Pink é o novo preto: o Barbiecore no universo da beleza

Quando Valentino apresentou sua coleção Inverno 22/23 em um impactante (e exclusivo) rosa, entendemos que o mundo tinha ganho uma nova cor preferida.

Isso, somado à retomada das tendências dos anos 2000 – época que valorizava um estética hiper feminilizada, com muito rosa, brilho, e personagens icônicos como Sharpay Evans, Elle Woods, London Tipton (e sua versão real, Paris Hilton), e até mesmo o filme Barbie de Greta Gerwig – formou o cenário perfeito para o rosa voltar mais forte do que nunca! Não demorou para que a cor dominasse tapetes vermelhos e não tinha como o universo da beleza não se render a essa tendência.

Imagem: Pinterest

Chamada de Barbiecore, a estética, como bem ressalta a comunicadora de moda e tendências Verena Figueiredo, aparece numa roupagem mais moderna e democratizada, que busca acabar com a visão diminuta que a ideia de gostar de rosa, strass e elementos mais delicados e ludicos antes carregava, e é mais ousada e inclusiva. Essa também pode ser encarada como uma continuidade natural do já muito discutido look Dopamine, que utiliza cores, brilhos e outros elementos vibrantes para comunicar frescor, alegria, se contrapõe ao momento difícil que experienciamos enquanto sociedade – quase como uma válvula de escape – e tem tudo a ver com o momento que de retomada pós pandêmica que ainda vivemos. E é claro, a beleza se cercou de elementos divertidos e criativos em sua interpretação destas tendencias.

Como apostar na tendência

Criativo

Aqui temos duas formas de levar elementos criativos na maquiagem. A maquiagem de Thalita remete ao romantismo graças aos elementos mais delicados, porém a lagrima desenhada e as unhas coloridas dão o tom. Já Josy saiu do obvio e apostou em tranças e sobrancelhas cor de rosa para um look mais único e fashionista.

Olhos

Dois exemplos de como apostar na cor apenas nos olhos. Selena torna o look mis interessante com um degrade de tom mais acesso ao mais frio, enquanto Kamila aposta rosa brilhante e desenho gráfico

Boca

Nos lábios, o acabamento pode ir do batom matte ao gloss sempre traz um ponto de destaque a mais no look, mesmo quando somados a mais elementos de atenção.

Bochechas

As bochechas podem estar em um rosinha mais suave, mas essa também é a hora do blush bem marcado brilhar. A técnica leva um toque glow ao look, principalmente se combinada ao iluminador. Lele somou ao batom vermelho e Livia optou por olhos mais suaves, o que mostra que as possibilidades não estão limitadas.

All Pink

Que tal se jogar na cor?!

Olhos, cabelo, boca, unhas…aqui vale tudo e o resultado é incrível, ousado e original

Miu Miu: uma ode ao mundo pós-pandemia

Fundada em 1992 por Miuccia Prada, a marca ‘Miu Miu’, nome este escolhido carinhosamente em homenagem à fundadora da casa — apelido atribuído-lhe na infância por seus familiares — comporta-se desde sua primeira exposição (lançada oficialmente em 1995) como uma carta ao público juvenil, especialmente por suas demasiadas referências às tendências e adesões jovens da época.

A irmã caçula da Prada e a segunda metade de Miuccia — assim por ela amorosamente denominada — ela surge em contraste aos designs extremamente minimalistas e desenhos sofisticados trabalhados pela estilista na marca irmã. A Prada embarca em uma pegada mais clássica, buscando conquistar a mulher madura moderna, a Miu Miu surge como uma aventura mais extrema e divertida aos olhos dos entusiastas de moda, atraindo as jovens determinadas e extremamente cool.

Desde a sua primeira coleção de Primavera/Verão exposta em 1995 na Semana de Moda de Nova York (New York Fashion Week), a marca de origem italiana nos contempla com o seu objetivo principal: demonstrar toda a jovialidade interior de Miuccia. Além disso, a apresentação conta com a ilustre presença das principais supermodelos da época, o que foi crucial para que a casa pudesse atrair os olhares do público imediatamente.

A coleção seguinte de Outono/Inverno 1995 proporciona uma mesma atmosfera da inaugural da marca, entretanto, com a adição de alguns elementos que refletem um pouco mais a ousadia da casa italiana. Esta conta com a aparição de botinhas e sapatos inspirados nos filmes western, plataformas e tamancos em couro e píton. 

Ao passar dos anos, o espírito avant-garde e estilo provocativo estiveram presentes em todas as coleções lançadas pela marca italiana.

