander Dugin e o ex-trumpista Steve Bannon, além, é claro, de apresentar semelhanças e aproximações com o falecido brasileiro Olavo de Carvalho.


Nazismo crescente


Na América Latina, criaram-se condições políticas favoráveis para o surgimento de movimentos fascistas no período compreendido entre as duas Guerras Mundiais na maioria dos países. Conforme Hélgio Trindade, a principal questão não diz respeito à existência da presença fascista na América Latina, mas sim à extensão de suas manifestações. Em outras palavras, o problema seria distinguir as imitações, dos movimentos autênticos.

Resultado de uma longa história de atuação da extrema-direita, a Argentina é atualmente o país latino-americano com a maior quantidade de sites neofascistas na internet. Com o crescimento desses grupos nos países vizinhos, o Brasil não fica para trás. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as
regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição.


A pesquisadora afirma que, no ano de 2022 existem 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10
mil pessoas. Para especialistas e estudiosos que se dedicam a investigar o discurso de ódio no Brasil, a falta de leis claras contra práticas abomináveis, como a apologia ao nazismo e outras intolerâncias, é o principal obstáculo para que estes crimes deixem de acontecer no país.


Queima de arquivo


O celular do autor de atentado contra a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pode se tornar uma prova inútil. Segundo o jornal Clarín, ao desbloquear o aparelho, especialistas encontraram a mensagem
“redefinição de fábrica” – o que indica que o telefone voltou a ter as configurações originais e perdeu os dados armazenados. Com isso, a Justiça da Argentina está analisando se o aparelho pode ser enviado aos Estados Unidos para ser submetido a uma tecnologia superior e, assim, recuperar as informações.


Segundo o jornal, a Polícia Federal argentina tentou desbloquear o celular com um software, mas
não conseguiu. Então, encaminharam o telefone para a PSA (Polícia de Segurança
Aeroportuária). Até ser entregue, o aparelho da marca Samsung, teria ficado em um cofre, em
modo avião. Na PSA, o telefone foi conectado mais uma vez a um computador, mas com um
sistema mais moderno do que os usados até então. Foi quando apareceu a mensagem de
“redefinição de fábrica”.


Fontes consultadas pelo portal argentino Infobae disseram que o telefone foi recebido pela PSA
“dentro de um envelope aberto” e o aparelho não estava mais em modo avião.


O suspeito tem antecedentes


Em março de 2021, Fernando Andrés Sabag Montiel, de 35 anos, foi processado por contravenção. Ele foi preso por portar uma faca de 35 centímetros. Na ocasião, ele teria sido abordado pela polícia da cidade de La Paternal, na região metropolitana de Buenos Aires, por dirigir um carro sem placa.


O suspeito disse ser o dono do veículo e afirmou ter perdido a placa em uma batida de trânsito dias antes. Durante a revista, os policiais pediram que Sabag Montiel abrisse a porta do passageiro. Ao cumprir a determinação, a arma branca caiu. O brasileiro afirmou que o objeto era para sua defesa pessoal. A infração foi registrada e ele foi liberado.

O suspeito trabalha como motorista de aplicativo e tem um Chevrolet Prisma registrado em seu nome (o mesmo modelo que consta no processo). O brasileiro vive na Argentina desde 1993.

As informações são do Clarín, citando como fonte o ministro da Segurança, Aníbal Fernández.


FONTE: Ponte Jornalismo, Revista Fórum, UOL, G1, Poder360.


REFERÊNCIAS: A Serpente na rede: extrema-direita, neofascismo e internet na Argentina por
Fábio Chang de Almeida.

Glamourização da Violência no Jornalismo

Nesta semana, Olena Zelenska, esposa do presidente da Ucrânica, recebeu uma enxurrada de críticas após fazer um ensaio para a Vogue, ao lado do marido, em um cenário de guerra. Na publicação da revista intitulada “Retrato de bravura: a primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska”, o principal líder da Ucrânia posa com sua esposa em diferentes locais, incluindo as ruínas do aeroporto de Kiev e a residência oficial dos principais governantes do país. A fotógrafa do editorial foi a Annie Leibovitz, ex-esposa de Susan Sontag – que é autora do livro “Diante da dor dos outros”, que discute a reprodução de imagens de dor e guerra na mídia. O texto da publicação, de Rachel Donadio, revela detalhes sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, destaca a atuação das mulheres na guerra, a vida em tempo de guerra, seu casamento e história compartilhada e sonhos para o futuro do país.

O jornal Firstpost fez questão de discutir sobre o assunto: “A Ucrânia, comandada por um ex-comediante, infelizmente se tornou o alvo de uma sessão fotográfica bastante cruel e auto-estima que pertence à imaginação de um adolescente ou a um filme escrito por Tom Cruise. Zelensky já ganhou aplausos por sua bravura, por seu dom de falar e praticamente cair em eventos de elite como Cannes com a provável esperança de ganhar uma cinebiografia dele. Mas, ei, isso é guerra, morte, destruição e colapso econômico global que pode levar o mundo a um passado do qual trabalhou duro para superar. […] A banalização pode ser sua aliada quando você está na defensiva, mas o uso da mídia como uma vela reluzente de jantar no meio da guerra é, como diriam na moda, estupidez sob medida.”

Não é a primeira vez que a revista se apropria de um cenário caótico para um editorial. Anos atrás, durante a guerra na Síria, uma reportagem de Asma Assad, primeira-dama da Síria, foi divulgada – num momento em que os crimes de Bashar al-Assad estavam vindo à tona. Apesar das críticas, a publicação não foi apagada.

Segundo Sepulveda (2016), a história da imprensa sensacionalista tem dois momentos marcantes. De acordo com o jornalista Danilo Angrimani, em seu livro “Espreme que sai sangue” (1995), um deles ocorreu na França, entre 1560 e 1631, com o surgimento dos primeiros jornais impressos franceses, o Nouvelles Ordinaires e o Gazette de France. Os dois periódicos exploravam em suas páginas notícias trágicas e principalmente histórias sobre crimes ou pessoas defeituosas. Antes disso, era possível encontrar brochuras de aproximadamente 16 páginas, chamadas de “occasionnel”, em que já se relatavam notícias desse tipo.

