Depois de oito anos sem lançar um projeto solo, A$AP Rocky retorna com o álbum Dont’ Be Dumb – ambicioso, híbrido e, em certa medida, contraditório. A obra marca uma virada na carreira do rapper, sendo seu primeiro trabalho desde ‘Testing’ (2018). Mas um questionamento permanece: será que valeu a longa espera?
O lançamento de Don’t Be Dumb talvez tenha sido tardio por outras razões. O artista atravessou uma fase caótica e intensa nos últimos anos, com o foco dividido entre muitos rumos distintos: teve três filhos com a cantora Rihanna, enfrentou problemas judiciais, estreou como ator, participou de campanhas publicitárias para grandes marcas e consolidou-se como referência na moda internacional – não foram poucas as vezes em que ocupou um assento na primeira fileira em desfiles de alta costura. Mas mesmo sem um novo disco e afastado dos estúdios, Rocky continuou sob os holofotes – e seus números de streaming nunca pararam de crescer.
O caos na vida pessoal também atravessa o novo lançamento. Com estética cinematográfica, produção sofisticada e até uma colaboração com o cineasta Tim Burton na arte de capa, a identidade de gueto permanece, mas agora com um toque gótico trazido por Burton. Além disso, jazz, punk, trap e até influências do indie aparecem ao longo das 15 faixas – posteriormente ampliadas com outras quatro nas plataformas digitais, formando uma espécie de “Disco 2”, que sugere um projeto em expansão. “O Disco 1 foi para mim, o Disco 2 será para os fãs”, afirmou em suas redes sociais.
Talvez, com essa promessa, a obra completa surpreenda mais os ouvintes, que reagiram de forma dividida ao retorno de Rocky. Don’t Be Dumb reafirma o rapper como um dos nomes mais relevantes do hip hop contemporâneo, mas também evidencia limites de um artista que parece mais interessado em expandir sua estética sonora do que em aprofundar certos discursos. A produção se destaca por beats densos e experimentais, equilibrando ostentação e frases de efeito com reflexões sobre amor, paternidade e amadurecimento. Ainda assim, muitas letras são presas a temas já recorrentes em sua discografia. Embora nunca tenha sido um rapper essencialmente introspectivo, A$AP já construiu narrativas mais densas em seus três últimos projetos, ‘Long Live A$AP’ (2013), ‘At Long Last A$AP’ (2015) e ‘Testing’ (2018) – projetos autênticos, emocionais e sonoramente mais coesos.
Neste novo projeto, ele brilha em algumas faixas ao explorar novas sonoridades e sua versatilidade vocal, o que revela sua disposição para se reinventar. Dentre as favoritas, ‘Helicopter’ funciona como um ponto de virada imediato após a primeira faixa, equilibrando o clima mais denso do álbum com energia. É agressiva e recupera o A$AP que conhecemos – confiante, estiloso e confortável em seu próprio território – em contraste com as experimentações de outras músicas do disco.
‘Stole Ya Flow’ vem após um interlúdio, ‘Interrogation’, que reforça a sua autoconfiança em trechos como “Eu não vou lançar lixo cristalino! Eu lanço coisa boa cheia de chiado”. Rocky reafirma sua força como rapper na faixa que sucede a narração. A música transita entre o tom provocativo do rap e versos competitivos, incluindo uma diss a Drake, reafirmando a identidade de Rocky na cena. Já ‘Stay Here 4 Life’, com Brent Faiyaz, revela o lado mais melódico e emocional do artista, contrastando com a agressividade de outras faixas e evidenciando sua habilidade de transitar entre rap e R&B (inclusive, foi certeira a escolha pela voz suave de Faiyaz). É, possivelmente, a melhor faixa do álbum.
‘Punk Rocky’ é aquela que, quando se escuta pela primeira vez, sente que já havia escutado antes – retoma a estética alternativa que marcou “Sundress” (2018), explorando influências do punk e do indie. O resultado soa mais como um exercício de estilo do que uma mudança radical, e essa provavelmente foi a intenção. ‘Stop Snitching’, com BossMan Dlow e Sauce Walka, vem com um lado mais cru do gênero, com beats mais pesados e versos que dialogam com códigos de lealdade do rap e episódios pessoais da vida do artista. Em ‘Fish N Steak’, com Tyler, The Creator, reafirma a presença de Tyler como uma grande potência para o diferencial da faixa, o que criou um diálogo entre dois artistas que compartilham o interesse por experimentações e inovações em seus projetos.
Enquanto isso, ‘Robbery’, com Doechii, surpreende ao flertar com o jazz. Assusta, porque é seguida de ‘Whiskey’, que tem uma produção pesada e atmosfera sombria sobre a relação complicada do artista com a bebida. Por fim, a faixa que leva o nome do álbum, ‘Don’t Be Dumb / Trip Baby’ traz um lado etéreo, sensível e contemplativo do artista, com uma melodia suave e flows mais contidos. Menos preocupado em impressionar, reflete sobre sua própria trajetória. No entanto, a música se fragmenta na segunda metade, quando a mudança abrupta do beat rompe a linearidade emocional, criando a sensação de que duas ideias distintas foram condensadas em uma mesma faixa.
Nem todas as faixas sustentam a ambição estética de Don’t Be Dumb. Músicas como ‘STFU’, ‘Air Force’, ‘No Trespassing’ e ‘The End’ revelam um lado do artista inspirado, mas excessivo. É como se quisesse transmitir muito, mas sem saber como, meio perdido. O problema, porém, não se limita a essas faixas isoladas: o álbum como um todo oscila entre momentos de grande força e trechos menos memoráveis, criando uma experiência marcada por muitos contrastes. Entre picos de experimentação bem-sucedida e quedas abruptas de intensidade, Rocky busca expandir seus limites criativos, mas nem sempre consegue sustentar plenamente a coesão do projeto.
Don’t Be Dumb se comporta como uma montanha-russa: um álbum que aposta em excessos estéticos e em uma narrativa fragmentada, o que dificulta a construção de uma identidade plenamente coesa — ainda que a ideia inicial seja potente e carregada de intenção. A impressão é de que, na ânsia de inovar, Rocky tenha ampliado demais suas apostas criativas e, ao fazê-lo, se perdeu um pouco na própria experimentação. O resultado é um disco que impressiona em momentos pontuais, mas que, como conjunto, revela mais uma inquietação do que coerência. Ainda assim, mesmo em meio às irregularidades, A$AP preserva sua essência artística e arrisca novos caminhos, mostrando que, embora não sustente completamente sua proposta, continua disposto a tensionar os limites do próprio estilo.

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