Seja por referências ao verde-militar, pelas famigeradas jaquetas tirolesas ou pela mulher guerreira, poderosa e orgulhosa sobre tamancos, tons soturnos e casacos esquimós, a essência militante de Miuccia sempre fez parte do DNA de sua segunda filha Miu Miu, o que obviamente não poderia diferir em suas coleções mais atuais, expostas no contexto pandêmico.

Dentre elas, destacam-se principalmente as coleções de Primavera/Verão (Spring/Summer) 2022 e Outono/Inverno (Fall/Winter) 2022, lançadas recentemente, e que também podem ser apontadas como o auge da casa, especialmente pela proposta apresentada em tempos tão sombrios quanto a pandemia.

Alguns detalhes das coleções de Primavera/Verão e Outono/Inverno 2022 da Miu Miu. [Imagens: Vogue Runway]

Em um rápido giro ao passado, o mundo foi surpreendido entre dezembro de 2019 e início de janeiro de 2020 com o anúncio do surgimento de um novo vírus, identificado posteriormente como o novo coronavírus (Covid-19). O que de início não deveria passar por um momento quinzenal de reclusão, perdurou por mais de 18 meses e tem assombrado alguns países até hoje — que passaram a reportar novos casos da doença em larga escala, como a China e a Coreia do Norte, por exemplo.

Neste contexto, diversos setores foram amplamente afetados pelas medidas restritivas aplicadas a diversos países mundiais. As restrições afetaram assiduamente inclusive o setor da moda, que precisou suspender os seus desfiles presenciais, além de passar a instigar a criatividade de diversas marcas e diretores-criativos da categoria — seja com suas criações ou com o modo de exposição de suas novas coleções. A tarefa obviamente não foi fácil, mas diversos designers conseguiram entregar coleções com histórias costuradas ao contexto atual vivenciado pela população global.

Enquanto a sociedade aguardava ansiosamente pelo retorno à vida comum — mesmo que gradativamente — visto que os números de casos e mortes passaram a diminuir efetivamente em demasiadas nações, inclusive no continente europeu, em Abril do ano passado (2021) éramos novamente surpreendidos por uma nova ameaça advinda do Coronavírus. A ascensão da variante delta coincidentemente alinhou-se com uma publicação do siteThe Business of Fashionem que declarava que: ”o Sexo está de volta. Os consumidores estão prontos?”.

Isso porque algumas marcas e personalidades importantes estavam investindo em peças e coleções que reviviam a pegada sexy do início dos anos 2000 e amostravam bastante a pele — tendências como a cintura baixa e cropped estiveram a todo vapor no último ano —, o que ia em contramão com a situação aterrorizante atual.

Em outubro do mesmo ano outro portal de grande renome na indústria jornalística publicava algo semelhante. O britânico ‘The Guardian‘, pouco antes do estado de alerta à variante Ômicron, recomendou aos seus leitores que abandonassem suas peças aconchegantes, pois era o ”momento de vestir-se de maneira sexy”.

No mesmo mês, quatro dias após a publicação da matéria, a Miu Miu parece ter entendido o recado, mesmo sem ter lido o que estava sendo proposto pelo portal e com toda a coleção preparada meses antes.

Amplamente tietada e compartilhada por todos os veículos renomados do mundo fashion e também por membros da comunidade modista, a coleção de Primavera-Verão 2022 (lançada em 5 de Outubro de 2021) da Miu Miu funciona como uma eclosão aos sentimentos dos jovens em seus “vinte e poucos anos” que tiveram a sua liberdade festiva interrompida pelo distanciamento social, desencadeado pela pandemia em decorrência ao coronavírus (Covid-19).

Enquanto o lazer e os IRL (in real life) moments foram substituídos pelo home office e os encontros passaram a ser realizados por videoconferência, esta coleção em específico nos induz a alguns questionamentos, dentre eles: o modo como lidamos com nossas normas e valores, além da maneira como determinamos o nosso dress-code.

Inspirada especialmente na rebelião e espírito vanguardista do público juvenil, principalmente pelo recorte das peças que relembram os uniformes escolares/universitários cortados, a apresentação da coleção de Primavera da Miu Miu é marcada pela presença de símbolos que retomam as referências aos gloriosos anos 2000 — anos estes de glamour e fortemente característico pela expressividade e mistura de detalhes e elementos nas vestimentas —, como as mini-skirts, peças em cintura baixa, e especialmente, amostra da pele.

Enquanto as notícias que circulavam eram totalmente assombrosas, o que acontecia nas passarelas reforçava a teoria social de: quanto mais caóticos são os tempos, mais a moda gosta de brincar com o tamanho das peças.

