por Sofia Araujo Loredo
A maior tendência de 2026 até agora não veio das passarelas, das playlists ou do cinema, mas sim do calendário: o ano de 2016. Quem esteve online, com certeza conferiu nas redes sociais a onda de saudades em forma de fotos de 10 anos atrás, quando as sobrancelhas eram marcadas, os filtros do Snapchat eram lei e era impossível escapar da música One Dance do Drake.
A nostalgia que dominou o início de 2026 começou de forma quase orgânica no TikTok no fim de dezembro de 2025, quando usuários passaram a resgatar referências da cultura de 2016. Celebridades, influenciadores, perfis dedicados à cultura pop passaram a reproduzir o formato, ampliando seu alcance. A trend carrega um sentimento coletivo de nostalgia por um tempo percebido como mais leve, em uma tentativa de revisitar o passado que hoje parece tão distante.
Não é sobre o ano, é sobre a fase da vida

A vanglória de 2016 vai além da volta de uma data no calendário. Acima de tudo, a tendência revela saudade de um momento pessoal. Para quem hoje vive entre os vinte e poucos anos, 2016 coincide com o auge da adolescência ou início da juventude, um período marcado por menos responsabilidades e cobranças e mais tempo para experimentar.
Naquele momento, o futuro ainda parecia distante. As metas não pesavam tanto e o mundo adulto era apenas uma ideia abstrata. Em 2026, para a grande maioria a realidade é outra: mercado instável, pressão por produtividade, construção de carreira, insegurança financeira e expectativas sociais que muitas vezes parecem inalcançáveis.
A nostalgia, nesse contexto, funciona como refúgio emocional. Ao olharmos para o passado, a vida que já não existe mais parece perfeita (e idealizada!). Existe uma expressão em inglês para isso: rose-colored glasses. Quando olhamos para o passado com lentes que suavizam os problemas. A memória não é um arquivo neutro, ela seleciona, reorganiza e edita experiências.
Em 2016, também havia medo, frustração, ansiedade e instabilidade política. Porém, é possível que esses temas tenham passado despercebidos ou compreendidos de forma limitada. A pouca idade impedia uma leitura mais crítica da realidade. O que fica guardado são os encontros com amigos, as descobertas afetivas, as músicas favoritas e a sensação de liberdade. O passado é transformado em uma narrativa que muitas vezes é mais agradável do que a realidade.
A década da nostalgia?

A obsessão pelo passado não é exclusiva de 2016. A década de 2020 vem sendo marcada por revivals, reboots, sequências e retornos constantes para um passado que é cada vez mais próximo. Já vemos o ciclo de nostalgia ser cada vez mais rápido, com movimentos online, por exemplo, relembrando afetivamente os anos de 2020 e 2021.
Parte disso se explica pelo excesso de registros. Esta é a primeira geração com praticamente toda a vida documentada em arquivos digitais. Fotos, vídeos, tweets, stories e mensagens permanecem acessíveis. Revisitar o passado nunca foi tão fácil (e nem tão tentador!).
Além disso, em tempos de crise (seja ela sanitária, política, climática ou econômica) olhar para trás vira uma estratégia de conforto. O conhecido parece mais seguro do que o imprevisível. Sentir saudade é humano. Revisitar memórias pode fortalecer vínculos e ajudar na construção da identidade. O problema surge quando a nostalgia se torna o centro da experiência.
Quando tudo é comparação, o presente parece sempre insuficiente. Se toda energia está voltada ao que foi, sobra pouco espaço para o que pode ser. Onde entram as novidades, os riscos, os encontros inesperados, as versões futuras de si mesmo?
A nostalgia de 2016 fala sobre o agora, com medos, incertezas, desejos de pausa e necessidade de acolhimento. São sentimentos que não cabem em um vídeo de 30 segundos ou um carrossel com 20 fotos. Eles pedem coragem para viver o tempo real.
Talvez a verdadeira “liberdade” de 2016 não estivesse no ano, mas na forma de ocupar a vida com menos medo de errar, mais espaço para experimentar e menos pressão para acertar tudo de primeira. Essa leveza não ficou no passado. Ela pode ser reconstruída no presente em novas formas de existir.
Reconhecer o passado como ele foi, sem romantizar ou apagar seus conflitos, é o que permite transformar memória em aprendizado. Entre relembrar e viver, o maior desafio da geração talvez seja esse: honrar quem fomos, sem deixar de apostar em quem ainda podemos ser.

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