por Anna Beatriz Vilete
Uma sala metodicamente organizada, o relógio batendo devagar, um divã, o silêncio e o corte antes do fim da sessão. Em contrapartida, música que está em tendência, tela brilhante e efeitos da moda. O que antes ficava confinado a um consultório é exposto a uma audiência global. As redes sociais criaram uma nova forma de lidar com a intimidade. Comentar, reagir e compartilhar o que era íntimo se transforma em espetáculo e o sujeito em simultâneo performer e espectador de si.
Não é de agora que o conteúdo sobre psicanálise sai do consultório para os celulares dos brasileiros. Em 2014, o psicanalista Christian Dunker inaugurou no YouTube uma nova forma de escuta pública ao responder e-mails de seguidores sob a perspectiva psicanalítica. A lógica da orientação mediada já existia: no rádio, o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott também dialogava com o público.
A mestranda, Clara Morosini, explica como começou a acompanhar esse conteúdo. “Basicamente, tem algumas coisas que eu queria saber o que são sem ter que ler o seminário de Lacan. E aí na internet tem vídeos explicando e alguns memes engraçados que eu quero saber do que se trata para eu poder rir junto, das pessoas que estão rindo desses memes dos canais.”
A diferença em relação ao que faziam Winnicott e Dunker está na forma como esse conteúdo circula hoje. O diálogo muda ao sair do consultório. Ele deixa de ser formulado sob mediação institucional e passa a operar em função do algoritmo. Conceitos de Freud ou Lacan são reduzidos a vídeos de poucos minutos, viram explicações rasas e piadas de nicho. Esse tipo de abordagem atende à pressa da cultura digital, mas em contrapartida cria um risco de esvaziar a densidade da teoria em favor de se tornar mais palatável para um consumo imediato.
O narcisismo digital
A psicanálise, ao se tornar conteúdo, passa a operar dentro da mesma lógica narcísica que ela historicamente tentou interpretar. O consumo cria a necessidade de buscar testemunhas para cada momento vivido. Nas redes sociais, a exposição de momentos – fotografias de comida, viagens ou eventos cotidianos – não é apenas para guardar memórias ou compartilhar informações, mas para criar uma sensação de realidade e pertencimento.
O professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Bicalho, argumenta que as redes fazem com que o indivíduo tenha uma sensação de pertencimento. “Parece que você só existe se você existir nas redes. Então, você publica sobre o que você comeu, como você tá feliz, como você tá triste, você publica isso, porque me parece que se você não publicar, você não tá existindo. É uma forma de validação da existência”.
Para o psicanalista Christopher Bollas, existe um anseio inconsciente de ser notado e reconhecido, e ao mesmo tempo revela uma vulnerabilidade narcísica. A busca incessante do indivíduo pela aprovação alheia, expressada através do clique ou do like, fornece as informações necessárias para que o sistema digital aprimore a captura do seu desejo, convertendo sua subjetividade em um produto ou serviço.
A Transposição da Ética
A conversão da subjetividade em produto coloca um desafio ético para o psicanalista. Se o indivíduo busca nas redes uma “testemunha” para sua existência e alívio para sua angústia, o analista não pode responder como um fornecedor de mercadoria.
A ética da psicanálise atua justamente no avesso desse espetáculo: onde o algoritmo oferece um ‘update’ de si mesmo e o ‘like’ oferece validação, o analista deve sustentar o lugar da falta, lembrando que a verdade do sujeito é parcial, enigmática e, como o próprio cotidiano, não cabe nos recortes de uma rede social.
Pedro ainda alerta, “é um tipo de ética de cuidado que precisa estar também bem presente, não somente no modo como eu escuto, mas no modo como eu escrevo, no modo como eu gravo, no modo como eu produzo o conteúdo que eu quero produzir”.

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