“Se a bolha da IA estourar, você saberá escrever seus próprios e-mails?”

por Sofia Araujo Loredo

“Se a bolha da IA estourar, vai ser o fim do ChatGPT?” você se pergunta em grande aflição. A resposta simples é não. Não é isso que significa o estouro da bolha de IA. Essa explosão irá trazer outras consequências, mas o fim das Inteligências Artificiais não é uma delas.

Não sejamos hipócritas: é evidente que a IA é uma grande mão na roda e representa avanços incríveis não só na tecnologia, mas em diversas áreas onde pode ser aplicada de modo ético. O problema aparece quando essa ética é ultrapassada e o limite do uso não é estabelecido, algo que vem sendo cada vez mais visto, principalmente com IAs generativas.

Esse ramo da Inteligência Artificial é capaz de gerar conteúdo a partir de prompts, comandos. Pense ChatGPT, Gemini, Microsoft Copilot, Grok. Como um gênio da lâmpada, você pode pedir por qualquer coisa, da criação de textos a imagens, áudios ou vídeos. Os limites de criação atualmente parecem não existir e esse é o principal apelo para o uso das IAs generativas. Quem um dia imaginou ter tanto poder assim a um clique de distância?

 Porém, no estilo de gênios da lâmpada, cada pedido tem um preço. Essa é a IA que o público geral mais conhece e já está acostumado a usar. Se (ou quando?) o estouro da bolha acontecer, esse costume pode mudar drasticamente em um futuro não tão distante assim. E aí, você irá desejar ainda saber escrever sozinho seus próprios e-mails.

O que significa estourar a bolha?

O que acontece quando sopramos muito ar dentro de uma bexiga? Evidentemente, ela tem um limite e, quando alcançado, acaba estourando, pois não comporta tanta quantidade de ar.

Uma bolha econômica acontece quando há “uma alta acentuada no preço de um ativo ou de um conjunto de ativos […] em que a alta inicial gera expectativas de novas altas e atrai novos compradores – geralmente especuladores”. Essa definição vem do historiador econômico americano Charles Kindleberger, referência no assunto.

Nos últimos anos, a IA foi uma novidade atrativa, que gerou muita especulação e promessas de retorno financeiro para seus investidores. Puxe na memória, não parece que do dia para a noite todo aplicativo, site e serviço apareceu com um “assistente” de IA? A euforia e altas apostas na “the next big thing” levaram esse mercado à supervalorização. 

Desta vez, são as empresas de Inteligência Artificial, mas esse fenômeno já foi observado em novas tecnologias do passado, como o desenvolvimento das ferrovias no século 19 e a popularização da internet no início dos anos 2000.

Ainda de acordo com Kindleberger, a alta geralmente é seguida por uma reversão das expectativas e uma queda acentuada no preço, o que frequentemente resulta em uma crise financeira. Essa é a previsão do estouro da bolha. De acordo com uma declaração do CEO do JPMorgan, Jamie Dimion, é evidente que o investimento na IA irá render frutos, mas nem todos que plantam agora irão colher no futuro.

Teorias: o que acontece depois do estouro?

Spoiler: não é o fim da Inteligência Artificial, mas talvez seja o fim da “folga” que temos hoje. 

A bolha da IA é, especialmente, financeira. Especialistas teorizam que, após o estouro da bolha, o grande impacto será um mercado mais limitado. Imagine: hoje, todos querem desenvolver sua própria IA e é possível encontrar investidores para isso (“the next big thing”, lembra?). 

A principal teoria, comentada tanto por economistas do Wall Street Journal quanto por aficionados por tecnologia no Reddit, é: se a bolha estourar, as ações irão despencar, a perda de confiança na tecnologia poderá acontecer após a saturação do mercado e quem sentirá esse impacto serão principalmente as pequenas empresas. Grandes empresas já estabelecidas da área irão dominar o mercado e a diversidade de centenas de startups e iniciantes será encerrada e absorvida pelos “big players”.

A teoria ainda sugere que, nesse mercado mais limitado, o único objetivo que moverá as grandes empresas será o lucro, antes da inovação. E é assim que o usuário comum da IA generativa sentirá o impacto do estouro da bolha. Diga adeus à gratuidade, à possibilidade infinita e ao uso desenfreado da IA ao seu bel-prazer.

O próximo passo será a era das assinaturas, das respostas limitadas, comandos não cumpridos e um público certeiro disposto a pagar uma mensalidade, pois já se acostumaram a existir apenas de acordo com as instruções do Chat GPT.

Guia prático para (voltar) a sobreviver sem o ChatGPT

O que acontece com o cérebro humano quando ele se acostuma com o uso exagerado da IA generativa para resolver todos os seus obstáculos? Algumas consequências são atrofia cognitiva, redução do pensamento crítico, falha na memória e retenção do conhecimento, além de diminuição na criatividade e aumento na ansiedade. 

O neurocirurgião Paulo Niemeyer, diretor do Instituto Estadual do Cérebro no Rio de Janeiro, afirmou para a CNN: “O que o indivíduo […] não consegue dizer o que ele comeu no almoço naquele dia, porque essa informação não está no Google”.

Então, se o estouro da bolha te assusta, você tem gastos melhores do que assinar um assistente de Inteligência Artificial e quer retomar a autonomia do seu cérebro, a reflexão seguinte pode ser de grande ajuda! Não é necessário interromper totalmente o uso da ferramenta, mas uma reflexão antes de digitar qualquer comando é um bom exercício.

1 – Volte a escrever seus próprios e-mails (por mais assustador que isso seja!)

É chato pensar nas palavras certas? Sim. Principalmente quando são destinadas a alguém importante? Também. Mas não é melhor apostar na própria voz do que nas palavras escolhidas por uma máquina?

2 – Deixe a trend do momento passar 

É tão essencial assim ver a sua versão Pixar ou caricatura do seu trabalho ou como o personagem de uma série que você nem assiste? Vale a pena receber 10 curtidas em uma imagem que vai cair no esquecimento no rolo de câmera para sempre?

3 – Busque por suas próprias respostas

Já sabemos que a IA generativa não é a fonte mais confiável e é conhecida por fornecer as respostas erradas. A curiosidade é natural do ser humano e muito melhor exercitada quando não recebemos todas as informações oferecidas em 3 linhas resumidas.

4 – Saiba diferenciar a máquina de um amigo

As IAs generativas são treinadas para se adaptar aos seus comandos. Irão dizer o que você quer ouvir. Seus amigos são indivíduos que irão te dizer o que você precisa ouvir. A melhor conexão sempre será humana. 

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