A história do Oscar

Neste domingo, 27 de março, a 94ª edição do Oscar, a premiação de cinema mais famosa que existe, aconteceu em Los Angeles, nos Estados Unidos, no tradicional Dolby Theatre. O evento anual é apresentado por uma organização profissional sem fins lucrativos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, onde os melhores filmes do ano são homenageados. A Academia, sediada em Beverly Hills, foi fundada em 11 de maio de 1927 e teve sua primeira cerimônia realizada em 1929. Hoje, o Oscar é um evento multimilionário transmitido ao vivo pela televisão para mais de 200 países, tornando-se assim um dos maiores eventos midiáticos do mundo.

Louis B. Mayer, um dos fundadores da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), criou a Academia, porém, um dos principais atores norte-americanos do começo do século XX, Douglas Fairbanks, foi eleito o primeiro presidente da associação. Assim, em 16 de maio de 1929, à noite, membros da Academia e 270 convidados, encheram o Blossom Room por somente 20 minutos, no Hotel Roosevelt, para honrar as realizações cinematográficas mais proeminentes de 1927 e 1928.

Apesar da extrema crise econômica causada pela queda da bolsa de valores de Nova York, que deu inicio à Grande Depressão, a indústria cinematográfica passava por uma mudança dramática na época ao introduzir som pela primeira vez em um filme, O Cantor de Jazz (1927). Nesse momento, a indústria gozava de várias produções que movimentaram o evento, porém filmes sonoros de muito sucesso – que lançaram antes do primeiro Oscar – não foram considerados, porque foi visto como injusto compará-los a filmes mudos.

O primeiro vencedor do Oscar foi o ator suíço Emil Jannings, que ganhou o prêmio de Melhor Ator por seus papéis em dois filmes mudos, O Último Comando (1928) e O Caminho de Toda a Carne (1927). O romance Asas (1927), dirigido por William A. Wellmen e ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, ganhou o primeiro Oscar de Melhor Filme.

Emil Jannings, nome artístico de Theodor Friedrich Emil Janenz [Imagem: Reprodução/Correio Braziliense]

Uma estatueta dourada do Oscar é uma conquista sublime na carreira de cada diretor, ator ou atriz, compositor ou qualquer outra pessoa envolvida no processo de criação de um filme. O cobiçado troféu tem 34 cm de altura e é revestido com uma fina camada de ouro de 24 quilates, enquanto seu peso de 3,8 kg vem de seu interior de bronze maciço.

Em 1927, Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM, projetou o gráfico que serviria de base para a estatueta: um cavaleiro em pé segurando uma espada de modo protetor na frente de um rolo de filme com cinco raios. O rolo simbolizava a indústria cinematográfica e os raios representavam os cinco ramos originais da Academia.

No ano seguinte, Gibbons designou o escultor George Stanley para realizar seu projeto e desde então o design não sofreu mudanças significativas até hoje, nos mais de 90 anos em que já foi entregue, apenas durante a escassez de metal na Segunda Guerra Mundial, quando as estatuetas foram feitas de gesso pintado com tinta dourada. Após o conflito, o gesso foi trocado por metal banhado a ouro, que é como conhecemos hoje a estatueta do Oscar.

As estatuetas do Oscar nos bastidores durante a entrega do troféu em 28 de fevereiro de 2016 [Imagem: Reprodução/The Hill]

Segundo o jornal NY Post, desde que a primeira premiação aconteceu, mais de 80 Oscars foram roubados ou perdidos. Apenas 11 deles nunca foram encontrados – a maior parte das estatuetas foi achada em lixeiras ou catálogos de leilões, retornando para seus vencedores. O maior roubo da história do Oscar ocorreu em 2000, quando uma encomenda com 55 pequenas estátuas ainda não preenchidas com o nome de seus vencedores foi roubada por funcionários da empresa que transportava os prêmios de Chicago à Califórnia.

As origens do nome da estatueta são incertas, mas uma história popular diz que a diretora executiva Margaret Herrick pensou que a estátua se parecia com seu tio Oscar e então a equipe começou a chamar a o prêmio assim. Outra versão diz que a atriz Bette Davis o teria apelidado assim, dado a semelhança da estatueta com seu primeiro marido, Harmon Oscar Nelson. De qualquer maneira, até hoje esse apelido é o nome pelo qual o Prêmio da Academia é conhecido mundialmente.

Em 1953, o Oscar passou a ser uma atração televisionado e, a partir disso, ganhou cada vez mais projeção e status. Atualmente, o evento é transmitido ao vivo para diversos países, mas a Academia sempre está se equilibrando na corda bamba que é manter bons números de audiência. Assim sendo, a Academia está constantemente em busca de entregar modificações que garantam o interesse na premiação, principalmente aos expectadores mais jovens, como por exemplo o acréscimo de categorias, como a de Melhor Filme Estrangeiro visando a internacionalização do prêmio, e as aguardadas apresentações musicais.

Lady Gaga e Bradley Cooper foram o assunto do Oscar de 2019 após fazerem apresentação emocionante no palco da premiação [Imagem: Reprodução/G1]

Em 2019, a audiência do Oscar, somente nos Estados Unidos, atingiu quase 30 milhões de espectadores. A cerimônia de 1998 ainda mantém o recorde da maior audiência da História dos Prêmios da Academia, na qual foi registrado que 57 milhões de pessoas assistiram ao evento.

Os filmes nomeados para concorrer, assim como a escolha dos vencedores do prêmio, são decididos pelos membros da Academia. Na primeira cerimônia do Oscar, apenas 26 membros compunham a Academia. Hoje, presume-se que o número de membros seja de cerca de 8500 pessoas, mas apenas duas categorias são abertas ao voto de todos: Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro. As demais categorias necessitam de exímio conhecimento para que haja uma avaliação mais crítica, como por exemplo na categoria Melhor Documentário.

Embora a primeira cerimônia do Oscar tenha acontecido no final da década de 1920, muitas mudanças só aconteceram recentemente, como a composição dos membros da Academia. A indignação generalizada do público para que a Academia diversificasse sua composição de homens brancos e velhos e incluísse mais jovens, mais mulheres e mais pessoas de cor repercutiu-se e, felizmente, mostrou resultado nos últimos anos. Até 2012, as estatísticas revelavam que 94% dos membros da Academia eram brancos, 77% eram homens e mais de 50% tinham idade superior a 60 anos.

