Miley cyrus será, para sempre, hannah montana

Cantora retorna ao papel que moldou sua carreira no especial de 20 anos da produção, mostrando que nem tudo fica no passado

Essa última semana foi muito emocionante para os fãs de Hannah Montana e de Miley Cyrus, após a divulgação de A Hannah Montana 20th Anniversary Special. No teaser exibido pela ABC na madrugada de terça-feira (10), a cantora retorna ao Stage 9, o mesmo estúdio onde a série foi gravada, e revive um dos símbolos mais marcantes da televisão dos anos 2000: a icônica peruca loira de Hannah Montana.

Mais do que um retorno nostálgico, o momento funciona como um reencontro entre artista, personagem e uma geração inteira que cresceu acompanhando a história da garota que vivia entre dois mundos.

E apesar dessa distância que havia entre os dois mundos da série, na vida real, Miley e Hannah sempre foram uma só, literalmente! Quando foi escolhida para interpretar Miley Stewart, a adolescente que levava uma vida dupla como a popstar Hannah Montana, Miley Cyrus tinha apenas 12 anos. O que começou como uma sitcom juvenil rapidamente se transformou em um fenômeno cultural mundial.

A série, exibida entre 2006 e 2011 pelo Disney Channel, ultrapassou a televisão: gerou álbuns no topo da Billboard, turnês esgotadas e uma das franquias mais lucrativas da Disney nos anos 2000.

Foi na turnê Best Of Both Worlds, inclusive, que Miley performou pela primeira vez na vida real como Hannah Montana e como ela mesma, em uma tentativa bem-sucedida de promover Meet Miley Cyrus, seu primeiro álbum de estúdio.

Mas, Hannah Montana nunca foi apenas um personagem ou o pontapé inicial de sua carreira, pelo contrário. Foi ali onde ela construiu sua identidade artística diante do público.

Miley Stewart x Hannah Montana e Miley Cyrus x Miley Cyrus

Foi essa dualidade da série, que a cantora também enfrentou na vida real. Uma adolescente tentando equilibrar a vida comum com a fama mundial, isso acabou espelhando a própria trajetória de Miley Cyrus. Enquanto o público acompanhava Miley Stewart tentando manter em segredo sua identidade como Hannah Montana, a atriz por trás da personagem também aprendia a lidar com uma fama que crescia em ritmo acelerado.

O sucesso da série transformou Cyrus em um dos maiores fenômenos juvenis dos anos 2000. E claro, a jovem artista passou a dividir sua identidade entre duas versões públicas: a popstar loira da ficção e a adolescente do Tennessee que começava a descobrir quem era fora das câmeras.

Essa dualidade se refletiu diretamente em sua música. Em 2007, o álbum duplo Hannah Montana 2: Meet Miley Cyrus simbolizou essa transição ao apresentar dois lados distintos: de um lado, as canções da personagem que já havia conquistado milhões de fãs; do outro, as primeiras faixas assinadas por Miley como ela mesma. Era o início de uma separação entre artista e personagem, ainda que, naquele momento, as duas identidades continuassem profundamente conectadas. 

Esse crescimento como personagem e como artista foi simultâneo, sendo cada vez mais difícil separar a ficção de sua realidade. Aos poucos as perguntas deixaram de ser “quem é Hannah Montana?” para “quem é Miley Cyrus?”.

Foi nesse momento da carreira de Miley, que ela começou a dar mais atenção a sua vida pessoal e começar a se desvincular daquela imagem de garota da Disney que havia criado. 

Em 2010, depois de dois anos sem lançar um álbum de estúdio, ela lançou seu terceiro disco, Can’t Be Tamed. O single, de mesmo nome, foi lançado para venda em maio de 2010, e entrou em #8 no Hot 100 da Billboard. 

Can’t Be Tamed, terceiro disco de Miley Cyrus
Imagem: Distribuição

E esse álbum deu o que falar. Os figurinos e as performances usadas para promover o disco eram nitidamente mais ousados e diferentes do que o público estava acostumado a ver, o que já marcava uma nova fase na carreira da artista. O projeto marcou uma mudança de direção na sonoridade e na imagem de Miley, com uma proposta mais madura e distante da estética associada a Hannah Montana, algo que acabou dividindo opiniões na época.

Após o lançamento do álbum e as críticas da imprensa, ela anunciou que pretendia dar uma pausa na indústria da música para se dedicar mais à carreira no cinema.