Com a popularização da imprensa, aliada à criação da máquina ao vapor que permitiu um aumento na tiragem, foram criados jornais populares, destinados a atrair as massas. Um desses jornais era chamado de “canards”, que em francês significa pato, mas também pode ser usada para designar algo falso. Logo a fotografia foi utilizada como registro, para ser armazenada e consultada por profissionais de diversas áreas, e por volta de 1990, o sensacionalismo se aproveitou da tecnologia para fazer a transição entre os diferentes tipos de veículos de comunicação. Segundo Linfield, a fotografia, – tanto quanto a mídia em si (acrescento), tem ‘contribuído muito para o espetáculo, para a excitação retinal, para o voyeurismo, para o terror, inveja e nostalgia, e só um pouco para o entendimento crítico do mundo social.’ […].

O meio de comunicação sensacionalista se assemelha a um neurótico obsessivo, um ego que deseja dar vazão a múltiplas ações transgressoras […] É nesse pêndulo (transgressão-punição) que o sensacionalismo se apoia (ANGRIMANI, 1995, p. 17).Já Arbex Jr. (2001, p.103) escreve que, a mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta aos telespectadores – ou aos leitores – como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os fatos, transformados em notícia, são descritos como eventos autônomos, completos de si mesmos. Os telespectadores, embalados pelo ‘espaço hipnótico’ diante da tela da televisão, acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado ‘natural’, é ‘o’ próprio mundo.

A primeira-dama reagiu às críticas após o ocorrido. “Milhões leem a Vogue e falar diretamente para eles era o meu dever. E essa foi uma experiência interessante […] As primeiras-damas não têm oportunidades de influenciar politicamente, mas nós temos uma influência emocional. Nós entendemo-nos e sentimos o mesmo”, disse em declarações à ‘BBC’.

Para o jornalista Gabriel Fusari, o jornalismo – tanto de moda ou em geral, tem atuado como conteúdo publicitário fantasiado de jornalismo. “Quando não, ele descarta seu papel noticioso e de relevância pública para fortalecer as estruturas do capital, mesmo que sendo hipócrita ao trazer um dito conteúdo político, que na verdade é só uma ferramenta na manutenção de greenwashing ou de uma falta inclusão social. […] Será que esse editorial faz sentido num conflito como esse? Será que essa tentativa de glamourizar a figura da Ucrânia faz bem?”, ele questiona.

Violência obstétrica: o que é e como denunciar

Ontem (11) o anestesista Giovanni Quintella Bezerra foi preso após ser pego em flagrante estuprando uma grávida durante a cesariana. A equipe de enfermeiras que trabalhavam com ele desconfiaram de seu comportamento, principalmente por conta da alta dosagem de anestesia que ele aplicava nas pacientes, e decidiram gravá-lo durante o trabalho de parto da gestante. Assim que as funcionárias viram o conteúdo gravado, denunciaram a Polícia Civil e Giovanni foi indiciado por estupro de vulnerável, cuja pena varia de 8 a 15 anos de reclusão. 

A repercussão do crime gerou questionamentos sobre se havia ou não acompanhante no momento em que ocorreu o estupro. Em nota oficial emitida pelo Hospital da Mulher Heloneida Studart, de São João de Meriti (RJ), foi informado que a paciente estava sim acompanhada do marido. Porém, após o nascimento do bebê, o pai deixou o centro cirúrgico para acompanhar o filho até o berçário. Foi neste momento que o anestesista abusou sexualmente da vítima. 

Segundo a Lei Federal nº 11.108, de 07 de abril de 2005, mais conhecida como a Lei do Acompanhante, os serviços de saúde do SUS, da rede própria ou conveniada, são obrigados a permitir à gestante o direito à presença de acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. E, mesmo durante a pandemia da Covid-19, a OMS emitiu uma recomendação para que todas as gestantes, mesmo aquelas com suspeitas de contaminação ou até mesmo com a confirmação da infecção, teriam sim o direito ao acompanhante antes, durante e depois do parto.

Você sabe o que é a violência durante o parto?

A violência durante o parto ou a violência obstétrica é o termo utilizado para caracterizar abusos sofridos por mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto. Pode-se manifestar por meio da violência verbal, física, sexual ou por meio de intervenções e procedimentos desnecessários e realizados sem consentimento.  

Importante ressaltar que este termo não se aplica somente aos profissionais da saúde como médicos, enfermeiros e obstetrizes, mas também às falhas estruturais de clínicas e hospitais. 

Segundo pesquisa divulgada pela Fiocruz em 2021, a violência obstétrica atinge 36% das mulheres, tanto na rede pública quanto privada. Mesmo assim, o termo violência obstétrica não aparece no código penal ou civil nem é citado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO).

Alguns exemplos de violência obstétrica:

  • Humilhações, xingamentos, comentários constrangedores e atos discriminatórios;
  • Episiotomia (corte na lateral da vagina) sem necessidade, sem anestesia e sem informar a mulher;
  • Ocitocina sem necessidade;
  • “Ponto do marido” para apertar a vagina após o parto;
  • Negar anestesia;
  • Manobra de Kristeller (pressão sobre a barriga da mulher);
  • Dificultar o aleitamento materno na primeira hora;
  • Cirurgia cesariana desnecessária;
  • Impedir a mulher de beber água ou se alimentar durante o parto;
  • Amarrar a mulher impedindo-a de se movimentar;
  • Abusar, importunar ou assediar sexualmente;
  • Alterar ou omitir informações. 

Como denunciar?

Caso a mulher sofra violência obstétrica, ela pode denunciar no próprio hospital que estava sendo atendida, nas secretarias Municipal, Estadual ou Distrital, CRM (Conselho Regional de Medicina) quando se tratar de profissional médico ou COREN (Conselho Regional de Enfermagem) quando a abordagem violenta venha de enfermeiro ou técnico de enfermagem. Denúncias também podem ser feitas pelo número 180 ou pelo Disque Saúde 136. O caso pode exigir a abertura de um boletim de ocorrência (BO) e a procura do Ministério Público, que tem o dever de fiscalizar os hospitais. 

Brasil: um país que não respeita as mulheres

Uma menina de 11 anos foi estuprada no início deste ano e, para evitar que fizesse um aborto autorizado, foi mantida pela Justiça em um abrigo de Santa Catarina. Ela só descobriu a gravidez com 22 semanas, quando foi encaminhada para o Hospital Universitário de Florianópolis e onde teve o procedimento para interromper a gestação negado. A suspeita é a de que a violência sexual contra menina tenha ocorrido na casa dela. As informações foram divulgadas pelo site do G1.

