Uma grande polêmica tomou conta das redes sociais no último mês: influenciadores digitais que afirmam fazer conteúdo sobre moda, mas se limitam a posts rasos, que incitam apenas o consumismo, com quadros como “get ready with me” (“se arrume comigo” em portugues), unboxings, hauls e recebidos, exibindo seus acervos pessoais e, claro, poder de compra.

O conflito girou em torno da falta de repertório técnico, histórico e cultural, no que diz respeito ao conteúdo de diversos influencers do nicho da moda, que, frequentemente, cometem gafes em seus vídeos, seja por questões de apropriação cultural e/ou religiosa, propagação de padrões eurocêntricos, disseminação de informações falsas, utilização de simbolismos inadequados e pejorativos… Como o conteúdo de consumo conseguiu se vender como conteúdo de moda por tanto tempo, sem levantar questionamentos? Qual seria o impacto destes influencers se não houvesse a fidelidade e engajamento do público?

A moda não fala apenas sobre cultura, mas, também, sobre identificação, busca de referências e ícones. Em seu livro Inventando Moda: Planejamento de Coleção, a professora de Design de Moda, Doris Treptow, afirma que a moda consiste num fenômeno social e cultural, caracterizada pela mudança periódica de estilo; para que ela aconteça, é preciso que existam seguidores, ou seja, ninguém ‘faz’ moda sozinho, é um fenômeno sociológico. Immanuel Kant, já afirmava em sua Crítica da Razão Pura, que só em sociedade é possível haver gosto – um homem sozinho numa ilha deserta, se vestiria para se proteger das condições naturais externas; já em sociedade, sua roupa precisa ser escolhida com base em um código social, a fim de evitar reprovação e críticas. Tal constatação não indica falta de autonomia e personalidade, quanto ao desenvolvimento de seu estilo, mas apresenta uma ambivalência: nos vestimos para expressar nossa individualidade, cultura, religião e identidade enquanto seres únicos; porém, ao mesmo tempo, direcionamos tais escolhas buscando, também, aprovação de determinado grupo social.

O mercado da moda se destaca nas redes sociais, principalmente, no Instagram, Pinterest e TikTok, devido à facilidade em expor detalhes e caimentos das peças, além de servirem como aliados na busca por inspirações de estilização. As plataformas digitais transformaram as abordagens de marketing, visto que permitem uma comunicação personalizada entre a empresa e o cliente, utilizando o influenciador como canal, de forma a complementar as estratégias tradicionais e se incorporar ao cotidiano das pessoas, modificando, assim, seus comportamentos. A influência digital se baseia em três pilares: engajamento (relação emocional entre público/cliente, digital influencer e empresa), participação (comentários, likes, compartilhamentos e demais interações com o conteúdo) e cocriação (colaboração entre influencer e empresa para criações de mídia e produtos).

A transformação das redes sociais iniciou sem interesse na publicidade/lucro, através de blogs sobre temas diversos, como moda, viagens, maternidade, leitura etc. Era, basicamente, um hobby dos seus autores, que levavam vidas normais; já, atualmente, influencers se transformaram em (sub)celebridades, formadoras de opinião, com poder de persuasão cada vez maior. Os “seguidores” estabelecem uma relação de confiança e admiração com o influenciador, assim, suas opiniões sobre marcas e produtos são fortemente consideradas, despertando uma certa necessidade, que até então, era desconhecida. William Pride e O. C. Ferrel afirmam no livro Marketing: Conceitos e Estratégias que o processo de compra do consumidor compreende cinco estágios: Identificação do problema, Busca de informação, Avaliação de alternativas, Compra e avaliação pós compra. Quando um influenciador indica um produto, cria a necessidade/problema no consumidor, além de disponibilizar informações (nem sempre verdadeiras) e, facilita a compra através de links, com direito a brindes e cupons de desconto.

Ao escrever sobre a “modernidade líquida”, Zygmunt Bauman já afirmava que, atualmente, todos os produtos que saem de fábrica, já apresentam um prazo de validade estabelecido, sendo descartados em um tempo cada vez menor; dessa forma, a sociedade atual passa a se caracterizar pelo supérfluo, passageiro e exagerado. O capitalismo desperta a necessidade de mudança, impõe seu ritmo acelerado, exigindo uma constante renovação, que passa a ser desejada e reivindicada pelos consumidores, as necessidades são renovadas na mesma velocidade em que são satisfeitas. Na moda, este fenômeno pode ser observado a partir da obsolescência estilística, onde produtos ainda funcionais são descartados ou tornam-se indesejáveis por conta de design, estilo ou aparência, considerado ultrapassado e fora de moda, forçando o consumidor a comprar novas versões, apenas por sua estética. Com a forte influência dos criadores de conteúdo digital, esse ritmo torna-se cada vez mais acelerado, transformando nossas formas de consumir, vestir, usar e viver.


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