O procedimento de premiação também mudou. No primeiro Oscar, os convidados já sabiam quem eram os vencedores e, além disso, desembolsaram cinco dólares para possuir o privilégio de participar da cerimônia. No entanto, no próximo ano, a Academia decidiu criar uma sensação de suspense e, em vez disso, enviou de antemão uma lista dos vencedores aos jornais, com publicação embargada até às 23h da noite da cerimônia.

Esse sistema permaneceu em vigor pelos por 10 anos, mas em 1940, o jornal Los Angeles Times, popularmente referido como Times ou LA Times, quebrou o embargo e anunciou os vencedores em sua edição noturna, o que significa que os indicados descobriram seu destino antes de comparecer ao evento. Por isso, em 1941, o sistema do famoso envelope lacrado foi finalmente introduzido e os resultados tornaram-se um segredo bem guardado.

O método do envelope funcionou muito bem até 2017, quando uma confusão nos bastidores causou um embaraçoso anúncio falso: o musical La La Land: Cantando Estações (2016) foi erroneamente declarado como Melhor Filme. Apenas após a intervenção dos organizadores, o prêmio foi entregue para o vencedor correto, a equipe criativa por trás do drama Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016).

Momento histórico da gafe do Oscar de 2017 em que os envelopes de Emma Stone e Moonlight foram trocados [Imagem: Reprodução/Observador]

No decurso dos 90 anos de história do Oscar, algumas produções e artistas do Brasil concorreram em várias categorias. A última vez aconteceu em 2020, quando Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, concorreu na categoria Melhor Documentário. Entretanto, antes disso, O Pagador de Promessas (1963), O Quatrilho (1996), O que é isso, Companheiro? (1998) e Central do Brasil (1998) já disputaram na categoria Melhor Filme Estrangeiro.

Cidade de Deus (2004) e O Beijo da Mulher-Aranha (1986) receberam quatro indicações cada um. Contudo, o momento mais memorável para o país provavelmente fora a indicação de Fernanda Montenegro, em 1999, como Melhor Atriz, por Central do Brasil (1998), mesmo que a vencedora tenha sido a atriz Gwyneth Paltrow, por sua atuação em Shakespeare Apaixonado (1998).

A cerimônia do Oscar de 2022 não fugiu das mudanças trazidas pela pandemia de coronavírus, do domínio das mídias sociais, do decréscimo de consumo da televisão (graças em parte às mídias sociais), do surgimento de plataformas de streaming de grande sucesso e da cultura do binge-watching. Entretanto, a Academia, assim como a indústria cinematográfica que o Oscar celebra anualmente, foi resiliente e primorosa em readaptar-se de acordo com a necessidade do momento.

O Prêmio da Academia retornou ao Dolby Theatre após uma cerimônia reduzida no ano passado com convidados que respeitavam o distanciamento social e medidas de proteção, sem a presença do público. Neste ano, o evento não teve mais uma vez a presença do público, mas teve a presença exclusiva dos indicados e de seus acompanhantes e, pela primeira vez na história, um trio feminino comandou a cerimônia: Regina Hall, Amy Schumer e Wanda Sykes. Ademais, o Oscar não tinha anfitriões desde 2018, quando Jimmy Kimmel exerceu a função – as atrizes de Descompensada, Família Upshaw e Todo Mundo em Pânico retomaram à tradição após quatro anos.

As seis histórias de sucesso de Hollywood

Desde o início da pandemia de coronavírus, o streaming virou o porto seguro dos fãs de audiovisual que encontraram as salas de cinema fechadas durante vários meses. Portanto, os estúdios e distribuidoras precisarão correr atrás de resgatar o patamar de bilheterias observado antes do período de quarentena, se readaptando à realidade trazida pelo contexto pandêmico. À medida que a indústria cinematográfica está cada vez mais se esforçando para monetizar o vício em conteúdo, um necessário questionamento surge: o que faz um filme ser um sucesso?

Segundo o renomado sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que tudo se dissipa rapidamente. Sendo assim, ao mesmo tempo em que um filme está fazendo sucesso hoje, outro estará fazendo um sucesso ainda maior na semana que vem. Há anos, Hollywood conta as mesmas seis histórias para garantir isso e (quase) ninguém percebeu.

Em 1928, o teórico russo Vladimir Propp publicou o ensaio Morfologia do Conto Maravilhoso, no qual distinguiu 31 funções narrativas básicas que são usadas para contar as tramas que conhecemos. Propp analisou que os motivos são variáveis, mas a sua estrutura é constante. Dessa forma, o teórico se dedicou a designar as estruturas narrativas e chegou a conclusões que são conceituadas até hoje. 

Contudo, em 2019, o jornal El País resgatou o estudo de Propp e chegou à conclusão que, de maneira superficial, essas 31 características podem ser reduzidas a seis fórmulas de histórias que Hollywood repete inúmeras vezes, a fim de obter o máximo de lucro, são elas: Histórias de Ícaro, Histórias de Orfeu, Histórias de Cinderela, Viagens iniciáticas (ou a forja do herói), O objeto mágico (ou a busca do herói) e Rapaz conhece moça (ou ‘sujeito’ mágico).

Em “Histórias de Ícaro”, há a ascensão e a queda de um personagem relevante, assim como Ícaro, filho do arquiteto Dédalo. No famoso mito grego, cobiçando aproveitar cada vez mais o sentimento de liberdade e ignorando os gritos de repreensão do pai, Ítalo voou para muito perto do Sol e caiu no mar quando o calor derreteu a cera que mantinha suas asas de plumas junto ao seu corpo. Nesse tipo de filme, o herói recusa suas virtudes e é castigado com uma queda metafórica. Por isso, muitas histórias assim são fábulas morais contadas, principalmente, para ensinar a importância da humildade e conformismo. Cidadão Kane (1941) e Soberba (1942) são clássicas histórias de Ícaro. Touro Indomável (1980), Scarface (1983), O Grande Gatsby (2013) e o premiado Era uma Vez em… Hollywood (2019) também seguem a mesma fórmula.

Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Quentin Tarantino posam para divulgação de Era Uma Vez Em… Hollywood (2019) [Imagem: Reprodução/Twitter]

Nas “Histórias de Orfeu”, há viagens de ida e volta ao “inferno”, assim como fez o poeta Orfeu da mitologia trácia, filho do deus Apolo e da musa Calíope. Desse modo, diferentemente de Ícaro, essas histórias costumam narrar finais melancólicos, em que o personagem, atordoado pela experiência vivida, retorna para casa mais triste ou após uma perda difícil de suportar, sem necessariamente desembocar no fracasso do herói. Rastros de Ódio (1956), Taxi Driver – Motorista de Táxi (1976), O Franco Atirador (1978), Apocalypse Now (1979), Platoon (1986), O Silêncio dos Inocentes (1991) e A Lista de Schindler (1993) são histórias de Orfeu.