Peças da coleção de Primavera-Verão da Miu Miu. [Imagem: The New York Times]

E essa aposta atual da Miu Miu investe em uma atmosfera completamente ‘sexy’, reafirmando também as propostas do The Business of Fashion e do The Guardian. Além disso, a coleção ainda proporciona o recorte das principais tendências que deverão perdurar nas próximas coleções e criações da Miu Miu e também de outras marcas, especialmente no período conhecido como pós-pandêmico, em que as atividades agora retornam ao seu modo normal — na medida do possível — e a sociedade se vê livre para festejar e celebrar a vida novamente.

Enquanto a coleção de Primavera/Verão brinca com as amostras e alusões ao ciclo glamoroso dos Y2K e explora o modo ”sexy sem ser vulgar”, a coleção seguinte, Outono/Inverno 2022, exposta em 8 de março deste ano (2022), apesar de dar continuidade ao storytelling e ainda apresentar referências da apresentação passada, aborda questionamentos um tanto quanto pertinentes ao momento atual — se analisarmos mais profundamente — vivenciado globalmente, além de se concentrar como um novo state of mind no contexto da moda.

Em um mergulho aos arquivos e memórias de sua infância, Miuccia Prada apresenta uma coleção consistente com as suas paixões. Os 53 looks apresentados nesta coletânea caracterizam uma postura menos workaholic, aprofundada nos estúdios de balé e sua atmosfera e se apega nas diversões, aventuras e universo esportivo — paixões que perseguem a fundadora da casa desde sua infância sendo polidas durante toda a trajetória de Miuccia, inclusive dentro da Prada. Casacos e blazers oversized, peças mais finas e composições sobrepondo lingeries deram espaço à mulher mais feroz, determinada e sensual, demonstrando o ”amadurecimento” da menininha Miu Miu.

E se este amadurecimento ainda estiver encaixado com o autoconhecimento e desenvolvimento pessoais? Afinal, o período exaustivo e sombrio da pandemia contribuiu para podermos olhar mais gentilmente ao nosso interior e também permitiu que pudéssemos nos redescobrir — entre paixões ou gostos mais singelos —, além de auxiliar na busca e descobrimento de novos hobbies e fontes de diversão.

Tópicos como diversidade de gênero e peças genderless & andróginas também se fizeram presentes na última coleção exposta pela marca, simbolizando a preocupação da casa com os assuntos mais atuais.

Outro ponto que ainda fica evidente nesta coleção desenhada por Miuccia para a Miu Miu é a escolha de peças que conseguem expressar o conforto e delimitar o occasionwear — servidas especialmente para diferentes ocasiões —, o que casa-se perfeitamente com os resquícios do pior momento da pandemia, em que a maioria da população tem buscado explorar vestimentas mais confortáveis para adaptar-se ao modelo work from home. Além disso, nestes dois trabalhos recentes para a Miu Miu, Miuccia Prada nos influência a explorar outros horizontes e hábitos (atividades bem comuns durante os meses em isolamento): sejam eles esportistas, noturnos ou mais reclusos.

Portanto, a mensagem que fica em ambas as coleções mais recentes da Miu Miu é extremamente clara: a geração precisa aproveitar a fase mais destemida e repleta de liberdade. Afinal, o período pós-pandemia jamais será idêntico aos anos anteriores e nem mesmo nossa rotina será semelhante ao que um dia foi habitual.

O jogo de opostos entre as duas coleções — festividades para a Primavera-Verão 2022 e calmaria e postura menos workaholic para a coleção de Outono-Inverno — alinha-se perfeitamente ao momento pré-pandemia e o que vem a ser o seu pós.

Enquanto anteriormente vivíamos no modo acelerado, para o eventual pós, Miu Miu & CIA nos provoca a reflexão em balancear os nossos extremos e instiga-nos a viver em um modo mais desacelerado, sem perder o glam da noite. E não existe maneira melhor de misturar os dois mundos senão à la Miu Miu.

E quem melhor que Miuccia Prada para traduzir este sentimento?

‘’Talvez a Miu Miu é o que eu gostaria de ser, mas não consigo ser realmente. Porque se trata da minha parte mais transgressiva, mais extravagante e irônica. Às vezes acontece que dedico mais tempo à Miu Miu: deve existir sem dúvida uma implicação psicanalítica nisso’’ — trecho retirado do livro ‘Vita Prada’ de Gian Luigi Paracchini (páginas 87 e 88).