O Código Penal permite o aborto em caso de violência sexual, sem impor qualquer limitação de semanas da gravidez e sem exigir autorização judicial. A equipe médica, no entanto, se recusou a realizar o abortamento, permitido pelas normas do hospital só até a semana 20. Por conta disso, o caso chegou nas mãos da juíza Joana Ribeiro Zimmer e da promotora Mirela Dutra Alberton.

Mesmo com o laudo psicológico da garota comprovando que a mesma não queria manter a gravidez, a juíza e promotora tentaram convencê-la a continuar com a gestação. Joana teria perguntado a menina se ela “suportaria mais um pouquinho”. A jurista, Deborah Duprat, afirma que o código penal permite o aborto em qualquer época, ainda mais em uma criança que, além de sofrer o impacto psicológico do abuso, não possui a integridade física preparada para uma gravidez.

A psicóloga, Thais Micheli Setti, funcionária da prefeitura de Tijucas, que fez o acompanhamento da vítima, registrou no laudo de maio que ela “Apresentou e expressou medo e cansaço por conta da quantidade de consultas médicas e questionamentos, além do expresso desejo de voltar para casa com a mãe. Relatou estar se sentindo muito triste por estar longe de casa e que não consegue entender o porquê de não poder voltar para o seu lar”.

Na terça-feira (21) da semana passada, a Justiça de Santa Catarina determinou que a menina fosse liberada do abrigo que estava sendo mantida sob medida protetiva e voltasse à casa da mãe.  No dia seguinte (22) ela conseguiu interromper a gravidez, segundo Ministério Público Federal (MPF).

Diálogo impactante travado entre juíza e a vítima menor de idade:

– Qual é a expectativa que você tem em relação ao bebê? Você quer ver ele nascer? – pergunta a juíza.

– Não – responde a criança.

– Você gosta de estudar?

– Gosto.

– Você acha que a tua condição atrapalha o teu estudo?

– Sim.

Faltavam alguns dias para o aniversário de 11 anos da vítima. A juíza, então, pergunta:

– Você tem algum pedido especial de aniversário? Se tiver, é só pedir. Quer escolher o nome do bebê?

– Não – é a resposta, mais uma vez.

Após alguns segundos, a juíza continua:

– Você acha que o pai do bebê concordaria pra entrega para adoção? – pergunta, se referindo ao estuprador.

– Não sei – diz a menina, em voz baixa.

A audiência com a mãe da vítima seguiu no mesmo tom.

– Hoje, há tecnologia para salvar o bebê. E a gente tem 30 mil casais que querem o bebê, que aceitam o bebê. Essa tristeza de hoje para a senhora e para a sua filha é a felicidade de um casal – afirma Ribeiro.

Ela responde, aos prantos:

– É uma felicidade, porque não estão passando o que eu estou.

Após ser questionada pela juíza sobre qual seria a melhor solução, a mãe segue:

– Independente do que a senhora vai decidir, eu só queria fazer um último pedido. Deixa a minha filha dentro de casa comigo. Se ela tiver que passar um, dois meses, três meses [grávida], não sei quanto tempo com a criança… Mas deixa eu cuidar dela? –  suplicou. – Ela não tem noção do que ela está passando, vocês fazem esse monte de pergunta, mas ela nem sabe o que responder!

Juíza é promovida e segue em silêncio em relação à sua conduta

Desde 2016, o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, denuncia que a gravidez infantil forçada é um tratamento cruel e degradante, equivalente à tortura. Apesar da repercussão negativa, a juíza se retirou do caso alegando ter sido promovida, por um convite feito bem antes do caso. A conduta de Joana tem sido investigada desde semana passada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Já o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) instaurou um procedimento para apurar a conduta da promotora, Mirela Dutra.

Sem aborto, sem adoção — o problema é o corpo feminino

Ainda nesta semana, outro caso chamou a atenção da mídia. Segundo o G1, tudo começou com um post do jornalista Matheus Baldi, no dia 24 de maio, dizendo que a atriz Klara Castanho teria dado à luz a uma criança. A pedido da mesma, esse post foi apagado, mas a notícia se espalhou.

Na última quinta-feira (23), a apresentadora Antônia Fontenelle incitou ainda mais os comentários contra Klara na internet. E, para completar, o jornalista Léo Dias gerou repercussão sobre o assunto no programa The Noite e, ainda, publicou um texto do caso na sua coluna do Metrópolis, fazendo o caso viralizar ainda mais.  

Foi então que Klara decidiu se pronunciar e, por meio de uma carta aberta ao público, revelou que foi estuprada, engravidou e entregou legalmente o bebê para adoção.

“Fui violentada não só pelo homem que me estuprou, mas também pelo julgamento das pessoas”, escreveu a atriz de 21 anos. “Esse é o relato mais difícil da minha vida. Pensei que levaria essa dor e esse peso somente comigo.”

Além da invasão de privacidade, Klara contou que foi abordada e ameaçada por uma enfermeira na sala de cirurgia com as seguintes palavras: “Imagine se tal colunista descobre essa história”. Quando voltou para seu quarto do hospital, já havia mensagens no seu celular do colunista com todas as informações.

Antônia Fontenelle, candidata a vereadora e o jornalista Léo Dias, publicaram vídeos pedindo desculpas diante toda a repercussão negativa. O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo e o Conselho Federal de Enfermagem estão apurando a denúncia, e a enfermeira já foi demitida. O Hospital Brasil se solidarizou.

A atriz também vem sendo criticada nas redes por levar a criança para a adoção. Várias mulheres se solidarizaram, inclusive a jornalista de moda Lele Santhana que disparou: “Ninguém se preocupa com as vítimas dos crimes, pouco se importa se irão decidir pelo aborto ou pela adoção. Elas serão condenadas de todo o jeito. Nunca foi sobre ser pró-vida. Sempre foi sobre o controle total dos corpos femininos”.

86% dos profissionais transexuais sofreram discriminação no trabalho, diz pesquisa

Nesta terça-feira (28), foi celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Para dar ainda mais sentido a data, diversos estudos sobre esse público e eventos especiais foram realizados no mês de junho. Um levantamento inédito chamado “LGBTI+ no Mercado de Trabalho Brasileiro 2022” foi realizado pela Santo Caos com o objetivo de divulgar dados recentes e relevantes sobre esse tema, que ainda é pouco discutido.  