Anthony Hopkins rouba a cena em O Silêncio dos Inocentes (1991) [Imagem: Divulgação/Orion Pictures]

Já nas “Histórias de Cinderela”, há um personagem relevante que abandona suas origens humildes em busca da grandeza. O herói (ou heroína, uma vez que diversas dessas histórias apresentam uma protagonista feminina) enfrenta obstáculos humilhantes e os supera sem comprometer suas virtudes, conquistando uma merecida recompensa ao final, que é o amor, o sucesso ou a felicidade, de alguma forma. O objetivo é passar ao espectador a mensagem de que a bondade, no fim, sempre prevalece, já que o herói da trama sempre espelha, essencialmente, as virtudes do ser humano. Uma Linda Mulher (1990), Jerry Maguire: A Grande Virada (1996), Encontro de Amor (2002), À Procura da Felicidade (2006), Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), A Rede Social (2010), Annie (2014), a famosa série de filmes Jogos Vorazes (2012, 2013, 2014 e 2015) e a esmagadora maioria dos melodramas mais adorados do cinema são alguns exemplos.

Katniss Everdeen, a protagonista vivida por Jennifer Lawrence, participa de um reality show macabro para salvar sua irmã caçula [Imagem: Reprodução/Variety]

Em “Viagens iniciáticas”, os personagens, maioritariamente jovens, se encontram desorientados em um momento existencial e precisam de uma aventura transformadora, como se apenas isso pudesse lhes ajudar em uma crise de identidade. Infelizmente, muitas viagens iniciáticas acabam em tragédia. A maioria dos road movies como Thelma & Louise (1991), Pequena Miss Sunshine (2006) e Na Natureza Selvagem (2007) se encaixam aqui. Juventude Transviada (1955), Easy Rider (1969), No Decurso do Tempo (1976), Conta Comigo (1986), Sideways – Entre Umas e Outras (2004) e Viagem a Darjeeling (2007) são mais alguns filmes desse tipo.

Natalie Wood e James Dean em Juventude Transviada (1955) [Imagem: Reprodução/IMDb]

A narrativa “O objeto mágico” também é reconhecida como a fórmula que narra a jornada do herói, na qual o personagem foge do ordinário e segue em busca do extraordinário. Em histórias assim, o personagem está sossegadamente vivendo sua vida medíocre até o momento em que algo intrigante – geralmente ao encontrar um objeto mágico – o desvia desse torpor para iniciar uma aventura que irá mudar sua trajetória. O Mágico de Oz (1939), Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), Os Goonies (1985), A Princesa Prometida (1987) e a trilogia O Senhor dos Anéis (2001, 2002, e 2003) são alguns filmes que reproduzem essa fórmula. 

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida estreou nos Estados Unidos em 12 de junho de 1981 [Imagem: Divulgação/Lucasfilm]

E, por último, em “Rapaz conhece moça”, vemos histórias em que há um encontro casual entre dois personagens, mas que, em seguida, em razão de um terceiro elemento, como um sequestro, uma viagem, um desentendimento ou até mesmo a formação de um triângulo amoroso, acontece um desencontro ou uma separação. Essa separação obriga o protagonista a partir em busca de reencontrar e recuperar o seu amor. Essa fórmula também é reconhecida como a fórmula blockbuster de Hollywood e incorpora elementos da viagem iniciática e das histórias de Cinderela. É aqui que se encaixa diversas comédias românticas. Aconteceu Naquela Noite (1934), Levada da Breca (1938), A Loja da Esquina (1940) e seu remake Mens@gem para Você (1998), Harry e Sally – Feitos Um para o Outro (1989), Amizade Colorida (2011), Amor a Toda Prova (2011), O Lado Bom da Vida (2012) e Simplesmente Acontece (2014) são alguns filmes que podemos citar.

 Ryan Gosling e Emma Stone em Amor a Toda Prova (2011) [Imagem: Reprodução/Everett Collection]

O cinema desistiu há muito tempo de ser uma expressão meramente cultural e artística para se transformar em um mercado muitíssimo lucrativo. Hoje, desfrutamos de várias produções cinematográficas incríveis de assuntos diversificados, desde filmes de ação que aceleram o nosso coração a filmes de romance que nos fazem chorar como se fôssemos crianças, e é intrigante pensar que já assistimos uma série de tramas básicas que se repetiram incontáveis vezes no decorrer dos anos sem se dar conta. A popular expressão “não há nada novo sob o sol” realmente faz todo o sentido, mas o mais surpreendente é que ainda assim o cinema continua a ser mágico ao produzir essas estruturas narrativas que, quando bem feitas, as tornam memoráveis.

A história por trás de ‘Um Conto de Natal’, de Charles Dickens e suas diversas adaptações

Durante milhares de anos, os norte-americanos guardaram as histórias de fantasmas somente para o mês de outubro, quando é comemorado o único feriado mal-assombrado conhecido, o Halloween. Porém, antes disso, reunir-se ao redor de uma fogueira para compartilhar histórias de fantasmas era, na verdade, a tradição mais amada de Natal no final de 1800 até o início de 1900. Sendo assim, não é mera coincidência que a história de fantasmas mais famosa seja uma história de Natal – ou melhor, que a história de Natal mais famosa seja uma história de fantasmas.

À noite, na véspera de Natal, o rabugento Ebenezer Scrooge recebe uma visita do fantasma de seu antigo parceiro de negócios, Jacob Marley. O extremo egoísmo de Marley o condenou à miséria na vida após a morte, e ele diz à Scrooge que não consegue descansar em paz precisamente por não ter sido generoso durante toda sua vida. Desse modo, Marley avisa que Scrooge irá receber três fantasmas que o farão recomeçar sua história: o primeiro é o fantasma do Natal passado, em seguida o fantasma do Natal presente e, por fim, o fantasma do Natal futuro.