Confira os desfiles das coleções mencionadas na íntegra:

Desfile completo da coleção de Primavera/Verão 2022 da Miu Miu. [Reprodução: Miu Miu/ YouTube]
Desfile completo da coleção de Outono/Inverno 2022 da Miu Miu. [Reprodução: Miu Miu/ YouTube]

Do Y2K ao autocuidado: O que Dominou a Indústria da Beleza em 2021

Se 2020, para a indústria da beleza, foi um ano que começou com cores, glitters e criatividade e terminou incerto, com números incomuns e certa esperança de retomada, 2021 veio com um clima de adaptação aos tempos que se seguem e sinais de otimismo.

É impossível não destacar a influência da pandemia em nossas vidas. O cenário totalmente atípico que (ainda) vivemos modificou a forma que nos enxergamos e comportamos enquanto indivíduos, e isso claramente refletiu no universo da beleza.

Existe um interesse maior em rituais caseiros, o que impulsionou a busca e lançamentos de produtos de higiene pessoal e autocuidado, além de produtos de unha, cabelo, maquiagem e skincare práticos para utilizar em casa, sem auxílio profissional.

A sustentabilidade virou foco de atenção em todas as áreas. Na beleza, isso se reflete com o aumento na procura de produtos sem formulações nocivas, veganos, que não testam em animais, tem propósito consciente e ética como carro chefe. O público está mais atento ao que consome e faz questão de passar esse conceito para frente, indicando a seus amigos e seguidores. Em um estudo desenvolvido pela Avon e divulgado em Setembro, 81% das mulheres entrevistadas disseram acreditar que ingredientes naturais são mais seguros para a pele. Daniela Penteado, Gerente de contas e Especialista de tendências na WGSN, empresa líder em tendências de comportamento e consumo, concorda que a tendência foi observada “Os consumidores estão procurando desperdiçar menos produtos para aumentar a relação custo-benefício e reduzir seu impacto no meio ambiente, esta foi uma tendência bem forte observada neste ano”. Ela também pontua que isso caminha de mãos dadas com a busca por praticidade “Os consumidores passaram a determinar o valor de um produto com base em sua eficácia e eficiência, priorizando opções minimalistas que prometem reduzir a quantidade de resíduos gerados. Além disso, produtos híbridos e multifuncionais foram potencializados no mercado, pois simplificam as rotinas de beleza, algo que se tornou ainda mais relevante para os consumidores. […]A demanda por maquiagens multifuncionais, produtos que também tratam a pele, está crescendo à medida que o público busca opções melhores para o bolso e o planeta.”

A CARE Natural Beauty trabalha com “Dermocosméticos Minimalistas” com vários benefícios agregados e segue os pilares da sustentabilidade. Imagem/Divulgação CARE

E não podemos deixar de destacar a interferência das redes sociais, especialmente do TikTok. Do descobrimento de novos talentos, que aproveitaram o alcance da plataforma para criar conteúdo e mostrar seu trabalho, ao surgimento de trends no mínimo curiosas, como o uso do Roacutan para mudança no formato do nariz e utilização de lubrificantes na base – duas tendências que devem sumir tão rápido quanto surgiram, visto que não tem qualquer respaldo profissional e cresceram em nichos muito específicos – a rede de vídeos se provou, mais uma vez, uma grande influenciadora.

2001 ou 2021?

Mais do que nunca, millennials e integrantes mais velhos da geração Z passaram a relembrar filmes, séries e músicas que estiveram em alta durante os anos 2000. Paris Hilton, Megan Fox, Lindsay Lohan, Travis Baker e Britney Spears são algumas das personalidades que, por motivos diferentes, ganharam mais destaque na mídia. O revival de Gossip Girl e Sex & The City chegam para completar o pacote.

Assim como a moda, a beleza também apresenta um comportamento cíclico e se rendeu a este comportamento, abraçando os anos 2000 e trazendo de volta penteados, cores e técnicas de maquiagem populares há mais de 20 anos.

Misturando o ar vintage com uma roupagem mais moderna, a estética, chamada de Y2K, foi provavelmente o grande hit do ano. Divertido, o look mistura cores, texturas, tons metálicos e brilhosos com toque clássico, já que esse visual é muito familiar a todos que viveram ou não essa época.

Imagens: Reprodução/Instagram

Cabelo

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o consumo de produtos para cabelo cresceu em 2021 devido à ascensão do autocuidado em tempos de isolamento social. 

Saímos de uma época de adaptação à falta de salão e visitas presenciais a lojas de cosméticos e entramos numa era de aceitação ao natural e explorar novas possibilidades. E apesar da alta dos anos 2000, houve um aumento no uso do cabelo sem química ou coloração –  assumir o grisalho é cada vez mais observado – e com volumes, texturas descontraídas, looks que nada combinam com o liso perfeito da década. Tranças, esculturas, baby hair, cachos bagunçados e mullets aparecem como consequência dessa descoberta.