E foi exatamente isso que ela fez. Em 2010, Miley protagonizou A Última Música, além de participar da quarta e última temporada de Hannah Montana. Nos anos seguintes, também estrelou produções como LOL e A Super Agente, explorando novos caminhos como atriz.

Naquele momento, depois de encerrar a divulgação de seu terceiro álbum de estúdio, Can’t Be Tamed, a cantora decidiu realmente se afastar por um tempo da música. Parte dessa decisão também estava ligada às limitações que enfrentava dentro de sua antiga gravadora, a Hollywood Records, onde muitas das ideias que queria explorar eram consideradas maduras ou ousadas demais para sua imagem naquele período.

Foi somente em 2012, durante o processo de criação de um novo projeto musical, que Miley começou a se reunir com gravadoras e produtores ligados à Sony Music. O movimento fazia parte de uma busca por mais liberdade artística, algo que, nos anos seguintes, acabaria moldando uma das fases mais marcantes de sua carreira.

Finalmente, em 2013, a Billboard confirmou que Miley Cyrus havia assinado um contrato com a RCA Records. Após anos de espera, ela marcou oficialmente o início de sua nova era no palco do Billboard Music Awards, quando anunciou seu novo single, We Can’t Stop

O impacto foi imediato. Com pouco mais de seis horas de lançamento, a música já havia alcançado o topo do iTunes em mais de 30 países, incluindo Brasil e Estados Unidos. No mesmo dia, We Can’t Stop também chegou ao primeiro lugar no ranking mundial da plataforma, um feito inédito entre artistas da mesma geração de ex-estrelas da Disney.

Pouco tempo depois, em agosto do mesmo ano, ela anunciou que seu novo álbum se chamaria Bangerz. O projeto marcaria definitivamente sua nova fase artística.

É impossível não lembrar de Wrecking Ball quando esse álbum é citado. Foi a partir desse disco que a imagem de Hannah Montana tinha sido, de alguma maneira, desvinculada de Miley Cyrus, por ela mesma, em um movimento de liberdade e autoridade sobre si mesma. 

Miley Cyrus em Wrecking Ball
Imagem: Distribuição

Foi nessa época que todos se voltaram contra essa nova “figura” que Miley Cyrus havia se tornado: cabelo curto, batom vermelho, roupas ‘vulgares’ e até o fim de seu relacionamento com Liam Hemsworth. Esse período durou pouco, e apesar de muitas pessoas o considerarem apenas uma fase da vida de Miley, foi o momento dela mostrar que poderia ir além daquela garota de peruca da Disney. 

Mas, com o passar do tempo, Miley Cyrus passou a enxergar Hannah Montana não como um peso, mas como um capítulo fundamental de sua história. Se durante os primeiros anos após o fim da série a cantora parecia determinada a se distanciar da imagem construída na Disney, a década seguinte trouxe uma mudança de perspectiva.

O processo de reinvenção artística que marcou sua carreira — do pop provocativo de Bangerz às experimentações musicais e, mais tarde, ao rock de Plastic Hearts — ajudou a consolidar Miley como uma artista independente, capaz de existir muito além da personagem que a apresentou ao mundo. E foi justamente essa segurança criativa que permitiu que ela revisitasse o passado com mais tranquilidade.

Em 2021, ao celebrar os 15 anos da estreia de Hannah Montana, Miley publicou uma carta aberta emocionante dedicada à personagem. No texto, ela agradeceu à garota loira que marcou sua adolescência e reconheceu o impacto que a série teve tanto em sua vida quanto na de milhões de fãs ao redor do mundo.

“Embora você seja considerada um ‘alter ego’, na realidade houve um momento da minha vida em que você segurava mais da minha identidade na sua luva do que eu mesma nas minhas mãos”.

O especial de 20 anos promete revisitar esse legado sob uma nova perspectiva. O projeto inclui imagens de arquivo inéditas, entrevistas exclusivas, números musicais e recriações de cenários clássicos da série, como o famoso closet de Hannah.

Gravado diante de uma plateia ao vivo, formato que remete ao seriado original, o programa também trará uma conversa entre Miley Cyrus e Alex Cooper, apresentadora do podcast Call Her Daddy, sobre o que significou crescer sob os olhos do público.

Revisitar Hannah Montana hoje não significa voltar ao passado, mas reconhecer o papel que aquela garota de peruca loira teve na construção de uma das trajetórias mais singulares da música pop contemporânea. Afinal, antes de se tornar uma artista premiada e um dos nomes mais versáteis de sua geração, Miley Cyrus era apenas uma adolescente tentando equilibrar dois mundos, exatamente como a personagem que a apresentou ao mundo.

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