Um dos resultados mais alarmantes mostra que 65% dos profissionais LGBTQIA+ já sofreram discriminação no ambiente de trabalho e 28% deles já foram assediados. O índice de casos de discriminação é ainda maior quando analisadas apenas as pessoas trans e bissexuais: 86% e 72%, respectivamente.

Importante ressaltar que, de acordo com a classificação do estudo, a discriminação compõe todo o tipo de atividade preconceituosa, mesmo que feita de maneira velada, como piadas, ironias, comentários e insinuações jocosas. Já o assédio é o ato de ofender direta e explicitamente alguém por conta de sua característica.

O conteúdo completo se encontra no site da Santo Caos, uma instituição brasileira de consultoria em Diversidade & Inclusão. Para a pesquisa, a organização coletou informações de quase 20 mil trabalhadores de todas as faixas etárias, entre novembro de 2020 e abril de 2022.

LGBTQIA+ no mercado de trabalho

Somente 48% do público LGBTQIA+ se sente confortável para falar sua identidade de gênero ou orientação sexual para alguém no trabalho. As pessoas bissexuais são as que menos falam abertamente sobre sua orientação sexual (60%), seguida das trans (52%). Em conformidade, esses são os grupos com menores porcentagens na saúde emocional.

Já as que mais falam são as lésbicas (75%) e gays (69%).

Outro ponto de destaque é que apenas 8% dos líderes das empresas são pessoas

LGBTQIA+. O que talvez explique o índice é que este público costuma ficar aproximadamente 3 anos em uma companhia, já os não LGBTQIA+ permanecem nas empresas, em média, de 4 a 13 anos. Vale ressaltar que, de acordo com os dados da pesquisa, o público LGBTI+ têm renda média abaixo de quatro salários mínimos, frente a 36% das pessoas que não fazem parte desse grupo.

59% das pessoas LGBTQIA+ têm menos de 31 anos

Há uma maior concentração de pessoas com idade entre 25 a 38 anos. Em relação à população idosa, cerca de 3% das pessoas com 50 anos ou mais, são LGBTQIA+. Segundo um estudo da Carta Capital de 2019, esses indivíduos têm maiores chances de estarem morando sozinhos, de não terem filhos e de não apresentarem alguém para chamar em caso de uma emergência. Infelizmente, nem mesmo as instituições de longa permanência estão preparadas para receber a população idosa LGBTQIA+, pois são ambientes em que a violência e a intolerância contra essas pessoas são altas.

Ser quem você realmente é, ainda é um tabu

Entre as pessoas LGBTQIA+, 41% sentem que podem ser quem realmente são no ambiente de trabalho, entre os que não fazem parte desse público, o número sobe para 53%. Quanto maior o tempo de casa – no âmbito profissional, mais as pessoas LGBTQIA+ sentem que podem ser quem são (44% em menos de 6 meses e 64% a mais de 15 anos).

As minorias são maiorias

Há uma maioria de mulheres, pessoas negras, PCD e não brancos no grupo de LGBTQIA+. Das pessoas bissexuais, 71% são mulheres. Mais de 50% das pessoas trans/travestis, assexuais e outros são negras. Há uma baixa proporção de pessoas com deficiência e pessoas 50+ na amostra.

Pordeus e Viana (2021), enfatizam a necessidade de o indivíduo que sofre de discriminação e preconceito encontrar grupos com os quais se identifique, pois o apoio e o compartilhamento de experiências semelhantes são muito importantes entre os que dividem lutas específicas. Além disso, para que as minorias não se dispersem e se vejam vítimas do preconceito enraizado no seio social, elas precisam de proteção e força para superar os obstáculos e conscientizar a sociedade acerca de quão prejudiciais são os conceitos de distinção e segregação (que ocorrem quase de maneira automática nos contextos familiar e laboral).

No que diz respeito ao ambiente de trabalho, para que esse público se sinta mais acolhido e menos discriminado, é preciso promover uma cultura de diversidade, respeito e desconstrução. Algumas empresas já oferecem apoio psicológico, assistência jurídica para os que sofrem de LGBTfobia, folga remunerada para aqueles que estão fazendo transição de gênero, palestras para os funcionários da empresa sobre o tema e programas específicos de contratação. Mas é preciso que a maioria das companhias se mobilizem e façam essa transformação.

Urgência de ações

Segundo a pesquisa, mulheres lésbicas e homens gays são os grupos que mais acreditam ser importante priorizar o tema e, em conjunto com outros, são os mais interessados em participar. Em contrapartida, pessoas trans/travestis apresentam a menor porcentagem em ambas questões. O grupo acredita que o tema deve ser priorizado, mas não têm muito interesse em participar, isso porque eles não veem as ações como efetivas ou não se sentem representadas nelas.

Ainda assim, pessoas NÃO LGBTQIA+ se sentem menos preparados para lidar com diversidade e, ainda, não tem interesse em saber mais. As mesmas mostram-se pouco interessadas na temática de diversidade e inclusão, assim como, veem como menos prioritário, em comparação com pessoas LGBTQIA+.

“A leitura dos dados nos permite inferir que a rotatividade maior da população LGBTQ+ é consequência direta da discriminação e do assédio, que tornam o ambiente de trabalho mais tóxico para essas pessoas” comenta Jean Soldatelli, sócio-diretor da Santo Caos. “Essa informação trazida pelo estudo corrobora a urgência de ações que promovam diversidade e inclusão nas empresas, criando melhores condições para esse grupo manter suas atividades profissionais”, finaliza.

Não só nas empresas, mas em todos os ambientes existe a necessidade de pessoas NÃO LGBTQIA+ se interessarem sobre a diversidade e inclusão, pois somente dessa forma enxergaremos mudanças políticas, sociais e culturais em todo o movimento.

A cultura patriarcal por trás da violência doméstica contra a mulher 

por Livia Mota e Sofia Marchetti

O isolamento social e confinamento aos quais a população brasileira foi submetida nos últimos dois anos por conta da pandemia de Covid-19, promoveu um aumento significativo nos casos de violência doméstica contra a mulher e, consequentemente, nos casos de feminicídio, que é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência do fato de ela ser mulher (misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatores que também podem envolver violência sexual) ou em decorrência de violência doméstica.