Miley Cyrus. Imagem: Alberto E. Rodriguez/Getty Images

Cuidados com o corpo

O skincare está cada vez mais forte. Com mais tempo em casa e as frequentes reuniões e aulas em vídeo – que boa parte da população participa durante o período de isolamento -, indivíduos passaram a se enxergar mais, dessa vez pela câmera de seus dispositivos. Consequentemente, encontram pontos que gostariam de melhorar na própria imagem, passam a se preocupar mais em como se apresentam e o desejo de cuidar da aparência do rosto se intensifica.

O aumento da atenção com a pele também tem relação com maior tempo livre que muitos ganharam ao serem obrigados a ficar em casa, e o senso de rotina e autocuidado que isso transmite. Daniela explica que esse hábito é observado como algo feito aos poucos durante o dia a dia e deve se manter para os próximos anos, de acordo com a nova realidade e a retomada da rotina “[…]Os consumidores criaram pequenos momentos de autocuidado espalhados ao longo do dia, e isso será cada vez mais comum. As novas jornadas de trabalho e o abandono da longa rotina matinal de cuidados com a pele aumentarão a procura por produtos práticos que podem ser aplicados durante o trabalho, nos momentos de lazer ou durante deslocamentos.”

Não à toa, marcas e celebridades passaram a se dedicar ao skincare. Salon Line, Eudora & Niina Secrets e Amaro são algumas marcas nacionais que decidiram explorar esse nicho de mercado, enquanto as internacionais expandiram seu alcance global e desembarcaram em novos países. Fenty Skin, de Rihanna, cada vez mais amplia seu leque de produtos e a modelo Hailey Bieber promete lançar seus próprios cosméticos ano que vem.

Mas os cuidados não se limitam ao rosto, cresceu o interesse e debate com produtos para o corpo, região íntima (que sim, é um assunto que ainda gera certa resistência e dúvidas, mas tem sido cada vez mais explorado com liberdade e respeito por marcas e consumidores) e pelos “Mais consumidores estão se voltando para produtos para remoção de pelos em casa, substituindo as idas aos salões. Com isso, cresce o número de marcas independentes que oferecem preços acessíveis, produtos multiuso sustentáveis, uma visão positiva sobre os pelos corporais e fórmulas para peles sensíveis” explica Daniela. 

A especialista também lembra que sabonetes em barra “renasceram”, muito por conta da necessidade redobrada de ter a pele limpa e protegida.

A B.O.B – Bars Over Bottle – vende uma beleza limpa de ingredientes nocivos, plastic e cruelty free, natural e vegana. Imagem: Divulgação/B.O.B

Maquiagem

Na maquiagem, a praticidade também ganhou espaço, segundo observado pela especialista da WGSN “A demanda por maquiagens multifuncionais, produtos que também tratam a pele, está crescendo à medida que o público busca opções melhores para o bolso e o planeta.”

Os olhos, que ganharam protagonismo do rosto em 2020 em consequência do uso de máscaras, seguiram firmes em 2021. Cores e técnicas diferentes de maquiagem, que no ano anterior muito se fortaleceram pela série Euphoria, esse ano se mantiveram pela sensação de alegria e criatividade que exalam. Foi a forma encontrada para se expressar, transmitir frescor e festa em tempos desafiadores. Ariana Grande lançou sua própria linha no último trimestre do ano e garantiu que o primeiro ciclo fosse focado nos olhos.

Ariana Grande para a R.E.M. Imagem: Reprodução/Instagram

Mas a boca não foi esquecida, contornos, gloss voltaram a aparecer, mesmo que nos poucos momentos que é possível ficar sem máscara. As bochechas seguem super marcadas.

Unhas

Depois de um 2020 fraco, o setor de produtos para unhas ganhou destaque em 2021. Segundo a ABIHPEC, a indústria de produtos teve crescimento de 8,7% comparado ao mesmo período em 2020.

A retomada já era esperada por pesquisadores e observadores de tendências, visto que a flexibilização de certas atividades foi decretada esse ano, porém parte da população ainda sente receio em retomar visitas a salões e receber profissionais à domicílio, enquanto muitos adquiriram o hábito de cuidar das unhas em casa e pretendem manter, surgindo assim a necessidade de adquirir novos produtos – o que inspirou marcas a investirem em lançamentos e publicidade.

As nail arts aparecem fortíssimas e mais do que nunca representam uma forma de expressão. Em relatório anual, o Pinterest relatou aumento nas buscas por “unhas ousadas”, verdes, marmorizadas e baddie nails – os acrílicos gigantescos com desenhos e acessórios . 

