por Anna Beatriz Vilete
A influência do Oriente Médio na civilização ocidental é marcada pela convivência entre tradições milenares e tendências contemporâneas. Embora frequentemente chamada de “Berço da Civilização”, a região ainda é retratada no Ocidente a partir do mito de um território essencialmente violento. Segundo o historiador Ussama Makdisi, essa retórica de violência “atemporal” legitima intervenções externas e enfraquece a soberania dos países da região.
Essa construção de imagem é o que permite ao Ocidente consumir a estética oriental enquanto nega sua agência política. Sobre essa dinâmica, a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Maria Francisca Theberge pontua:
“É interessante pensar a relação entre o chamado Ocidente e o chamado Oriente como uma tentativa constante de construção de uma imagem refletida.”
O corpo e a moda como campo de disputa
Observa-se que a moda ocidental mantém uma fascinação recorrente pelo Oriente, apropriando-se de elementos como a abaya para transformá-los em referências dissociadas de seus contextos originais. Esse consumo seletivo apaga o papel da região como motor da modernidade global e ignora a importância política de seus tecidos e bordados.

A figurinista de moda e teatro Rebekah Silver Jackson observa que quando representadas em coleções de moda nas grandes capitais, esses conceitos são apresentados como uma alternativa livre das restrições do Hijab.
Essa leitura contribui para o mito de que a vestimenta islâmica seria, necessariamente, um símbolo de opressão. O assessor de comunicação e secretário da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, Luiz Celino, argumenta contra afirmando que é uma escolha da mulher usar. “O Hijab, que é a vestimenta feminina, para mulher muçulmana, é assim como tudo na religião, qualquer regra na religião, a pessoa, no caso, a mulher, ela tem que querer usar. É voluntário.”

Isso revela uma forma de uniformização da cultura árabe e persa, onde o Ocidente impõe seus próprios valores universais e sua estética, dificultando diálogos interculturais reais.
Esse consumo, acompanhado da negação política, integra um processo histórico que apaga o papel da região como motor da modernidade global e silencia sua contribuição diplomática e cultural muito anterior à globalização moderna.
A modernização imposta e o sufocamento político
O caso do Irã ilustra como essa projeção ocidental pode ser destrutiva. No século XX, o regime do Xá Reza Khan tentou modernizar a nação proibindo o uso do véu, uma medida de assimilação que acabou confinando muitas mulheres ao espaço doméstico. A soberania iraniana foi golpeada em 1953, quando a CIA e o serviço secreto britânico orquestraram a queda de Mohammed Mossadegh após a nacionalização do petróleo. Na época, a imprensa ocidental legitimou o golpe retratando-o como “fanático”.
Atualmente, essa negação da autodeterminação reaparece por meio de sanções econômicas e pressões externas que ampliam o sofrimento da população civil. Segundo a especialista em República Islâmica do Irã, Annika Ganzeveld, episódios recentes de ataques a infraestruturas estratégicas — como sistemas de defesa aérea — evidenciam a fragilidade da soberania iraniana em um cenário de pressões externas constantes.
Apesar das pressões, a resistência local é histórica. Grupos sociais no Irã transformam o cotidiano em campo de disputa desde a Revolta do Tabaco em 1891, quando um boicote nacional enfrentou a concessão da soberania econômica a interesses estrangeiros.
Entre a estética celebrada e a política negada, o Oriente Médio segue sendo consumido como imagem, enquanto suas vozes seguem disputando espaço para serem ouvidas como sujeitos históricos e contemporâneos.
Para Luiz Celino, compreender o Islã e as sociedades do Oriente Médio exige ir além das representações simplificadas. “A gente sempre orienta as pessoas a buscarem informação na fonte. Quando quiserem entender qualquer tema, o ideal é ouvir especialistas e recorrer às fontes principais, e não apenas ao que se ouve falar. É assim que se evita a reprodução de estereótipos que muitas vezes não têm base na realidade.”

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