Um Conto de Natal, escrito pelo romancista Charles Dickens, foi publicado pela primeira vez em 19 de dezembro de 1843, sem o apoio de seus editores, e sua história sobre um homem assombrado por uma série de fantasmas na véspera de Natal fazia parte dessa tradição outrora amada e agora (quase) esquecida de contar histórias de fantasmas nessa época de festas. Embora as histórias de fantasmas não se encaixem nas celebrações de hoje, elas já fizeram sucesso durante o feriado de Natal, atingindo o seu pico de popularidade na Inglaterra vitoriana. A obra de Dickens foi um sucesso instantâneo, um sucesso tão grande que consolidou a produção como um clássico natalino, permanecendo assim até hoje.

Um Conto de Natal, de Charles Dickens [Imagem: Reprodução/The New York Times]

O sucesso do terror natalino foi intrinsecamente relacionado à herança das histórias de fantasmas do feriado no Reino Unido. Em 1898, após a publicação da história A volta do parafuso, o autor Henry James introduziu a tradição misteriosa na cultura dos Estados Unidos. A volta do parafuso narra uma série de episódios fantasmagóricos que uma jovem governanta passa a presenciar após ser contratada para cuidar de duas crianças em uma mansão inglesa. A história de James começa justamente com homens ao redor de uma calorosa fogueira compartilhando histórias de fantasmas na véspera de Natal. Contudo, essa tradição oral persistiu apenas até o início do século 20, no decorrer da Revolução Industrial, com o auxílio de várias revistas que constantemente publicavam histórias de fantasmas em edições natalinas, tornando-se assim uma tendência.

Desde a publicação de Um Conto de Natal, a história já foi adaptada muitas vezes pelo teatro e, a partir de 1901, após o lançamento do filme mudo Scrooge, or, Marley’s Ghost, recebeu diversas adaptações para filmes e séries. Em 1951, tivemos uma das primeiras adaptações, Contos de Natal. Hoje, o filme protagonizado por Alastair Sim e dirigido por Brian Desmond Hurst, é reconhecido por ser o mais perto que uma adaptação já chegou de dar vida às páginas da obra de Dickens. Em 1970, tivemos a bem-feita produção musical Adorável Avarento, dirigido por Ronald Neame, que conseguiu quatro indicações no Oscar: melhor direção de arte, melhor figurino, melhor canção original e melhor trilha sonora original. E, em 5 de dezembro de 1999, Conto de Natal, dirigido por David Jones e protagonizado por Patrick Stewart, o Professor Charles Xavier de X-Men, foi televisionado pela primeira vez na TNT.

Contos de Natal (1951) [Imagem: Reprodução/Britannica]

Entretanto, a adaptação mais popular de Um Conto de Natal com certeza é a animação da Walt Disney Pictures de 2009, Os Fantasmas de Scrooge, dirigida por Robert Zemeckis, que também dirigiu a trilogia De Volta para o Futuro, Forrest Gump e O Expresso Polar. A animação é estrelada pelo comediante Jim Carrey, dublador e intérprete não só de Scrooge, assim como dos fantasmas do Natal. Gary Oldman, Colin Firth e Robin Wright também estão no elenco.

Os Fantasmas de Scrooge (2009) [Imagem: Reprodução/Tumblr]

Os Fantasmas de Scrooge, ainda assim, não é a única adaptação da Walt Disney. Em 1983, quando a história de Dickens fez 140 anos, tivemos o curta-metragem de animação O Conto de Natal do Mickey, dirigido por Burny Mattinson. Já em 1992, Os Muppets também ganharam sua própria adaptação, O Conto de Natal dos Muppets, dirigido por Brian Henson.

De Alaister Sim e George C. Scott a Patrick Stewart e Michael Caine, Ebenezer Scrooge foi interpretado por alguns dos atores mais conceituados do século 20. Em Os Fantasmas Contra Atacam, de 1988, dirigido por Richard Donne, Bill Murray, protagonista de Os Caça-Fantasmas e Feitiço do Tempo, é Frank Cross, um antipático executivo de televisão bem-sucedido, uma representação moderna de Scrooge. Já em Minhas Adoráveis Ex-Namoradas, de 2009, dirigido por Mark Waters, Matthew McConaughey, protagonista de Clube de Compras Dallas e Interestelar, é Connor Mead, um fotógrafo mulherengo que, às vésperas do casamento de seu irmão, começa a ser atormentado pelos espíritos de suas ex-namoradas rejeitadas.

Os Fantasmas Contra Atacam (1988) [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]
Minhas Adoráveis Ex-Namoradas (2009) [Imagem: Reprodução/Everett Collection]

A aclamada série de ficção científica Doctor Who, produzida e transmitida pela BBC desde 1963, também ganhou um episódio natalino especial baseado na história de Scrooge. O episódio foi exibido em 25 de dezembro de 2010 e foi visto por doze milhões de pessoas no Reino Unido. Hoje, em razão das inúmeras adaptações, paródias e citações de Um Conto de Natal, muitas pessoas conhecem o enredo mesmo sem nunca ter lido a história original. Em 2019, tivemos mais de vinte adaptações para filmes e séries da novela de Dickens.

Há mais de cem anos atrás, Dickens publicou a história que mudou a história da literatura natalina para sempre e, por conseguinte, do audiovisual. Um Conto de Natal é uma história de redenção na qual o amargo Ebenezer Scrooge percorre uma jornada de autorreflexão, encerrando em uma significativa mudança de coração. Além disso, o enredo de Dickens enfatiza o mal do capitalismo – um sistema que Scrooge só recusa no final – que prioriza o dinheiro acima da bondade e dignidade humana. Traz uma mensagem de amor, caridade e esperança constituída em tradições do Natal, eternizada ao longo das décadas.

Os Fantasmas de Scrooge (2009) [Imagem: Reprodução/Tumblr]

Mas de onde exatamente vêm essa curiosa tradição de compartilhar histórias de fantasmas nesse período? Recorrendo à história, na realidade, em vez de ter uma relação com o cristianismo, o dia 25 de dezembro tinha uma relação mais próxima com comemorações pré-cristãs que homenageavam o solstício de inverno, assim dizendo, o Natal abrange elementos de diversas festividades pagãs – viscos, azevinhos e grinaldas, por exemplo, são todos símbolos pagãos. O Natal simbolicamente celebra a “morte” da luz e a noite mais longa do ano, quando o “véu” entre o reino dos vivos e o reino dos mortos fica “transparente”. Por isso, a data foi considerada a mais assombrada.