Cardi B. Imagem: Reprodução/Instagram

E agora, o que esperar de 2022?

Daniela lista certos comportamentos que irão continuar: “As tendências de beleza que surgiram durante o lockdown continuarão a evoluir em 2022. Rotinas de skincare sem água, produtos multitarefa e ‘snacks’ de beleza estão entre as tendências escolhidas por nossa equipe de especialistas.”

“Os consumidores de beleza vão priorizar a eficácia e a eficiência conforme eles buscam fazer compras inteligentes que não prejudicam o planeta. A skinimalism, tendência de skincare minimalista que promove as rotinas simplificadas de cuidado com a pele, vai unir frugalidade e sustentabilidade em produtos híbridos.

No pós pandemia, o público consumidor de ‘produtos limpos’ irá buscar itens com fórmulas cuidadosamente elaboradas e respaldo científico. 

A beleza e a saúde vão andar juntas com produtos e tratamentos formulados para promover o bem-estar físico e mental.

Depois do início tumultuado da década, os consumidores desejam uma nova revolução de beleza que exige o uso de refil, adotando modelos de negócios sustentáveis e criando alternativas de produto para gerar mudanças positivas.”

É sempre notável que o ambiente interfere diretamente em todos os âmbitos e cenários,e a beleza não poderia ser diferente. O que foi visto esse ano e é esperado para o futuro é uma beleza mais limpa, consciente, saudável e expressiva. Com tantas mudanças e evoluções, mal podemos esperar para ver o que vem por aí!

A nostalgia e os anos 2000 (re)conquistando as passarelas

Calças cintura baixa, tops, flip phones, óculos com lentes coloridas, sandálias plataformas e a ilustre (ou não tão ilustre assim) presença dos jeans são alguns dos elementos mais significativos e mais remanescentes da estética Y2K, cada vez mais ganhando — novamente — espaço no cenário atual do mundo da Moda, além de fisgar o coração dos diretores criativos e trazê-los, mais uma vez, para dentro das passarelas.  

Para quem não considera-se familiarizado com o termo ou está vendo-o pela primeira vez, o uso da hashtag #Y2K, ou somente a sigla ‘Y2K’ em si, trata-se de uma ”nova’’ tendência das redes sociais em que os usuários buscam compartilhar — ou reviver — tendências dos anos 2000, dando assim, o significado de Year 2000, ou em tradução livre, simplesmente anos 2000. 

A trend popularizou-se especialmente após internautas do mundo todo compartilharem em suas contas no TikTok suas recriações dos looks de personalidades como Paris Hilton, Britney Spears (especialmente a icônica aparição de Spears ao lado de Justin Timberlake no red carpet do VMA de 2001, em um look all-jeans), Christina Aguilera, Beyoncé, Spice Girls, até mesmo os uniformes e looks do seriado mexicano Rebelde (2004 – 2006), em especial os looks de Mia Colucci, que contribuiram bastante à popularização do termo, trazendo à tona tendências que a maioria de nós já possui total conhecimento sobre, e como filhos da década — ou seja, nascidos entre o período de transição entre a década de 1990 e dos anos 2000 —, cresceu sobre os cuidados da moda desta época. 

Britney Spears e Justin Timberlake no Red Carpet do Video Music Awars (VMA), no Metropolitan Opera House, Nova York, em 6 de setembro 2001. [Imagem: Jeffrey Mayer/ Getty Images]

Christina Aguilera (X-Tina) posando no Red Carpet do Video Music Awards (VMA), no Radio City Music Wall, Nova York, em 29 de agosto de 2002. [imagem: Michel Bourquard/ Alamy]

Assim, ao ter em mente a importância e o poder das redes sociais — em especial o Instagram, e agora o TikTok — no cotidiano de diversos setores industriais, incluindo o setor modista, é claro dizer que a popularização de tendências na internet contribui, e muito, para que esta veiculação também ocorra dentro da moda e acabe se tornando parte dela. 

A volta da estética dos anos 2000 ao mundo contemporâneo marca o retorno de uma das eras mais plurais da moda em termos de estilos, expressos por uma variedade de tendências em uma mesma década, além de sua longevidade que foi comprovada por sua relevância e fama nos dias atuais. 

Se a estética mais comentada na década passada — compreendida entre 2010 e 2020 — era a dos anos de 1990 e sua melancólica fase exemplificada especialmente pela estética ‘Heroin Chic’, esta caracterizada por pele clara ou pálida, olheiras, cheekbones, cabelos com aspectos de oleosos, valorização da extrema magreza, uso de drogas e cocaína e representada especialmente pela supermodelo britânic Kate Moss no início da década, além de muito comentada entre os fashionistas como uma fase ”bizarra” da moda. 

