[Resenha] ‘Gossip Girl’ na sua busca pela relevância em uma nova geração

O reboot da série icônica de 2007, Gossip Girl, chegou à HBO Max em Julho de 2021 trazendo altas expectativas. Devido à imensa popularidade da produção original da CW, a pressão em cima da nova produção crescia mais a cada novidade divulgada. No seu dia de estreia, a série se tornou a produção original da HBO Max com o maior número de streams, de acordo com a Deadline

  A versão da HBO traz o mesmo enredo que já conhecemos e amamos: adolescentes da elite de Nova York tendo seus segredos expostos por uma pessoa anônima autointitulada ‘Gossip Girl’. Entretanto, desde o anúncio da produção do reboot as opiniões dos internautas se dividiram. Enquanto alguns esperavam por uma narrativa semelhante a original, outros tinham medo de que as histórias se parecessem demais e trouxessem um ar de “cópia barata” ou até mesmo estragassem a série. 

  O lançamento do primeiro episódio levantou diversas comparações, algo praticamente inevitável, comparando os personagens principais com aqueles já conhecidos há muitos anos. Porém, esse hábito pode fazer com o que os novos integrantes pareçam superficiais. É claro que ao comparar um personagem que teve 6 temporadas de desenvolvimento com uma protagonista que teve 10 minutos de tela no episódio inicial (yes Monet, I’m talking to you) a segunda parece mal construída e elaborada. Nem Blair Waldorf teve todas suas complexidades apresentadas e exploradas no começo da primeira temporada. Afinal, um personagem bem construído é aquele em que o espectador enxerga a sua construção diante de seus próprios olhos. 

Emily A. Lind como ‘Audrey Hope’. [Imagem: Crille Forsberg/ HBO Max]

  Em uma entrevista para a Variety, Joshua Safran, criador de ambas versões da série, afirmou que os adolescentes que nós tanto amamos ver sendo ricos e mimados teriam consciência de seus privilégios na nova versão. Essa declaração incomodou diversos fãs da produção original, que alegam que o apelo e o entretenimento da série se baseiam exatamente no quão fora da realidade esses personagens são, o que torna seus valores extremamente questionáveis – e divertidos de assistir. Entretanto, não há muito com o que se preocupar, pois a série ainda está repleta de cenas dos estudantes mais notáveis da Constance St. Judes frequentando clubes exclusivos para membros em dias de semana e bebendo martinis, com a sua única preocupação sendo misturá-los com limões ou azeitonas. 

  Apesar disso, a série também traz personagens com consciência social e integrantes de coletivos ativistas, que seguem o padrão de serem os menos relevantes para o público. Até certo ponto, é interessante assistir o conflito de um herdeiro de uma construtora milionário protestando contra a própria mãe, a aluna nova entrando em uma escola privada, com alunos majoritariamente brancos, com ecobags e broches de movimentos sociais compondo seu uniforme preppy, ou uma influenciadora que vê sua vida amorosa destruída por causa da persona que ela precisou criar para se manter relevante. A série acerta quando traz essas alusões à questões atuais de maneira sútil e diluída no dia a dia e nas escolhas dos personagens, mas perde a mão quando nos obriga a assistir uma cena de quase 20 minutos de uma menina de 15 anos militando para o pai de seu “amigo”, no seu primeiro jantar com a própria sogra. Apesar disso ser um retrato relativamente realista da realidade, não é isso que a maioria dos fãs de Gossip Girl esperam assistir na série. 

Still do episódio ‘Parentsite’. [Imagem: Jeffrey Waldron/ sHBO Max]
Thomas Doherty como ‘Max Wolfe usando Gucci GG Wool Belt Bag.
[Reprodução Instagram @gossipgirlstyleguide]

  Um ponto em que a produção dificilmente decepciona são os figurinos, liderados por Eric Daman, figurinista também da versão de 2007. É notável que a vestimenta de cada personagem foi meticulosamente calculada para que se encontre no equilíbrio perfeito entre o estilo preppy da série original e as novas tendências de hoje. Daman foi muito perspicaz ao conseguir fazer alusão aos uniformes usados pelos estudantes antigos da Constance misturando peças de designers como Christopher John Rogers, que são de fato usadas pela elite nova-iorquina em 2021. Além disso, também é possível enxergar a individualidade de cada personagem em suas roupas, como em Obie, que apesar de ser o mais rico da turma, possui culpa por ter seu privilégio e raramente é visto ostentando alguma marca, enquanto Max (que vem sido retratado como o ‘novo Chuck Bass’ nos meios digitais) usa uma pochete da Gucci no primeiro episódio. 