Ou também seja porque sem a riqueza da medicina moderna e dos cuidados essenciais para mantermos a saúde hoje em dia, o sopro frio da morte sempre parecia mais próximo no inverno, uma estação carregada de doenças. Em dezembro, em países onde o inverno é rigoroso, as condições eram propícias para deixar a imaginação fluir e pensar em muitas histórias sobrenaturais. Mais à frente, graças às tradições de imigrantes irlandeses e escoceses, o Halloween foi assumido nos Estados Unidos e designado o verdadeiro feriado de terror à medida em que o Natal era “purificado”, tornando-se a mágica celebração que nós conhecemos hoje.

O complexo do “branco salvador” nos filmes

Após o assassinato de George Floyd e protestos subsequentes, Histórias Cruzadas, o filme de 2011 sobre empregadas domésticas negras, começou a fazer sucesso na Netflix. Em Histórias Cruzadas, Skeeter (Emma Stone) é uma jovem branca da alta sociedade sulista que vive nos conturbados anos 60, no Mississippi, no decorrer do movimento dos direitos civis. Skeeter, recém-formada na universidade, está determinada a ser uma escritora. Para isso, decide entrevistar mulheres negras que passaram a vida como empregadas de famílias brancas e surpreende sua cidade.

Octavia Spencer, Viola Davis e Emma Stone em Histórias Cruzadas (2011) [Imagem: Reprodução/The Sun]

O aumento na popularidade de Histórias Cruzadas motivou muitos usuários do Twitter a discutirem sobre o chamado “complexo do branco salvador” do filme, sugerindo que o longa-metragem não é apropriado para quem busca se educar sobre o racismo.

Viola Davis, ativista do movimento antirracista e intérprete de Aibileen Clark em Histórias Cruzadas, disse em uma entrevista para a revista The New York Times em 2018 que se arrepende de ter participado da produção. “Eu só senti que, no fim do dia, as vozes das empregadas não foram ouvidas. Eu conheço Aibileen [sua personagem no filme]. Conheço Minny [personagem de Octavia Spencer]. Elas são minha mãe, elas são minha avó. E eu sei que se você quer fazer um filme cuja premissa é entender como é trabalhar para pessoas brancas e criar seus filhos em 1963, eu quero ouvir como você realmente se sente. E eu nunca ouvi isso no filme”, confessou Davis.

Em 2020, Viola relembrou o assunto em uma entrevista para a revista Vanity Fair. “Não há ninguém que não fique entretido com Histórias Cruzadas“, afirmou a atriz. “Mas há uma parte de mim que parece ter me traído e traído meu povo, porque eu estava em um filme que não estava pronto para contar toda a verdade”. Em seu desabafo, Davis disse que o público branco pode, no máximo, sentar e receber uma lição acadêmica sobre quem é o público negro, mas não são movidos por isso.

Octavia Spencer e Viola Davis em Histórias Cruzadas (2011) [Imagem: Reprodução/The Sun]

Histórias Cruzadas é um filme sobre racismo a partir de uma perspectiva de personagens brancas, dirigido por um homem branco, Tate Taylor, a partir de um livro de uma autora branca, Kathryn Stockett. Desse modo, deduzimos que investiram na ideia do que significa ser negro, porém servindo ao público branco.

No cinema, o conceito de branco salvador é uma narrativa na qual um personagem branco resolve os problemas de um personagem não-branco. O personagem branco tem a intenção de “resgatar” o personagem não-branco de um cenário de vulnerabilidade e, assim, o branco é visto como um herói porque conseguiu salvar o não-branco de um destino tido como impossível de ser resolvido.

Esse conceito é extremamente perigoso, mas usado em muitos filmes populares que são conhecidos como exemplo para se educar sobre o racismo quando, na verdade, só enfatizam a questão do branco desfrutar do destaque em uma luta que não é dele.

Em Estrelas Além do Tempo, uma equipe de cientistas formada por mulheres negras mostrou ser o elemento que faltava para que o Estados Unidos ganhasse a corrida espacial em combate com a Rússia durante a Guerra Fria. O filme de 2016, dirigido por Theodore Melfi, é baseado na história real de Katherine Johnson (Taraji Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe).

Contudo, mesmo que a produção tenha tido boas intenções, a narrativa também traz consigo o infame complexo do branco salvador. Por exemplo, quando Al Harrison (Kevin Costner) derruba a placa que indica a divisão de mulheres brancas e negras nos banheiros da NASA. Na história real, Katherine Johnson se recusou a usar o banheiro “colorido”, desafiadoramente usando o banheiro “apenas para brancos”. A conquista foi somente de Johnson, mas Theodore Melfi defendeu a reescrita histórica para a revista Vice. “É preciso haver brancos que façam a coisa certa, é preciso haver negros que façam a coisa certa. E alguém faz a coisa certa. E então quem se importa com quem faz a coisa certa, desde que a coisa certa seja alcançada?”, manifestou Melfi.

[Imagem: Reprodução/Pinterest]

No Oscar de 2019, Green Book: O Guia foi o grande vencedor, consagrado como o melhor filme da temporada. O filme ganhou três estatuetas, incluindo a de melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali e o prêmio mais importante da premiação. Green Book: O Guia acompanha a amizade real entre o talentoso pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) e seu motorista branco Frank Vallelonga (Viggo Mortensen).

A escolha do longa-metragem de 2018 dirigido por Peter Farrelly como melhor filme pela Academia, no entanto, causou incômodo. A revista The Root, que fornece conteúdos instigantes de uma variedade de perspectivas negras, disse que o filme ignora a maior parte do perigo e o racismo agressivo que um homem negro viajando pelo Sul dos Estados Unidos teria mesmo sofrido. A família de Shirley, em uma entrevista para revista Time, afirmou que isso manchou seu legado, e também os criadores da produção, no tempo em que promoveram o filme, foram acusados de racismo.

Mahershala Ali e Viggo Mortensen em Green Book: O Guia (2018) [Imagem: Reprodução/Vogue]

Hoje, nós vivemos em uma realidade onde os criadores negros são desprezados, onde os atores negros raramente são indicados em premiações e a maioria das pessoas não consegue nem mesmo citar um roteirista negro. Filmes com o complexo de salvador branco produzidos por homens brancos são insustentáveis.

Desde 2015, quando a hashtag #OscarsSoWhite (#OscarMuitoBranco, em inglês) surgiu nas redes sociais exigindo mais diversidade na premiação de Hollywood, a Academia prometeu mudanças para melhorar a representatividade de seus membros. No Oscar de 2017, pela primeira vez na história, ao todo, negros receberam 20 indicações e todas as seis principais categorias possuíram um negro na disputa. Em 2015 e 2016, entre os 20 indicados nas quatro categorias de atuação, todos eram brancos.