A violência doméstica é um fenômeno que não distingue raça, classe social, religião, etnia, gênero, orientação sexual, idade ou grau de escolaridade. Qualquer um pode passar por essa situação. Até mesmo Johnny Depp, ator consagrado e indicado ao Oscar três vezes, denunciou sua ex-namorada de agredi-lo verbalmente e fisicamente na antiga relação. No entanto, na maioria dos casos, as vítimas são mulheres – e essas ocorrências estão diretamente e, na maioria das vezes, ligadas ao feminicídio.

Uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo em agosto de 2021, menos de um ano atrás, mostrou que 85% da população paulistana acredita que tenha aumentado a violência doméstica e familiar contra as mulheres na cidade. Mais de um terço alegou, também, ter presenciado ou ouvido falar de agressões contra mulheres próximo do local onde moram. 

Em contraponto a este fato, segundo um levantamento do G1, as denúncias de casos de feminicídio recebidas pelo Disque Denúncia cresceram 35% em São Paulo durante o mês de março de 2022. Em 2022, foram registradas o total de 57 denúncias contra 42 em março de 2021.

Porém, embora todas as mulheres possam ser alvo e sejam vítimas mais frequentes de casos de violência doméstica, há aquelas que se destacam; e números alarmantes são registrados.

A violência contra a mulher negra

Dentre os círculos mais vulneráveis, estão as mulheres pretas e pardas que se destacam com o maior número de casos. 

Elas representam 55% da população feminina da cidade. Na pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo, é maior a quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas e que afirmam ter presenciado ou ouvido falar de casos de violência contra conhecidas.

Segundo informações do Mapa da Violência 2015, no período entre 2003 e 2013, o número de homicídios de mulheres negras saltou de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos. A maioria das vítimas de crimes violentos são mulheres jovens, pobres e negras. Embora esses dados sejam antigos, ainda se refletem nos dias atuais: segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, 17 milhões de mulheres foram vítimas de alguma forma de violência no Brasil – ao menos é o que afirma a Agência Câmara de Notícias.

Os gráficos a seguir mostram a porcentagem por segmento de sexo, idade e raça, de paulistanos que presenciaram ou souberam de casos de violência doméstica contra mulheres:

Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo
Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo

A deputada Tereza Nelma (PSDB-AL) lembrou, como parte dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que esse tipo de agressão atinge 52% das mulheres pretas, 40% das mulheres pardas e 30% das mulheres brancas. A pandemia, ainda, afetou mais as mulheres negras, que são responsáveis por 61% dos 11 milhões de lares, regidos apenas por um dos pais. “Para além dos índices de violência, as mulheres negras também foram as mais afetadas pelos impactos socioeconômicos da pandemia, com a perda de emprego e renda e a impossibilidade de trabalhar fora de casa.”

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, Dra. Jamila Ferrari, também reforçou a informação. Segundo ela, as denúncias de violência doméstica são maiores entre vítimas negras ou pardas: 

Em uma análise superficial, considerando o público que nós atendemos, acredito que os motivos sejam históricos e sociais. Nós sabemos que a maioria das mulheres negras e pardas ainda vivem em comunidades, favelas e são de uma classe social mais baixa. Não significa que na classe mais alta não haja violência contra a mulher, existe, mas são formas diferentes de pedir ajuda. As mulheres socialmente mais pobres ou com baixa escolaridade só têm a polícia a recorrer. As mulheres de nível social mais alto, muitas vezes procuram outras formas de denúncia”.

A causa cultural

A violência contra a mulher não é um problema exclusivo do Brasil. Ela acontece ao redor do mundo todo e é resultado de uma cultura patriarcal que está intrinsecamente vinculada aos fundamentos da nossa sociedade. Essa cultura existe desde o início da humanidade e é responsável por privilegiar o homem em todos os sentidos e tratar com desigualdade as mulheres, considerando-as de gênero inferior. 

Por isso, durante muito tempo, o ser feminino foi tratado como um objeto, que servia apenas em benefício ao marido e aos filhos. Foi somente em 1970 que se começou a falar de feminismo em termos mundiais. Desde então, existe uma luta pela qual praticamente todas as mulheres participam pela igualdade de direitos. Mas, infelizmente, ainda existem inúmeros comportamentos e ideologias machistas que estão presentes no cotidiano e que são refletidos nos altos números de violência contra a mulher descritos acima. 

O problema é tão profundo, que se inicia na criação das mulheres: ensina que elas são dependentes de um homem, precisam ser ‘’salvas” por ele e construir uma família juntos. Por conta disso, a maioria dos relacionamentos entre homens e mulheres se constroem na ideologia de que o homem precisa “mandar” e a mulher “obedecer”. Não à toa são repletos de discussões e brigas causadas por comportamentos machistas que são praticados inconscientemente pelo homem e, por reflexos de uma criação patriarcal, absorvidos pela mulher como algo comum. 

Não é no início de um relacionamento que se inicia a agressão física. O abuso, muitas vezes, começa a partir de uma agressão verbal e psicológica. A psicóloga clínica, Joceline Conrado, explica que o relacionamento abusivo começa quando o outro começa a ter exigências demais com seu parceiro, ao ponto de praticar uma violência de gênero:

“Excesso de amor, excesso de cuidado, as limitações, comentários como ‘troca essa roupa’, ‘não vai nesse encontro’, são essas imposições que vão demarcando um processo em que o outro quer se apropriar das escolhas do seu parceiro, anulando totalmente a sua subjetividade.”

Crises de ciúmes, camufladas por “eu te amo muito, te quero só para mim” ou tentativas de anular a mulher como “eu te amo tanto, não quero que você trabalhe, vou te dar tudo o que quiser”. Assim, aos poucos, a mulher deixa de ter independência e não consegue ter o direito de ir e vir porque tudo vira briga.  E, em nome do amor, como a ensinaram, ela abre mão das mínimas coisas. 

É nessa hora que o abusador, ao perceber suas demandas aceitas, cria mais liberdade na relação e começa a se expressar de maneira mais autoritária, falando mal da família e amigos da mulher, tirando toda a sua rede de apoio. Junto disso, vem o gashlighting, que significa fazer a mulher acreditar que perdeu o senso crítico. Um claro exemplo é a famosa frase “eu te chamei de gorda, mas estava brincando, você parece uma louca”. Assim, ela vai desacreditando da própria percepção e ficando cada vez mais fragilizada dentro da relação.  