Ao que parece, os diretores criativos do mundo moderno ouviram os pedidos de ”Bring that back again!’’ dos amantes internautas dos anos 2000 e, a partir disso, a década atual tem buscado reviver as principais tendências da época pode ser considerada bastante sucessiva quanto a tal. 

Ao observar os editoriais de moda nas edições de Setembro deste ano (a edição de Setembro é sempre a mais importante do ano), principalmente das revistas Vogue US e Vogue Rússia é possível observar como a tendência já saiu das passarelas e migrou até mesmo para o mercado editorial. 

Alguns desfiles particulares da temporada anterior deixam claro o quanto a estética das criações têm tomado inspiração da tendência nascida nas redes sociais, a presença de referenciais a década de 2000 é inquestionável, como por exemplo na marca italiana Blumarine na diretoria criativa de Nicola Brognano desde sua coleção de Outono/Inverno 2021 ele mostrou com excelência como trazer uma tendência nascida do digital para a moda de luxo. Suas coleções seguem com a estética como a Resort 2022 e a mais nova coleção de Primavera Verão 2022 que foi apresentada no dia 24 de Setembro, durante a Semana de Moda de Milão. 

Alguns dos looks expostos por Nicola Brognano para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Alessandro Lucioni / Gorunway.com]
Diferentes reproduções do ‘top de borboleta’, da esquerda para a direita: Mariah Carey no red carpet de um show dedicado à Diana Ross em 2000 (design por Emanuel Ungaro); Olivia Rodrigo utilizando uma recriação da ‘Depop’ e Saweetie utilizando uma criação da Sequin em seu aniversário.

Entre minissaias e blusas cortadas, outra marca que demonstra  o poder do fenômeno digital é na mais recente coleção da Miu Miu de Primavera/Verão 2022, que foi apresentada no dia 05 de outubro durante a Semana de Moda de Paris. 

A coleção que foi assinada por Miuccia Prada foi aclamada pelos amantes de moda e marcada pelo renascer de uma das características mais fortes do Y2K — minissaias com comprimentos mínimos e cinturas baixas — mas não foi a única a abusar dos comprimentos minis em sua coleção, muitas grandes marcas seguiram a mesma linha como Acne Studios (Paris Fashion Week), Calvin Luo (Paris Fashion Week), Missoni (Milan Fashion Week) e Chopova Lowena (Milan Fashion Week) que direta ou indiretamente olharam para o sentimento nostálgico da década de 2000.

Alguns dos looks apresentados por Miuccia Prada para a Miu Miu, para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Filippo Fior / Gorunway.com

Fora das passarelas o cenário não é tão diferente. Personalidades como a modelo Bella Hadid e a cantora Dua Lipa (que são grandes influenciadoras contemporâneas no quesito ”tudo o que eu uso vira moda”), já adotaram diversas tendências do decênio compreendido entre  2000 e 2010, especialmente os trends bastante populares entre a metade da década. 

É corriqueiro que, a cada saída às ruas, elas entregam um novo outfit nostálgico que logo vira o assunto (ou looks) mais comentado e repostado nas redes sociais por um longo período de tempo. As cantoras Meghan Thee Stallion e Lizzo também são outras personalidades que parecem ter adorado reviver a década e, sempre que podem, usam e abusam do glamour dos anos 2000 em suas aparições. 

Bella Hadid e Dua Lipa fotografadas em NoHo, Nova York, em 19 de setembro de 2021. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Bella Hadid nas ruas de Nova York. Aqui ela revive a tendência da saia midi jeans em uma lavagem mais clara. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Em uma postagem em seu instagram, Dua desbloqueou diversas memórias dos anos 2000: o cropped rosa, a cintura à mostra, cinto combinado com peça superior e acessórios coloridos. [Imagem: Dua Lipa/ Reprodução Instagram]

No entanto, apesar de ser uma década que contém tendências e peças bem marcantes, uma das razões pela qual as marcas tendem a adotar a referência a década em suas criações pode estar atribuída à forte necessidade de fazer com que suas marcas sejam mais exploradas e adquiridas pelo público mais jovem, o que garantiria lucros e asseguraria o hype de suas casas criativas. 

É perceptível que algumas casas busquem preservar sua identidade criativa com tendências voltadas ao público mais maduro, porém, como qualquer outro nicho, a indústria da Moda passa por processos de rotações de caminhos, ou seja, para manter-se, é necessário que a mesma se adapte ao mundo ”moderno’’ e, convenhamos, as novas perspectivas buscam atentar-se mais ao mundo do marketing do que à realidade vívida, de fato.

