Celebridades usam sua posição social para acionar ativismo nas premiações
No último domingo, 01, o Grammy Awards foi marcado por grandes vitórias, mas também por posicionamentos políticos importantes para o período dos Estados Unidos. A premiação aconteceu justamente no momento em que os protestos contra ações do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) se espalham pelo país, reacendendo debates sobre imigração, violência estatal e direitos civis.
E claro, esses conflitos não ficam do lado de fora da cerimônia: eles atravessam o tapete vermelho, os discursos no palco e, em alguns casos, a própria música. As celebridades usam de sua imagem pública para acionar seu ativismo durante as grandes premiações de Hollywood, o que já podemos até classificar como uma tradição da indústria. Esse ano, as estrelas usaram os broches ‘ICE Out’ e ‘Be Good’, em apoio as vítimas do ICE e contra a política de imigração de Donald Trump.

Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Apesar de ser um movimento que se tornou honroso na sociedade, esse ativismo — na maioria das vezes tão singelo através de broches, camisetas ou cartazes — nem sempre é bem visto ou bem recebido, podendo manchar a reputação da celebridade por “não estar fazendo nada além disso”.
E é aqui que chegamos à pergunta: até que ponto essas manifestações artísticas — broches, camisetas, frases de impacto e discursos emocionados — realmente produzem mudança? Ou o Grammy e outras premiações viraram apenas mais palcos simbólicos para um ativismo que termina quando as luzes se apagam?
Diferente do Oscar, onde o discurso político costuma aparecer em falas mais longas e roteirizadas, o Grammy sempre teve uma relação mais orgânica com o ativismo. Isso porque, historicamente, a música nasce do conflito: canções de protesto, denúncia social e resistência acompanham movimentos civis há décadas.
De Bob Dylan a Nina Simone e passando por Kendrick Lamar, a música sempre reagiu ao seu tempo. O que mudou foi o espaço de performance. Hoje, além das letras e dos palcos, artistas usam o tapete vermelho como extensão do discurso, transformando moda em manifesto e estética em posicionamento político.
Um dos pioneiros desse movimento nas premiações foi Marlon Brando, que recusou sua vitória no Oscar de 1973 para dar voz a Sacheen Littlefeather, que fez um discurso sobre a representação de nativos americanos em filmes de Hollywood.
E agora, tantos anos depois, tivemos Bad Bunny, que levou o Grammy de Melhor Álbum, um prêmio histórico para um disco gravado inteiro em espanhol, com um discurso impactante sobre origens latinas e representatividade. Mas, não é necessário ganhar para se posicionar. Kesha se apresentou no Grammy 2018 cercada por músicos vestidos de branco em apoio às suas alegações de agressão contra o produtor Dr. Luke.

Imagem: Reprodução/Redes Sociais
A verdade é que é muito difícil mensurar o impacto que qualquer uma dessas declarações ou protestos tiveram. Será que alguém realmente votou diferente porque viu seu ídolo com um laço vermelho em apoio a conscientização da AIDS? Provavelmente não, mas isso com certeza influenciou na redução do preconceito e no aumento de testes e relações seguras.
A arte não muda leis sozinha, mas muda consciências.

Imagem: Reprodução/Redes Sociais
É improvável que um broche no tapete vermelho derrube uma política migratória ou reforme uma instituição como o ICE. Mas subestimar o papel da música na formação de consciência coletiva é ignorar a própria história da cultura pop.
A música não opera no campo da burocracia, ela atua no afeto, na memória e na identificação. E, em tempos de polarização extrema, isso ainda é uma forma poderosa de intervenção política.
No fim, talvez a pergunta não seja se o ativismo no Grammy e em outras premiações resolve problemas, mas se ele se recusa a fingir que eles não existem. Em um evento global, assistido por milhões, esse gesto continua sendo um ato político.

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