Portanto, são nessas atitudes que surgem os sinais de um relacionamento abusivo e, possivelmente, surge também o início de um ciclo de violência doméstica, descrita pela Jamila Ribeiro como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause à mulher morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico e dano moral ou patrimonial.”. 

Mas, para a mulher perceber que está dentro de um relacionamento, ela tem que passar por um processo difícil, pois existe a dependência financeira, a emocional, a psicológica, algumas vezes existem filhos e outras variáveis que tornam o término mais complicado. 

Joceline ainda explica que existem questões étnico raciais, de classe e de gênero, que dificultam a saída de um relacionamento abusivo e, também, implicam nos traumas que dele virão. 

“Se a gente pegar por exemplo uma perspectiva étnico racial: como é que mulheres pretas vivenciam o afeto? E, dentro de uma relação abusiva, como isso pode traumatizá-las ainda mais a se permitir e se perceber enquanto sujeito digno de ser amado? Existem diferentes traumas que podem implicar na mesma pessoa, inclusive traumas físicos como não conseguir ter outras relações, ter medo de se relacionar, de não confiar, de ter uma fragilidade do laço social com o outro. Essas questões ficam bem demarcadas.”

As consequências da violência contra a mulher são inúmeras. Mas, em geral, a maioria das vítimas são acometidas por quadros de depressão, ansiedade, síndrome do pânico, podendo chegar até ao suicidio. Por isso, é muito importante que elas percebam os sinais de um relacionamento abusivo no início e busquem ajuda, antes dele progredir para a agressão física.

O combate

Precisamos, juntas, diminuir a porcentagem de casos de violência doméstica. Por questões sociais, políticas, educativas, culturais e de proteção social. 

As Delegacias de Defesa da Mulher passaram a existir em 1985 e São Paulo foi o primeiro Estado no Brasil a contar com uma delegacia especializada no atendimento de mulheres vítimas de violência física, moral e sexual. Embora em 1996 as delegacias tenham aberto, também, para casos de violência contra crianças e adolescentes, o cerne é o mesmo: apoiar aqueles em situação de vulnerabilidade e promover a segurança a quem precisa. “Não tenham medo de denunciar. Quando você denuncia, você permite que o Estado esteja de olho nesse agressor, através das medidas protetivas de urgência. Assim, o Estado irá conseguir te proteger efetivamente.”, defende Jamila.

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ainda ressalta que a culpa nunca é da vítima. Caso ela não queira se dirigir diretamente a delegacia, que ela ao menos procure um familiar, uma amiga ou uma assistente social que possa oferecer amparo, “para se sentir forte o suficiente para conseguir registrar esse boletim de ocorrência, pedir medida protetiva e ser, a partir de então, protegida pelo governo.”

Existem leis e programas que, assim como as DDMs, buscam fornecer apoio às mulheres em situação de risco. Jamila afirma que “no Estado de SP, pelo menos, nós temos diversas políticas públicas, tanto voltadas para a assistência social, quanto para saúde, quanto na segurança, que, de alguma forma, surtem efeito.”

A famosa Lei Maria da Penha, por exemplo, instituiu novas formas de reduzir esses tipos de violência de gênero e ainda criou providências que tendem a um atendimento mais rápido. As antigas medidas emergenciais de proteção, como o afastamento do agressor, não eram tão rápidas, porque as mulheres precisavam de um advogado para fazer qualquer pedido ao juiz; mas agora, o próprio delegado manda a solicitação e faz com que todos os trâmites do processo sejam mais rápidos e diretos.

Outro exemplo é o Programa Bem-Me-Quer, desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública em conjunto com a Secretaria da Saúde. O principal objetivo do projeto é dar atendimento a vítimas de estupro, atentado violento ao pudor, sedução ou outros crimes relacionados. São usadas integrações entre polícia, serviço médico, psicológico e jurídico, além de sempre levar a mulher ao Hospital Pérola Byington, o Centro de Referência da Saúde da Mulher.

Dados: Pesquisa “Mulheres” da Rede Nossa São Paulo

Segundo a pesquisa da Rede Nossa São Paulo, as mulheres defendem que a melhor maneira de combater a violência doméstica é o aumento das penas ao criminoso, seguido de uma maior aumento na proporção de mulheres que pedem por um treinamento mais adequado de funcionários, para que possam melhor acolher aquelas que procuram os canais de denúncia.

No entanto, o ideal seria que esses crimes não existissem. Queremos que os números e porcentagens cheguem a zero e, para isso, é necessário voltar a bater em uma tecla que sempre é levantada: a educação.

“A melhor maneira, na minha opinião, para se enfrentar a violência doméstica é a educação. Nós sabemos que políticas públicas salvam vidas, mas quando a política pública existe, normalmente o crime já aconteceu. Então nós precisamos impedir que o crime aconteça e, para impedir que o crime aconteça, nós precisamos modificar paradigmas principalmente com relação ao machismo, ao patriarcado e à ideia de que mulher é um ser inferior ao homem.”, defende Jamila.

O autocuidado em diferentes culturas

Os ideais de beleza ao redor do globo podem mudar, mas além de “o que” é considerado belo, a forma de atingir esse ideal também pode variar. Sejam os produtos utilizados, a ordem de aplicação deles ou a maneira de conduzir os rituais de skincare, quando o assunto diz respeito aos hábitos de beleza adotados em diferentes culturas, uma coisa é unânime: a diferença.

É claro que os hábitos têm a intenção de desenvolver ou preservar características que se encaixem nos padrões de beleza de cada sociedade, mas existem alguns que ultrapassam as barreiras culturais e se tornam verdadeiros fenômenos reproduzidos em todo o mundo. Podemos citar o caso da rotina de skincare de alguns países do continente asiático, como da Coreia do Sul e do Japão, chamadas de K-beauty (de “korean beauty”) e J-beauty (“japanese beauty”), respectivamente. O ideal desses países envolve peles quase imaculadas e muito bem cuidadas, que remetem à inocência e à elegância prezadas nessas regiões, por isso, os cuidados adotados por lá se tornaram uma febre internacional. 