Segundo o estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), somente 27,6% dos protagonistas dos filmes que estrearam em 2019 nos Estados Unidos foram negros. A discrepância foi ainda maior ao analisar a participação de diretores negros nas 146 produções de maior bilheteria do país, somente 5,5%.

Em 2020, atores não-brancos interpretaram 40% dos papéis principais. Em 2019 e 2018, a média foi de 27% e a participação feminina nesses papéis chegou perto de 50%. Desde 2011, a porcentagem de negros como personagens principais passou de 10,5% para 27,6%. Entretanto, para especialistas, essas mudanças apenas ganharão peso quando cargos de prestígio na indústria também forem preenchidos por mais negros, como os de diretores, roteiristas e executivos, considerando que 93% são brancos.

É mais que necessário analisar a natureza problemática desse complexo. Filmes que reproduzem narrativas a partir disso deslegitimam a luta da comunidade negra e só fazem pessoas brancas se sentirem bem por contribuir com o mínimo. O que precisamos disseminar como público e realizadores são histórias em que um personagem negro não precise intrinsecamente do auxílio de um personagem branco. Da mesma forma que é na luta antirracista, o branco é capaz de ser simpatizante, de apoiar as vozes da minoria, mas não ser o protagonista.

O reconhecimento de ‘Garota Infernal’ como um clássico cult feminista

Em 2007, Megan Fox protagonizou Transformers ao lado de Shia LaBeouf e, graças à popularidade da franquia, foi considerada símbolo sexual na época. Em 2009, Garota Infernal, dirigido por Karyn Kusama e roteirizado por Diablo Cody, chegou aos cinemas e, apesar de não ser um sucesso de bilheteria, foi um marco na carreira de Megan. Garota Infernal não foi bem recebido no início, porém, após anos, conquistou seu reconhecimento e foi do fracasso à um clássico cult feminista.

O longa-metragem conta a história de Jennifer (Megan Fox), uma líder de torcida que é sacrificada por membros de uma banda e, ao ser possuída por um demônio, começa a matar garotos. Enquanto a maldosa Jennifer está satisfazendo seu apetite com carne humana para sobreviver, sua amiga nerd Needy (Amanda Seyfried) descobre o que está acontecendo e promete acabar com o massacre.

Recentemente, discussões que buscam analisar o motivo desse reconhecimento tardio surgiram nas redes sociais e, em 2018, Kusama e Cody revelaram ao BuzzFeed que a campanha de marketing sexista do estúdio de cinema 20th Century Fox fez com que o lançamento do filme tenha sido desastroso. O problema que se sobressai nunca foi a crueldade de Megan Fox devorando homens brutalmente, mas a hipersexualização e objetificação feminina produzida a partir do male gaze.

Megan Fox em Garota Infernal (2009) [Imagem: Reprodução/Tumblr]

Kusama e Cody produziram Garota Infernal para atrair mulheres da mesma idade que as personagens principais Jennifer e Needy, mas perceberam na pós-produção que o estúdio só tinha interesse em vender o filme com base no status de símbolo sexual emergente de Megan Fox. “Eu acho que houve uma percepção generalizada de mim como um súcubo raso, se isso faz algum sentido, por pelo menos durante a primeira década da minha carreira”, desabafou Megan em entrevista ao jornal norte-americano The Washington Post.

Ademais, em entrevista ao podcast History of Horror: Uncut, a atriz também revelou como acredita que a “fama de egoísta”, da qual ficou conhecida na época, fez Garota Infernal ser um fracasso. “Por causa da minha imagem e quem eu era para a mídia na época, o filme nunca teve chance. Eu tive uma desavença com uma pessoa que trabalhava na indústria. Isso aconteceu quando eu estava na turnê de imprensa para divulgar o filme. Acho que tudo explodiu de vez”, comentou Fox sobre quando, durante as filmagens de Transformers, foi desrespeitada por parte da produção.

Em 2009, em uma entrevista com a revista Wonderland, Megan chamou o diretor de Transformers, Michael Bay, de tirano e o comparou com Hitler. Em compensação ao comentário da atriz, uma carta anônima foi publicada no site do diretor, chamando Fox de “vadia hostil”, “sem graça”, “sem classe” e, além disso, afirmando que a atriz deveria ser “estrela pornô”.

Megan Fox em Garota Infernal (2009) [Imagem: Reprodução/Tumblr]

Porém, de acordo com Megan, essa percepção começou a mudar nos últimos anos, principalmente com o surgimento de movimentos em prol das mulheres como o Me Too, que ganhou força em 2017. O movimento Me Too encorajou as mulheres a compartilharem histórias de abuso verbal e físico, assim como assédio e violação sexual, após a forte acusação contra o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, que foi desmascarado como um predador em série.

Tragicamente, a história de Fox não é um caso singular, uma vez que, ao longo da história, a indústria do entretenimento rotineiramente persegue muitas mulheres famosas a fim de derrubá-las sem nenhuma delicadeza. Em fevereiro, por exemplo, o documentário Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela foi lançado e o caso de Spears ganhou mais espaço na mídia – o pai de Britney Spears, Jamie Spears, tinha a princesa do pop sob tutela há 13 anos, desde que a imprensa revelou indesejadamente problemas conjugais e familiares de Britney entre 2007 e 2008, que fez com que a saúde mental da cantora fosse seriamente afetada.

Britney Spears e Megan Fox comandam uma extensa lista de mulheres que foram injustamente destruídas pela imprensa e, consequentemente, pelo público. “Eu estava tão perdida e tentando entender, tipo, como eu deveria sentir valor ou encontrar um propósito neste inferno horrendo, patriarcal e misógino que era Hollywood na época? Porque eu já havia me manifestado contra isso e todos, inclusive outras mulheres, me receberam de uma forma muito negativa”, relembrou Fox na entrevista ao The Washington Post. Hoje, a atriz diz estar orgulhosa de desabafar contra os maus-tratos às mulheres “uma década antes de se tornar popular”.

Em maio, mais de uma década após o lançamento de Garota Infernal, Olivia Rodrigo homenageou a comédia de terror com o clipe de seu single de sucesso good 4 u. Em julho, em entrevista ao Who What Wear, Megan afirmou que acredita que Garota Infernal estava à frente de seu tempo e comentou sobre a mudança de percepção do público sobre o filme ao dizer que o longa-metragem continua a ter um novo ressurgimento e renascimento. “As adolescentes agora estão recém descobrindo e estão apaixonadas pelo filme. É mais relevante agora, eu acho, do que era quando foi lançado”, disse Fox.

