Dez anos de ANTI: o álbum que redefiniu a carreira de Rihanna

Com a ruptura da fórmula do pop mainstream, narrativa íntima e estética empoderada, o disco foi contra as expectativas e colocou Rihanna no controle da carreira

Há uma década, em 28 de janeiro de 2016, Rihanna lançava “ANTI”, seu oitavo álbum de estúdio que representou um ponto de virada não só na carreira da cantora, mas também na cena pop mainstream. 

Contendo 16 faixas, com apenas duas parcerias vocais com SZA e Drake, o álbum é resultado de maior liberdade criativa de Rihanna e seus produtores que atravessaram gêneros como R&B, Pop, Soul e Rock, de forma mais experimental e alternativa.

A proposta sonora do disco era ir na contramão da fórmula do pop radiofônico da época, estilo, inclusive, pelo qual a artista se destacou desde o início da carreira conquistando uma legião de fãs aficionados, os Navys (Marinheiros em português), além de dezenas de hits. Em entrevista à Vogue em 2016, ela afirmou que “não queria ficar presa a nada que o mundo gostasse, nada que o rádio gostasse, nada que eu gostasse, que eu já tivesse ouvido. Eu só queria que fosse eu“.

Durante evento de revelação da capa e do título do álbum, realizado em uma galeria de arte, em Los Angeles, em outubro de 2015, a cantora explicou que o disco era anti-colonial e que seu nome significava “anti-estabelecimento” e “anti-expectativas”. Ela também compartilhou como o conceito refletia em seu desejo de não ser fixada em categorias pré-determinadas pela indústria e como sua ascendência caribenha foi uma das influências para o projeto.

O manifesto da anti-heroína pop

Rihanna e Roy Nachum em evento de divulgação da capa de ‘ANTI’, em 2015. Foto: Christopher Polk/Getty.

A emblemática capa do álbum é um manifesto visual das narrativas que o compõem. Criada pelo artista israelenese nova-iorquino, Roy Nachum, a arte é composta por uma foto de Rihanna, em preto e branco, enquanto criança, segurando um balão preto, com os olhos cobertos por uma coroa dourada. A imagem é coberta por uma mancha vermelha e acompanhada de inscrições em braile na lateral.

Em entrevista à revista InStyle, em outubro de 2015, Nachum revelou o significado dos elementos da capa. “[São] Múltiplas perspectivas que se cruzam expressando que a “verdade” está nos olhos de quem vê. A criança cuja visão é obscurecida pela coroa representa a cegueira humana causada por valores e desejos distorcidos, enquanto o balão simboliza a possibilidade de fuga e representa a necessidade humana de transcender a realidade física”, explicou.

Assim como a capa, as músicas desenvolvem uma atmosfera de vulnerabilidade e força coexistindo simultâneamente. Ao longo das letras, Rihanna alterna a narrativa entre momentos de intensa entrega emocional amorosa, em músicas como “Love on The Brain” e “Higher”, passando por afirmações de autoridade e independência em “Needed Me” e “Consideration”. Além de sentimentos como hedonismo, desejo, orgulho e carência em “Kiss It Better”, “Sex With Me” e “Woo”, compondo um auto retrato dividido entre sentimentos opostos e, por vezes, conflitantes. 

Assim, ‘ANTI’ cria um retrato de auto afirmação sem negar que poder e fragilidade podem ser lados da mesma moeda.

Os números e recordes de um clássico moderno

Rihanna recebendo o certificado de platina por ANTI em 2016. Foto: Divulgação RIAA Gold & Platinum Awards Program.

A obra foi bem recebida pela crítica especializada que classificou o disco como o mais coeso da artista, além de elogiar sua originalidade e a ruptura com o pop “safe” da época.

Os números corroboram com a percepção da crítica. Na primeira semana após o lançamento, ‘ANTI’ conquistou a primeira posição na ‘Billboard 200’, permanecendo nela por duas semanas não consecutivas. Assim, ele foi o segundo trabalho de Rihanna a ocupar a posição, sucedendo o ‘Unapologetic’, de 2012. 

“Work”, primeiro single da era, em parceria com Drake, atingiu o topo da Billboard Hot 100, entrando para a extensa lista dos hits da cantora. Ao todo, ‘ANTI’ registrou mais de cinco milhões de cópias vendidas mundialmente e foi o álbum mais reproduzido por uma artista feminina no Spotify em 2016. 

Chegou a ser indicado a seis categorias no Grammy de 2017, incluindo as de “Gravação do Ano” por “Work” e “Melhor Álbum de Música Contemporânea Urbana”, mas não conquistou nenhum gramofone, o que na época gerou um burburinho de que a cantora teria sido esnobada e, até mesmo, boicotada pela premiação. 

A falta de prestígio do Grammy, porém, não diminuiu o impacto do disco que seguiu alcançando recordes. Ao longo destes dez anos o álbum acumulou nove bilhões de streams no Spotify, sendo um dos mais escutados na plataforma. Já em novembro de 2025, ele completou 500 semanas na ‘Billboard 200’, sendo o primeiro álbum lançado por uma cantora negra a ficar todo este tempo no chart.

Ser ANTI agora é o novo pop

Rihanna performando no MTV Video Music Awards de 2016. Photo: Michael Loccisano/Getty Images.

Embora ‘ANTI’ não seja o único responsável pela abertura ao pop experimental no mainstream, ele com certeza foi um dos discos que ajudou a ampliar a abrir espaço para projetos posteriores que priorizavam maior criatividade, identidade em atmosferas mais vulneráveis em detrimento à lógica dominante do “pop farofa”. 

Anos depois, álbuns como o “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, debut de Billie Eilish, “Plastic Hearts”, de Miley Cyrus e “Solar Power”, de Lorde encontraram maior receptividade a universos conceituais não tão óbvios e de transformação ou reposicionamento de persona artística vindos de cantoras pop. 

Assim, o último disco de Rihanna não surge como origem direta, mas como um dos marcos que ajudaram a normalizar a ideia de que a música pop é múltipla e também pode ser contida, disruptiva e, até mesmo, estranha.

Controle criativo e hiato que mantém relevância

Rihanna performando no intervalo do SuperBowl 2023. Foto: USA Today Sports.

Mas mais do que um fenômeno de sua época, o álbum é um ponto de virada na carreira de Rihanna, marcando o início de seu controle total sobre sua persona, redefinindo a relação com sua arte, com a indústria e subvertendo a ideia de que para ser relevante no pop é necessário permanência eterna no mercado.

Afinal, mesmo há mais de dez anos sem lançar um álbum, com raríssimos lançamentos de singles e um show no intervalo do SuperBowl, em 2023, Rihanna é a 4ª artista com mais ouvintes no mundo, segundo o Spotify, além de sempre ser questionada pelos fãs e pela imprensa sobre o retorno à música.

Nesse sentido, ‘ANTI’ pode ser lido como um um fim simbólico, por representar o ponto em que ela, antes uma hitmaker imparável, deixa de dever algo à indústria, principalmente nos moldes de seus trabalhos anteriores. Ele é um trabalho que legitima a possibilidade de experimentar e de pausar sem perder sua relevância artística e cultural.

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