 Em relação à trama em si, podemos notar que os escritores ainda estão explorando os mares de possibilidades e plantando possíveis sementes para serem desenvolvidas em próximas temporadas. A produção original foi escrita em uma época onde ainda não existia o cancelamento digital e o bom senso do politicamente correto, permitindo que escândalos absurdos fossem apresentados durante a trama. Os criadores do reboot ainda parecem estar descobrindo quais são os limites em que podem chegar e como alcançar o equilíbrio entre os escândalos clássicos de Gossip Girl com o senso atual de limites. Apesar disso, já incluíram na série um relacionamento sexual entre estudante e professor – algo que não é bem-visto em produções audiovisuais, hoje em dia -, mas de maneira não-romantizada e que apresenta as consequências e as manipulações que um homem mais velho pode exercer sobre um adolescente. 

Quando se assiste uma série como Gossip Girl, é preciso ter em mente que ela retrata pessoas que vivem em uma realidade completamente diferente do restante do mundo, portanto todas as questões de certo e errado, e todas as morais que temos, devem ser desconsideradas. Gossip Girl nunca foi uma série que serve como um modelo do mundo real, e sim como uma válvula de escape para situações tão fora do nosso normal que nos pareçam ridículas e nos divertem. É claro que existe um limite para tudo, mas enquanto os próprios espectadores não se lembrarem da essência elitista e questionável da série, os roteiristas jamais serão capazes de gerar um nível de entretenimento que chegue aos pés da produção original.

Confira o trailer:

O Cinema e sua essência

No dia 22 de março de 1895, em uma câmara escura em Paris, os irmãos Auguste e Louis Lumière apresentaram ao mundo o primeiro filme já feito. A produção era simplória e mostrava apenas os trabalhadores saindo da fábrica da família Lumière em Lyon, na França. Mas foi a partir da obra dos irmãos Lumière, apresentada naquele eterno dia 22, que se iniciou um bem sucedido relacionamento de 126 anos entre o cinema e o homem.

Dos primeiros truques de ilusionismo nas telas apresentados nos curtas de Georges Méliès aos efeitos especiais computadorizados dos longas de (impressionantes) mais de três horas feitos pelos grandes estúdios da atualidade, o cinema mantém-se firme nos seus propósitos de comover, encantar, registrar e retratar a sociedade.

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Jakob Owens/Unplash

Nunca saímos como entramos após uma sessão de filmes – há sempre dentro de nós alguma mudança. E essa é a magia do cinema: despertar uma onda de sentimentos distintos, nos transportar para dentro da história e nos fazer imaginar aquele universo. Rimos, gritamos, choramos, sentimos medo, angústia, felicidade… Mesmo que fantasiosa, a narrativa sempre tem o objetivo de refletir a complexidade humana de um jeito único: trazendo em um só elemento o som, a imagem, a dança, e a dramaturgia. Como já dizia Ricciotto Canudo, crítico e teórico de audiovisual italiano, “o cinema é a sétima arte, pois traz consigo todas as outras”. É por isso que amamos tanto ver um bom filme. Nada é tão arrebatador, nada mexe tanto com nossos sentidos.

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Noom Peerapong/Unplash

Porém, para além de nos fazer sentir, nesses 126 anos o cinema provou ter outro propósito: o de espelhar o homem e a sociedade, reinventando-se conforme a própria humanidade mudava. A sétima arte conectou-se com o mundo moderno e suas questões de forma que nenhuma outra arte conseguiu. Cabe ao cinema, portanto, a tarefa de retratar (de forma fantasiosa ou realista) todos esses anos de história, e de se reinventar e trazer novas perspectivas sejam elas em questões de narrativas ou tecnologia para as telas.

E é por essa razão que, respeitando a essência do cinema de nos fazer sentir – e principalmente pensar sobre nosso próprio mundo – que a editoria de Cinema & TV da Frenezi vem trazer não só indicações de bons blockbusters para se divertir, mas críticas e reflexões sobre nosso próprio sistema como sociedade que se reflete nas histórias que vemos nas telas, sejam elas contemporâneas ou antigas. Afinal, o homem muda e o cinema o acompanha. Por isso, desliguem os celulares (a não ser que seja para acessar a Frenezi) e peguem a pipoca porque a frenezia vai começar.