O consenso entre os fãs de Garota Infernal – incluindo quem já difamou a produção – é que o filme foi vítima do tempo. O mundo, assim como a cultura, está constantemente mudando, portanto, Hollywood e o público também se tornaram mais receptivos às flexões de gênero, às “mulheres difíceis” e aos temas feministas que Kusama e Cody quiseram mostrar em 2009. Nesse período, a mentalidade do público, infelizmente, prejudicou a percepção sobre o longa-metragem.

Há 12 anos, Diablo Cody quis escrever papéis que conseguissem oferecer algo às mulheres e contar histórias a partir de uma perspectiva feminina. Karyn Kusama ficou interessada na ideia de Cody, porque percebeu que a história, em sua essência, era um filme de terror feminista. Desse modo, elas quiseram subverter o modelo clássico da mulher sendo aterrorizada e fugir corajosamente de costumes misóginos.

“Se um homem escrevesse um filme com a frase ‘o inferno é uma adolescente’, eu rejeitaria isso, mas eu tenho permissão para dizer isso porque eu era uma. Acho que o fato de sermos uma equipe criativa feminina nos deu permissão para fazer observações sobre alguns dos aspectos mais tóxicos da amizade feminina”, disse a roteirista Cody ao BuzzFeed.

Megan Fox e Amanda Seyfried em Garota Infernal (2009) [Imagem: Reprodução/Tumblr]

Hoje, a obra cinematográfica de Kusama e Cody está sendo redescoberta como um clássico cult feminista e recebendo o carinho que merecia ter ganhado desde o início. Jennifer é mais que uma personagem fictícia sexualizada, mas o pensamento heteronormativo da crítica na época e o apagamento do público-alvo (o cis-feminino e LGBT) contribuíram com a má interpretação que fizeram em 2009.

“O filme estava à frente de seu tempo e, embora eu ache que há um argumento de que não o comercializaram de forma adequada, eu genuinamente não acredito que as pessoas estavam prontas para um filme como aquele naquela época em nossa sociedade e cultura”, confessou Megan também ao BuzzFeed. “Eu também acho que o filme pode ter sido ofuscado pela relação implacável de natureza vampírica que a mídia tinha comigo naquela época. Estou feliz por termos visto uma mudança na consciência coletiva e que agora as pessoas são capazes de apreciar o filme retroativamente.”

Garota Infernal é, com certeza, um filme sobre uma líder de torcida “devoradora de homens”, contudo também é assumidamente uma representação sobre a figura feminina, centrado nos perigos de ser uma mulher em um mundo machista, sobre a toxicidade da codependência e o significado de amar e se libertar de alguém que é ruim para você.

O cinema brasileiro: dos primórdios à atualidade

Em 125 anos de história, o cinema brasileiro sofreu mudanças significativas e percorreu uma grande trajetória que até hoje está em constante progresso. Desde o início, o contexto socioeconômico, cultural e político nacional interferem na produção e estrutura cinematográfica brasileira, que faz com que a história do audiovisual seja separada em diversos períodos, tais como o domínio de Hollywood, o Cinema Novo, o Cinema Marginal, a crise da década de 80, a Retomada e a Pós-Retomada.

Contudo, no Brasil, comentários como “o cinema brasileiro é muito ruim, o internacional é melhor” e “filmes nacionais só têm palavrão, cenas de sexo e violência” são comuns. Você com certeza já ouviu frases do tipo, e sabe-se que, infelizmente, isso contribui para a disseminação de uma implicância com o cinema brasileiro entre o público, uma vez que tais julgamentos carregam preconceitos infundados.

A sétima arte no Brasil se desenvolveu tardiamente e enfrentou inúmeros impasses no caminho. Em 1950, os custos de produção eram altíssimos, já em 1968, a forte repressão da censura dos militares se tornou o problema. Hoje, produzir peças audiovisuais muitas vezes ainda é complicado, em razão da ausência de incentivos. Porém, mesmo com adversidades, o cinema produzido no país foi e continua sendo rico e grandioso, e é possível assegurar isso por várias nomeações e vitórias que brasileiros conquistaram em premiações do mundo inteiro, que contradiz os comentários preconceituosos comumente propagados pelo público. O que será que houve, então, para tamanha implicância?

Os primórdios do cinema brasileiro

O cinema surgiu no Brasil em julho de 1896, quando na cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, aconteceu a primeira sessão de cinema no país, organizada por Henri Paillie, um exibidor itinerante belga. No momento, Henri exibiu uma série de filmes curtos que mostravam somente imagens de cidades europeias.

Em 19 de junho de 1898, os irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto realizaram gravações na Baía de Guanabara. O curta-metragem Vista da Baía de Guanabara é considerado o primeiro filme nacional da história, embora não haja registros da obra. Por causa disso, nessa data é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

Os irmãos Segreto e mais cineastas da época, em razão do escasso fornecimento de energia elétrica no país, enfrentaram muitos problemas para realizarem suas exibições. Nesse período, a maior parte dos filmes exibidos eram estrangeiros e os brasileiros eram principalmente documentais – todos em preto e branco e mudos. Foi somente em 1907, com a melhoria no sistema energético do país, que o mercado cinematográfico progrediu.

Em 1908, com o curta-metragem que é considerado o primeiro filme nacional de ficção, Os Estranguladores, de Francisco Marzullo e Antônio Leal, produções ficcionais começaram a ganhar visibilidade. E, em 1914, o primeiro longa-metragem foi exibido, O Crime dos Banhados, dirigido por Francisco Santos. Os filmes “cantados”, nos quais atores realizavam dublagens ao vivo, também fizeram sucesso nesse tempo.

O domínio de Hollywood

A Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e durou até 1918, causou diversas consequências na indústria cinematográfica, tais como uma brusca mudança no mercado, o que desencadeou uma crise no cinema brasileiro. Desse modo, produções de Hollywood dominaram as sessões de cinema, na mesma medida em que as produções da Europa reduziram consideravelmente, e fez também com que os filmes nacionais fossem marginalizados.

À custa da consequente intermissão das produções hollywoodianas, o público brasileiro se acomodou com o clássico estilo dos filmes de Hollywood com narrativas que seguem uma sequência: início, meio e fim, sobretudo com finais felizes.