Você provavelmente já deve ter ouvido por aí que ‘tempo é dinheiro’, mas quando o assunto é o mundo fashion, o mais correto a se dizer é: marketing é dinheiro; o que implica em dizer que se a estratégia de marketing de uma marca for bem produzida e executada, assim será a marca, também bem sucedida e lucrativa. Ou seja, o que significaria adotar as tendências que estão na ‘’moda’’ – seja entre influenciadores digitais, ou seja entre a comunidade da moda das redes sociais — como forma de dar continuidade à sua relevância, bem como uma maneira eficaz de garantir e assegurar seus fins lucrativos. 

Um outro ponto a ser relacionado pelo fortíssimo comeback da moda dos anos 2000 aos editoriais e passarelas também pode ser atribuído à presença de designers e diretores criativos mais ‘’jovens’’ frente às marcas e produções editoriais, que acabam por trazer suas raízes e referências estéticas às suas criações, especialmente, para dentro das passarelas. 

O retorno das tendências dos anos 2000 ainda rompe com as barreiras ‘’instauradas’’ pela influência dos anos de 1990. Se a década de 1990 era marcadas por peças mais confortáveis, minimalistas, e de fato ”reclusas’’ — representada pelo uso de calças mom e da estética grunge, por exemplo — a estética dos anos 2000 quebra totalmente estes paradigmas, expressado pela forte referência à extravagância, ao glamour e principalmente ao maximalismo — marcado pelo princípio de ”quanto mais, melhor”, adicionando mais personalidade e vida à composição de algum look, contrariando totalmente a estética passada. 

O momento nostálgico no qual nos encontramos atualmente não reflete somente nas peças de roupas ou acessórios. Acontece que, assim como o início da década de 2020, marcado por um período de recessões e, acima de tudo, pela pandemia do coronavírus deflagrada mundialmente, que provocou e agravou crises políticas e econômicas em diversas nações, além de crises sanitárias. 

Os anos 2000 não foram tão diferentes. Tiveram diversos altos e baixos, como a ”grande depressão“ ou crise financeira compreendida entre 2007 e 2008, que chegou ao fim somente em 2009 — mas que continua influenciando a economia de vários países até hoje — além da pandemia causada pelo H1N1 que afetou mais de 200 países entre 2009 e 2010 que, inclusive, ainda estavam saindo ou se recuperando da grave crise monetária desencadeada nos anos anteriores. Semelhanças? 

Há uma interessante explicação para tudo isso: a influência da conjuntura social no estilo. Ou melhor dizendo, a moda anda conforme a sociedade atual esteja caminhando, ou seja, a volta das tendências dos anos 2000 pode estar diretamente associada ao período — praticamente de semelhanças — no qual estamos vivendo atualmente.

Se por um lado as décadas de 1970 e 1980 valorizavam o uso de sapatos e saltos mais baixos, que pudessem representar a estabilidade e o momento vanguardista, em que a situação parecia estar andando em direção ao progresso, as décadas de 2000 e 2020 parecem buscar o lado contrário e reproduzir sua passagem marcada por instabilidades e índices inflacionários em seus sapatos altíssimos em plataformas. 

Dentro dessa teoria sociológica, parece que seremos contemplados pela glamourização, plataformas e maximalismo dos anos 2000 por um bom tempo, uma vez que, apesar do fim da pandemia, as problemáticas recorrentes e deixadas por ela perdurarão por um longo período, especialmente pelo decréscimo do mercado financeiro e crises políticas, que acabam por influenciar diretamente todos os setores econômicos, inclusive as indústria têxtil e da moda. 

Além disso, as antigas previsões de que ao longo de 2021 a moda estaria optando por tendências mais futuristas terão que se retardar um pouco e aguardar para que quando ocorra o otimismo de ser a ”estrela do show“, de fato, a moda possa novamente deliberar sobre um conceito vanguardista e de avanços, assim como a estética futurista. 

Se você alguma vez já se encantou por algum look usado pelo quarteto de Sex and the City (1998 – 2004) e por sua protagonista Carrie Bradshaw, ou por algum dos looks utilizados por Paris Hilton, Britney Spears, Jennifer Lopez, X-Tina, Fergie, Ashley Tisdale, Victoria Beckham, ou qualquer look inusitado que tenha saído diretamente do ”forninho’’ dos anos 2000 e já quis reproduzi-los, mas deixou de fazê-lo por achar que estaria ”fora de moda” ou vestindo-se de maneira ”estranha’’, talvez este seja o momento perfeito para tirar as peças do seu guarda-roupa e arriscar pelas ruas!