No continente asiático, como já citado, a K-beauty faz referência à rotina de skincare adotada na Coreia do Sul. A mais famosa rotina que rodeou o mundo é composta por uma série de etapas que giram em torno de 10 passos. Começando pela dupla limpeza (que envolve a remoção das impurezas acumuladas ao longo do dia com óleo e com uma espuma de limpeza, respectivamente), passando pela técnica de camadas, chamada de layering, em que ocorre a aplicação de uma série de produtos como uma loção (que equivale ao que conhecemos como tônico), uma essência (um concentrado de ativos que trata a pele de acordo com a necessidade, seja ela hidratação, nutrição, clareamento, etc.) e, por fim, uma emulsão, que tem a função de hidratar e é tido como um “creme finalizador”. E ainda é importante mencionar que as áreas mais sensíveis, como a região dos olhos, recebem um cuidado especial, a fim de evitar olheiras, “bolsas” e rugas. Todas essas etapas contribuem para uma pele sempre impecável, iluminada e com aparência saudável.

Já na Europa, os cuidados existem, porém de forma mais simplificada e prática. A intenção da mulher europeia não é aparentar ser mais jovem do que é, mas sim ser a melhor versão de como se está. Uma pele sem manchas, bem hidratada e cuidada é mais do que bem-vinda, mas não sem expressões. Em entrevista concedida à Harper’s Bazaar e publicada no site da revista, a médica dermatologista Cinthia Sarkis, que viveu na Espanha por mais de uma década, afirmou que esse resultado de beleza europeia é atingido por meio de uma rotina baseada na filosofia já conhecida do “menos é mais”: “algumas visitas ao médico, uso adequado de fotoprotetor, tratamentos feitos esporadicamente em consultório e uso comedido dos cosméticos adequados”. Simples assim. Além disso, como já mencionado na matéria sobre os padrões de beleza em cada cultura, a beleza europeia tem por base a discrição, a valorização da casualidade, por isso é compreensível que os hábitos de beleza adotados por lá sigam a mesma linha.

Reprodução/Pinterest

Quando as rotinas americanas são colocadas em questão, a influência estrangeira é notável nos hábitos relacionados à beauté. Ao mesmo tempo em que há uma grande disponibilidade de produtos para que se construa uma rotina tão complexa quanto a asiática, é possível observar também a preferência por produtos que reúnam vários ativos que proporcionem diversos cuidados de uma vez só, o que remete à praticidade adotada na Europa, fato que pode estar relacionado à vida acelerada, ao famoso “american way of life”. No entanto, um ponto que se destaca na rotina de cuidados vista nos países do continente americano é a alta taxa de adesão por procedimentos mais profundos e invasivos. Peelings, lasers, preenchimentos, aplicação de toxina botulínica, são constantes quando são feitos questionamentos no sentido de “como manter a beleza”.

Reprodução/Pinterest

Enfim, da mesma forma como os ideais de beleza sofrem influência da cultura a que remetem, os hábitos adotados para chegar nesses ideais também são transmitidos por meio de crenças, costumes e perpetuados com base na confiança que se tem nos resultados. Uma boa rotina de cuidados vai muito além da escolha de produtos, ela também envolve e reproduz traços e heranças culturais.

A cidade e mulheres: como a pólis também pode ser instrumento de opressão

Reprodução: CSA Images | Créditos: Getty Images

“Toda opressão cria um estado de guerra”, disse a ativista, escritora e filósofa feminista Simone de Beauvoir. Uma sociedade construída para a constatação da inferioridade feminina colabora para a opressão patriarcal ainda existente. Os homens foram responsáveis pelas narrativas da civilização Ocidental, da Bíblia e aos códigos de leis da maioria dos países — que também diz respeito sobre a política e a pólis.

Cidades não foram feitas para mulheres. A maioria dos problemas urbanos atinge-as, principalmente se forem negras, transsexuais e pobres. Segundo o levantamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Brasil é o 5º no ranking mundial de países onde mais matam mulheres. O índice de assédios e agressões sexuais também cresce em um índice exarcerbado, mas mesmo assim, deve haver um corte de 33% no orçamento de políticas públicas para mulheres, neste ano de 2022.

A limitação de serviços e infraestrutura próximos a moradia implicam em mais tempo de deslocamento, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e menos tempo livre. Cerca de mais de 10 milhões de mulheres ocupam o posto de chefes de família, e políticas e programas habitacionais como o ‘Minha Casa Minha Vida’ dão preferência da titularidade do imóvel à mulheres de baixa renda — critério que tem reconhecimento internacional como política de diminuição de desigualdade para mulheres. Porém, a grande maioria dos conjuntos habitacionais construídos pelo poder público estão localizados em regiões periféricas das cidades, e reproduzem ou acentuam a mesma lógica de urbanização excludente e segregadora dos bairros periféricos autoconstruídos.

Políticas públicas para a população feminina envolvem certos fatores como a segurança pública, desigualdade de gênero, saúde, mobilidade, estrutura, investimento em programas de apoio, acesso à vagas de emprego, políticas para mães, e se faz necessário a inclusão de leis a favor de uma cidade ainda mais feminina.

Em uma matéria para a semana da mulher da Casa Vogue em 2020, arquitetas e urbanistas abriram o debate apontando que a falta de iluminação no espaço público, a existência de muitas ruas com fachadas cegas (apenas muros e cercas, por onde muitas vezes a mulher precisa passar sozinha), e opções insuficientes de transporte público acabam afetando mais as moradoras das cidades, além de contribuirem para a insegurança. A insuficiência nas redes de transporte público e a falta de linhas que circulem dentro de um único bairro ou região atrapalha e em alguns casos até impossibilita que a mulher realize um trabalho remunerado. Falta de vagas em creches públicas e em hospitais também impactam mais as mulheres neste sentido, já que elas acabam acumulando a responsabilidade de cuidar de crianças, idosos e doentes dentro do núcleo familiar.

Em um ensaio clássico de 1980, intitulado “O que seria uma cidade não sexista?”, a urbanista americana Dolores Hayden defendeu cidades que “transcendam as definições tradicionais de casa, bairro, cidade e local de trabalho”.

Por isso, as instituições de gestão tem um enorme papel no processo de deliberação, normatização, fiscalização e execução de políticas relativas aos direitos da mulher. Enfatiza-se também, a necessidade de representação feminina nas principais esferas públicas.