Por isso, em março de 1930, a Cinédia surgiu como o primeiro grande estúdio de cinema do Brasil. Nesse mesmo período, com avanços tecnológicos, a inserção de som nas produções se tornou possível. Assim, o estúdio começou a investir na produção de comédias musicais que seguiam o caráter hollywoodiano, como Alô, Alô, Carnaval (1936), dirigido por Ademar Gonzaga, que fez sucesso com a memorável Carmem Miranda como protagonista.

Entretanto, a Cinédia e demais produtoras que surgiram naquele momento não conseguiram se desenvolver no mercado nacional, visto que as produções estrangeiras só cresciam, mas, no final das contas, o cinema brasileiro resistiu novamente. Em 1949, o estúdio Vera Cruz foi criado, e se tornou um grande marco da industrialização do nosso cinema. Produzido no estúdio Vera Cruz, O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, foi o primeiro longa-metragem brasileiro a ganhar o prêmio internacional no Festival de Cannes.

As chanchadas, um novo gênero de comédia musical de baixo orçamento, encheram as sessões de cinema na década de 1940 até 1960 e eternizaram humoristas como Grande Otelo, Oscarito e Anselmo Duarte. Embora as chanchadas agradassem o público e retomassem a identidade brasileira, não agradavam a crítica. No fim dos anos 60, a pornochanchada despontou, explorava o erotismo – não a pornografia – e trazia filmes nacionais com muita malícia e humor.

Milton Ribeiro e Alberto Ruschel como Capitão Galdino e Teodoro em O Cangaceiro (1953) [Imagem: Reprodução/Twitter]

Cinema Novo

O Cinema Novo nasceu em reação à extrema desigualdade social no Brasil e foi um movimento de vanguarda que buscou representar o país inteiramente, sem a recorrente estética hollywoodiana. O cineasta Nelson Pereira dos Santos foi o precursor do Cinema Novo, estreou com Rio, 40 Graus em 1955, porém o movimento se firmou somente nos anos 60.

O Cinema Novo tinha como propósito relatar temáticas populares e induzir críticas sociais e políticas, à procura do realismo e com a pretensão de cessar a alienação causada pela comédia das chanchadas e pornochanchadas.

Nesse período, o baiano Glauber Rocha produziu obras que marcaram não só o Cinema Novo, mas o cinema mundial, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968). Vidas Secas (1963), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis (1964), dirigido por Ruy Guerra, também marcaram o movimento.

Cinema Marginal

Em 1969, durante a ditadura militar, a criação da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes) marcou a história do cinema brasileiro, recebeu assistência do rigoroso governo vigente para financiar filmes que estivessem de acordo com as premissas do regime. Desse modo, produzir filmes que induziam críticas como no Cinema Novo se tornou perigoso.

Com isso, o Cinema Marginal surgiu como um movimento de contracultura que também ficou conhecido por “udigrúdi”. Os cineastas desse movimento criaram a chamada “estética do lixo”, recusaram quaisquer narrativas já existentes e usaram do humor e do grotesco para produzir representações alegóricas sobre o estado do Brasil.

A crise da década de 80

Em 1980, os videocassetes chegaram no Brasil e se popularizaram, o que desencadeou uma crise no mercado cinematográfico. Além de que, nesse tempo, o país estava passando por uma crise econômica pós-ditadura. Nesse momento, a Embrafilme se concebeu como principal financiadora da indústria do cinema e chegou a ser considerada a mais importante empresa pública cinematográfica da América Latina.

Porém, a Embrafilme também recebeu críticas. No fim dos anos 80, uma forte campanha contra a empresa a acusou de desperdício e má administração. E, em 1990, com o início do governo de Fernando Collor, em razão da contenção de gastos, o presidente acabou com a produtora, com o Ministério da Cultura, com o Conselho Nacional de Cinema, com a Fundação do Cinema Brasileiro e com leis que providenciavam mais incentivos à produção brasileira.

Retomada

Em 1992, com o impeachment de Collor, Itamar Franco assumiu a presidência e a história do audiovisual brasileiro começou a mudar novamente. O governo Itamar Franco não só trouxe de volta o Ministério da Cultura, mas criou a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, que desenvolveu a Lei do Audiovisual.

Franco se livrou de tudo que estagnou a produção cinematográfica nacional para que o nosso cinema ganhasse mais uma chance, por causa disso o período é chamado de “Retomada”, que trouxe uma diversidade de gêneros. Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, é o primeiro de muitos longas-metragens realizados por meio da Lei do Audiovisual. Entre 1992 e 2003, a produção brasileira ganhou reconhecimento em premiações importantes, como o Oscar. Em 1999, Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, recebeu uma nomeação de melhor filme estrangeiro e uma na categoria de melhor atriz, para Fernanda Montenegro. Em 2003, o filme Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles, marcou o fim desse período. O filme de Meirelles foi indicado a quatro estatuetas no Oscar: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor direção de fotografia e melhor edição, além de ter ganhado o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira como Dora e Josué em Central do Brasil (1998) [Imagem: Reprodução/Twitter]
Leandro Firmino como Zé Pequeno em Cidade de Deus (2002) [Imagem: Reprodução/STUDIOCANAL]

Pós-Retomada

A Pós-Retomada é o período atual, que começou em 2003. É nela que o cinema brasileiro segue sua caminhada de resistência, com um incrível crescimento e diversificação no setor audiovisual. Hoje, o cinema brasileiro está consolidado com inúmeros filmes “vendáveis” no mercado, com os de comédia se sobressaindo na cultura popular, tais como Se Eu Fosse Você (2006), De Pernas pro Ar (2010) e Minha Mãe é uma Peça (2013).

Contudo, na medida em que as comédias fazem muito sucesso comercialmente, produções independentes cada vez mais estão sendo reconhecidas nos festivais de cinema internacionais, como por exemplo O Som Ao Redor (2012), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), Que Horas Ela Volta? (2015), Aquarius (2016), As Boas Maneiras (2017) e Bacurau (2019).

Fábio Audi e Ghilherme Lobo como Gabriel e Leonardo em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) [Imagem: Reprodução/Vortex Cultural]
Regina Casé e Michel Joelsas como Val e Fabinho em Que Horas Ela Volta? (2015) [Imagem: Divulgação/Globo Filmes]

A cinematografia nacional é extremamente diversa e melindrosa, e ao observar o cinema como representação artística, o cinema nacional é extraordinário quando se trata de reproduzir realidades e desenvolver um pensamento crítico. O Brasil produziu obras magníficas, difíceis de serem conhecidas quando se ouve comentários negativos sem fundamento.