Defender a representatividade de gênero na política brasileira vai além do processo eleitoral. É sobre apoiar mulheres que construam as cidades de acordo com as necessidades reais de suas vidas, no campo da habitação, mobilidade, segurança nos espaços públicos, divisão do trabalho, e tudo que envolve usar, ocupar e identificar-se com a cidade que vivemos (MEDINA, FERREIRA, LAGET, PILL; 2020).

The Tumblr girl is coming back

Os dias se passavam ao som do álbum Ultraviolence da Lana Del Rey, que está na playlist junto com The Neighborhood, Arctic Monkeys, The 1975, Lorde, The xx, entre outras bandas alternativas que se juntam ao indie pop. As fotos eram guiadas de acordo com a roupa. Normalmente jeans skinny, ou meia arrastão – elas sempre rasgavam e isso que era deixado em evidência – com jaqueta de couro, cores escuras, silhuetas simples, gargantilhas no pescoço, às vezes camisa quadriculada e nos pés All Star ou coturno.

Foto reprodução: Pinterest 

Essa estética, marcada pelo ano de 2012 a 2014, é caracterizada à época do Tumblr, uma plataforma na qual era formado por comunidades que tinham pessoas de todos os lugares do mundo, com as mesmas estéticas e pensamentos, com um estilo acessível e não elitizado como o Old Money. 

O rock foi o fundador dos estilos. Seguido pelo grunge com o Nirvana de Kurt Cobain juntamente com as meninas do Bikini Kill. Ele não se importava em comprar roupas, e nem se elas rasgavam. Vivia sua melancolia e as levava em suas músicas. A partir deste estilo, nasce o indie, com The Neighbourhood e Arctic Monkeys. 

Foto reprodução: Pinterest 

Nas telas, a atriz Lucy Hale, que interpreta a Aria Montgomery na série “Pretty Little Liars”, e a personagem Effy Stonem de “Skins”, interpretada por Kaya Scodelario, se enquadra ao estilo desenvolvido da época, já que era o período em que a série estava sendo gravada. Muito se materializa através de séries e da música. Atualmente, vemos a cantora Olivia Rodrigo e a personagem Maeve Wiley de “Sex Education”, explorando todo o esteriótipo, mas com o toque do novo, sem se prender ou resgatar por completo algo que pode se reinventar com novas presenças que são disponibilizadas em todas as áreas de criação.

Os adolescentes de antes cresceram, hoje são os adultos e jovens que, com a memória afetiva da época, resgatam, exploram e, literalmente, compram essas tendências. O que antes era trazido de 30 em 30 anos, com a pandemia, isso tem se acelerado e diminuído para 10 anos. 

Essa estética tem voltado, mas o que antes era baseado nos anos 2000 e toda a característica trazida à tona, hoje ela retorna se embasando nos anos de glória – entre 2012 e 2016 – e tem se reinventado, se reintegrando às novas manifestações artísticas. Contudo, essa estética não vem apenas de uma estética visual, mas também de uma subcultura que trouxe à tona os problemas mentais, pessoas que se identificam com outras e viam que vivem a mesma situação. Isso então incluía falar abertamente sobre depressão, ansiedade e pensamentos suicidas.

As músicas alternativas da época retratavam sobre os problemas, como Lana Del Rey que transformava sua solidão e melancolia em música, e dizia o quanto gostava e aceitava aquilo. Isso fazia com que as meninas da época fizessem o mesmo. Até aquelas que não tinham depressão, induzia este tipo de melancolia para soarem interessantes e fazerem jus às outras pessoas. 

As comunidades, em sua maioria composta por meninas, se identificavam gerando valor e dependência naquilo. Compartilhavam seu diagnóstico, conversas com profissionais sobre o quadro, fotos com frases como “100% triste” escrito em rosa com brilhos, pílulas de remédio em cima da mesa, maquiagens escuras em forma de luto. Mesmo não tendo sido criado pelo Tumblr, a obsessão pelo trágico fez parte da cultura, exacerbaram esse fetiche. Notoriamente, o reconhecimento e a discussão desses assuntos facilitou o tratamento e reconhecimento dos sentimentos e das doenças até hoje, contudo, trouxe à tona a romantização de problemas mentais, de ter um coração partido, solidão, magreza extrema e da rebeldia. 

Com o lançamento de “13 Reasons Why”, reboot de “Gossip Girl” e “Euphoria”, é notável a presença de uma trama que abraça uma cultura de drogas e sexo, apresentando atores glamorizados e vidas mais sofisticadas e fáceis. Um pouco de toda a época do Tumblr está presente, mas com mudanças, gerando algum tipo de demérito e mais conscientização principalmente de quem esteve presente em todo aquele período.

Foto reprodução: Pinterest 

Hoje, o que volta, parte é substituído. Calças skinny que saíram de destaque são alteradas por mom jeans ou calças jeans de perna reta. O batom escuro chega em forma de gloss, maquiagens que antes eram escuras são influenciadas por séries trazendo brilho e com looks mais extravagantes em decotes e transparências. A época Tumblr marcou uma geração de pré-adolescentes e adolescentes ao redor do mundo.

Hoje, eles cresceram e se tornaram adultos com sentimento de pertencimento a esse período e uma memória de descobertas e reencontros que fazem parte de quem são hoje. São os que possuem o poder de compra e também de lançar e repercutir as tendências. Com o TikTok, novos grupos identitários e novos costumes e tendências têm surgido. 

Pode-se dizer que a era Tumblr foi um momento em que os jovens entraram no mundo da internet, esbarram e permaneceram com seu primeiro contato a um grupo digital de acolhimento sem barreiras – o que antes era vivido com barreiras físicas e sólidas, foram se integrando num novo mundo. Hoje, as barreiras se quebraram e todos têm acesso às outras culturas e pessoas, facilitando o encontro de sua identidade.

A grande comunidade do Tumblr retorna citando as consciências de uma identidade coletiva, mostrando às novas gerações – além das características físicas – o poder de um grupo semelhante frente ao auxílio da internet e da união de características iguais. É algo mais significativo que os momentos que estão sendo vividos nesses últimos anos. Foi uma época duradoura e que foi morada e conforto para muitos adolescentes.

Foto reprodução: Pinterest 

O começo da internet como rede de apoio e sem barreiras. Um lugar onde as pessoas encontravam grupos com os mesmos sentimentos e desejos. Eles não estavam sozinhos, nunca estiveram. Estavam apenas perdidos de seus grupos que iriam entender e acolher suas particularidades. 

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